sábado, 12 de dezembro de 2009



12 de dezembro de 2009 | N° 16183
NILSON SOUZA


Planeta Tecnologia

Tem um brinquedinho novo circulando pela Redação de Zero Hora. Outro dia estive com ele nas mãos e até me diverti um pouco procurando notícias e artigos para ler numa tela do tamanho da página de um livro.

É um aparelhinho de simples manuseio e que também facilita a leitura de textos, pois permite até mesmo ampliar o tamanho das letras. Chama-se kindle, que em inglês significa acender, brilhar, iluminar.

Trata-se do leitor eletrônico fabricado pela empresa norte-americana Amazon, com a pretensão de que logo se torne o substituto do livro. Ou de muitos livros, pois nele cabe uma biblioteca inteira. E pode-se consultar também todos os jornais do dia.

Porém, depois de manuseá-lo por alguns minutos sob a orientação do nosso especialista em tecnologia Renato Santos, concluí que o livro de papel vai sobreviver por muito tempo ainda.

Eu, pelo menos, jamais leria uma obra de 300 ou 400 páginas naquele equipamento. Mesmo nos computadores maiores, a leitura longa me parece uma tarefa impossível. Desconheço alguém que tenha lido um livro inteiro no monitor. Mas admito que o tal leitor eletrônico é apropriado para consultas e leituras rápidas. Jornais e revistas talvez estejam mesmo ameaçados pelo novo aparato.

O livro, não!

No meu entender, a ameaça ao livro é outra: a ansiedade da vida moderna. São cada vez mais raros os leitores com paciência para folhear páginas e páginas apenas pelo prazer de conhecer o fim de uma história ou pela satisfação de adquirir um novo conhecimento. Estamos todos viciados em coisas que reagem, que nos dão respostas prontas, que nos oferecem retorno imediato para nossas dúvidas e angústias.

O celular popularizou-se porque é um objeto mágico, fala conosco, coloca amigos e parentes ao nosso alcance, oferece-nos som e imagem, permite trocar mensagens e dados com outras pessoas. O computador e todos os seus congêneres miniaturizados possibilitam a informação instantânea, mas invariavelmente dão acesso apenas ao superficial, à parte visível do iceberg.

A profundidade ainda está nos livros.

E o livro, embora não pareça, também pode ser interativo. Só que, para isso, exige dos seus usuários uma habilidade que a maioria dos habitantes do Planeta Tecnologia talvez já não necessite exercitar: a imaginação.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009



09 de dezembro de 2009 | N° 16180
MARTHA MEDEIROS


O trem das onze e cinquenta e dois

Eu já tinha a crônica de hoje pronta. Era sobre o atraso da classe política e sobre a nossa imobilidade diante da corrupção, mas me incomodava a sensação de estar chovendo no molhado. Foi então que li ontem na Zero Hora um depoimento sobre outro tipo de atraso, feito pela torrense Nilda de Jesus Silva, que declarou: “Estranho os jovens se atrasarem para a prova do Enem.

Se fosse jogo de futebol, estariam esperando por várias horas, e para shows, vão para as filas dois ou três dias antes, mas quando o assunto é colégio...”. Acabei postando o texto sobre corrupção no meu blog e resolvi dedicar esta coluna à observação perspicaz da Nilda.

Costumo dizer que sou a pessoa mais impontual que conheço: chego sempre 10 minutos antes do horário, e às vezes espero dentro do carro até que os minutos passem, a fim de não ficar sozinha na mesa do restaurante ou mofando na sala de espera.

Mas como os manuais de segurança pública não recomendam que se fique dentro de um carro estacionado, acabo exercitando minha paciência em mesas de restaurantes e salas de espera, fazer o quê? Sem falar em quando me esforço em chegar numa festa um pouco depois do que pede o convite, e mesmo assim pego o anfitrião ainda no banho.

Porém, em dia de prova de vestibular, exame para carteira de motorista, cirurgia com hora marcada, audiência com o juiz e reunião secreta para receber propina, atrasos são injustificáveis. Você pode ter dificuldade de ser honesto, mas nada é mais fácil do que ser pontual. A palavra imprevisto não existe para quem tem um compromisso que pode mudar a vida. Telefones tocam quando você está com a chave na porta, o elevador enguiça, o trânsito congestiona.

Acontece. Mas isso nunca é problema para quem costuma sair de casa com o mesmo fanatismo de quem deseja assistir à Madonna na fila do gargarejo, ou seja, com antecedência suficiente.

Escrevi a palavra fanatismo e senti um mal-estar: será que virei uma aiatolá do relógio? Não, nem poderia: a cultura local não incentiva o radicalismo quando o assunto é pontualidade. Já estou habituada a esperar pela noiva na igreja, pela decolagem dos voos e pela entrega do marcineiro, sempre com um sorriso no rosto, sem reclamar, sem rogar praga.

Aproveito o tempo de espera para sonhar acordada. Abstraio e me visualizo numa estação ferroviária de Paris, com um bilhete na mão para viajar para Amsterdã no trem que sairá às 11h52min. Entro no meu vagão (às 11h42min, lógico), me acomodo no meu assento, pego uma revista e desfruto 10 minutos de uma paz que só a segurança oferece.

Minha confiança e meu humor não sofrerão abalos. Então, exatamente às 11h52min, o trem parte e eu confirmo que nada pode ser mais moderno e pró-eficiente do que cumprir o combinado.

Isso também valeria para a classe política, não fosse outro sonho.

Ainda que com chuva uma ótima quarta-feira para você.

domingo, 6 de dezembro de 2009


DANUZA LEÃO

Adorável intimidade

Não tem hora para desejar boas coisas às pessoas, nem para mandar um beijo, mesmo não as conhecendo

NÃO SEI como é em outras cidades, mas no Rio você não precisa conhecer uma pessoa para ser tratada como se fosse amiga de infância.

Se telefonar para uma empresa qualquer -seja para encomendar um toldo, pedir uma pizza ou saber do preço de um remédio-, quem atende ao telefone te trata imediatamente com um carinho que você talvez nunca tenha recebido dos mais próximos, sangue do seu sangue.

"Sim, minha linda", "Claro, meu amor", "Já já, paixão". Não é maravilhoso que pessoas que nunca te viram sejam tão afetuosas e pareçam te amar tanto? É por essa razão -também- que os estrangeiros se apaixonam por esta maravilhosa cidade.

É bem verdade que essas adoráveis intimidades acontecem, mais frequentemente, pelo telefone; outro dia, uma amiga estava em minha casa e pediu o telefone do meu estofador. Aí ligou para ele -que nunca havia visto- e, quando se despediu, disse "um beijo", que tal?

Fico imaginando se alguma secretária na França, país tão protocolar, falaria ao telefone com um cliente da empresa dizendo "Oui, mon trésor", ou "Non, mon amour". Se isso acontecesse, estaria arriscada a ser enviada para um asilo de loucos; nunca, mas nunca, ninguém ouviu isso na França. Aliás, acho que em nenhum país do mundo, aliás em nenhuma cidade. E isso é bom ou ruim? Nem bom nem ruim, mas acho que mais para bom, pois sempre sorrio quando me acontece, o que é sempre uma coisa boa.

Já que estou falando sobre o Rio, cidade que eu adoro (apesar de tudo), vou contar como foi minha manhã hoje, e não vale ficar com inveja; aliás, até vale, mas só um pouquinho. Às 7h saí e fui para a praia, a três quarteirões de minha casa. Estava um sol radioso, a praia quase vazia, e comecei dando uma caminhada na calçada, em homenagem à minha saúde.

Voltei pela areia, molhando os pés na água. Sinceramente, tem alguma coisa melhor? Já de volta -não se pode tomar sol a partir das 8h30-, parei num quiosque, sentei numa cadeira e tomei uma água de coco, pela qual paguei R$ 2,50. Teria adorado comer a polpa, mas como ouvi dizer que engorda loucamente, me privei desse prazer.

Voltei passando pela feira, onde prestei uma atenção especial às barracas de peixes, de frutas, de legumes, tudo mais lindo do que qualquer quadro do mais famoso dos pintores. E o tratamento que recebi? Nem uma rainha foi, jamais, tratada melhor.

Os donos das barracas, ao oferecer seus produtos, foram tão calorosos que, se eu me distraísse, seria capaz de levar as beringelas lindas mas insossas, as abobrinhas que não têm gosto de nada ou a metade de uma jaca; você já reparou em como é divertida a natureza? E fala sério: do que você mais gosta na vida?

De comer caviar servido por um garçom antipático, ou uma sardinha na brasa sendo chamada de "paixão"? Sendo bem tratada, eu quero comer sardinhas até o fim da vida.

Todos os dias minha empregada, quando vai embora, se despede dizendo "um beijo". Eu também digo "um beijo", e adoro. Adoro viver assim.

E adoro tanto, que vou terminar essa crônica mandando um beijo pra você, leitor, meu tesouro, e aproveito para desejar um feliz Natal, e um maravilhoso 2010. Ah, ainda não está na hora?

Mas não tem hora para desejar boas coisas às pessoas, nem para mandar um beijo, ou beijinho, mesmo não as conhecendo.
Assim, a vida fica melhor.

danuza.leao@uol.com.br

sábado, 5 de dezembro de 2009



06 de dezembro de 2009 | N° 16177AlertaVoltar para a edição de hoje
MARTHA MEDEIROS

Falsa intimidade

Fala-se muito sobre as frágeis relações amorosas de hoje, tão afetadas pela urgência de satisfazer desejos imediatos, pelas inúmeras possibilidades de contato instantâneo e pela pouca durabilidade dos sentimentos. Me pergunto: onde está o furo dessa história?

O que perdemos no meio do caminho? Talvez nem tenhamos perdido, talvez simplesmente nunca tenhamos encontrado aquilo que só a poucos casais foi dado viver e que os mantém unidos a despeito de toda a artilharia.

A maioria, hoje, vive suas relações afetivas e sexuais de forma periférica. Contenta-se com cama, orgasmos e satisfação dos instintos. Isso somado a um cineminha, uma escapada no feriadão e um almoço em família configura uma privacidade compartilhada, e é o que basta para confirmar que a relação existe, seja ela chamada de rolo, namoro ou mesmo casamento.

Ainda me pergunto: onde está o furo da história? Por que essa privacidade compartilhada não se sustenta por muito tempo, não satisfaz 100% e gera tantas frustrações?

Com a possibilidade de acesso virtual a uma variedade de candidatos a grande amor e de seus cadastros (idade, profissão, time, fetiches), entrar na privacidade dos outros ficou muito fácil. Porém, em proporção inversa, perdeu-se a noção do que é intimidade, algo que nem mesmo algumas relações duradouras conseguem atingir.

Intimidade não se externa, não se divulga, não se oferece na internet. É nosso bem mais secreto, é onde guardamos a chave do nosso mistério, das nossas dores, das nossas dúvidas, da nossa emoção genuína.

Não se compartilha isso com outra pessoa se ela não tiver sensibilidade suficiente para nos ouvir e entender, para nos aceitar e nos acrescentar, para nos respeitar e ofertar em troca sua própria intimidade, selando a partir daí um tipo de pacto que beira o sublime.

Essa intimidade requer confiança plena, compatibilidade na maneira de enxergar o mundo e nenhum instinto maléfico em relação ao outro. Intimidade é quando duas pessoas, mesmo distantes em espaço, estão profundamente unidas porque se reconhecem cúmplices, não competem pela razão.

Claro que a intimidade não consegue evitar ciúmes e conflitos de ideias, e tampouco se pretende que ela acabe com a solidão de cada um, que é sagrada, mas ela assegurará a longevidade de uma união que será estabelecida pela generosidade do olhar: se estará mais preocupado em enxergar a alma do outro do que em fiscalizar para onde ele está olhando.

Amigos conseguem essa magia mais do que muitas duplas românticas, que frequentemente se enganam a respeito da falsa intimidade que o sexo faz supor. Invadir a privacidade alheia é moleza, basta um torpedo, um telefonema, um encontro.

Mas ter acesso ao mundo interno que o outro habita e sentir-se à vontade nesse mundo é que torna tudo mais raro, mais mágico e mais eterno.

Um lindo domingo para você


Papai não é mamãe

O pensamento politicamente correto contaminou a paternidade e exige dos homens um desempenho equivalente ao das mulheres no cuidado com os filhos. Mas isso vai contra os fatos da biologia

Todo homem que queira se manter competitivo no mercado das relações amorosas, atualmente, precisa demonstrar que reza pela cartilha do politicamente correto no quesito paternidade. Ou seja, ter disposição (ou pelo menos dizer que tem) para desempenhar toda e qualquer tarefa relacionada ao cuidado com os filhos. Dito assim, soa razoável.

Em um mundo em que homens e mulheres trabalham e as famílias foram reduzidas ao núcleo formado por casal e filhos – com o resultado de que avós, tias e primas atuam cada vez menos como "segundas mães" –, é mesmo necessário ter uma participação maior do pai nos serviços domésticos. Já vai longe o tempo em que levantar as pernas para a mulher passar o aspirador era considerado uma grande ajuda. Esquentar a mamadeira, preparar a papinha, trocar a fralda e dar banho no bebê são atividades, entre muitas outras, que um pai pode perfeitamente desempenhar.

Mas há excessos na concepção mais difundida de paternidade moderna. O principal deles é equiparar pai e mãe na capacidade de suprir as necessidades físicas e afetivas dos filhos. A influência que o pai pode ter sobre seus rebentos, especialmente quando eles ainda são bebês, é limitada por fatores biológicos. Forçá-lo a agir como se pudesse substituir a mãe pode ter efeitos devastadores.

"Muitos homens se sentem emasculados nessa posição porque passam a acreditar que as formas tradicionais de masculinidade, com as quais eles se identificam no íntimo, são negativas", disse a VEJA o psiquiatra inglês Adrian Lord. "A insatisfação nessa troca de papéis pode até afetar o desempenho sexual do casal."

O excesso de expectativa – e ansiedade – em relação ao papel paterno pode ser verificado por meio dos resultados obtidos em uma enquete feita com 820 pais no site VEJA.com. Setenta e cinco por cento deles disseram que gostariam de passar mais tempo com os filhos, mas só 20% parecem achar possível realizar esse desejo num curto espaço de tempo (veja o quadro).

É óbvio que cada casal tem o seu próprio equilíbrio na divisão das tarefas maternas e paternas. E é claro também que existem homens que se realizam como "pais totais", sem que isso interfira na sua masculinidade (pelo menos, eles não sentem os efeitos mais adversos).

Analisados em conjunto, entretanto, os homens estão sendo submetidos a duas forças opostas. De um lado, a pressão das mulheres para que exerçam a paternidade de uma maneira historicamente inédita, em que várias das tarefas maternas lhes são confiadas. De outro, a limitação de ordem natural, que faz com que eles não se sintam totalmente à vontade nas novas funções.
Leo Drumond/Nitro


NÃO BASTA SER PAI

O publicitário Rafael Castro, de 30 anos, de Belo Horizonte, divide com a mulher tarefas como dar banho, trocar fraldas, dar mamadeira e fazer Melissa, de 7 meses, dormir. Além disso, ajuda Pedro, de 8 anos, a fazer a lição de casa. "Com isso, sobra pouco tempo para atividades que homens geralmente gostam de fazer, como sair para tomar uma cervejinha com os amigos e jogar futebol", diz Rafael.

"No início foi difícil me acostumar porque, enquanto meus amigos e colegas de trabalho saíam, eu tinha que dar uma de babá", diz. Não raro, Rafael fica cuidando das crianças enquanto a esposa vai a alguma festa de casamento ou aniversário de parentes ou amigas. "Tive de me adaptar, até porque é uma condição básica imposta pelos casamentos modernos", resigna-se Rafael

Ordem natural? O pensamento de extração feminista atribui o desconforto dos homens nos cuidados com os filhos a aspectos culturais originados do machismo patriarcal. Por esse argumento, os pais não conseguem ter a mesma delicadeza, afetuosidade e disponibilidade que as mães simplesmente porque não se despem dos valores que lhes foram inculcados e que continuam a ser reproduzidos nas diferentes esferas da vida social.

Não foram educados para cuidar de crianças e não encontram respaldo no ambiente de trabalho para ser pais participativos. Tudo isso é, em parte, verdadeiro. Meninos são ensinados a manter-se longe de bonecas, e é mais fácil para uma mãe do que para um pai convencer o chefe de que precisa sair mais cedo para levar o filho ao médico.

Pais como Paulo de Queiroz Silveira, do Rio de Janeiro, que trabalha em casa e pode passar boa parte do dia com as crianças, frequentemente ouvem a pergunta "Onde está a mãe deles?", quando estão com os filhos no shopping ou vão sozinhos às reuniões na escola.

Chegamos, então, à "ordem natural". Por mais que as pessoas acreditem na versão politicamente correta da paternidade, o fato é que a maioria estranha quando os homens desempenham tarefas tradicionalmente maternas. Isso é errado? Não. "As regras sociais e culturais não surgem do nada. Elas têm uma origem biológica", diz o psicólogo evolutivo americano David Barash, da Universidade de Washington.
Fernando Vivas


ADEUS, FUTEBOL

Quando era solteiro, o contador Lucimário Mota, de 34 anos, de Salvador, não abria mão das partidas de futebol com os amigos. Sua então namorada, Rosana Alves Mota, o trancava em casa para que ele não a deixasse só nas manhãs de sábado. Lucimário pulava a janela para ir ao jogo.

Há seis meses, no entanto, ele não aparece para disputar uma partida. "Dei um tempo para acompanhar os últimos meses de gravidez da Rosana e agora estou ajudando em casa", diz. Lucimário troca as fraldas da filha, Maria Fernanda, e a leva para tomar banho de sol todas as manhãs. Quando a empregada está de folga, ele cozinha, limpa a casa e cuida da louça. "Até tento convencê-lo a voltar a jogar bola, mas ele não quer", conta Rosana

Entre as características tipicamente masculinas que, em geral, são deixadas de lado quando se tenta cuidar de uma criança com a mesma dedicação de uma mãe, estão a autonomia, o gosto pela competição e a agressividade.

A perda de virilidade experimentada pela maioria dos homens que se põem a realizar trabalhos associados a mulheres tem bases químicas. Experiências de laboratório mostram, por exemplo, que os níveis de testosterona no organismo caem quando o homem segura uma boneca nos braços.

O efeito é o mesmo de quando o marmanjo embala um bebê de verdade. O hormônio masculino por excelência é aquele que, entre outras coisas, proporcionava aos machos humanos, nos tempos das cavernas, o ímpeto de caçar, acasalar-se – e dar uma bordoada na cabeça do inimigo.

Faz sentido, portanto, que a evolução tenha moldado o organismo do homem de forma tal a diminuir os níveis de testosterona na presença de crianças – não só as suas, como as de outros. Do contrário, eles representariam sempre um perigo para aqueles serzinhos adoráveis – e gritadores, e chorões, e... irritantes.

Um estudo feito por antropólogos da Universidade Harvard indica que os níveis do hormônio em homens casados são, em média, mais baixos do que em solteiros. E, entre os casados que passavam todo o tempo livre com a mulher e os filhos, sem dar chance à cerveja com os amigos, a quantidade era ainda menor. A descoberta reforça a tese de que o natural para um homem é ser provedor e protetor – não um trocador de fraldas.

O psicólogo David Barash explica que o envolvimento do pai com os filhos é proporcional ao grau de certeza que o macho tem de que a prole carrega seus genes. É o contrário do que ocorre com as mulheres.

A não ser nas novelas de televisão, elas jamais têm dúvida de que deram à luz aquele filho. "Em termos evolutivos, esse fato serviu para estreitar ainda mais a ligação entre mães e sua descendência", diz Barash. "Prova disso é que não há uma única sociedade em que os homens se dedicam a cuidar mais das crianças do que as mulheres."

Tal especificidade também esclarece por que a natureza reservou às mulheres, e não aos homens, a capacidade de produzir leite. Se fosse o contrário, os homens poderiam ver-se na situação de amamentar os filhos dos outros (ou de recusar-se a fazê-lo caso descobrissem o engodo).

Só o sexo que investiu nove meses na gestação e não questiona se o rebento é seu poderia ter uma função tão essencial quanto a de alimentá-lo nos primeiros anos de vida – garantindo, desse modo, a continuidade da espécie.

O trato com as crianças, segundo a ordem natural, também diferenciou homens e mulheres quanto a outros aspectos. Centenas de milhares de anos acalentando e dando atenção a indivíduos que não se expressam verbalmente – os bebês – conferiram a elas capacidades cognitivas superiores às dos homens.

Daí a vantagem feminina na compreensão da linguagem corporal. Já o homem, menos preso a laços afetivos familiares, se tornou mais apto para tecer alianças externas.

Por esse motivo, os pais têm mais medo do que as mães de ver sua vida social reduzida com a chegada de um filho.



Pausa para respirar

Estudos de importantes centros de pesquisa em todo o mundo começam a medir o que já se sabia empiricamente: a prática cotidiana de exercícios respiratórios tem impacto positivo na saúde e no bem-estar, além de auxiliar no tratamento de diversas doenças

Silvia Rogar -Fotos Marco Pinto/Selmy Yassuda

RESPIRE FUNDO

A atriz Priscila Fantin e o empresário Robson Gouvêa: ela dorme melhor e ele toma decisões com mais calma depois que começaram a usar as técnicas de respiração controlada


O cardiologista italiano Luciano Bernardi coordenou, há oito anos, um curioso estudo na Universidade de Pavia. O tema: a influência da ave-maria sobre o sistema cardiovascular. Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que a oração em latim, lida em voz alta, tinha efeito calmante sobre os fiéis. O que Bernardi e seus pares constataram foi que isso não tinha relação com a fé, e sim com o ritmo da respiração exigido pela métrica da oração.

Para dizer cada frase inteira e respeitar os intervalos, é preciso baixar o número de inspirações e expirações para seis por minuto, um terço do ritmo normal. Esse ritmo respiratório mais lento reduz a frequência cardíaca e baixa a pressão arterial. Daí a sensação de calma. Data também do início dos anos 2000 uma série de outros estudos que procuram explicar e medir o efeito do controle da respiração sobre a saúde.

Essa relação é conhecida empiricamente há milênios pela medicina oriental, mas só recentemente começou a ganhar status de assunto sério nos principais centros de pesquisa do mundo. Os resultados são animadores. A respiração controlada, em diversas modalidades, revela-se coadjuvante eficiente no tratamento de transtornos de ansiedade, de hipertensão e até de dores crônicas, em alguns casos permitindo reduzir expressivamente as doses de remédio.

O grande mérito dos estudos recentes sobre respiração é dimensionar seu poder de interferir no funcionamento do sistema nervoso autônomo. Esse sistema é dividido em dois: o simpático e o parassimpático.

O primeiro prepara o corpo para enfrentar situações de perigo. Ao receberem um sinal de alerta, motivado por situação real ou imaginária, diversas áreas do cérebro entram em ação, desencadeando reações destinadas a enfrentar essa ameaça. Substâncias que contraem os vasos sanguíneos (como a adrenalina) são liberadas, provocando aceleração dos batimentos cardíacos e elevação da pressão arterial. Quando a ameaça sai de cena, o sistema parassimpático conduz o corpo de volta a seu estado normal.

A respiração pode interferir nesse processo porque é a única das funções regidas pelo sistema nervoso autônomo que se pode controlar. Não é possível baixar ou elevar voluntariamente a temperatura corporal ou alterar a velocidade da circulação do sangue.

Mas é perfeitamente possível alterar o ritmo da respiração. O que os médicos constataram é que, quando se respira lenta e profundamente, se envia ao cérebro uma mensagem tranquilizadora que ajuda a desarmar os sistemas de defesa.

A respiração mais eficaz para isso é a diafragmática, semelhante à respiração dos bebês, que expandem o abdômen ao inspirar. Estudos do Laboratório de Pânico e Respiração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostram que 70% dos pacientes que sofrem de distúrbios de ansiedade conseguem diminuir em até 60% a dose de antidepressivos e ansiolíticos depois de seis meses.

"Para quem sofre de pânico, o treinamento da respiração diafragmática é o primeiro passo para a resolução do problema sem medicamentos", diz o psiquiatra Geraldo Possendoro, professor de medicina comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Selmy Yassuda

ADEUS INSÔNIA, AZIA, RINITE


Cristiane Edelman aprendeu a controlar a respiração há cinco anos: a qualidade de vida melhorou com o fim do mal-estar

Na esteira dessas constatações, nasceram e se multiplicaram os cursos de respiração. Eles atraem principalmente a turma que sempre aderiu alegremente a qualquer novidade na área do bem-estar. Mas têm incorporado também gente que nunca levou muita fé em nada que cheirasse a terapia alternativa. Foi por pura curiosidade que o empresário Robson Gouvêa, de 51 anos, procurou a Fundação Arte de Viver, uma das primeiras a oferecer esse tipo de curso. Isso foi em 2007.

Gouvêa, que comanda a rede de magazines Leader, do Rio de Janeiro, gostou do resultado. Diz que sua grande conquista foi aprender a respirar fundo antes de tomar decisões importantes. Ele trabalha cerca de dez horas por dia. Para administrar o stress, joga tênis e pratica corrida.

"A respiração passou a fazer parte da minha rotina de bem-estar", diz. A atriz Juliana Paes aderiu no ano passado, quando estava se preparando para viver a Maya de Caminho das Índias. "Eu estava muito ansiosa. Ia começar a novela e sabia que a pressão seria enorme. Aprender a respirar foi fundamental para enfrentar a empreitada com mais tranquilidade", diz Juliana, que, assim como a atriz Priscila Fantin, vê na qualidade do sono o maior benefício obtido com a prática.

Em geral, quem faz regularmente exercícios respiratórios relata ter conquistado um precioso aliado para enfrentar o stress e a correria do dia a dia. A medicina confirma. "Vejo o controle respiratório como parte de uma estratégia de vida saudável, ao lado da alimentação balanceada e da atividade física regular", diz Bernardi.
Selmy Yassuda

PRATICANTES CONVICTOS


Alunos da Fundação Arte de Viver se exercitam na Praia de Ipanema: bons resultados confirmados pela medicina

Executiva de recursos humanos, a carioca Cristiane Edelman, hoje com 45 anos, não tem dúvida dos ganhos que obteve desde que incorporou o condicionamento respiratório ao seu cotidiano. Submetida à puxada rotina das consultorias internacionais, ela vivia entre voos e reuniões Brasil afora. Passou a sofrer os reflexos do stress e da ansiedade no corpo. Por duas vezes, chegou a parar no pronto-socorro.

"Tinha formigamentos no rosto, achava que estava infartando, vivia com insônia, azia, e tinha rinite alérgica", conta. Cristiane só conseguiu dar um basta nesse mal-estar quando procurou uma terapeuta, cinco anos atrás, que lhe ensinou técnicas de respiração. "Minha qualidade de vida teve uma sensível melhora", diz.

Outra vertente em que as pesquisas constatam bons resultados do condicionamento respiratório é o controle da pressão arterial. Em 2002, o Food and Drug Administration (FDA), a agência americana que regula a venda de medicamentos, liberou um dispositivo chamado Resperate, uma espécie de walkman criado por médicos israelenses com o propósito de ditar o ritmo das inspirações e expirações.

A prática de quinze minutos diários mostrou efeito significativo em estudos que abrangeram 507 hipertensos, todos sob orientação médica (veja o quadro). Após oito semanas, a redução média de pressão foi de 15 por 9 para 14 por 8. Em 10% dos casos a hipertensão desapareceu. Mesmo sem o aparelhinho, a física paulistana Elisa Wolynec, 68 anos, conseguiu idêntico resultado.

Ela sempre levou uma vida saudável. Há cinco anos, descobriu que sua pressão estava alta. Começou a tomar medicação, mas teve uma série de efeitos colaterais desagradáveis e, em outubro de 2008, sob orientação médica, decidiu apostar na prática de exercícios de respiração lenta e profunda.

Desde então, dedica quinze minutos todos os dias a eles, com muita disciplina. Aos poucos, o médico reduziu a dose de medicação e, desde janeiro, Elisa não toma comprimidos.

Sua pressão chegava a 17 por 9 e estabilizou-se em 12 por 7. "Depois de dois ou três meses de prática, observa-se em alguns casos redução semelhante à que se consegue com remédios", diz Décio Mion, chefe da unidade de hipertensão do Hospital das Clínicas da USP, que no ano passado conduziu um estudo sobre o assunto com 27 hipertensos em grau leve.


A tabela da Copa do Mundo de 2010

Brasil ficou com o grupo da morte, com Coreia do Norte, Costa do Marfim e Portugal. Confira a tabela completa para a Copa do Mundo da África do Sul
REDAÇÃO ÉPOCA

Faltou sorte ao Brasil no sorteio da Copa do Mundo, realizado na tarde desta sexta-feira (4), na Cidade do Cabo, na África do Sul. O Brasil caiu no grupo da morte, ao lado das fortes seleções de Portugal e da Costa do Marfim, além da Coreia do Norte, a equipe mais fraca da chave.

A boa notícia é que o Brasil caiu no grupo que a comissão técnica da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) avaliava como o mais tranquilo do ponto de vista logístico, pois os dois primeiros jogos serão na mesma cidade, Johannesburgo.

A primeira partida será no dia 15 de junho, contra a Coreia do Norte, às 15h30 de Brasília. O segundo jogo, diante da Costa do Marfim, será no dia 20. A terceira partida do Brasil será contra Portugal, em Durban, no dia 25 de junho.

Costa do Marfim é uma seleção desconhecida da maioria, mas que conta com grandes jogadores. Sua maior estrela é o atacante Didier Drogba, do Chelsea, da Inglaterra, considerado um dos melhores do mundo em sua posição. Já Portugal, que sofreu para conseguir sua classificação nas eliminatórias da Europa, tem em Cristiano Ronaldo, companheiro de Kaká no Real Madrid, seu melhor jogador.

Os classificados do grupo G, o que está o Brasil, vão enfrentar na segunda fase as equipes do grupo H, com Espanha, Honduras, Chile e Suíça.Os classificados do grupo G, o que está o Brasil, vão enfrentar na segunda fase as equipes do grupo H, com Espanha, Honduras, Chile e Suíça.



O mapa até a final foi traçado. A sorte está lançada

GRUPO A
África do Sul África do Sul
México México
Uruguai Uruguai
França França

GRUPO B
Argentina Argentina
Nigériao Nigéria
Coreia do Sul Coreia do Sul
Grécia Grécia

GRUPO C
Inglaterra Inglaterra
Estados Unidos Estados Unidos
Argélia Argélia
Eslovênia Eslovênia

GRUPO D
Alemanha Alemanha
Austrália Austrália
Sérvia Sérvia
Gana Gana

GRUPO E
Holanda Holanda
Dinamarca Dinamarca
Japão Japão
Camarões Camarões

GRUPO F
Italia Itália
Paraguai Paraguai
Nova Zelândia Nova Zelândia
Eslováquia Eslováquia

GRUPO G
Brasil Brasil
Coreia do Norte Coreia do Norte
Costa do Marfim Costa do Marfim
Portugal Portugal

GRUPO H
Espanha Espanha
Suíça Suiça
Honduras Honduras
Chile Chile


Mostrar as pernas ficou chique

Os vestidos curtos invadiram os tapetes vermelhos das mais badaladas festas do cinema e da televisão. Estão liberados para todas as mulheres agora
Fernanda Colavitti

O vestido longo sempre foi sinal de elegância – e obrigatório em certas ocasiões. Não mais. O tradicional traje de gala ganhou concorrentes à altura – ou melhor, de altura bem menor. Neste ano, nos principais eventos de gala do cinema e da televisão, o longo dividiu os holofotes com muitas – e belíssimas – pernas.

Foi com vestidos acima do joelho que as modelos Gisele Bündchen, Naomi Campbell, Bar Refaeli, a atriz Anne Hathaway, a cantora Madonna e outras famosas compareceram ao Museu Metropolitano de Arte, em Nova York, para o Costume Institute Gala, a principal premiação do mundo da moda, em maio.

No mesmo mês, a atriz Sharon Stone desfilou com um microvestido tomara que caia e cauda longa com babados no tapete vermelho do Festival de Cinema de Cannes. Não foi a única a deixar o longo no armário na ocasião, o que se repetiu em diversas outras festas de gala deste ano. O vestido curto esteve presente, inclusive, no mais glamouroso e badalado de todos os eventos. Foi a ousada opção de figurino das atrizes americanas Zooey Deschanel e Lindsay Lohan para a cerimônia de entrega do Oscar 2009.

Quer dizer que os elegantes e clássicos longos estão fora de moda? Não, de acordo com a consultora de moda Manu Carvalho. “Quem quiser usar o longo pode, quem quiser usar o curto também pode. A moda está mais democrática. O que está fora de moda é impor regras. A quebra delas é um dos principais fenômenos desse universo nos anos 2000”, diz.

É por esse motivo que a atriz Juliana Paes acertou duas vezes com relação ao modelito curto e justo que usou durante a cerimônia de entrega do Emmy, prêmio americano de televisão, no final de novembro. Primeiro acertou na escolha, depois na resposta que deu aos que se indignaram por ela não ter se apresentado no tapete vermelho com um longo clássico de festas. “Isso é coisa de gente careta”, disse na ocasião, referindo-se às críticas. De fato é, segundo os especialistas.

O consultor de moda Yan Acioli, que cuida do guarda-roupa da apresentadora Sabrina Sato e da cantora Claudia Leitte, diz que essa discussão não existe mais. “As pessoas ligadas à moda e à indústria perceberam que a roupa pode ser curta e elegantérrima.

O que prova isso é que todas as grandes grifes do mundo, como Prada, Gucci e Dolce & Gabbana, usam o mesmo material de qualidade tanto em seus vestidos longos como nos curtos”, afirma. Quando a barra do vestido sobe, a exigência em relação a sua qualidade sobe junto.

Não dá para aparecer em um evento black tie usando um vestidinho de malha, por exemplo. Mesmo curto, o traje precisa ser suntuoso. Até mais que o longo. “Quando uma mulher opta por quebrar o código de vestimenta com um modelo curto, ele obrigatoriamente precisa ser feito de um tecido mais sofisticado”, diz Acioli.

Entre eles o cetim de seda pura, o shantung, a musselina, o tafetá, o crepe e as rendas. Detalhes como fendas, transparências e pedrarias também ajudam a compor um figurino mais glamouroso.

Além disso, o vestido curto exige uma produção mais caprichada, diz a consultora de moda Raquel Sebe. Com a barra acima dos joelhos, os sapatos ficam em evidência. O salto é obrigatório, e as plataformas estão vetadas. O ideal é que o penteado e as joias também sejam mais elaborados.

“É preciso ter cuidado para não ficar parecendo uma drag queen ou com cara de quem está indo para a balada”, diz. “É mais fácil acertar com um vestido longo do que com um curto, apesar de ele não ser mais proibido.” Assim como os demais consultores, ela afirma que não é preciso ser famosa para se arriscar, todas as mulheres estão liberadas para o curto.

Mesmo aquelas que não têm a idade nem a forma física da Juliana Paes ou da Gisele Bündchen? “É antigo dizer o que a pessoa deve ou não usar, é a mulher que tem de decidir se está ou não na idade e com um corpo ideal para sair de vestido curto”, diz Manu Carvalho.

Ah, sim, toda essa democracia com relação à barra da saia se refere apenas às festas. No trabalho – e, como se viu há algumas semanas, em faculdades como a Uniban – ainda se recomendam pernas cobertas.


05 de dezembro de 2009 | N° 16176
NILSON SOUZA


Enigmáticos

Estava pesquisando sobre os enigmas do escritor Edgar Allan Poe quando caí num blog chamado portaldastrevas, mantido por alguém que se autodenomina mortícia–lacrimosa e que recebe os visitantes com uma saudação relativamente amistosa, mas nada entusiasmante: “Bem-vindo(a) ao inferno”.

Dei uma volta por lá e, entre poemas mórbidos, odes ao suicídio e desenhos de enforcados, encontrei o que procurava. Uma biografia do escritor norte-americano, obviamente destacando o lado escuro de sua atormentada vida. Voltei ao meu texto pensando em como o mundo ficou pequeno: a autora do tétrico registro pode ser alguém que mora na Ilha da Madeira ou uma blogueira que trabalha ao meu lado.

De qualquer maneira, sou-lhe agradecido pela involuntária contribuição, já que aprendi um pouco mais sobre o autor de O Corvo. Descobri, inclusive, que ele foi dono de jornal em Nova York.

Por que me interessei por Poe? A menina dos meus olhos recebeu como tarefa escolar a leitura em inglês de cinco textos do contista. Saí atrás de seus livros e encontrei, numa das novas livrarias da cidade, uma verdadeira preciosidade: as obras completas do escritor norte-americano por R$ 19. Ela leu um dos poemas e me alertou: “O poema tem um enigma que ainda não consegui decifrar”.

Voltei correndo para a pesquisa. Era uma coisa simples: juntando-se a primeira letra da primeira linha, com a segunda letra da segunda linha e assim por diante, chega-se ao nome de uma mulher, uma poetisa, com quem Poe trocava correspondência e, possivelmente, afetos. Pelo que entendi, ele gostava de passar recados cifrados nos seus textos, especialmente de formar acrósticos para homenagear amigas e amadas. E assim cativava leitores.

Enigmas são sempre fascinantes. Poucas coisas são tão prazerosas quanto decifrar uma charada. Chega a ser difícil de entender o que leva uma pessoa a despender tempo e energia em busca de uma resposta que na maioria das vezes não tem outra serventia a não ser o próprio prazer de chegar-se até ela.

Mas somos assim. Minha mulher adora resolver palavras cruzadas e não é incomum que eu adie meu sono para tentar ajudá-la, mesmo quando ela não me solicita ajuda.

Foi fácil solucionar o enigma de Poe. Mas fiquei com outra curiosidade para saciar: o que leva alguém a alimentar diariamente um blog tão lúgubre? Sinceramente, não sei.

Mas sei o nome da moça: segunda letra do título desta crônica, última da primeira palavra do primeiro parágrafo, primeira da última palavra do segundo parágrafo, vigésima quinta letra do terceiro parágrafo, trigésima segunda do quarto, e última do quinto. Respostas para o e-mail acima.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009



02 de dezembro de 2009 | N° 16173
MARTHA MEDEIROS


Os meio honestos

Tenho lido as mais diversas opiniões a respeito de como deve jogar o Grêmio no próximo domingo contra o Flamengo: há os defensores de o time entregar o jogo para não permitir que o Inter seja campeão, e há os que defendem a dignidade acima de tudo: tem que jogar pra valer e seja o que Deus quiser (tudo indica que Deus vai querer ver o Rio de Janeiro em festa, mesmo que o Grêmio dê tudo de si...).

Na lista das minhas preocupações cotidianas, o futebol nem entra. Ele está, no máximo, na lista das minhas diversões, e não chega a ocupar os 20 primeiros lugares. Ocupou, na minha adolescência.

Hoje, é uma alegria pontual, que acontece apenas em finais de campeonato e em jogos de Copa do Mundo, quando o Inter e a Seleção Brasileira estão em campo. Sou colorada, é sabido. E brasileira.

Como colorada, obviamente que eu adoraria que o Grêmio goleasse o Flamengo dentro do Maracanã, e se vencer com jogadores pouco experientes, tanto melhor: seria a chance de despontarem novos ídolos.

Mas essa sou eu, uma reles mulherzinha cujas paixões insanas estão reservadas para outros setores da vida, jamais para o futebol, e que nunca se importou de o Grêmio vencer campeonatos, desde que o Inter já estivesse fora do páreo. Desculpe a inocência.

Pelo que me foi dito por quem tem melhor memória do que eu, os colorados também já fizeram das suas para prejudicar o Grêmio. Se é verdade que o Inter algum dia jogou propositadamente mal, então também não honrou os próprios calções.

Rivalidade tem limite. Pode ser algo divertido e infantil, no que a infantilidade tem de melhor, que é o nosso resgate dos tempos do colégio, das gincanas, das turmas de rua.

Natural que, mesmo crescidos, o espírito de disputa permaneça, que se diga “bem feito” quando o lado de lá perde, que se toquem flautas, que se soltem foguetes quando nosso adversário leva um gol. Coisa de piá.

O limite da rivalidade é extrapolado quando deixamos de ser gremistas ou colorados para virar um tipo de torcedor mais agressivo: aquele que é, antes de tudo, antigremista ou anticolorado, e que torce mesmo é pela humilhação do oponente em qualquer circunstância.

É o lado perverso da infantilidade: são homens e mulheres que não conseguiram transpor os ritos de passagem, não suportam se sentir inferiores e confundem o futebol com uma espécie de religião. Aí deixam de pensar.

Se você fosse mãe ou pai de um jogador de futebol que entrasse em campo pressionado a perder, que conselho daria a seu filho?

a) “Faça o que seu patrão mandar. Emprego não anda fácil.”

b) “Se você é macho, jogue mal e ferre seu inimigo. Honra é pra boiola.”

c) “Quem tem escrúpulo, tem todos os dias. Não é desonesto no domingo e depois compensa sendo honesto na segunda-feira.”

Tomara que estejamos de acordo sobre escrúpulos, não só pro bem do futebol, mas pro bem do país, que está precisando.

Quarta-feira, Dia Internacional do sofá. Aproveite. Uma linda quarta-feira para vc.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009



01 de dezembro de 2009 | N° 16172
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Um semeador de livros

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

A frase de Mario Quintana me veio à memória ao ler que o poeta Itálico Marcon está doando 180 mil volumes de sua biblioteca, considerada a segunda maior particular do país, para o projeto Banco de Livros. Trata-se de uma iniciativa da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul destinada a reunir 500 mil tomos para a montagem de acervos em comunidades carentes.

A história toda está contada em uma bela reportagem de Luiz Antônio Araújo, publicada no penúltimo número do caderno Cultura, de Zero Hora. Os livros de Itálico Marcon ocupavam três apartamentos de três quartos do prédio em que ele vive, na Independência. Entre eles havia raridades como uma edição de A Divina Comédia, de Dante Alighieri, publicada no século 18, na Itália. Essa e outras preciosidades provavelmente serão destinadas à Biblioteca Pública.

As demais obras, no entanto, têm endereço certo: centenas de centros de cultura espalhados por todo o Rio Grande. É esse o grande mérito da doação. Vilarejos, bairros, pequenas cidades passarão a contar com polos irradiadores do legado da civilização. Não me refiro a algo imaterial. Hemingway dizia que todos os bons livros se parecem por serem mais verdadeiros do que se tivessem acontecido realmente.

Imagino dezenas de milhares de crianças, legiões de adultos, em grandes centros ou mínimos povoados, dialogando com o universo atemporal da literatura. Imagino-os descobrindo novos mundos dentro de si próprios ao simples contato com páginas antes desconhecidas.

Somerset Maugham escreveu que “quando leio um livro, tenho a impressão de lê-lo somente com os olhos, mas de vez em quando topo com um trecho, talvez apenas uma frase, que tem uma significação para mim, e ele se torna parte de mim”.

Itálico Marcon, além de poeta e bibliófilo, é também um jurista, um crítico literário e um ensaísta.

Mas quero crer que, de toda a sua obra, que espelha o seu talento, poucos capítulos serão mais duradouros do que a doação que vem de fazer. Pois ele está repartindo algo que não tem preço: um pedaço dos sonhos e dos caminhos da aventura humana sobre a Terra.

Uma linda terça-feira, aproveite o dia e que haja muito sol dentro desse seu coraçãozinho.

domingo, 29 de novembro de 2009


DANUZA LEÃO

O maior dos poderes

Dependendo do humor daquele dia, esse presidente pode, justa ou injustamente, acabar com a sua vida

EU BEM QUE tentei entender o caso de Cesare Battisti, mas não consegui.

O Supremo decidiu pela extradição do terrorista? Decidiu. Então ele vai ser extraditado, é isso? É mais ou menos isso. Mas o Supremo não é o Supremo, a última das instâncias a que alguém pode recorrer? É. Então?

É, mas nesse caso, quem vai decidir é Lula. E quem decidiu que quem vai decidir não é o Supremo e sim Lula? Bem, isto não está perfeitamente claro, mas é o que ficou decidido. Ah, então agora entendi que não entendi mesmo.

Existem países -os Estados Unidos, por exemplo- em que, quando um criminoso é condenado à morte, o governador do Estado tem o direito de poupá-lo da pena máxima, exercendo seu direito de clemência.

Mas não é bem isso que está acontecendo; se eu ouvi bem, o presidente declarou que vai ler os votos dos ministros, estudar (naquele juridiquês facílimo), refletir e decidir se Battisti deve ou não ser extraditado. A decisão será baseada na interpretação das leis, na certeza de que o indivíduo em questão ou é um refugiado político, ou um criminoso comum, nada a ver com um possível gesto humanitário.

Ao que me consta, é a primeira vez que isso acontece, e assim abre-se um perigoso precedente. Quando José Dirceu perdeu seu direitos políticos, se o Supremo tivesse passado a bola para Lula decidir se o seu então ministro era culpado do que o acusavam, talvez o atual candidato à Presidência pelo PT fosse outro.

E no futuro? Se você, que está lendo esta coluna, for acusado de um crime e chegar a ser julgado pelo Supremo, este poderá decidir por sua condenação ou absolvição, e depois disso transferir o abacaxi para o presidente -seja ele quem for.

Dependendo das circunstâncias ou do humor daquele dia, esse presidente poderá, justa ou injustamente, acabar com sua vida ou deixar você ir para a praia tomar sol e uma água de coco, numa boa.

Nas mais sangrentas ditaduras, sempre houve um tribunal, mesmo que seus membros tivessem sido escolhidos a dedo pelo ditador, para simular a existência de uma Justiça.

Mas como, segundo o ministro Tarso Genro, se Cesare Battisti for extraditado estará sujeito à tortura ou à própria morte -já que, segundo o ministro, a Itália vive uma onda fascista-, está nas mãos de Lula a vida de Battisti.

Seja qual for a decisão, vai ficar mal para todo mundo. Para o Supremo já está, por ter aceito, sem espernear, que suas decisões não sejam acatadas sem discussão.

Se o presidente confirma a extradição, pode ser tachado de não ter vontade própria, que apenas baixa a cabeça e obedece.

Se for contra a extradição e preferir um gesto humanitário, Battisti vai para a rua, lindo e louro, e Lula vai ter que se ver com o governo da Itália. De qualquer maneira, só um ventilador vai ser pouco para o que vai voar por aí.

E o pior: estamos chegando a um ponto extremamente perigoso, que é o julgamento de um homem, um só homem, ter mais peso do que o do Supremo Tribunal Federal.
Quem tem esse poder é quase um Deus.

danuza.leao@uol.com.br

sábado, 28 de novembro de 2009



29 de novembro de 2009 | N° 16170
MARTHA MEDEIROS


Só estou dando uma olhadinha

"Posso ajudá-la em alguma coisa?” A vendedora faz seu contato educadamente, e eu já tenho a resposta na ponta da língua: “Obrigada, só estou dando uma olhadinha”. Assim deixo claro que não sei se quero comprar algo, ainda não me decidi, vai depender do preço e da gamação que alguma peça me provocar, e enquanto eu não me decido, prefiro ficar sozinha, sem ninguém atrás de mim dando explicações.

A vendedora compreende e me deixa dar quantas olhadinhas eu quiser. Se eu perguntar o preço de algo, ela me responderá e seguirá a alguns metros de distância, de forma discreta. Eu então poderei chamá-la se resolver efetivar a compra ou sair sem levar nada, e nenhuma gota de sangue será derramada. É uma relação cortês e normal.

Só que o normal diverge, dependendo do país e de seus costumes.

Eu já havia estado em Istambul há uns oito anos, e portanto sabia onde estava me metendo quando fui ao Marrocos, mas não poderia deixar de percorrer as ruas da medina de Marrakesh. Como não se infiltrar em meio a lojinhas multicoloridas que vendem castiçais, tapetes, porcelanas, garrafinhas, caixinhas, panos e incensos? Você não vai pra Marrakesh para fazer compras na Zara.

Se você está de passagem marcada para algum país de cultura árabe e pretende trazer lembrancinhas, prepare-se. Os comerciantes partem pra cima dos turistas feito gaviões. Se você tem cabelos loiros e olhos claros, estará ferrado. Se tiver o mesmo aspecto muçulmano que tenho, estará ferrado igual: basta que leve uma mochila nas costas. Eu levava.

Eles vão seguir você pela rua. Perguntar de onde você é. Mesmo que você responda que é de Júpiter, eles vão encontrar algum assunto relativo ao seu lugar de origem, vão ser simpáticos ao extremo e tentarão arrastá-lo até a loja deles.

Estando lá, basta que você olhe com um leve ar de cobiça para o que estiver exposto e, pronto, danou-se. Você vai perguntar o preço e, sem saber, terá dado o pontapé inicial para o hábito que mais dá prazer aos residentes do país: pechinchar.

Pechinchar pode ser lucrativo e pode ser estafante. É lucrativo quando você sabe que o vendedor está pedindo demais e ele sabe que você está oferecendo de menos, e conseguem (depois de 20 minutos de prosa) chegar num valor de bom tamanho para ambas as partes.

E é estafante quando você está apenas dando uma olhadinha, sem tempo para trelelé, e o vendedor está desesperado para vender. Aí, escolham as armas.

Eu não tenho a menor paciência para esse jogo de cartas marcadas, em que um pede um valor absurdo, o outro oferece um valor humilhante, até atingir um empate conciliatório. Prefiro a paz de um preço fixo.

Fazer compras em terra de mercadores me deixou tão pirada que teve um dia em que um cara me disse que não me venderia um castiçal por menos de 80 dirham, que é a moeda local. Entrei no jogo: “O quê? 80 dirham? De jeito nenhum, só pago 100!”.

O Natal está aí de novo e já está todo mundo dando uma olhadinha, afinal, é uma data religiosa: a religião do consumismo.

Menos mal que aqui os vendedores não lhe seguem pelos corredores do shopping nem cultuam o teatro da pechincha, mas, ainda assim, cuide-se: ninguém está livre de pirar.

Um lindo domingo para você.


Tempestade no deserto

Estouro da bolha imobiliária faz o governo de Dubai anunciar a moratória no pagamento de suas dívidas. Mas a crise não deverá minar a transformação do emirado na meca do turismo no Oriente Médio

Giuliano Guandalini - Bjoen Goettlicher/TCS/ Zuma Press

FALTOU DINHEIRO



Pregão na bolsa de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos: dívida de 80 bilhões de dólares

Partiu do Oriente Médio, na semana passada, a lembrança de que a economia mundial ainda não se recuperou por completo de sua mais acerba crise financeira em oito décadas.

O governo de Dubai anunciou a seus credores a intenção de suspender, por ao menos seis meses, o pagamento da dívida da Dubai World, a gigantesca estatal do emirado que está por trás de alguns dos mais arrojados projetos imobiliários do planeta – entre eles as Palm Islands, um complexo faraônico de três ilhas artificiais no Golfo Pérsico onde estão sendo construídos milhares de mansões, além de uma centena de hotéis, parques de diversões e shoppings.

Um eventual calote de Dubai teria consequências sentidas em todo o mundo financeiro. Isso porque bancos europeus já combalidos, principalmente os ingleses, aparecem entre os principais credores do emirado e teriam de registrar novas e expressivas perdas. Daí a queda nas bolsas de valores na semana passada.

A moratória, se confirmada, ocorrerá em um momento em que os países do Golfo Pérsico davam sinais de recuperação, depois de terem sentido os efeitos da desvalorização do petróleo. Dubai, no entanto, sofreu com o estouro de sua própria bolha (o preço dos imóveis caiu pela metade desde o início do ano) e passou a ter dificuldades para encontrar quem bancasse o seu ritmo delirante de investimentos.

Ao contrário de seus vizinhos, Dubai não é rico em petróleo (a exploração desse recurso mineral representa apenas 2% de seu PIB). Por isso o emirado, um dos sete que compõem os Emirados Árabes Unidos, procurou diversificar sua economia. Primeiro, deu incentivos fiscais ao comércio e à instalação de empresas em parques industriais. Mais recentemente, lançou-se como o principal centro financeiro da região, ao mesmo tempo em que buscou se transformar na meca do turismo nas Arábias.

A estratégia deu certo, e o emirado passou a crescer velozmente. O salto veio depois de 2002, quando o governo, controlado hoje pelo xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum (veja o texto ao lado), concedeu autorização para que estrangeiros fossem proprietários de imóveis no emirado.

Dubai, no entanto, contraiu empréstimos em excesso para erguer obras mirabolantes. Suas dívidas alcançam 80 bilhões de dólares, soma equivalente ao tamanho de seu PIB. Desse total, a maior parte (60 bilhões de dólares) pertence à Dubai World, que, além dos investimentos imobiliários no próprio emirado, controla as operações do lucrativo porto no golfo e participa de projetos no exterior – é sócia da CityCenter, em Las Vegas (veja mais).

O grande temor dos investidores internacionais é que Dubai protagonize um calote à moda argentina. Até sexta-feira, imperava a absoluta incerteza a respeito de como se daria a reestruturação da dívida.

A expectativa é de que o resgate financeiro saia dos cofres de Abu Dhabi, emirado rico em petróleo e dono do maior fundo soberano do mundo, com uma carteira de investimentos que soma mais de 600 bilhões de dólares, parte deles em Dubai. Mas os xeques de Abu Dhabi relutam em bancar mais uma vez a prodigalidade de seus vizinhos. Será a ruína de Dubai?

Provavelmente não. O emirado é mais liberal que outros países da região e se localiza em uma faixa menos conturbada do Oriente Médio. Além disso, boa parte de seus empreendimentos já foi vendida e está concluída. Tão logo corrija seus excessos, deverá continuar a representar um oásis para investidores e turistas às margens do explosivo Golfo Pérsico.

O xeque e sua bolha
Reuters

O PRIMO PRÓDIGO

Xeque Mohammed Al Maktoum: duas esposas, dezenove filhos e 16 bilhões de dólares

O esplendor de Dubai deve-se em grande parte a um único homem. Fã de corridas de camelos, o xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, de 60 anos, antes mesmo de ascender ao trono, em 2006, havia concentrado esforços em transformar o emirado numa espécie de Nova York do Oriente Médio, mas com arquitetura ao estilo de Las Vegas e marinas que emulam Mônaco.

O monarca, que descende da linhagem que domina a região desde 1833, possui hoje um patrimônio pessoal estimado em 16 bilhões de dólares. O xeque tem duas esposas, dezenove filhos – e mais de 100 000 seguidores no Facebook e no Twitter.

Em uma região onde o poder secular se mistura com o religioso, governa Dubai como uma autocracia que se pretende democrática. Prova disso é que, apesar da faceta progressista, seu governo ameaçou com pesadas multas quem fizesse menção às consequências negativas da crise para o emirado.

Em reunião recente com investidores, o monarca foi questionado sobre a saúde das finanças de Dubai e a suposta deterioração das relações com o primo rico, Abu Dhabi. A resposta do xeque foi um sonoro "Calem a boca".

Lya Luft

A praga moderna


"O que somos mesmo, neste período pós-moderno de que algumas pessoas tanto se orgulham, é estressados"

Nossas pestes – que também as temos – podem ser menos tenebrosas do que as medievais, que nos faziam apodrecer em vida. Mas, mesmo mais higiênicas, destroem. E se multiplicam, na medida em que se multiplica o nosso stress. Ou melhor: o stress é uma das modernas pragas.

Quanto mais naturebas estamos, mais longe da mãe natureza, que por sua vez reclama e esperneia: tsunamis, tempestades, derretimento de geleiras, clima destrambelhado. Ser natural passou a não ser natural. Ser natural está em grave crise.

O bom mesmo é ser virtual – mas isso é assunto para outra coluna, ou várias. Porque, se de um lado somos cada vez mais cibernéticos e virtuais, de outro cultivamos amores vampirescos, paixões por lobisomens, e somos fãs de simpáticos bruxos em revoadas de vassouras. Mudaram, os nossos ídolos. Não sei se para pior, mas certamente para bem interessantes. Pois nosso lado contraditório é que nos torna interessantes, em consultórios de psiquiatras, em textos de ficcionistas.

Também na vida cotidiana aquela velhíssima voz do instinto, voz das nossas entranhas, deixou de funcionar. Ou funciona mal. Desafina, resmunga, rosna. A gente não escuta muita coisa quando, por acaso ou num esforço heroico, consegue parar, calar a boca, as aflições e a barulheira ao redor.

O que somos mesmo, neste período pós-moderno de que algumas pessoas tanto se orgulham, é estressados. Não tem doença em que algum médico ou psiquiatra não sentencie, depois de recitar os enigmáticos termos médicos: "E tem também o stress". Para alguns, ele é, aliás, a raiz de todos os males.

Eu digo que é filho da nossa agitação obsessivo-compulsiva. Quanto mais compromissados, mais estressados: é inevitável, pois as duas coisas andam juntas, gêmeas siamesas da desgraça. Porque a gente trabalha demais, se cobra demais e nos cobram demais, porque a gente não tem hora, não tem tempo, não tem graça. Outro dia alguém me disse: "Dona, eu não tenho nem o tempo de uma risada". Aquilo ficou em mim, faquinha cravada no peito.

Um dos nossos mais detestáveis clichês é: "Não tenho tempo". O que antes era coisa de maridos e de pais mortos de cansaço e sem cabeça nem para lembrar data de aniversário dos filhos (ou da mãe deles), agora também é privilégio de mulher. De eficientes faxineiras a competentíssimas executivas, passamos de nervosas a estressadas, stress daqueles de fazer cair cabelo aos tufos.

Não sei se calvície feminina vai ser um dos preços dessa nossa entrada a todo o vapor no mercado de trabalho – pois ainda temos a casa, o marido, os filhos, a creche, o pediatra, o ortodontista, a aula de dança ou de judô dos meninos, de inglês ou de mandarim (que acho o máximo, "meu filhinho de 6 anos estuda mandarim") –, mas a verdade é que o stress nos domina. É nosso novo amante, novo rival da família e da curtição de todas as boas coisas da vida.

Que pena. Houve uma época em que a gente resolvia, meio às escondidas, dar uma descansadinha: 4 da tarde, a gente deitada no sofá por dez minutos, pernas pra cima... e eis que, no umbral da porta, mãos na cintura ou dedo em riste, lá apareciam nossa mãe, avós, tias, dizendo com olhos arregalados: "Como??? Quatro da tarde e você aí, de pernas pra cima, sem fazer nada?".

Era preciso alguma energia para espantar os tais fantasmas. Neste momento, porém, eles nem precisam agir: todos nós, homens e mulheres, botamos nos ombros cruzes de vários tamanhos, com prego ou sem prego, com ou sem coroa de espinhos.

São tantos os monstros, deveres, trânsito, supermercado, dívidas e pressões, que – loucura das loucuras – começamos a esquecer nossos bebês no carro.

Saímos para trabalhar e, quando voltamos, horas depois, lá está a tragédia das tragédias, o fim da nossa vida: a criança, vítima não do calor, dos vidros fechados, mas do nosso stress.

Começo a ficar com medo, não do destino, eterno culpado, não da vida nem dos deuses, mas disso que, robotizados, estamos fazendo a nós mesmos.


Nas asas da autoajuda

O gênero que se propõe a auxiliar e confortar as pessoas nas questões espinhosas da vida é um fenômeno editorial que só faz aumentar: nunca tantos escreveram para
orientar, e nunca tantos leram em busca de orientação

Isabela Boscov e Silvia Rogar - Montagem com fotos de Pedro Rubens

"Nenhum homem é uma ilha", escreveu o inglês John Donne em 1624, em uma frase que atravessaria os séculos como um dos lugares-comuns mais citados de todos os tempos. Todo lugar-comum, porém, tem um alicerce na realidade ou nos sentimentos humanos - e esse não é exceção.

Donne foi um dos poetas extraordinários de seu idioma, conhecido sobretudo pelos versos sugestivamente eróticos. Mas, quando distinguiu os homens, dependentes uns dos outros por natureza, das ilhas, isoladas por definição, em sua Meditação XVII, estava em outra etapa de sua trajetória. Aferrara-se ao anglicanismo e virara pregador. Procurava, com essa estrofe célebre, expressar um tipo diverso de amor: o sentido de conexão que quase todos experimentamos com nossos semelhantes.

"Cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; (...) a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano", prosseguia sua Meditação. Durante toda a história da espécie, a biologia e a cultura conspiraram juntas para que a vida humana adquirisse exatamente esse contorno, o de um continente, um relevo que se espraia, abraça e se interliga.

A vida moderna, porém, alterou-o de maneira drástica. Em certos aspectos, partiu o continente humano em um arquipélago tão fragmentado que uma pessoa pode se sentir totalmente separada das demais. Vencer tal distância e se reunir aos outros, entretanto, é um dos nossos instintos básicos.

E é a ele que atende um setor do mercado editorial que cresce a saltos largos: o da autoajuda, e em particular de uma autoajuda que se pode descrever como espiritual. Não porque tenha necessariamente tonalidades religiosas (embora elas, às vezes, sejam nítidas), mas porque se dirige àquelas questões de alma que, desde que o tempo é tempo, atormentam os homens.

Como a perda de uma pessoa querida, a rejeição ou o abandono, a dificuldade de conviver com os próprios defeitos e os alheios, o medo da velhice e da morte, conflitos com os pais e os filhos, a frustração com as aspirações que não se realizaram, a perplexidade diante do fim e a dúvida sobre o propósito da existência.

Questões que, como séculos de filosofia já explicitaram, nem sempre têm solução clara - mas que são suportáveis quando se tem com quem dividir seu peso, e esmagadoras quando se está só.
Ernani d’Almeida


CATIVADA PELA LEITURA

A ex-modelo Luiza Brunet, que há mais de vinte anos lê todos os dias, para si mesma ou para os filhos, algum trecho de O Pequeno Príncipe: mensagens de "bondade e simplicidade"

Uma olhada na lista dos livros mais vendidos de VEJA revela que aqueles que os leitores entendem como fonte de inspiração para uma vida mais harmônica estão espalhados por todas as categorias - a ficção, como no caso de A Cabana, a não ficção, como Comer, Rezar, Amar, e a auto-ajuda propriamente dita, como em O Monge e o Executivo (veja quadros nesta página). O gênero, de fato, é herdeiro de todas as formas de escrita conhecidas. O alento, o esclarecimento e a orientação espirituais podem vir de memórias e biografias.

Podem estar na poesia, cujas nuances captam tão bem os estados de ânimo mais indefiníveis, e na prosa, que nos irmana para além do tempo e das circunstâncias. Podem estar na Bíblia ou em outros textos sagrados, é claro, e na filosofia, que afinal de contas existe para refletir sobre a condição humana. Podem estar até nos quadrinhos - por exemplo, no minucioso estudo da frustração que é a tirinha Charlie Brown, ou na compreensão da angústia adolescente demonstrada em Homem-Aranha.

É, enfim, um propósito a que escritores e pensadores de todas as tendências e dimensões vêm se dedicando desde os primórdios da palavra escrita, porque a solidão e a perplexidade são inevitáveis à condição humana (veja frases). O que hoje torna o gênero específico um fenômeno é o seu ímpeto multiplicado: nunca tantos escreveram com o intuito de orientar, e nunca tantos leram em busca precisamente de orientação.

As mudanças que conduziram a isso não são poucas nem sutis: na sua segunda metade, em particular, o século XX foi pródigo em abalos de natureza social que reconfiguraram o modo como vivemos. O campo, com suas relações próximas, foi trocado em massa pelas cidades, onde vigora o anonimato. As mulheres saíram de casa para o trabalho, e a instituição da "comadre" virtualmente desapareceu.

Desmanchou-se também a ligação quase compulsória que se tinha com a religião, e que dava ao padre, ao pastor ou ao rabino o posto de conselheiros de todas as horas. As famílias encolheram drasticamente, não só no número de filhos, mas na sua extensão. Em lugar daqueles ajuntamentos ruidosos, que reuniam dezenas de tios, primos, avós e agregados de parentesco vago, mas firme, tem-se agora pequenos núcleos - pai, mãe e um filho ou, vá lá, dois. Nem esses núcleos resistem como antes.

Nos Estados Unidos, a pátria da autoajuda enquanto gênero próprio, quase metade dos casamentos acaba em divórcio. No Brasil, onde até 1977 havia no máximo desquite, e ele era um escândalo, a taxa anda pelos 25%. A vida profissional, ainda, se tornou terrivelmente competitiva, o que acrescenta ansiedade e reduz as chances de fazer amizades verdadeiras no local de trabalho.

Também o celular e o computador fazem sua parte, aumentando o número de contatos que se desfruta, mas reduzindo sua profundidade e qualidade. Com um grãozinho de misantropia, pode-se concluir que, bem, isso significa muito menos gente dando palpites indesejáveis.

Não deixa de ser verdade; mas, maior do que esse ganho, é a perda daquela vasta rede de segurança que, desde que a humanidade começou a se organizar em agrupamentos codependentes, mantinha cada um de nós ancorado.

Uma rede que, é certo, originava fofoca e intromissão, mas também implicava conselhos e experiência, amparo e solidariedade, valores sólidos e afeição desprendida, que não aumenta nem diminui em função do sucesso ou da beleza.

Essa é a lacuna da vida moderna que a autoajuda espiritual vem se propondo a preencher: esse sentido de desconexão que faz com que, em certas ocasiões, cada um de nós se sinta como uma ilha desgarrada do continente e sem meios de se reunir novamente a ele.


Alongar quanto, e para quê?

Ser muito flexível não significa ser mais saudável
Francine Lima

Uma vez fui experimentar uma nova aula de ioga e acabei arrumando uma briga com o professor. Eu era novata ali, mas não exatamente inexperiente na modalidade. Já estava razoavelmente acostumada a seguir as cuidadosas instruções dos professores, quase sempre suaves e tranquilos, e por isso estranhei quando ele mandou sentar com as pernas posicionadas de um jeito estranho (estranho para mim, pelo menos) e encostar o ombro no joelho.

“Professor, não entendi. Qual é o objetivo desse movimento? Não estou sentindo alongar nada.” Por algum motivo, ele não gostou da pergunta, se indispôs comigo e acabou não me tirando a dúvida. A briga depois foi resolvida e perdoada, mas a explicação do movimento eu nunca recebi.

Fazer exercício de alongamento sem saber o que precisa ser alongado não faz sentido. A coisa mais importante nesse tipo de atividade é justamente a atenção que se deve dar a cada parte do corpo. Se o objetivo de um movimento é, por exemplo, alongar a musculatura posterior da coxa, por que o professor diria que o aluno deve procurar encostar os dedos das mãos na ponta dos pés?

Por que focar nas mãos e nos pés se a intenção é trabalhar a coxa? Essa forma de aula era comum há alguns anos, mas hoje os profissionais mais atualizados ensinam alongamento de outro jeito.

Para começar, o meu alongamento não deve ser igual ao seu. O meu corpo tem um tamanho, um formato e uma organização articular únicos, frutos do meu histórico esportivo, da minha postura no dia a dia, da minha genética e sabe-se lá do que mais.

Minha musculatura tem um certo tônus, resultante da musculação e das minhas tensões. Tenho boa flexibilidade nos braços e nas pernas, mas meu pescoço às vezes precisa de cuidados especiais. Meu joelho direito ainda dói e o médico mandou alongar o trato iliotibial, o que eu achei bem difícil.

Quero manter minha coluna flexível, com facilidade para torções, mas não tenho a menor pretensão de virar contorcionista. É tudo isso e mais um pouco que a minha rotina de alongamento deve levar em consideração.

Segundo a professora Adriana Ramos Schierz, ou Drika, que é fisioterapeuta e dá aulas de alongamento postural na Competition, eu não preciso necessariamente encostar as mãos nos pés para conseguir a flexibilidade de que eu preciso na parte posterior das coxas.

O importante naquele movimento, diz ela, é sentar em cima dos ísquios (os ossos da parte baixa do quadril), espichar a coluna inteira (até o pescoço), abrir o peito (afastar os ombros das orelhas e um do outro) e buscar uma aproximação do peito com a parte de cima da coxa. Buscar.

Com essa postura, eu sentirei o músculo certo esticando. Pouco importa se eu não deitei o tronco em cima das pernas e se pareceu aos olhos alheios que nem me mexi.

O objetivo de alongar aquela parte da coxa terá sido cumprido. O que não tem o menor propósito é sentar com a coluna curvada e o pescoço torto, encostar as mãos nos pés com os joelhos flexionados, sentir dor na lombar e gerar tensões desnecessárias.

Alongar errado é errado justamente porque, em vez de relaxar, tensiona.


28 de novembro de 2009 | N° 16169
NILSON SOUZA


Pássaros virtuais

Li outro dia a carta de um leitor indignado com o canto dos sabiás, que andam excitadíssimos nesta época do ano e não o deixam mais dormir aquele sono bom da manhã. Os bichinhos começam cedo mesmo a sua sinfonia: lá pelas bandas da Zona Sul desta capital arborizada onde moro, eles abrem o bico por volta das quatro da matina e não fecham mais.

Às vezes acordo, outras vezes já estou acordado, mas na maioria das vezes incorporo a cantoria em algum sonho retardatário e nem me dou conta de que a passarada madrugou. Nunca me incomodam.

Tem até um casal que se instalou no meu jardim. Nunca sei qual é o macho e qual é a fêmea, pois se vestem com as mesmas penugens, mas suponho que a senhora Sabiá seja a que passa a maior parte do tempo no ninho, estrategicamente construído nos galhos internos de um pingo-de-ouro.

Fica bem em frente à janela do meu escritório. Quando trabalho em casa pela manhã, procuro abri-la bem devagar para não assustar os hóspedes. Pelo que li a respeito deles, a estada será curta. Logo os filhotes estarão alçando voo para cantar em outra freguesia.

Enquanto isso não ocorrer, porém, podem ficar por lá o tempo que bem lhes aprouver. Não vou espantá-los, mesmo correndo o risco de ser denunciado por infrigir a Lei do Silêncio que vigora nesta cidade desde 1983 e que prevê em seu artigo 8º: “É proibido possuir ou alojar animais que frequente ou continuamente emitam sons que causem distúrbio sonoro”.

Por uma dessas coincidências do destino, o homem que assinou esse decreto, então no exercício do cargo de prefeito municipal, me mandou esta semana uma mensagem com pássaros virtuais.

Trata-se de um desses engenhosos programas de computador em que basta clicar na imagem de um dos pássaros retratados para se ouvir o seu canto. São bonitos, mas não se comparam à bela ladainha dos nossos sabiás, que, aliás, não estão contemplados no referido catálogo ornitológico.

Brinquei um pouco com os efeitos sonoros das aves de fantasia, mas logo me cansei. Prefiro ouvir o cântico espontâneo dos pássaros madrugadores do meu jardim. Seus gorjeios de amor e fome invariavelmente se transformam nas vozes dos personagens dos meus últimos sonhos e me ajudam a lembrá-los quando já estou desperto.

Tomara que o missivista mal-humorado não me leia.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009



25 de novembro de 2009 | N° 16166
MARTHA MEDEIROS


Vidas de plástico

Assisti no DVD a um filme que me sensibilizou, ainda que não tenha feito muito barulho quando esteve em cartaz, ao menos não que eu lembre. É uma produção norte-americana chamada A Garota Ideal.

É a história de Lars, um homem tímido e fechado em si mesmo. Ele mora nos fundos da casa do irmão e da cunhada, que tentam atraí-lo para uma vida mais social, só que ele não quer saber de fazer amigos, não tem namorada, vive da casa pro trabalho, do trabalho pra casa, sem nem mesmo apertar a mão de ninguém – é refratário a qualquer toque. Sua solidão não é bem aceita, e tanto pegam no seu pé, que ele encontra uma solução para que o deixem em paz: compra uma boneca sexual pela internet.

O que poderia não passar de uma piada vira um constrangimento, porque Lars trata Bianca, a boneca, como uma mulher real. Conversa com ela, a leva à mesa na hora das refeições, apresenta aos amigos, deixando a todos perplexos com esse delírio.

Uma psicóloga acaba sendo convocada e, pra surpresa geral, recomenda que todos entrem no jogo de Lars, tratando a boneca como uma mulher de verdade – é o único meio de ajudá-lo. E mais não conto, mas acreditem, esse roteiro aparentemente estapafúrdio rendeu um filme terno e inteligente.

Mostra um homem se refugiando na fantasia para vencer seus traumas e mobilizando todo um vilarejo a fazer o mesmo: a população, solidária, trata a boneca como se ela tivesse pensamentos e vida própria.

Em determinado momento do filme, Lars está saindo da igreja com a sua “namorada” (que se locomove numa cadeira de rodas: seria demais exigir que ela caminhasse) quando uma moradora da cidade deixa no colo da boneca um buquê de flores artificiais. Lars agradece, se afasta com a cadeira e sussurra à namorada: “Não são de verdade, por isso vão durar para sempre”. É a frase que, a meu ver, resume não só o filme, mas um comportamento que está se tornando epidêmico.

A melhor maneira de fugir dos problemas é inventar uma vida em que tudo dê certo. Não por acaso, as relações virtuais andam com um ótimo cartaz, já que, em vez de serem realizadas, elas são controladas à distância.

Você se relaciona com fotos, com palavras tecladas, com alguém que está amenizando a sua carência sem que haja interação pra valer – é a legítima “proteção de tela” para ambos. Assim, fica fácil alcançar o romance ideal: como não há um envolvimento de fato, também não haverá decepções de fato.

Flores artificiais não perdem a cor e não precisam ser regadas, por isso se assemelham às relações dos nossos sonhos: são imortais. No entanto, não têm beleza, cheiro, não exigem dedicação, há apenas tédio, e acabam esquecidas num canto.

Não são de verdade, já que a verdade pressupõe mais instabilidade e emoção. Um amor de plástico, assim como flores de plástico, apenas servem para não dar trabalho, mas seu valor é nenhum. Onde não existe a possibilidade de morte, a vida não acontece.

Aproveite o dia. Uma ótima quarta-feira para vc

terça-feira, 24 de novembro de 2009



24 de novembro de 2009 | N° 16165
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Entre dois mundos

Num entardecer de novembro de 1989, precisamente há 20 anos, Lauro Schirmer, então diretor de Zero Hora, me chamou à sua sala para mostrar o que foi um dos acontecimentos mais importantes do século 20. Na tela da televisão, uma multidão, na noite de Berlim, se apropriava do Muro e o punha abaixo, desafiando a bipolarização do mundo entre duas superpotências e acabando com a cisão de um país dividido contra si mesmo.

Contemplei emocionado aquele capítulo vivo da História e disse a Lauro que não me faltava ver mais nada.

Eu era sincero. Conheci Berlim em 1980, ainda dilacerada, e não esqueço a primeira vez que transpus suas fronteiras. O ônibus cruzou o Checkpoint Charlie, e logo um impressionante aparato da polícia oriental nos cercou. Meus companheiros de travessia e eu fomos cuidadosamente revistados e meu passaporte examinado como se fosse uma arma letal. Depois de uma excursão por entre ruínas da II Guerra e a monumental arquitetura socialista – imensos pombais de mínimos apartamentos – retornamos ao ponto original.

Aí aconteceu o ápice da vigilância. Guardas fardados nos cercaram, aparatos com espelhos escrutinaram a parte inferior do ônibus, cães enormes farejaram cada recanto do veículo. Nunca me esqueci dessa cena.

Tornei a Berlim em 1982. A rigidez do lado leste era a mesma. Ainda assim, em algum fim de semana – eu tirava um curso de Jornalismo Avançado que durava três meses – volvia a cruzar a fronteira, dessa vez por Friederichstrasse. O roteiro incluía a fantasmagórica visão de uma estação de metrô mantida exatamente como era no dia em que o Muro foi erguido, aí incluídos anúncios de artigos havia muito esquecidos e arquivados. Era como se o tempo tivesse parado.

Regressei em 1987 para outros três meses também assombrados pela divisão entre dois universos.

Houve 1989. Voltei em 1991, mas então os espectros se tinham dissipado. Onde antes resistia o Muro, já não se via sinal de sua existência.

Era como se eu caminhasse por um pedaço de calendário olvidado pela evolução da humanidade.

Melhor assim.

A liberdade é algo que não tem preço.