sábado, 27 de julho de 2024



Veja como é possível transformar as dores da vida

Portal EdiCase

Pingos grossos lambem a janela do quarto enquanto me sento para escrever. Atrás da vidraça, a paisagem cinza ameaça apagar minhas palavras. Mais um dia de cidades devastadas, gente sem casa, com fome, guerras, doenças, perdas. Fecho a página das notícias como quem cerra a cortina. Não preciso ir longe… viver é mesmo tão doído!

Escolho um livro para amainar os olhos embaçados de chuva. Tiro da estante Cartas Perto do Coração (Record), uma coletânea de correspondências entre os escritores Fernando Sabino e Clarice Lispector. Não sei bem o que procuro até achar uma página com a ponta da folha dobrada. Sou arrebatada por uma frase do Fernando, em uma carta escrita em setembro de 1946, quando morava em Nova York.

Naquele mês, após ter operado as amígdalas e deixado o hospital, ele escreve à Clarice comentando um conto dela e um sonho que teve. Nessa carta, presenteia a amiga com o que eu considero uma pérola. Ele diz: “A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento”. Dali por diante, me agarro a essa iluminação.

A dor, afinal, atravessa a nossa experiência humana de modo inescapável. Ou como escreve a própria Clarice Lispector no livro Água Viva: “Dor é vida exacerbada”. Se ninguém vive sem sofrer, então, a pergunta que fica é: como lidar melhor com as dores que nos afligem? Como transformá-las e seguir em frente?

Força de vida

A fim de compreender esse algo nosso que é tão humano, fui conversar com mulheres que me ajudaram a ampliar o entendimento de que estamos nesse mundo para aprender e evoluir justamente por meio do que fazemos com o que sentimos. A nutricionista e terapeuta Ana Fanelli é uma delas. Sua história de luto e reconstrução de si me impactou. Há 12 anos, ela perdeu o filho mais novo para uma doença sem cura.

Felipe foi diagnosticado com uma síndrome neurológica rara com a idade de 12 anos. Sofreu um bloqueio elétrico no coração, seguido de complicações. Com o tempo, foi perdendo a mobilidade. “Não consegui aceitar a dimensão da gravidade, mas não tinha o que fazer, a não ser cuidar dos sintomas”, conta Ana. Segundo os médicos, havia uma expectativa de um a três anos de vida. Felipe viveu mais 13.

Mesmo com tantas limitações e dependendo de ajuda para atividades simples do dia a dia, o garoto pintava, cantava e conquistava a simpatia de todos à sua volta. “Ele tinha muita força de vida, e eu sinto que ele ficou mais tempo com a gente para ensinar. Viveu a graça de expressar quem ele era, uma pessoa muito alegre, que já acordava agradecendo o dia”.

Quando o coração congela

Ana não estava preparada para a perda do filho. Dois anos e meio antes, em uma das internações que Felipe enfrentou, ela procurou o primeiro auxílio psíquico. Sentada na poltrona do consultório, no entanto, ficou muda. Não sabia o que dizer. Foi o psicólogo quem jogou as cartas na mesa: “Você veio aqui para se preparar para a morte do seu filho”. Há dores que nem as quase 400 mil palavras da língua portuguesa dão conta de expressar.

Aos 25 anos, Felipe faleceu – 45 dias depois do pai dele, de quem a mãe já estava separada havia muito tempo. A reação imediata de Ana foi mergulhar no trabalho para não encarar o sofrimento sem nome. Sua vida se resumia a acordar, trabalhar e dormir. Na mesma casa, ela e o filho mais velho sofriam isolados.

“Foi um choque, para mim, muito profundo, sinto que eu congelei meu coração”, desabafa. Entrar no vitimismo não é nada difícil em uma situação como essa. Por que isso está acontecendo comigo? Justo eu e quem amo temos de passar por tal suplício? Essas eram perguntas que Ana fazia.

Além da raiva e do ressentimento por se ver naquela situação, tinha também um misto de culpa e vergonha pelos próprios sentimentos. “Eu saía daquele hospital e falava a mim mesma: ‘mas, Ana, você sai andando’… tudo o que eu assisti ao Felipe perdendo, eu podia fazer”.

O que se seguiu à morte do filho foi uma grande crise existencial. “Eu me dei conta de que estava viva. Mas e o que eu estava fazendo da minha vida?!”. O período de profunda tristeza e isolamento provocou um sentimento crescente de angústia.

No fundo do peito, martelando na consciência, a pergunta do sentido da própria vida não queria calar. E foi aí que Ana buscou novamente ajuda profissional. Chegou inicialmente a um grupo de mulheres e à psicoterapia, passando a se permitir “reconstruir os laços e lamber as feridas”.

A saída do labirinto

“Sozinha é muito difícil, mas com ajuda profissional é mais fácil superar as dificuldades”, atesta a médica e psicoterapeuta Cristiane Marino, com quem também conversei. É como um guia que mostra o caminho de saída do labirinto da dor. Afinal, a gente tem a tendência de achar que o que está sentindo é a totalidade, quando não é. “Se estou triste, é como se eu toda estivesse consumida pela tristeza. Ao perceber que isso é só um aspecto meu, que algo em mim está triste, mas não sou eu toda, a pressão interna diminui um pouco”.

Cristiane explica que, em situações de dores profundas, mas também nas menores e mais corriqueiras, há três papéis com os quais a gente acaba se identificando: o de vítima, agressor ou salvador. Buscamos culpados e justificativas externas, adotamos uma postura agressiva contra o outro ou queremos salvar tudo e todos. Em nenhuma das três posições, assumimos o nosso lugar no mundo como autores da nossa própria vida.

Não se trata de papéis estanques, em que somos apenas uma coisa ou outra. São posturas presentes em todos os seres humanos. “É como se fosse uma dança das cadeiras, em cada momento que a música para, a gente senta numa cadeirinha”, compara Cristiane, que promove um grupo de leitura do livro Abandonar o Papel de Vítima: Viva sua Própria Vida (Vozes), da psicoterapeuta suíça Verena Kast.

Na obra, ela pontua a importância de identificarmos “onde e quando nós mesmos desempenhamos qual papel”. Acabo compreendendo que perceber em qual cadeira estou sentada me ajuda a discernir o que é meu e o que é do outro. Me dou conta de que a responsabilidade de como reajo às situações é apenas minha, embora ainda me pegue culpando o outro pelo que sinto. “Por mais difíceis que sejam as condições externas, a gente escolhe como quer enfrentar as situações”, diz Cristiane.

Indefesa perante a dor e o mundo

Acontece que quem vive a situação nem sempre consegue perceber isso. De acordo com a psicóloga Ilana Roriz, o lugar de vítima é doloroso porque a pessoa acredita não ter condições de agir e paralisa. “Ela se sente indefesa perante a dor e o mundo, considera-se sem condições de lutar pela dignidade de ser agente na vida”.

Quem entra no vitimismo acaba recaindo também na agressividade consigo ou com o outro. Engana-se quem pensa que o efeito disso é meramente emocional, sem grandes repercussões concretas. Como se já não fosse grande coisa, essa dinâmica suga a energia psíquica, provoca a queda da vitalidade e aciona o sistema de luta e fuga, conforme explica Cristiane Marino.

As consequências não são poucas e podem incluir sono agitado ou insônia, estresse e problemas na imunidade, como a suscetibilidade a infecções e inflamações. “Se essas dinâmicas não são cuidadas, prejudicam a saúde física, desequilibram todo o sistema nervoso autônomo e a pessoa não ativa o sistema parassimpático, que é o de restauração”, ensina a profissional.

Algo a contribuir

Assumir a postura de vítima, no entanto, não é uma decisão consciente, mas, uma vez que nos damos conta dela, é importante ter paciência conosco e saber que há sempre uma saída. Segundo Ilana, é necessário reconhecer o quanto já se caminhou até aqui para entender que existe vida além da dor.

Foi isso que Ana Fanelli descobriu na jornada de autoconhecimento na qual embarcou, ao compreender que precisava transformar a dor que sentia e ressignificar a própria vida. Ela fez terapia, participou de roda de mulheres, ingressou na dança circular e fez formação holística de base.

Há cerca de cinco anos, saiu do trabalho corporativo como nutricionista para fazer um retiro sabático. Passou a ser consultora em nutrição, até fazer uma transição de carreira e se tornar terapeuta transpessoal e instrutora de mindfulness. Hoje, une a isso a alimentação consciente e o trabalho com a maturidade. Ana lembra que a dor inicialmente foi tão imensa que a congelou, deixando uma cicatriz.

Uma marca tão funda que pode estar lá quietinha, mas não deixa de existir e, às vezes, até reaviva. “Quando você consegue perceber que não é só você que passa por isso, essa cicatriz se acomoda. O universo do sofrimento está dado na nossa experiência humana. A questão é o que a gente faz com isso”.

A crise existencial provocada pela perda do filho fez com que Ana fosse em busca de se reinventar e expressar sua singularidade no mundo. Para ela, o que se vive hoje também pede isso de nós. “A gente está experimentando situações que estão esfregando na nossa cara que não temos controle da vida; passamos pela pandemia, agora essa emergência climática em vários locais no planeta. O que nos cabe é expressar o que temos a contribuir”.

Distanciamento e recolhimento

Mas onde estão nossos insumos? Ressoam em mim as palavras de Ilana: “Quando a pessoa sai da posição de incompreensão consigo e reconhece que algo de bom já existiu, aos poucos, retorna ao lugar que sempre há em nós, o de protagonista da nossa história”.

Cristiane Marino ensina que distanciamento e recolhimento são muito importantes nesse processo. Para recrutar os recursos internos e renovar as energias, são necessários momentos de pausa e repouso, assim como contato com a natureza e o belo, boa qualidade de sono e alimentação.

Mais uma dica valiosa para quem vive um momento de dor é não se expor desnecessariamente – seja nas redes sociais ou na vida cotidiana. “Veja um animal ferido. O que ele faz? Busca um abrigo onde ninguém o encontre. A gente tem de aprender o valor do recolhimento, que é diferente do isolamento”, afirma.

Outras atitudes de cuidado consigo também são úteis para não se deixar afundar no sofrimento, como movimentar o corpo, tomar sol, cultivar relações que nos dão alegria e incluir no dia a dia atividades que nos alimentam internamente – tocar um instrumento, escrever, pintar, cozinhar, cuidar de plantas, o que mais gostar.

Punhados de fé

“Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar”… Felipe, que era um rapaz musical, tinha nesses versos do Gil uma das suas canções preferidas e lema de vida. E foi justamente esse sentimento que ficou para a mãe. Além de carregar a dor a tiracolo, Ana aprendeu a levar consigo punhados de fé.

Todo o processo vivido a fez acreditar em algo maior, o que hoje ela chama de Consciência Divina. Apesar de não ter uma religião definida, os ensinamentos budistas a ajudaram a entender melhor a natureza da vida e das emoções. Ela sentiu que, como pessoa, não daria conta, e só assim pôde se sustentar. A teia que une todos nós a amparava.

A psicóloga Ilana Roriz explica que o reconhecimento de que existe algo além do ser humano está na origem da psicoterapia. Para ela, cultivar a espiritualidade é, portanto, fundamental para a cura das dores da alma. “Com essa conexão, há a certeza de que não se está só, e assim desenvolve-se a fé em um processo de restauração da saúde. Com essa ligação refeita, a confiança em si mesmo se torna viável para perceber o seu protagonismo, apropriando-se do legítimo direito de ser único e especial perante Deus e a si mesmo”.

A jornada de Ana é prova disso. Dois meses antes de falecer, Felipe pintou um quadro cuja arte retrata uma orquídea pingo de ouro, de flores miúdas e amarelas. É essa a lembrança que Ana guarda consigo, representando o coração do filho que, enquanto esteve vivo, expressou toda sua força de vida e gratidão por estar aqui. Até hoje, quando se aproxima a data de passagem ou nascimento dele, ela vê florescer orquídeas douradas miúdas por aí. Após ter sofrido muito, Ana aprendeu a sofrer bem. É como se o filho se fizesse perto outra vez, e ela, de repente, sorri.

Por Luísa Sá Lasserre – revista Vida Simples

Escritora e jornalista sensível às dores do outro e do mundo, ela acredita que viver dói, e como, mas também faz sorrir.


26/07/2024 - 09h00min
Gilmar Fraga / Agencia RBS

Hoje somos todas loucas, belas e inteligentes, sem cair na esparrela de que temos destino único. Rótulos eram colados em nossos braços como marcas de vacina.

Era um pátio enorme, com árvores esparsas circundadas por bancos de madeira pintados de vermelho. Nos dias que não estávamos jogando vôlei ou praticando outra atividade física, ficávamos empilhadas naqueles bancos, gastando a hora do recreio em conversas adolescentes – o assunto eram os guris de outro colégio.  

Naquela manhã de segunda-feira, as mais bonitas da turma estavam irrequietas, uma falava em cima da fala da outra. A festa do sábado anterior havia sido de fartura. Todas dançaram muito, foram paqueradas, uma delas engatou um namoro “sério” – já durava quase 48 horas. Todas elas, de certa forma, saíram daquele fim de semana meio casadas. Não eu, nem minha amiga Karin. Para nós, havia sido apenas uma festa a mais. Divertida, mas longe de ser o divisor de águas da juventude.

Quando o sinal bateu para chamar as alunas de volta à sala de aula, as bonitonas se afastaram aos cochichos e risadas. Foi quando minha amiga disse para mim: “Melhor a gente se acostumar. Vamos ficar pra tia”. 

Isso tudo faz tempo, como o vocabulário entrega. Ela quis dizer que nós não teríamos a mesma sorte das beldades, que nós não teríamos a vida transformada em um conto de fada assim que nos tirassem para dançar, que não éramos o tipo de garota que atraía os rapazes (devorávamos livros como as outras devoravam esmaltes), nós não havíamos sido talhadas para o amor, melhor nos unirmos em desgraça e, em vez de sonhar em formar família, fundarmos uma biblioteca.

Não foi assim que ela falou, mas era este o recado. Ela estava me convocando para o limbo e oferecendo sua parceria como atenuante. Lembro de ter pensado: nós não fomos talhadas para o amor?? Nós quem? 

Alguns anos depois, minha amiga foi trabalhar na Europa, em uma gerência que na época era talhada só para os homens, veja só, e hoje, de volta ao Brasil, é difícil encontrar quem seja tão preparada quanto ela. Não quis se casar. Eu, mais convencional, namorei, casei, descasei, namorei de novo e ainda me pergunto: nós quem? Já naquela época, me soava cruel a história de que as bonitas namoravam, e as que liam – porque não tinham namorado – eram recompensadas com os primeiros lugares no vestibular.  

Rótulos eram colados em nossos braços como marcas de vacina. Ou você era muito louca, ou muito noiva, ou muito cabeçona. Foi o final de uma era em que ainda se tentava colocar as mulheres em escaninhos. Até que as bonitas começaram a folhear páginas e mais páginas com suas unhas bem esmaltadas, e as que já eram viciadas em livros tornaram-se gatas pelo feitiço da autoestima e da autoconfiança, e hoje somos todas loucas, belas e inteligentes, sem cair mais na esparrela de que temos um destino único. Sim, nós todas. Até as noivas. Até as tias. 

Martha Medeiros


27/07/2024 - 05h00min
João Cotta / TV Globo,Divulgação

Os salvadores da pátria 

Vira e mexe aparece alguém que promete trazer verdades escondidas. Aquele que tem a coragem de falar o que ninguém diz, doa a quem doer. O caso do Nego Di tem estampado os sites e noticiários nos últimos dias.

Começo te dizendo: eles não existem. É que nem o Homem Aranha ou a Mulher Maravilha. São muito legais nos filmes e desenhos animados, mas não fazem parte do mundo real. Eu também queria chamar a Patrulha Canina para resolver os problemas de vez em quando, mas aqueles cachorrinhos fofos e voluntários não se materializam, infelizmente. 

Vira e mexe aparece alguém que promete trazer verdades escondidas. Aquele que tem a coragem de falar o que ninguém diz, doa a quem doer. Um vídeo que trará fatos sobre algo que a imprensa quer esconder. O justiceiro. O que vai separar o joio do trigo a respeito dos governos, instituições e pessoas. Alguns também prometem emagrecimento sem esforço, inglês fluente em semanas, a pessoa amada em algumas horas e dinheiro sem trabalhar. 

Por que nós, seres humanos, nos prendemos tanto a uma ideia de salvador da pátria, de uma figura que resolva os nossos problemas, ou mesmo que diga simplesmente o que queremos ouvir? Pois exatamente aí está a brecha. É quando quem quer nos convencer de algo consegue o espaço certo. Pega a nossa fragilidade mais íntima. Vende soluções para uma preocupação que está ali, quieta, mas que gera identificação imediata. 

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Assim acabamos dividindo a vida entre influenciados e influenciadores e acabamos trazendo para a vida real discussões importantes com embasamento muitas vezes em mentiras. Não à toa muita gente que nunca ouvimos falar tem milhões de seguidores. 

Nascem os jogos do tigrinho, os sorteios de dinheiro, de smartphones. O famoso almoço grátis faz nossos olhos brilharem a ponto de esquecermos de notar coisas óbvias. O erro grosseiro na gramática, o preço muito mais baixo que o de mercado, a promessa de resultado fácil.  

O caso do Nego Di, que tem estampado os sites e noticiários nos últimos dias, foi construído em cima desse castelo de areia. A loja Tá Di Zueira já era um sinal desde o nome. Pois centenas de pessoas acreditaram, já que havia ali uma pessoa conhecida e querida por elas. Alguém que, para esse público, parecia verdadeiro, sem filtros. 

Nos momentos de crise, como foi o da enchente que marcou o Rio Grande do Sul, este mesmo personagem circulou em redes do Brasil todo supostamente contando verdades que ninguém queria que fossem descobertas. Viralizou prometendo desmascarar governos. Para coroar a imagem de salvador da pátria, divulgou que tinha feito uma doação milionária aos atingidos pela chuvarada. A quebra do sigilo, depois mostrada pelas autoridades, apontou cem reais saindo da conta do influencer.  

Com políticos isso já acontecia há mais tempo. O brasileiro insiste em depositar sua confiança e se agarra, com unhas e dentes, a alguém que prometa o mínimo. À espera de alguém que salve a pátria, vamos nos contentando com pouco.  


27/07/2024 - 06h00min

Gilmar Fraga / Agencia RBS

Gil e a "bondade radical"

O que dá para fazer é tentar ser melhor a cada dia, em pequenos gestos. Não precisa assinar um tratado de paz na ONU

Gil acaba de confirmar a decisão de se aposentar das grandes turnês. “A vida vai oferecendo bandejas. Têm os frutos amargos, os muito doces, os azedos, e você vai escolhendo”, reflete Gilberto Gil, naquele jeitão tranquilo, em uma conversa com a filha Preta, para então concluir sorrindo: 

— Eu fui tentando juntar dentro de mim as intencionalidades bondosas. Virei adepto da bondade radical.

A frase pegou — e me cativou também. Sou fã de Gil e de toda a geração de ouro da MPB que, aos poucos, vai se retirando dos palcos, deixando um legado imenso e inquestionável. 

Caetano já disse que, em breve, quem quiser vê-lo terá de procurá-lo na Bahia. De lá, ele não pretende sair por nada. Gil está fazendo o mesmo. Às voltas com uma temporada musical internacional na Europa e na Ásia, ele acaba de confirmar a decisão de se aposentar das grandes turnês. E está em paz. 

— Não sou mais um artista da vez — disse ele, sereno e grande, em entrevista recente ao Estadão.

Sair de cena não é fácil para ninguém (Joe Biden que o diga). Imagine o que isso significa para um grande artista, que trilhou a vida sob os holofotes, movido a aplausos.

Gil fará falta, ele e sua “bondade radical”, que deveria servir de exemplo em tempos tão pouco amigáveis, para dizer o mínimo. Mas o que significa ser “radicalmente bom”? Existe isso? Do que é feita a natureza humana?

A discussão vem de longe, você sabe. Para um cara chamado Thomas Hobbes, que escreveu Leviatã, em 1651, os seres humanos não têm salvação, nem adianta insistir. Haveria, em todos nós, uma tendência natural à violência, daí a célebre frase “O homem é o lobo do homem” (naquele tempo as mulheres não contavam → Alerta: contém ironia).

Aí veio Jean-Jaques Rousseau, no século 18, e disse que não era nada daquilo. Hobbes estava por fora. “O homem”, concluiu o célebre filósofo suíço (esquecendo-se, outra vez, a parcela feminina da população), “nasce bom”. O problema é a sociedade. A culpa é toda dela. “A sociedade”, bradou Rousseau, dedo em riste, é que “corrompe o homem”. 

Não se preocupe, querido(a) leitor(a), eu não vou tentar aqui resolver os dilemas da humanidade. Ninguém é “bom” ou “mau”, assim, preto no branco. E Gil sabe disso. Ele mesmo, que se autoproclamou “agente da fraternidade”, escreveu uma canção chamada Cada tempo em seu lugar, que traduz o que estou tentando escrever.

A letra diz assim: “Preciso refrear um pouco o meu desejo de ajudar. Não vou mudar um mundo louco, dando socos para o ar.” E depois: “Preciso me livrar do ofício de ter que ser sempre bom”, até porque, cá entre nós, é impossível ser bom o tempo todo.

O que dá para fazer é tentar ser melhor a cada dia, com pequenos gestos. Não precisa assinar um tratado de paz na ONU. Basta, muitas vezes, ser gentil com o colega de trabalho, elogiar o visual da amiga, oferecer um sorriso para quem está tendo um dia ruim, estender a mão a alguém que precisa de ajuda. Ser bom é isso e é dar-se conta da finitude da vida.

Como escreveu Gil em Tempo Rei, “não se iludam, não me iludo, tudo agora mesmo pode estar por um segundo”. 


26/07/2024 - 21h04min
Atualizada em 26/07/2024 - 21h04min -Opinião

Momento mágico

Para superar espetáculo de Paris, só se próxima cerimônia for feita na Lua. Grandiosidade marcou abertura dos Jogos Olímpicos de 2024

Atletas desfilaram em barcos pelo Rio Sena e passaram por pontos turísticos de Paris, como a Torre Eiffel.

A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 entregou tudo que um país como a França pode oferecer. E nem mesmo a forte chuva que caiu na maior parte do espetáculo comandado pelo diretor artístico Thomas Holly diminuiu o brilho. 

O desfile dos 85 barcos pelo Rio Sena, as apresentações de artistas, shows musicais e as presenças de ícones do esporte como Zinedine Zidane, Rafael Nadal, Serena Williams, culminando com Teddy Riner e Marie-José Perec acendendo juntos a pira olímpica deram o tom do que a Cidade Luz se propôs e ofertou ao mundo.

Os Jogos começaram em um dia tenso, com alguns alardes falsos de bombas, ataques ao sistema de trens rápidos do país, mas terminou de forma espetacular. Na transmissão da Rádio Gaúcha cheguei a dizer: o que os franceses apresentaram dificilmente será superado em termos de espetáculo e que só se Los Angeles-2028 levar os atletas para a Lua poderá fazer algo tão impactante.

E o melhor de tudo: os Jogos terão público. Ele se fez presente nas arquibancadas nas margens do Sena e em toda a cidade. Confesso que fiquei muito emocionado nessa que é minha quinta cobertura Olímpica por ver algo tão bem elaborado e que dá aos Jogos Olímpicos a dimensão merecida, a de um espetáculo gigantesco.

Que a partir deste sábado (27) as primeiras medalhas sejam entregues e que o Brasil supere seus recordes. E que a França siga mostrando ao mundo que ela é o país das revoluções, da moda, da arte, da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.


25/07/2024 - 17h39min
André Malinoski

Demolição do Esqueletão: com obra embargada há cinco meses, empresa responsável segue tentando liberação e descarta desistir do serviço

FBI Demolidora fez cinco tentativas junto ao Ministério do Trabalho e Emprego desde fevereiro para retomar os trabalhos e deve fazer mais uma na próxima semana; órgão apontou risco à segurança dos trabalhadores no local.

O embargo às obras de demolição do Edifício Galeria XV de Novembro, conhecido como Esqueletão, no Centro Histórico de Porto Alegre, completa cinco meses neste sábado (27).

O Ministério do Trabalho e Emprego no Rio Grande do Sul (MTE-RS) paralisou o processo de demolição em 27 de fevereiro, apontando condições inseguras para os trabalhadores no canteiro de obras.Inspeção identificou o risco de queda dos operários pela falta de proteção na periferia da obra, nas aberturas do piso do edifício, nas escadas de acesso coletivo e nos vãos dos poços dos elevadores, entre outros problemas.

Desde então, a FBI Demolidora, empresa responsável pelo serviço, tenta suspender o embargo trabalhista, porém sem sucesso.

O relatório do MTE com as justificativas sobre a última negativa para retirar o impedimento trabalhista apresenta em um trecho a seguinte conclusão: "Foram inúmeras análises e reuniões técnicas por parte da Auditoria Fiscal do Trabalho, porém, até o presente momento, a empresa ainda não apresentou providências eficazes para a elucidação do grave e iminente risco de queda, objeto deste embargo".

Um dos responsáveis técnicos pela demolição do Esqueletão, o engenheiro de minas Manoel Jorge Diniz Dias afirma que a FBI Demolidora pretende fazer nova tentativa de suspender o embargo na próxima semana.

— A ideia é, na semana que vem, apresentar uma complementação àquilo que foi solicitado pelo Ministério do Trabalho — compartilha.

Conhecido como "Manezinho da Implosão", ele foi responsável por diversas operações do tipo, como a do prédio da Secretaria da Segurança Pública (SSP), na Rua Voluntários da Pátria, em Porto Alegre.

Segundo Dias, não existe possibilidade de desistência por parte da empresa ou de rompimento de contrato com a prefeitura de Porto Alegre.

— Queremos executar a obra. É uma questão de honra — diz o engenheiro.

A empresa não explicou as razões pelas quais não conseguiu efetivar os ajustes solicitados pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Na segunda-feira (22), a FBI realizou uma vistoria no Esqueletão para avaliar se houve algum dano em razão da enchente naquela região do Centro Histórico, mas não constatou qualquer problema deste tipo.

O auditor-fiscal Sérgio Garcia, chefe da seção de Segurança e Saúde do Trabalho da SRTE, confirma que, desde 8 de julho, a situação permanece igual.

— O último pedido deles (FBI Demolidora) foi negado. Na última vez que falei com o secretário André Flores (titular da Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura), há umas duas semanas, ele ficou de entrar em contato com a empresa para marcar uma reunião — afirma.

Prefeitura acredita em adequação

A reportagem de Zero Hora questionou a prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi), se existe possibilidade de rompimento do contrato com a FBI Demolidora, já que a empresa não conseguiu, até o momento, cumprir os ajustes solicitados pela Auditoria Fiscal do Trabalho. Por nota, a pasta respondeu o seguinte:

"A Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi) acredita que a contratada irá resolver em breve o embargo da Superintendência Regional do Trabalho, quanto ao equipamento instalado para proteção de trabalho em altura, e está atenta a todas as possibilidades contratuais."



24/07/2024 - 14h24min
J. J. Camargo

O Alzheimer e a morte parcelada

Quando o desafio é conviver com as perdas cognitivas, a negação é imediatamente assumida. "A questão não é se existe vida depois da morte. A questão é se você viveu antes de morrer." (Osho)

Cada um tem um jeito próprio de administrar suas limitações. Apesar do esforço dos coachs insistindo com estratégias milagrosas, as pessoas que preservaram o espírito crítico sabem qual caminho a escolher nas encruzilhadas. E que sistematicamente é o mais árduo.

Mas a forma de reagir é imprevisível e, muitas vezes, contraditória. Por mais maduro que sejamos, quando o desafio é conviver com o envelhecimento biológico e suas perdas cognitivas a negação é imediatamente assumida, mesmo quando a decrepitude bateu à porta sem ter sido convidada e, sem noção do ridículo, não sai da janela.

Nada é mais importante neste ponto do que um amigo capaz de dizer "Basta". Como a dificuldade está na admissão desse diagnóstico, porque ele é demolidor do ponto de vista familiar, individual e profissional, fazemos de conta que está tudo bem. E mesmo que tenhamos consciência do que está acontecendo, é compreensível que conservemos a pose de quem está completamente sadio. E, sem dúvida, quanto mais festejada e inspiradora foi a vida até esse ponto, mais nos rebelamos à capitulação.

O Alzheimer tem uma fase, dita pré-clínica, em que pequenos lapsos são indistintamente atribuíveis ao envelhecimento, e só assumidos como indícios da doença depois de algum tempo, quando, por frequência das falhas, a família se dá conta de que a hierarquia doméstica está sendo modificada porque o antigo gestor daquele clã não consegue mais gerir a sua própria vida.

Ainda que o ritmo de progressão possa ser afetado por fatores genéticos, mudança de estilo de vida e idade do paciente (doença manifesta em pacientes mais jovens evolui de forma mais acelerada), até o momento não existe tratamento efetivo, apesar de ofertas esporádicas de drogas novas, pretensamente revolucionárias e invariavelmente caras. 

Então, sendo a progressão da doença inexorável, resta à família dar ao paciente todo o suporte emocional para que ele consiga continuar mentalmente produtivo pelo tempo de lucidez que lhe reste. Desse suporte, faz parte importante a prevenção de exposições públicas, especialmente no período da doença em que o paciente ainda percebe o tamanho da bobagem que disse, mas só depois de tê-la dito, e tenta assumir ares de brincadeira.

Nesta fase, que pode ser rápida ou arrastada, o paciente e sua família sofrem igualmente em cada deslize, e a tentativa de justificar o erro só estimula a geração de memes pelos impiedosos adversários e a comiseração dos que nunca deixarão de amá-lo.

Mantê-lo na vitrine é sacrificá-lo impiedosamente, especialmente quando a vítima é um político de grande visibilidade. Nada é mais importante neste ponto do que um amigo, nivelado pela hierarquia dos afetos, que fosse capaz de lhe dizer "Basta" e ser ouvido sem desconfiança. Um desses amigos que considerem que trair é o mesmo que morrer, e para quem a morte deve anteceder a traição.

Na fase da desconexão cognitiva, o sofrimento passa a ser exclusividade da família pelo convívio diário, que nem remotamente lembra o bem-amado do tempo em ele foi muito. A tentativa frequente de revisitar o passado festivo através de fotos ou vídeos em geral agudizam dores adormecidas, pela sacudida emocional resultante do contraste entre o que ele foi e o que deixou de ser.

Na morte tradicional, ao contrário da parcelada, a reconstrução da vida dos remanescentes, ainda que consumidos de dor e saudade, avança com a elaboração do luto, indispensável na preservação da naturalidade da morte.

Uma amiga, incansável no cuidado da mãe, incomunicável há 18 meses, me confidenciou: "Eu morro de saudade da mãe que tive, e de pena de mim, por não ter ao menos com quem dividir a tristeza de perceber, todos os dias, uma fração dessa morte que dói como se fosse, mas não se completa".

Quem considerar desamor qualquer parte dessa confissão não entende nada de que morte estamos falando, e nem imagina o quanto sobra de amor depois do luto.

sábado, 20 de julho de 2024


12/07/2024 - 09h38min
Martha Medeiros

Há certos dias em que o excesso nos consome

Domingo pela manhã talvez seja um bom momento para descansar de tanta "vida" e preparar um chá, recostar-se numa almofada e olhar para o céu

Gilmar Fraga / Agencia RBS

Até o fim do ano eu fico zen. Até que a vida acabe eu viro japa.. Queria mesmo era escrever um poema nesta manhã de domingo gelada e silenciosa (tenho consciência que você pode estar em condição oposta, de pés descalços na praia ou preso a um congestionamento em que todos buzinam — mesmo assim, talvez consigamos nos conectar).

Ainda tocada pela leitura do livro Uma Hora de Fervor, de Muriel Barbery, me encontro quieta e reflexiva, que é o estado ideal para as depurações. Há certos dias em que o excesso nos consome. É tudo muito, demais. Vulgaridades, agressões, gritaria, exibicionismo, postagens. Noites curtas de sono, longas horas de espera, a saúde precária, os olhos tristes. A alegria fajuta dos programas de auditório e de campeonatos infinitos de futebol. Domingo pela manhã talvez seja um bom momento para descansar de tanta "vida" e preparar um chá, recostar-se numa almofada e olhar para o céu.

É quase impossível conversar consigo mesma cercada por tanto ruído. Não escutamos ninguém, ninguém nos escuta, e os desejos e dores que trazemos dentro ficam falando sozinhos. Surdez universal em meio ao caos. Agora entendo o fascínio que minha filha mais velha sente pelo Japão, onde ruas lotadas de pedestres são percorridas em baixo volume e qualquer pequeno jardim traz sua própria imensidão.

Aos 33, minha filha não é velha em idade, mas velha em sabedoria. Quero ficar tão velha quanto ela, a fim de abandonar o meu aflitivo aumento da aposta: querer mais, ir mais longe, saber tudo, esses ralis pessoais de esgotamento mental. O reencontro com a nossa essência é o grande prêmio de uma existência prolongada. Só perto do final é que se aprende a ser mínima e finalmente se enxerga o que sempre se manteve inteiro em nós. Ainda não cheguei lá, mas estou a caminho. Haja desapego para contrariar os alto-falantes que nos ensurdecem com suas palavras de ativamento.

Arte, amizades e filhos (se os tiver). Os três fios condutores da vida plena. Alimentos para o espírito, a mente e o coração. Alavancados pelo amor, que não precisa de palco e plateia, transcende nos bastidores. As aventuras que nos distraíram até aqui continuam sendo bem-vindas (viagens, festas), mas não precisam mais ser tantas e tão ofuscantes. Desacelerar não é desistir. É voltar a prestar atenção no que importa.

O domingo silencioso logo vai terminar e dar lugar aos frenéticos dias úteis, aqueles em que a poesia só consegue se infiltrar clandestinamente, e em que escutar a si e aos outros vira tarefa de titã. Ainda é difícil, para mim, abdicar da fúria ocidental que, mal a manhã inicia, me faz galopar até a noite, as horas sucedendo sem controle e as folhas do calendário caindo umas sobre as outras. Mas resolvi tentar. Até o fim do ano eu fico zen. Até que a vida acabe eu viro japa. 


19/07/2024 - 09h00min
Martha Medeiros

Homens não foram criados para desistir

É possível que Joe Biden esteja simplesmente evitando encarar aquilo que não lhe parece nada atraente, o seu depois

Gilmar Fraga / Agencia RBS

O que faz um senhor com evidentes fragilidades se agarrar a um posto pelo qual já deu sua contribuição.

Costumo enviar a coluna para o jornal na segunda-feira que antecede sua publicação, então desconsidere caso o texto, nesta brecha de seis dias, tenha ficado desatualizado. Até aqui, enquanto escrevo, Joe Biden não largou o osso. 

É de se esperar que renuncie nos próximos dias, em favor de alguém mais enérgico para desafiar Trump, que agora usa a imagem do próprio rosto ensanguentado para, feito um mártir, comover a parcela trouxa de americanos que deseja reconduzi-lo à presidência. Só não entendo tanta demora.

O que faz um senhor com evidentes fragilidades se agarrar a um posto pelo qual já deu sua contribuição? Dinheiro não é, que salário de ex-presidente paga as contas. Prestígio não é, porque ele já entrou para a história do seu país. Vontade de servir à nação não é, pois já o fez e agora seria mais útil se passasse o bastão para um democrata que transmitisse segurança aos eleitores norte-americanos na disputa de novembro. 

Superficialmente, podemos deduzir que Biden não sai porque é homem, e homens não foram criados para desistir. E menos ainda desistir do poder, essa droga viciante que coloca a pessoa sob um holofote do qual ela não se sente mais capaz de viver sem. Tudo, menos o apagão, a depressão, perder a comitiva de bajuladores em volta.  

No entanto, desistência é um assunto mais profundo. Em seu ensaio Sobre Desistir, o psicanalista Adam Phillips aborda o aspecto sacrificante de trocar algo que se conhece por um vazio que se ignora – é um momento crítico em que temos que repensar nosso desejo. 

Já não se trata do que não se quer mais, mas do que se quer a partir de então. Trocar um hábito pela incerteza nunca é uma travessia fácil. Phillips nos lembra que toda renúncia traz embutida a ideia do suicídio. Por isso ficamos tão apavorados diante da possibilidade de matar aquilo com o qual já estamos acostumados. 

Por isso tanto se reluta em enfrentar o fim de uma etapa da vida, seja ela qual for. Incluindo as relações conjugais: quem toma a iniciativa de interromper um amor conhece intimamente essa angústia, ainda que se pense que só quem foi deixado é que sofre.      

Biden certamente é um homem orgulhoso que deseja levar sua missão a cabo (já levou, mas aumentou a aposta com a intenção de se reeleger, e agora não consegue reconhecer publicamente seus limites). Nenhuma desistência costuma ser estimulada pela sociedade, ao contrário, é malvista e perturbadora. Logo, protela-se. O que fará valer o esforço de uma atitude tão drástica? 

O que haverá em frente? Além das estratégias que seu partido precisa adotar diante dos últimos acontecimentos, é possível que Biden esteja simplesmente evitando encarar aquilo que não lhe parece nada atraente, o seu depois.


20 DE JULHO DE 2024
CARPINEJAR

Só podemos dar o que recebemos

O primeiro sintoma de que não está sendo amado é não ter mais paciência. Você fica irritado por qualquer coisa. Você explode por qualquer bobagem. Você chora por qualquer incômodo. Não mantém nenhuma margem ou distanciamento para pensar, meditar, separar os fatos individuais dos coletivos. Acha que tudo é pessoal.

Quando somos amados, nós temos tranquilidade para aceitar a contrariedade, a dificuldade, para fazer ajustes e consertar a nossa realidade.

No desamor, você usa toda a sua energia, todo o seu fôlego dentro do relacionamento, tendo que se explicar de modo inútil e desnecessário, tendo que justificar as mínimas escolhas, tendo que dizer excessivamente o óbvio. Cansa tanto com o básico que não sobra motivação para si mesmo.

Porque a outra pessoa não escuta você, a outra pessoa não presta atenção em você, a outra pessoa não valoriza o seu tempo, a outra pessoa não é grata com a sua presença, a outra pessoa não reconhece a sua dedicação.

Não ter paciência significa que o amor só vai e não retorna. Você não está sendo abastecido de ternura, de delicadeza, de carinho. Você se transforma em um bicho rude, instável, hostil, amedrontado. Você se habitua a não ser bem tratado, a lidar com ordens, a se defender de gritos e grosseria, a repetir histórias que nunca serão guardadas.

Sem perceber, você começa também a tratar mal quem permanece à sua volta. É um reflexo da precariedade a que se submete. Se você está sendo menosprezado, você menospreza. Se está sendo cobrado, você cobra. Passa a agir do mesmo jeito. Entra no círculo vicioso da pressa e da distorção. Jamais podemos esquecer que só damos o que recebemos.

Ao suportar uma convivência de baixa qualidade, com ruídos de comunicação, isso vai afetar o seu diálogo com os mais próximos. Seu mundo interior andará sufocado, espremido, esgoelado, e não apresentará mais aquela tolerância que tinha de ouvir. Não vai rir mais, não vai se divertir com os contratempos.

Os ecos da violência psicológica se tornarão maiores do que a sua voz. Não desfrutar de amor em seu lar é perder, gradativamente, o contato saudável com o seu círculo de afetos. Você se verá desnutrido por ausência de luz.

É como viver na sombra e, de repente, sair para a rua e precisar fechar os olhos por não aguentar aquele excesso de claridade. Você não consegue mais abrir os seus olhos como antes. Ficou no escuro por um longo período. Está acostumado com o escuro.

Quando é amado, você dá conselhos, ampara, conforta, é capaz de ajudar os familiares e amigos em suas crises.

Quando não recebe amor na relação, fica arisco, incomunicável, tenso. Não é capaz nem de escutar com sobriedade um impasse de um colega.

Você se isola no silêncio. Desiste de falar. Desiste de se expor. Desiste de conversar.

Acaba virando uma presa ainda mais fácil para a manipulação. A tristeza domestica. A tristeza vicia.

Numa relação dependente, o que o cônjuge mais quer, para dominar você, é que esteja abatido. Assim não sai de casa, não se encontra com ninguém e se mostra sempre disponível, exclusivo, no cativeiro. _

CARPINEJAR

20 DE JULHO DE 2024
EDITORIAL

Transparência e credibilidade

Coube ao Rio Grande do Sul, em um momento já delicado para a economia local, ter o infortúnio do aparecimento de um foco da doença de Newcastle em um criatório comercial de aves em Anta Gorda, no Vale do Taquari. Mandam os protocolos que o Brasil informe as nações compradoras e suspenda as exportações em caso de acordos assinados com esta cláusula preventiva. Em situações como essa, é dever ser transparente com os mercados. Confere credibilidade para o país e o setor, com significativo peso econômico e social no Estado.

O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango e o Rio Grande do Sul é o terceiro nas vendas externas nacionais, atrás do Paraná e de Santa Catarina. No primeiro semestre, o Estado embarcou o equivalente a US$ 630 milhões. São mais de 7 mil produtores integrados à cadeia avícola gaúcha, a maioria pequenos, além de 35 mil empregos diretos em unidades industriais.

Como relevante player da área de proteína animal, devido à grande competitividade conquistada nas últimas décadas, o Brasil está sempre sujeito a iniciativas protecionistas. Muitas vezes, estão disfarçadas de barreiras sanitárias. Por esta razão, é essencial que as autoridades brasileiras mantenham as nações importadoras informadas sobre a situação e os esforços para impedir a disseminação do vírus e debelar a doença. Para manter mercados e seguir abrindo novas portas, ter a confiança dos compradores é condição fundamental. É o que vai permitir, inclusive, uma retomada mais rápida dos negócios agora paralisados.

Episódios como esse do reaparecimento da doença de Newcastle reforçam a importância de contar com um sistema de vigilância e defesa agropecuária robusto. É uma atividade essencial para manter a sanidade de lavouras e rebanhos e dar uma pronta resposta logo que qualquer doença é detectada. Ainda mais para um país que a cada ano se firma mais como um dos maiores produtores globais de alimentos. Bem ilustra o trabalho de profissionais da área ao longo do ano passado, quando foram descobertos casos de gripe aviária em pássaros silvestres no Rio Grande do Sul e em outros Estados. A enfermidade não chegou a criatórios comerciais, algo que os EUA, por exemplo, falharam em evitar.

O Ministério da Agricultura declarou na sexta-feira estado de emergência zoossanitária no Estado. É um procedimento- padrão voltado a agilizar medidas de vigilância na região do criatório onde o vírus foi confirmado, o que inclui a vistoria em propriedades em um raio de 10 quilômetros, até a erradicação total do foco. Equipes do governo federal e do Estado se somam neste esforço de evitar a disseminação do vírus. Deve-se ressaltar que o Rio Grande do Sul e o Brasil têm sistemas de sanidade animal e vegetal de competência comprovada e testados em vários episódios anteriores. No Estado, também é modelar o Fundesa, fundo das cadeias de proteína animal e lácteos, que atua em apoio às ações oficias.

Em outra frente, os consumidores brasileiros também precisam ser bem informados. Como lembram as autoridades e especialistas, inexiste qualquer risco em seguir consumindo a carne de frango ou os ovos produzidos no Rio Grande do Sul. 


20 DE JULHO DE 2024
MARCELO RECH

Como seria um Trump 2.0

Enquanto Joe Biden não anuncia a desistência da candidatura à Casa Branca, Donald Trump está a cada dia mais favorito para tomar posse nas escadarias do Capitólio em 20 de janeiro de 2025.

Com enormes repercussões internas e externas, um segundo mandato de Trump deverá ter os seguintes contornos:

Ameaça à democracia - O temor é real, mas sozinho Trump não faz nada. Seria preciso uma combinação que alijasse o Congresso, a Suprema Corte, a imprensa, as empresas e a sociedade civil norte-americana, sem contar as forças armadas e seu sólido afastamento da vida política. Difícil de acreditar numa reviravolta desta envergadura.

Imigração - É onde deve haver a mudança mais imediata e visível. Ainda que com mais fanfarra do que resultados práticos, a entrada e a permanência dos 11 milhões de ilegais vão ser endurecidas. Esperem-se detenções em massa e mais alguns trechos de muro na fronteira com o México.

Europa - É o continente que mais perde com a eleição de Trump, que já precificou o enfraquecimento da Otan e a segurança europeia. Trump diz que resolve a guerra da Ucrânia em 24 horas porque retirará o apoio dos EUA. Para se manter de pé, a Ucrânia dependeria exclusivamente dos vizinhos. As recentes vitórias de centro-esquerda no Reino Unido e na França não ajudam a Europa em um governo Trump.

China - Em termos econômicos, Trump é o oposto dos republicanos do passado. Seu nacionalismo protecionista terá na China o principal alvo, com uma longa lista de sobretaxas. O movimento salva empregos ineficientes nos EUA, mas também desperta a inflação. Em contrapartida, Trump quer que Taiwan banque sua defesa contra ambições chinesas. A indústria mundial de chips prende a respiração.

Irã - É quem tem mais a temer no Oriente Médio. A mão pesada que decretou a eliminação do general Qassem Soleimani em janeiro de 2020 voltará a cair contra a expansão militar dos aiatolás. Trump, porém, é melhor no blefe do que como combatente. Orgulha-se de não ter iniciado nenhuma guerra em seu governo.

América Latina - O Brasil de Lula, que já tem relações mornas com os EUA de Biden, pode esperar um esfriamento. Já Javier Milei, que cultua Trump, tentará fazer da Argentina o principal parceiro dos EUA. Para Trump, abaixo do Rio Grande há só um grande reservatório de imigrantes que devem ser contidos por bem ou por mal.

Dólar - Deverá cair no resto do mundo. Trump quer a desvalorização da moeda para conter importações e aumentar as exportações dos EUA.

Transição energética - Será postergada. Trump desdenha de energias alternativas e venera o petróleo. Deverá desfazer boa parte da legislação ambiental. Azar do planeta. _

MARCELO RECH

 20 DE JULHO DE 2024
BOAS PRÁTICAS

Grupo RBS lança projeto editorial que mostra como ESG pode ajudar na reconstrução do RS

Boas práticas

Em parceria com as empresas Renner, Aegea, Be8 e Randoncorp, iniciativa "Retoma RS" trará reportagens e conteúdos multimídia sobre sustentabilidade ambiental, social e de gestão ao longo de um ano. Objetivo é contribuir com a discussão sobre um futuro menos sujeito a crises

Marcelo Gonzatto

Com o objetivo de contribuir com a recuperação do Rio Grande do Sul e a construção de um futuro melhor para os gaúchos, o Grupo RBS vai lançar um projeto editorial destinado a valorizar boas práticas de sustentabilidade ambiental, social e de gestão - tríade que forma a sigla em inglês ESG.

Em parceria com as empresas Renner, Aegea, Be8 e Randoncorp, a iniciativa "Retoma RS" irá destacar exemplos de aplicação desses conceitos por meio de conteúdos multimídia. As publicações serão conectadas ao movimento "Pra Cima, Rio Grande", que combina ações editoriais e institucionais da RBS com foco na reconstrução do Estado após a enchente, e veiculadas em Zero Hora, Rádio Gaúcha e GZH ao longo de um ano.

- A parceria de longo prazo com estas quatro empresas de credibilidade e relevância no mercado em um projeto focado em impulsionar o desenvolvimento econômico sustentável do Estado reafirma a relevância do jornalismo profissional e a força dos veículos da RBS para amplificar bons exemplos - destaca o CEO da RBS, Claudio Toigo.

Com estreia em 31 de julho, quando será lançado o primeiro de 12 cadernos mensais em Zero Hora, o projeto irá explorar diferentes plataformas e formatos como videocast, vídeorreportagem em GZH, posts em redes sociais, programetes na Gaúcha e uma edição do fórum de debates ZH Talks, com transmissão online, além de conteúdos publicitários em diferentes mídias.

- Neste momento de reconstrução, o jornalismo profissional tem responsabilidade de dar visibilidade a boas práticas nas áreas ambiental, de desenvolvimento social e de gestão, impulsionando a recuperação do Estado e a criação de um ambiente ainda melhor - ressalta a diretora-executiva de Jornalismo e Esporte da RBS, Marta Gleich.

A adoção de estratégias sustentáveis sob o ponto de vista ambiental, social e de gestão é considerada uma forma de garantir um futuro menos sujeito a crises como a provocada pela recente cheia que impactou os gaúchos.

- O Retoma RS está alinhado ao importante compromisso que a Lojas Renner S.A. tem com o tema ESG. É essencial, e nos deixa felizes, que um grupo de comunicação tão relevante tome a iniciativa de compartilhar informações e promover a discussão pública sobre as melhores práticas ambientais, sociais e de governança, fundamentais para o presente e o futuro do planeta - afirma o CEO da Lojas Renner S.A., Fabio Faccio.

O vice-presidente do Grupo Aegea - Regional Sul, Leandro Marin, destaca a importância de assumir o protagonismo na disseminação de boas práticas:

- Conectar respeito ao ecossistema, responsabilidade social e governança vai além de impactar positivamente a sociedade. Precisamos liderar esse movimento, criando ciclos de desenvolvimento maiores que a bolha corporativa. É o que chamamos, no Grupo Aegea, de prosperidade compartilhada.

Iniciativas bem-sucedidas

Em sua edição de estreia, o caderno "Retoma RS" irá apresentar ao leitor o conceito de ESG vinculado à recuperação do Rio Grande do Sul, trazendo exemplos de iniciativas bem-sucedidas. Nas edições seguintes, a publicação abordará o tema a partir de diferentes perspectivas e áreas de atuação.

- É uma honra participar do projeto. A pergunta que devemos fazer é: qual planeta queremos deixar para as gerações futuras? A resposta para isso é agir hoje, diminuir os impactos ambientais com tecnologia e atitudes. Estamos juntos nessa jornada para criar um futuro sustentável - destaca o presidente da Be8, Erasmo Carlos Battistella.

O presidente da Randoncorp, Daniel Randon, acredita que inovar é uma das formas de garantir um futuro sustentável:

- Nossa responsabilidade com o planeta, com as pessoas e com a governança tem como base ações e soluções com excelência e segurança, por meio de tecnologias disruptivas, da inovação sustentável e de uma condução ética e responsável, que orienta a história de 75 anos da Randoncorp.

O projeto vai combinar conteúdos editoriais e das marcas. Eles poderão ser conferidos em GZH, identificados com a tag Retoma RS, nos cadernos mensais publicados na última quarta-feira de cada mês e no noticiário de Zero Hora. O videocast estreia em 7 de agosto. _

A parceria de longo prazo com estas quatro empresas de credibilidade e relevância no mercado em um projeto focado em impulsionar o desenvolvimento econômico sustentável do Estado reafirma a relevância do jornalismo profissional e a força dos veículos da RBS para amplificar bons exemplos.

Claudio Toigo - CEO da RBS

Neste momento de reconstrução, o jornalismo profissional tem responsabilidade de dar visibilidade a boas práticas nas áreas ambiental, de desenvolvimento social e de gestão, impulsionando a recuperação do Estado e a criação de um ambiente ainda melhor. Estamos muito felizes de realizar este projeto.

Marta Gleich - Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte da RBS

É essencial, e nos deixa felizes, que um grupo tão relevante tome a iniciativa de compartilhar informações e promover a discussão pública sobre as melhores práticas ambientais, sociais e de governança, fundamentais para o presente e o futuro do nosso planeta.

Fabio Faccio - CEO da Lojas Renner S.A.

Conectar respeito ao ecossistema, responsabilidade social e governança vai além de impactar positivamente a sociedade. Precisamos liderar esse movimento, criando ciclos de desenvolvimento maiores que a bolha corporativa.

Leandro Marin - Vice-presidente do Grupo Aegea - Regional Sul

A pergunta que devemos fazer é: qual planeta queremos deixar para as gerações futuras? A resposta para isso é agir hoje, diminuir os impactos ambientais com tecnologia e atitudes. Estamos juntos nessa jornada para criar um futuro sustentável.

Erasmo Carlos Battistella

Presidente da Be8

Nossa responsabilidade com o planeta, as pessoas e a governança tem como base ações e soluções com excelência e segurança, por meio de tecnologias disruptivas, da inovação sustentável e de uma condução ética e responsável, que orienta a história de 75 anos da Randoncorp.

Daniel Randon

Presidente da Randoncorp


20 DE JULHO DE 2024
ENSINO SUPERIOR

ENSINO SUPERIOR

Chapa 3 vence eleição da UFRGS e será indicada ao MEC.

Se vitória for confirmada pelo governo federal, Marcia Barbosa e Pedro Costa assumirão reitoria em setembro. Na consulta à comunidade, a dupla havia vencido pelo cálculo paritário, mas, por decisão judicial, a chapa 2 ganhava

Isabella Sander

Em uma eleição permeada por discussões sobre o cálculo a ser utilizado para definir os candidatos vitoriosos, venceu, entre os membros do Conselho Universitário (Consun) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o entendimento de que os votos de alunos, professores e técnicos-administrativos têm o mesmo peso. Com isso, com 44 votos de um total de 75, Marcia Barbosa, da chapa 3, venceu o pleito.

Agora, a lista tríplice segue para o Ministério da Educação (MEC). Em segundo lugar ficou a candidata Ilma Brum, da chapa 2, com 26 votos. Por último, posicionou-se a candidata Liliane Giordani, da chapa 1, com um voto.

- É a primeira vez que a UFRGS está fazendo esse processo por via paritária, é um momento de coragem para a universidade. Também temos de ter coragem para referendar a paridade. A Justiça pode mandar na consulta, mas não pode mandar na nossa decisão - afirmou Marcia.

A escolha dos conselheiros ainda precisa passar por análise do MEC, que tem o poder de nomear como reitora qualquer um dos três nomes da lista tríplice. Via de regra, contudo, a pasta costuma validar a decisão.

Se a vitória for confirmada pelo governo federal, a reitora a assumir no dia 21 de setembro será Marcia Barbosa, ao lado de seu vice-reitor, Pedro Costa.

Marcia foi diretora do Instituto de Física por dois mandatos e, até dois meses atrás, era secretária de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do governo Lula. Pedro é professor da Escola de Administração, onde ministra disciplinas sobre Administração de Organizações da Sociedade Civil e Administração Pública Social, Estado, Terceiro Setor e Organizações Não Governamentais.

Na sexta, servidores e estudantes participaram de manifestação

Em todas as eleições para a reitoria realizadas pela instituição até agora, os votos dos professores tinham peso de 70%, contra 15% os dos estudantes e 15% os dos técnicos-administrativos.

Neste ano, a previsão inicial era de que as escolhas dos três segmentos tivessem o mesmo peso na consulta à comunidade - a chamada "consulta paritária". Nesse novo critério, a chapa 3 teria vencido a consulta. Apesar de essa mudança ter sido aprovada pelo Consun, uma decisão judicial determinou que se retornasse ao cálculo antigo. Por esse motivo, sem a paridade, a chapa 2 venceria.

Na manhã de sexta, docentes, técnico-administrativos e estudantes participaram de um protesto, munidos de bandeiras e adesivos, boa parte deles defendendo a vitória da chapa 3.

- No ano passado, foi decidido que a comunidade da UFRGS poderia escolher a reitoria de forma paritária. Foi um processo maduro, com muita discussão, com diálogo com as unidades acadêmicas, não foi apenas uma decisão do conselho. Será lamentável se isso não for reconhecido - afirmou a professora Suzy Alves Camey, do Instituto de Matemática e Estatística, que participou do ato.

A manifestação foi realizada no campus, próximo ao Salão de Atos. A entrada no prédio da reitoria foi restringida, com gradis impedindo a passagem e a segurança reforçada. Duas viaturas da Polícia Federal estavam no local. Com isso, boa parte dos alunos e professores acompanhou a votação do Consun pela transmissão ao vivo.

- A paridade seria o primeiro passo para haver maior participação dos alunos na universidade e nos espaços de tomada de decisões. Não podemos negociar isso, essa é nossa luta - defendeu a estudante do curso de Economia Amanda Pereira, 22 anos.

Análise do ministério

A tendência sinalizada por representantes do governo federal é de que seja respeitada a ordem da lista tríplice elaborada após a eleição no Consun. Com isso, a vitória da chapa 3 seria endossada e Marcia Barbosa se tornaria a nova reitora.

Procurado pela reportagem, o MEC respondeu que a lista tríplice encaminhada será analisada à luz das leis que regram o funcionamento das universidades e suas eleições, e que, "sendo constatada a conformidade da documentação, o processo será encaminhado à Casa Civil, para nomeação pelo Presidente". _