sábado, 10 de agosto de 2024



09/08/2024 - 17h03min
PORTAL EDICASE

Veja o que acontece no cérebro na vitória e na derrota

Na reta final das Olimpíadas em Paris, diversos atletas tiveram a possibilidade de experimentar as sensações proporcionadas tanto pela vitória quanto pela derrota após as competições. O cérebro, por sua vez, reage de maneira diferente em cada uma dessas experiências.

Na vitória, conforme o Dr. Fernando Gomes, neurocientista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o órgão libera uma série de substâncias químicas, principalmente dopamina, que é frequentemente associada ao prazer e à recompensa.

“Essa liberação de dopamina cria uma sensação de euforia e satisfação, que incentiva a repetir comportamentos que levam ao sucesso. É como se o cérebro nos recompensasse com um prêmio interno por termos alcançado um objetivo”, explica.

Cérebro na derrota

Por outro lado, uma derrota provoca uma resposta diferente. O cérebro ainda libera dopamina, mas em níveis muito menores. Em vez disso, outras áreas do órgão, como a amígdala, que está associada às emoções e ao processamento do medo, tornam-se mais ativas. Isso pode levar a sentimento de frustração, tristeza ou, até mesmo, raiva.

“Essas emoções negativas não são apenas reações automáticas, já que elas têm um propósito evolutivo, porque provocam uma reflexão sobre os possíveis erros e incentivam na elaboração de estratégias que possam aumentar as chances de sucesso no futuro”, diz o médico.

Mentalidade e resiliência após derrota

Estudos de neurociência mostram que a maneira como a mente interpreta uma derrota pode influenciar a resposta do cérebro. “Pessoas que veem a derrota como uma oportunidade de aprendizado tendem a se recuperar mais rapidamente e a serem mais resilientes. Isso sugere que a mentalidade desempenha um papel crucial na forma como o cérebro processa falhas e sucessos”, explica o Dr. Fernando Gomes.

Ainda segundo o médico, a dinâmica entre vitória e derrota é fundamental para o crescimento pessoal, pois o cérebro, com sua capacidade de adaptação e aprendizagem, usa essas experiências para moldar o comportamento e redefinir a rota em direção aos objetivos. “Em última análise, tanto as vitórias quanto as derrotas são essenciais para o desenvolvimento humano, pois nos empurram a buscar constantemente o aprimoramento e a superação”, finaliza.

Por Mayra Barreto Cinel



09/08/2024 - 10h35min
Gilmar Fraga / Agencia RBS

Nada mais tem valor se não for documentado e exposto para centenas 

Ainda não me convenci de que existo mais dentro do celular do que aqui fora, onde espirro, tropeço, bocejo e digito.

Era 2009 e eu estava em Marrakech pela primeira vez, encantada com os tecidos, os tapetes e as especiarias do souk, o mercado a céu aberto da cidade. Em meio ao agito de vendedores e turistas, pedi a uma amiga que tirasse uma foto minha. 

Primeiro erro: não pedi licença para as senhoras que estavam posicionadas logo atrás de mim, expondo seu artesanato. Segundo erro: eu deveria saber que algumas religiões e culturas consideram que a fotografia rouba a alma das pessoas. Só me dei conta quando vi a foto depois: todas as figurantes involuntárias haviam tapado seus rostos com as mãos, a única arreganhada era eu.  

Houve um tempo em que celebridades também tapavam o rosto diante dos paparazzi, a fim de esconder as olheiras depois de uma noite forte ou o flagrante ao sair da boate às seis da manhã com o marido de alguém.  

Mario Quintana, idem, antipatizava com fotógrafos: não tinha interesse em ser eternizado e os enxotava. Até que, na véspera de seus 80 anos, uma fotógrafa de 23, de forma premeditada, se hospedou no mesmo hotel em que Quintana morava, em Porto Alegre. Encasquetou que o faria mudar de ideia e que conseguiria retratá-lo. 

Duelaram alguns dias. Por fim, ela saiu mais vitoriosa do que pretendia: tornou-se uma de suas melhores amigas. Essa aproximação entre eles virou um texto para teatro que foi publicado em livro, chama-se Minha Sombra Luminosa, do ótimo Tomás Fleck. Quintana teria completado, no último 30 de julho, 118 anos de idade, e devemos a Liane Neves as imagens que trazemos dele até hoje. 

Quem gosta de ser fotografado, está à vontade neste novo mundo. Já quem não gosta, paciência, é obrigado a se render: nada mais tem valor se não for documentado e exposto para centenas, milhares. Há quem fotografe a fatia de bolo que segura entre os dedos, há quem clique seus lençóis amarfanhados e escreva “aftersex” na legenda, para anunciar que transou. Até aí, por mais bizarro que pareça, é da vontade de cada um. 

O problema é quando você não quer aparecer numa foto abraçado a torcedores exaltados, não quer ser fotografado dançando solto na pista, tem motivo nenhum para sorrir para uma selfie forçada. Fazer o quê? Nada. É como envelhecer: a alternativa seria ter morrido antes. 

Virou prova de vida, do bebê recém-saído do útero ao moribundo antes de receber a extrema-unção: fotos para o Face, para o Instagram e para todos os porta-retratos digitais que a população vê e compartilha. Entrei nessa, claro, preciso manter meu público cativo, mas ainda não me convenci de que existo mais dentro do celular do que aqui fora, onde espirro, tropeço, bocejo e digito. Ainda preservo algumas camadas espectrais. Creio que apenas 30% da minha alma esteja em mãos alheias. 

Martha Medeiros



09/08/2024 - 08h49min
Atualizada em 09/08/2024 - 08h52min - LETÍCIA PALUDO

"Quero inspirar as pessoas a serem a sua melhor versão", diz a Miss Grand Brasil Talita Hartmann

Modelo gaúcha de 27 anos superou outras 26 candidatas na etapa nacional realizada em São Paulo. Agora ela inicia a preparação para o concurso internacional, que ocorre em outubro

Talita Hartmann foi eleita a Miss Grand Brasil na noite de quinta-feira.

Modelo de 27 anos é natural de São Vicente do Sul, no interior gaúcho. Talita agora irá se preparar para representar o Brasil no concurso internacional, em outubro. A gaúcha superou outras 26 candidatas na etapa nacional. Segunda colocada também é gaúcha. Loraine Silveira representou o Mato Grosso do Sul.

Natural de São Vicente do Sul, a gaúcha Talita Hartmann foi eleita a Miss Grand Brasil 2024 na noite de quinta-feira (8). Após a conquista, ela comentou o resultado em entrevista a Donna:

— Eu tenho certeza de que foi a minha essência, a minha personalidade e a minha autenticidade que me trouxeram até aqui. 

A modelo de 27 anos superou outras 26 candidatas brasileiras na final do concurso, realizado na casa de shows Tokio Marine Hall, em São Paulo.

— Eu quero construir um legado positivo, alegre e que influencie as pessoas para o bem, para serem fortes, guerreiras, para nunca desistirem de seus sonhos. Por mais que a vida nos leve para momentos e situações em que a gente deixe de acreditar, Deus está ali — afirmou Talita.

A mais nova Miss Grand Brasil projetou o que espera alcançar com o seu reinado:

— O legado que eu quero construir é de muito amor, de inspirar pessoas a serem a sua melhor versão, a se cobrarem a serem cada vez melhor, pessoas que inspiram e motivam, que sejam luz, que sejam amor. Eu aprendi que a elegância é na humildade e quero mostrar a minha verdadeira essência para o mundo.

A jovem de 1m88cm viveu a infância no Interior até ser descoberta e iniciar a carreira de modelo, aos 14 anos. Na seletiva nacional, ela enfrentou outra gaúcha, Loraine Silveira, que representou o Mato Grosso do Sul.

O próximo passo é a disputa do Miss Grand International, que será realizado em 25 de outubro na Tailândia e no Camboja.



Carta para não voltar a um relacionamento dependente. Se você passou por uma relação dependente, certamente já ouviu esta frase: "só eu para aguentar você". A princípio, a sentença se assemelha a uma jura romântica, a um elogio da tolerância, mas seu sentido é o inverso: baseia-se no ato de diminuir o outro, tirando-lhe valor, mérito e poder de decisão.

Com "só eu para aguentar você", o interlocutor faz questão de destacar que você é de temperamento complicado, difícil de amar. Faz questão de apequenar você, controlar os seus horários, manipular os seus silêncios, domesticar as suas intenções.

Faz questão de apontar que nada do que você realiza é correto, nada do que diz é apropriado, nada do que sonha é viável, nada do que deseja é justo. Faz questão de mostrar que ninguém mais iria querer estar com você. O envolvimento até parece uma caridade.

O que você festeja como intimidade ("o quanto ele me entende!") é dominação. Seu par começa a falar por você, antes de você, como se soubesse o que é melhor para você mais do que você mesmo. Cria uma simbiose, coagindo-o a pedir aprovação para qualquer gesto, licença para qualquer saída.

É uma hipnose disfarçada de telepatia, uma infantilização camuflada de proteção.

Ele transmite a imagem pública de que ninguém conhece tanto você - e se habilita como seu tradutor, seu facilitador, sua ponte com o mundo. Mas tudo isso, em vez da magia da cumplicidade, tem o objetivo perverso e particular de podar a sua existência, de fiscalizar as suas afeições, de amputar os seus espaços, de debilitar a sua iniciativa.

Sem perceber, você não comandará mais a própria vida, numa convivência de natureza coercitiva. Ele escolherá seus novos amigos, selecionará aqueles com quem precisa manter contato na sua família, com quem é adequado conversar entre seus colegas do trabalho, com quem é pertinente estreitar os laços. Nunca a sua lista e a dele coincidem. Ele sente medo do seu passado, dos seus conselheiros, dos bastiões de sua coragem.

Talvez você tenha apagado o tormento que foi o seu casamento. Por isso, pense bem antes de ter uma recaída. Jamais deve voltar a um lugar de onde se esforçou para sair. Caso ceda a uma reaproximação, será cada vez mais complexa a fuga. Terá que mudar as desculpas, as justificativas. Amargará o dobro de vigilância, de desconfiança.

Você dá uma outra chance para a relação não porque acredita que a pessoa vai mudar, mas pela expectativa de que ela vai se compadecer de todo o seu sofrimento anterior, de todo o seu sacrifício, de toda a sua renúncia.

Só que ela é insensível para se emocionar com qualquer apelo. Você é tratado como um troféu. Troféu não tem alma. Apenas será exposto na estante. Não poderá se mexer.

Quer se livrar definitivamente de um ex? 

Então, faça um exercício, você que somente se lembra das coisas boas e se esquece das ruins, você que está acostumado a perdoar e seguir adiante. Anote tudo de péssimo que aconteceu no relacionamento. Abra o caderno toda manhã, para ter sempre em mente os motivos para o término do romance.

Não seja pego por uma falsa saudade. Não seja raptado pela carência. Não seja subjugado pela esperança. O tempo longe é venenoso. Com a distância, é comum achar que aquilo que foi ruim não era tão ruim assim. Não seja pego por uma falsa saudade. Não seja raptado pela carência. Não seja subjugado pela esperança

CARPINEJAR 


10 DE AGOSTO DE 2024
COM A PALAVRA - Fran Winandy

COM A PALAVRA

Ativista no combate ao etarismo e psicóloga com MBA em Recursos Humanos e mestrado em Administração

"Quem ainda não enfrentou esse preconceito pode vir a enfrentar no futuro". Fran Winandy é uma das principais referências no Brasil quando se trata de diversidade etária. Ela foi a primeira a escrever um livro sobre a discriminação de idade. A obra Etarismo: um novo nome para um velho preconceito foi lançada em 2021 e relançada ano passado.

Como surgiu a ideia desses livros sobre etarismo e que contribuições as obras trazem?

Há muitos textos acadêmicos e científicos sobre esse tema, que têm uma linguagem que nem todo mundo consegue acessar. Eu quis escrever de uma forma mais simples, para que todos possam compreender e participar da luta contra o preconceito etário. E para mostrar que o etarismo não é só um preconceito voltado para pessoas mais velhas. Até então, tínhamos muitos textos sobre o preconceito contra idosos, mas nos meus estudos constatei que se trata de preconceito etário, independentemente da idade. 

Também quis abordar as intersecções do etarismo com outros pilares da diversidade, como questões de gênero, raça e da população LGBT+. Queria algo que conseguisse atingir as pessoas, para que se sintam desconfortáveis de não participarem desse movimento. Todo mundo pode contribuir de alguma forma, e quem ainda não enfrentou esse preconceito pode vir a enfrentar no futuro.

? Esse assunto ganhou muita repercussão nos últimos anos. Você acredita que esse movimento contra o etarismo vem ganhando força?

Fico em dúvida sobre isso. Quando saio da minha bolha, percebo que muitas pessoas não entendem o meu trabalho, ou nem mesmo sabem o que é preconceito etário. Isso é muito comum. Sempre digo que a velhice é um alvo em movimento. Conforme vou me aproximando do alvo, ele vai indo para a frente e ficando mais distante. 

Então, a gente nunca chega lá, porque a gente não quer chegar. A gente acha que envelhecer é algo ruim. Normalmente, um velho não se acha velho. Assim, do mesmo jeito que não falo da morte, não falo da velhice. É um tema que as pessoas evitam. E isso é estranho, porque a gente deveria se preparar para a velhice, assim como a gente se prepara para uma viagem, por exemplo. A velhice é uma etapa importante da vida.

? Com o processo de envelhecimento da população, você acredita que as pessoas vão passar a ter outro olhar para as gerações mais velhas?

Olhando para a nossa pirâmide etária, percebe-se que nós vamos ficar muito mais tempo velhos. Vamos passar mais tempo velhos do que jovens. E o preconceito etário só vai aumentando. A Organização Mundial da Saúde aponta que os idosos são os que mais sofrem com a discriminação etária. Porque nós ainda temos uma sociedade muito jovem-cêntrica. Existe uma associação da beleza com a juventude, e o medo de envelhecer. 

Os filtros nas redes sociais mostram isso. Todo mundo acha que vai ser eternamente jovem. As pessoas só começam a se preocupar com a questão etária quando elas entram nessa faixa cinzenta, de estar chegando na velhice. Por exemplo, aos 40 anos, você começa a se sentir excluído do mercado de trabalho, começa a perceber que as pessoas não querem te contratar por conta da idade. Isso começa a te incomodar e você começa a prestar atenção no envelhecimento.

? Qual é o impacto dessa discriminação no mercado de trabalho?

Existe uma dificuldade muito grande de trazer pessoas acima de 50 anos para dentro das empresas. O percentual é muito baixo. Acima dos 60, então, não chega a 1%. E essas pessoas recebem salários baixos, as coisas ainda estão andando bem devagar. Ao mesmo tempo em que existe essa luta para abrir mais espaço para pessoas acima de 50 anos nas empresas, entendo também que temos outra briga, que é entender que não necessariamente essas pessoas terão acesso a emprego, e sim a trabalho. A trabalhos mais flexíveis, como prestação de serviços, talent as a service, esse tipo de coisa. 

Porque as empresas ainda não estão com abertura para contratar pessoas acima de 50 anos. Só que se nós estamos envelhecendo e tendo menos filhos, então, temos menos pessoas no mercado. Hoje, ainda não é uma necessidade do mercado de trabalho trazer pessoas acima de 50 anos, mas amanhã será. E se eu, como recursos humanos, não preparo as minhas lideranças para isso, como é que vou resolver isso depois? Nos países desenvolvidos já existe esse problema da falta de mão de obra. E no Brasil não vai ser diferente.

? Como as organizações devem agir para combater essa discriminação?

Normalmente, as empresas querem ficar no raso. Elas querem uma palestra sobre etarismo na semana da diversidade, ponto. E aí você não avança, não aprofunda. As empresas têm de ser intencionais em tudo. Tem de ser feito um balanço etário, tenho que olhar como está a minha pirâmide dentro da organização, buscar pessoas para completar esse mapa dentro da empresa. Por exemplo, se só tenho pessoas abaixo de 50 anos dentro da empresa, ou tenho um percentual muito pequeno de pessoas acima de 50 anos, vamos mudar isso. No mínimo, vamos refletir o que a gente tem na nossa sociedade e o que temos dentro da organização.

? Se o etarismo não é só contra pessoas idosas, quais são os impactos para as demais faixas etárias?

As pessoas mais jovens sentem questões relacionadas à falta de credibilidade, dificuldade quando vão encarar um cliente, por exemplo. Ou quando você vai num médico, por exemplo, você leva seu bebê num pediatra e você acha que esse pediatra é muito jovem, não leva a sério. Comecei a ouvir relatos de pessoas trazendo esses preconceitos em relação a outras fases da vida. A pressão na mulher para que ela engravide, por exemplo. 

Nas empresas, vejo muito as pessoas mais velhas falando que a juventude não tem comprometimento, que não gostam de trazer a geração Z para o time porque as pessoas mais jovens perdem a paciência e saem da empresa, não querem fazer um trabalho profundo, não aguentam ouvir críticas, são cheias de "mimimi". Isso é etarismo, se eu digo que não vou contratar uma pessoa mais jovem no meu time porque ela não se compromete, porque é superficial. São estereótipos que os mais velhos atribuem aos mais jovens. Assim como os mais jovens dizem que os idosos são muito teimosos, ou que não conseguem aprender nada de novo.


10 DE AGOSTO DE 2024
MARCELO RECH

Nada de novo no falatório

Pela largada do comboio eleitoral de Porto Alegre, as campanhas vão se conduzir pelo retrovisor e, quando muito, olhar 10 metros à frente.

A ausência de uma visão estratégica para as metrópoles brasileiras não é deficiência exclusiva da Capital, mas aqui ela se agrava. Depois da catástrofe de maio, o que era um problema se tornou um dilema existencial para Porto Alegre, que, mais do que nunca, precisa de uma perspectiva de longo prazo sobre em que cidade viveremos daqui a 10, 20 ou 30 anos.

O debate da Rádio Gaúcha, na terça-feira passada, foi um aperitivo: menções óbvias à necessidade de recuperação, manutenção e aprimoramento da infraestrutura e dos serviços. É pouco, muito pouco, diante do que há pela pela frente. Não bastasse a tragédia das enchentes, o mundo do emprego começa a passar por uma revolução que vai criar algumas cidades vencedoras e produzir uma legião de metrópoles deserdadas.

Coincidentemente, Porto Alegre recebeu no dia seguinte ao debate o aclamado economista Nouriel Roubini para uma palestra no Fronteiras do Pensamento. O primeiro economista a vislumbrar a debacle de 2008 lançou o livro Mega-Ameaças, no qual enumera 10 potenciais causas de desastre econômico e social, que, por outro lado, podem virar oportunidades se absorvidas por estratégias eficazes de antecipação a crises.

Uma delas, e uma das mais avassaladoras, é a inteligência artificial, que vai pulverizar milhões de empregos nos próximos anos - e criar outros tantos. O que os candidatos a liderar a cidade planejam para que a próxima geração possa não só assegurar sua renda mas também prosperar? Quais são os diferenciais competitivos que precisam ser identificados e explorados para que Porto Alegre não seja levada de roldão? Como induzi-los?

Há muitas outras questões-chave a serem elucidadas por quem pretenda de fato liderar a cidade, na acepção mais profunda de líder. Vai aqui uma pista: Porto Alegre conta com uma excelente rede de universidades e de hospitais que ainda não se conectam com uma estratégia de gestão de futuro municipal, mas que podem ser molas-mestras do desenvolvimento, juntamente com o esporte e a cultura, outras duas vocações que dão certo por aqui.

Amarrar as pontas, como busca fazer o Pacto Alegre, e fazê-las trabalhar em prol da renda e da qualidade de vida dos cidadãos pode não ser tão emocionante para um candidato quanto prometer - sem detalhar como - transporte, saúde e educação de primeiro mundo. Mas todas essas promessas serão quimeras se não houver uma estratégia arrojada e factível que assegure os recursos para colocar o trololó de sempre em prática. _

MARCELO RECH

10 DE AGOSTO DE 2024
EDITORIAL

EDITORIAL

Olímpíada e demagogia Opiondam

Grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo e a Olimpíada, acompanhados com grande interesse pelos brasileiros, são uma oportunidade para a população deixar de lado por alguns dias os temas mais pesados e torcer pelo desempenho dos atletas nacionais. São acontecimentos que deveriam unir a sociedade, a despeito das diferenças existentes em qualquer coletividade. Não é o que acontece no Brasil, onde qualquer tema vira arena para a polarização desmedida e abre brechas para o exercício da demagogia.

Aconteceu outra vez, agora com a Olimpíada de Paris. Um destes episódios teve início com uma desinformação e acabou com uma medida populista. Começou com a oposição acusando o governo federal de pretender taxar as medalhas e as premiações conquistadas pelos desportistas na França. Como se pagar imposto de renda por esses ganhos fosse novidade. Em vez de apenas esclarecer, o Planalto preferiu tentar tirar proveito político. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva correu para editar uma medida provisória e isentar os atletas de IR. Parece simpático. Mas trata-se de uma demagogia. Os esportistas brasileiros sequer pediam o benefício.

A isenção aos atletas que subiram ao pódio e orgulharam o país não vai impactar o déficit das contas nacionais. É algo ínfimo. Mas a atitude simboliza a forma como o Brasil, ao longo do tempo, foi desequilibrando as suas contas. Além do aumento de despesas, Executivo e Legislativo não se fazem de rogados quando surge a oportunidade de fazer agrado por meio de gastos tributários. Ocorre que, se alguém deixa de pagar o que deveria, a diferença será exigida do restante da sociedade, com mais impostos.

A iniciativa de Lula, antecipando-se a projetos de lei apresentados por deputados, retrata o uso recorrente do esporte para angariar apoio popular. São inúmeros os exemplos na história brasileira. A ditadura militar buscou capitalizar o sucesso da Seleção de 1970, na Copa do México. O então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, comprou fuscas com verba pública para presentear os tricampeões.

A Olimpíada de Paris não foi capaz de estabelecer um instante de trégua na batalha ideológica brasileira. Enquanto petistas atribuem as medalhas ao Bolsa Atleta, criado na primeira gestão Lula, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro lembram que muitos da delegação nacional, como a judoca Beatriz Souza, que conquistou o ouro, são militares. Em 2021, Bolsonaro fez uma cerimônia para homenagear atletas militares laureados em Tóquio. Na segunda-feira, foi a vez de Lula tirar proveito e postar uma foto com a ginasta Rebeca Andrade. A designação da primeira-dama Rosângela Lula da Silva como representante do governo na França, com gastos de mais de R$ 200 mil de sua comitiva, também é controversa.

O espírito olímpico que permeia os jogos pressupõe respeito ao adversário e às normas do jogo. Não tem nenhuma relação com os sentimentos que alimentam a disputa política brasileira, na qual o oponente é visto como um inimigo a ser destruído e o oportunismo é regra. 



10 DE AGOSTO DE 2024
PRESIDÊNCIA

PRESIDÊNCIA

Lula inaugura obra em SC e questiona a ausência de governador

Com aporte de R$ 3,9 bilhões, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou, na sexta-feira, o Contorno Viário da Grande Florianópolis. A mudança proporciona uma alternativa ao trânsito intenso da BR-101, que corta a região metropolitana.

Durante o evento, Lula fez contraponto ao ex-presidente Jair Bolsonaro, sem citá-lo nominalmente, e criticou o governador de SC, Jorginho Mello. O Estado é considerado um dos maiores redutos bolsonaristas do país.

- Em apenas 18 meses a gente fez quase que metade dessa obra aqui. Numa demonstração de que eu gosto de trabalhar, e não gosto de jet ski. Que gosto de trabalhar, e não gosto de motociata - disse Lula.

A menção a "jet ski" e a "motociata" são referências a Bolsonaro.

- Esse governador que está aí, Jorginho Mello, eu não o conheço, portanto não posso falar mal dele, ele perdeu a oportunidade de participar da inauguração da obra mais importante do Estado de Santa Catarina. Eu não consigo entender - declarou o presidente, sobre a ausência do chefe do Executivo estadual no evento.

Lula afirmou que, como faz em todos os Estados que visita, convidou o governador para participar do evento. Aliado de Bolsonaro, Mello não compareceu, mas enviou a vice-governadora Marilisa Boehm. Ele justificou a ausência por causa de encontro entre os governadores das regiões Sul e Sudeste, no Espírito Santo.

- Se o governador viesse aqui, seria tratado com respeito. Ia fazer o discurso que quisesse fazer, ninguém ia pedir ou controlar o que ele fosse falar. E o prefeito, a mesma coisa. Lamentavelmente, tem gente que pensa pequeno, tem gente que age pequeno e não enxerga a necessidade do povo brasileiro - disse Lula.

Foi a primeira vez que o presidente foi a Santa Catarina neste terceiro mandato. A última vez que ele havia estado em SC foi em 2022, antes das eleições.

Lula também participou da cerimônia de lançamento da Fragata Tamandaré, primeiro dos quatro navios-escolta que serão incorporados à frota da Marinha do Brasil nos próximos anos. A cerimônia ocorreu em Itajaí (SC). 


10 DE AGOSTO DE 2024
NOTÍCIAS

NOTÍCIAS - Retorno no sistema de Justiça do Estado ainda é gradativo

Danos da cheia

De oito instituições na capital gaúcha, quatro retomaram expediente em suas sedes: TRF4, TRT4, TJM e Ministério Público. As demais - Tribunal de Justiça do Estado, TCE, Defensoria Pública e TRE - ainda operam em trabalho remoto ou espaço cedidos

Maior órgão judicial do Estado, o Tribunal de Justiça (TJRS) foi também o mais atingido.

O acesso ao edifício-sede e ao prédio anexo, ambos na Avenida Borges de Medeiros, só será permitido em 30 de agosto. Até lá, entram apenas servidores de áreas estratégicas, envolvidos nas obras de recuperação.

A água invadiu o térreo dos dois imóveis, comprometendo o funcionamento de elevadores, iluminação e climatização. No prédio anexo, os três subsolos também ficaram submersos. O sistema de processo eletrônico só não ficou inoperante graças à atuação de uma força-tarefa que migrou para a nuvem 10 milhões de ações judiciais.

Só serviços de plantão

A situação é semelhante no Foro Central I, situado na Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, a duas quadras do TJ. Ainda sem operação integral dos elevadores, o acesso está liberado apenas para os serviços de plantão ou julgamentos do Tribunal do Júri.

No Foro Central II, na Avenida Ipiranga, e no Foro Regional do Sarandi, o trabalho voltou à normalidade.

Para acelerar a retomada, a administração criou uma diretoria extraordinária de Enfrentamento à Calamidade.

A gestão da reforma é conduzida do Palácio da Justiça, na Praça da Matriz, único prédio da instituição que restou incólume à enchente na Capital.

Na Defensoria Pública, apenas a administração superior retornou ao trabalho presencial. Situado a duas quadras do Guaíba, o edifício-sede ficou 15 dias sem sistemas internos e com água atingindo dois metros de altura.

Boa parte do atendimento ao público está sendo feito pelo telefone 129, e o ajuizamento de ações foi centrado em uma sala cedida pelo Exército na Rua Bento Martins, no Centro.

Outra instituição que está operando de forma híbrida é o Tribunal Regional Eleitoral. A sede, na Avenida Duque de Caxias, não foi atingida pelos alagamentos, mas teve o data center desligado por prevenção. O expediente interno no local está sendo retomado gradualmente desde o último dia 5, enquanto nas demais unidades os danos ainda estão sendo reparados. Como o depósito também foi atingido, nenhuma urna eletrônica antiga será usada na eleição de outubro. Essas urnas serão substituídas por equipamentos novos.

Serviço presencial

No Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT4), o recomeço foi duas semanas antes.

Desde 9 de julho todos os servidores despacham normalmente da sede, na Avenida Praia de Belas. Todavia, o plenário, invadido pela cheia, segue em manutenção, com previsão de término das obras em setembro.

Localizado na mesma via, o Tribunal de Justiça Militar sofreu impacto semelhante, com comprometimento da rede elétrica, alagamento e perda de documentos, mobiliário e equipamentos. O atendimento já foi normalizado, com os servidores atuando presencialmente desde 25 de junho. Já o prédio da 2ª Auditoria Militar, na Rua André Belo, foi mais afetado e segue sem condições de uso, com magistrados e servidores atuando de forma remota.

A primeira instituição a retornar ao espaço original foi o Ministério Público. O prédio principal, na Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, voltou a receber os servidores em 25 de maio. Durante o período crítico, a operação foi mantida a partir de um prédio do MP no bairro Santana e por home office. 

FÁBIO SCHAFFNER

10 DE AGOSTO DE 2024
CONSTRASTES

CONSTRASTES

Conselhos do avô e mudança para uma sede na cidade vizinha

Com uma economia pujante, a cidade de Lajeado possui empresas robustas e conhecidas mundialmente. Fundada em 2006, a STW Soluções em Automação produz peças, células robóticas, esteiras, softwares, entre variados itens, utilizados por outras fábricas. Em menos de 10 meses, resistiu a três enchentes.

- Nunca pensamos em desistir. Vamos continuar independente da situação da região. Entendemos que vai levar tempo para reconstruir. Mas isso inevitavelmente vai acontecer, seja pelas pessoas que aqui estão, seja pelo poder público - assegura um dos sócios-fundadores da STW, Junior André Sulzbach, 41 anos.

Desde o final de setembro do ano passado, os administradores decidiram transferir as principais operações, de forma provisória, para outro ponto, no bairro Campestre. Só permaneceram no endereço antigo de 2,2 mil metros quadrados a parte administrativa e a base de softwares.

A decisão se mostrou acertada. A última cheia do Rio Taquari destruiu a sede anterior que ficava na Rua Bento Rosa, no bairro Hidráulica. Os prejuízos na soma das duas últimas cheias chegam a quase R$ 8 milhões.

Crescimento registrado

Na terça-feira, o empresário acompanhou a reportagem de Zero Hora até o terreno de 8 mil metros quadrados em Estrela, onde será erguida a nova fábrica com pavilhões pré-moldados. Trata-se de uma região alta e sem riscos de inundações, junto ao 386 Business Park. A inauguração deve acontecer no primeiro semestre de 2025.

A STW, que conta com 150 funcionários e não demitiu nenhum durante a enchente, tem linha de exportação para países da América Latina, Itália, Alemanha, Rússia, Turquia, Portugal e Coreia do Sul. Apesar dos imprevistos, a projeção é de encerrar 2024 com 20% de crescimento. A empresa tem ainda filial em Toledo, no Paraná, para onde cogitou se transferir depois da cheia mais recente, e um escritório em São Paulo.

Sulzbach, que chegou a ser resgatado de bote junto de outros dois sócios na inundação de setembro, jamais subestimou o poder do Rio Taquari. Ele traz guardado na lembrança conselhos do avô, que foi barqueiro na região e conhecia o fluxo das águas e das inundações:

- Meu avô estava aqui em 1941. E ele sempre me dizia que após uma enchente vinha outra na sequência. E foi o que aconteceu agora - relata.

Para o empresário, a maior lição deixada é a determinação das pessoas do Vale do Taquari:

- Teve um período de luto, porque morreram pessoas. Mas logo na sequência foi aquele espírito de retomada. Ninguém solta a mão de ninguém. Chego até arrepiar ao lembrar. _

Para empresário, determinação das pessoas da região é lição que foi deixada

Famílias atingidas por deslizamentos de terra em compasso de espera

A reconstrução na Linha Benjamin Constant, na zona rural de Roca Sales, está em compasso de espera. No dia 30 de abril, um deslizamento de terra atingiu a região, que fica escondida entre vales verdes em uma área de geografia verticalizada. Morreram 11 pessoas na região e duas ainda seguem desaparecidas.

Em razão do deslize de solo, árvores e rochas, algumas propriedades rurais foram interditadas pela Defesa Civil municipal. O motivo é por se encontrarem em áreas de risco. E é nessa parte da história que entra o produtor Darcy Funk, 64 anos.

Com as mãos ásperas e cheias de profundos vincos, ele ganha a vida preparando porcos para o abate em sua propriedade de 18 hectares. As terras foram colonizadas pelos seus bisavós, que vieram da Alemanha há mais de um século e subiram o morro abrindo picadas a golpes de facão. Toda a sua vida, história e lembranças estão concentradas na lida da terra e dos animais. Agora, em uma zona de risco, ele não sabe o que fazer, nem para onde ir.

- Não podemos abandonar tudo de uma hora para outra. Vamos sair para onde se não temos ajuda? - questiona.

O deslizamento isolou seu Darcy, a esposa Dulce, 50, e o filho Daniel Mateus Funk, 22. Naquele 30 de abril, parte do morro veio abaixo.

- Parecia um vulcão - recorda seu Darcy.

Os três viram rochas maiores do que tratores rolando abaixo, em meio a toneladas de terra e a troncos de árvores. Saíram correndo em direção à parte mais baixa, onde buscaram abrigo nos vizinhos. Não tiveram tempo de pegar nada. Escaparam com vida.

Por três semanas, a família não teve água, luz, telefone ou sinal de internet. Para descer, especialmente para buscar diesel para o gerador, foi preciso ir de trator pelo meio da vegetação. E dormir se tornou impossível. Qualquer barulho diferente ou começo de chuva deixava todos tensos.

Na propriedade há um chiqueiro com capacidade para abrigar 1,1 mil animais, mas nenhum deles se encontra ali. Desde que houve a interdição, a cooperativa recolheu os porcos e parou de os enviar para o colono. O rendimento dele era de R$ 150 mil por ano apenas no trabalho de engorda dos suínos. Também há 75 animais bovinos, sendo alguns ainda terneiros.

As vacas produzem leite e carne. Os colonos ainda contam com galinhas e plantam milho. Dos 20 hectares plantados, três se perderam em razão do deslizamento. Após o morro descer com força, muitos vizinhos abandonaram as terras e não pensam em voltar. O filho Daniel chegou a investir em terra perto da casa do pai. Agora também está em compasso de espera. O deslizamento chegou perto da casinha que ajeitava em outra parte do morro.

- A ideia é ficar, não é abandonar tudo o que foi construído. Desde meus 10 anos ajudo meu pai na propriedade - menciona.

O Morro do Bicudo apresenta diversas rachaduras. Árvores de grande porte que não sucumbiram exibem as raízes para fora do solo.

- Precisamos de ajuda do município, do governo e das autoridades. Seguir sozinho não vai dar. Estamos em uma zona de risco - preocupa-se Daniel.

"Inviabilizada" O chefe do setor de Engenharia da Defesa Civil de Roca Sales, Jonas Haefliger, confirma que algumas propriedades permanecem interditadas por tempo indeterminado e diz que laudos sobre os riscos estão sendo elaborados. Segundo a Defesa Civil, foram identificados 500 pontos de deslizamentos na região. Será solicitado auxílio ao governo estadual para monitorar e orientar os moradores da zona atingida.

- Hoje, não se tem nenhum programa do tamanho dessa complexidade. A propriedade dele está inviabilizada - observa o coordenador da Defesa Civil do município, Silvio Norberto Zart Neto. _

Dormir se tornou impossível. Qualquer barulho de chuva deixava todos tensos


10/08/2024 - 09h00min

Lucas Uebel / Grêmio FBPA/Divulgação

A última chance para o Grêmio encontrar um norte para esta temporada

Após eliminação da Copa do Brasil, Tricolor tem decisão da Libertadores pela frente em agosto

Grêmio foi eliminado da Copa do Brasil pelo Corinthians.

Afora continuar lutando por tempo indeterminado contra o reingresso e permanência no Z-4, o Grêmio tem uma decisão a enfrentar num prazo bem mais curto. Até a metade da próxima semana, o time de Renato Portaluppi terá definido se vai às quartas de final da Libertadores ou passa a ter só o Brasileirão até o fim de um ano que todo gaúcho só quer que termine e, se a mente for generosa, que seja esquecido.

Enchentes, mortes, desabrigo, sensação de que tudo saiu do lugar para nunca mais voltar, gaúchos e gaúchas em escala variada de dor sabem bem do que se trata. No futebol, o episódio climático ainda vitima o Grêmio, único clube da Série A do Brasil que continua sem casa para jogar e, quando tiver de volta no primeiro momento, será como se pudesse ocupar poucos cômodos e com luz fraca e água intermitente nas torneiras.

O treinador gremista recorda esta dificuldade em todas as entrevistas, faz de modo institucional. Porém, a eliminação para o Corinthians na Copa do Brasil passa menos pelo fator local e mais pela extraordinária incompetência que o time revelou para propor e criar jogo.

Quando Grêmio e Corinthians trocaram de papéis entre os jogos de ida e volta, desenhou-se a classificação do time que por último pôde se valer da estratégia mais antiga da Humanidade. Por ela, na vida e no esporte, é muito mais fácil destruir do que construir.

Escalado para não jogar nem deixar jogar, o Corinthians levou aos pênaltis e lá se valeu da leveza emocional de quem estava desobrigado a se classificar. Ramón Díaz poupou titulares porque pretende sair de vez da zona do rebaixamento, preocupação maior da torcida corintiana.

Quem esteve em campo no Couto Pereira competiu. Jogar bola, ninguém jogou. Não é contra a regra montar uma estratégia de negação e mordaça, desde que cumprindo as leis do jogo.

O Corinthians passou, o Grêmio ficou. Renato Portaluppi não foi bem na entrevista pós-eliminação, deu uma entrevista muito menor do que seu próprio gigantesco tamanho de profissional competente e vitorioso.

Talvez tenha feito de caso pensado para poupar seus jogadores e ser ele, Renato, o alvo exclusivo das críticas. Agora, sua tarefa é restabelecer algum equilíbrio para os enfrentamentos imediatos. Contra o Cuiabá, combate direto no objetivo de não cair.

Terça-feira (13), contra o Fluminense, a última chance para o Grêmio encontrar um norte mais nobre do que só permanecer na Série A. Renato não utilizou nenhum dos reforços recentes que a diretoria lhe entregou.

A decisão de tirar o centroavante Arezo do banco foi bem equivocada. Monsalve, que jogara bem na estreia dele em Curitiba domingo (4) passado, não entrou. Aravena, que ninguém viu jogar, também não. Para quem se queixava até bem pouco tempo de falta de opções de elenco, sair da Copa do Brasil sem um minuto em campo dos jogadores contratados é incompreensível.

De agora em diante, nem que seja por necessidade para evitar o pior, o treinador gremista terá que voltar os olhos para os jovens talentosos e inexperientes que lhe foram entregues.

O adversário

Já o Fluminense acaba de ser eliminado com justiça para o Juventude. Joga o mesmo Brasileirão do Grêmio, o da segunda página da tabela.

Tem bons a excelentes jogadores, metade deles na parte final da carreira. A consequência é uma queda drástica de intensidade física na parte final dos jogos. Também conta com jovens promissores a dar esperança de que há sobrevida na Libertadores. Kauã Elias, atacante, é o mais fulgurante deles. Jovens recém afirmados, como o volante André, também alentam a torcida para o que vem por aí.

Para o Grêmio e para o Fluminense, o 2024 com algum glamour se decide ainda em agosto.

sábado, 3 de agosto de 2024


03 de Agosto de 2024
MARTHA MEDEIROS

Ausência e abstração

Muitos rejeitaram a diversidade exposta no evento. Houve quem definisse como uma "parada gay sem restrição de horário". A velha e pontual resistência à mudança. Eram apenas artistas em cenas alegóricas e multiculturais, um happening festivo - mas os saudosos de 1895 ainda querem Oscar Wilde atrás das grades.

Ninguém é obrigado a ter relações homossexuais, nem a gostar do que vê. É só trocar de canal e continuar preservando seus dogmas, livre para ser como deseja e acreditar no que lhe conforta. Mas gasta saliva à toa quem esbraveja pela volta do padrão oficial de comportamento. A revolução que nos coube é esta, a hierarquia de costumes ficou para trás. Agora, cada um se veste como quer, ama quem quer, e isso não deveria soar ameaçador.

Um mundo horizontalizado, todos com sua devida importância e representatividade. O que atormenta? Talvez o medo de que nossos netos se tornem drags, trans... Que desperdício de pânico. Confiemos no chamado da natureza humana: cada um descobrirá para o que nasceu, cedo ou tarde, e à nossa revelia. É uma vitória da sociedade quando ninguém mais precisa se esconder atrás de estereótipos para realizar os sonhos dos pais, falsificando a si mesmo. 

O que estamos vendo é um ajuste, uma apertada de parafusos, pela segurança da engrenagem: gente feliz agride menos. Ninguém perseguirá héteros, nem os brancos serão escravizados: não haverá revide, tudo continuará a ser como é, apenas sem a tirania do modelo único. O normal é sermos desiguais, como são irmãos e irmãs de uma mesma família.

O sagrado pode ser teatralizado sem risco: não é função da arte inibir, ao contrário, ela expande o espírito, e o humor faz parte desta transcendência. A diversão é expectorante, ajuda a respirar, sem prejuízo à seriedade de nossos valores, portanto, sejamos uma plateia inteligente e relaxada diante de um mundo que jamais cessará de se transformar, é só conferir os livros de História. Enquanto estivermos vivos, testemunharemos o novo. Quem não suporta, pode fechar a janela, mas sem tentar fechar a dos outros, é ineficaz. O tempo nunca perdeu para o medo, o homem é que perde para o tempo.

Guerras são objetivas como um tiro. A paz, ao contrário, vem do mergulho emocional nas diversas camadas que nos constituem, até que se compreenda que o universo é mais vasto do que nossas escolhas e vontades, e que o amor que dizemos sentir pelo próximo não pode ser da boca pra fora. Se for, aí sim o pânico se justifica. _

O que estamos vendo é um ajuste: gente feliz agride menos. Enquanto estivermos vivos, testemunharemos o novo

MARTHA MEDEIROS

03 de Agosto de 2024
DECLÍNIO COGNITIVO - Bianca Dilly

DECLÍNIO COGNITIVO

O cérebro também precisa de exercícios

Cerca de 150 mil gaúchos sofrem com algum tipo de demência. Explorar novas habilidades ajuda a proteger contra danos.

Aprender uma nova habilidade, participar de jogos que estimulem o raciocínio lógico, integrar discussões em grupo, testar habilidades musicais, de computação ou fazer aulas para praticar um novo idioma. Mais do que aumentar os conhecimentos e se divertir, atividades como essas fazem bem ao estado geral do cérebro.

De acordo com especialistas, o treinamento cognitivo é um dos cinco fatores que protegem e melhoram a performance e a saúde cerebral a longo prazo. Segundo o médico neurologista responsável técnico pelo Centro de Pesquisa e Investigação Clínica do Instituto do Cérebro (Inscer), Cristiano Aguzzoli, a importância do treino intelectual fica ao lado de manter uma dieta balanceada, praticar atividades físicas regularmente, controlar os fatores de risco cardiovasculares e se engajar em atividades sociais.

Quando essa combinação não recebe atenção, o declínio cognitivo pode ser uma consequência. Em relação ao treinamento intelectual, o presidente da Sociedade de Neurologia e Neurocirurgia do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Distúrbios Cognitivos da Santa Casa, André Luiz Rodrigues Palmeira, destaca que quando se deixa de praticar habilidades, o cérebro vai perdendo a capacidade plástica:

- Ele vai se tornando mais vulnerável aos danos. Quando aprendemos coisas novas, estamos estimulando a formação de novas conexões. É o que chamamos de neuroplasticidade. Quando estimulamos, melhor se responde ao processo de desenvolvimento e às doenças que possam surgir - detalha.

Atualmente, há estimativas que apontam a existência de aproximadamente 150 mil gaúchos com alguma demência, dos quais 50% a 60% dos casos são relativos à doença de Alzheimer. O cálculo é do médico geriatra e professor da Universidade Feevale Leandro Minozzo, baseado no número de idosos e a partir de dados do Relatório Nacional sobre a Demência no Brasil (Renade). É um levantamento que preocupa e que deve piorar.

- As projeções apontam para o crescimento do número de casos de demência no mundo todo, em especial em países em desenvolvimento. A região da América Latina é a área do mundo onde se tem a maior prevalência de casos de demência. Também há estudos que mostram de 700 mil a 800 mil casos sem diagnóstico no Brasil, o que torna a situação mais complexa e demandante para toda a sociedade - aponta Minozzo.

Por isso, o treinamento é necessário por toda a vida. Segundo especialistas, a preocupação começa já na infância. E entre os fatores que mais protegem o cérebro nesse sentido é a educação. Há estudos que relacionam a baixa escolaridade com o aumento da chance de um indivíduo desenvolver demência.

Conforme Aguzzoli, os anos de educação são primordiais a longo prazo:

- Mais anos de escolaridade estão relacionados à proteção. Na fase adulta mais avançada, o treinamento cognitivo é fundamental para ter a mente ativa.

"Um bônus"

Entre as formas indicadas para as atividades intelectuais, está o aprendizado de idiomas. Na Associação Cristã de Moços do Rio Grande do Sul (ACM-RS), pessoas de todas as idades se encontram semanalmente no Centro Histórico de Porto Alegre para estudar inglês e espanhol. São cerca de 150 alunos, com idades entre 13 e 83 anos. Há grupos focados na terceira idade.

- Precisa manter o cérebro ativo. E o estudo de um idioma, que não é a nossa língua-mãe, é fundamental para a ginástica cerebral - relata a policial civil aposentada Katia Beirão Haag, 57 anos.

Professora de línguas e coordenadora de idiomas da ACM- RS, Nádua Gallo Muhammad conta que o trabalho é humanizado:

- Temos a missão de olhar para o próximo, acolher. O aprendizado de línguas exercita a mente, mas também traz a socialização como um dos benefícios.

O engajamento em atividades sociais é outro ponto importante para a saúde cerebral e também entra como fator decisivo para os alunos. Além disso, os colegas, para além da sala de aula, tornam-se amigos.

- Esse grupo é muito importante para todos nós. Nós conseguimos nos aproximar como pessoas. Inclusive, viajamos juntos. Eu considero essas aulas como uma terapia de vida. Trocamos experiências. Aprender espanhol é um bônus - conclui a estilista aposentada Rejane Penck de Araujo, 69. _

A América Latina é a área do mundo onde se tem a maior prevalência de casos de demência. Há estudos que mostram de 700 mil a 800 mil casos sem diagnóstico no Brasil.

Leandro Minozzo - Médico geriatra


03 de Agosto de 2024
J.J. CAMARGO

Os limites da verdade

Um mundo sem mentiras teria muitas vantagens, no entanto, o supersincero é uma figura assustadora e temida. Claro que o constrangimento resultante será uma exclusividade das pessoas de boa índole, aquelas que motivaram a publicação dessa crônica. E que em nada se parecem com os limitados de caráter, sempre enredados em escusas fabricadas, contextos falsos e vieses convenientes.

Normalmente vista como a vilã dos relacionamentos pessoais, a mentira existe, em muito, porque nos ajuda a cumprir um propósito essencial: a convivência harmoniosa em sociedade. Não seria um exagero chamá-la de mentira do bem porquanto pode significar de preservação da dignidade que, para os desprovidos amiúde, representa a única e pífia justificativa para a sobrevivência.

Certamente, o mundo sem mentiras teria muitas vantagens: (1) os políticos teriam que encontrar virtudes verdadeiras, (2) os compromissos seriam respeitados, (3) ninguém manteria segredos e (4) a traição não existiria.

Na essência, todos desejamos que as pessoas nos tratem com sinceridade, mas intimamente tememos o supersincero, uma figura sempre assustadora.

Para quem acha relaxante o convívio com a verdade, uma recomendação útil: retenha toda a informação bombástica até comprovar sua autenticidade. Sites como Snopes e FactCheck.org podem ajudar.

Uma dúvida constante é o quanto estamos, de fato, preparados para a sinceridade absoluta. Porque, sem mentiras, você teria que ouvir com naturalidade o que os outros pensam da sua aparência, das suas opiniões, dos seus amores e, que desagradável, do seu desempenho profissional.

Todos admitem que a mentira pode ser uma bengala para a autoestima. Em consequência, quase nada do que se publica, por exemplo, em sites de relacionamento, é verdadeiro. Uma pesquisa baseada em uma rede social na Califórnia mostrou que os homens eram, em média, cinco centímetros mais baixos e as mulheres estavam seis quilos acima do peso anunciado.

Como a verdade está atrelada à palavra, ficamos sempre à mercê do jeito de dizer, com termos conciliadores ou belicosos, que fluirão condicionados a gatilhos de risco, como preconceito, intolerância, sequelas emocionais ou, simplesmente, cansaço.

Com uma visão isenta, é fácil concluir que dois predicados frequentes tornam a verdade uma ameaça ao convívio social amistoso: a verdade absoluta e a verdade permanente. A fonte de intolerância mais antiga é o contador de vantagens, um tipo frequente em reuniões sociais e quase obrigatório em entrevistas de emprego.

Como era de se esperar, essa intolerância aumenta com a velhice porque parece cada vez mais irritante que alguém suponha que apesar de tudo o que a idade ensina ainda sejamos impressionáveis.

Por outro lado, a prática da verdade tem significado diverso em diferentes ambientes, usando-se como extremos, a fidelização à verdade nas pesquisas científicas - onde a falsidade é repudiada com veemência máxima porquanto representa de malefício para a sociedade - e a permissividade sem filtro das redes sociais, que rapidamente se revelaram os celeiros das notícias falsas, com o descompromisso moral de quem não se importa que uma mentira possa destruir uma família ou emporcalhar uma biografia.

Em medicina, especialmente em condições extremas, verdade é empregada até o limite em que, por aspereza, possa comprometer a esperança. Perceber a diferença entre verdade total e verdade útil, em prol do paciente, é puro talento médico. _

J.J. CAMARGO

Amores disfarçados de amizade

Eu me ponho a matutar: será que é verdade? Se você está acostumado com a ideia do amor romântico - um amor sofrido, angustiado, obcecado, em que se quer fazer tudo junto -, você não é capaz de notar quando a afeição autêntica surge em sua frente. Seu olhar se aliena, condicionado a uma viseira de expectativas e sensações predeterminadas.

Não é possível reconhecer um amor manso, calmo, compreensivo. Vai assimilar que aquilo é amizade, não amor.

Quantos amores passaram pela sua vida disfarçados de amizade? Aquela pessoa dava colo, aquela pessoa ouvia até o fim, aquela pessoa era parceira de dança, de balada, das conversas do bar, aquela pessoa incentivava as suas iniciativas, aquela pessoa ria das suas piadas, aquela pessoa entendia as suas loucuras a ponto de não rotulá-las, mas você pensava que era só um amigo.

Como não padecia dos sintomas românticos, julgava que não havia química. Nem se arriscou a investir, a explorar a cumplicidade para um compromisso.

Seguia uma bula, concebia estar amando como não ter fôlego, morrer de saudade, permanecer aflito por uma mensagem, amaldiçoar a distância, atravessar crises de ciúme. Assim confundiu o placebo com a vacina. Tão ocupado em perseguir uma idealização, deixou de amar quem realmente merecia, quem o destino disponibilizou em seu caminho para fornecer clareza e discernimento.

Você simplesmente não permitiu ao amor crescer de uma forma que você não conhecia, misteriosa, feita de paz, de suavidade, de concordância, de respeito ao seu espaço. Esperava borboletas no estômago, e elas estavam espalhadas pelo seu jardim. Esperava perder a cabeça, a razão, o chão, e vinha alguém devolvendo sua cabeça, sua razão, seu chão.

Esperava um tormento, um redemoinho apertando a sua rotina, e havia a leveza de alguém que não sufocava, não implicava, não explodia e, mesmo sem passionalidade nenhuma, demonstrava que você era a presença mais importante do universo.

Quantos romances foram cortados pela raiz, pois não se assemelhavam aos romances de antes?

Você esquecia que as suas experiências pregressas apenas causaram aborrecimentos, e aquela, pelo contrário, era benéfica. Então, não confiava. Não admitia que flechadas no coração pudessem não sangrar.

Negou-se a experimentar uma combinação diferente, não foi a fundo, estabeleceu um limite prévio para a intimidade. Quando está habituado a sofrer, você interpreta equivocadamente a sua saúde emocional como monotonia.

Acha que o contato carece de taquicardia, de adrenalina, de ansiedade, do extremo da preocupação. Parece dizer a si mesmo: é muito sossego para ser forte, é muita convergência para ser atração.  Não havia o monopólio, a disponibilidade integral, a fixação, e estranhou a expansiva liberdade.

Não se mostrava tensionado, sem saber se a pessoa voltaria no dia seguinte. Não existia desespero e chantagem, não precisava correr atrás ou mendigar atenção, e acreditou que não sentia nada demais.

Não raciocinou por um minuto que amor bom é o da confiança: você não tem medo de perder o outro porque o outro já faz parte de você. Quando há tranquilidade, você finalmente encontra o encaixe de dois inteiros. Não é mais metade de ninguém. _


Hereditariedade e o câncer de próstata

No mês em que o Dia dos Pais é comemorado, em 11 de agosto, a saúde do homem fica em evidência novamente. É importante pontuar que, além de amor, carinho e valores transmitidos de pai para filho, muitas predisposições genéticas são passadas de forma hereditária. As particularidades da saúde masculina levam a reflexões passíveis de prevenir possíveis doenças e ampliar o cuidado para diminuir as ocorrências. Assim como os fatores ambientais e o estilo de vida, a genética desempenha função essencial para entender o desenvolvimento das enfermidades.

Em algumas doenças, a hereditariedade é a única forma de transmissão, como a hemofilia A e a fibrose cística. Outras patologias, como câncer e obesidade, possuem diferentes causas, entre elas os fatores genéticos, ambientais e hábitos do indivíduo. Em ambos os casos, entender o papel do atavismo no desenvolvimento de enfermidades traz ferramentas importantes para compreensão, diagnóstico precoce e tratamento dessas condições.

No caso da urologia, a principal preocupação relacionada às condições genéticas é o câncer de próstata, o segundo tipo mais comum entre homens, atrás apenas do câncer de pele. De acordo a OMS, são registrados mais de 1,4 milhão de novos diagnósticos anuais da doença. O Brasil é o quarto país em casos, atrás de Estados Unidos, China e Japão, e a estimativa do Instituto Nacional do Câncer é de 71.740 novos casos a cada ano, o que representa aumento de 8,5% da análise anterior.

Como estima-se que 10% dos tumores são hereditários, a análise do histórico familiar cumpre papel significativo na obtenção de informações complementares e vitais na busca por estratégias terapêuticas mais eficazes. Para pessoas com parentes próximos que descobriram câncer de próstata, como irmãos ou pai, há maior risco de desenvolver a doença em algum momento da vida. No entanto, ao identificar uma predisposição genética, é possível agregar ações preventivas para o homem, seja no mês dos pais ou em qualquer outra época do ano. 


03 de Agosto de 2024
MARCELO RECH

Qual Lula fala sobre a Venezuela?

As idas e vindas em relação à Venezuela abrem uma incógnita sobre qual Lula está falando quando diz que não viu nada de grave na farsa eleitoral de Nicolás Maduro. Há muitos Lulas possíveis na pele do presidente. Escolha a sua versão.

O amigão - Em 2013, Lula gravou um vídeo de apoio para a campanha de Maduro. E foi o brasileiro quem estendeu o tapete vermelho para receber o aliado em Brasília, em maio de 2023, demarcando seu retorno aos salões de uma democracia. Na ocasião, como velhos amigos, trocaram sorrisos, abraços e promessas de cooperação.

O caradura - Lula sabe bem o que se passa no submundo do regime e das eleições venezuelanas, mas faz de conta que a Venezuela vive na normalidade democrática. Confuso, ingênuo ou cínico, trata o conselho eleitoral da Venezuela, um braço do governo de Maduro, como se fosse uma justiça independente, que não existe na Venezuela. Apesar de líder inconteste do PT, afirma que o partido, como na defesa da vitória de Maduro, tem autonomia para se manifestar.

O pragmático - Esse Lula também coloca uma venda nos olhos, mas faz considerações incômodas a Maduro, como pedir transparência e a divulgação das atas eleitorais, sem avançar a linha que possa levar a um desentendimento. A versão pragmática de Lula pensa na dívida de U$ 1,2 bilhão da Venezuela com o Brasil, nos negócios entre os dois países e na extensa fronteira ao Norte.

O diplomático - Lula articula países da região para pressionar por eleições livres, e segue na afinidade com o chavismo para manter alguma ingerência sobre Maduro, evitando ainda mais loucuras, como a invasão da Guiana pela Venezuela. Esse Lula conversa com Joe Biden sobre o vizinho e sonha em ser um indutor da sua redemocratização.

O esquerdista - A aliança histórica do PT e do MST com o chavismo bloqueia qualquer tentativa de desgarre de Lula em relação a Maduro. Quando se trata da autocracia chavista, o Lula que escolheu Cuba para passar o Réveillon de 2020 para 2021 está mais para a esquerda caquética e autoritária do nicaraguense Daniel Ortega do que para a esquerda contemporânea e democrática, além de crítica a Maduro, do chileno Gabriel Boric.

O antiquado - Um Lula que deixou de ser novidade nos círculos de maior prestígio empurra a diplomacia do Brasil para o lado de párias como a Rússia, o Irã e o Hamas. Lula não viu o tempo passar e tem dificuldade de lidar com a nova ordem mundial.

A esfinge - Quando não se entende um comportamento, é porque tem algo que não quer ou não pode vir à tona. Na relação com a Venezuela, é um enigma a ser decifrado

O contraditório - Uma combinação de todos acima. _

MARCELO RECH

03 de Agosto de 2024
EDITORIAL

EDITORIAL

O jornalismo em uma eleição singular?

Começa em duas semanas, de forma oficial, a campanha eleitoral para o pleito municipal de 2024. No Rio Grande do Sul, a disputa não será igual às anteriores. A busca pelo voto terá a singularidade de ocorrer em meio à reconstrução que se segue à mais devastadora catástrofe climática da história do país. Postulantes às prefeituras e às câmaras de vereadores serão cobrados pela população e pelo jornalismo do Grupo RBS, engajado com os gaúchos no esforço coletivo de retomada do desenvolvimento. Devem estar à altura das responsabilidades deste tempo em que o Estado está desafiado não só a se reerguer, mas a se tornar mais resistente.?

?A tarefa de forjar um Rio Grande do Sul adaptado ao aquecimento global e capaz de mitigar estragos causados por eventos meteorológicos extremos começa pelas ações sob a incumbência dos municípios. Será um tema inescapável. Dividirá atenções com outras pautas que permeiam as eleições municipais, como saúde, educação e transporte público. Mesmo nas cidades que não sofreram danos severos pelas enchentes que assolam o Estado desde o ano passado. Não há candidatura que possa garantir aos eleitores um futuro sem perdas materiais e risco à vida por secas, cheias ou pela fúria de tempestades.

O Grupo RBS, fiel aos princípios editoriais que norteiam a cobertura jornalística de períodos eleitorais, reitera o compromisso de colaborar para cada votante fazer a sua escolha de forma consciente e livre. Essa contribuição, na prática, se dá com um jornalismo preocupado com a relevância e a informação de qualidade. Mais do que buscar responsabilidades, é hora de dar atenção especial às propostas, ao cotejo de ideias, programas e biografias, e com insistência para que os aspirantes aos Executivos e Legislativos expliquem como viabilizar seus projetos. Os gaúchos conhecem os problemas de suas cidades. Estão à espera de soluções factíveis e, por isso, devem deixar clara a precedência do debate construtivo. Dos candidatos, esperam-se mais propostas e menos troca de insultos.?

A disseminação de desinformação, inquietação recorrente nos processos eleitorais recentes, vai requerer cuidado adicional. A rápida evolução das ferramentas de inteligência artificial, também mais acessíveis, eleva o risco de circulação de conteúdos fraudulentos, como as deepfakes. São os casos de vídeos e áudios falsos, embora convincentes. Criam uma situação, uma fala ou uma cena inexistentes, mas ultrarrealistas.

A difusão de falsidades, distorções e versões tendenciosas, com o intuito de enganar e confundir, conspurca a democracia por manipular a decisão do eleitor. Um voto contaminado pelo engodo não é um sufrágio livre. É neste momento que o jornalismo profissional, exercido com equilíbrio, rigor e técnica, se investe de ainda mais importância para a sociedade. O voto consciente é fruto da opinião individual formada a partir de dados verdadeiros e fatos constatáveis e checados.

?A poucos dias do início da campanha para um pleito de singular importância pelo momento histórico do Estado, a RBS reforça os seus deveres como grupo de comunicação. Entre eles estão a priorização de informações úteis ao eleitor, o debate em torno de temas da vida real que contribuam para o desenvolvimento dos municípios, a apuração, a checagem, a independência e a abertura de espaços para diferentes visões. É o que reafirma o jornalismo como pilar da democracia.?