sexta-feira, 9 de junho de 2017


Notícia da edição impressa de 09/06/2017. 
Alterada em 08/06 às 19h18min 

Bukowski, o velho safado, e o amor 


Detalhe da capa do livro de Bukowski LPM/DIVULGAÇÃO/JC Bem no clima do Dia dos Namorados, a L&PM Editores lançou, há poucos dias, a coletânea Sobre o amor, do escritor Charles Bukowski, nascido na Alemanha em 1940, mas criado em Los Angeles. 

A compilação é de Abel Debritto, biógrafo de Bukowski e que já editou outras coletâneas temáticas do "velho safado": Sobre gatos e Escrever para não enlouquecer. Sobre o amor tem 224 páginas, preço de R$ 35,90 e foi muito bem traduzido pelo jornalista, tradutor e escritor gaúcho Rodrigo Breunig. Bukowski faleceu em 1994 e publicou mais de 45 livros de prosa e verso. 

A L&PM já publicou 23 obras dele, entre as quais Cartas na rua; Crônica de um amor louco; Mulheres e Pedaços de um caderno manchado de vinho. Honesto, reflexivo, alternando-se entre a dureza e a sensibilidade, Bukowski, o velho nem tão safado, nesses versos fala de várias formas de amor e relaciona o tema com as filhas, as muitas mulheres, as amantes que teve, o trabalho e os amigos. 

Está tudo bem embolado: o amor, a luxúria, a paixão, o desejo, o egoísmo, o narcisismo, o misterioso, o aleatório, o misterioso, a glória e a miséria deste sentimento frágil e eterno. Não ficaram de fora da obra o alto poder redentor do amor, as confusões e o lado bem-humorado do amor. Feroz, vulnerável, lírico e irônico, Bukowski mostra que muitas vezes o amor, especialmente o paterno, fulminou seu coração aparentemente empedernido. 

Alguns versos do poeta: "O amor não passa de um farol aceso à noite cortando a névoa / O amor não passa de uma tampinha de cerveja na qual você pisa a caminho do banheiro/ o amor é a chave perdida da sua porta quando você está bêbado"; e "Gosto de você, querida, eu te amo / a única razão por que trepei com L. é porque você trepou com Z, e aí eu trepei com R. e porque você trepou com N. eu preciso trepar com Y". 

Outro poema: "filha/certo ou errado/eu te amo, sim/ é só que às vezes eu ajo como se/ você não estivesse presente/mas houve brigas com mulheres/ bilhetes deixados em cômodas / trabalhos em fábricas / pneus furados em Compton às 3 da manhã/ todas essas coisas que impedem as pessoas de conhecer umas às outras e pior do que isso/ obrigado pelas flores." 

Sobre o amor é um livro peculiar, muito pessoal, sobre um dos temas mais antigos e humanos. Entre a sarjeta e a lua, entre o doce amor paternal e em meio à brutalidade e à beleza dos amores adultos, Bukowski parece dizer que, ao fim e ao cabo, o amor é o que interessa. Mesmo e principalmente quando pareça não interessar mais ou quando só um futuro amor interessar. 

lançamentos 

As heresias de Pedro Abelardo (Coleção Medievalia, É Realizações, 118 páginas), de São Bernardo de Claraval, abade francês e reformador da Ordem Cistercience, traz o essencial sobre seu célebre combate com Pedro Abelardo, lógico e retórico, sobre altas questões envolvendo a fé, Cristo e Deus, em pleno século XII. Cidade de Deus - a história de Ailton Batata, o sobrevivente (FGV Editora, 286 páginas), da professora Alba Zaluar, da Unicamp e do professor-doutor e psicanalista Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, narra a saga de Ailton, que passa de bandido a estudo de caso e, hoje, contribui para a ciência. 

Mitos e verdades para uma vida saudável (Imprensa Livre, 272 páginas), da professora de educação física e palestrante motivacional Cláudia Lucchese, de modo interativo e com linguagem informal e divertida, mostra como podemos mudar. Pensamentos, ações, energia e motivação valem em qualquer idade. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/06/colunas/livros/566809-bukowski-o-velho-safado-e-o-amor.html)

quarta-feira, 7 de junho de 2017



07 de junho de 2017 | N° 18865 
MARTHA MEDEIROS

O labrador e as raposas

Nada mais redundante do que dizer que se é fã de Gustavo Kuerten. Quem não é? Um garoto catarinense, até então desconhecido, foi a Paris e venceu três vezes um dos maiores torneios internacionais de tênis, o Roland Garros, isso aos 20 e poucos anos. Em vez de retornar com o peito inflado por ser o novo herói nacional, tratou tudo como se fosse uma inesperada aventura – sem jamais esquecer de agradecer a seu treinador e sua família. A partir daí, intensificou sua responsabilidade social, promovendo o esporte entre crianças e adolescentes. Deveria ser regra, mas até hoje esse comportamento é tratado como exceção.

Guga é um campeão nato: já começou dando certo por sua maneira de encarar a vida. Claro que teve que ralar muito até chegar aonde chegou, nada foi de mão beijada, nunca é. Mas não se tornou um obcecado. Ele tem dito, em entrevistas, que não tinha noção da grandiosidade de Roland Garros quando derrotou os maiores do mundo. Sorte dele. A ausência de deslumbramento e a manutenção do foco costumam ser o segredo de gente vencedora.

Impossível não recordar de um vídeo que tem circulado nas redes sociais, a de um técnico de basquete da Lituânia que dispensou uma das estrelas do seu time para que fosse assistir ao parto da esposa, mesmo estando em meio às eliminatórias de um campeonato. Quando um jornalista, durante uma coletiva, questionou a atitude do técnico, recebeu uma situada: títulos não são tão importantes, não diante de algo muito maior, como o nascimento de um filho.

No fim das contas, a gente mete os pés pelas mãos por não conseguir dimensionar o que é valioso de verdade. Dinheiro, poder e status: de tanto colocarmos essa tríade acima de tudo, nossa história de vida se torna miúda, mesquinha, com uma pseudomagnitude, porém pobre em afetividade, decência, alegria, humanismo, diversão. Vejo esses bandidos engravatados que não saem das primeiras páginas dos jornais, passando vergonha pública, e me pergunto do que adiantou tanta ganância e soberba, qual o orgulho que restou agora que estão sendo desprezados por uma nação inteira e tratados como os ladrões que de fato são.

Os 20 anos da primeira vitória de Guga em Roland Garros têm mesmo que ser celebrados e trazê-lo de volta para os holofotes, a fim de lembrar a todos nós um cálculo que não envolve milhões nem bilhões: competência + gratidão + consciência do papel que representa = admiração plena de todos os brasileiros. Essa é a conta que fecha

sábado, 3 de junho de 2017



03 de junho de 2017 | N° 18862 
CARPINEJAR

Tom Cruise

O Google é a nossa geriatria. O começo da velhice. O asilo das lembranças.

Pelo número de palavras da busca, você já identifica se envelheceu. Quem realiza expedições com uma palavra apenas ainda é jovem e de memória saudável e ativa. Quem faz buscas com uma frase está caducando. Quem tenta encontrar algo com um parágrafo não lembra de mais nada.

Os caracteres entregam o tamanho do nosso esquecimento. Quanto mais, pior.

Estou experimentando uma debilitação irrecuperável no meu banco de dados. Antes digitava no Google o que me recordava imprecisamente, quando não vinha o estabelecimento de imediato. Agora tenho que escrever: “restaurante italiano em Canela, perto do Mundo a Vapor”. Logo mais estou descrevendo um retrato falado. Chegará o clímax em que colocarei vagamente “em uma praça, de uma rua central, na esquina de um avenida nomeada de um político gaúcho famoso, onde havia uma ferragem”.

O que era simples confirmação virou pesquisa científica. Cada vez mais perco tempo no site de buscas. Há 10 abas do Google abertas em meu celular, rastreando as informações mais aleatórias. Minha memória vai perdendo a potência dos olhos e apalpando as letras. “Como é aquele ator de olhos verdes do último filme de Kubrick, que foi casado com aquela loira e os dois acreditavam em seita de alienígenas?”

Converso longamente com o Google, não mais digito. A cartografia das coisas me escapa. Saber que ele existe me torna preguiçoso e não me mantém atento ao que vivi. Ele me facilitou e me destreinou a lembrar. Assim como a calculadora prejudicou os meus cálculos naturais. Quero ser rápido e não me permito caminhar na dúvida. A ansiedade traz o blecaute.

Repito o medo adolescente da sala de aula. Como se experimentasse uma série de provas surpresas ao longo do dia, sem ter estudado, sem noção exata das questões.

O Alzheimer toca em meu interfone. O que é mesmo Alzheimer? É possível em pessoas jovens? Só um minutinho...



03 de junho de 2017 | N° 18862 
L.F. VERISSIMO

Síbaris

“Sibarita. (Do gr. Sybarites, pelo lat. sybarita). Adj. 2 g. 1. De, ou pertencente ou relativo à antiga cidade grega de Síbaris (Itália). 2. Diz-se de pessoa dada à indolência ou à vida de prazeres, por alusão aos antigos habitantes de Síbaris, famosos por sua riqueza e voluptuosidade.” (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira)

Se você imaginar a Itália como uma grande e bem torneada perna feminina, então o Golfo de Taranto fica naquela parte de baixo, a mais sensível a lambidas, do pé da Itália. Síbaris era ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. 

Os muros de Síbaris eram cobertos de heras afrodisíacas. Os Guardiões do Portal – uma casta cuja principal função era apalpar quem entrava na cidade, não para descobrir qualquer coisa escondida mas pelo prazer de apalpar – faziam um teste com quem quisesse a cidadania sibarita, envolvendo questões de matemática e das artes, da indústria e do comércio. Quem passasse no teste era mandado embora. Quem não passasse entrava. Quem subornasse os Guardiões entrava por aclamação.

A alfândega de Síbaris era rigorosa: só deixava passar supérfluos. As coisas úteis era apreendidas e mandadas para a cidade vizinha de Crotona, onde todos trabalhavam e eram conscienciosos e corretos. Mas Síbaris era mais rica do que Crotona porque era lá que os crotonenses gastavam seu dinheiro nos fins de semana. Por lei, todos os crotonenses tinham que estar fora de Síbaris ao amanhecer de segunda-feira, senão seriam presos. A lei raramente era cumprida porque a polícia de Síbaris nunca acordava antes do meio-dia.

Cada sibarita podia ter sete concubinas, e sua mulher, um escravo etíope, mas às vezes trocavam. As orgias duravam vários dias e só terminavam quando os sibaritas começavam a cantar suas próprias mulheres, sinal de que já não enxergavam mais nada. A monogamia e a abstinência sexual eram consideradas perversões imperdoáveis e punidas com chicotadas, nos raros dias do ano em que o chicoteador oficial não faltava ao serviço. 

No caso de o infrator ser sadomasoquista, sua punição era ficar olhando enquanto o chicoteador oficial chicoteava outro. Sexo grupal era qualquer ato envolvendo mais de 50 pessoas. A Justiça, em Síbaris, era dividida. Havia juízes togados para os casos de direito e juízes nus para os casos de paixão. O bestialismo era tolerado, salvo exceções como o sexo com abelhas.

O rei de Síbaris vivia imerso numa banheira com óleos aromáticos. Foi lá que, certo dia, mastigando um pardal caramelado, recebeu um emissário de Crotona, que propôs a fusão das duas cidades. O rei mandou chamar seu primeiro ministro, que foi encontrado na cama com duas concubinas e um cabrito, não para pedir seu conselho mas para rirem juntos da proposta do emissário. Crotona declarou guerra a Síbaris. Como o exército sibarita estava de férias remuneradas, Síbaris foi invadida e destruída por Crotona em 510 a .C.

Não sobrou vestígio da cidade. Só recentemente, em 1965, uma expedição arqueológica conseguiu determinar a sua localização exata, ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. Parece que descobriram cântaros para vinho, algumas estranhas estatuetas com formato lúbrico e uma garra de ouro na ponta de uma longa haste que, segundo os pesquisadores, só podia ter sido usada para coçar o pé.

Até hoje ninguém localizou as ruínas da cidade de Crotona.



03 de junho de 2017 | N° 18862 
MARTHA MEDEIROS

A duração dos erros


Grande parte das pessoas já foi entrevistada ou deu um simples depoimento em frente a uma câmera. Pode ter sido um comentário rápido durante uma enquete ou uma participação num vídeo. Se você nunca, nunquinha, foi filmado ou gravado, entendo, mas já deve ter falado em público alguma vez, feito um discurso ou participado de uma peça de teatro na escola. Haverá quem nunca tenha segurado um microfone diante de uma plateia de olhos atentos? Em algum momento da vida isso aconteceu, e, se você ficou um pouco constrangido, envergonhado (sem rodeios: em pânico), vai entender a situação.

É quando a gente está construindo um raciocínio na frente dos outros e a palavra que necessitamos não vem. Isso acontece durante nossas conversas cotidianas e ninguém repara, mas, se há uma câmera ou um grupo à sua frente, a impressão que dá é de que aqueles três segundos de vacilo estão durando 10 minutos, 20 horas, uma vida inteira. Você pensa: ferrou, que mico, como é que foi dar um branco justo agora que todos estão prestando atenção em mim?

Isso já me aconteceu algumas dezenas de vezes, e sempre fico com a sensação de que a minha hesitação durou uma eternidade e meia. Quando, mais tarde, tenho a oportunidade de rever a cena que foi ao ar, percebo que durou um par de segundos e que minha reputação saiu ilesa. Ninguém notou. Foi mais uma desimportância que eu promovi a gafe do século.

Usei esse exemplo de falar em público porque me dei conta de que nossos erros – ou aquilo que consideramos um erro – ganham uma dimensão desproporcional se comparados com nossos acertos. Por quanto tempo lembramos daquilo que fizemos bem? A lembrança se esvai assim que cessam os tapinhas nas costas. No entanto, nossos erros seguem nos infernizando por um prazo indefinido. Há quem leve semanas e até meses conjecturando sobre aquilo que foi uma bobeada, apenas uma bobeada. Não mereceria tanta relevância de nossa parte, mas vá explicar isso para o crítico feroz que nos habita.

Trazemos dentro um ombudsman particular, e ele não é nada gentil. Tudo o que depõe contra nós é amplificado. O maior exemplo disso é que rapidamente esquecemos os elogios que nos fazem, mas as ofensas são levadas para a cama e doem como uma perfuração no fígado. O mesmo acontece com todos os escorregões, mal-entendidos, indelicadezas, lapsos e demais percalços de conduta que levam nossa assinatura. Nossos erros custam a sair de cena. Já nossos acertos... que acertos?

Agora veja minha situação: não faço a menor ideia de como encerrar esta coluna. Cheguei ao final do texto sem uma solução para tirar da cartola. Bem feito pra mim. Frustrei você e irei me torturar até sábado que vem.

03 de junho de 2017 | N° 18862 
LYA LUFT

Não “temos de”

Vivemos sob o império do “ter de”. Portanto, vivemos num mundo de bastante mentira. Democracia? Meia mentira. Pois a desigualdade é enorme, não temos os mesmos direitos, temos quase uma ditadura da ilusão dos que ainda acreditam. Liberdade de escolha profissional? Temos de ter um trabalho bom, que dê prazer, que pague dignamente (a maioria quer salário de chefe no primeiro dia), que permita grandes realizações e muitos sonhos concretizados? “Teríamos”. No máximo, temos de conseguir algo decente, que nos permita uma vida mais ou menos digna.

Temos de ter uma vida sexual de novela? Não temos nem podemos. Primeiro, a maior parte é fantasia, pois a vida cotidiana requer, com o tempo, muito mais carinho e cuidados do que paixão selvagem. Além disso, somos uma geração altamente medicada, e atenção: muitos remédios botam a libido de castigo.

Temos de ter diploma superior, depois mestrado, possivelmente doutorado e no Exterior? Não temos de... Pois muitas vezes um bom técnico ganha mais, e trabalha com mais gosto, do que um doutor com méritos e louvações. Temos de nos casar? Nem sempre: parece que o casamento à moda antiga, embora digam que está retornando, cumpre seu papel uma vez, depois com bastante facilidade vivemos juntos, às vezes até bem felizes, sem mais do que um contrato de união estável se temos juízo. E a questão de gênero está muito mais humanizada.

Temos de ter filho: por favor, só tenham filhos os que de verdade querem filhos, crianças, adolescentes, jovens, adultos, e mesmo adultos barbados, para amar, cuidar, estimular, prover e ajudar a crescer, e depois deixar voar sem abandonar nem se lamentar. Mais mulheres começam a não querer ter filho – e não devem. 

Maternidade não pode mais ser obrigação do tempo em que, sem pílula, as mulheres muitas vezes pariam a cada dois anos, regularmente, e aos cinquenta, velhas e exaustas, tinham doze filhos. Bonito, sim. Sempre desejei muitos irmãos e um bando de filhos (consegui ter três), mas ter um que seja requer uma disposição emocional, afetiva, que não é sempre inata. Então, protejam-se as mulheres e os filhos não nascidos de uma relação que poderia ser mais complicada do que a maternidade já pode ser.

Temos de ser chiques, e, como sempre escrevo, estar em todas as festas, restaurantes, resorts, teatros, exposições, conhecer os vinhos, curtir a vida? Não temos, pois isso exige tempo, dinheiro, gosto e disposição. Teríamos de ler bons livros, sim, observar o mundo, aprender com ele, ser boa gente também.

Temos, sobretudo, de ser deixados em paz. Temos de ser amorosos, leais no amor e na amizade, honrados na vida e no trabalho, e, por mais simples que ele seja, sentir orgulho dele. Basta imaginar o que seriam a rua, a cidade, o mundo, sem garis, por exemplo. Sem técnicos em eletricidade, sem encanadores (também os chamam bombeiros), sem os próprios bombeiros, policiais, agricultores, motoristas, caminhoneiros, domésticas, enfermeiras e o resto. Empresários incluídos, pois, sem eles, cadê trabalho?

Então, quem sabe a gente se protege um pouco dessa pressão do “temos de” e procura fazer da melhor forma possível o que é possível. Antes de tudo, um lembrete: cada um do seu jeito, neste mundo complicado e vida-dura, temos de tentar ser felizes. Isso não é inato: se tenta, se conquista, quando dá. Boa sorte!

quarta-feira, 31 de maio de 2017


31 de maio de 2017 | N° 18859
MARTHA MEDEIROS

Você é novo aqui?


Entrei num estabelecimento comercial que não frequentava há uns três meses e reparei que havia funcionários que eu desconhecia. Entre eles, uma bela mulher, bem maquiada e produzida. Trans. Enquanto eu era atendida, conversamos rapidamente e estava tudo assim, natural como tem que ser, quando olhei para ela e perguntei: “Você é novo aqui?”.

Tóóóóing. Ato contínuo, me corrigi: “Nova!!”. Mas o estrago já estava feito, o semblante dela fechou e eu fui etiquetada como um ser das cavernas que não sabe lidar com a diversidade. Logo eu, a pseudodoutora em condição humana.

Voltei para casa chateada com o que aconteceu, me punindo em silêncio, e ao mesmo tempo percebi como é difícil a gente trocar o chip e adotar posturas mais avançadas. Crente de que estava com a cabeça feita em relação ao movimento transgênero, me dei conta de que esses atos falhos demonstram que toda uma cultura adquirida não se varre da nossa vida com uma simples vassourada. A faxina tem que ser mais pesada.

Isso aconteceu na mesma semana em que muito se comentou a respeito de Laerte-se, o documentário sobre o cartunista que virou a cartunista. E faço uma confissão pública com a qual alguns se solidarizarão, mas o objetivo não é formarmos um gueto reacionário do contra, e sim questionarmos nosso comportamento a fim de evoluir: ainda tenho dificuldade de chamá-lo de “a” Laerte. 
    Imagino que ela (tenho dificuldade de chamá-la de ela também) considere um ato de resistência manter seu nome de batismo em vez de trocar por Laís, Larissa, Laurel. Tem também o fato de Laerte ser uma identidade artística plenamente reconhecida e estabelecida no universo dos cartuns. Mas Laerte é nome próprio masculino. É como se tivéssemos que dizer a Roberto, a Milton, a Cassiano.

    Não é simples.

    No entanto, não sou feita apenas de instintos e costumes de estimação. Sou feita também de raciocínio, consciência e capacidade de me adequar a um mundo que não é mais o mesmo. É obrigatório reformatar nossas atitudes para abraçar essa sociedade plural que aí está e que hoje permite que tanta gente que antes vivia atormentada dentro do próprio corpo possa se sentir plenamente identificada com quem é – seja ele ou seja ela.

    “Você é novo aqui?” Todos nós somos novos aqui. Temos o direito de errar, mas o dever de aprender.

    sábado, 27 de maio de 2017



    27 de maio de 2017 | N° 18856 
    LYA LUFT

    Casas

    Começo um novo livro, que chamo A Casa Inventada, deixando de lado por um tempo – de acordo com minha editora Record – o outro, que se chamaria Os Sentimentos Humanos, ou A Casa de Pandora. Pois estava empacado há semanas, me deixando aflita. O vento sopra quando quer, digo sempre, e não adianta lutar com ele: acaba nos derrubando e cobrindo de pó. 

    Então, começando a montar a casa, que no meu livro será a vida, a casa da vida que um pouco inventamos, um pouco nos é imposta, leio na ZH de quinta o artigo do David Coimbra sobre casas. Bonito, comovente, tenso e sério como ele sabe fazer. Leiam: vale a pena.

    E assim continuo aqui falando um pouco em casas: as que nos recebem quando nascemos, as que criamos para e com nossos filhos, caso os tenhamos, casas que podem ser no chão ou no alto de um edifício. Casa sendo “lar”, isto é, refúgio. Lá onde, apesar de discordâncias, brigas e chatices, nos sentimos abrigados. Esse é o meu lugar, assim como, no Exterior, pensamos no nosso país (pobre país, aliás...) como “meu lugar, minha gente”.

    Talvez nem todos sintam isso, mas eu, conhecido bicho da minha toca e mulher da minha caverna, em todas as vezes em que estive em países civilizados, lindos, cultos, a trabalho ou a passeio, tratada a pão de ló, tive permanentemente essa sensação de que meu lugar seria, mesmo mesmo, aqui no Brasil. Esculhambado, colorido, hoje dolorido e preocupante, mas minha gente, minha fala, meu clima, minha alma, meu aconchego. 

    Certamente não sou uma “pessoa do mundo”, antes uma espécie de caipira gaúcha, embora nutrida com idioma, livros, uns poucos costumes e comidas do país de origem de meus antepassados – que cá vieram há quase duzentos anos, portanto estamos bastante “amaciados” como brasileiros. Apesar do respeito e admiração pelo espírito de trabalho, ordem, beleza natural e maravilhas culturais, a terra de origem não é a minha casa.

    Aliás, há muitas décadas luto contra uma “frau” enérgica, prática, que se põe à minha frente mesmo agora, mãos nos quadris, quando no meio da tarde estou sonhando acordada na minha poltrona da sala, vendo – sem realmente enxergar – a bela paisagem, ou as nuvens, fora: “O quêêê? A essa hora de pernas pra cima sem fazer nada?”.

    Na verdade, já não me impressiona muito essa outra Lya, que às vezes assume a forma da mãe, avós, tias, no mínimo sempre de tricô ou livro na mão na hora de “não fazer nada”. Para mim, isso que Freud chamava “atenção flutuante” é hora de trabalho: quando as coisas se forjam e formam dentro de mim, lá nas areiazinhas meio inconscientes do fundo do aquário. De modo que estou nesses dias, semanas, meses talvez, inventando uma casa: com porta de espiar, corredor de espelhos, sala da família, porão das aflições, pátio cotidiano, jardim das crianças e um canto dos deuses...

    Só eles sabem o que vai sair disso, mas eu vou em frente: neste computador, ou diante dessa janela, inventando como quem solta fumacinhas de um cigarro arcaico. Porque em tempos remotos, confesso, até eu fumei... “Você fuma de frescura”, diziam os amigos. Logo deixei sem sofrimento o cigarro, a frescura, o perigo de doença, o acúmulo de rugas, o cheiro que hoje me enjoa. Aliás, na minha casa inventada será proibido fumar. (Mas a nuvenzinha, essa era bem simpática.)

    27 de maio de 2017 | N° 18856 
    MARTHA MEDEIROS

    Sexo e os sentimentos

    Faz sentido dizer que sexo vale menos que amor? Essa hierarquia só existe para os excessivamente românticos, apegados aos contos de fada

    Sexo é sinônimo de prazer. Erotismo, luxúria, pecado, sacanagem. O sexo traz em si um cenário de mil e uma noites de promessas, todas voltadas para a volúpia. Quem nunca praticou é tomado por fantasias libidinosas extraídas do cinema, das revistas masculinas e de piadas e relatos picantes que garantem não existir nada melhor na vida, para horror dos sentimentais e dos pudicos. Sexo melhor que amor? Heresia, fim do mundo.

    Faltou dizer que sexo não é apenas prazer: ele é plural, dispara uma conjunção de sensações físicas de alta intensidade que comovem e podem nos levar à paixão – se não pelo outro, com certeza por nós mesmos, tamanho é o processo de autoconhecimento que ele aciona. Não estou falando, obviamente, dos encontros de uma noite só, as chamadas “one night stand”, em que mal se sabe o nome da pessoa com quem estamos e cuja finalidade é praticamente aeróbica, uma aventura para apimentar o cotidiano. Ato sexual não é a mesma coisa que relação sexual.

    Quando há relação, todos os sentimentos do mundo invadem a cama – e de uma forma tão contraditória que começa aí o espanto e a graça da coisa. Podemos, em nossa rotina de trabalho, ser um funcionário obediente, cumpridor de horários, servo de nossos patrões, e à noite, na cama, sermos dominadores, entrando no jogo erótico de assumir o controle e dar ordens. 

    Ou, ao contrário: depois de um dia liderando e estimulando vários profissionais, nos tornarmos submissos sobre os lençóis, a ponto de escutarmos palavras que normalmente nos ofenderiam e humilhariam, mas que, naquele momento, se prestam ao cenário e à cena: excitação resulta de alguma performance também.

    Esta variação de comportamento, ao mesmo tempo inocente e indecente, só é possível porque temos a segurança de saber que naquele instante não haverá julgamento moral, e sim entrega absoluta – e rara. Sexo envolve plena confiança, ou ficaríamos travados, temendo cair no ridículo. Desperta a coragem para permitir que nossos desejos mais secretos sejam expostos e realizados. 

    Exige compreensão do tempo que cada um precisa para se desnudar de seus pudores. Requer um olhar generoso e terno para a desinibição do outro e, sobretudo, inteligência – sim, inteligência – para lidar com tudo que há de estranho, ilógico e dicotômico neste embate íntimo. Costumamos valorizar o corpão (que a maioria não tem), mas uma cabeça boa é que faz toda a diferença entre o sexo vigoroso e o sexo protocolar.

    Diante desta universalidade de sensações, faz sentido dizer que sexo vale menos que amor? Essa hierarquia só existe para os excessivamente românticos, apegados aos contos de fada. Não é por acaso que transar é sinônimo de “fazer amor”, pois é disso mesmo que se trata, de um êxtase emocional e não apenas físico (ainda que “fazer amor” seja uma expressão enjoada). Sexo pode ser bandido, perverso e impuro em sua essência, nunca em sua conotação. Em análise, sexo é sublime também.



    27 de maio de 2017 | N° 18856 
    CARPINEJAR

    Regime semiaberto

    Só a mulher pode decretar o início e o fim de seu regime. E o regime pode durar um mês, um trimestre ou apenas 24 horas. E você, marido, não precisa ser informado com um edital. E não procure tirar vantagem do fim da dieta, que ela pressentirá um duro boicote.

    Eu venho enlouquecendo, mas agora já estou entendendo. Quase entendendo.

    A minha mulher avisa que está de regime. Vejo que a geladeira será uma horta dali por diante. Não há de comer nada de doce e suntuoso na frente dela. Sumirão as latas de leite condensado e creme de leite. Eu me preparo para a hostilidade bélica, a guerra civil dos talheres. A casa terá uma cobertura extra de linhaça, aveia e flocos. Os passarinhos farão banquete e aparecerão em bando.

    Quando me adapto à ideia e passo a respeitá-la com esforço e obstinação, vejo a esposa na cozinha mexendo um brigadeiro com a colher de pau. Tento não demonstrar susto. Se eu perguntar se ela não estava de dieta, ficará brava. Lembrarei que quebrou o voto de abstinência. Faço cara de feliz, e ela me oferece. Comemos raspando a panela.

    Aproveitando o embalo, de noite, dou a dica de uma pipoca para assistirmos a nossa série na Netflix. Ela me encara, furiosa:

    – Estou de dieta, esqueceu?

    Não ouso argumentar, mesmo com a nitidez do brigadeiro nas papilas gustativas de minha língua. Ok, deve ter voltado ao esquema dos grãos. Sigo a rotina espartana. De repente, na semana seguinte ela prepara um pudim. Mastigo, paranoico, com medo de sua reação. Meus olhos são pontos de interrogação e remela. Continuo com as minhas palestras, viajo e recordo de trazer a cocada de sua preferência. Penso em agradá-la. Ela, então, me fuzila:

    – Esqueceu de novo que estou de dieta? Você nunca me ajuda...

    Ela desencadeia e encerra e renova a reeducação alimentar num passe de mágica. O prazer surge num clarão, a culpa logo corrige a consciência e põe uma pedra no assunto. A sensação é de incoerência e perplexidade, que perdi alguns capítulos importantes da novela.

    Para não errar, toda a mulher está de regime. E nunca está de regime. Compreendeu? É sempre regime semiaberto: livre, mas nem tanto. Jamais acertarei o dia do indulto.



    27 de maio de 2017 | N° 18856
    PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

    AMOR E RESPEITO: O QUE VEM ANTES?

    As escolas de todos os níveis têm recebido críticas crescentes pela maneira com que têm participado da educação dos nossos filhos. Com essa perspectiva fantasiosa, a decepção é completamente previsível: está sendo atribuída à professora de 40 alunos, sentindo-se ameaçada, trabalhando em ambiente desfavorável e com carga horária abusiva, a função de educar os rebentos que não conseguiram ser domesticados por dois pais amorosos e dedicados, apesar de lhes oferecerem um convívio adocicado, amoroso e pretensamente estimulante.

    O ser humano não é um animal acomodado ao meio em que foi aleatoriamente inserido. Pelo contrário, é um contestador nato que aparentemente descobre, ainda no útero, que dando uns pontapés consegue uma posição mais cômoda e já nasce gritando e esperneando, e aprende logo no primeiro dia de vida a importância do choro como arma poderosa para tratar a fome e o desconforto de uma fralda suja. 

    Como é completamente dependente de ajuda, porque de outra forma não sobreviveria, a paparicação inicial é inevitável. Como faz parte da natureza humana, ele tende a se acomodar às circunstâncias favoráveis, mas acomodação não educa ninguém, precisamos preparar nossas crias para a vida real, que começa a mostrar a cara ainda na primeira infância. É quando se descobre que nem sempre haverá alguém para servir, que chorar não ajuda e espernear só parecerá ridículo. Nesta fase é que se qualifica o pimpolho para o convívio social e o mundo. 

    Pois é exatamente nesse estágio da vida que as mudanças na estrutura familiar da modernidade têm se revelado ineficientes. Com ambos ocupados com a atividade profissional, os pais esperam que creche não só ocupe e proteja os rebentos, mas, na medida do possível, oferte os ensinamentos básicos de sobrevivência para a selva social que os aguarda. Num momento crítico da educação da criança, quando ela deveria aprender a identificar os limites do direito de cada um, imposto pela civilidade, o que mais se vê são pais iludidos com a ideia de que precisam se fazer amar e que o resto será mera consequência. Claro que assim a criança será deseducada com a percepção tola de que sempre terá tudo o que quiser. E que ter mais ou menos dependerá apenas da veemência dos pedidos.

    Dona Joana viuvou muito cedo e criou quatro filhos homens, que tinham entre cinco e 11 anos quando o marido morreu. Impressionado com a disputa de desvelo com que o quarteto cuidava da mãe quando adoeceu, não resisti em perguntar-lhe qual era o segredo dessa conquista de afeto tão evidente. Ela demorou para responder, e interrompeu a minha primeira tentativa com uma frase pouco convincente: “Esses filhos foram um presente de Deus para compensar minha perda!”. 

    Dias depois, às vésperas de uma cirurgia de risco, ela espontaneamente retomou a conversa: “Não foi nada fácil, doutor. Meu filho mais velho era uma peste e a má influência sobre os menores só atrapalhava. Imagina que um dia, aos 14 anos, inventou que eu tinha que lhe dar uma moto. Disse-lhe que não daria de jeito nenhum e que não falasse mais no assunto antes dos 18 anos. Ele, então, me provocou, retrucando: ‘Então não espere que lhe ame até os 18 anos’. Aquilo me doeu, doutor, mas tive forças para dizer: ‘Meu filho, meu dever de mãe não é me fazer amar, mas me fazer respeitar. Porque amor é uma escolha que farás adiante na vida, mas respeito é pra hoje e é uma obrigação!’.”

    Dois dias depois, ele esperou os irmãos dormirem, entrou no meu quarto, se pendurou no meu pescoço, sem dizer uma palavra, e choramos abraçados até que ele adormeceu. Daí em diante, ele foi o pai de quem os pequenos já nem lembravam muito bem”.

    Não sei por onde andará a Joana e sua prole, mas que frase aquela: amor é escolha, respeito é obrigação.



    27 de maio de 2017 | N° 18856 
    MÁRIO CORSO - Psicanalista

    PARA ONDE VAMOS?

    Um dos meus prazeres é ler revista velha, bem velha, de pelo menos uns 20 anos. Para quem, como eu, gosta do mergulho no passado recente, existem dois santuários ecológicos para esse espécime que se salvou do lixo: consultórios de dentistas e casas de praia. Paira um mistério sobre por que territórios tão díspares tendem a aglutinar essas preciosidades, mas assim é.

    Encontramos nessas revistas celebridades esquecidas, subcelebridades extintas. Como fomos dar bola para essa gente? O visual, então, esse diz tudo, as roupas, antes elegantes, nem brechó aceitaria. No vestuário, a moda e sua efemeridade são mais visíveis e risíveis.

    Sensacionais mesmo são os anúncios de carros fantásticos que hoje são sucata. TVs de tubo incríveis, com uma definição nunca sonhada, do tamanho de uma lavadora e peso de um piano. Ofertas de computadores ultramegaplus em tudo, menos potentes que o celular que está no teu bolso. No setor saúde, nunca falta a notícia da cura iminente do câncer, o regime definitivo para emagrecer, ou remédio para a calvície. E, ainda, o vaticínio de tendências que nunca aconteceram, o proselitismo de certezas que se desfizeram em poeira, ideias revolucionárias de gurus que se mostraram puro modismo.

    Nessas páginas, encontramos profecias sobre qualquer coisa, menos os fatos que realmente deram uma nova cara ao mundo: a internet, as redes sociais, os games, o smartphone, o Google, o multiculturalismo, o início do derretimento da fixidez das identidades de gênero. Somos o futuro que ninguém previu.

    Desse encontro, tiro duas teses. Primeira: ninguém realmente sabe para onde vamos. Segunda: nos levamos demasiado a sério. Daqui a 30 anos, alguém vai pegar uma revista de hoje e enxergar-nos exatamente como vemos o passado: apegado a quinquilharias como se fossem o máximo, elogiando ideias tolas, acreditando estar no cruzamento cósmico de algo muito especial. O exercício dessa leitura não é saudosismo, mas para entender o exagero de como percebemos o presente. Aproveito como uma imprescindível lição de transitoriedade.

    A inflação do presente nubla o essencial. A revista velha nos devolve um momento congelado, onde o ontem ainda mostra-se como presente e por isso captamos como ele se via superestimado. Porém, não é apenas o passado, mas porque já vivíamos, como seguimos fazendo, percebendo a realidade um tom acima. Somos assim, tentamos fazer uma narrativa épica onde às vezes só há repetição, inventamos uma densidade histórica para as banalidades. Uma tentativa de viver numa época especial; afinal, é a que nos tocou. Recentemente, vejo muita gente opinando que vivemos a maior crise econômica e política da história do Brasil. Bom, se você não estudou História, é mesmo.



    27 de maio de 2017 | N° 18856 
    DAVID COIMBRA

    Cem centímetros de glúteos

    “Cem centímetros de glúteos!”, foi a manchete que dei no Timeline de sexta, antecipando o tema que abordaria no bloco seguinte do programa. Achei que largar assim aquela frase, “Cem centímetros de glúteos!”, seria impactante. Deixaria os ouvintes ansiosos para saber a respeito e meus colegas, o Potter e a Andressa Xavier, decerto não ficariam menos curiosos, sobretudo o Potter, que aprecia glúteos de bom tamanho.

    Minha ideia era ler o release que havia recebido sobre uma modelo brasileira chamada Luana Caettano, eleita Musa do Barcelona. O texto informava: “A morena é dona do maior bumbum da Espanha, o que acabou lhe rendendo o apelido de ‘Bumbum Catalão’, o qual carrega com muito orgulho.”

    Embora não tenha ficado claro, concluí que o que ela “carrega com muito orgulho” é o apelido. Ou seja, se você for a Barcelona e passar pela Luana Caettano, pode dizer “E aí, Bumbum Catalão!”, que ela vai gostar.

    Pensei realmente que todos se entusiasmariam em saber que uma brasileira é dona dos maiores glúteos da Espanha, título que me parece bastante expressivo. Cem centímetros, afinal de contas, é um metro, a altura de uma criança de cinco anos de idade. Dispor de glúteos com essa dimensão me parecia algo digno de nota.

    Mas, quando comecei a dar a informação, o Potter me cortou:

    – Ah, mas eu tenho cem centímetros de glúteos!

    Aquilo já arruinou-me o entusiasmo. O Potter não tinha de ter me dado aquela informação. Porque, no momento em que ele falou, os glúteos do Bumbum Catalão fugiram da minha mente e foram substituídos pelos do Potter. Não, não, vade retro, eu não queria pensar nos glúteos do Potter! Tentei me concentrar no Bumbum Catalão e seguir com o texto, mas a Andressa observou, até com certo enfaro:

    – Ora... Qualquer uma tem cem centímetros de glúteos...

    Qualquer uma... Senti certa admiração pela colega. Mas é claro que ela estava se referindo às brasileiras. Andressa poderia dizer: qualquer brasileira tem cem centímetros de glúteos e o Potter também. Eu acreditaria nela, devido ao nosso sabido apreço pelos glúteos.

    Sempre pensei que isso tem algum significado. Não deve ser por acaso que a palavra “bunda”, tão redonda, tão globosa, tão perfeita para definir essa região do corpo humano, nasceu no Brasil. É uma história conhecida: muitas das escravas que foram trazidas da África vinham de Angola e Luanda, onde se falava o idioma mbundu. Eram mulheres belas, de longas pernas e nádegas generosas, porém sólidas. Os portugueses salivavam quando as viam e comentavam entre si:

    – Que bunda!

    Isto é: as bundas eram admiradas pelas bundas que tinham e, assim, as bundas das bundas, que antes não eram chamadas de bundas, mas de nádegas, tornaram-se bundas, conceito que passou a abranger não apenas as bundas das bundas, mas as bundas de todas as mulheres e também dos homens.

    Esse cadinho de raças, que é o Brasil, aperfeiçoou a arte do drible, do passe de trivela, da lavagem de dinheiro e as bundas das mulheres. Hoje, encontramos loiras com bundas de negras, e quando isso acontece é a glória.

    Agora, una a genética privilegiada pela miscigenação à tecnologia dos exercícios para os glúteos nas academias e o que resulta? Sucesso internacional, como a moça que ganhou o título de Bumbum Catalão, com seus cem centímetros desprezados pelo Potter e pela Andressa.

    Continuo não desprezando aqueles cem centímetros, embora tenha sido desprezado no programa. Meus colegas fizeram pouco caso da minha informação. Descartaram-na em um minuto e já se puseram a falar de algum obscuro deputado. Tudo bem, seguirei em frente com minhas convicções. Continuo pensando que nosso amor pelos glúteos produziu algo na nossa psiquê. Continuo desconfiando de que somos um subproduto da bunda. Desenvolverei melhor essa tese. Mas não contarei minhas conclusões para o Potter e a Andressa. Fiquem eles com seus deputados.

    terça-feira, 23 de maio de 2017



    23 de maio de 2017 | N° 18852 
    CARPINEJAR

    Igualdade, liberdade e fraternidade

    Meus padrinhos eram os meus avós paternos. Mas, como já eram avós, esqueceram de que eram os meus padrinhos.

    Tinha inveja da madrinha do meu irmão Rodrigo: Nayr Tesser. Sempre atenta, sempre com visitas inesperadas, cantando Edith Piaf. Sempre alegre. Sempre com papagaios nos ombros, seus originais animais de estimação.

    Eu recebia meias e chocolate Bis, Rodrigo ganhava Ferrorama e Autorama. A concorrência desleal não permitia dúvidas. A tristeza não decorria da comparação, mas da intensidade de seu amor. Tampouco me ressentia da diferença econômica dos mimos, e sim da algazarra das visitas.

    Nayr representava uma mulher moderna já nos anos 70: independente, falando de sexualidade abertamente, não devendo a ninguém, carismática e fortalecendo a identidade a partir da generosidade, não do egoísmo e do alheamento. Dava até pena interrompê-la. Calava os mais céticos. Professora de linguística, politizada, comprava brigas pelas minorias e defendia a pureza firme da ética em contraste com a imperfeição das leis.

    Ou eu babava, ou suspirava por ela.

    Além de ser melhor amiga da mãe, cuidava da gente indiscriminadamente. Veraneávamos em seu chalé em Imbé. Ela nos salvou várias vezes do calorão sem trégua de Porto Alegre. Fornecia gibis que não havia como comprar. Ampliou o nosso repertório alimentar com iogurte caseiro e açúcar mascavo.

    Figura avançada, libertária, libertadora, inquieta, que me enchia de orgulho por não compreender inteiramente. Despertava mistérios por qualquer lugar que passava. Enfrentava oposição e resistência porque nunca foi submissa neste mundinho machista.

    Com lenço no pescoço e olhar claro de ametista, abria caminhos na fogueira das vaidades. Chamávamos de Joana D’Arc da família.

    Não esqueço de um dos seus gestos mais emblemáticos. Quando defendeu a tese do doutorado na UFRGS, pediu licença para a banca e retirou de sua malinha um porta-retratos.

    Ali, respeitosamente, como se fosse seu criado-mudo, colocou a foto de pé na mesa. Vinha a ser a imagem de seu marido falecido, Henry. Para que ele pudesse assistir a sua argumentação de onde estivesse.

    – Quero prestar homenagem ao único homem que teve coragem de se casar comigo.

    Que sirva de exemplo infinitamente. Depois de duas décadas daquela banca, os homens não aprenderam e ainda têm medo de mulheres bem resolvidas.



    23 de maio de 2017 | N° 18852 
    LUÍS AUGUSTO FISCHER

    EXTRATIVISMO


    Já há algum tempo meu cérebro, à revelia da minha vontade, andava rondando um tema que agora se esclareceu, por obra de Reinaldo José Lopes, na Folha de S. Paulo de domingo passado. Mas antes de esclarecer, relato o desconforto obscuro.

    Não se tratava da corrupção em si mesma – esse festival assustador e acachapante de denúncias e revelações (nem sempre são a mesma coisa), que nos deixam simplesmente sem ação, salvo o ir para a rua e reclamar, enquanto esperamos que nas altas esferas as coisas andem pelo melhor caminho, ai, a nossa ingenuidade.

    O que esperar deste Congresso? O que esperar do juiz Moro, que passou três anos investigando pedalinho e apartamento em praia de classe média, mas impediu que as embaraçosas (e certeiras) perguntas de Eduardo Cunha fossem levadas a Temer? O que esperar dos controles institucionais da República, que te pegam quando tu esqueces de declarar uma renda eventual que nem fez cócegas na economia da família, mas deixam passar bilhões à toa?

    Só isso já é suficiente para a gente perder o sono e a ilusão, para nem falar da crença no futuro. Mas por baixo e por cima dessa mixórdia há outra camada, que eu não conseguia nomear. Mas agora sim, pelo texto do Lopes: no atual espetáculo exposto à nossa patetice, as empresas corruptoras são variações do velho extrativismo.

    Carne de boi é praticamente isso: embora tenha mediações agrícolas e industriais, ela dependeu, no caso da JBS, da destruição da floresta e de outros ecossistemas para criar os animais. A Petrobras, nem se fala: é extrativismo de raiz, a girar a roda da destruição do planeta na queima de combustíveis fósseis. A terceira ponta está nas megaempreiteiras, com fraudes proporcionais ao faraonismo das obras, tantas vezes ecocidas.

    A modernidade, em que o Brasil faz parte importante no jogo mundial, nos reservou esse medonho papel. Tem como sair dele?


    23 de maio de 2017 | N° 18852 
    DAVID COIMBRA

    O que Temer, Lula e Zago têm em comum

    Ainda neste ano, durante partida do Gauchão, jogadores do Inter e do Caxias disputavam ferozmente a bola ao lado da bandeirinha de escanteio, observados de perto pelo técnico colorado, Antônio Carlos Zago, que estava à margem do campo. No desfecho do lance, um jogador do Caxias atirou o braço para trás e sua mão roçou no ombro de Zago. 

    Por um instante, o treinador ficou indeciso sobre o que fazer, mas, em seguida, emitiu um urro, levou as mãos ao rosto e jogou-se dramaticamente no chão, pretextando ter recebido um soco no olho. A câmera mostrou a cena: o técnico, homem já sem cabelos, de quase 50 anos de idade, com os joelhos e a testa fincados no solo e as nádegas voltadas para o firmamento, espero que não na direção de Meca, gemendo de dor presuntiva.

    Foi ridículo.

    Simulações desse tipo, mais bem encenadas, evidentemente, são useiras e vezeiras no mundo do futebol. Nós brasileiros estamos acostumados com jogadores que não são sequer tocados pelo adversário e voam pelo ar até aterrissar com estrondo na grama, onde ficam estrebuchando e se contorcendo como se estivessem às vascas da morte. Basta o juiz mostrar o cartão amarelo para o adversário e eles se levantam e voltam serelepes para o jogo.

    Os torcedores brasileiros adoram trapaças desse gênero, se beneficiam seu time. “É malandragem”, elogiam. Mas, se prejudicam o time, vem a crítica: “Falta de ética!”

    Todos os torcedores sabem que é assim e aceitam que seja assim. Não há escrúpulos no uso do cinismo para se alcançar a vitória.

    Digo sempre que o futebol é tão popular porque, em um único jogo, consegue resumir a vida. Pois também esse cinismo de que falo não se restringe ao futebol.

    É preciso ser muito cínico para aceitar como natural a conversa havida entre Temer e Joesley Batista, exposta na gravação entregue ao Ministério Público. A história toda é burlesca, do início ao fim.

    O início: Joesley chegou pouco antes da meia-noite à residência do presidente da República e entrou sem nem se identificar. Como é que alguém entra na residência oficial do presidente da República sem se identificar? Diga: alguém chega ao seu edifício e entra sem se identificar? Estão cuidando mal do presidente da República... Ou será que encontros desse gênero são normais?

    Depois vem a natureza da conversa propriamente dita. Dois juízes e um procurador subornados? Ajuda financeira de um empresário a um deputado preso? O que é isso?

    Ainda no âmbito do Primeiro Homem da República, dias atrás Lula contou uma história ocorrida quando ele era presidente.

    Lula estava preocupado: havia suspeitas de que um importante diretor da Petrobras, Renato Duque, depositava dinheiro de propina numa conta no Exterior. Muito cioso da lisura de seus colaboradores, o presidente decidiu tomar uma atitude. Chamou Duque para uma conversa no hangar do aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

    O diretor chegou e o presidente da República perguntou: – É verdade que você está depositando dinheiro de propina numa conta no Exterior?

    Duque respondeu: – Não.

    E o presidente da República respirou aliviado:

    – Ah... Então tá. E foi-se embora, tratar dos seus assuntos.

    Estava encerrada a investigação. Durou tanto quanto o segundo de vacilação de Zago.

    Agora, ciente de que o diretor mantinha, de fato, uma conta com dinheiro de propina no Exterior, Lula se consola:

    – Ele não mentiu para mim; mentiu para ele mesmo.

    Sério? Querem que acreditemos nisso? Chega a um ponto em que nem o brasileiro aguenta mais tanto cinismo.



    22 de maio de 2017 | N° 18851 
    DAVID COIMBRA

    Cortei relações por causa do PT

    Rompi relações com um amigo de infância por causa do PT. Quer dizer: não foi exatamente por causa do PT. Explico: esse meu amigo é petista daqueles fanáticos, compartilha matérias de sites financiados pelo partido e já escreveu que Dilma é heroína dos pobres (juro). Até aí, tudo bem, há muitos que são assim, é preciso ter tolerância, mas, dias atrás, numa conversa eletrônica, ele disse que critico os governos petistas para agradar à RBS. Ou seja: minha opinião é interesseira. Ou seja: sou desonesto.

    Já ouvi e li essa bobagem antes, vinda de outras pessoas, e não me ofendi. Dias atrás, enviaram-me uma entrevista que o ex-senador Bisol deu para um site, e ele falou algo parecido. Não me importei, embora admire Bisol como homem de vasta cultura e bons sentimentos. Sei que o dogma torna obtusas as pessoas mais inteligentes. O sujeito é genial em quase todos os aspectos da vida, mas, quando o tema roça em sua crença ou em sua ideologia, ele cai de quatro e zurra.

    O objeto específico da minha conversa com o ex-amigo era o caso da JBS. Vejamos: a JBS recebeu R$ 12 bilhões de empréstimos amigos do BNDES nos governos Lula e Dilma. O banco chegou a comprar parte da empresa para livrá-la da falência. Quando Lula assumiu, o grupo faturava R$ 4 bilhões e, 10 anos depois, faturava R$ 170 bilhões. 

    O TCU já anunciou que as operações dos Batista com o BNDES trouxeram prejuízos enormes ao banco; num único ano, o de 2008, o prejuízo foi de R$ 614 milhões. Com recursos do contribuinte, a JBS comprou 65 frigoríficos nos Estados Unidos e seus proprietários se homiziaram em Nova York. Vão dar empregos e pagar impostos aos americanos graças ao dinheiro dos brasileiros. Ainda assim, meu ex-amigo acredita que só Temer, Aécio e outros políticos, que não do PT, se corromperam.

    A lógica é: “Aécio é corrupto; logo, Lula é inocente”.

    É o único caso da história da humanidade, em todos os tempos, em que um corruptor confesso obteve vantagens de um governo corrompendo a oposição.

    Foi o que disse para meu ex-amigo, e ele, sem argumentos para rebater, veio com essa de que minha opinião é movida por interesse.

    Cortei relações.

    Se não posso ter lealdade de um amigo, não tenho amigo.

    Não faço o mesmo. Nunca pessoalizo debates, sempre terço argumentos. Não acho que meu ex-amigo e Bisol sejam desonestos por pensarem o que pensam. Acho que são equivocados. No caso, devido à paixão. A paixão nos torna cegos e tolos.

    Eu também muitas vezes erro, mas posso errar honestamente. Sei por que algumas pessoas acreditam que quem discorda delas é sempre mal-intencionado. Jesus já ensinou, 2 mil anos atrás: cada um julga os outros com sua própria medida.

    Esse foi o pior legado deixado pelo finado PT. Não foi a corrupção. As relações entre o poder e o capital, no Brasil, sempre foram espúrias. O PT pode ter sido mais sistemático, mais orgânico, mas esse é um pormenor. O problema é que, nesse tempo todo de governos petistas, o Estado foi usado como agente fomentador de instituições que lutavam contra o próprio Estado. 

    É algo sofisticado, merece mais reflexão, mas, por ora, lembro que o mesmo ocorreu com o peronismo na Argentina e o bolivarianismo na Venezuela. Para se perpetuar no poder, um governo usa os recursos do Estado distribuindo esmolas embaixo e fortunas em cima. A ideia é cooptar apoiadores, nunca a formação de uma nação independente.

    Assim, a noção distorcida que o brasileiro historicamente tem do Estado ficou ainda mais distorcida. A cidadania transformou-se em birra. Exige-se muito, faz-se pouco. O Brasil virou o país do não. Tudo o que se tenta enfrenta oposição e desconfiança. O outro sempre tem segundas intenções, o outro sempre é suspeito.

    Tristes trópicos. Voltando a citar Jesus: não é o que entra na boca do homem que faz o mal. O mal é o que sai da boca do homem.


    22 de maio de 2017 | N° 18851
    ARTIGOS

    CONDIÇÕES PARA UM RECOMEÇO


    Os dias que se sucedem seriam outrora inimagináveis. É quase uma redundância falar que se vivem tempos de crise, nos quais parece que o amanhã não surge e, tal qual o personagem central do filme Feitiço do Tempo, vive-se o eterno hoje, em que, todos os dias, novos escândalos repetem-se indefinidamente; acordamos a cada manhã despertados pela fúria que consome a racionalidade e faz do nosso cotidiano um interminável “dia da marmota” (igual ao sensacional filme).

    Nestes tempos tão angustiantes, parece ser uma tarefa quase ingênua o debate de ideias e a reflexão sobre os rumos que pretendemos perseguir nos dias que irão compor o que se denomina futuro. Se não conseguimos suplantar as amarras que nos impedem de romper com o presente, como é possível falar da construção de novos tempos?

    Isso se torna especialmente dramático diante do caos que ora se instala. Por decorrência, precisamos recuperar a racionalidade coletiva. Com todos os riscos que significa, vale propor o seguinte: 

    a) não esquecer nosso compromisso democrático- civilizatório, e isso significa manter respeito por aquilo que nos torna uma nação: Constituição; 

    b) suspensão das reformas, pois agora, mais do que nunca, não há legitimidade para prosseguir com elas, mesmo que se entendam necessárias, até porque, diante do escancarado quadro de compra de votos no Congresso, elas poderão resultar justamente o contrário do que se diz pretender: déficit público; 

    c) renúncia ou impeachment impõem-se inexoravelmente; 

    d) cumpra-se a Constituição, com eleições indiretas no Congresso nos termos e prazos previstos, pois descumpri-la implicará consequências tão indesejáveis quanto aquelas que resultaram neste momento; 

    e) aprovação de emenda para convocar eleições de membros de uma constituinte exclusiva (cerca de 200 cidadãos) com vistas a aprovar ampla reforma política, sendo que os candidatos não poderão estar ocupando cargo público eletivo e tornam-se inelegíveis, por um prazo de oito anos; 

    f) deixar de lado o “ânimo de torcida” de futebol que tem nos conduzido até aqui.

    Enfim, vivem-se graves momentos, os quais determinarão os dias que estão por vir e, não obstante essa transição seja mais lenta do que desejaríamos neste momento, haveremos de criar condições para um recomeço, a partir de 2018. Caso contrário, corremos o risco de um retrocesso autoritário, como se embarcássemos em uma máquina do tempo e viajássemos para 50 anos no passado.

    *Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Unisinos

    22 de maio de 2017 | N° 18851 
    L.F. VERISSIMO

    O ponto


    Um dia, o Internacional anunciou a contratação de um grande goleiro. Um goleiro tão bom, que muita gente estranhou. Como um jogador extraordinário assim acabara no Inter e – pelo que se soube – por muito pouco dinheiro? Mais estranho ainda: o grande goleiro não pedira um grande salário. 

    Aí alguém se lembrou de boatos que corriam sobre o jogador, que ele era um entregador de partidas, um incorrigível subornável. E concluíram que ele não se interessava pelo que ganharia no Inter, se interessava pelo que ganharia de adversários no gol do Inter, deixando passar bolas defensáveis. Se interessava pelo ponto.

    São tantos os escândalos envolvendo políticos no Brasil, tanto dinheiro rolando e tantos favores sendo vendidos, que se pode pensar em mandatos e cargos públicos não como oportunidades de servir à população, mas como pontos. Quanto mais influente e destacado na hierarquia do poder, melhor localizado e lucrativo o ponto do político. E corretores de jogo do bicho, vendedores de drogas, mendigos e prostitutas sabem como é importante um bom ponto.

    Pode-se até fantasiar que, um dia, deputados, senadores e governantes dispensarão seus salários e viverão exclusivamente de propinas, ou do que ganham nos seus pontos. O que, além de acabar com toda a retórica vazia sobre razões nobres para se eleger e servir à nação, trará um grande alívio para os cofres públicos. A Odebrecht e as outra grandes empresas corruptoras se encarregariam de pagar os políticos, para cada um de acordo com a localização do seu ponto.

    Quanto ao tal goleiro do Inter – só para não deixar a história pela metade –, o clube chegou a montar um esquema para vigiá-lo dia e noite. Mas as suspeitas a seu respeito não se confirmaram. Pelo contrário, o Inter deve boa parte do seu sucesso na época às suas defesas. Ele era inocente. O que se pode dizer de cada vez menos políticos brasileiros.


    20 de maio de 2017 | N° 18850 LYA LUFT
    Lya Luft - lya.luft@zerohora.com.br

    As coisas humanas

    Quando me chamaram para voltar à ZH e pertencer de novo à família RBS, em começos de 2016, fiquei feliz, era um momento de certa orfandade, e me reintegrar aqui foi uma alegria. É uma alegria. Fui recebida feito filha da casa, meu ego desinflado melhorou e, mesmo que eu não vá à Redação habitualmente, de coração estou entre colegas, funcionários e amigos queridos. 

    Um dos pedidos ao fazermos os acertos foi antes uma sugestão: não escrever sobre política como vinha fazendo nos últimos anos em uma revista. Na verdade, nunca fui uma entendida ou comentarista política. Aliás, o tema me assusta. Sempre afirmei, e escrevi, apenas como uma brasileira comum moradora deste planeta complicado que se chama Brasil. Agora a Zero Hora afirmava que escrever o que acho de “coisas humanas” era o que o leitor mais queria de mim.

    Achei meio engraçado, meio comovente, me surpreendi um pouco – porque, afinal, política é coisa muito humana e muito nos atinge, aflige ou anima –, mas compreendi que se tratava dessas coisas humanas essenciais: afetos, amizades, colegas, família, otimismo, sofrimento, esperança, decepção, educação, convívio, segurança, moralidade, enfim. Tenho feito isso, e isso tem me feito muito bem. Não posso deixar (ou: posso, mas não quero) de comentar aqui brevemente que a nossa realidade política, que tanto corrói a economia e tanto nos afeta em nossa lida cotidiana, roubando esperanças e jogando aflição sobre todos, mexe extraordinariamente com cada pessoa.

    Porém, é preciso reconhecer que, mais do que nunca – como eu disse outro dia a um grupo de funcionários aqui da casa, que me receberam com tanto afeto que me emocionei –, ao fim e ao cabo, no meio das maiores loucuras, confusões e medo, cada vez mais importam as pessoas: clientes, amigos, patrões, funcionários, família, colegas, até meros conhecidos. Se cada um tentar, com simplicidade, o seu melhor nesses lugares e ocasiões, se cada um fizer na vida e no trabalho o melhor que puder, é possível que este mundo, este Brasil, esta cidade melhorem um pouco. Que a gente se sinta mais confortável, mais amparado, mais otimista, mais importante.

    Alguém certa vez me fez entender que todo mundo precisa saber-se importante: não em cargos, dinheiro, grandes façanhas, mas pelo menos no seu grupo, seja ele qual for. Eu sei, não é fácil conviver bem. Há pessoas naturalmente irritantes e desagradáveis. Traições acontecem. Afastamentos incompreensíveis também. Mas ser importante para uma pessoa que seja já vale muito. Ser benquisto entre seus colegas é muito. Ser bem-visto e respeitado por clientes, patrões, empregados, ser considerado uma pessoa confiável, um ser humano decente, é muitíssimo. E nos faz bem. E nos estimula.

    Ninguém é inteiramente amado, totalmente compreendido, absolutamente respeitado: faz parte do aprendizado da vida. Mas ser uma pessoa decente é o essencial, porque, neste momento caótico e preocupante, muitas vezes desanimador, saber que existe alguém bom, honrado, atento, digno, é uma dádiva.

    Apesar de todas as nossas dificuldades e imperfeições, as coisas humanas são o melhor de tudo – e isso nem um Everest de dinheiro, de grandeza, de importância ou de poder poderá substituir.