sábado, 23 de março de 2024


23 DE MARÇO DE 2024
MARTHA MEDEIROS

Um minuto de amor eterno

Acordo cansada. Me deito cansada. Entre os extremos do dia, evito que meus pensamentos sejam infectados pela fadiga. De manhã, ergo pesos de quatro quilos, 15 repetições, agacho, levanto, só mais 300 abdominais. Em seguida, percorro os corredores do supermercado contando os passos no aplicativo do celular e cruzo pela gôndola dos dietéticos sem me dar conta de que esqueci de pegar o chocolate 80% cacau - me obrigo a voltar e adiciono mais cem passos.

Trabalho sentada, benção e castigo. Custo a me concentrar, ainda não consigo deixar o celular fora de alcance, duas horas se passaram e renderam meio parágrafo.

Trânsito. Saio da garagem, escolho a playlist do dia - jazz, MPB, pop? - e a música me salva de gritar em meio ao congestionamento. Desolador cenário urbano: todos enlatados, a caminho de um encontro urgente que daqui a dois dias ninguém lembrará para que serviu.

Onde quer que eu esteja, o WhatsApp está comigo. A família inteira, os amigos, os desconhecidos, as relações profissionais, minha melhor confidente e o gerente do banco têm o mesmo acesso direto a mim: o sinal avisa de cinco em cinco minutos que alguém está querendo me contatar e a gente se ilude que é importante.

Preocupações. Não posso parar. Não devo. Tenho que vencer o dia, mesmo sabendo que é ele que vence sempre - ao anoitecer, fecho os olhos e mergulho num sono entrecortado. Durante a madrugada, em algum momento, desperto, talvez pela culpa de ter freado.

White people problem. A polícia não me interceptará para averiguações. Não terei que pedir fiado no armazém. Não pegarei um ônibus lotado. Os privilégios se amontoam. Há uma pilha de livros para serem lidos, viagens a trabalho, uma filha morando no Exterior que acabei de visitar. 

Escrevo. Publico. Uma realidade bem mais excitante do que aquela que, na adolescência, eu projetava como razoável. Minha vida é extraordinária. E esgotante. Rara para alguns e comum a todo ser humano que não aguenta mais. Na hora de decidir se é você que está pirando ou é o mundo, que opção você crava?

Sagrada e maldita tecnologia que veio para facilitar, mas cobra em troca a nossa alma. Eu só quero calma, tempo, fluidez. Menos responsabilidades, mais oceano, árvores, céu. Menos opiniões, mais olhares cálidos, risadas soltas, alegria descompromissada, aquela sem motivo.

Quero me sentir livre da obrigação de existir para os outros, de me vestir para os sites, de parecer mais inteligente do que sou. Quero a expansão do nada, nenhuma sabedoria para vender. Sentir a eternidade deste momento, sem espiar o relógio digital instalado no meio da avenida. Sei bem que horas são. Estou a um minuto de um reencontro amoroso comigo, sem chance de me atrasar.

MARTHA MEDEIROS

23 DE MARÇO DE 2024
CLAUDIA TAJES

Aniversariante caliente

E olha ela de aniversário outra vez, a Porto Alegre de quem a gente reclama, reclama e reclama. Mas atenção, só tem direito de reclamar quem nasceu aqui ou, vá lá, já mora por essas bandas pela vida inteira.

Porto Alegre, que faz 252 anos no dia 26, tem seus problemas, ah, se tem, mas é nossa. Não venha botar defeito se você é um paulista em visita, um carioca em trânsito, um mineiro perdido. Embora os mineiros sejam bem mais generosos em suas críticas, ao menos na minha experiência pessoal.

Porto Alegre sabe ser provinciana, quando quer. Não faltaram vereadoras gritando contra o livro de Jeferson Tenório, O Avesso da Pele, proibido por uma diretora de escola de Santa Cruz que ficou nacionalmente conhecida ao censurar a obra vencedora do prêmio Jabuti. Triste fama, dona diretora. Pior que o reacionarismo contagia, depois disso O Avesso da Pele também foi proibido em escolas do Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná. Porto Alegre, que sempre foi uma cidade da cultura e dos livros, podia ter passado sem essa.

Porto Alegre sabe fazer prédios gigantescos, todos iguais com suas peles de vidro, brotarem do nada onde antes havia uma área verde ou uma casa antiga. Direito de quem vende, que fique bem entendido. Por sorte o porto-alegrense raiz é, antes de tudo, um chato que cai lutando. Não fosse isso e periga nem o Jardim Botânico existir mais. Porto Alegre também sabe ser a cidade de uma farmácia a cada esquina, mas isso não é só ela. As farmácias vão dominar o Brasil, e olha que os remédios estão pela hora da morte. Haja comprador.

Porto Alegre sabe ser quente, grudenta, gosmenta e mais todos os adjetivos que dão uma pálida ideia do que acontece com seus habitantes, derretidos vivos e transformados em uma massa pegajosa que encharca as roupas e os cérebros. Bem verdade que a sensação térmica no Rio de Janeiro passou dos 60 graus, esses dias. Consola quando se abre a porta e o calor atinge a gente como um soco do Popó no Kleber Bambam?

Mas Porto Alegre também sabe ser generosa. Em busca de teatros para filmar um curta, conseguimos no amor - e bota amor nisso - a colaboração do Theatro São Pedro e do Teatro Renascença. Aí que eu digo, Porto Alegre é uma cidade que valoriza a cultura, o que não tem nada a ver com manifestações a favor da censura e do obscurantismo. É uma cidade que se orgulha de seus artistas, que está recuperando as manifestações populares, que ama as livrarias de rua - espero também que compre nas livrarias de rua, que há 70 anos faz a Feira do Livro mais charmosa do país, que tem Gre-Nal, Luis Fernando Verissimo, a Casa de Cultura Mario Quintana e o Capitólio, editoras que nunca se entregaram, lugares que resistiram e tanta gente bacana que precisaria de um jornal inteiro para citar.

Isto tudo posto, feliz aniversário, Porto Alegre. Não é porque a gente reclama, que não te ama. (Da série: poesia numa hora dessas.)

CLAUDIA TAJES

23 DE MARÇO DE 2024
SARA BODOWSKY

MOSAICO EMPRE-ENDEDOR CAMINHADA NA PRAÇA DA ALFÂNDEGA

E a Cidade Baixa vai fervilhar mesmo no fíndi. No sábado, no Artsy (Rua Lima e Silva, 594), tem a Feira Mosaico, reunindo expositores das áreas de design autoral em roupas, acessórios e itens para a casa ou para a vida.

A Feira Mosaico, que já existe há pelo menos cinco anos, propõe ser uma plataforma de divulgação de pequenos empreendedores. Durante o evento vai rolar música ao vivo e espaço kids. A alimentação fica por conta das operações do local. É das 14h às 22h.

Na quarta, dia 27, a Badejo Experiências Culturais promove o walking tour noturno Memórias da Praça da Alfândega. A caminhada será conduzida pela jornalista e guia de turismo Maria Lúcia Badejo, autora do livro Pelas Ruas de Porto Alegre: Um Guia Para Conhecer o Centro Histórico Caminhando, publicado em 2023. O percurso, um dos 13 roteiros do livro, vai recordar as diferentes fases do mais antigo centro comercial de Porto Alegre.

Sítio histórico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Praça da Alfândega reúne em seu entorno prédios que são referências arquitetônicas e históricas. Também estão no roteiro o Largo dos Medeiros, o Clube do Comércio e os antigos cinemas Imperial e Guarani.

O walking tour começa às 18h30min em frente ao Margs e tem duração de cerca de duas horas. As inscrições podem ser feitas no site badejo.com.br no valor de R$ 30.

MODA EM DOBRO BAZAR CRIATIVO NA ZONA SUL

Tem Brick de Desapegos em dobro neste fíndi, com dois eventos especiais que reúnem outros projetos de moda circular.

No sábado, das 11h às 19h, rola uma parceria com a Casa de Desapegos e o Brechó de Troca no Espaço Nave (Felipe Camarão, 681). O Espaço Nave oferece, além da Casa de Desapegos, também gastronomia, cerveja e música.

Já no domingo, na Cidade Baixa, na Rua Joaquim Nabuco - entre a José do Patrocínio e a Lima e Silva - estarão reunidos mais de cem expositores, oferecendo desapegos, brechós e marcas autorais de todo o Estado. A parceria com a feira Tô Na Rua traz também expositores de design, arte e decoração.

O evento todo vai das 11h às 21h (a feira termina às 19h). Rola ainda show com a dupla Mano Taz, a partir das 17h, com muita música brasileira e às 18h tem roda de samba com Igorzinho Peres e banda.

Mais informações e atualizações sobre o evento, veja o perfil @brickdedesapegos_.

Um dos meus lugares preferidos da cidade, a Zona Sul, recebe o Bazar Criativo neste sábado, das 9h às 18h, dentro da Floricultura Winge (Rua Dr. Mário Totta, 963).

A Winge é um espaço de sonho, uma verdadeira chácara com diversos tipos de flores e plantas à venda. O evento vai reunir artesãos e artistas locais. Serão diversos expositores com técnicas variadas como macramê, costura, acessórios e itens de decoração. A entrada é livre.

SARA BODOWSKY


23 DE MARÇO DE 2024
CARTA DA EDITORA

DONNA BEAUTY POMPÉIA Um novo palco para Vera Bublitz

Há 60 anos, bailarinos que vivem em Porto Alegre têm seus sonhos unidos por pliés em seus pés e afagos nos braços de uma mulher que virou sinônimo de dança. Vera Bublitz, ou Tia Vera para alunas e alunos de sua escola, não apenas completou oito décadas de vida em fevereiro. Quer mais é celebrar 2024 inteiro - logo ela, que por tantos anos pulou a data para priorizar os compromissos profissionais. 

Assim como outras trajetórias pioneiras que buscamos nas páginas de Donna, Vera precisou entender o seu tempo para domá-lo e escrever uma história para si, o que transbordaria para futuros profissionais da dança ou simplesmente praticantes apaixonados pela poesia do corpo em movimento. São processos e dilemas comuns a muitas mulheres. Ela queria ser bailarina (leia-se ter uma carreira). 

Queria ter uma família. Criou uma numerosa, cuidando com carinho de filhos de muitos pais. Em determinado momento da entrevista, brincou que precisaria parar e pensar como olhar para dentro, tão acostumada que está em falar sobre dança, competições, empreendedorismo. Queridos leitores, sobe ao nosso palco desta semana Vera Bublitz, a mulher por trás da marca. Luzes e aplausos para ela.

CARTA DA EDITORA

sábado, 16 de março de 2024


16 DE MARÇO DE 2024
MARTHA MEDEIROS

Em defesa da literatura

Tirem as crianças da sala, vou reproduzir um trecho do livro O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório. "O Tio Zé Carlos era da Polícia Civil e fazia questão que todos soubessem disso, pois, sempre que chegava, ele tirava a arma da cintura e a colocava em cima da estante e dizia: crianças, não mexam nisso, entenderam? (...) Sua avó tinha grande orgulho. Era sem dúvida o filho preferido. Zé Carlos se gabava de ter matado um vagabundo, como ele mesmo dizia, que tentou assaltá-lo certa vez. Mesmo que a investigação do caso tivesse apontado indícios de que não houve assalto e que seu tio estava, na verdade, envolvido com tráfico de armas e drogas,..."

Nenhuma escola chiou. Ninguém achou essa passagem inadequada para estudantes do Ensino Médio, mesmo contendo arrogância, mentira, incitação à violência.

E ninguém tem que chiar mesmo. Literatura não é manual de etiqueta. Não é passatempo para donzelas. O livro é a ponte entre a inocência e a vida. Uma forma de abrir a janela de casa para enxergar o mundo e ter as emoções despertadas. E elas são vastas, vão da alegria ao medo. A formação de um ser humano mentalmente saudável começa na família, recebendo amor e bons exemplos, e continua no acesso ao que existe lá fora, no estímulo à imaginação e ao conhecimento. 

Adolescentes manejam celulares cujo conteúdo passa longe da catequese. Adolescentes escutam boa e péssima música, com letras vulgares e machistas. Adolescentes convivem com outros adolescentes agressivos e desajustados. É uma sorte quando têm a chance de se familiarizar com o terror, as injustiças, as diferenças e a excitação através de uma narrativa literária.

Eu devia ter uns 14 anos quando li O Cortiço, de Aluísio Azevedo, que foi indicado pela escola em que eu estudava. Havia sexo no livro. Nos de Jorge Amado, sobra sexo. Assim como na literatura de todos os grandes autores. A descrição de um simples beijo pode ser mais perturbadora do que a descrição explícita de um coito. Depende de quem são os personagens, do contexto da história, da época em que ela ocorre. O leitor ativo tem senso crítico: assimila a inteireza da obra, em vez de apegar-se apenas ao recorte de uma cena.

O bom professor é aquele que também lê com frequência e expandiu sua consciência, eliminando preconceitos. Tanto quanto os pais de seus alunos, ele sabe que a vida é bela até certa idade, depois a gente descobre que existe violência, corrupção, fanatismo, desigualdade, racismo, prostituição, drogas e tudo mais que acinzenta a versão cor-de-rosa da infância. O sexo entra nesta lista em forma de abuso, pedofilia, estupro. Tudo matéria da literatura, na qual um adolescente pode e deve ser iniciado, sem que isso o conduza a ter uma ficha criminal.

Nenhum problema com histórias de amor, poemas idílicos, romances de aventura, textos contendo nenhum palavrão. Salve, salve. Só não sejamos hipócritas.

MARTHA MEDEIROS

16 DE MARÇO DE 2024
CLAUDIA TAJES

Carta para você

Agora que lancei um livro de cartas em parceria com a psicanalista Diana Corso (Da Sempre Tua, pela editora Arquipélago, mil perdões pela propaganda pouco subliminar), fico com vontade de escrever cartas para Deus e o mundo.

É tanto tempo mandando mensagens no WhatsApp, poucas linhas para não chatear o interlocutor - isso quando não são áudios -, que escrever cartas acaba sendo uma terapia.

Fico imaginando cartas para a operadora de internet. Para a de energia, ah, a de energia. Para quem fatia o queijo com um dedo de espessura - e dedo grosso. Para o prestador que diz que vai terminar o serviço e nunca mais. Ninguém sabe, ninguém viu.

Por exemplo, o que jurou terminar a montagem dos móveis há mais de meio ano e tomou um destino ignorado.

Estimado F., como tem passado nesses meses todos? Eu e minha família sempre lembramos de você. Não sei se ainda recorda, mas faltou instalar as portas e as prateleiras do armário do nosso quarto. Cada vez que a gente olha para aquele bololô de roupas, pensa: ah, o F. Minha esposa às vezes cogita ligar para a sua, perguntar se a casa de vocês está com tudo em cima. A nossa não está, você bem sabe, e a minha mulher fica muito emotiva com isso. Ela só não ligou ainda porque tem medo de exacerbar a emoção. O meu mais velho, o Ziquinho, está dormindo em cima das tábuas da cama que você não montou. Por sorte a coluna dele ainda é um aço - talvez não tanto quanto já foi, depois desses últimos tempos. 

Queria ver com você se podemos combinar a montagem desses dois móveis, mais a da mesa da sala, do paneleiro e das cadeiras da cozinha. Também queria pedir para você trazer de volta a persiana do quarto da pequena, que você levou para pintar e nunca mais. Desde então a minha filha de quatro anos acorda com o nascer do sol, e você pode imaginar quem ela tira da cama para brincar nessa hora. Eu tenho um grande amigo, delegado de polícia, que quer muito conhecer você. Se você não aparecer, de repente a gente pinta de surpresa aí. Pode esperar. Sempre aguardando por notícias tuas, J.

Outro que mereceria uma cartinha é aquele motorista que quase te atropelou na faixa de segurança.

Caro Senhor, tudo bem com o seu dia? Impressão minha ou nessa terça-feira, nem oito da manhã, o senhor já está acometido de uma profunda irritação com a humanidade? Entendo que o senhor gostaria que todos nós, pedestres, sumíssemos do meio da rua no momento em que o seu possante alguma-coisa-hatch prata surge no horizonte, mas né? O senhor não vai curar esse seu ressentimento por tudo o que não deu certo na sua vida passando por cima dos outros. 

Quanto às palavras que o senhor dirigiu à minha pessoa, agradeço por me fazer valorizar o quão polido é meu filho pré-adolescente de 13 anos, que eu julgava desbocado, mas que é um príncipe perto do que sai da sua boca de lobo. Fico achando que algo muito intenso deve estar a perturbá-lo para que o senhor esteja tão nervoso. Ou seria algo muito, muito pequeno? Sem mais para o momento, só a vontade de que o senhor nunca mais cruze o meu caminho e o desejo sincero de que ninguém mais passe por esse desprazer, um forte abraço. PS: Não saia de casa sem o seu Rivotril amanhã.

É um divertimento parnasiano esse de imaginar cartas para quem nos incomoda ou, melhor ainda, para quem merece o nosso amor. Sem falar que a carta não chega com barulho de WhatsApp, o que é uma grande vantagem. Sem mais para o momento, um beijo e até a semana que vem.

CLAUDIA TAJES

16 DE MARÇO DE 2024
ELIANE MARQUES

MULHER OU HOMEM COM H

- Oi. Tutu pom? Posso entrar?

- Bom dia, Natali. Entra!

- Não errou meu home novamente, que massa!

- Tu vens com a esperança de que eu erre teu homem?

- Eu me atrapalhei, quis dizer nome e não home. A esperança, essa já matei há muito tempo.

- Mataste a única palavra que sobrou na caixa de Pandora! Bom, segue associando. Aqui as palavras continuam vivas.

- Dizem que Pandora foi a primeira mulher do mundo. Antes dela, todos eram homens sujos e fedorentos, coisinhas do pai totalmente sem graça. Uns desgraçados.

- E Eva ou Lílite, como entram nessa disputa pela primogenitura entre as mulheres? Lucy também cabe aí, não acha?

- Lucy, da música Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles?

- Também Lucy, da Etiópia.

- São muitas as primeiras mulheres, eu acho. Eu fui o sétimo ou a primeira da minha família, como se queira.

- Como se queixa, como se gueixa?

- Acho que espero um erro teu para eu ter alguma desculpa e assim não vir à sessão.

- Ah, te sente obrigada a vir à sessão.

- Acho que me sinto obrigada a ser uma mulher ou um homem. Toda vez que saio de minha casa devo estar no corpo de uma de outro, de um homem com H, como diz a música. Eu sou homem com H e com H sou muito homem, se você quer duvidar olhe bem pelo meu nome. É assim que segue a letra.

- Em mulher também existe a letra H.

- Nunca tinha pensado... Isso é muuuito cansativo. Me chama muuuito a atenção que uns sejam homens e outras sejam mulheres. Apenas Tirésias foi homem e mulher. Certa vez, enquanto passeava na floresta, ele encontrou duas serpentes transando. Não sei por que ele resolveu acabar com a brincadeira batendo nelas com seu cajado. Hera, a marida de Zeus, ficou uma fera, uma loba, eu diria. Assim fera, ela decidiu transformar Tirésias numa mulher. Dizem que a mulher Tirésias foi uma trabalhadora do sexo muito requisitada e bem paga na Grécia. Mas nem tudo é perfeito. Certa vez, Tirésias encontrou, de novo, duas serpentes transando e, não sei por que cargas de água, ele bateu nelas com seu cajado. Hera ficou uma fera e decidiu transformá-lo num homem.

- E a tua analista tem poderes de Hera, um poder que te transforma em homem ou mulher desde que tu passe pela porta? Ponciá Vicêncio, a personagem de Conceição Evaristo, do livro homônimo, temia passar por debaixo do arco-íris, pois, nessa passagem, poderia ser transformada num homem. Podemos ler esse arco-íris como Oxumaré.

- Homem ou mulher parecem formas de castigo, dizia minha tia, com sua voz uísquera, acostumada ao golpe seco do uísque barato, da cachaça sete canas, do gim, do rum mesclado com cocaína ou com álcool de limpeza de casa se não houvesse outra coisa. Ela envelheceu muito rápido, como envelhecem as cadelas e as lobas, um ano nosso equivale a sete anos dos homens.

- Oxumaré permanece seis meses homem e seis meses mulher.

- Nunca ouvi falar de Oxumaré. - silêncio - E o que ele ou ela fez que desagradou às autoridades? - E por que ele/ela teria que ter feito algo desagradável? Ficamos por aqui.

ELIANE MARQUES

16 DE MARÇO DE 2024
FLÁVIO TAVARES

O filme Oppenheimer, ganhador do Oscar, a maior láurea do cinema mundial, retrata uma época de esplendor científico que aterrorizou o mundo. Alfabetizei-me lendo as notícias dos jornais sobre a Segunda Guerra Mundial e, ainda pré-adolescente, acompanhei os festejos do mundo ocidental quando os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, levando o Japão a capitular.

O filme narra a vida de Robert Oppenheimer, o físico que dirigiu o programa nuclear dos EUA. Naquele agosto de 1945, todos festejamos a destruição do poderio militar japonês que pôs fim à guerra no Oceano Pacífico. Eu próprio fiz um versinho que, lembrando o ataque surpresa do Japão à base dos EUA em Pearl Harbour, dizia: "Clamam todos, todos/ Pearl Harbour foi vingado/ e vingadas hão de ser/ todas as forças do Mikado".

Na ansiedade de que a guerra terminasse, não percebemos que a bomba atômica anunciava um perigo devastador à própria humanidade. Festejávamos a paz, sem entender que - daquele momento em diante - o átomo transformado em bomba nos levaria a antecipar o Apocalipse da Bíblia.

É disto que o filme trata ao narrar a vida de Robert Oppenheimer. Ele próprio aparece praticamente arrependido (ou em dúvida) por ter dirigido algo com o qual a insânia da política poderia destruir o mundo e a vida. E a política é incontrolável e destituída de ética.

Anos depois de aplaudido por ter antecipado o fim da guerra com o Japão, Oppenheimer é submetido a humilhantes interpelações no Senado dos EUA, acusado de "comunista" em plena Guerra Fria com a Rússia soviética. De herói, passava a reles "traidor".

A acusação maior baseava-se no fato de que a esposa fora comunista na juventude e que a amante continuasse como militante do Partido Comunista. O próprio Oppenheimer admitiu ter tido simpatias pelos comunistas antes da Segunda Guerra, quando não se conheciam os crimes de Stalin.

A vida de Oppenheimer reaparece agora quando Putin ameaça utilizar a bomba atômica na guerra contra a pequena Ucrânia. Indago: será o triunfo da infâmia? Ou a História só se repete como farsa? Na ansiedade de que a guerra terminasse, não percebemos que a bomba atômica anunciava um perigo devastador à própria humanidade

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

A PRODUTIVIDADE DO TRABALHO

São recorrentes os alertas de economistas de que um dos obstáculos para um crescimento mais robusto e sustentável da atividade no Brasil é a baixa produtividade do trabalho. Diferentes análises apontam uma estagnação desse indicador há cerca de três décadas. As comparações com outras nações também costumam mostrar a situação de desvantagem local. Um trabalho publicado no ano passado pela escola de educação executiva suíça IMD (sigla de Institute for Management Development) ilustra o quadro. Entre 64 países analisados, o Brasil estava na 61ª posição em produtividade da força de trabalho.

Especializado em economia e negócios, o jornal Valor publicou na sexta-feira os dados mais recentes do acompanhamento feito desta questão pelo Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). As informações trazem esperanças. Conforme o levantamento, no ano passado a produtividade da economia brasileira por hora efetivamente trabalhada cresceu 1,9% sobre 2022. Foi o primeiro avanço após dois anos. Em 2020 os resultados também foram positivos, mas distorcidos por intercorrências causadas pela pandemia, em especial pela saída do mercado de trabalhadores de produtividade mais baixa, como os informais e os de escolaridade menor.

De acordo com os pesquisadores, a safra agropecuária recorde contribuiu para a alta do índice em 2023, mas a maior formalização do mercado de trabalho e a alta na ocupação na mão de obra com maior grau de instrução também concorreram para o resultado. É uma obviedade que capital humano com maior escolaridade produz mais riqueza do que aqueles que, por qualquer razão, não foram beneficiados por uma educação de qualidade. A produtividade na indústria, por exemplo, subiu 2% ante 2023, ante queda de 4,7% em 2022. No caso dos serviços, o avanço foi ínfimo, de 0,1%, mas também reverteu resultado negativo do ano anterior (-5,1%).

Outra constatação que pode indicar uma melhora mais sustentável do rendimento por hora efetivamente trabalhada está no fato de que as ocupações formalizadas, em janeiro deste ano, estavam em um nível 9,7% acima da época anterior à pandemia da covid-19. A informalidade, no entanto, aparecia em um patamar somente 1% superior. O trabalho formal é mais produtivo.

Esses são alguns indicativos que podem fazer com que a produtividade siga em alta neste ano, mesmo que a tendência seja de desacelerar devido a fatores como safra menor e PIB em ritmo mais acanhado. Há ainda outros aspectos que merecem melhor análise no futuro, como os efeitos das várias reformas executadas no país nos últimos anos, como a trabalhista e a da Previdência. O emprego com carteira assinada começou o ano com surpresas positivas. Divulgado na sexta-feira, o Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou o primeiro mês de 2024 com uma abertura líquida de vagas com carteira assinada superior a 180 mil, quase o dobro da expectativa do mercado. Espera-se que, de fato, existam razões estruturais e não apenas conjunturais na melhora da produtividade.

O acompanhamento mais a longo prazo vai demonstrar se o país entrou em uma era de produtividade crescente ou se 2023 foi apenas um soluço. A reforma tributária pode dar novo impulso nas próximas décadas. Mas ainda há desafios importantes à frente. Entre eles, fazer com que o aumento da oferta de ensino seja acompanhado de qualidade na aprendizagem. De outro lado, a produtividade da economia também depende de um acréscimo substancial do nível de investimentos no país nos próximos anos, fator que decepcionou no ano passado. Diferentes análises apontam uma estagnação desse indicador há cerca de três décadas no país 


16 DE MARÇO DE 2024
PRÁTICAS ESG

Estância une criação de gado à vitivinicultura e ao turismo

Sob os cuidados da 10ª geração familiar, uma estância com 230 anos de história aposta na inovação para se manter viável economicamente ao mesmo tempo em que preserva ao menos metade de seu campo nativo no Pampa.

Localizada no interior de Bagé, a Estância Paraizo combina a tradicional criação de gado da região com a vitivinicultura e o turismo rural e usa até dados de satélite para manejar seus parreirais.

- Sempre tivemos criação de bovinos e ovinos. Com a quebra do ciclo (econômico) da ovelha, ao final dos anos 1990, passamos a buscar alternativas, e a melhor foi a uva. Mais recentemente, passamos a produzir nossos próprios vinhos - afirma uma das responsáveis pela propriedade de 1,6 mil hectares, Victoria Zara Mercio.

Os cinco hectares de vinhedos produzem sete rótulos diferentes e entre 10 mil e 15 mil garrafas ao ano. Essas atividades passaram a ser complementadas pelo turismo. Às sextas e aos sábados, mediante reserva, visitantes podem conhecer o local, aproveitar a culinária pampiana e comprar o vinho produzido no próprio local.

- Conservar não quer dizer ser contra o que é novo. Aqui, por exemplo, trabalhamos com dados de satélite, que mostram quando cada lote (das uvas) está pronto para colheita - conta Victoria.

Isso é possível porque o satélite avalia a coloração das plantas e indica o estágio de maturação. Outra das principais inovações não envolve equipamentos eletrônicos, mas o bom e velho boi.

Integração

Graças à combinação da pecuária com os vinhedos, a propriedade conseguiu eliminar o uso de herbicida na área onde ficam os parreirais. Em vez de usar produtos químicos para evitar o crescimento excessivo do campo na linha das parreiras, os proprietários decidiram soltar os animais para pastar em meio às uvas - a liberação ocorre em momentos específicos para evitar que comam as frutas.

Esse sistema, além de evitar a aplicação do herbicida, permite que as fezes dos animais ajudem a enriquecer o solo e a garantir uvas mais robustas e saudáveis.

- Na França, por exemplo, usam ovelhas para isso. Pensamos: "por que não tentar com o gado?". Tentamos, e deu certo. Hoje, para ficar no campo, é preciso ter conhecimento e mentalidade inovadora - complementa Victoria.

Abertura de mercados, valor agregado e produto saudável

Preservar o ambiente traz benefícios à natureza e auxilia a combater o aquecimento global, mas também resulta em vantagens econômicas para produtores responsáveis, como preços mais vantajosos e melhores condições para disputar mercados cada vez mais exigentes em relação à sustentabilidade.

Um levantamento revela que o valor do quilo da carne vendida com o selo da Alianza del Pastizal, por exemplo, ficou 9,6% acima da média praticada no RS, utilizando- se como referência os preços divulgados pelo Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O cumprimento de metas conservacionistas também é uma forma de garantir acesso a mercados protegidos por barreiras cada vez mais elevadas, como o da União Europeia. Os europeus aprovaram um conjunto de regras que, a partir de 2025, vai limitar a importação de produtos que não tenham comprovação formal de sustentabilidade. A pecuária gaúcha, por ser uma atividade naturalmente adaptada ao Pampa por não exigir desmatamento, representa uma vantagem competitiva em relação a outras regiões que precisam derrubar árvores para cultivar pastagens.

A criação de gado em sistemas pastoris como os campos nativos do Pampa, além de contribuir para a preservação de um bioma ameaçado, é mais favorável para a saúde de quem consome essa carne em comparação àquela de animais em confinamento.

Um estudo recente realizado por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) comprova que a vegetação típica de boa parte do Estado garante cortes de carne com uma composição de gordura mais favorável do que aquela obtida por meio da oferta de grãos.

Gordura

Uma das conclusões do trabalho é que, independentemente do tipo de criação, os níveis de teor lipídico (total de gordura) presentes nos 59 espécimes gaúchos analisados ficaram abaixo do padrão nacional de referência - mas o melhor desempenho ficou com aqueles criados de forma natural entre as coxilhas.

- Quanto mais verde e diversificado o campo, e o campo nativo é muito diverso, melhores as características que serão atribuídas à carne em termos de gordura - afirma a pesquisadora da Embrapa Pecuária Sul e uma das responsáveis pelo estudo, Élen Nalério.


16 DE MARÇO DE 2024
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

Universidades avançam na inclusão, mas ainda há desafios para vencer

Estudantes que fazem parte desse grupo ainda representam 0,8% em relação ao total de matrículas, conforme censo do Inep

Embora pessoas com deficiência e transtornos globais do desenvolvimento estejam ocupando cada vez mais espaço no Ensino Superior, ainda são minoria. Em 2022, 79,2 mil estudantes matriculados em cursos de graduação no Brasil faziam parte desses grupos, o que representa 0,8% em relação ao total de matrículas daquele ano. Os dados são do Censo da Educação Superior, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Quando a estudante Isabella Bauer, de 21 anos, perdeu 70% da audição, em 2020, ela estava começando o último ano do Ensino Médio e pensou que não teria condições de fazer uma faculdade. A jovem passou a viver com a condição aos 17 anos e ainda está aprendendo a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Adaptações

Mesmo com as inseguranças, ela decidiu ir atrás do sonho: atuar, produzir e dirigir filmes. Então, fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e conseguiu uma bolsa do Prouni para o curso de Realização Audiovisual na Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos), em Porto Alegre. Embora a instituição tenha tido que fazer adaptações para recebê-la, ela conta que a decisão valeu a pena, e que tem sido bem acolhida pela equipe. Ela é a primeira aluna com deficiência auditiva no curso.

- Eu achava que não era para mim, que não teria acessibilidade e recursos. As pessoas me dizem, "vai fazer cinema para quê, se o som faz parte do curso?" Mas tem outros jeitos de fazer cinema. Fico muito feliz de ter conseguido essa oportunidade, eu comecei a entender que precisava ocupar esses lugares - conta a jovem.

A Unisinos adquiriu microfone de lapela para os professores, para captar melhor o som durante as aulas. Assim, a fala é convertida em texto no notebook da aluna, mas o software usado não é perfeito e, às vezes, ela tem dificuldade para acompanhar.

SOFIA LUNGUI

16 DE MARÇO DE 2024
ACERTO DE CONTAS

Dez novas lojas para o Barra

Dez novas lojas estão nos planos do BarraShoppingSul ainda para o primeiro semestre. Duas delas são marcas internacionais. A Hugo Boss, grife alemã de roupas, ocupará o espaço de 190 metros quadrados a ser deixado pela Gaston, que está trocando de lugar no shopping da zona sul de Porto Alegre. A marca terá uma unidade da "Boss" (foto acima) para público masculino adulto. A outra estrangeira é a canadense MAC, de maquiagens, que inaugurou esta semana no primeiro piso, perto da Farm.

Subindo para o segundo andar, no nível do Guaíba, a Loftystyle, de roupas, ocupará a loja de 110 metros quadrados recém-fechada pela Nespresso, marca de café da Nestlé. Tapumes foram colocados no local, em frente à iPlace.

- Vêm para reforçar o mix de moda do shopping. Precisávamos melhorar nossa oferta para o público feminino - diz a superintendente do BarraShoppingSul, Stela Parenza.

Em abril, abrem a academia Ultra e a Me Linda, de cosméticos. Ainda são negociadas operações para ocupar os espaços deixados pela Amaro e pela Lojas Colombo.

Outras novidades confirmadas: Adcos (dermocosméticos), Cidadania Já (documentação), Espaço Facial (harmonização facial), Granado Pharmácias (cosméticos e medicamentos) e uma unidade da Prime Fitness Food (alimentação).

Páscoa de R$ 194 milhões

A Páscoa deve movimentar R$ 194,18 milhões em vendas no Rio Grande do Sul, 6% a mais do que no ano passado. A quantia é a quarta maior da estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), atrás de São Paulo - com R$ 948 milhões -, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Olhando as vendas de Natal, que superam R$ 5 bilhões no Rio Grande do Sul, o valor da Páscoa é realmente pouco. Porém, os gastos se concentram nos supermercados, sendo a data, portanto, bem importante para o setor. Aqui no Estado, ela movimenta também as fábricas de chocolate.

Um indicativo da expectativa do varejo para a Páscoa costuma ser a importação de produtos típicos. Registros do governo federal apontam compra de 3,35 mil toneladas de chocolate de fora do país, 21,4% superior ao ano passado. No caso do bacalhau, a importação aumentou 69,9%. A queda do dólar, claro, ajudou neste movimento do coelhinho. O câmbio estava em R$ 5,20 na Páscoa de 2023. Agora, fica abaixo dos R$ 5. Com isso, os preços dos produtos também recuaram, identifica a CNC.

Outros itens, no entanto, estão mais caros. O azeite de oliva se destaca, acumulando, em 12 meses, aumento próximo de 40%, puxado pela quebra de safra com a seca na Europa e as enchentes aqui no Rio Grande do Sul. Refrigerante e água mineral também são considerados na pesquisa e subiram acima da inflação.

ENTREVISTA

LUIZ FERNANDO RODRIGUEZ JÚNIOR Secretário Estadual do Turismo em exercício

Uma largada fraca de ano no turismo gaúcho e o dilema de Cambará do Sul foram temas das perguntas da coluna ao secretário estadual do Turismo em exercício, Luiz Fernando Rodriguez Júnior, em entrevista ao Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha.

O IBGE mostrou queda forte de 5,7% no turismo do RS no início de 2024 sobre o de 2023. O que houve?

É conjuntural, não estrutural. O fluxo de argentinos não foi como nos anos precedentes. Reduziu a entrada por Uruguaiana. Nossa intenção é investir cada vez mais no turismo binacional com Argentina e Uruguai. E a expectativa é que o gaúcho viaje dentro do Rio Grande do Sul.

Falando nisso, o que a secretaria fará quanto ao problema instalado em Cambará do Sul? A baixa de turistas fez o comércio local protestar contra o preço dos ingressos nos cânions. A Urbia, que assumiu a concessão, diz que o problema não é o valor, mas a estrada RS-427 para chegar ao local.

A secretaria está tanto do lado do turista, que não consegue o que quer, quanto do "trade" (comércio) com prejuízo. É mais ou menos assim: se eu vou tomar um cafezinho e ele vem frio, não tem qualidade, vou achar que paguei caro. Agora, se o café vem com um baita serviço, com sabor adequado, pago com satisfação. Então, me parece que a estrada precisa de uma solução urgente para o turismo aumentar, o comércio lucrar e a concessionária continuar seus investimentos, e talvez até reduza o preço com a equação de receita e da despesa. O Estado tem recursos reservados e prontos, licitação efetuada e licença dada pela Fepam. Me parece não ter motivos para essa obra ainda não estar em andamento.

GIANE GUERRA


16 DE MARÇO DE 2024
TRÊS COROAS

Evento comemora o Ano-Novo Tibetano

O Lozar, evento que celebra a chegada do Ano-Novo Tibetano, ocorre até domingo, na praça central de Três Coroas, no Vale do ?Paranhana. A celebração teve início na sexta-feira. Sob a coordenação do casal Ogyen e Drika Shak, e com o apoio do restaurante Espaço Tibet e da prefeitura de Três Coroas, a terceira edição do evento promete uma experiência cultural única, repleta de música, dança, gastronomia e rituais típicos da tradição tibetana.

A programação é totalmente gratuita. A expectativa de público neste ano é de 5 mil pessoas. Por ser realizado em espaço coberto, o evento ocorrerá mesmo em caso de chuva. Diretora e cofundadora do Espaço Tibet, Drika Shak lembra que o que não falta é ritual para os tibetanos e ressalta a importância de os traduzir para um contexto ocidental, enfatizando seus aspectos culturais.

Alguns dos espetáculos de dança estarão estreando em solo brasileiro e prometem transportar o público para as tradições milenares do Tibete.

Artistas do Vale do Paranhana e do Vale do Sinos marcam presença, com profissionais como coreógrafa, dançarinos, acrobatas, bailarinas e atores.

Painel

O painel inter-religioso contará com o mestre budista Lama Padma Samten. Físico de formação, com bacharelado e mestrado pela UFRGS, Alfredo Aveline, como era conhecido, estudou física quântica antes de descobrir a afinidade com o pensamento budista.

Fundador do Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB) em 1986, sua jornada espiritual ganhou ainda mais força ao ser aceito como discípulo por Chagdud Tulku Rinpoche em 1993, tornando-se lama em 1996.

Haverá o Cozinha Show, uma oficina culinária em praça pública, na qual chefs renomados, como Ogyen Shak (Espaço Tibet), Alexandre Sharin (Sharin) e Magda Correa (Galangal), conversam com o público enquanto preparam um prato específico para degustação.


16 DE MARÇO DE 2024
DIONE KUHN

CARTA DA EDITORA Dupla entrosada

A colunista de Zero Hora Juliana Bublitz e o comunicador da Rádio Gaúcha Paulo Germano têm muito em comum: são jornalistas criativos, inquietos, com o radar sempre ligado para o cotidiano, com sensibilidade apurada para assuntos complexos. Por terem sido repórteres por anos, conhecem os problemas que impactam a vida de uma comunidade e as decisões que são tomadas nos gabinetes do poder público. Também são dois apaixonados por Porto Alegre. Por tudo isso, nada mais natural que juntar a dupla no ambiente digital.

Na sexta-feira, Juliana estreou como apresentadora do Perimetral Podcast, que, desde a sua criação, em julho de 2022, é pilotado por PG. Nesta primeira atuação da dupla, o programa abordou um tema que mexe com a memória afetiva dos porto-alegrenses: a reabertura da casa noturna Encouraçado Butikin, que marcou a vida social de Porto Alegre nas décadas de 1960 e 70.

- Quando o PG me convidou para estar junto com ele no Perimetral, aceitei na hora. Fiquei muito feliz, porque gosto da forma como ele trabalha e conduz as entrevistas. Espero poder contribuir para o programa, levando um pouco do meu olhar como colunista e apaixonada por Porto Alegre, a cidade que adotei como lar há 26 anos - afirma Juliana.

Para Eduardo Rosa, coordenador dos produtos multimídia, o Perimetral é um espaço de pensar Porto Alegre.

- A Juliana colocará a experiência de repórter e colunista para buscar soluções, fazer críticas e celebrar a cidade. Forma uma dupla muito entrosada com o PG no podcast, que, agora, foi também para o vídeo e ganhou estúdio novo - conta Eduardo.

O Perimetral Podcast é produzido por Eduardo Chaves, Kizzy Abreu e Rafa Knevitz, com o apoio fundamental do time técnico, responsável por fazer a gravação e a transmissão do programa.

DIONE KUHN

sábado, 9 de março de 2024


09 DE MARÇO DE 2024
CLAUDIA TAJES

O mundo sem mulheres

Um mundo sem homens seria igualmente ruim, mas já que estamos no Dia Internacional da Mulher, proponho aqui uma reflexão: e como seria se a gente não existisse? Começa que todas as histórias seriam contadas de um jeito diferente.

Adão e Adão II, depois de provarem da jaca, acabariam expulsos do paraíso. O padroeiro do Brasil seria o Nosso Senhor Aparecido. Freud não bombaria.

Não haveria Edith Piaf. Nina Simone. Madonna. Alcione. Bethânia. Gal. Beyoncé. Para quem se incomoda com a Anitta, não haveria Anitta. Que pelo menos os Brunos Mars e os Harry Styles se multiplicassem.

Clarice, não haveria. Virginia. Conceição. Wislawa não escreveria, ante o assombro de mais uma sexta-feira: se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez.

Adeus, Madame Bovary. Anna Karenina. Mrs. Dalloway. Alice. Capitu. E Fernanda Montenegro. Viola Davis. Todas as atrizes. Seria decretada a chatice eterna do cinema, tem coisa mais sem graça que filme só com personagens masculinos?

A culinária sofreria muitas baixas. Cueca Virada seria o must. Bolo de vó, pode esquecer. Quindim de Iaiá. Picadinho Maria Luiza. Pavlova. Pastel de Santa Clara. Madeleines. Carolinas. Crepe Suzette. Pizza Margherita. O almoço da sua mãe. Aliás, sua mãe. Sua avó, aquela do bolo. Suas tias, irmãs, primas, amigas, colegas.

Suas professoras. Um mundo sem professoras é um mundo mais triste.

As mulheres que cortam seu cabelo, atendem você na lojas, restaurantes, mercados e mercadinhos, bancos, consultórios, escritórios, as que fazem seu treino na academia. Todas as que trabalham na manutenção da sua casa, do seu prédio. As que cozinham. Que cuidam dos seus filhos para você trabalhar em paz.

O mundo sem mulheres acabaria com coisas que ainda são motivo de inconformidade para alguns em pleno 2024. Licença-maternidade, por exemplo. Seria o fim do risco de contratar uma funcionária que depois terá o direito de passar alguns meses cuidando da cria.

Equiparação salarial. Não haveria mais deputadas batendo nessa tecla tão, tão gasta. Aliás, não haveria deputadas. Assédios, abusos, estupros. Não se iluda, eles não terminariam. Já a homofobia ficaria no passado. Por que, né? Havendo só um gênero, seria o fim do preconceito. Arrã. Até parece que alguma coisa na história da humanidade indica um mundo sem preconceitos. Ainda mais povoado só por homens, se me desculpam o preconceito.

Como os homens se reproduziriam? De alguma forma que não envolvesse dor. Minha distopia não chega a tanto, a natureza daria um jeito. Os bebês se criariam soltos e à base de Toddynho. A primeira palavra de todos eles seria Gol.

E ninguém ficaria indignado porque a França incluiu o direito ao aborto na Constituição. Até porque homem, quando não quer filho, simplesmente some. Muito mais prático.

Um mundo sem mulheres. Se você nem considera a possibilidade de uma tragédia dessas, muito obrigada por estar com a gente. Pode agradecer com respeito e reconhecimento a nossa importância na sua vida.

Uma mulher de quem eu gosto, a Katia Suman, inventou uma festa para o público 50+ que adora uma pista, mas que não se anima mais a varar as madrugadas. Baila Comigo, a festa, vai rolar no dia 23 de março, das 19h às 23h, no Ocidente. No outro dia você acorda pronto para a vida. Ingressos no Instagram: @bailacomigo_festa.

CLAUDIA TAJES

09 DE MARÇO DE 2024
DRAUZIO VARELLA

PÍLULAS PARA DORMIR

Pegar no sono é martírio para muita gente. Há também os que dormem de imediato, mas acordam no meio da noite.

No tempo das cavernas, não havia luz elétrica, barulho de trânsito, TV, tela de computador ou o celular que levamos para a cama. A noite era feita para dormir e a claridade da manhã para despertar. Na agitação das metrópoles de hoje, são poucos os adultos que deitam, dormem e só vão acordar depois de sete ou oito horas, descansados, prontos para encarar o dia. É cada vez maior o número dos que travam batalhas de vida ou morte com o travesseiro e levantam estremunhados, com ódio assassino do cidadão que inventou o trabalho.

Você que se identificou com esse personagem insone faz parte do grupo que corre risco de cair na armadilha que passo a descrever.

Você vai ao ortopedista porque torceu o pé ou à ginecologista para exames de rotina ou à dermatologista para mostrar uma lesão no rosto. Se cometer a imprudência de se queixar de suas noites problemáticas, dificilmente sairá do consultório sem a receita do benzodiazepínico que estiver na moda: diazepan, clonazepan, lorazepan, alprazolan, midazolan...

Ortopedistas, ginecologistas, dermatologistas e clínicos não costumam ter formação psiquiátrica sólida, mas vem dos não especialistas a maioria das prescrições desses remédios. São tantas que nos tornamos campeões de vendas na categoria.

Ao ir para a cama, você toma o comprimido. De repente reinará uma paz profunda entre você e o travesseiro. De manhã, você dirá, surpreso: "Há quanto tempo não dormia uma noite inteira e não acordava tão disposto!".

Qual será a justificativa para não tomar mais um comprimido na noite seguinte? Não pode fazer mal, você pensará, foi prescrito por um médico. Não é melhor do que passar o dia inteiro morto de sono? E se a segunda noite for tão repousante quanto a primeira, por que razão deixar de tomá-lo na terceira e nas seguintes? Quando a validade da prescrição expirar, é só pedir para o médico renová-la. Se ele não o fizer, há sempre um amigo com um parente médico. Em último caso, para que serve a internet?

Benzodiazepínicos são drogas muito úteis para induzir o sono em situações estressantes às quais precisamos nos adaptar de uma hora para outra, como ocorre quando somos vítimas de violência ou temos uma crise de ansiedade ou perdemos uma pessoa querida. Nessas ocasiões, os consensos das sociedades de psiquiatria recomendam que eles sejam mantidos pelo mínimo de tempo necessário. O prazo limite de uso não deve ultrapassar algumas semanas, período depois do qual a dose deve ser diminuída gradualmente até a suspensão completa, para evitar uma grande crise de abstinência.

O cuidado é necessário porque esses remédios induzem tolerância, quando mantidos por períodos prolongados. No organismo tolerante, a droga perde gradativamente a eficácia, fenômeno que obriga o usuário a aumentar a dose. Um comprimido não é mais suficiente para induzir o sono, agora são necessários dois ou três.

Os consensos insistem que os benzodiazepínicos tenham o uso resguardado pelos médicos, reservados para emprego em quadros que envolvam casos de ansiedade.

Todos nós recebemos pacientes que já na primeira consulta nos pedem receita de benzodiazepínico. Quando estranhamos a solicitação, justificam: "Eu tomo toda noite há mais de 20 anos".

Essas drogas são muito úteis, têm atividade ansiolítica, custo baixo e risco pequeno de reações colaterais graves, mas empregá-las para medicalizar problemas pessoais, muitas vezes passageiros, é um equívoco que pode interferir com a atenção e causar dificuldade de fixação de memórias, alterações associadas a déficits cognitivos. Não há demonstração clara de que o uso continuado, por muito anos, aumente o risco de Alzheimer ou de outras demências, mas faltam estudos para avaliar as repercussões cognitivas a longo prazo.

Se você é dependente desses medicamentos, não interrompa o tratamento de forma abrupta, porque a abstinência pode ser difícil de enfrentar. Consulte um psiquiatra. Se você não tiver acesso a ele, pegue um alfinete e raspe migalhas do comprimido toda noite, para em um período de dois ou três meses ficar livre dele sem sofrer muito.

DRAUZIO VARELLA

09 DE MARÇO DE 2024
ESPIRITUALIDADE

MARÇO, MÊS DA MULHER

Somos bípedes, mamíferas do sexo feminino pertencentes à família humana. Uma única espécie biológica e com inúmeras diferenças. Não somos iguais. Somos semelhantes e podemos reconhecer sentimentos e emoções mesmo em pessoas que vivem de maneira muito diferente da nossa. São muitos continentes, países, etnias, diferentes culturas, línguas, pensamentos filosóficos e espirituais. Religiões que poderiam nos unir são muitas vezes as causas e/ou desculpas para os afastamentos, os conflitos e as guerras.

Nós, mulheres, não somos consideradas cidadãs completas em muitos locais do planeta. Ainda há muita discriminação e preconceito. Tanto no mundo laico como em grupos religiosos das mais variadas fés e tradições.

Há locais onde o estudo é proibido para pessoas do sexo feminino. Há igrejas que não permitem o completo sacerdócio para as mulheres consagradas. Há áreas em que somos brutalmente abusadas e todos os direitos humanos não são respeitados.

Ainda assim, sobrevivemos. Resistimos e continuamos nossa jornada.

Sobreviventes e unidas conseguimos o direito de voto, de inclusão, de trabalho, de equidade salarial e funcional, independência financeira, mas ainda não há equidade de gênero em vários quesitos da vida social e pessoal. Quantas mulheres são arrimo de família?

Vale questionar e refletir também sobre o que significa família. Seria a família monocelular, um casal e seus filhos/filhas? Ou somos todas responsáveis pela nossa grande e única família biológica, a humana?

Ser mulher hoje é ser capaz de perceber as diferenças de tratamento e se manifestar de forma clara e tranquila, repetidamente, para que os que ainda nos discriminam e nos rebaixam possam despertar e perceber que sem as mulheres não haveria vida. É preciso continuar a jornada, com humildade e assertividade, para que nos respeitem como pessoas capazes de pensar, decidir, sentir e viver.

Antes de me sentir mulher eu me sinto humana. Humanidade tem a ver com bondade amorosa, compaixão, equanimidade e alegria empática. Essas são as quatro mentes ou qualidades incomensuráveis.

Incomensurável é o que não tem paralelo, além das comparações, não pode ser medido ou comparado. É o imenso, o enorme, sem limites. A mente do amor incomensurável extingue a raiva. A mente da compaixão incomensurável extingue a mágoa. A mente da alegria extingue a tristeza e a angústia. A mente da equanimidade extingue o ódio, a aversão e o apego.

Todas nós, mulheres, e todos os seres humanos da Terra podemos viver e estimular essas quatro mentes através das práticas de meditação, corrigindo erros e nos aperfeiçoando na arte de compartilhar a vida com todos os seres, compreendendo pontos de vista opostos e sendo capazes de ver além das dualidades e fragilidades da mente comum.

Apreciem suas vidas. Mulheres que são irmãs, filhas, tias, primas, mães, avós, amigas, amantes, sábias, cientistas, religiosas, educadoras, líderes, filósofas, costureiras, cozinheiras, cuidadoras, faxineiras, garis, motoristas de caminhão e de carros de corrida, pilotos de avião, peões de gado e de cavalos, mulheres livres que sabem de seus direitos e apreciam da liberdade de ser e de estar onde bem quiserem.

Criar causas e condições para que todas as mulheres possam ser livres e realizadas em plenitude: eis nossa tarefa.

Mãos em prece

ESPIRITUALIDADE

09 DE MARÇO DE 2024
J.J. CAMARGO

EM QUEM PÔR A CULPA?

Quando algum projeto dá muito certo, há uma disputa para identificar o pai da ideia. E quanto mais estrondoso o sucesso, mais pulverizada será a paternidade. A maioria das pessoas têm dificuldade de fracionar o mérito, e quando isso é inevitável sempre haverá quem queira fatiá-lo, com a indisfarçada intenção de que a maior das fatias lhe seja atribuída.

Como fomos idealmente planejados para o sucesso, é muito difícil que alguém assuma a autoria quando a coisa toda dá errado. Principalmente porque há um fascínio, pelos órgãos de divulgação em geral, quando o objeto da notícia é um fiasco. O que só confirma que a soma de ambição com vaidade é uma combinação danada, e a mídia é o agente polarizador desse turbilhão de miudezas.

Quando a questão é política, com a visibilidade natural multiplicando os defeitos com muito mais facilidade do que virtudes, mais se percebe que aparentar é muito mais fácil do que ser. E então desfilam figuras bizarras que temos certeza que pensavam diferente, tanto que concordávamos com elas, e que agora não os reconhecemos. E sempre haverá quem tente convencer-nos que nós é que mudamos.

Na vida real, essa em que vivemos tentando sufocar a náusea que a hipocrisia do cotidiano desencadeia, busca-se o equilíbrio entre o que fazemos por prazer e as regras que o politicamente correto instituiu sem consulta pública que se conheça.

Seguindo normas geradas espontaneamente nas redes sociais, assusta a instantaneidade com que pessoas e situações são julgadas e condenadas, sem que nenhum tribunal seja consultado. Com uma enorme chance de injustiça nos julgamentos-relâmpago, resta com frequência a sensação, meio vingança, meio deboche, de que essa é a resposta merecida à morosidade enervante da justiça tradicional.

Quando somos convocados a encarar uma pauta controversa num campo delicado como, por exemplo, a saúde pública, estaremos sempre expostos ao crivo implacável dos que defendem a sua opinião, não importa quanto seja esdrúxula, sem preocupação com sustentação científica.

A falta de dúvidas, essas que embasam a ciência, é a marca registrada dos que não se constrangem em opinar sobre temas dos quais não têm a menor ideia. E geralmente a fonte "inspiradora" da teoria é ignorada ou, para corresponder à modernidade, uma fake news.

Tem sido assim na discussão de terapias alternativas ao câncer, dos cigarros eletrônicos, da liberação de drogas e das vacinas. Sem nenhuma noção do que seja metodologia científica, os arautos dos novos tempos não se intimidam em fazer uma teoria baseada em um caso só, ou, no que é sinal dos tempos, dizem "Eu li em algum lugar!", sem preocupação com o tamanho da lata de lixo que consultaram.

J.J. CAMARGO

09 DE MARÇO DE 2024
CARPINEJAR

Thelma e Louise, Diana e Claudia

A história de Thelma e Louise é centrada em melhores amigas capazes de fazer tudo para salvar uma à outra dos perigos do machismo, representados por tentativa de estupro, assédio, roubo. Thelma Dickinson (Geena Davis) e Louise Sawyer (Susan Sarandon) viajam de carro e se instalam em uma cabana de pesca nas montanhas durante um fim de semana, para dar uma pausa às suas existências sombrias no Arkansas - só que o passado as persegue e o futuro sempre as coloca como suspeitas.

Nenhuma mulher consegue ser livre sem ser julgada ou malvista, nem em um bucólico domingo.

Lembrei-me desse clássico cult de Ridley Scott, de 1991, ao ler Da Sempre Tua, novo livro das escritoras gaúchas Claudia Tajes e Diana Corso. A obra do selo Arquipélago terá lançamento neste sábado, às 17h, no Goethe-Institut Porto Alegre (Rua 24 de Outubro, 112).

Não sei definir quem é Thelma, quem é Louise entre as missivistas Claudia e Diana. Ambas carregam características das heroínas da estrada, em especial a explosão, o desabafo de que não aguenta mais viver em estado de culpa - esse café açucarado, com 10 colheres, que fica melado no fundo da xícara, como bem descrevem.

Mas não importa tanto definir quem escreve o que, temos entre as duas a aparição de uma terceira força anímica: a amizade feminina. Não é um livro de Claudia Tajes e Diana Corso, e sim da amizade descrita a partir delas, amálgama das experiências de porta-vozes de uma geração na faixa dos 60 anos, que tudo viu e tudo superou.

A cumplicidade exposta é profundamente dessemelhante à amizade masculina. Homem foge de grandes temas reflexivos e metafísicos, a não ser que esteja adoecido ou perto da morte. Confissão para ele é como consulta médica - não existe prevenção, só procura quando já é tarde.

Então, existe meu choque ao ler a troca de observações. O que elas falam jamais seria objeto de uma conversa minha com um amigo. São sutilezas do cotidiano levadas ao extremo da atenção. A concentração máxima produz poesia e beleza, porém tem um efeito colateral: nada passa despercebido por elas. Analisam-se com um rigor desmedido, não se poupando em sarcasmo e autocrítica. Destroem-se mutuamente, e se reconstroem a toda hora.

Como se testemunhássemos um processo de fagocitose na linguagem: não param de reconhecer organismos invasores à própria felicidade, dispostas a extingui-los imediatamente. Talvez esse seja o ponto central da narrativa de 45 cartas, entre as iniciais C. e D.: a impossibilidade de praticar a distração.

Você já percebeu que a mulher jamais pode ser distraída? Precisa olhar para os lados quando está na rua, transmitir sua localização quando entra num aplicativo de transporte, dizer aonde vai quando parte sozinha para um evento. É como se não pudesse se desligar nem por um minuto da sua segurança, numa eterna culpabilização da vítima. Se acontece algo de ruim, é comum pensar que ela não se cuidou o suficiente.

No epílogo de Diana Corso, ela mata a charada: a atenção feminina é uma imposição da sociedade patriarcal, em que a mulher é condicionada a se defender de inimigos invisíveis. "Querendo ou não, ficamos cada vez mais conscientes de que aquela personagem da mãe sempre atenta e incondicionalmente amorosa é uma fantasia, principalmente infantil e masculina."

Num fio invisível percorrendo o subterrâneo da trama de confidências, nota-se a dificuldade do encontro presencial das autoras-personagens. Porque, diferentemente dos homens, preocupam-se com a agenda familiar. Mesmo quando estão de folga do trabalho, não recebem folga da família. Os prazeres da convivência permanecem subjugados ao tempo que sobra do casamento e da maternidade.

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