sábado, 27 de setembro de 2025



27 de Setembro de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Sem Tarcísio, PSD deve lançar Ratinho ou Leite ao Planalto

O recuo do governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), garantindo a aliados que será candidato à reeleição, movimentou o cenário político na sexta-feira. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, adicionou lenha na fogueira ao dizer que, neste caso, o partido apoiará a reeleição de Tarcísio e lançará candidato à Presidência.

Embora seja voz corrente que aposta no governador do Paraná, Ratinho Júnior, Kassab manteve o discurso de que o PSD tem duas opções, e que o governador Eduardo Leite é uma delas. Em São Paulo desde quinta-feira, para participar de um evento da Comunitas, Leite conversou com líderes de diferentes partidos e manteve a cautela que vem adotando nos últimos meses, mas sem jogar a toalha.

- O cenário ainda é muito movediço. Há 15 dias, a candidatura de Tarcísio era dada como certa. Hoje, ele está dizendo que disputará a reeleição, mas daqui a pouco pode mudar de novo. Eu seguirei sustentando que precisamos escapar da polarização entre o petismo e o bolsonarismo - disse Leite à coluna.

Ratinho teria a simpatia de Jair Bolsonaro, mas nada garante que não seja torpedeado por Eduardo Bolsonaro, que, dos Estados Unidos, vem detonando Tarcísio e todos os que tentam ocupar o lugar do pai. Outra possibilidade é Michelle Bolsonaro ser candidata, o que deixaria Ratinho em situação complicada.

Prioridade à sucessão estadual

Leite se apresenta como o único pré-candidato que não é ligado nem a Lula nem a Bolsonaro, mas está jogando parado. Oficialmente, diz que não vai ficar "cavando esse espaço" de candidato e que poderá concorrer ao Senado:

- Minha prioridade é a sucessão no Rio Grande do Sul. Tenho dito aos líderes dos partidos que é legítimo cada um ter seu candidato, mas que essa construção tem de ser feita entre os que estão no nosso governo e não com a oposição que combate tudo o que fizemos.

Apesar de seu candidato natural ser o vice-governador Gabriel Souza (MDB), Leite considera possível uma outra composição, liderada pelo PP ou pelo PDT. _

Danielle, a "prefeita" do CAFF, comemora façanha de Mineirinho

Quando o skatista Sandro Dias, o Mineirinho, realizou a manobra imaginada por milhares de gaúchos desde a construção do Centro Administrativo Fernando Ferrari, a secretária de Planejamento, Governança e Gestão, Danielle Calazans, chorou de emoção em meio aos funcionários que assistiam à cena.

A descida dos 70 metros da rampa do CAFF foram o desfecho de uma negociação que durou mais de dois anos com a Red Bull e sobre a qual Danielle precisou manter segredo.

- Me emocionei porque há pouco mais de um ano tudo isso aqui estava debaixo d?água. O CAFF ficou três meses totalmente interditado. Agora, o mesmo Guaíba apareceu nas imagens de drone com o Mineirinho descendo a rampa. Essas imagens correram o mundo e o mundo viu o Rio Grande do Sul de outra forma. Não deixa de ser um símbolo da nossa reconstrução - diz a secretária, espécie de prefeita do CAFF e que tem a imagem do prédio tatuada no braço. _

Semana do Cérebro reunirá especialistas em Porto Alegre

Um congresso de médicos que deve lotar a rede hoteleira de Porto Alegre na semana do feriado de Corpus Christi de 2026 foi apresentado ao prefeito Sebastião Melo na sexta-feira pelos organizadores Eduardo Corrêa e Alessandro Irigoyen da Costa.

Trata-se da tradicional Brain Week, de 1º a 7 de junho. O diretor científico do Brain, neurologista André Palmini, acompanhou a audiência e falou da importância do evento.

A intenção dos organizadores é realizar eventos abertos à comunidade, aproveitando a presença em Porto Alegre dos maiores especialistas do mundo sobre temas ligados ao cérebro, sejam doenças ou comportamentos. _

Leite faz bloqueio na coluna em SP

Em São Paulo, Eduardo Leite precisou ser submetido a um procedimento de bloqueio em duas vértebras da coluna (lombar e cervical), para enfrentar as dores insuportáveis provocadas por hérnias de disco que o incomodam há vários anos. O procedimento durou três horas e foi realizado no Hospital Vila Nova Star, na sexta-feira.

No final da tarde, já com a dor sob controle, Leite embarcou para Buenos Aires, onde passará o final de semana na Feira Internacional de Turismo da América Latina.

De Buenos Aires, o governador seguirá para Brasília, a fim de assistir à posse do ministro Edson Fachin na presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) na segunda-feira. _

Esposa de Covatti Filho confirma filiação ao PP

A vereadora Nicole Weber Covatti, de Santa Cruz do Sul, anunciou oficialmente a intenção de filiar-se ao Progressistas (PP) - partido presidido no RS por seu marido, deputado Covatti Filho.

A confirmação da filiação da esposa de Covatti agitou a cidade de Santa Cruz, porque são conhecidas as divergências entre ela e a ex-prefeita Helena Hermany (PP). _

mirante

Será em Soledade o encontro nacional das mulheres do Partido Liberal com a presença da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. O evento está marcado para o dia 25 de outubro, às 8h.

O prefeito Volmir Rodrigues, de Sapucaia do Sul, foi convidado pela federação União Progressista a concorrer a deputado estadual.

O governador de Minas, Romeu Zema, confirmou presença no encontro do Novo, dia 4 de outubro, em Porto Alegre.

POLÍTICA E PODER

27 de Setembro de 2025
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Expectativa pela nova análise do Porto Meridional

A administração do Porto Meridional, investimento privado de R$ 6 bilhões em Arroio do Sal, espera que o resultado da nova análise do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) saia ainda em outubro.

A aprovação é necessária para o lançamento de editais, e a realização de audiências públicas é a última fase do licenciamento, que culminará com a emissão da Licença Prévia, depois da Licença de Instalação, que permitirá o início das obras.

Em sua primeira análise, o Ibama considerou que o estudo de impacto ambiental não atendeu a todas as exigências e solicitou reformulações. Dois pontos criticados pelo órgão foram a falta de medidas para evitar a contaminação da Lagoa Itapeva durante a construção da ponte que ligará o porto à BR-101 e a capacidade da Rota do Sol, que necessitaria de melhorias.

O diretor jurídico do Porto Meridional, André Busnello, explicou que a questão da Rota do Sol não integra o escopo do licenciamento do porto, uma vez que o projeto não prevê intervenções na rodovia. Quanto à Lagoa Itapeva, novas amostras de qualidade da água e de níveis de ruído foram coletadas e encaminhadas ao Ibama.

- A partir do momento em que formos autorizados a publicar os editais para convocar as audiências públicas, temos um prazo de antecedência de 45 dias. Considerando a organização e a viabilidade de agenda, estimamos, com otimismo, a realização das audiências até a primeira quinzena de dezembro e, de forma mais realista, para a primeira semana de fevereiro. Já temos os compromissos assumidos e o modelo de negócio desenhado. O que precisamos agora é concluir o processo de licenciamento - afirmou Busnello.

Calado mais profundo

Quando pronto, o Porto Meridional será um dos terminais de calado mais profundo do país. Com 17 metros de profundidade, estará à frente do Porto de Santos, em São Paulo, um dos principais do Brasil, cujo calado atual varia entre 13 e 15 metros. A administração do empreendimento avalia que essa profundidade permitirá receber embarcações de grande porte, capazes de transportar volumes maiores de carga em uma única viagem. _

Apresentando a culinária do RS em Buenos Aires

O governo do RS participa, entre este sábado e terça-feira, da Feira Internacional de Turismo da América Latina (FIT), em Buenos Aires. Um dos diferenciais será a participação do chef Rodrigo Bellora, que promoverá a gastronomia gaúcha no evento.

Porém, o maior diferencial é que Bellora promete fugir do tradicional e apresentar a culinária de outra forma: unindo produtos tradicionais a inovações gastronômicas.

Os dois pratos criados pelo chef e sua equipe utilizam ingredientes de diferentes regiões e biomas do Estado. O primeiro, por exemplo, terá, representando a Serra, o pinhão; o Litoral, pelo siri da Lagoa dos Patos; o Pampa, pelos queijos; as Missões, pelo butiá; e os Vales, pela erva-mate.

Já o segundo prato conta com abordagem contemporânea que conecta o tradicional a técnicas atuais. Entre os ingredientes, está o urtigão - uma planta alimentícia não convencional (Panc) -, uma carne bovina do Pampa e a batata-crem, um tubérculo nativo e raro que resgata a agrobiodiversidade local.

Segundo o chef, a ideia é "fugir" da culinária tradicional, como o churrasco e o carreteiro, e apresentar outras abordagens, utilizando ingredientes locais:

- É mostrar que o Rio Grande do Sul tem todo esse potencial gastronômico. Acho que isso representa todos esses chefs criativos que hoje vêm fazendo um trabalho diferente no Estado, apresentando ingredientes que costumamos consumir sempre da mesma forma. Na feira, conseguimos mostrar outras facetas desses ingredientes e apresentar o RS de forma diferente.

Sobre a feira

A delegação gaúcha na FIT será liderada pelo governador Eduardo Leite e pelo titular da Setur, Ronaldo Santini, numa ação estratégica para estreitar os laços com o principal mercado emissor de turistas para o Estado.

Durante o evento, o Estado lançará a campanha de verão, que destaca as atrações das diferentes regiões. 

TJRS participa de homenagem ao presidente do Supremo

O presidente do Tribunal de Justiça do RS, desembargador Alberto Delgado Neto, participou na quinta-feira, em Brasília, da homenagem promovida pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e o Conselho de Presidentes de Tribunais de Justiça do Brasil ao presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, ministro Luís Roberto Barroso, em razão do término do seu mandato.

- O ministro Barroso, que considero um dos maiores constitucionalistas mundiais, fez uma grande administração, comandando o Judiciário brasileiro em momentos muito difíceis no nosso país, atuando com muito equilíbrio e defesa firme do Estado democrático de direito - afirmou o desembargador. 

Pela primeira vez, Porto Alegre alcançou a marca de 30.195 crianças matriculadas na educação infantil do município. Segundo a pasta, o número de alunos matriculados em 2015 era de 23.956. Dez anos depois, o aumento representa crescimento de 26%.

Curso promove independência financeira de mulheres

O Centro Renascer da Esperança, que atua com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade na Restinga, em Porto Alegre, ampliou sua atuação para promover a autonomia financeira de mulheres.

A instituição iniciou turmas de corte e costura para alunas com idade entre 18 e 60 anos.

Segundo a fundadora do Centro Renascer da Esperança, a ex-gari Rozeli da Silva, o objetivo é fazer com que as mulheres da comunidade tenham autonomia para gerar a própria renda. À frente das turmas, está Cátia Fernanda Pinto, filha de costureira, que desempenha o ofício desde os 10 anos. _

INFORME ESPECIAL

sábado, 20 de setembro de 2025



20 de Setembro de 2025
EDUCAÇÃO

Biblioteca na palma da mão

Kindles, leitores de livros digitais portáteis, passaram a ser disponibilizados para o público na Biblioteca Municipal Rui Barbosa, em Esteio, por meio de um projeto da prefeitura. A ação busca incentivar o hábito da leitura dos moradores do município, que podem ficar até 10 dias com o dispositivo

Um único aparelho virou guardião de diversos títulos que antes eram encontrados apenas nas prateleiras da Biblioteca Municipal Rui Barbosa, em Esteio, na Região Metropolitana. A nova aquisição do município são os Kindles, leitores de livros digitais portáteis. O projeto chamado Biblioteca na Palma da Mão estreou na cidade na última semana de agosto.

Com o objetivo de aumentar a frequência e a participação de jovens na cultura e modernizar a disponibilidade de leitura para a comunidade, o projeto surgiu como uma meta de renovação da biblioteca. A ação é destinada a moradores do município, que podem ficar por 10 dias com os aparelhos (detalhes ao lado).

O secretário de Cultura, Brayon Marques, conta que havia uma movimentação para que fosse criada uma iniciativa tecnológica para o espaço e que, após muitas pesquisas, surgiu a ideia de incluir um dispositivo de leitura dentro do plano:

- Começamos disponibilizando computadores para pesquisas, fizemos uma área kids com televisões e essa modernização. Dialogamos e pensamos em disponibilizar leitores de livros digitais, mas, com essas pesquisas, acabamos não achando isso em outros lugares. Então, pensamos que seria uma ideia inovadora.

Tendência

Brayon destaca que, a partir da definição do aparelho, foi realizado processo licitatório, e a empresa selecionada ofertou o dispositivo da marca Kindle, da Amazon. Ele comenta que a tecnologia comanda as tendências atualmente e que sua inserção em espaços públicos pode reaproximar a comunidade jovem dos espaços culturais para além da biblioteca, que fica junto à Casa de Cultura Lufredina Araújo Gaya.

- A ideia de retorno é que possamos trazer um novo público para dentro da Casa de Cultura, que seja um incentivo e que isso traga uma cidade melhor para todos - relata o secretário. _

*Produção: Josyane Cardozo

Uma porta de entrada

No comando diário do espaço em Esteio, a bibliotecária Flávia Petterson, 46 anos, está se adaptando à nova fase de empréstimo de livros.

Ela encara a iniciativa como uma "porta de entrada" para que um novo público se torne frequentador do espaço. Flávia relembra que o leitor digital foi escolhido por possuir uma série de vantagens, sendo a principal delas a acessibilidade.

A bibliotecária destaca que o aparelho possui um sistema de personalização que permite que o usuário altere a forma da fonte das letras, a iluminação, além de ser um dispositivo leve e de fácil transporte. A biblioteca adquiriu 10 aparelhos.

No momento, diz Flávia, a novidade está sendo buscada por adolescentes que, segundo ela, possuem mais afinidade com a tecnologia.

O público mais velho ainda realiza um consumo mais conservador ao buscar por livros físicos, mantendo uma "resistência a entender como funciona".

Quanto à usabilidade do aparelho, a organização da biblioteca está buscando alternativas, como oficinas que promovam o incentivo do uso dos Kindles:

- O público ainda não tem esse costume de lidar com tecnologia. A gente vê o uso do telefone para tudo, mas ainda há limitações. No Kindle, é tudo novo. Ainda temos pessoas mais tímidas com a navegabilidade, e ensinar será uma forma de incentivo do serviço.

Ampliação do acervo

O próximo passo é ampliar o acervo, que atualmente possui 25 livros digitais, e trazer mais obras de interesse da comunidade. Os títulos no catálogo digital contam com autores de literatura e obras pedagógicas. Flávia afirma que o acervo continua em processo de curadoria e estudo para entender o gosto dos leitores. _

Nova leitora

O primeiro empréstimo do leitor digital ocorreu em 12 de setembro e foi feito pela estudante Luiza Coitinho Nunes, 16 anos. Acompanhada de sua mãe, a aluna do 2º ano do Ensino Médio foi até a biblioteca e usou pela primeira vez o dispositivo. Ela conta que soube que o espaço realizaria os empréstimos e ficou animada:

- É algo moderno, chama muito a atenção da nossa geração. Eu fiquei feliz em saber que fui a primeira a retirar, porque, de certa forma, representa exatamente o objetivo do projeto. Aproximar a leitura dos jovens e mostrar que ela pode, sim, ser algo prazeroso.

Luiza comenta que o lado positivo de usar o dispositivo é a praticidade. Quando descobriu quantos livros poderia carregar na palma de sua mão, descreveu o momento como "uma experiência totalmente diferente" e que ficou com vontade de poder explorar cada vez mais o aparelho.

Maior alcance

- Acredito que, quanto mais jovens tiverem acesso a esse tipo de oportunidade, mais leitores apaixona­dos vão surgir. E espero de verdade que esse projeto cresça cada vez mais e alcance muitas pessoas - descreve a estudante.

Para poder retirar o Kindle, Luiza precisou da ajuda da mãe, Maria Alice da Silva Coitinho, 68 anos. A aposentada gostou da ideia de a filha levar o aparelho para casa. Ela comenta que percebe que os jovens possuem muitas distrações e acabam se afastando da leitura.

- O projeto vem para despertar novamente esse gosto pelos livros. Eu vejo, pela minha filha, o quanto ela ficou empolgada em ter o Kindle nas mãos, parece que abre uma porta - diz a mãe.

"Transformar o futuro"

Um ponto que Maria Alice destaca é que muitos jovens têm a vontade de ler, porém, não têm recursos financeiros ou direcionamento para começar, e que a iniciativa traz a acessibilidade e o atrativo para atingir a comunidade adolescente. Para a aposentada, o projeto de Esteio "pode transformar o futuro de muitos, pois o hábito da leitura se leva para a vida toda". 



20 de Setembro de 2025
EDUCAÇÃO

Biblioteca na palma da mão

Kindles, leitores de livros digitais portáteis, passaram a ser disponibilizados para o público na Biblioteca Municipal Rui Barbosa, em Esteio, por meio de um projeto da prefeitura. A ação busca incentivar o hábito da leitura dos moradores do município, que podem ficar até 10 dias com o dispositivo

Um único aparelho virou guardião de diversos títulos que antes eram encontrados apenas nas prateleiras da Biblioteca Municipal Rui Barbosa, em Esteio, na Região Metropolitana. A nova aquisição do município são os Kindles, leitores de livros digitais portáteis. O projeto chamado Biblioteca na Palma da Mão estreou na cidade na última semana de agosto.

Com o objetivo de aumentar a frequência e a participação de jovens na cultura e modernizar a disponibilidade de leitura para a comunidade, o projeto surgiu como uma meta de renovação da biblioteca. A ação é destinada a moradores do município, que podem ficar por 10 dias com os aparelhos (detalhes ao lado).

O secretário de Cultura, Brayon Marques, conta que havia uma movimentação para que fosse criada uma iniciativa tecnológica para o espaço e que, após muitas pesquisas, surgiu a ideia de incluir um dispositivo de leitura dentro do plano:

- Começamos disponibilizando computadores para pesquisas, fizemos uma área kids com televisões e essa modernização. Dialogamos e pensamos em disponibilizar leitores de livros digitais, mas, com essas pesquisas, acabamos não achando isso em outros lugares. Então, pensamos que seria uma ideia inovadora.

Tendência

Brayon destaca que, a partir da definição do aparelho, foi realizado processo licitatório, e a empresa selecionada ofertou o dispositivo da marca Kindle, da Amazon. Ele comenta que a tecnologia comanda as tendências atualmente e que sua inserção em espaços públicos pode reaproximar a comunidade jovem dos espaços culturais para além da biblioteca, que fica junto à Casa de Cultura Lufredina Araújo Gaya.

- A ideia de retorno é que possamos trazer um novo público para dentro da Casa de Cultura, que seja um incentivo e que isso traga uma cidade melhor para todos - relata o secretário. _

*Produção: Josyane Cardozo

Uma porta de entrada

No comando diário do espaço em Esteio, a bibliotecária Flávia Petterson, 46 anos, está se adaptando à nova fase de empréstimo de livros.

Ela encara a iniciativa como uma "porta de entrada" para que um novo público se torne frequentador do espaço. Flávia relembra que o leitor digital foi escolhido por possuir uma série de vantagens, sendo a principal delas a acessibilidade.

A bibliotecária destaca que o aparelho possui um sistema de personalização que permite que o usuário altere a forma da fonte das letras, a iluminação, além de ser um dispositivo leve e de fácil transporte. A biblioteca adquiriu 10 aparelhos.

No momento, diz Flávia, a novidade está sendo buscada por adolescentes que, segundo ela, possuem mais afinidade com a tecnologia.

O público mais velho ainda realiza um consumo mais conservador ao buscar por livros físicos, mantendo uma "resistência a entender como funciona".

Quanto à usabilidade do aparelho, a organização da biblioteca está buscando alternativas, como oficinas que promovam o incentivo do uso dos Kindles:

- O público ainda não tem esse costume de lidar com tecnologia. A gente vê o uso do telefone para tudo, mas ainda há limitações. No Kindle, é tudo novo. Ainda temos pessoas mais tímidas com a navegabilidade, e ensinar será uma forma de incentivo do serviço.

Ampliação do acervo

O próximo passo é ampliar o acervo, que atualmente possui 25 livros digitais, e trazer mais obras de interesse da comunidade. Os títulos no catálogo digital contam com autores de literatura e obras pedagógicas. Flávia afirma que o acervo continua em processo de curadoria e estudo para entender o gosto dos leitores. _

Nova leitora

O primeiro empréstimo do leitor digital ocorreu em 12 de setembro e foi feito pela estudante Luiza Coitinho Nunes, 16 anos. Acompanhada de sua mãe, a aluna do 2º ano do Ensino Médio foi até a biblioteca e usou pela primeira vez o dispositivo. Ela conta que soube que o espaço realizaria os empréstimos e ficou animada:

- É algo moderno, chama muito a atenção da nossa geração. Eu fiquei feliz em saber que fui a primeira a retirar, porque, de certa forma, representa exatamente o objetivo do projeto. Aproximar a leitura dos jovens e mostrar que ela pode, sim, ser algo prazeroso.

Luiza comenta que o lado positivo de usar o dispositivo é a praticidade. Quando descobriu quantos livros poderia carregar na palma de sua mão, descreveu o momento como "uma experiência totalmente diferente" e que ficou com vontade de poder explorar cada vez mais o aparelho.

Maior alcance

- Acredito que, quanto mais jovens tiverem acesso a esse tipo de oportunidade, mais leitores apaixona­dos vão surgir. E espero de verdade que esse projeto cresça cada vez mais e alcance muitas pessoas - descreve a estudante.

Para poder retirar o Kindle, Luiza precisou da ajuda da mãe, Maria Alice da Silva Coitinho, 68 anos. A aposentada gostou da ideia de a filha levar o aparelho para casa. Ela comenta que percebe que os jovens possuem muitas distrações e acabam se afastando da leitura.

- O projeto vem para despertar novamente esse gosto pelos livros. Eu vejo, pela minha filha, o quanto ela ficou empolgada em ter o Kindle nas mãos, parece que abre uma porta - diz a mãe.

"Transformar o futuro"

Um ponto que Maria Alice destaca é que muitos jovens têm a vontade de ler, porém, não têm recursos financeiros ou direcionamento para começar, e que a iniciativa traz a acessibilidade e o atrativo para atingir a comunidade adolescente. Para a aposentada, o projeto de Esteio "pode transformar o futuro de muitos, pois o hábito da leitura se leva para a vida toda". 


20 de Setembro de 2025
A MÚSICA DO RIO GRANDE

A MÚSICA DO RIO GRANDE

A Música do Rio Grande

Membros do júri analisam o desfecho da votação

Ativistas da cultura gaúcha e comunicadores

destacam a importância das canções selecionadas. Para Lucas Negri, a maioria é praticamente uma declaração de amor ao pago e enaltece a força dos festivais nativistas. "É uma playlist obrigatória", define o jornalista Giovani Grizotti

William Mansque

Nos últimos 10 dias, o especial multimídia A Música do Rio Grande promoveu 10 clássicos absolutos do regionalismo. Para os votantes, o resultado mostra a riqueza do nosso cancioneiro e reforça a identidade local.

O comunicador e apresentador do Galpão da Gaúcha José Alberto Andrade ressalta que está bem desenhado o perfil do gaúcho nestas 10 músicas.

Segundo Zé Alberto, essas composições exaltam a terra, os costumes, as relações humanas e reafirmam imagens do homem do campo ou a agrura daqueles que um dia o abandonaram.

Ele sublinha a importância da música mais votada, Céu, Sol, Sul, Terra e Cor, de Leonardo (1938-2010):

- Sem querer entrar em polêmicas, aqui está uma canção mais bela e mais significativa do que o próprio Hino Rio-Grandense. Leonardo criou uma verdadeira oração para quem tem amor pelo Rio Grande do Sul. Recentemente, a tragédia da enchente apenas ratificou esse hino gaúcho.

A potência dos eventos

O comunicador e autor na plataforma Linha Campeira Lucas Negri destaca que a maioria das músicas é praticamente uma declaração de amor ao pago.

- Outra coisa que me chama a atenção é a força dos festivais: seis das 10 músicas da lista são oriundas dos eventos nativistas - acrescenta Lucas. - Uma coisa interessante é que temos uma mescla de compositores de várias regiões do Estado, mas senti falta da região missioneira aqui no meio.

Que venham outros

O jornalista e autor da página Repórter Farroupilha Giovani Grizotti destaca que as finalistas formam uma playlist obrigatória para todos os gaúchos. Porém, ressalta o fato de a música mais recente do top 10 ter 28 anos - Batendo Água, composição de Gujo Teixeira e Luiz Marenco:

- Nosso desafio como ativistas da cultura gaúcha e comunicadores é tentar fazer com que outras músicas atinjam este patamar. E se eternizem.

Uma mexida na história

Por sua vez, Gujo celebra o reconhecimento de Batendo Água. Para o poeta e compositor, foi uma honra ter a sua arte lembrada em um grupo tão seleto de pessoas. Sobre o resultado, ele reflete:

- Acho que o especial deu uma mexida na história da música gaúcha, porque muitos talvez não lembrassem de certas canções e foram ouvir. Eu mesmo fazia muitos anos que não ouvia Negrinho do Pastoreio. Isso é um espetáculo. _


20 de Setembro de 2025
CARPINEJAR

Vermelho de vergonha no T2

O T2 é uma linha de transporte coletivo das mais longas de Porto Alegre, da Zona Norte à Zona Sul, fugindo do Centro, ligando Petrópolis a Navegantes. Veio a ser meu ônibus predileto para grandes percursos, pois eu só gastava uma passagem para atravessar a cidade. Embarcava na parada da Carlos Gomes.

Num domingo, eu me dirigia até a Barão do Amazonas. Visitaria um colega para fazer trabalho de geografia e montar as cartolinas (com moldes vazados de letras) da apresentação sobre savanas, que aconteceria na manhã seguinte.

Absolutamente distraído com o calendário esportivo do rival, eu me fardei com a camiseta do Internacional, que tinha vencido no dia anterior. Subi no ônibus vazio pela porta de trás - nos anos 1980, era assim. De repente, começou a entrar uma multidão de torcedores gremistas.

Suei frio, vermelho de vergonha. Cometi uma gafe indesculpável na sobrevivência Gre-Nal da capital gaúcha. Não percebi que o veículo passaria pela Azenha, onde se encontrava o Olímpico. Não me atentei para o horário do jogo do Tricolor.

A turba exibia dotes eufóricos de uma escola de samba, batucando o teto e batendo os pés com os hinos das arquibancadas. A cada curva, jurava que viraríamos. Uma trepidação terrível. Ouvia-se um "oh" de quem gostava da emoção do embalo.

Atravessei a catraca e sentei na janela. Busquei ser invisível, como se pudesse desaparecer por telepatia, fingindo que admirava a paisagem. Mas um engraçadinho logo apontou para mim:

- Olha um colorado cara de pau aqui. A massa desandou a gritar: - Tira, tira, tira! Achei que queriam me enxotar dali. Porém, o apelo se mostrava ainda mais constrangedor: exigia um striptease.

Criou-se uma roda ao meu redor, tornando-me alvo de xingamentos e brados intermináveis. Uma verdadeira chuva de perdigotos.

O líder me puxou pelo braço, eu me converti em cabo de guerra, empurrado de um lado para o outro, sem ter como me equilibrar ou me apoiar na barra. O povo enlouquecido agarrava a minha gola. Esticava o tecido. Tentava rasgá-lo no meu próprio corpo.

- Tira, tira, tira! Não sobrou alternativa senão tirar, e permanecer de peito nu na viagem. Houve uma comemoração de gol. Não esperava o sadismo do cobrador. Ele me observou, refém da situação, indefeso, e não sentiu pena de mim, nem um pouquinho de compaixão da tocaia, apenas ordenou:

- Não dá para ficar no ônibus sem camiseta. Desce!

Fui obrigado a obedecer, e realizar o resto do trajeto a pé. Saí cambaleando nos degraus, segurando com firmeza o meu manto com a mão, todo esfarrapado, evitando que os torcedores o arrancassem de mim - não duvidava que acenderiam uma fogueira com ele ali mesmo.

Eles cantavam, debochados: "Até a pé nós iremos para o que der e vier?". Com a minha saída forçada, houve a comoção do segundo gol. Já parecia ovação de título.

Na época, tinha a certeza de que aquele cobrador era gremista. Eu berrava para ele: - Sacana! Hoje, com o distanciamento da lembrança, penso que ele era colorado e inventou um artifício para me salvar. _

CARPINEJAR

20 de Setembro de 2025
COM A PALAVRA - Michael Rich

Professor associado na Harvard Medical School (EUA)

"Não devemos proibir totalmente os celulares nas escolas"

Professor associado na Harvard Medical School, Michael Rich é reconhecido por seu trabalho como pediatra e pesquisador de saúde infantil. O norte-americano é um dos convidados do 17º Congresso Brasileiro de Adolescência, que se encerra neste sábado, em Porto Alegre

Fernanda Polo

Você sustenta que o uso problemático de smartphones, tecnologia e internet por crianças e jovens é muito mais sintoma do que causa de condições como TDAH, ansiedade social, autismo ou depressão. Por quê?

A razão pela qual digo isso é porque já atendemos centenas de crianças na Clínica de Mídia Interativa e Distúrbios da Internet do Hospital Infantil de Boston. Todos eles chegaram com problemas com jogos, redes sociais, pornografia ou até mesmo o que chamamos de compulsão informativa, que são os vídeos intermináveis do YouTube, Reddit, Quora. E, curiosamente, ainda não encontramos nenhum que não tivesse um desses motivadores psicológicos para esses comportamentos. Concordo plenamente com Jonathan Haidt (autor de A Geração Ansiosa) que essas condições se exacerbam, aceleram e amplificam no ambiente digital. Mas não acho que o ambiente digital esteja causando isso. 

Eu também, francamente, concordo plenamente com a premissa de que as crianças não estão brincando o suficiente. Que elas estão substituindo as brincadeiras por celulares. A diferença é que não devemos ter medo de celulares. Quero trazer a responsabilidade do jovem ou da família que o cerca, para realmente ajudá-los a entender como usar essas ferramentas poderosas de maneiras eficazes, conscientes e saudáveis. E esta é uma das razões pelas quais acredito que não devemos proibir totalmente os celulares nas escolas. Mas as escolas deveriam ensinar as crianças a usar esses celulares de forma eficaz, assim como ensinamos a usar computadores ou até mesmo lápis e papel. Porque se não as ensinarmos, elas aprenderão sozinhas. E será uma anarquia completa, como está agora.

Quais são as maiores preocupações em relação ao uso da tecnologia por crianças e adolescentes hoje?

Estamos seguindo três alvos móveis: o desenvolvimento humano desde a infância até a idade adulta; o ecossistema digital em constante e rápida evolução que está afetando esse desenvolvimento e o refletindo; e a mudança de todo o nosso comportamento, porque temos smartphones em nossos bolsos ou wearables e estamos constantemente em contato. Uma das preocupações que tenho de forma bastante pontual agora é o surgimento da IA, em particular em que você pode criar um bot de bate-papo ou um avatar e fazê-lo interagir com você. A IA é muito, muito inteligente, mas não tem empatia, não tem senso de compaixão humana. 

O que ela substitui por isso é a bajulação, ela diz o quão inteligente você é, maravilhoso, bonito. E o que acontece é que os jovens se apaixonam pelos bots de bate- papo de sua própria criação. E isso ensina que relacionamentos são fáceis, que é apenas alguém que te adora, não importa o que aconteça. Temos que lembrar que os jovens ainda estão em transição da infância, do pensamento mágico de que a fantasia é tão poderosa como a realidade, mas eles ainda precisam desenvolver um conjunto completo de funções executivas, como controle de impulso e pensamento futuro, que eles não desenvolverão até meados ou final dos 20 anos.

Você não vê apenas pontos negativos nos celulares e na internet. Quais são os benefícios?

Uma das razões pelas quais estou preocupado em não proibirmos as crianças de usar a internet ou os celulares é que existem muitos subgrupos que são historicamente marginalizados. Crianças LGBT+, de diferentes raças, etnias, religiões, que não têm um grupo físico com o qual se identifiquem ou uma tribo, podem encontrar seu povo online, pessoas online que os veem, os ouvem, os afirmam e até os amam. E isso é algo que não queremos perder. Queremos poder apoiar isso, porque é uma das grandes coisas que a internet fez. A internet também ajudou na saúde física quando as pessoas a usam da maneira certa, com suas maneiras de organizar atividades físicas ao ar livre entre si. Mas precisamos ajudá-los a usar essas ferramentas como ferramentas, e não como um fim em si mesmo.

Você defende mínimos diários sem tela.

Com certeza. Acho que é muito mais fácil fazer isso intencionalmente do que contar o tempo de tela. Porque sim, existem aplicativos no seu celular que informam quanto tempo de tela você passa no seu celular, mas não quanto tempo você passa no seu laptop, no seu tablet, na televisão e nas telas que estão em todos os ambientes em que vivemos. Então, acho que precisamos passar tempo uns com os outros, cara a cara, na natureza, no ambiente em que vivemos.

Quais tratamentos são recomendados na Clínica para Transtornos de Mídia Interativa e Internet?

O mais importante é identificar com o jovem qual é a sua dor. Geralmente, quando ele chega, os pais o arrastam e dizem que ele está jogando videogame o tempo todo. E a criança diz: "Ah, todo mundo faz isso. Qual é o problema?" Muitas vezes pergunto às crianças qual é a sua dor e elas dizem que é a mãe ou o pai. Uma das coisas que eu faço é pedir aos pais que parem de policiar e comecem a apoiar o sucesso. Em outras palavras, pare de ficar dizendo para desligar o vídeo e isso e aquilo, e apoie o uso desses dispositivos para fazer a lição de casa, pesquisar, aprender sobre o mundo. O garoto chega e espera que eu basicamente passe uma receita ou me livre do Xbox ou do smartphone. 

E o que fazemos é ajudá-los a estruturar o dia e a estarem atentos sobre como eles usam seu tempo para reconhecer que não existe multitarefa, que nosso cérebro humano só funciona em um canal por vez e que estamos trocando rapidamente de tarefa quando achamos que estamos fazendo multitarefa. Nós os encorajamos a, conscientemente, se afastarem das telas por um tempo, mas não dizemos para pararem. Uma das coisas que as motiva não é apenas o medo de perder algo, que todos nós temos, mas o que eu chamo de medo de ser deixado de fora. Acho que, muitas vezes, é muito útil para as crianças se uma comunidade escolar ou qualquer outra puder se reunir e decidir: todos nós vamos ficar offline a partir de um certo momento. Embora eles não consigam imaginar desistir sozinhos, quando você faz isso em grupo, é bem possível. 


Risco dispara na Argentina, e ministro nega calote

Depois que o dólar furou o teto da meta combinada com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a crise na Argentina se agrava. Para tentar evitar que a cotação se distancie muito, o governo voltou a adotar limites de negociação da moeda americana - o chamado "cepo" - para diretores, gerentes, acionistas que tenham mais de 5% do capital de bancos e financeiras autorizados a operar no mercado oficial (e familiares).

A mudança de escala da crise aparece no salto das manchetes de veículos especializados, como o Ambito, para os de informação geral, como Clarín e La Nación. A tensão fez o ministro da Economia, Luis Caputo, tentar tranquilizar o mercado. Afirmou, na quinta-feira, que está atuando para garantir os pagamentos dos próximos compromissos internacionais do país.

- Não ?defaulteamos? em 2023, quando chegamos e havia só duas escovas de dentes. Se acreditam que vamos fazê-lo na situação atual, saibam que não - afirmou um também tenso Caputo.

Tenta acalmar uma situação estressada, mas quando o ministro da Economia precisa dizer publicamente que não vai dar calote, é porque o risco é elevado.

Risco país e dólar em 1,5 mil (pontos e pesos)

O risco país, que vinha subindo desde a derrota do atual presidente, Javier Milei, nas eleições da província de Buenos Aires, disparou. Chegou na sexta-feira a 1,5 mil pontos, máxima em um ano, mesma cotação atingida na quinta-feira por alguns tipos de câmbio. Desde a derrota eleitoral, acumula alta de quase 60%. O principal índice da bolsa argentina, o S&P Merval, acumula tombo de quase 30% só em setembro, em dólares. No mesmo dia, Milei afirmou que negocia um empréstimo com os EUA.

Na frente política, a situação não está muito melhor: Milei enfrenta resistências no Congresso para aprovar projetos de novos cortes de gastos. No próximo mês, haverá eleição legislativa nacional em meio a essa tensão.

Por isso, não se descartam mudanças no regime cambial. Segundo a consultoria econômica 1816, citada pelo jornal Ambito, há risco de que as reservas líquidas do Banco Central da República Argentina (BCRA) voltem ao negativo em fevereiro de 2026. _

A bolsa bateu na sexta-feira um novo recorde nominal ao alcançar 145,8 mil pontos, fruto de variação de 0,25% para cima. O dólar voltou a ficar parado, com investidores realizando lucros (embolsando ganhos obtidos até agora).

Churras no apê

O bairro Petrópolis pode ser considerado o mais gaudério de Porto Alegre, ao menos em termos de mercado imobiliário. É que a região tem 4.236 imóveis à venda com churrasqueira, 65,9% a mais do que o segundo colocado, o bairro Menino Deus, com 2.553.

O levantamento é da startup Amostrando, que ajuda avaliadores imobiliários e fez pesquisa com curiosidades do setor para comemorar o mês marcado pelo Dia do Gaúcho. Ao todo, Porto Alegre tem 60.147 imóveis com churrasqueira à venda. _

Das bandejas ao metro quadrado

Com R$ 1,5 bilhão em vendas acumuladas ao longo dos seus seis anos de existência, a Urban Company, fundada por Babiton Espíndola, que atuava como garçom antes de entrar no mercado imobiliário, terá sua primeira unidade fora de Porto Alegre, em Canoas. Com investimento de R$ 1 milhão, deve gerar cerca de 50 empregos.

A Urban Company começou em uma sala de 20 m2 em Porto Alegre, com 14 funcionários. Com duas unidades na Capital, prevê chegar a R$ 450 milhões em vendas neste ano na Região Metropolitana. _

Com Supremo, com tudo?

Voltaram ao centro da cena política nacional o ex-presidente Michel Temer e o deputado federal Aécio Neves (MG-PSDB), como conselheiros do deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), que vai elaborar o texto do projeto de anistia - ou da dosimetria.

Nos bastidores, existem sinais de acordo para "pacificar" o país que envolvem integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Difícil não lembrar do "acordo com o Supremo, com tudo" que precisava de Temer, segundo o então senador Romero Jucá (MDB-AP), para barrar a Lava Jato em abril de 2016.

No Brasil, a história não se repete nem dá voltas, tomba. Anistias não são ruins por envolver cidadãos de uma ou outra força política. São negativas por reforçar o conceito de impunidade já tão entranhado na cultura nacional. Com essa possibilidade, não importa quantos crimes se cometam ou quantas regras legais se quebrem: sempre há a expectativa de um perdão.

O Brasil precisa de pacificação, de fato. Mas sem aspas. Para ser de verdade, exige comprometimento de todos, sem impunidade para quem depredou patrimônio nacional ou se envolveu em tentativa de golpe de Estado. E que todos convivam com seus adversários políticos, sem ver em quem pensa diferente um inimigo. Desse cenário, ainda estamos longe. _

GPS DA ECONOMIA 


20 de Setembro de 2025
EM FOCO - Rodrigo Lopes*

EM FOCO

Três anos após o início da invasão das tropas russas, Rodrigo Lopes, jornalista e colunista de ZH, viajou à Ucrânia. Nesta reportagem, ele descreve como os ucranianos em Kiev criaram uma rotina mesmo sob a ameaça de ataques de mísseis e drones

O dia a dia à sombra da guerra

São 9h40min (3h40min em Brasília) em um dos principais acessos rodoviários a Kiev, ou Kyiv, como preferem os ucranianos - e essa não é só uma questão estilística. Para a população, que desde 24 de fevereiro de 2022 vê seu país correr o risco de desaparecer do mapa, adotar a escrita e a pronúncia dos antepassados (e não o Kiev, derivado do russo, os agressores) é uma reafirmação da identidade nacional, da Ucrânia independente e soberana.

É uma terça-feira comum na cidade fundada no século 5 e que mistura, na arquitetura, raízes da Rus de Kiev, um grande reino medieval entre os mares Báltico e Negro, onde hoje estão localizadas Ucrânia, Belarus e a porção europeia da Rússia, igrejas ortodoxas em estilo bizantino, o classicismo herdado do império czarista, até os blocos de concreto do período soviético e as construções modernas da Ucrânia independente.

Há congestionamentos, moradores frequentam uma feira de frutas e verduras na entrada da capital e, na Praça Maidan, onde retumba a alma da resistência ucraniana, trabalhadores brotam da estação de metrô, para chegar ao trabalho.

Próximo ao Monumento da Independência, alguns pedestres se permitem uma rápida reverência no labirinto de bandeiras ucranianas, nas cores amarelo e azul, permeadas por fotografias dos soldados (considerados heróis) que tombaram nestes três anos e sete meses de guerra com a Rússia.

Quarenta minutos atrás, na cidade de Lviv, a cerca de 500 quilômetros de Kiev, como fazem todos os dias, às 9h, os moradores pararam, em um minuto de silêncio em homenagem aos mortos. A pausa, obedecida sob o comando dos alto-falantes, é contada, segundo a segundo, por uma batida seca como a de um martelo no metal. Estejam onde estiverem, na recepção do hotel, no caixa do supermercado, todos param e ficam de pé. Depois, voltam a seus afazeres.

É assim o dia a dia nas duas maiores cidades da Ucrânia. Kiev tem avenidas largas e grandes parques. Mistura o brutalismo da era soviética com prédios tecnológicos, como o NSC Olimpiyskiy, casa do Dynamo Kiev. É movimentada, moderna. A luz do outono a deixa mais brilhante e colorida. Na capital que Vladimir Putin sonhava conquistar em três dias, o som da guerra não ecoa pelo matraquear dos fuzis, como em Kharkiv, Zaporizhzhia e Dnipro - transformadas em campos de batalha, onde nacos de terra são disputados palmo a palmo pelo exército russo e as forças armadas ucranianas, com auxílio de voluntários dos dois lados. Aqui, a 600 quilômetros do front, o risco são os mísseis e os drones disparados pela Rússia. _

Cicatrizes do conflito também são visíveis

Na rotina quase normal das duas cidades, as marcas do conflito são sutis: aparecem no rombo que rasga a fachada de prédios, como o do Gabinete de Ministros, sede administrativa do governo, atingido entre o sexto e o sétimo andares no dia 7.

Estão nas estátuas e monumentos envelopados, nas barricadas improvisadas com concreto e sacos de areia, em frente a edifícios e nos passos apressados dos pedestres quando o toque de recolher se aproxima.

Há regras, normas e leis específicas a serem observadas. É proibido filmar ou divulgar fotos e vídeos de movimentos militares ucranianos, locais de ataques ou bombardeios, nomes de ruas, paradas de ônibus, lojas, fábricas, instalações civis e militares. As penalidades são de até 12 anos de prisão.

As imagens que ilustram esta reportagem, por exemplo, do buraco aberto por um drone russo na sede do Gabinete de Ministros, só puderam ser divulgadas depois que os jornalistas deixaram o país - assim como boa parte do conteúdo lá gravado. É uma tática para não revelar ao inimigo dados sensíveis que possam ser usados como alvo.

O país vive sob lei marcial: só é permitido transitar pelas ruas entre 6h e meia-noite. É recomendado baixar, no celular, um aplicativo chamado Air Alert, que permite rastrear alarmes de ataques aéreos no mapa da Ucrânia em tempo real e que faz disparar uma sirene diante de uma iminente ofensiva.

Engana-se quem pensa que o governo move-se todo na batida do esforço de guerra. Obras, como a ampliação da rodovia entre Lviv e a fronteira polonesa, estão a pleno, há o lançamento de uma plataforma digital para a área da educação e estratégias para aumentar as exportações de trigo, milho e cevada. Como disse a ZH uma autoridade do governo, é preciso que o país continue existindo quando a guerra terminar. _

Cansaço, persistência e revolta com a situação

A relativa normalidade com que os ucranianos convivem com o conflito aparece em diferentes falas dos moradores.

- Não vou para o abrigo, se um míssil quer nos atingir, que atinja. É meu país e não vou embora - conta uma jovem que prefere não se identificar, refletindo um sentimento ouvido com frequência em Kiev e que resume cansaço, negação e revolta.

Para ela, mostrar que a vida está o mais normal possível é uma forma de enviar uma mensagem aos russos de que eles não conseguiram quebrar a alma do país. Mas também é uma oportunidade de sinalizar aos compatriotas no front de que alguém os espera.

Outra ucraniana, Olena Vladyka, 29 anos, morou na capital, onde mantém o apartamento. Desde o início do conflito, mudou-se com o marido para Lviv. Ela reflete sobre a aparente ambiguidade de viver em meio à guerra - entre a normalidade cotidiana e a constante ameaça:

- Um dia, você está em um restaurante: vida normal. No outro, vai para o abrigo: é a guerra. Para nós, não está dividido. Aceitamos que vivemos no meio da guerra.

Olena dirige uma agência especializada na busca genealógica, voltada à identificação de parentes de brasileiros na Ucrânia. De tempos em tempos, viaja para o Exterior. Esteve no Brasil, e, nestes dias de setembro, iria à Grécia. Seu marido, em idade militar, está proibido de sair da Ucrânia.

Advogado, até agora não foi chamado a lutar. Os primeiros a pegarem em armas foram homens com experiência em combate ou voluntários.

É o caso de Alexander Nosachenko, executivo que trabalha para uma empresa de gestão de investimentos, que trocou o terno e a gravata pelo uniforme militar quando o confronto começou. Mandou a família para o Exterior. Atuou em um grupo de atiradores de elite para ajudar a defender Kiev. Atualmente, de volta ao mundo corporativo, vive esse sentimento: a guerra segue, pessoas continuam perdendo suas vidas, mas a rotina coexiste:

- Kyiv está 600 quilômetros distante do front, mas, ao mesmo tempo, temos drones e mísseis russos atacando a cidade. Basicamente, você não pode pensar durante todo o tempo na guerra. As pessoas desfrutam a vida em paz. Ao mesmo tempo, depois de uma hora, estão ajudando os amigos e familiares no front, enviando-lhes o que precisam.

"Temos de lutar"

A família de Alex retornou a Kiev, e os filhos, à escola:

- Quando você vai dormir, não importa onde esteja, não há 100% de garantias de que irá acordar no outro dia. Há muita chance de que um míssil de cruzeiro ou balístico, que atingem grandes velocidades, não seja interceptado, ou de que um drone caia em uma rua, em uma casa. Mas não temos outra chance. Temos de lutar. _

Resiliência está presente até nos eventos

Certa resiliência é evidente nos eventos. A Premier League da Ucrânia, principal competição de futebol, só recomeçou este ano, depois de mais de três de suspensão. Na semana em que ZH esteve na Ucrânia, ocorreu a 5ª Cúpula de Primeiras-Damas e Cavalheiros, que reuniu autoridades de Áustria, Dinamarca, Estônia, Lituânia, Finlândia, Sérvia e Alemanha.

Os discursos no palco de um antigo arsenal transformado em centro de eventos foram silenciados pelas sirenes.

Às 11h (5h em Brasília), de forma ordenada, os palestrantes e a plateia caminharam até os abrigos localizados no subterrâneo.

Conversa tranquila

ZH ficou refugiada no mesmo recinto em que estava Olena Zelensky, mulher do presidente Volodimir Zelensky, e outras primeiras-damas. Sentadas à mesa, elas conversavam calmamente, enquanto seguranças as rodeavam, até que as sirenes cessassem. Passados 15 minutos, a mestre de cerimônia foi até a delegação e anunciou que o perigo havia passado. A nós, coube ficar de olho no aplicativo, a indicar que a região de Kiev havia deixado de ser vermelha. _

*Viajou a convite da União Europeia.


Trump quer voltar ao Afeganistão; Talibã rejeita

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante sua viagem a Londres, disse que seu governo está estudando retomar o controle da Base Aérea de Bagram, no Afeganistão. Principal espaço militar dos norte-americanos no país durante duas décadas, o local foi entregue ao Exército afegão pouco antes de o Talibã assumir o poder em 2021.

O anúncio, no entanto, provocou uma reação imediata em Cabul, capital afegã. O governo talibã afirmou que não permitirá a presença militar estrangeira no território.

A intenção de Trump reacendeu memórias da guerra mais longa travada pelos EUA. O conflito, iniciado por George W. Bush em 2001 após os ataques da Al Qaeda em 11 de setembro, foi encerrado em 2021 por Joe Biden com uma retirada apressada e, considerada por especialistas, desastrosa.

O episódio da devolução tem um sabor amargo para Trump, isso porque o movimento da retirada das tropas foi iniciado pelo republicano durante seu primeiro mandato (2017-2021). Em fevereiro de 2020, começaram as tratativas, contudo, Trump não conseguiu implementar a ação a tempo em seu mandato, e Biden "herdou" o processo.

O fato marcou Trump profundamente, tanto que, em um debate em 2024, o republicano classificou a retirada protagonizada pelo democrata como "o dia mais vergonhoso da história" dos EUA.

Retirada norte-americana

Um ano antes, em julho de 2023, o Departamento de Estado divulgou relatório que revelou que as decisões dos governos Trump e Biden de retirar as tropas tiveram consequências prejudiciais. O documento apontou "deficiências condenatórias do governo Biden que levaram à mortal e caótica retirada dos EUA".

A saída foi tão apressada que armas e uniformes americanos foram abandonados no local, resultando, inclusive, em vídeos de soldados do Talibã exibindo os equipamentos. Um relatório do Departamento de Defesa de 2022 apontou que US$ 7 bilhões em equipamentos militares foram abandonados após a retirada. Entre os itens, estão 78 aeronaves, 9,5 mil munições ar-terra, 40 mil veículos, mais de 300 mil armas, equipamentos de comunicação e outros materiais.

No início deste mês, Trump disse que o governo Biden foi "muito estúpido". _

Foco na China

A intenção presidencial de retornar à base, no entanto, não é nova. Informações da CNN Internacional indicam que Trump vem pressionando autoridades de segurança há meses para encontrar uma maneira de retomar o local. Porém, o foco nem seria o espaço em si, mas sim a proximidade com a China. O próprio republicano disse na quinta-feira que Bagram fica perto de onde a China fabrica seus mísseis.

Apesar de não haver muitos detalhes sobre como seria essa operação, especialistas já apontam que traria alto custo para os EUA e para a geopolítica. _

"Negociação do acordo Mercosul-UE está concluída", afirma ministro

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, disse na sexta-feira que a negociação do acordo comercial entre o Mercosul e União Europeia (UE) está concluída, restando apenas as assinaturas.

Para isso, é necessário que o texto seja traduzido para as línguas dos países membros e aprovado pelo Conselho Europeu. O ministro reuniu-se com a alta-representante para Política Externa e Segurança da UE, Kaja Kallas.

Segundo ela, no entanto, não há prazo para a conclusão da discussão no conselho.

Antes, o presidente Lula recebeu Kallas. Segundo o ministro, foram discutidos temas como a defesa do multilateralismo. _

Estônia diz que caças russos invadiram o espaço aéreo

A Estônia acusou a Rússia de invadir seu espaço aéreo com três jatos de combate. O ato, na sexta-feira, foi classificado pelo governo estoniano como "uma audácia sem precedentes". Esta é a terceira movimentação russa contra um país membro da Otan em dez dias.

Três caças russos MiG-31 entraram no espaço aéreo do país sobre o Golfo da Finlândia sem permissão e permaneceram lá por 12 minutos.

- A Rússia já violou o espaço aéreo da Estônia quatro vezes este ano, o que é inaceitável. Mas a incursão de hoje, envolvendo três caças entrando em nosso espaço aéreo, é de uma audácia sem precedentes - disse o ministro das Relações Exteriores da Estônia, Margus Tsahkna.

No dia 10, drones de ataque russos invadiram o espaço aéreo da Polônia. Posteriormente, no dia 13, o governo da Romênia afirmou que um drone russo violou seu espaço aéreo durante um ataque à Ucrânia.

Allison Hart, porta-voz da aliança, disse que o ato "é outro exemplo do comportamento imprudente da Rússia". _

Falando em Afeganistão, o Talibã anunciou a proibição de 140 livros escritos por mulheres nas universidades do país. A medida abrange texto sobre direitos humanos, das mulheres e pensamentos políticos ocidentais.

CNBB critica a PEC da Blindagem

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criticou a aprovação da chamada PEC da Blindagem.

O comunicado, divulgado na quinta-feira, ressalta que "a sociedade deve permanecer atenta e vigilante, cobrando de cada representante (...) o compromisso com a ética, a responsabilidade e a defesa da democracia".

A nota também questiona: "Quem protegerá a sociedade brasileira das incongruências do próprio Congresso Nacional?". 

Evento antifacista tem nova data

Cancelada por causa da enchente de 2024, a Conferência Internacional Antifascista de Porto Alegre terá uma nova data: o evento ocorrerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026. Na próxima terça-feira, a organização retomará os trabalhos para a realização do encontro, com a presença de referências internacionais no assunto.

A Conferência Internacional Antifascista reúne movimentos, partidos e entidades sociais de 31 países em cinco continentes. _

INFORME ESPECIAL 

segunda-feira, 15 de setembro de 2025


15 de Setembro de 2025
CARPINEJAR

O fim do mundo chegou

Espiritualmente, a sensação é de fim de mundo. Estamos tão estremecidos que nem reparamos no quanto nos tornamos desumanos. No início do século passado, o bardo inglês T. S. Eliot vaticinou o nosso esgotamento no poema Os Homens Vazios: o mundo termina não com um estrondo, mas com um suspiro.

Não são as bombas que vão exterminar a espécie, mas a ausência de compaixão. O suspiro de que fala Eliot seria a mais profunda resignação. O completo conformismo. A inércia da cordialidade. A passividade atroz do amor ao pior. Quando banalizamos a maldade e nos acostumamos à violência.

Assim como ninguém ouve o suspiro, a extinção também passa invisível, imperceptível.

Não nos damos conta de que o Apocalipse vem acontecendo. Já superamos as sete cartas, os sete selos, as sete trombetas, os sete flagelos. Já não há mais como conviver. Já não há nem o código de decência entre os desafetos.

Não mais toleramos as diferenças. Não mais conseguimos conversar. Basta a pessoa se encontrar ideologicamente no campo contrário que logo é demonizada, cancelada, perseguida, linchada. Não se medem esforços para apagá-la em definitivo. A polarização roubou a harmonia dos contrários.

Não importa se a vítima é pai, mãe, filho, esposa, marido, jovem, idoso, trabalhador, virtuoso, só se é de esquerda ou de direita.

O debate público não tem mais a abstração plural de ideias, tudo é levado para a intimidade, para a ponta da faca, para o descrédito da privacidade, para a agressão à família. Não se vê mais fidalguia entre opositores com aperto de mão, naquela admiração pela retórica, pela argumentação de pontos de vista antagônicos.

Lembro a postura de Leonel Brizola, que se digladiava com fúria com Antonio Carlos Magalhães no fim dos anos 80 e início dos 90. Quando descia da tribuna, ele não deixava de cumprimentar o rival. Teria dito, de forma anedótica: "Política se faz no plenário, mas respeito é pessoal". O trabalhismo e o coronelismo sabiam se comunicar.

Ou a transição de governo do tucano Fernando Henrique Cardoso ao petista Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Apesar da dura campanha anterior, FHC recebeu Lula no Planalto e conduziu uma cerimônia excepcional, elogiada internacionalmente, sem criar obstáculos administrativos. Lula, por sua vez, afirmou que herdava um país estável economicamente graças ao Plano Real e chegou a destacar José Serra, o candidato derrotado: "Foi um adversário leal".

Ou o exemplo do saudoso Ulysses Guimarães, na disputa pela Presidência da República no Colégio Eleitoral (1985). O líder do MDB pegava pesado com Maluf, expoente do PDS, mas Ulysses sempre reconheceu publicamente a astúcia e a inteligência política de Maluf.

Hoje vigora um ódio brutal, sem limites, uma selvageria que despedaçou a educação e os bons modos. São bolhas virtuais furando as demais bolhas, num sabão pegajoso de enxofre. Liberdade de expressão se transformou em sinônimo de ataques, de calúnia, de difamação. O fair play foi abolido mesmo nas doenças e nas perdas.

Agora nem a morte do outro é poupada. Velórios e enterros viraram comícios e carnavais da oposição. Festejam-se assassinatos e atentados, chacinas e massacres.

Escuta-se com horror o coro da carnificina: "já vai tarde".

O silêncio sagrado do pesar, os pêsames com os enlutados, a reverência à finitude desapareceram. Não sobrou nenhuma pedra ética da civilização. 

CARPINEJAR

15 de Setembro de 2025
CLÁUDIA LAITANO

O papel do jornal

Em 2016, comemorei o Oscar de melhor filme por motivos estritamente corporativistas. Spotlight não é uma obra-prima (na lista do New York Times dos cem melhores do século 21, ficou na sexagésima-sexta posição), mas conta uma história que, por motivos óbvios, sempre me comove: jornalistas fazendo bom jornalismo.

Nem todos os filmes sobre o dia a dia de uma redação são sobre grandes reportagens investigativas como a narrada em Spotlight. O gênero "vida de jornalista" é tão vasto que comporta subgêneros. Amo os dramas clássicos, como Cidadão Kane e A Montanha dos Sete Abutres, mas também as comédias elegantes, como Jejum de Amor e A Mulher do Ano. Gosto de jornalistas cobrindo guerras (O Ano em que Vivemos em Perigo) e de jovens repórteres correndo atrás de estrelas do rock (Quase Famosos). 

Adoro jornalões de papel mudando o curso da História (Todos os Homens do Presidente) e filmes que mostram os bastidores de telejornais (Network). Não me importa que a trama seja de suspense (The Parallax View), surrealista (The French Dispatch) ou quase colada no noticiário (como o filme Ela Disse e a série The Newsroom): se tem jornalista trabalhando, já é um bom motivo para assistir.

Quando a série The Paper estreou aqui nos Estados Unidos, no início de setembro, eu tinha, portanto, dois bons motivos para querer conferir: o cenário é a redação de um pequeno jornal quase falido e, mais importante, a produção é um spinoff da série The Office (2005 - 2013), uma das minhas favoritas. Logo no início, deu para perceber que a nova série não seria tão engraçada quanto a original, apesar do exato mesmo formato de pseudodocumentário e das muitas piscadelas para os fãs de Michael Scott (Steve Carell) e seus colegas de escritório. 

À medida em que ia assistindo aos episódios, fui notando que não apenas eu não estava achando muita graça como estava começando a ficar deprimida. Era para ser uma comédia, mas, na verdade, a série narra uma história dramática que ainda está se desenrolando: a crise do jornalismo, não apenas como modelo de negócio, mas como maneira de pensar o mundo. The Paper talvez seja a primeira obra do gênero "vida de jornalista" a colocar esse drama em primeiro plano, ainda que de forma irônica.

A abertura da série brinca com o fato de que, no inglês, a mesma palavra, "paper", significa tanto "jornal" quanto "papel". Vemos jornais usados para embrulhar o peixe, forrar janelas e cobrir bandejas sendo descartados na lata de lixo onde se lê a palavra "paper". Como se a iminente extinção do suporte físico, que muitos de nós ainda amamos, fosse o prenúncio de um destino muito mais trágico: um futuro em que o próprio jornalismo seja considerado descartável. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

CLÁUDIA LAITANO



15 de Setembro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Respostas capitais - Caito Maia

Fundador da Chilli Beans e da Ótica Chilli Beans, jurado do programa de empreendedorismo "Shark Tank Brasil"

"O mundo não aceita mais marcas vazias"

Um dos maiores empresários do país, Maia também é popular por ser jurado do programa "Shark Tank Brasil". Nesta entrevista, recorda a história da Chilli Beans, destaca a importância do conceito ESG no mercado atual e avalia a polêmica gerada após afirmar que mudaria a moeda usada em negócios com a China.

Antes da Chilli Beans, você fundou a Blue Velvet. Como avalia a importância das lições deixadas?

Ter a experiência da Blue Velvet antes da Chilli Beans foi um baita aprendizado. A Chilli já veio com um outro olhar. Entendi que uma marca forte e relevante é o que faz a diferença. Se naquele momento lá atrás eu não tivesse tido dificuldades, não aprenderia essa lição na marra, e a Chilli Beans talvez nem existisse como a gente conhece hoje. Passar por obstáculos não é só inevitável no empreendedorismo, é fundamental para o crescimento da gente. É assim que nasce resiliência, criatividade e humildade para construir algo com propósito.

Como você explica, hoje, o sucesso da Chilli Beans?

O caminho que fez a Chilli Beans decolar foi bem certeiro: diversidade, acessibilidade e criatividade. Misturamos música, moda, arte e estilo num produto acessível e com design. Contamos histórias, lançamos coleções com frequência e trazemos marcas e personagens da cultura pop que o público ama.

A Chilli Beans também é conhecida pelas franquias. Na sua visão, quais são as principais vantagens ao se investir nesse modelo?

O modelo de franquia foi um acelerador do nosso crescimento, nos permitiu escalar a marca para vários pontos do Brasil. O nosso país é um dos mais avançados do mundo no mercado de franquias, temos uma legislação forte, a ABF (Associação Brasileira de Franchising) é uma entidade sensacional e o brasileiro tem a veia empreendedora. É uma das formas seguras de entrar no empreendedorismo: você não está sozinho, tem apoio e um caminho já validado, diminuindo os riscos de empreender.

Como você avalia a importância atual da conexão de empresas e marcas como conceito ESG?

Hoje, o mundo não aceita mais marcas vazias. ESG não é modinha: é obrigação. Há alguns anos, fomos para a China desenvolver materiais ecológicos e hoje somos uma das marcas de óculos mais sustentáveis do mundo. Incorporamos a linha Eco em várias coleções, com modelos feitos de capim-prado, plástico retirado do fundo do mar e materiais biodegradáveis. Nosso modelo de contêiner, o Eco Chilli, também é feito de material reciclado e movido a energia solar.

Você também ganhou popularidade por ser jurado do "Shark Tank Brasil". Como avalia a experiência?

Entrar no Shark Tank foi uma curva de aprendizado. Conheci gente com brilho no olho, ideias sensacionais e pude contribuir para além do capital. Retornar na 10ª temporada dá um gás para fomentar o empreendedorismo acessível e real.

Quais são os principais negócios que você mantém no Rio Grande do Sul atualmente?

O mercado do Rio Grande do Sul é um dos maiores para a gente. Já temos 65 pontos de venda no Estado, 35 da Chilli Beans e 30 da Ótica Chilli Beans, e o plano é ampliar essa rede. O consumidor gaúcho é um dos mais antenados do Brasil e adora novidades, ao mesmo tempo em que é bastante exigente. Inclusive, isso nos permite lançar novidades e fazer projetos-piloto no Estado. Já estive em centenas de cidades por aí, visitando lojas e palestrando em eventos. Adoro a energia do povo gaúcho.

Como foi o processo de decisão para deixar de usar dólares nos negócios da Chilli Beans com a China?

Identificamos uma oportunidade de reduzir custos de importação e evitar que os produtos chegassem mais caros ao consumidor. Se não tivéssemos tomado essa decisão, haveria impacto direto na margem e na inflação dos preços. Quero reforçar que não se trata de questão política, mas de gestão de negócio. Olhamos para aquilo que está no nosso controle: custo, logística e operação. E encontramos um caminho que faz sentido para a Chilli Beans. 

Colaborou Mathias Boni - GPS DA ECONOMIA