sábado, 8 de junho de 2024


08 DE JUNHO DE 2024
MARCELO RECH

Aterrados

Meu amigo e parceiro de muitas aventuras e desventuras jornalísticas ao redor do mundo, o grande fotógrafo Ricardo Kadão Chaves, foi quem me ensinou a deixar de me exasperar com os perrengues de aeroporto. A fórmula de Kadão para suportar atrasos, voos cancelados, conexões perdidas, malas que não chegam, vai além de respirar fundo. 

Ele usa o aeroporto para fazer tudo aquilo para o que não tem tempo ou que fica postergado no lado de fora: comprar fumo para cachimbo e carga para a caneta, cortar o cabelo, engraxar o sapato, ler um livro. A lista de Kadão poderia incluir também ver pessoas, admirar comportamentos e estudar eficiências ou a falta delas nos serviços de companhias aéreas e do próprio aeroporto.

Na minha lista, se inclui o ato de escrever, o que faço no aeroporto de Amsterdã, no longo caminho de volta para a nossa Porto Alegre sofrida. Em um congresso de mídia do qual participei, compartilhei uma mesa de jantar com um colega ucraniano. A certa altura, comentei que vivemos nas duas únicas grandes cidades do mundo que, no momento, não contam com um aeroporto. Se bem que, vamos convir, as razões para Kiev não receber aviões há mais de dois anos são infinitamente mais graves e incertas do que as nossas.

A ausência de um aeroporto deixa Porto Alegre manca, com efeitos para muito além de questões menores, como se buscar voos alternativos de Caxias ou Florianópolis. A perda de nossa confluência aérea abala as viagens de negócios, é um cataclismo para o turismo e causa um transtorno fundo na economia e na recuperação do Estado. 

No rol de cobranças, portanto, a retomada de voos no Salgado Filho deve ser uma prioridade absoluta, até porque ainda é difícil de perceber na concessionária e em sua matriz na Alemanha aquela agonia com o senso de urgência e o desprendimento coletivo com que passamos a viver cada dia no Rio Grande do Sul desde o início de maio.

Já o fator psicológico de se ver subitamente aterrado é mais simples de tratar. Vamos receber menos turistas e visitantes, mas também vamos viver mais como nossos bisavós, que desconheciam bate e volta para uma reunião em São Paulo e, se não fossem milionários, limitavam-se a ler em jornais os relatos de quem lograra fazer uma viagem à Europa.

Literalmente no solo, podemos frequentar mais os restaurantes e serviços locais e descobrir um Rio Grande do Sul que o próprio Rio Grande desconhece. Em última análise, vamos poder fazer em larga escala aquilo que Kadão apregoa quando se tropeça em um acaso desagradável no aeroporto: aproveitar o infortúnio para ajustar a rotina, explorar as redondezas e, de quebra, ajudar na recuperação dos pequenos negócios.

MARCELO RECH

sábado, 1 de junho de 2024


01 DE JUNHO DE 2024
CARPINEJAR

Gincana

Uma das atividades que mais unia a escola era a gincana. Mobilizava turmas inteiras na solução de desafios, de charadas, de enigmas. Fazíamos cartazes, convocávamos os pais para nos ajudar na conclusão das tarefas, pedíamos livremente a colaboração de nossos vizinhos na arrecadação de alimentos, de jornais e revistas, de livros. Perdíamos a timidez, o medo do convívio, como se tivéssemos um salvo-conduto para bater de porta em porta no bairro.

Minha amiga Patrícia Parenza ilustrou o que sentimos durante o maio de terror e de mutirão contra a enchente que assolou o nosso Estado: "Viver no RS tornou-se uma grande gincana, onde todas as equipes saem ganhando".

Ela tinha razão. Não havia um único degrau de pódio, não havia um solitário vencedor, todos que ajudaram são vitoriosos.

Não foi uma gincana para atingir um primeiro lugar, foi uma gincana para preservar nosso lugar no mundo, nossa cidade, nossa vida. Uma gincana da sobrevivência, de socorro a vítimas que acenaram de cima de telhados, de amparo a famílias que perderam tudo o que conquistaram ao longo de décadas. Foi uma gincana de gritos, de lágrimas, de súplicas, de existências destroçadas, de sonhos desfeitos. Uma gincana de salvamento.

Nunca ocorreu no país tamanha campanha de auxílio. As pessoas não ficaram paradas, não se entregaram para a imobilidade do pânico, não se permitiram olhar de longe. Retomaram a sua agenda de contatos, vasculharam os telefones mais antigos, fizeram vaquinhas, rifas, Pix, não deixaram nenhum desabrigado sem resposta.

Fossem flagelados próximos ou distantes, familiares ou desconhecidos, valia a soberana regra de ajudar primeiro, depois perguntar. Quem não teve sua casa alagada acolheu parentes e amigos. Quem não teve seu lar ameaçado juntou parte de seu armário para doação.

Antes de a própria solidariedade nascer, vieram a comoção, a identificação, o espírito de grupo, de pertencimento, de raízes.

Descobrimos os amigos que tinham barcos, jet skis, botes, coletes, roupas de mergulho. Solicitamos o aparato emprestado para resgates, sem receio de não sermos atendidos. Coragem é extroversão. Não existe cara de pau diante de uma tragédia. As formalidades desapareceram por completo.

Água potável, mantimentos, itens básicos de higiene? A lista de necessidades imediatas crescia e, assim, ranchos foram feitos sem parar para a distribuição em abrigos.

Precisava-se de caminhão: "Conheço alguém".

Precisava-se de óculos: "Conheço alguém".

Precisava-se de aparelhos auditivos: "Conheço alguém".

Precisava-se de ração: "Conheço alguém".

Precisava-se de colchão: "Conheço alguém".

O que mais se ouvia era que se conhecia alguém. Predominou uma ciranda incansável de telefonemas e mensagens, em busca de produtos de urgência. Corredores humanos de esperança ocuparam o lugar de pontes, de passarelas, de viadutos submersos.

O que não se encontrava na rede de afetos era comprado. A sobrevivência coletiva pairava acima de qualquer avareza.

É nossa histórica e corajosa gincana para salvar o nosso Estado. E não acabou. Encerramos apenas uma fase. Agora acharemos rodos, vassouras, esfregões, baldes, luvas, escadas, carrinhos de mão, caçambas, para limpar uma por uma das residências.

Jamais subestime um povo ferido.

CARPINEJAR

01 DE JUNHO DE 2024
MEMÓRIA

DO QUE RI KAFKA?

Há cem anos morria um dos maiores escritores do século 20. Um autor tão sofisticado que, décadas depois, ainda permite a descoberta de novas nuances de sua obra

ABRÃO SLAVUTZKY - Psicanalista e escritor

A casa dormia, a cidade dormia, Kafka então escrevia. Um dia Max Brod convenceu seu amigo escritor a ir num encontro com um editor. Foram, e o primeiro a falar foi Max, que exaltou um livro do amigo. Depois, foi a vez do editor. Kafka, como sempre, só escutava. Ao final da reunião, disse: Minha sugestão é que não me edite.

Jorge Luis Borges afirmou que Franz Kafka (3/7/1883-3/6/1924) é o número 1 dos escritores do século 20. Já Amos Oz escreveu que Kafka foi o maior profeta do século 20, capaz de prever a desumanização e as tiranias, a crueldade do poder e a impotência do ser humano. Ambos começaram a ler Kafka na adolescência e foram seus leitores por toda a vida.

Os adolescentes são seus leitores, o hashtag com a palavra Kafka tem mais de 40 milhões de visualizações. O entusiasmo dos jovens decorre dos temas como o da solidão, conflito com o pai, o desamparo, o poder opressivo. A opressão está na primeira frase dos dois livros mais famosos do escritor. A Metamorfose: "Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos encontrou-se em sua cama transformado num inseto". Já 

O Processo começa assim: "Alguém certamente havia caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum". Situações estranhas num mundo absurdo que geram desamparos sem fim. Kafka descreveu o mundo como desloucado, revelando como o fato louco é que o mundo louco seja considerado normal. Os autores escrevem à beira do abismo, já Kafka escreveu desde dentro deste, e desde aí se pode melhor entendê-lo. Entretanto, há esperança, é preciso imaginar o amanhã, mas falta pouco para se pensar como Kafka ao dizer: "A esperança existe mas não para nós".

O livro mais lido de Freud é o Mal estar na Cultura, em alemão, Unbehagen in der Kultur, sendo que a palavra unbehagen significa "desprotegido", "desamparo". O desamparo é a essência da existência, tanto em Kafka como em Freud. A palavra unbehagen se associa ao termo Unheimlich - estranho, sinistro -, título de um ensaio essencial da psicanálise. Significa o não familiar, o que deveria ter permanecido oculto e, ao vir à luz, aterroriza. O desconhecido assustador está tanto na ficção de Kafka como em Freud, que teorizou a partir de conceitos como inconsciente, pulsões, entre outros.

Reiner Stach é autor da trilogia sobre a vida e a obra de Kafka, biografia saudada como a mais alta realização nesse campo. Nela se pode ler como o escritor desde criança estava familiarizado com pessoas degradadas em animais. Seu pai adorava dizer da cozinheira que era uma "vaca", o ajudante da loja ele chamava de "cão doente", o filho era um "porcão". O mais desprezado dos animais é o inseto, daí a praga, a barata, e o escritor cria um inseto para escrever sua Metamorfose.

Stach destaca alguns dos pontos centrais da obra de Kafka: pai, judaísmo, doença, assalariado, solidão, processo criativo, batalha em torno da sexualidade e do casamento. Chama atenção para o cômico e o humor na sua obra, mas antes dele foi Walter Benjamin que escreveu ser o humor o elemento essencial em Kafka. Tardei em entender esse humor. É um humor original, um humor ácido, humor do desamparo.

O adjetivo "kafkiano" expressa a vida como absurda, angustiante, terrorífica, mas desde a década de 1990 é preciso incluir nesse adjetivo o humor. Stach escreve que cada vez mais leitores percebem o quanto há de humor em sua obra. A descoberta do sentido de humor em Kafka explica por que ele e seus amigos riam quando o escritor lia em voz alta seus escritos. 

O humor aliviou o escritor, que se casou com a escrita, sua terapia. Kafka foi herdeiro do humor judaico, dos comentários talmúdicos, medita sobre a lei e seus mistérios, como no livro O Processo. Trabalha ainda com parábolas, fábulas, contos, que são como reflexões rabínicas. Teve ainda interesse pela cabala e o sionismo, sonhou em ir para Israel. Sua tristeza sobre a humanidade pode ser contagiante. Sintonizar com Kafka é apreender com o não pertencente, compartir a solidão do humilhado. Quando a sintonia aumenta se requer ajuda em apoios como Chaplin e na renovada Sbórnia.

Kafka escreveu: "Vivo na minha família mais estranho do que um estrangeiro". Talvez uma das coisas que nos tocam é esse sentimento de estrangeiro, é o estranho inconsciente que vive na gente. O escritor se aliviou da solidão escrevendo, conversando, lendo, e morreu sem saber de sua genialidade.

Finalmente, indico um livro com 30 histórias breves: Narrativas do Espólio. Um exemplo dessa obra: "A verdade sobre Sancho Pança", na qual o gordinho pequeno foi quem inventou Dom Quixote e suas quixotadas o divertiam. É a graça do humor na inversão da lógica comum. Um presente final de Kafka para nós: "Quem tem a capacidade de ver a beleza não envelhece".

Ah, de que mesmo ri Kafka? Do sucesso.


01 DE JUNHO DE 2024
COM A PALAVRA

A RECONSTRUÇÃO MAIS IMPORTANTE SERÁ A RECONSTRUÇÃO DE CADA UM

ALFREDO CATALDO NETO

Psiquiatra e psicanalista, 70 anos

Pesquisador no Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS. Tem experiência e pesquisa na área da psiquiatria e psicanálise atuando principalmente com envelhecimento e saúde mental

LARISSA ROSO

Não há como passar incólume pela catástrofe que atingiu o Rio Grande do Sul. Com variações na dimensão do impacto, todos fomos afetados de alguma forma. É preciso ter saúde mental para lidar com um trauma dessa envergadura.

A maior parte da população vencerá o longo processo de dor e luto, garante o psiquiatra e psicanalista Alfredo Cataldo Neto, 70 anos, professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), e uma parcela pequena terá complicações. Nutrir esperança em relação ao futuro é fundamental.

- A esperança é a mola para a reconstrução interna e externa. Nós temos que reconstruir fora e dentro. Dentro vai ser muito importante para as pessoas poderem sobreviver - explica o médico, natural de Esteio, na Região Metropolitana.

O DESASTRE QUE VIVEMOS É DE IMENSAS PROPORÇÕES, UM TRAUMA COLETIVO. TODOS FOMOS AFETADOS DE ALGUMA FORMA. COMO FICA A SAÚDE MENTAL, CONSIDERANDO OS MAIORES E OS MENORES IMPACTOS SOFRIDOS PELAS PESSOAS?

A imensa maioria dos gaúchos foi e está sendo afetada todos os dias por essa tragédia. A saúde mental é uma coisa extremamente instável. Nós precisamos, constantemente, manter um equilíbrio de tudo o que pensamos e vivemos com as questões que estão fora, no meio ambiente. Então, quando há uma catástrofe desse tamanho, todo mundo é abalado, claro que de diferentes formas. Uma coisa é a gente ficar incomodado porque faltou água ou luz, porque não consegue se deslocar. Outra é aquela pessoa que perdeu tudo. A psiquiatria tem feito um trabalho no ginásio da PUCRS (onde funciona um dos abrigos para desalojados). 

Conversei com muitas pessoas lá. A situação é avassaladora. Imagina uma pessoa perder tudo. Não é só a casa, o terreno e os objetos, mas aquelas pequenas coisas que fazem parte da sua história. É um choque violentíssimo. E, para sobreviver a isso, nós precisamos de saúde mental. A grande maioria das pessoas vai superar essa situação, mas vai passar por um período de choque, em que é normal haver uma série de mudanças psicofisiológicas, medo, luto, raiva. "Por que comigo?" "Por que não com o outro?" Encontrei muitas pessoas se culpando ainda. "Eu devia ter feito isso, eu não podia estar morando ali." 

A grande população que não vai ter maiores complicações, que vai conseguir elaborar esse luto, é uma população de menos risco. A população de risco é quem vai sucumbir com essa situação. Pessoas que já tinham problemas psicológicos e, principalmente, problemas psicossociais, sem uma rede de apoio social. É uma situação catastrófica. Quem tinha uma casa para onde se mudar, um parente que acolhesse, já é um outro departamento. Então, vamos ter uma segunda camada, vamos chamar assim, que, graças a Deus, não é a maioria, e depois pessoas que vão desenvolver um transtorno que nós chamamos de estresse pós-traumático, que são pessoas que sobreviveram, mas que estão extremamente chocadas.

NOSSA CASA É O NOSSO LUGAR NO MUNDO, NOSSO ABRIGO, NOSSA PROTEÇÃO. A IMAGEM DA CASA E DESTRUÍDA, MATERIAL E SIMBOLICAMENTE, É DEVASTADORA.

Com certeza. A casa é a nossa identidade. Ela representa o que nós somos. O que nós somos é a nossa casa. Existem duas casas. Uma casa concreta, onde nós moramos, e a interna. A casa interna é tudo o que nós pensamos, tudo o que nós temos. Esses objetos também foram danificados. Isso não vai depender da prefeitura, do Estado, da União. A própria pessoa, claro, com a ajuda externa, vai ter que reconstruir sua própria casa interna, que ficou muito abalada. Conversei com várias pessoas no ginásio. Elas têm um olhar perdido, um olhar de quem está em choque. Às vezes, elas não têm ainda a dimensão de tudo o que está acontecendo, mas já imaginam, pelas fotos, pela filmagens, pela TV, pelo celular. Então, é uma situação com que estamos muito mobilizados. Se o ser humano tivesse a solidariedade, a empatia que estamos tendo nesses últimos tempos aqui no Rio Grande do Sul, o nosso mundo seria outro. A reação da comunidade, o esforço das pessoas que foram para o front, isso é muito louvável. A empatia é gigantesca. Digo para os meus alunos que a maior aula que estamos dando hoje é a da solidariedade. É muito bonito ver como os jovens estão empenhados. Jovens médicos, inclusive, que tivemos que mandar para casa para evitar a exaustão. A pessoa faz uma identificação por compaixão e não consegue parar. A gente tem que mandá-los para casa porque se não vão se exaurir, vão ficar doentes também.

PENSO QUE A RECONSTRUÇÃO É DAS CASAS, DAS CIDADES, DO ESTADO, MAS TAMBÉM DE CADA UM DE NÓS, EM TERMOS DE ESTRUTURA EMOCIONAL. COMO A GENTE ATRAVESSA ESSE PERÍODO DE LUTO E COMO SE REFAZ?

Num primeiro momento, o que a pessoa mais precisa é que alguém a escute. Vivemos num mundo em que a escuta é difícil. Tem até cursos de oratória, mas cursos de "escutatória" não existem. Vejo as pessoas reunidas, e todo mundo quer falar, ninguém quer ouvir. As pessoas atingidas pela tragédia precisam que alguém as escute, sem dizer nada, sem julgar, sem frases do tipo "você foi morar lá do lado do rio, só poderia dar no que deu, queria o quê?". 

Essas posições críticas não ajudam em nada. A pessoa precisa que alguém se sente do lado dela e simplesmente a escute. Uma das artes mais difíceis do mundo: a arte de escutar com afeto, prestando atenção, talvez aqui e ali um suporte, não com aquelas coisas comparativas, como "ah, você está se queixando, mas e quem perdeu a vida?". Isso a pessoa sabe, mas ela quer falar, precisa pôr para fora toda a dor que ela tem. 

E nós temos que estar ali, escutando firmes, sem fazer juízos de valor, sem criticar. É assim que se reconstitui o mundo interno. Uma pessoa, encontrando esse apoio, vai começar a pensar no que pode fazer, no que pode limpar. Outro dia vi uma coisa bacana, uma pessoa ensinando como se lavam fotografias com barro. Os pets têm uma importância fantástica na vida das pessoas. Temos cães resgatados que vieram junto com os seus tutores para o abrigo. Vejo as pessoas pegando o seu cãozinho para o passeio. Isso tudo é amor, isso tudo é reconstrução.

TEM SE FALADO NAS DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS ENTRE O MOMENTO ATUAL E O DA PANDEMIA. QUE COMPARAÇÕES O SENHOR CONSEGUE FAZER?

Acho que a gente sempre tende a valorizar, aumentar o que está passando. Várias pessoas me disseram: "É muito pior do que a pandemia". Nós, que trabalhamos num hospital, podemos dizer que a pandemia da covid-19 foi pior porque tínhamos a morte do nosso lado. Até para ajudar uma pessoa era difícil. A gente não podia se abraçar, não podia chegar perto para atender um paciente. 

Os colegas se vestiam feito astronautas dentro do hospital. As despedidas eram terríveis. Temos que ter cuidado com a população de idosos. A grande maioria dos que morreram de covid-19 eram idosos. Tinha aquele cerimonial quando a pessoa ia para o tubo (respirador artificial em uma UTI) e fazia a ligação para a família. A gente que estava lá sabia que a maioria dos que iam para o tubo morriam. Foi bem complicado. É semelhante porque há medo. Naquele tempo tinha a diferença de ter que ficar em casa...

E MUITOS NÃO TÊM MAIS CASA AGORA.

Ou têm risco e têm que sair de casa. Então há semelhanças, há diferenças. A gente tende a dizer que é pior agora porque estamos vivendo isso, mas me parece que a pandemia foi pior. Era uma morte solitária. Ninguém podia ficar perto, era uma despedida terrível.

ERAM MUITO MAIS MORTES NA PANDEMIA, E AGORA O GRANDE VOLUME É DE DESTRUIÇÃO MATERIAL.

Com certeza. (Sobre a maioria das vítimas da covid ser de idosos.) O idoso é frágil, o idoso não tem a mobilidade do adulto, o idoso já tem medo de temporal. Imagina um idoso que agora perdeu a sua casa, não tem para onde ir, está se sentindo frágil, desassistido.

ESTAMOS VIVENDO EM UM CENÁRIO DE DESTROÇOS E MUITO LIXO. É AINDA MAIS TRISTE PORQUE AS PILHAS DE ENTULHO SÃO FORMADAS PELO QUE ANTES ESTAVA NA CASA DAS PESSOAS ATINGIDAS. QUAL O IMPACTO PSICOLÓGICO QUE A VISUALIZAÇÃO CONSTANTE DISSO PROVOCA?

As cenas que estamos presenciando, em alguns momentos, se assemelham às de uma guerra. Uma pessoa que não soubesse o que aconteceu, alguém que chegasse agora ao planeta e descesse aqui, olhasse esses destroços todos, talvez pensasse: houve uma guerra aqui, as pessoas morreram. Realmente, é um impacto gigantesco. Nós temos que reconstruir fora e dentro. Dentro vai ser muito importante para as pessoas poderem sobreviver.

ESSAS RECONSTRUÇÕES SÃO SIMULTÂNEAS?

Exatamente. A não ser que o abalo seja tão grande que a pessoa paralise totalmente, fique em estado catatônico. Aí é uma situação muito grave. Os pacientes psiquiátricos são pacientes de muito risco em uma situação como essa. É muito importante também destacar que isso aí não é loucura, não é fantasia. O que está acontecendo é real. A pessoa não está imaginando. A situação está acontecendo, a pessoa está reagindo como ela tem que reagir. Só que cada um vai ter o seu processo de desenvolvimento. Cada um vai ter a sua maneira de poder passar por essa tempestade toda. Quanto mais bem armado, quanto mais bem assistida a pessoa, quanto melhor a casa dela, quanto mais segura, melhor. 

As pessoas de maior poder aquisitivo puderam sair de Porto Alegre para suas casas de veraneio. Nada contra. Mas a maioria absoluta das pessoas não têm casa de veraneio. Então nós temos que buscar dignidade social para essas pessoas. Elas têm que ter alimentação, têm que poder dormir, ter repouso, estar em segurança. Uma senhora me disse (no abrigo) que nunca se alimentou dessa forma, com cinco refeições por dia. Temos que dar informação para essas pessoas, e a imprensa é fundamental. Claro que também não se sugere que alguém fique o dia inteiro ouvindo notícias. É muito choque para o seu mundo interno.

É DIFÍCIL DIGERIR, NÉ?

Tem que tentar fazer outras coisas, continuar com seus contatos sociais. Quando estivermos com os amigos, falando, falando, falando da enchente, acho que é muito saudável mudar um pouco de assunto, o que é difícil. Eu estava com um grupo outro dia e fiz umas cinco tentativas de mudar de assunto, mas ninguém queria mudar de assunto.

OCORRE ATÉ UMA CERTA CULPA QUANDO A GENTE TENTA RIR, SE DIVERTIR. MAS ISSO É FUNDAMENTAL, UMA DOSE DE NORMALIDADE TEM QUE TER?

Sim. Assim como o suporte emocional, o reconhecimento de que a pessoa está sofrendo. E vamos enfrentar. Nós somos gaúchos, "não está morto quem peleia". Vamos reconstruir o que é possível.

QUAL A IMPORTÂNCIA DO SENSO DE COMUNIDADE NUMA HORA DESSAS? QUE APOIO, QUE FORÇA É POSSÍVEL ENCONTRAR NO OUTRO, TAMBÉM AFETADO PELA CATÁSTROFE?

Vi, no ginásio, pessoas consolando outras. Pessoas mais velhas consolando mais jovens e vice-versa. Se a pessoa te escutar, você vai se aliviar. As mulheres falam muito mais, se comunicam muito mais. Os homens têm mais dificuldade, há o preconceito de que eles têm que ser fortes, não podem se mostrar frágeis. Uma pessoa que possa chorar numa hora dessa está lavando a alma. (Em comunidade) Nós vamos dividir situações. Vou contar que perdi a minha televisão, que ainda não terminei de pagar as prestações. O outro vai falar sobre o que aconteceu com ele. Essas trocas nos tornam mais humanos perto dos outros humanos. 

Nós diminuímos a dor vendo que a dor é de todos. De uns mais, de outros menos. A pior dor é a dor solitária, a dor do "só eu". Por exemplo, pessoas que ficaram sozinhas antes do resgate. É uma situação muito difícil. O cavalo Caramelo era um ser solitário em cima de um telhado por dias, ele não tomou aquela água senão teria morrido, não sucumbiu e foi salvo. Isso é um símbolo. Aquela outra senhora que se agarrou a uma antena de TV por 24 horas e foi resgatada. Esses momentos de solidão absoluta numa tragédia são talvez o pior que é enfrentado.

TER ESPERANÇA É FUNDAMENTAL?

Fundamental, sim. A esperança é a mola para a reconstrução interna e externa. Esperança, a transmissão de uma mensagem positiva, isso ajuda muito. Pessoas que são muito pessimistas fazem muito mal a elas próprias, inclusive aos outros. Acho até que temos que nos afastar. É melhor estar perto de pessoas que tenham algo bom para transmitir. Pessoas esperançosas têm dentro delas objetos, como nós chamamos em psicanálise, que transmitem essa segurança. 

As pessimistas não têm. Está tudo já quebrado, tudo já não funcionou, elas não acreditam em nada, nada vai dar certo. E a coisa fica bem mais difícil. Dentro do possível tem que se fazer um esforço, ter uma postura positiva de enfrentamento. Vamos lá. Nós vencemos a covid-19, vacinamos as pessoas, sobrevivemos. O mundo inteiro estava em risco com a covid-19. Não fossem as vacinas, nós teríamos morrido todos.

SENTIR E MANIFESTAR RAIVA E INDIGNAÇÃO É IMPORTANTE?

É natural. "Por que eu? Por que não o fulano lá?" O ser humano tem raiva. Podemos até listar. O que é normal? O choque, primeiro. Aquele olhar que descrevi, parado, quase sem reação. O medo é muito comum, especialmente em idosos e crianças. O luto, que é o natural. A gente vai elaborando, vai se conformando em última análise. A raiva. O ressentimento. "Por que estão me fazendo isso? Eu não mereço. Eu sempre fiz o bem." A culpa. "Eu não devia ter vindo para cá. Eu não devia ter feito isso." A vergonha também. A desesperança. É grave a pessoa perder a esperança. O desamparo. Muitos idosos se sentem completamente desamparados por não terem ninguém, ninguém perguntou por eles. O entorpecimento, a confusão, a desorientação, a fadiga, a insônia.

COMO FICAM AS CRIANÇAS NESSE CONTEXTO?

As crianças dependem dos seus cuidadores, dos seus pais. Vou contar uma história que conto sempre para os alunos. No bombardeio a Londres, na Segunda Guerra Mundial, foi feito um estudo. As crianças, suas mães, seus pais iam para dentro dos bunkers para fugir do bombardeio. Viam-se crianças desesperadas e crianças tranquilas. O que se verificou? Quando o pai e a mãe, apesar de toda essa desgraceira, conseguem manter a calma, uma posição de esperança, de "nós vamos conseguir", "nós vamos sair dessa", a criança se tranquiliza. 

Quando o pai e a mãe não têm essa postura e estão também desesperados, as crianças sucumbem junto. A criança é um espelho dos pais. Isso, na crise, também aparece claramente. Crianças em pânico e crianças tranquilas. Um menino passou perto de mim no abrigo, chamei, comecei a conversar. Ele estava muito tranquilo. Perguntei onde estava a mãe, e ele me apontou. Ela estava olhando para nós. Essa senhora estava tranquila. Me lembrei dessa história toda. Agora não existem mais colégios em algumas áreas, e em outras, para chegar, é impossível. O colégio é muito importante. O encontro com os iguais, com a professora. A professora tem um papel materno secundário importantíssimo. E tudo isso ficou aí no barro, nessa confusão toda.

O SOM DA CHUVA NÃO É MAIS TRANQUILIZADOR COMO ERA PARA MUITAS PESSOAS, UM CONVITE AO RELAXAMENTO E AO SONO. SERÁ POSSÍVEL RESSIGNIFICAR OUTRA VEZ ELEMENTOS COMO ESSE COM O TEMPO?

Vou fazer uma comparação com uma coisa trágica que tem um grande valor afetivo que é o suicídio de uma pessoa. Estudos mostram que, para uma família elaborar um suicídio, elaborar mentalmente um suicídio, leva três gerações. O neto ainda vai estar sob a égide de que o vô se suicidou. Essa comparação é um pouco exagerada, mas eu acho que vai levar muito tempo para a chuva ser uma coisa romântica, para ser motivo de música. Vai levar tempo, vai levar tempo com certeza. Isso vai marcar a nossa história, a história do Estado. E o som dos helicópteros, parece guerra.

EM RESUMO, O QUE É FUNDAMENTAL PARA MANTER A SAÚDE MENTAL?

A esperança é fundamental. Temos que ter uma atitude positiva, de enfrentamento da situação. Temos que sobreviver e estamos sobrevivendo. Bola para a frente. Acho que a gente tem que ter essa atitude. Não esquecer também essa diferença grande: a reconstrução mais importante não vai ser de casas, terrenos, telhados. Vai ser a reconstrução de cada um, o seu luto, o que perdeu, para poder seguir vivendo.

ESSE É UM TRABALHO DE MUITO TEMPO?

Um luto desse tamanho... Um ano, dois anos. Mas o importante é que a gente esteja no processo, que esse processo não fique trancado. E que a gente possa identificar as pessoas que estão ficando para trás, que não estão conseguindo. Essas pessoas precisam de assistência médica especializada dos colegas psicólogos, dos colegas psiquiatras, dos postos de saúde. Porque aí começa todo tipo de problema.


01 DE JUNHO DE 2024
DRAUZIO VARELLA

FACULDADES TABAJARA

Temos no Brasil 389 escolas de medicina. Nos Estados unidos, são 131. Na China, há 150. Abrir faculdades de Medicina como temos feito é um negócio absurdo que vai nos custar caro.

Temos 389 faculdades (por enquanto), número que nos confere o título de vice-campeões mundiais. Ganhamos dos Estados Unidos que têm 131, e da China, com 150 para 1,4 bilhão de habitantes. Só perdemos para a Índia, o país mais populoso do mundo, mesmo assim por pouco tempo, mantida a irresponsabilidade atual.

Os dados da Demografia Médica 2024, recém-publicados pelo Conselho Federal de Medicina, revelam que nos últimos 10 anos autorizamos o funcionamento de 190 faculdades, mais do que em toda a história da medicina brasileira.

Por que tanto interesse em abrir escolas médicas? Com mensalidades que podem passar de R$ 10 mil, não vamos perder tempo à procura de explicações. Há 576 mil médicos no Brasil, quatro vezes mais do que aqueles em atividade no início dos anos 1990, quando éramos 144 milhões, portanto, 70% da população atual.

Você, prezado leitor, pode pensar que, num país com tantas deficiências no acesso à saúde, quanto mais médicos tivermos melhor será o atendimento. Está enganado. Primeiro: essas faculdades são criadas em instalações inadequadas para os laboratórios do curso básico e sem dispor de hospitais-escola dignos desse nome.

Segundo: não existem no país professores com formação acadêmica em número suficiente para oferecer cursos com um mínimo de qualidade para tantos alunos.

Terceiro: não temos vagas na Residência nem para a metade dos formandos. Como os concursos para Residência aprovam os mais preparados, caímos numa situação paradoxal: os mais preparados passam mais cinco anos em treinamento nos melhores hospitais, enquanto os demais são jogados no mercado de trabalho sem qualquer avaliação técnica.

Os advogados enfrentaram esse problema estabelecendo a obrigatoriedade do Exame da Ordem, exigência necessária para exercer a profissão. Na medicina, forças ocultas impedem que o mesmo seja feito. A justificativa no nosso caso seria até mais lógica: o advogado incompetente corre risco de ser eliminado do mercado de trabalho, o médico com menos preparo é o que vai atender no interior e nas periferias das cidades. Você, caríssima leitora, se tiver a infelicidade de sofrer um acidente numa estrada, terá chance de selecionar o médico que vai atendê-la?

Quarto: faculdades de má qualidade continuam abertas pelo país afora, jogando centenas, senão milhares, de jovens mal treinados para atender em ambulatórios e nos prontos-socorros. Os Estados Unidos, a certa altura, fecharam dezenas delas. Um exame de suficiência a cada dois anos teria a vantagem de avaliar a qualidade do ensino, dar oportunidade para aprimorá-lo e proibir novos vestibulares nas escolas com os piores resultados.

Quinto: os custos da assistência médica aumentam muito quando o médico não sabe como resolver os casos dos pacientes que atende. Na indecisão, a oportunidade do diagnóstico precoce é perdida, a doença progride, o tratamento fica mais difícil, os exames mais frequentes e os procedimentos técnicos mais complexos e dispendiosos.

E, pior, o desperdício aumenta. Talvez na esperança de que os exames laboratoriais e as imagens lhes indiquem o caminho que desconhecem, maus profissionais pedem quantidades injustificáveis de exames, abusos que nós, médicos, cansamos de testemunhar.

Esses exageros deram origem à "cultura dos exames", segundo a qual as pessoas acreditam que quanto mais exames fizerem, melhor o atendimento. Quantas vezes, leitor, você ouviu de um amigo sedentário que fuma, bebe além do razoável, come tudo o que lhe oferecem e pesa vinte quilos a mais dizer "fiz todos exames, estou ótimo".

Sexto: deixo para o fim o mais importante: maus médicos são um perigo para seus pacientes. Não seria este o argumento definitivo para selecionarmos essa enxurrada de profissionais mal formados e de faculdades de medicina precárias que os interesses financeiros insistem em multiplicar?

Não precisamos de mais médicos para concentrá-los nos grandes centros, mas para distribuí-los pelo país, nas localidades que necessitam deles.

Faz sentido mais da metade dos médicos brasileiros ficarem concentrados no Sudeste ou que na cidade de Vitória, no Espírito Santo, existam 18,6 para cada mil habitantes, enquanto no Estado do Amazonas sejam 0,2 por mil amazonenses?

DRAUZIO VARELLA

01 DE JUNHO DE 2024
J.J. CAMARGO

SIMPLESMENTE SEJA. CANSA MENOS

"Seja você mesmo. Todos os outros já existem." (Oscar Wilde). Há uma mistura de inocência e boa-fé para justificar a tendência de se atribuir às grandes tragédias a capacidade de modificar a índole dos envolvidos.

Na verdade, as catástrofes não conseguem mais do que colocar na vitrine nossos defeitos e nossas virtudes. E, por alguma razão, ficamos mais chocados com os nossos defeitos do que encantados com as nossas virtudes.

Os cruéis e os generosos não se fizeram assim por influências externas circunstanciais. Eles já estavam prontos desde sempre, à espera de um acontecimento extremo que os desnudassem. E então, com igual naturalidade, os apresentasse ao mundo para espanto dos ingênuos e compensação silenciosa dos que já não se surpreendem mais porque viveram o suficiente para antecipar reações em condições adversas.

Quanto mais inesperado for um evento, mais eficiente será como gatilho revelador do caráter de cada um, porque retira a possibilidade de que o mau pareça bom, o que exigiria um tempo para ensaiar uma postura que seja minimamente convincente de uma virtude que não existe.

Mas mesmo com atitudes planejadas os falsos virtuosos correm o permanente risco de desmascaramento, porque sempre haverá alguém para desarquivar uma fala ou um vídeo, sempre haverá delatores.

Muito se tem criticado as redes sociais, que, fomentadas pelos mais variados modelos de sociopatia, se transformaram numa espécie de divã coletivo de uma sociedade que se esmera em renunciar aos valores básicos do convívio civilizado. Mas isso não obscurece o grande mérito da internet: garantir pernas curtas à mentira.

O arquivo virtual de tudo que dissemos, pensamos ou fingimos devia, pelo menos teoricamente, tornar o nosso mundinho um lugar mais confiável, mas essa expectativa otimista subestima a cara dura dos cínicos, que sempre podem argumentar que aquilo dito foi retirado de um outro contexto. Esses argumentos mais chateiam do que convencem, por subestimarem a inteligência mediana das pessoas.

No meio de uma catástrofe como a que estamos vivendo, creio que nada é mais eficiente na identificação do caráter do que a emoção, um sentimento tão exigente de autenticidade, que até na arte da interpretação rapidamente se define os que nunca serão mais do que comediantes medíocres.

Parece também ingênua a pretensão de amestrá-los, com a tola intenção de ostentar solidariedade com o pesadelo coletivo, se no meio do discurso vazio os tipos não conseguem resistir à tentação de fazer uma graça, ignorando que não há nada mais inesquecível do que a desconsideração no sofrimento.

Por mais que tenha virado moda valorizar o que se convencionou chamar de "construção de uma narrativa", essa tentativa é inútil porque, implacavelmente, o que cada um tem dentro de si sempre extravasa. Recomenda-se aos utopistas, ou seja, os que creem que vale a pena tentar recuperar um radical, que busquem entre os amigos aqueles com algum resíduo de senso crítico e capaz de repetir-lhes à exaustão: "Poupem-nos desse discurso vazio e simplesmente sejam. Cansa menos".

Infelizmente, essa observação só vai alcançar quem não precisa dela. Porque os cínicos e demagogos persistirão na busca de exposição máxima, porque creem que esse é o instrumento mais eficiente na perpetuação do poder, e para isso contam com os que têm dificuldade de identificá-los.

Constrange a obsessão do populista, incansável na perseguição a qualquer evento que signifique visibilidade e sempre com um fotógrafo enfarruscado a tiracolo. O mau humor daquele profissional é compreensível. Sentindo-se triste como qualquer pessoa normal, ele não suporta mais a companhia sorridente de um oportunista.

Sem contar a penitência de ouvir o mesmo discurso, indefinidamente.

J.J. CAMARGO

01 DE JUNHO DE 2024
ARTIGOS

AS IRAS DE SÃO PEDRO

Anos atrás, em tempos de longas estiagens, em que rios e lagos quase secavam ou diminuíam os caudais, era comum dizer que São Pedro tinha se esquecido de nós. Noutras vezes, com chuvas incessantes e enchentes, dizíamos que São Pedro se esquecera de fechar a torneira das nuvens. As expressões não tinham qualquer sentido nem se referiam ao Apóstolo. Numa brincalhona metáfora, atribuíam a ele culpas por algo que ninguém explicava.

Em meados do século passado, a ciência descobriu que as enxurradas e as estiagens (alternando-se entre si) eram provocadas pelas mudanças climáticas. Surgiram os negacionistas, atribuindo o fenômeno a "algo natural", inerente à existência do planeta.

As enchentes em nosso Estado já completaram um mês. As sequelas não desaparecem e atingem tragicamente não só a economia, mas especialmente as pessoas.

Reaparecem nas epidemias que as inundações espalharam, deixando rastros por toda parte. De um lado, o lodo nos prédios invadidos pela água e a destruição dos pertences, de móveis a automóveis; de outro, a ameaçadora leptospirose e outras doenças derivadas da mistura de água com fezes humanas ou de animais.

As mudanças climáticas previstas pela ciência se desenvolveram e cresceram. As enchentes de agora são consequência de nossa cegueira e nosso desdém pela natureza. "As águas ocuparam o lugar dos bosques e florestas", lembrou o geólogo Rualdo Menegat.

Em rios e lagos, as matas ciliares foram substituídas por construções e edifícios elegantes. O desmatamento na Amazônia se reflete aqui, onde saímos de longa estiagem e passamos a vítimas de inundações jamais vistas.

A enchente de 1941 foi já um pré-aviso da crise climática, mas nada sabíamos, nem a expressão existia. Porém, ao sermos alertados pela ciência, nada foi feito para atenuar as consequências. Em Porto Alegre, o prefeito Sebastião Melo preferiu colorir o muro de contenção da Avenida Mauá do que conservá-lo para resistir à agua invasora. Nem sequer pensou em bombas, emprestadas agora pela Sabesp de São Paulo.

São Pedro não tem culpa. Cegos somos nós.

DARCI HARTMANN

01 DE JUNHO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

MONTANHAS DE ENTULHO E LIXO

São múltiplas as consequências da brutal tragédia climática que se abateu sobre o Estado. Elas aparecem em áreas como infraestrutura, economia, educação e saúde, entre várias outras, com numerosos desdobramentos. Por qualquer ângulo que se olhe, há um problema de vultosas proporções a necessitar de uma solução imediata e, ao mesmo tempo, que sinalize uma perspectiva de futuro. Uma dessas preocupações é encontrar destinação adequada às montanhas de entulho, lixo e resíduos gerados pela enchente.

É espantoso o cálculo referente ao volume de entulho de origem da construção civil criado pela força avassaladora das águas. Conforme projeção do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFGRS, elaborada com a colaboração de voluntários e da empresa Mox Debris, seriam mais de 46 milhões de toneladas, resultado da avaria ou destruição de 400 mil construções urbanas. Para se colocar esse volume em perspectiva, pode-se lembrar que, antes das chuvaradas, a Emater estimava que o Estado todo teria uma safra de grãos de verão de 35 milhões de toneladas. Pois a quantidade de escombros - materiais como tijolos, telhas, madeira e aço - pesa um terço a mais.

Ainda está fora desse cômputo a imensa quantia de móveis, eletrônicos, roupas, geladeiras, fogões e carros que estragaram e vão virar rejeitos e sucata. Nas áreas urbanas alagadas onde a água já baixou, são desoladoras as cenas de mobiliário estragado depositado nas calçadas à espera de recolhimento. Consultoria especializada no setor automotivo, a Bright Consulting projeta em 200 mil a quantidade de veículos perdidos no Rio Grande do Sul nos alagamentos.

A gestão adequada desses resíduos será desafiadora para o poder público. Reconhece-se que os aterros existentes no Estado não suportam tamanho volume em tão pouco tempo. A dificuldade aumenta porque há muito material mesclado e, diante das demais urgências ocasionadas pela tragédia, uma separação por tipo de material fica relegada a segundo plano. Mas devem ser buscados a reciclagem e o reaproveitamento de parte desse material, para mitigar potenciais repercussões negativas. Caso contrário, corre-se sério risco de criar um impacto ambiental ainda maior pelo descarte inapropriado, com contaminação de solo e mananciais. Há materiais tóxicos misturados. As montanhas de resíduos também se tornam locais propícios para a proliferação de vetores de doenças. Surge, assim, um problema de saúde pública.

Em especial na Região Metropolitana, também foram perturbadoras as imagens que mostraram a profusão de lixo doméstico de todo tipo boiando nas regiões alagadas. Além das falhas de manutenção nos sistemas de drenagem, por óbvio esses resíduos, ao obstruírem bocas de lobo, bueiros e dutos que deveriam ser usados para escoar a água, contribuíram para a continuidade das inundações. Entre as variadas reflexões que a tragédia em curso deve suscitar, uma delas é a conscientização da sociedade quanto à produção, separação e destinação correta de lixo.

OPINIÃO DA RBS

01 DE JUNHO DE 2024
CONSELHO EDITORIAL

AMÁLGAMA DE DISSONÂNCIAS

Na história recente do jornalismo americano, é conhecido o papel desempenhado pelo Times-Picayune, jornal de New Orleans cuja corajosa cobertura da tragédia do furacão Katrina, em 2005, lhe rendeu um prêmio Pulitzer. Menos frequente é o destaque a sua trajetória no período seguinte ao desastre, quando as grandes emissoras dos Estados Unidos e as agências internacionais de notícias retiraram os holofotes da metrópole inundada.

O Picayune se tornou um espaço privilegiado de debate de ideias para a reconstrução. Alguns diziam que New Orleans, com 484 mil habitantes pré-furacão, deveria ser abandonada - e uma nova cidade precisaria ser reconstruída em outro lugar, longe do Lago Pontchartrain, no qual os diques esfarelaram-se com o vento. Outros defendiam que a cidade deveria ficar e, com um grande plano de reengenharia, se tornar mais resiliente. Foi o que ocorreu. Mas entre o hoje e o ontem, várias sugestões afloraram nas páginas impressas e da web do Picayune.

Esse é um dos papéis do jornalismo profissional passado o momento mais dramático de uma tragédia, fase na qual o Rio Grande do Sul está ingressando: ser hub para um gigantesco brainstorming, dando voz à Academia, à sociedade civil, ao poder público e à iniciativa privada. Ao mesmo tempo que oferece seus espaços para ser praça pública, um veículo de comunicação funciona como amálgama de convergências em meio a dissonâncias, iluminando o debate com exemplos de fora, de cidades pelo mundo que se tornaram mais fortes após viverem suas catástrofes dentro de casa.

Há também, claro, outros papéis: o jornalismo pós-tragédia deve cobrar eventuais responsabilidades, fazer a crítica construtiva diante de planos mirabolantes que surgem no processo e desnudar o aproveitamento político do desastre. A prática do jornalismo investigativo é profilaxia contra a corrupção.

Em meio a tudo isso, um veículo de comunicação deve ser a alavanca do espírito de um povo, como foi o Picayune em New Orleans: porta-voz das dores da população, mas também de seus anseios de renascimento. No Rio Grande do Sul, quando a verdade submergiu no alagamento da desinformação, o rádio a pilha se tornou um farol. No day after, é na imprensa profissional que a população terá seus direitos esclarecidos e cobrados.

Por fim, o jornalismo perpetua o fato. Não esqueceremos. Quando muitos forem embora, os jornalistas do Rio Grande do Sul continuarão, ano após ano, lembrando a maior tragédia ambiental dos gaúchos - só assim seremos melhores, na vigilância para que não se repita. New Orleans não é igual a antes de agosto de 2005. Assim como o nosso Estado não será depois de maio de 2024. Se seremos melhores ou piores, vai depender de todos nós.

RODRIGO LOPES

01 DE JUNHO DE 2024
+ ECONOMIA

Ajuda italiana com 30 toneladas em itens Recuperação começa antes do auxílio

Com a meta de reunir orientações às empresas gaúchas afetadas pela enchente, o Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef) elaborou o guia Recuperação Econômica de Empresas do RS, disponível para consulta grátis.

A cartilha compila medidas trabalhistas, tributárias e financeiras propostas por governos municipais, estadual e federal. Para Ismael Santos, um dos responsáveis pela elaboração do material, a reestruturação de negócios gaúchos pode começar sem os auxílios emergenciais.

- Agora, a melhor medida financeira para empresas é observar a cadeia de valor. É uma conversa transparente com o proprietário do aluguel, com clientes, com fornecedores. Fazer parceria de operação. Até porque, quando olhamos para os bancos, existe burocracia. No curtíssimo prazo, não vemos o dinheiro caindo na conta das empresas - diz Santos, ao lembrar que é preciso mapear perdas, mas estruturar vendas e despesas, sejam fixas ou variáveis.

Por iniciativa do ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, o governo italiano enviou um avião militar com ajuda humanitária para as vítimas das inundações que atingiram o Rio Grande do Sul.

A ação foi organizada e financiada pela Direção-Geral para a Cooperação e o Desenvolvimento do Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da Itália (MAECI), em colaboração com o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas.

O avião partiu da Base de Pronto Intervento Umanitario das Nações Unidas (UNHRD) de Brindisi, no sul da Itália, e pousou no início da noite de quarta na Base Aérea de Canoas.

A aeronave transportou material que inclui equipamentos especializados para emergências, como medicamentos e suprimentos médicos para o tratamento de cerca de 100 mil pessoas pelo período de três meses, tendas para 4,5 mil pessoas, cinco geradores, dois potabilizadores capazes de produzir 64 mil litros de água potável por dia e quatro tanques de 10 mil litros para armazenamento de água potável. No total, são 30 toneladas de bens.

A entrega oficial da ajuda humanitária italiana foi acompanhada pelo embaixador da Itália no Brasil, Alessandro Cortese, e pelo cônsul-geral da Itália em Porto Alegre, Valerio Caruso.

RAFAEL VIGNA INTERINO


01 DE JUNHO DE 2024
OPORTUNIDADE

PUCRS cria iniciativa para apoio à busca de empregos

A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul lançou iniciativa para prestar suporte na busca por empregos por trabalhadores que perderam sua fonte de renda na calamidade climática. O EmpregarTCHÊ, administrado pelo programa PUCRS Carreiras e pela Fundação Irmão José Otão (Fijo), já cadastrou a candidatura de dezenas de desempregados e associou 13 empresas parceiras.

Conforme a coordenadora do PUCRS Carreiras, Katia Almeida, o cadastramento de currículos teve início no abrigo mantido no centro esportivo da universidade. Cerca de 50 trabalhadores foram presencialmente assessorados para que pudessem cadastrar dados no sistema.

- Muitas destas pessoas perderam suas casas e seus trabalhos. Percebemos que a iniciativa vinculada ao serviço que já é mantido na PUCRS poderia ajudar neste momento - explica Katia.

Para cadastrar-se, o candidato deve acessar o portal (carreiras.pucrs.br/programa/61/ empregartche). O primeiro passo é definir e-mail e senha de ingresso. É necessário preencher dados pessoais e informações profissionais para facilitar a conexão com empregadores.

Realizado o cadastro, o currículo passa a fazer parte de um banco, onde as empresas terão acesso e poderão fazer contato se o perfil se conectar com a vaga que oferecem.

sábado, 25 de maio de 2024


25 DE MAIO DE 2024
CARPINEJAR

Na linha de frente

Bombeiros e brigadianos, que estão corajosamente na linha de frente dos resgates, precisam de ajuda. Por trás da farda, são também moradores e vítimas do maior desastre ambiental da história gaúcha.

Cerca de mil policiais militares perderam casa ou tiveram prejuízos incalculáveis pela enchente.

São inúmeros os exemplos de desamparo na Região Metropolitana e no Interior.

Recebi notícia de alguns: os soldados Souza e Coutinho, da Brigada Militar de Taquari, tiveram suas residências totalmente inundadas pela enchente.

Souza cuida de duas filhas e uma netinha. Coutinho é responsável por três filhos. Ambas as famílias estão desabrigadas.

Sei ainda do PM Gilberto Ferreira, em Nicolau Vergueiro. Não sobrou nada de pé na sua rua.

Viraram igualmente escombros o lar do sargento Gonçalves, em Muçum, e a moradia do sargento Cristiano Ávila, em Guaíba.

Imagino que nenhum deles é contemplado pela política do governo federal, que abrange famílias com renda na faixa 1 e 2 no Minha Casa Minha Vida.

Para crédito imobiliário, neste momento de calamidade pública, não há alternativa. E eles são estatutários, tampouco têm FGTS para sacar de imediato.

Dificilmente você verá bombeiros e brigadianos pedindo ajuda, desabafando ou comentando suas necessidades em redes sociais. Colocam a sua vida em risco por um juramento. São esquecidos logo após efetuarem corretamente o amparo, pois, para a sociedade, representam forças do Estado, arcam com a invisibilidade protetiva e não fazem mais do que a sua obrigação.

São socorristas profissionais, mobilizados para emergências, treinados a serem os últimos no atendimento, depois que todos já se encontrarem seguros, condicionados a sofrer calados, a não depor suas armaduras, muito menos a abrir os corações em causa própria.

Enquanto as cheias persistem, com o vaivém das chuvas, prosseguem peleando com a água no pescoço. Podem até não ter mais para onde voltar, podem até não mais possuir um endereço devido à invasão da correnteza, podem até penar de preocupação com os seus amores desassistidos, porém continuam trabalhando, cumprindo os seus deveres acima de suas dificuldades.

Realizam um serviço insano, homérico, heroico, anônimo, de manter a calma dos flagelados durante os salvamentos, de acolher os outros independentemente das suas condições pessoais.

Por isso, sabendo do laconismo do ofício, num movimento de empatia, eu me ponho no lugar deles.

Sugiro que o governo do Estado, via Banrisul, abra um crédito imobiliário com carência e juros menores para a corporação. Até porque eles terão muito trabalho pela frente na reconstrução e patrulhamento de nossas cidades.

Não seria um privilégio, mas uma questão de justiça.

CARPINEJAR


25 DE MAIO DE 2024
ARTIGOS

APRENDER COM A TRAGÉDIA

As tragédias não surgem ao acaso, como cogumelos após leve chuva. Ao contrário, têm causas concretas, mesmo escondidas do olho humano. Esta conclusão nem sempre é lembrada e, assim, tomamos as catástrofes tal qual o homem das cavernas, atribuindo o horror à "ira de Deus".

A catástrofe atual não surgiu por magia. Desenvolveu-se pouco a pouco. A seca de 1877 a 1878 no Nordeste matou perto de 400 mil pessoas. Tomamos o horror como algo "natural", sem vê-lo como consequência do desmatamento da região ao cortar "pau-brasil" para tingir vestimentas na Europa.

A ciência ainda não descobrira as mudanças climáticas e desconhecíamos que secas e enchentes eram apenas uma consequência. Tudo se agravou com os anos e séculos, acumulando o horror. Agora, destruiu o que encontrou pela frente numa guerra sem canhões ou balas, mas que não nos fez aprender com o passado.

Na Capital e em todo o Rio Grande do Sul, os governantes foram displicentes, dedicando-se apenas a atos burocráticos. As enchentes de 2023 não serviram sequer de alerta. No Estado, o governador Eduardo Leite já tinha mudado o pioneiro Código Estadual do Meio Ambiente (que serviu de modelo ao país), abrindo caminho para o horror climático. Em Porto Alegre, o prefeito Sebastião Melo desconheceu que o Guaíba cresceria com as chuvas, inundando a cidade. Não se interessou em consertar as comportas e bombas e a avalanche das águas surgiu num dilúvio moderno.

Mas há também o lado oposto: os milhares de voluntários que atuam em todas as áreas, salvando pessoas ou cozinhando para os desabrigados. De vários e distantes Estados vieram voluntários e máquinas de salvamento.

O Observatório do Clima da Fiocruz calcula que perto de 3 mil "estabelecimentos de saúde" (hospitais, consultórios e farmácias) foram atingidos no Rio Grande do Sul.

Nossa tragédia comoveu o mundo. Recebi mensagens de aflitos amigos da Bretanha, na França, e de Berlim, na Alemanha, onde também houve enchentes.

Indago: aprenderemos com a tragédia de agora ou seguiremos alheios ao horror? A ciência ainda não descobrira as mudanças climáticas e desconhecíamos que secas e enchentes eram apenas uma consequência



25 DE MAIO DE 2024
ARTIGOS

O DOADOR DAS ÁGUAS

Trabalhamos, em psicologia, com o fortalecimento do mundo interno, mas sabemos o quanto conta - e até mesmo decide - o que vem de fora. O outro sempre me salvou, conforme escreveu Ernesto Sabato, em seu último livro, escrito quase aos cem anos. "Outros" não vêm faltando neste momento trágico das enchentes no RS. Se não são todos - há quem produza fake news e pratique golpes -, é a maioria.

Surgem de todos os lados, no meio das águas. Doam, doam-se: a pé, de carro, de bote. É gente humilde. É gente rica em empatia. Gente incansável, que não se encolhe ao impossível. Cada um(a), a seu modo, está ali para salvar o outro, e vão além: ajudam a ativar o modo esperança, este que anda tão castigado diante da destruição do planeta e do aquecimento global. Com essa gente, não há cobiça, não há voracidade, não há capitalismo desenfreado ou desconhecendo limites. O bando só desafia o limite da morte e do sofrimento, combatendo-os o quanto pode.

Eu estava trabalhando como podia, tentando estar ao menos um pouquinho à altura desses outros, quando, ao final do dia, passei no súper. Apesar da promessa de não haver desabastecimento, não havia uma única água em prateleira nenhuma, não só ali como em outras filiais dessa Porto Alegre tão triste em suas catástrofes e paradoxos: água por tudo que é lado, mas sem água para beber; um céu azul, mas sem luz para ativar o que fosse necessário.

Na volta, entrei no táxi 3041 do Antônio Francisco, este senhor idoso e grisalho, com quem desabafei a gota seca desse drama. Ao final do relato, quando tentei me despedir, pediu que eu esperasse, enquanto abria o porta-malas. Ofereceu-me, então, em plena rua, dois litros de uma água potável que vinha do poço artesiano de seu terreno, na Zona Norte. Ele havia passado a manhã distribuindo-a aos vizinhos e se negou a receber qualquer gratificação.

Agora sim, despedi-me de Antônio Francisco com o modo esperança mais ativado do que as águas. "Outros" não vêm faltando neste momento trágico das enchentes no RS


25 DE MAIO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

RECUPERAR O AEROPORTO

A recuperação do aeroporto Salgado Filho está entre as principais premissas para o retorno pleno da atividade econômica no Rio Grande do Sul. Com a pista e o terminal tomados pela água que invadiu a zona norte da Capital, permanece incerto o prazo para a volta das operações. Vai depender da extensão dos estragos, uma avaliação ainda pendente.

A mais recente informação é a de que a Agência Nacional de Aviação (Anac) comunicou ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) da Aeronáutica que os voos estão suspensos ao menos até 7 de agosto. Mas existem diferentes projeções. Tanto de que poderia ser um retorno rápido, assim que o alagamento deixar de existir, quanto de que poderia ser mais demorado e incerto, em caso de danos estruturais na pista.

É preciso contar com que o poder público e a concessionária Fraport farão todos os esforços sob suas respectivas responsabilidades para abreviar o período de inatividade. Considerando-se as expectativas atuais, seria plausível traçar um cenário em que empresas e negócios afetados pela enchente já estariam em condições de voltar ao patamar de atividade anterior à enchente, enquanto o Salgado Filho permaneceria sem pousos e decolagens. 

Isso agravaria os prejuízos de segmentos de significativo peso na economia, como turismo de lazer, viagens corporativas, eventos e cultura, entre outros serviços. Ademais, o aeroporto não movimenta apenas passageiros, mas também cargas. São mercadorias que chegam a Porto Alegre de outras partes do país e do Exterior, assim como também são embarcadas. Em regra, são itens de maior valor agregado e, sem a opção aérea, os custos logísticos são maiores.

Até ser forçado a parar as operações, o Salgado Filho recebia, em média, 165 voos comerciais por dia, de acordo com a Fraport, citada em reportagens. Conforme o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, com o uso de outros terminais no Interior, seria possível ter emergencialmente no Estado, a partir desta segunda-feira, 134 voos semanais - provavelmente também em aeronaves com menor capacidade. Assim, em uma semana os gaúchos seriam atendidos por uma oferta aérea inferior ao movimento diário no Salgado Filho. Apenas esse dado comprova a importância de uma recuperação breve do aeroporto da Capital, onde em março circularam mais de 580 mil usuários, entre chegadas e partidas.

Como não há certeza de quando o Salgado Filho poderá reabrir, espera-se que as demais opções sejam dotadas de melhor estrutura para compensar parte da malha perdida. Não apenas a Base Aérea de Canoas, mas os aeroportos do Interior, concedidos ou administrados pelo poder público, já bastante utilizados para ajuda humanitária. São os casos dos terminais de cidades como Caxias do Sul, Passo Fundo, Santo Ângelo e Pelotas, entre outros. Qualificar as estruturas espalhadas pelo Estado também significará, no futuro, um trunfo para a aviação regional, com melhores condições de interiorização da malha. Por linhas tortas, trata-se de uma oportunidade, portanto.

Em relação ao Salgado Filho, outra consequência inevitável será a rediscussão entre o governo federal e a Fraport dos termos da concessão, para buscar o reequilíbrio econômico-financeiro do negócio. É algo previsto em contratos do gênero. Entre as opções está o aumento do tempo de exploração do terminal. Aguarda-se uma negociação que flua sem necessidade de judicialização e com o menor impacto possível para os usuários. Antes, porém, toda a energia deve ser canalizada para remover a água que toma o Salgado Filho e, em seguida, avaliar danos e tomar as providências para torná-lo outra vez operacional.


25 DE MAIO DE 2024
DIÁRIOS DO PODER

Canção para os gaúchos

O músico gaúcho Riccardo Crespo compôs a música Lágrima na Chuva como forma de contribuir para o esforço de reconstrução da autoestima dos gaúchos. Veja a letra.

LÁGRIMA NA CHUVA

Essa enchente é um grande aprendizado

É uma lição, é um baita desafio

Para unir nós, Gaúchos, um povo bravo

A irmandade aqui sempre existiu!

Solidários, venceremos a batalha

Nessas águas com calor, ou muito frio

Não se vê uma lágrima na chuva!

Só valentes, o peito aberto e muito brio

Oh! Rio Grande é a nossa pátria mais querida!

Cada um é o fruto Bento desse chão

Não se vê uma lágrima na chuva!

Canta forte com a voz do coração!

Salva Vidas!

Pra manter a Gauchada sempre unida

Salva Vidas!

Ao trabalho, muita luta, e amor à Vida!