sábado, 21 de dezembro de 2019



21 DE DEZEMBRO DE 2019
LYA LUFT

Tempos melhores

Nem todos hão de concordar, mas acho que já tivemos tempos bem piores.

Os saudosistas vão sacudir a cabeça, não, não, ela está otimista demais. Porém, se pensarmos um pouco, veremos que casais tinham 12 filhos ou mais para que sobrevivesse meia dúzia, pois a mortalidade infantil era tenebrosa. Casais de maridos velhos e mulheres jovenzinhas eram comuns, porque a morte durante o parto era bem comum. Higiene, antibióticos e cuidados hoje evitam isso, e temos mais crianças saudáveis, menos parturientes com problemas graves.

Também temos, eu acho, receitas demais para tudo, algumas boas outras ridículas e outras ainda prejudiciais. Meninas fazem cursinho para aprender a segurar e amamentar o bebê. Casais se afligem lendo receituários sexuais às vezes hediondos. Nunca falamos tanto em natureza, nunca tantos foram naturebas, e talvez nunca tenhamos estado tão longe dessa grande e enigmática Mãe de Todos.

Por outro lado - hoje o jogo dos prós e contras -, a meninada nunca teve tanta oportunidade de se informar, de se cuidar na vida pessoal; de escolher profissões as mais variadas, muitos ramos do Direito, da Medicina, da Engenharia, muitas profissões técnicas, muita escolha - muita dor de cabeça, claro, mas nada é de graça.

Acho que nos casamos, ou vivemos juntos, de maneira bem mais natural e espontânea, não por arranjo familiar ou interesse pecuniário. Mas, claro, tem o outro lado: a gente separa com muita facilidade, e vai deixando filhinhos... nem sempre com seus cuidados divididos entre pai e mãe de maneira harmoniosa.

Tudo porque no fundo somos animais predadores com essa camadinha de cultura, educação e gentileza, que afinal a humanidade vai adquirindo.

Não somos grande coisa, digo às vezes, brincando a sério. No fundo mais fundo, queremos ser livres, descompromissados, nada de trabalho muito duro e mal pago, nada de não olhar para o lado se a colega é linda e divertida, ou o patrão generoso e cheio de elogios. Queremos ser ricos, ser chefes, ser importantes.

Difícil ser fiel com tanta oferta, difícil ser bom com tanta tentação, difícil ser honesto com tantos enchendo bolsos e engordando contas bancárias às custas de outros, os explorados, os ignorantes ou os necessitados.

Mesmo assim, embora eu ache que temos rigor de menos na educação, corrupção de mais nos altíssimos escalões, vejo melhoras: gente presa cujo nome antes se pronunciava com voz baixa; empresas fechadas por desonestidade; toneladas de drogas de todo tipo apreendidas pelo país, e grandes traficantes presos e condenados.

Muito menos do que seria preciso, mas ainda existem amor, solidariedade, amizade fiel, relações sólidas, trabalho digno, projetos, sonhos e realizações, velhos podendo viver, jovens podendo escolher, o mundo aberto nas teclas do iPhone ou do computador, com muitos relacionamentos firmados nesse contato cibernético que alguns ainda maldizem.

De forma que, sim, andamos em tempos melhorzinhos, e afinal em alguns dias será Natal: eu acredito na confraternização que todos desejamos.

LYA LUFT

21 DE DEZEMBRO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

E se em vez de falar de Natal

E se em vez de falar de Natal, a gente procurasse entender por que o mundo está de patas para o ar? Pessoas se sentem no direito de serem rudes com as outras, seja por estarem amparadas pelo escudo das redes sociais, seja porque já não sobra um fiapo de paciência e educação. Qual a dificuldade de ser gentil?

E se em vez de falar de Natal, a gente lembrasse que é livre para decidir? Livre para ficar ou ir embora, livre para continuar com a vida que tem ou arriscar outra coisa, livre para ser quem é de verdade ou continuar fazendo de conta. Liberdade. Que tal experimentá-la antes que seja tarde?

E se em vez de falar de Natal, a gente falasse sobre compaixão? Tanta gente com dívidas impagáveis, sem acesso a um tratamento médico decente, se sentindo solitário, não sendo escutado por ninguém, recebendo da vida uma enxurrada de negativas. Que atenção destinamos aos milhares de "invisíveis" que nos cercam?

E se em vez de falar de Natal, a gente falasse das responsabilidades que nos cabem? Postar contra o racismo, contra a homofobia, contra o feminicídio, isso qualquer um faz para ostentar consciência e ganhar likes em seus perfis, mas e no dia a dia? Como você se comporta, que tipo de piada faz, qual sua reação ao ver alguém sendo discriminado? Não há saída se não dermos nossa contribuição concreta para a sociedade mudar.

E se em vez de falar de Natal, a gente falasse de arte, ainda que pareça cansativo bater nesta tecla? Cinema, música, teatro, literatura, tudo isso é mais do que entretenimento. É preciso frequentar shows, exposições, feiras de artesanato, mostras fotográficas, rodas de chorinho e samba, qualquer coisa que extraia a emoção e a sensibilidade que estão dentro de nós, mas que, sem serem provocadas, fazem a gente parecer apenas um robô cumpridor de tarefas.

E se em vez de falar de Natal, a gente falasse de amor? Não os amores dilacerantes que viram roteiros e poemas, mas do amor sem o aditivo da angústia: amor real, compartilhado, maduro, inteligente, amor que se reconhece um projeto de satisfação, alegria, construção. Amor que não se rende aos apelos do sofrimento, aparentemente tão sublimes, mas amor que trocou a dor narcísica pelo contentamento simplificado.

E se em vez de falar de Natal, a gente falasse da fé nos acasos, da importância de não ceder a vulgaridades, da autonomia das nossas escolhas, dos favores que a vida nos fez, da poesia que há nas miudezas, de como é importante acordar, tomar café, escovar os dentes e continuar a busca pela plenitude possível?

Com Deus ou sem Deus, ter uma vida digna depende de nós. O Natal é só um pretexto.

MARTHA MEDEIROS

21 DE DEZEMBRO DE 2019
CARPINEJAR

Filho não é conselheiro amoroso

Um dos erros dos pais é acreditar que o seu filho pode ser um conselheiro amoroso. Ainda que seja o seu melhor amigo, não há como confundir a cabeça da criança ou mesmo do adulto que nunca deixará de ser uma criança. A sua criança.

É mexer com as memórias do filho, ou influenciá-lo em suas escolhas. Não passe dos limites de suas responsabilidades, confessando o que aconteceu em sua vida sexual, sem filtro e censura. A confidência é uma amizade que exige igualdade de papéis, paridade emocional, discernimento, características improváveis entre pais e filhos, com vivências complementares e sobrepostas.

Detalhes e indiscrições são dispensáveis. Não esqueça que ele é o seu filho acima de tudo e que tem também uma mãe ou um pai em questão que ele leva em alta conta.

Não abra segredos de sua trajetória, contando infidelidades ou aventuras que são capazes de destruir o que ele pensava do amor. Confessar que já traiu a esposa ou o marido é atormentá-lo com o que ele sente pela mãe e pelo pai. É ativar uma bomba-relógio e repassar para as suas mãos. Ainda mais quando a parte interessada desconhece a verdade. Ele ficará em dúvida sobre qual lealdade manter, a materna ou a paterna. É um dilema que destruirá o convívio e agigantará crises de consciência.

Seus problemas têm grandes chances de serem os mesmos problemas dele, portanto é a vítima pedindo ajuda para a outra vítima.

Dar a sua versão é mudar a versão dele. Ou constrangê-lo a tomar um partido e deixar a posição confortável de consenso da família. Filho não deve ser escudo de nossas fragilidades, ou cabo de força de relacionamentos.

Não diga a um filho o que gosta ou não gosta na cama, o que faz ou deixa de fazer no quarto, as suas excentricidades e manias, já é difícil para ele imaginá-lo nu, ouvir descrições de cenas será um tanto desagradável.

Não realize inventários dos defeitos do seu par, o quanto foi infeliz no casamento, o quanto a parceria não o contentava, não justifique as suas decisões erradas repassando a culpa a terceiros, proteja a memória mais pessoal com o silêncio, para evitar ciúme e confusão.

Nem é questão de manter as aparências, mas de não destruir a essência de cada um. Pois a liberdade de falar não significa ferir a reputação dos afetos, uma vez que toda confidência envolve personagens próximos. Roupa suja se lava em casa, mas cada um precisa cuidar de seus lençóis.

CARPINEJAR


21 DE DEZEMBRO DE 2019
KARNAL

Não consigo me recordar ao certo de onde li. Creio que foi um pensador holandês, morto na Segunda Guerra, Huizinga, o autor de uma frase que dá sabor ao que faz o historiador. Parafraseando: quando vamos estudar um episódio, precisamos imaginar que estamos diante de um jogo de cartas. Podemos até saber que há um vencedor, todavia devemos nos colocar no lugar dos jogadores de baralho num tempo em que eles ainda não tinham terminado seu jogo. As cartas não estavam na mesa. As possibilidades estavam nas mãos e na cabeça dos jogadores, na sorte e no imprevisível da vida. Todos à mesa podiam ganhar ou perder.

Explicando melhor: há pelo menos duas atitudes de senso comum em relação ao presente. A primeira é a mais irrefletida delas. São as pessoas que acham que o que vivemos é a única vida possível, uma ordenação natural do mundo, uma ordem imutável no cosmos. Gente assim solta pérolas como "sempre foi assim e sempre será", achando que encarna um novo Platão ou que emula um profeta do Velho Testamento, interpretando uma mensagem divina aos tolos pecadores.

A segunda é um pouco melhor, porém não muito. A pessoa sabe que o mundo muda, que há historicidade na vida e nos gestos, mas tende a achar que os nossos tempos são o caminho lógico e natural da História, que o passado e o presente estão unidos por um fio de aço que, ao mesmo tempo, serviu de fio de Ariadne para nos trazer até aqui. O presente que vivemos é a consequência natural de um passado que só tinha um caminho a seguir: o nosso.

A frase com que iniciei o texto deixa as coisas mais complexas e nos lembra que, no passado, as pessoas viviam com dilemas e tomadas de decisão como as de hoje. Tem dúvidas do que fazer, qual o melhor caminho a seguir? Já ponderou que, se tivesse seguido tal estrada e não a que escolheu, sua vida teria sido, potencialmente, muito diferente do que é hoje? Pois bem, no passado, os humanos também tinham dúvidas de que caminho seguir. E um historiador precisa lembrar-se do que foi feito, de qual caminho foi efetivamente seguido, todavia também do que quase foi feito, já que, em ambos os gestos, reside o passado, como se vivia e o que se pensava. Se alguém considerou uma hipótese é porque pôde pensar daquela forma.

Churchill, quando anunciou que as tropas deveriam evacuar Dunquerque, deve tê-lo feito depois de considerar outras hipóteses. Apostou alto. Os nazistas, quando dividiram suas forças em vez de esmagar o grosso das tropas aliadas, ilhadas naquele remoto litoral, também apostaram. A história consagrou o episódio como uma derrota militar que levou à vitória final na guerra.

Suponhamos que a campanha da Inglaterra tivesse sido bem-sucedida - e quase o foi; mais um ou dois ataques aos novos radares instalados na costa inglesa teriam deixado os britânicos às cegas e inermes aos ataques da Luftwaffe -, e Dunquerque teria outra memória. O que foi, o que efetivamente ocorreu, é apenas uma possibilidade, a carta efetivamente jogada. Mas as que ficaram nas mãos para ser jogadas depois revelam muito. Em resumo: o presente é apenas um fragmento de tempo em um intrincado emaranhado de circunstâncias e ações do passado. Estamos hoje, aqui, por mero acaso, por uma parcialmente insondável e sempre muito complexa combinação de eventos.

Entendido esse pressuposto, pensemos o que quase vivemos. E saibamos que isso diz muito do que vivemos. Quase viver, como entendemos, foi uma possibilidade concreta de viver. Vivemos tempos ditatoriais em vários países da América Latina nos anos 1960 até o fim dos anos 1980. Tempos em que textos como este não seriam publicados, seu autor seria punido. Liberdade de expressão, de imprensa foram suprimidas ou duramente perseguidas junto de tantas outras liberdades. 

Nossas democracias podem ter muitos defeitos, mas foram conquistas duras, que custaram sangue, lágrimas, tempo. Em tempos ditatoriais, auto-homenagens foram comuns. Em Campinas, onde leciono, havia uma ligação até Barão Geraldo chamada de Costa e Silva. A memória popular consagrou outro nome para a via: o Tapetão. Em São Paulo, o mesmo presidente nomeava um elevado, popularmente chamado de Minhocão. Recentemente, promoveu-se a discussão se tais nomes deveriam permanecer e a vontade de trocá-los foi maior. 

Zeferino Vaz, primeiro reitor da Unicamp, batiza a via que continua atendendo por Tapetão. João Goulart dá nome àquela coisa que ainda atende por Minhocão. Há imenso simbolismo em renomear, certamente um jogo de poder. Você pode não concordar com os novos nomes, porém preferir o antigo é imperdoável. Só de podermos discutir e discordar dos nomes das coisas públicas é algo que se deve agradecer à democracia, não a uma ditadura.

Se é bizarro homenagear ditadores brasileiros, importar ditadores para homenagear beira o surreal. Foi o que quase ocorreu na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Um deputado propôs uma homenagem a Augusto Pinochet, que comandou o Chile durante uma ditadura brutal entre 1973 e 1990. Não é uma questão de direita e esquerda, todavia de democracia e Estado de Direito. Como uma casa democrática poderia homenagear um criminoso condenado por crimes contra a humanidade? A homenagem foi barrada. Só de ter sido cogitada é reveladora dos tristes tempos em que vivemos. Se acha exagero, volte e releia o texto. Uma carta quase jogada revela tanto quanto uma carta jogada. É preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL, HISTORIADOR, PROFESSOR DA UNICAMP, AUTOR DE, ENTRE OUTROS, "TODOS CONTRA TODOS: O ÓDIO NOSSO DE CADA DIA".

21 DE DEZEMBRO DE 2019
FRANCISCO MARSHALL

A ILHA DO AMOR

Os gregos consagravam a Afrodite a ilha de Chipre, onde desde o Neolítico floresciam cultos de divindades femininas, de fertilidade, maternidade e cuidados, e onde chegou, vinda do Oriente, Astarté, deusa do amor e da guerra, herdeira de Ishtar. Nos mitos mais antigos, cantados por Homero e Hesíodo, é em Chipre que Afrodite põe seus esbeltos pés, vinda da espuma do mar, e onde se refugia, entre ninfas que a acolhem e cuidam, as Horas. Em Pafos, linda praia situada na parte ocidental da ilha, ergueu-se com beleza o santuário de Afrodite, destino de muitas peregrinações e cenário de consagração da deusa dos desejos, de festas e de imagens que impeliam todos a celebrar com prazer a soberania do amor.

O amor de Afrodite foi uma seiva cultural que nutriu aos gregos e que chega a nós em doces mitos e imagens, e também por meio da filosofia. Foi Platão, no diálogo O Banquete, quem apontou o duplo aspecto de Afrodite, a Celestial (Urânia) e a Popular (Pandêmia), para examinar os sentidos cósmicos e corpóreos do amor. Como força primordial, Afrodite significa a potência gregária, a força que une, a energia que promove a coesão, a união e a reprodução da vida. 

A força de Eros é também política, aproxima e concilia pessoas e comunidades, faz crescerem potências cooperativas, coesão e força de gotas, que, ao se unirem, formam mananciais que podem inundar a cidade e o universo. É de Afrodite também o dom de seduzir, ou, nos diálogos e debates, persuadir, com graça e no caminho da concórdia. Artistas e poetas sabiam o que simbolizar ao imaginar o triunfo de Afrodite sobre Ares (ou Vênus sobre Marte): a doçura pode e deve superar a violência.

Pandêmia torna-se paixão epidêmica, que dissemina paixões e prazeres, e também, como cantou Safo, aflições e desejos. É Eros, doceamargo, amigo das conquistas e superações. Esta Afrodite enrijece e liberta, é lysímeles - solta-membros. Anda com Dioniso e anima festas com pandeiros, liras e muitas danças. É a Vênus das artes, dos encantos e belezas que seduzem, da poesia de graças que transformam os sentidos e o mundo.

O amor de Cristo e Maria, ético e casto, suplantou o de Afrodite na Antiguidade Tardia e dominou a cultura europeia por muitos séculos. É guiados por Afrodite que poetas e artistas reconstroem as imagens da condição humana desde a Renascença. Amor celestial e passional são faces da mesma experiência, sublime e prazerosa, pensativa e carinhosa, com que Afrodite torna-se Musa, a fonte erótica que renova a cultura. Essa deusa aproxima sem excluir.

Celestial e popular, Afrodite é potência fundamental e necessária. São dela e nossos todos os gestos de amor e cordialidade com que são possíveis a vida e a história. É essa a mensagem do evangelho pagão, para que, em uma era de discórdias e ódio, as potências que unem triunfem e a ilha de Afrodite seja parte de um arquipélago em que se renovam as melhores utopias.

FRANCISCO MARSHALL


21 DE DEZEMBRO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

SÍNDROME METABÓLICA

Síndrome metabólica é uma epidemia no mundo atual. Não temos números confiáveis no Brasil, mas nos Estados Unidos afeta 30% da população adulta.

É caracterizada por aumento da pressão arterial, acúmulo de gordura abdominal, resistência à insulina, glicemia entre 100 e 125, e dislipidemia (triglicérides elevados, colesterol LDL elevado e HDL baixo), entre outras alterações (pró-inflamatórias e pró-trombóticas). Num período de cinco a 10 anos, a presença da síndrome duplica o risco de doenças cardiovasculares e aumenta cinco vezes o de diabetes tipo 2.

O tratamento clássico recomenda redução agressiva do aporte calórico, adoção de dieta saudável e aumento da atividade física. No entanto, como essas providências implicam mudanças do estilo de vida nem sempre fáceis de adotar, o tratamento medicamentoso pode se tornar inevitável.

Nos últimos anos, foi descrita uma estratégia denominada "Time-restricted eating", que poderia ser traduzida como alimentação com restrição de tempo (ART), que consiste em estabelecer um ciclo diário de ingestão alternado com períodos de jejum, para criar um ritmo circadiano.

Ritmo circadiano é o conjunto de reações metabólicas que se repetem no decorrer das 24 horas do dia. Nesses ciclos são regulados o sistema endócrino, a sistema nervoso autônomo, o metabolismo dos nutrientes, as horas de sono e de vigília, e outras características.

Consumir alimentos de forma errática ou fazê-lo repetidas vezes durante as 24 horas desregula o ritmo circadiano, alteração que aumenta o risco de obesidade, hipertensão arterial, resistência à insulina, inflamação e dislipidemia.

Em animais, manter um ritmo rígido de alimentação com restrição de tempo é capaz de prevenir e reverter a síndrome metabólica. O mesmo resultado tem sido obtido em estudos piloto com seres humanos saudáveis.

Um grupo da Universidade da Califórnia, em San Diego, realizou um estudo piloto para testar a eficácia desse tipo de restrição em 19 participantes com síndrome metabólica já instalada. A maioria tomava medicação anti-hipertensiva e/ou estatinas para reduzir os níveis de colesterol.

Durante 12 semanas, as refeições dos participantes ficaram restritas ao café da manhã, seguido de uma única refeição 10 horas mais tarde, de modo a manter jejum noturno de 14 horas.

A restrição levou à perda significativa de peso, melhora da composição corpórea com redução da circunferência abdominal, redução da pressão arterial, melhora do perfil lipídico e da qualidade do sono.

Os autores concluem que esse tipo de restrição "é uma intervenção capaz de ajudar aqueles com síndrome metabólica" e que "manter um ritmo diário de refeições e jejuns pode melhorar os ritmos moleculares de reações metabólicas importantes".

Vale lembrar que nenhuma conclusão definitiva pode ser tirada a partir de um estudo que envolveu apenas 19 pessoas. Mas é uma hipótese que merece ser testada com maior número de participantes.

DRAUZIO VARELLA



21 DE DEZEMBRO DE 2019
EM FAMÍLIA

PAPAI NOEL EXISTE?

Na cabeça da Maria Clara, oito anos, não há menor possibilidade de o Papai Noel ser uma invenção dos adultos. Dia desses, ela discutiu com a vizinha da mesma idade que insistia em dizer o contrário.

- Tu acha que meu pai iria comprar uma bicicleta? Tu acha que meu pai iria comprar uma piscina? - questionou a pequena, subindo o tom da voz, convicta de que os presentes dos últimos dois natais chegaram de trenó.

Moradores de Campo Bom, no Vale do Sinos, Rafael de Lima, 34, e Ana Paula Monteiro, 33, nem pensam em contar à filha quem deu os regalos. Querem prolongar sua ingenuidade pelo tempo que for possível. Às vezes, eles se veem às voltas com as meninas e precisam tergiversar para que Maria Clara e a irmã, Camile Vitória, quatro anos, sigam crendo no velhinho barbudo. Na última abordagem da primogênita, Rafael explicou que Noel faz parte do espírito natalino e encerrou o assunto sem espaço para novas perguntas.

A retórica é um pouco diferente na casa dos Vinder München. Lá, a estratégia, por enquanto, é jurar de pés juntos que, mais do que existir, ele observa cada má-criação. Psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Ângela Seger diz não haver uma só maneira, certa ou errada, de agir. Ela usa sua experiência pessoal para demonstrar. Quando um de seus pequenos entrou em casa incrédulo com o coleguinha que creditava aos pais os presentes natalinos, ela esperou que o próprio filho desse a resposta.

- Ele me contou que rebateu o amiguinho dizendo que "existia, sim, Papai Noel". Então, a resposta estava dada. Ele queria continuar acreditando e mostrou que não estava preparado para uma explicação diferente daquela - pondera Ângela.

A fantasia está ligada ao desenvolvimento da criatividade, por isso a psicóloga considera saudável estimular a crença. Apesar do apelo comercial, o Natal também desperta sentimentos bons como esperança, solidariedade e respeito ao próximo, reforça. Ela destaca, porém, que se a família discorda da celebração e não vê sentido em cultivá-la, uma das maneiras é deixar a criança descobrir aos poucos.

- Contar que Papai Noel não existe pode ser um choque. Dá para dizer que ele faz parte da imaginação das pessoas, por exemplo. Ou seja, encontrar maneiras menos agressivas. Quando a criança pergunta, é porque já pensou sobre. Então, dá para devolver a pergunta e ver o que ela pensa sobre aquilo antes de qualquer coisa - sugere.

Denise Quaresma, da Universidade Feevale, complementa dizendo que as fantasias são importantes por proporcionarem "um espaço criativo para a elaboração de traumas e realizações". Assim como suas colegas de profissão Ângela e Silza, Denise entende que não há idade correta para serem apresentados à realidade:

- Os pais devem respeitar a necessidade das crianças de agarrarem-se a fantasias, contanto que não seja um delírio muito fora da realidade. A fantasia do Papai Noel está respaldada socialmente. Não se trata de um delírio. Portanto, enquanto necessitar da fantasia, a criança pode mantê-la.

21 DE DEZEMBRO DE 2019
COMPORTAMENTO

COMO ESCAPAR DA ANGÚSTIA DO FIM DE ANO?


AS PROPAGANDAS DE NATAL NOS MOSTRAM FAMÍLIAS PERFEITAS E HISTÓRIAS COM FINAL FELIZ. PARA PIORAR, NESTA ÉPOCA TEMOS DE ENCARAR NOSSAS PRÓPRIAS FANTASIAS DE REALIZAÇÕES

Estamos chegando ao fim de dezembro. Certamente logo encontrarei Luiza no elevador - Luiza e sua mala. Ela é minha vizinha e, nesta data, costuma fugir dos festejos de fim de ano. Não lhe agrada o ritmo que a cidade fica neste período, então escapa para um lugar tranquilo.

No outro extremo, há quem entre na famosa correria de fim do ano. Essas pessoas vão rumo ao shopping center mais próximo para comprar presentes para todos que lhes rodeiam. Correm para ver quem não viram durante o ano. Também anseiam em reatar com quem estejam estremecidos.

Na televisão, assistimos às propagandas natalinas. Famílias perfeitas que festejam sem rusgas, com decorações impecáveis e presentes incríveis.

O fim de ano gera os mais diversos sentimentos. Talvez possa ocasionar um processo de luto pelo ano que se encerra. O que ficou para trás? O que não pôde ser feito? O sentimento de pesar é comum neste momento em que fazemos um balanço. Pode haver um desgosto pairando no ar, nos abatemos pela ilusão perdida, os sonhos que não atingimos.

A convenção de que o ano se encerra em dezembro dá o que falar. Em alguns momentos, parece que o mundo vai acabar. Não haverá tempo! O tempo irá se esgotar logo ali! Bem-vinda angústia de fim de ano! Vamos revê-la?

Talvez a principal aflição desta época seja gerada pelo ideal que fantasiamos. Imaginávamos que finalizaríamos o ano de certa forma e nem sempre é o que ocorre.

Freud trouxe uma importante colaboração quando descreveu a idealização, desenvolvendo temas relativos ao narcisismo. Chamou atenção para a etapa do desenvolvimento infantil, quando a criança desenvolve uma ideia de si relacionada ao desejo dos pais e das expectativas sociais, sendo cunhada pela onipotência infantil e pelos ideais de perfeição dos genitores. No desenvolvimento emocional saudável, as pessoas vão renunciando à onipotência narcísica infantil, ampliando suas relações com a realidade externa (professores, líderes, ideais pessoais) e, desta forma, tolerando as inevitáveis frustrações da vida.

O poeta Manoel de Barros escreveu que "as coisas que não existem são mais bonitas". Penso que essa compreensão atenta para a realidade, que não costuma ser nada perfeita. O autor justamente versa sobre "uma didática da invenção" e, em sua poética, deixa clara a necessidade da delicadeza, da humildade e da perseverança para apreciarmos a vida: "Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber / Que o esplendor da manhã não se abre com faca".

Um renascimento a cada 24 horas

As festas familiares costumam ter suas confusões e, em dezembro, para a maioria das pessoas, fechamos um ano com alguns dias bons, outros ruins e, também, por que não dizer, temos os dias péssimos. Ainda que fechemos o ano com um superávit, normalmente a sensação não é de plenitude. Difícil, se não impossível, ser pleno 365 dias do ano. Então, levando em consideração os desacordos, as imperfeições e as insatisfações, quais recursos você tem para ter o melhor fim de ano possível?

Quem sabe esse exercício seja útil não só para finalizar o ano, mas como um projeto de vida. Se conseguirmos sair dos ideais e lutarmos para curtir o real, construindo um momento por vez, me parece que teremos bons resultados. Escrevendo parece simples, mas está muito longe de ser! Muito trabalho há em tolerar o real e buscar o viável.

O ano finda e talvez surja a oportunidade de um renascimento. Renascemos toda vez que nos reencontramos, a cada nova história que iniciamos. Usamos corriqueiramente a expressão "ao nascer do dia". Por que não poderíamos nascer outras vezes se o dia nasce a cada 24 horas?

A escrita de novas narrativas de vida deve ser motivo para esperança. O frescor do novo pode suplantar o aborrecimento pela ausência de oportunidades, pelo fim. Geniais as pessoas que inventaram de convencionar o tempo, os dias, os meses e os anos. Parece que iniciamos o texto nos defrontando com o caos e 2020 já nos traz margem para boas perspectivas. Como diz a música: "Adeus, ano velho! Feliz ano novo! Que tudo se realize, no ano que vai nascer!".

*Psicóloga - DÉBORA LAKS*


21 DE DEZEMBRO DE 2019
J.J.CAMARGO

NÃO SE ANUNCIE IMPORTANTE. APENAS SEJA, PARA ALGUÉM

UMA REFLEXÃO SOBRE AUTOESTIMA, HUMILDADE, VAIDADE E INVEJA

Há muito se sabe que um sinal confiável de que estamos envelhecendo é quando começam a pipocar homenagens. Tudo muito compreensível e saudável, afinal o polimento do ego faz parte da preservação da autoestima, que funciona desde sempre como um monitor da nossa relação com o mundo.

Previsivelmente, a reação à homenagem depende do perfil do homenageado. Os humildes vão sempre considerá-la exagerada e partem em busca de alguém que os represente na cerimônia. Enquanto que os vaidosos, além de lamentar o atraso, mal conseguem dissimular o enfaro que nasce da convicção de que não adianta, porque os invejosos nunca dimensionarão sua importância.

Esses comportamentos bizarros são frequentes e não obrigatoriamente vinculados à idade dos personagens. Porque os vaidosos já nascem assim, ainda que muitas vezes tenham tido uma criação que os requintou.

Numa conversa de garotos no parque, de repente começou a gincana do pai mais rico. De acordo com o fascínio da época, nada distinguia mais o herói do que o carrão que possuía. E a supremacia ficava humilhante se o paizão, todo poderoso, tivesse mais de um carro.

O Renatinho era tímido por natureza e ouviu em silêncio a lista de proprietários de três, cinco e seis carros. Por ele, não se meteria, mas foi desafiado:

- E aí Renato, teu pai tem carro ou anda de bicicleta?

- Meu pai tem 500 caminhões! - respondeu.

- Era o que faltava, seu baixinho, mentiroso e metido à besta, acha o que que somos o quê, imbecis?

Todo estropiado, o Renatinho entrou em casa se arrastando. Apanhara como um cão de rua, sem ter tempo de dizer que o pai era dono de uma das grandes transportadoras do Brasil. Mas isso, naquela hora, não importava. Fosse o que fosse, aquele número era grande demais e merecia uma boa surra.

No outro extremo, com a mão enrugada sempre apoiando o queijo e a solidão, estava o Edmundo, velhinho corcunda, abandonado pela família que o colocara no asilo no dia seguinte à festa dos 88 anos. Tinha uma cabeça boa demais para reclamar e esqueleto de menos para ser útil.

Um dia, amargurado, se queixou para a psicóloga de que ele era o único que não recebia visitas e estava cansado dos pacotes de presentes que recebia toda semana, sem ninguém para abraçar. Quando a psicóloga, querendo animá-lo, disse:

- Pois eu acho que o senhor devia agradecer a Deus por ser o único da clínica que não tem Alzheimer. Os outros nem sabem que recebem visitas!

- Pois preferia ser como eles, porque não recebo ninguém, e eu sei! 

P.s.: caros leitores, abracem muito. E não tentem substituir com presentes o significado do Natal.

J.J.CAMARGO


21 DE DEZEMBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

Dois heróis do Rio Grande

Nós dirigíamos bêbados, essa é a verdade. Não conto isso com orgulho. Ao contrário, sinto vergonha. Perdi bons amigos por causa dessa temeridade criminosa da minha geração.

Vou lembrar de um único caso. Numa madrugada de domingo do ano de 2000, eu dormia em meu apartamento na Rua Portugal e o telefone tocou. Obviamente, acordei sobressaltado. Eram cerca de 5h. Quando o telefone soa num horário desses, nunca é coisa boa.

Não era. Do outro lado da linha, o então chefe da Diagramação da Zero Hora, Daniel Dias, informou, tentando pingar tranquilidade na voz:

- O Ricardo Carle sofreu um acidente... Parece grave. Toquei para o Pronto-Socorro. Lá, descobri que meu amigo e colega Ricardo Carle havia sido atropelado na frente do Bar do Beto, na Venâncio Aires, por um motorista que fugira do local sem prestar atendimento.

- Provavelmente estava bêbado - concluiu o Daniel Dias. Sim. Ele estava bêbado. Se não estivesse, pararia para levar o Ricardo ao hospital, que se situa a poucas quadras de distância.

Os médicos que atenderam o Ricardo conseguiram, com muita habilidade, salvar sua vida, mas ele jamais voltou a ser o mesmo. Durante seis anos, meu amigo ficou preso à cama de doente e só conseguia se deslocar em uma cadeira de rodas empurrada por outra pessoa. Ele mal falava, e não sei se tinha real consciência de seu estado. Era triste vê-lo daquele jeito, ele que era um jornalista tão brilhante, tão inteligente e tão produtivo. Em 2006, o Ricardo morreu, e foi até um alívio, porque os seus anos de sobrevivência foram anos de sofrimento.

Perdi um grande amigo e o Brasil perdeu um grande intelectual apenas porque alguém saiu para se divertir, bebeu e resolveu voltar para casa dirigindo.

Vi, dias atrás, uma estatística liberada pelo Detran informando que 94,7% dos condutores de veículos que morreram em acidentes ocorridos em madrugadas de domingo, no ano passado, tinham álcool no sangue. Madrugadas de domingo, como aquela em que o Ricardo foi atropelado.

Essa estatística apresentou outro dado, para mim surpreendente: levando-se em conta a faixa etária dos mortos no trânsito com álcool no sangue, 36,6% deles eram jovens de até 24 anos e 47,9% tinham entre 45 e 54 anos de idade.

Esse dado mostra que os jovens gaúchos reúnem mais compreensão acerca dos perigos de beber e dirigir do que os marmanjos. O que decerto tem muitas causas. Por exemplo, a nova facilidade do transporte por aplicativos e a educação para o trânsito nas escolas. Mas há ainda uma causa tipicamente gaúcha para essa evolução: o trabalho do casal Diza e Régis Gonzaga. São eles os mentores da Fundação Thiago Gonzaga e do Vida Urgente, que procuram, exatamente, formar consciência a respeito da ação perigosa e criminosa que é beber e dirigir.

Thiago, o filho de 18 anos de Diza e Régis, morreu em um acidente de trânsito 10 anos antes daquele que vitimou o Ricardo Carle. Os dois poderiam submergir em seu padecimento, poderiam se tornar revoltados, poderiam passar o resto dos seus dias se martirizando. Mas eles fizeram o contrário. Eles se reergueram. Diza e Régis disseram para si mesmos que não queriam que outros pais sofressem o que eles sofreram. E foram em frente. E trabalharam por essa causa.

Nunca vamos saber quantas vidas eles salvaram nesses 23 anos. O trabalho de prevenção é assim. Não aparece, porque seu sucesso não é fazer com que aconteça, é fazer com que não aconteça. Mas a sociedade gaúcha deve a esse casal todas as homenagens e todos os agradecimentos. Porque eles realizaram uma rara façanha. Eles fizeram o que poucos no mundo conseguem fazer. Eles transformaram uma imensa dor em imenso amor.

DAVID COIMBRA


21 DE DEZEMBRO DE 2019
VARIANDO

Quando o filho desaparece

O menino notou que o pai estava ocupado com a nova namorada e não prestava atenção nele. Era domingo, dia de estar com o pai, mas desta vez o que menos acontecia era estar com ele. Todos os olhos de seu pai eram para essa mulher que ele não conhecia e já odiava.

Teve um impulso. Abandonou o parquinho. Primeiro lentamente e, depois de uns metros, quando já não seria visto ou ouvido, correu. Olhou mais uma vez, eles não notaram a fuga.

Sabia apenas que iria para casa. Conhecia o parque da Redenção e tinha uma ideia da direção da casa onde morava com a mãe. Talvez não fosse suficiente para voltar, mas não havia racionalidade, só fuga de algo insuportável.

Em instantes estava na João Pessoa. Uma avenida ainda sem nome para ele, um obstáculo imenso a ser transposto. Percebeu que uma família e mais um casal esperavam para atravessar. Postou-se junto a eles mimetizando-se ao grupo. Acompanhou os passos e alcançou a travessia.

Do outro lado do oceano das avenidas era mais fácil. Conhecia as ruas onde passeava com sua mãe. Entrou na Rua da República e seguiu já confiante do sucesso da missão. Nunca atravessara ruas sozinho, mas as próximas eram fáceis, carros de um só lado e havia sinaleira. Entrou na Lima e Silva como quem já se sente em casa.

Precisava vencer outra enorme barreira: como entrar no edifício. Não alcançava o porteiro eletrônico. Como a sorte ajuda os intrépidos, não demorou para alguém sair e ele pode esgueirar-se prédio adentro. Subiu pelas escadas.

Bateu na porta e a mãe abriu. Ela perguntou pelo pai. Ele disse que ele já foi. A mãe, como não fazia nenhuma questão da presença, nem reclamou.

Foi ver TV sentindo fundo o peso da fuga. Não sabia por que fizera aquilo. Mas sabia que estava errado.

A partir disso a memória fica confusa. Lembra da mãe atender a um longo telefonema. Depois lhe perguntar o que ele fizera para o pai chorar desesperado dizendo que não sabia onde ele estava.

Duas décadas se passaram. Precisou ser pai para conversar pela primeira vez com seu pai sobre o episódio e lhe pedir desculpas. O pai disse que aquele desaparecimento lhe proporcionou o pior dia de sua vida. Mas que ele errou e mereceu a lição.

Na verdade, nenhum pai merece o abismo que se abre na alma quando um filho desaparece, por minutos, ou por uma angustiante hora-século.

Só agora, quando a ideia da ausência do próprio filho lhe produz pânico, ele compreendeu que punira um ladrão de galinhas com a pena capital. Os filhos sabem ser cruéis por motivos menores.

Não há culpados nesta história. São acidentes do amor. As famílias têm suas histórias de desencontros e suas pequenas tragédias, que sabem ser traumáticas. Esta foi uma delas.

MÁRIO CORSO

21 DE DEZEMBRO DE 2019
DA INFÂNCIA AO ESTRELATO

família adotou PORTO ALEGRE

A chegada de Everton a Porto Alegre teve apoio de outro ponteiro-esquerdo gremista. Ao ver o jogador se destacar em treinos do Fortaleza, Jorge Veras (atleta nos anos 1980) resolveu indicá-lo ao seu antigo clube do Sul. Em 2012, o maracanuense se destacou na Copa Carpina Sub-16, disputada em Pernambuco. Imediatamente, chamou a atenção de diversos clubes do páis, entre eles o Grêmio... e o Inter.

A diferença foi que os colorados ofereceram testes, proposta rejeitada pelo Fortaleza. Os gremistas já acenaram logo com um contrato. Em março de 2013, Everton chegou emprestado para a base tricolor. No final do ano, o clube gaúcho pagou R$ 300 mil por 90% dos seus direitos.

Praticamente pulou o sub-17, já que após poucas partidas foi alçado ao sub-20. Subiu ao profissional no final daquele 2013, com Enderson Moreira. Com Felipão, na sequência, quase foi parar emprestado ao Novo Hamburgo, para ganhar rodagem. Depois, consolidou-se na equipe e nunca mais saiu.

Sonho

Além da mulher e dos filhos, a vida em Porto Alegre ganhou a companhia dos pais, Carlos Alberto e Elenira, e de sua irmã caçula Bia, de cinco anos. Apenas o outro irmão, João Victor, de 18 anos, ficou no Ceará. Os familiares se mudaram à capital gaúcha porque havia a expectativa de sair do Grêmio vendido a um gigante europeu, e eles iriam para lá ajudar em mais essa troca de rotina. Como não houve acerto, seguiram por aqui. Não moram na mesma casa, mas próximos.

- Gosto muito da cidade, é muito legal o carinho dos gaúchos com o Everton. Para nós, é como um sonho. Sempre quisemos morar todos juntos - revela o pai do jogador de 23 anos.

Forte AMIZADE

Impossível falar sobre amigos de Cebolinha sem mencionar Wescley Farias. Aos 36 anos, o ex-jogador conheceu Everton por causa do futebol. Como adversário. Depois de lesões de joelho que lhe afastaram do profissionalismo em uma carreira com passagens por Fortaleza, Tuna Luso e até futebol austríaco, Wescley era o técnico oponente de uma final de futebol de campo contra a equipe do Cabeça. Ele mesmo admite: seu time era muito melhor. Mesmo assim, Everton deu um trabalhão, dificultando a conquista do título. Ali, criaram um vínculo e se aproximaram ainda mais.

Atitude

Quando o Cabeça começou a virar Cebolinha, já na categoria de base do Fortaleza, onde chegou aos 14 anos, estreitaram os laços. Wescley virou amigo de Carlos Alberto, o Betão, pai de Everton. Mais: tornou-se seu ajudante. Recepciona o atacante do Grêmio sempre que vai a Maracanaú, como nas férias atuais.

Em meio a isso, a vida reservou a Wescley a pior dor que um pai pode ter. Cecília, sua filha, após uma gestação complicada, nasceu com cinco meses e por três anos lutou contra as complicações de um parto prematuro. Em agosto de 2019, não resistiu.

Everton ficou arrasado. Ele e os familiares, que têm em Wescley um dos seus, fizeram o que puderam para ajudá-los. Após a morte da menina, Cebolinha deixou sua homenagem. Ao marcar um dos gols do Grêmio na vitória sobre o Goiás, na Arena, o atacante fez um gesto de chupeta, apontou para o alto e foi até uma câmera da transmissão e disse: "Cecília, é para você". Depois, postou no Instagram uma foto explicando a atitude.

- Não sei como descrever nossa amizade. Ele é um cara muito importante na minha vida. Ajudou em tudo o que precisei e mantém a mesma simplicidade de quando batia um racha (a expressão cearense para jogar uma pelada) aqui na rua - derrete-se Wescley.


Cebolinha foi fundamental para a realização de um dos sonhos do amigo. Pouco depois de perder a filha, Wescley organizou um evento de Dia das Crianças para arrecadar brinquedos e promover ações sociais para a gurizada da região. A ação lotou a praça de Maracanaú e, pelo menos por alguns minutos, trouxe alegria ao lugar mais violento do Brasil.

21 DE DEZEMBRO DE 2019
ARTIGOS

VIVÊNCIAS DE FIM DE ANO

Fim de ano se aproximando e, com ele, sensibilidades ímpares e surpreendentes para muitos costumam aflorar. Não raro, somos desacomodados por alguma melancolia que chega sem pedir licença, difícil de se descrever, talvez expressa nas palavras de Guimarães Rosa: "[...] eu às vezes tenho uma saudade de uma coisa que eu não sei o que é, nem de donde, me afrontando...".

Voando doidamente durante o ano, o tempo, em finais de dezembro, como agora, parece querer parar e nos convida ao confronto com términos e possíveis recomeços: tarefa nada fácil. A percepção ou a intuição da finitude, seja de um tempo, de uma era, de uma vida ou de um vínculo se constitui em uma das maiores dores do ser humano e gera inevitável angústia, que nos acompanha, como pano de fundo, silencioso ou não, durante toda a existência.

A expectativa da virada do ano nos acena com passagens de outra forma imperceptíveis. Paradoxalmente, confrontados com o transcorrer do tempo, tendemos a um certo catastrofismo, como a julgar eternos os momentos pelos quais passamos, sejam de bonança ou desventura.

As agruras parecem eternas, as euforias parecem definitivas. Ledo engano. Momentos assim, de emotividade, transpostas as dificuldades inerentes, e reunida a necessária coragem, prestam-se a vivências importantes, para não dizer essenciais. Como apontou certa vez Cazuza, em Codinome Beija-Flor, quem prende o choro acaba aguando o bom do amor. Assim, valioso e inexorável tempo, és essencial às transformações que nos aguardam, com vagar e verve, para pensar, lembrar, refletir, ou simplesmente sentir.

Eu, em meio a incontáveis finitudes que poderia enumerar na humanidade, pressinto algo de perene embutido exatamente na passagem do tempo: é a mágica do segundeiro da vida, batendo incessantemente suas asas ligeiras e invisíveis, provocando lufadas de ar e algo mais, indizível, a perpassar e conectar tempos e gerações. Se não puder ser feliz o ano novo que bate à porta, no sentido de contente e pleno, que seja genuíno e verdadeiramente vivenciado. Pois, assim, o relógio segue seu passo, e com ele, as transformações.

IDETE ZIMERMAN BIZZI

21 DE DEZEMBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

ESPERANÇA NO EMPREGO

O fato de o mês passado ter sido o melhor novembro desde 2010 na geração de postos de trabalho com carteira assinada é, sem dúvida, a melhor notícia para o país neste ano que se encerra. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou um saldo positivo de 99,2 mil vagas formais, dando novos indícios de que a desocupação, preo- cupação número 1 do país, começa a ceder de forma um pouco mais consistente, embora ainda sem a velocidade desejada.

As persistentes altas taxas de desemprego, um legado da recessão em que o país mergulhou no curto segundo mandato de Dilma Rousseff, não foram revertidas pela gestão Michel Temer, mas, após nove meses consecutivos em que o número de admissões supera o de demissões, é possível cultivar a esperança de que 2020 marque uma inflexão, com o fortalecimento do mercado de trabalho. As estatísticas do Caged semeiam esperança, mas também é preciso certa dose de cautela. Enquanto o comércio e os serviços dão sinais de maior apetite para contratar, algo que também é típico da época, a indústria permanece demonstrando resultados mais fracos.

No início de crises, a ocupação normalmente é o último indicador a recuar. E, quando uma recuperação da economia se inicia, a retomada também é mais lenta. O mais importante, porém, é a certeza de que a curva da geração de empregos, agora, aponta para cima. Mesmo assim, não é possível esquecer que um enorme contingente de brasileiros ainda vai passar as festas de fim de ano, um momento que deveria ser de alegria, atormentado pela falta de renda, sem meios de sustentar a si e suas famílias. Ainda são 12,4 milhões de pessoas que buscam uma colocação, fora outros 4,6 milhões de desalentados, que nem sequer reúnem ânimo para tentar uma ocupação.

A expectativa de uma economia mais dinâmica em 2020 cria a perspectiva de que uma quantidade cada vez menor de pessoas passe pelo drama humano que existe por trás dos números frios das planilhas. Contribuem ainda para essa tendência os efeitos da reforma trabalhista empreendida na gestão Temer e as iniciativas do governo Jair Bolsonaro que tentam criar um melhor ambiente para os negócios, como desregulamentações e desburocratizações. 

Mas ainda há muito a fazer, a começar pela desoneração da folha de pagamento, perseguida obstinadamente pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Diante das resistências à substituição dessa taxação perversa sobre o emprego, a questão terá de ser solucionada na obrigatória reforma tributária que se avizinha e precisa ser feita logo no alvorecer de 2020.


21 DE DEZEMBRO DE 2019
+ ECONOMIA

O mistério da energia no horário de verão

Um dado da Companhia Energética de Brasília (CEB) chamou atenção para a possibilidade de o consumo de energia ter subido, sem horário de verão. Houve alta de 7% entre 19h e 21h no Distrito Federal em novembro, comparado ao mesmo mês de 2018, quando ainda havia horário de verão. A coluna foi checar se é um comportamento específico ou disseminado e deparou com um pequeno apagão de dados.

Na Região Sul, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aponta alta na carga de 3% no mês passado em relação a igual período do ano anterior. O indicador não é igual: o da CEB é chamado de "demanda instantânea", que ocorre em um momento dado. Carga é o total oferecido, conforme a necessidade. Mas ambos refletem aumento no uso de eletricidade. A CEEE alega que, como tem ações em bolsa, não pode informar dados específicos. 

Até há pouco tempo, a companhia divulgava demanda instantânea. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), que acompanham o consumo, não atualizaram os dados de novembro até agora. Especialistas afirmam que o horário de verão não economizava tanta energia quanto nos primeiros anos, mas caso a retomada se consolide, será essencial avaliar o impacto do fim do horário de verão.

A SEMANA QUE EU VI

dólar contido

Depois de encostar em R$ 4,30, a cotação do dólar murchou lentamente até se reaproximar de R$ 4. O principal motivo foi a cena externa, com trégua na guerra comercial entre EUA e China mas novos sinais de retomada econômica no Brasil ajudaram. Na sexta, houve repique.

lista de compras

Com a aquisição da brasileira Nakata, por R$ 457 milhões, na terça-feira, a Fras-le, parte da Empresas Randon, acumula sete compras em dois anos. A estratégia é reforçar receita na distribuição, menos instável do que a produção. Ainda há uma lista de compras, mas só após intervalo de até um ano.

ajuda do stf

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que devedores que declaram ICMS e não pagam podem responder criminalmente. Há pendências de R$ 4,7 bilhões no Estado. Não há perspectiva de recuperação imediata, mas a Fazenda ganha instrumento de pressão para cobrar dívidas.

reforço elétrico

Mesmo em leilão de reforço (não de expansão, portanto menos abrangente), o Rio Grande do Sul se credenciou a receber aporte de R$ 681,6 milhões em transmissão de energia. A CTEEP vai reforçar a ligação elétrica em Caxias do Sul, com quatro subestações e 169 quilômetros de linhas.

MARTA SFREDO

21 DE DEZEMBRO DE 2019
BRIGA DE FAMÍLIA

Emílio Odebrecht demite filho Marcelo por justa causa

O empresário Marcelo Odebrecht foi demitido da Odebrecht S.A por justa causa na sexta-feira. A ordem para a demissão partiu de seu próprio pai, Emílio. Marcelo era contratado no regime CLT e recebia R$ 115 mil. Desde que foi preso, em 2015, ele havia sido afastado, mas teve a remuneração mensal mantida.

O empresário recebeu uma correspondência onde a empresa alega os motivos para a demissão por justa causa. "Foi constatado que o senhor vem afirmando publicamente a existência de infundadas irregularidades praticadas pela Odebrecht e por superiores hierárquicos, o que caracteriza mau procedimento, ante a inequívoca quebra da confiança necessária à relação de emprego, além de atos que lesam à honra e a boa fama da Odebrecht S.A e de superiores hierárquicos", diz o comunicado.

Na quinta-feira, o jornal Folha de S.Paulo revelou mensagens que traziam discussões e queixas que Marcelo vinha fazendo internamente desde que deixou a prisão, em dezembro de 2017, mas que estavam restritas a um grupo pequeno.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o atual presidente da Odebrecht, Ruy Sampaio, disse que a companhia pagou R$ 240 milhões para que Marcelo assinasse a delação premiada.


21 DE DEZEMBRO DE 2019
META PARA JANEIRO

A nova batalha e a estratégia de Leite para aprovar pacote

Piratini avalia iniciar votação pela PEC da Previdência e deverá enfrentar maior resistência no projeto do Estatuto do Magistério

Vencido o primeiro projeto do pacote do funcionalismo, o governador Eduardo Leite passa a trabalhar na estratégia para convencer a base aliada a aprovar as demais matérias que ficaram pendentes de votação. Os deputados retomam as sessões a partir de 28 de janeiro em convocação extraordinária, mas ainda há resistências, sobretudo ao texto que altera o plano de carreira do magistério.

Ciente das dificuldades, a Casa Civil elaborou calendário de votações que reserva quatro dias para a apreciação dos projetos. Nem a sexta-feira, 31 de janeiro, foi poupada. Por conta do temor de atrasos, a posse do novo presidente da Assembleia Legislativa, Ernani Polo (PP), foi adiada da sexta para segunda-feira, 3 de fevereiro.

Na manhã seguinte à aprovação das novas alíquotas de contribuição previdenciária, Leite reuniu em seu gabinete o núcleo duro do governo. Ao lado do vice Ranolfo Vieira Júnior, do procurador- geral, Eduardo Costa, do líder do governo, Frederico Antunes (PP), e dos secretários Leany Lemos (Planejamento), Marco Aurelio Cardoso (Fazenda) e Otomar Vivian (Casa Civil), o governador festejou os 38 votos obtidos e fez projeção otimista para a apreciação do restante do pacote.

Alterações

Na quarta-feira, dois aliados surpreenderam ao não acompanhar orientação do Piratini. Capitão Macedo (PSL) votou contra e Issur Koch (PP) se absteve. Isolado no PSL, Macedo é considerado voto perdido em todo o pacote. Issur se comprometeu a apoiar o restante dos projetos.

Para aparar arestas e evitar novas defecções, a ideia é manter a base mobilizada durante o recesso. Governo e aliados estão montando um grupo de trabalho formado por técnicos do Piratini e assessores parlamentares. A equipe vai discutir mudanças a partir de 7 de janeiro para submetê-las ao governador já na semana seguinte. Os acordos para votação, porém, só serão fechados às vésperas da retomada das sessões.

Nas bancadas, é praticamente unânime o entendimento de que o governo terá de ceder e que as negociações devem ser conduzidas projeto a projeto. O Piratini, por exemplo, já admite modificar o texto que eleva alíquotas previdenciárias dos militares, aplicando os mesmos percentuais impostos aos civis. No total, serão votadas seis matérias que mudam os estatutos das carreiras e as regras de aposentadoria especial, além da proposta de emenda à Constituição (PEC) da Previdência.

Leite avalia abrir a convocação pela PEC. A ideia é iniciar pelo texto mais difícil (exigência de maioria qualificada, 33 votos, e rigidez das medidas impostas ao funcionalismo). A PEC extingue pagamento de gratificações e adicionais por tempo de serviço, veda incorporação de funções gratificadas e eleva idade e tempo de serviço para servidor civil e militar. Junto aos projetos que aumentam as alíquotas, completa a reforma da previdência estadual e tem impacto fiscal de R$ 17 bilhões em 10 anos.

Para o governo, uma vez aprovada a PEC, os demais projetos se tornam mais palatáveis à base, por suavizar algumas medidas. Mas a grande batalha continua sendo a mudança no plano de carreira dos professores. A flexibilização anunciada por Leite, com aumento das faixas salariais, não garantiu apoio para votação tranquila. Nas bancadas aliadas, há quem diga que concluir a aprovação da reforma da previdência já estaria "de bom tamanho", num sinal das dificuldades que o Piratini terá pela frente.

Leite também deve enviar novo projeto para regulamentar a pensão por morte dos servidores. Fruto de emenda do próprio governo, esse tópico foi aprovado na votação de quarta-feira, mas será vetado por ter ficado genérico demais. A nova redação especificará as circunstâncias em que a eventual morte de servidor no trabalho garante pensão vitalícia ao cônjuge, restringindo o direito a quem falecer em decorrência da atividade - policial morto em tiroteio, por exemplo, ante quem sofre infarto na repartição.

FÁBIO SCHAFFNER


21 DE DEZEMBRO DE 2019
INFORME ESPECIAL

Jair Bolsonaro caminha firme para a reeleição

Olhando para os números e para o Brasil, concluo que Jair Bolsonaro caminha firme para a reeleição. Faço a afirmação baseado no cenário atual. Faltam pouco mais de três anos para o começo da campanha e até lá, é claro, muita coisa pode mudar.

Mas em dezembro de 2019, a economia dá sinais de melhora: juros baixos, inflação controlada e uma pequena reação nos índices de emprego, que deve se acentuar nos próximos meses. Não somos diferentes de americanos e europeus. Votamos com o bolso.

Some-se a isso o sucesso da pauta conservadora, tudo temperado com arrasadores surtos verbais. Muitos até se chocam, mas os numerosos seguidores do ex-capitão aplaudem - os que, com o mesmo discurso, o elegeram ano passado. Nesse contexto, dizer que um repórter tem cara de gay, como se isso fosse uma ofensa, não retira um voto sequer do pai do Flávio, do Carlos e do Eduardo.

Cabe ressaltar, sempre pode haver um tsunami. Entre laranjas e rachadinhas, a família Bolsonaro tem seus calcanhares de Aquiles. A dúvida é se as acusações colarão na imagem do presidente.

A favor da reeleição, há ainda uma esquerda enfraquecida e refém de um ex-presidente atolado em condenações por corrupção. E um centro encolhido que não chega nem perto de um projeto de unidade.

Se o emprego reagir e as brisas da economia se transformarem em ventos, ninguém segurará Bolsonaro. Ainda mais se o seu próximo vice for mesmo Sergio Moro, um ministro mais popular que o próprio presidente. É cedo, mas os sinais já estão todos lá, no horizonte de 2022.

Promessa de ano novo

Assumo publicamente um compromisso comigo mesmo e com meus leitores: em 2020, não falarei sobre cães soltos na praia. Cansei de ser chamado de chato e de ser incluído na lista de inimigos da humanidade por defender o que é certo. Quando repeti tantas e tantas vezes que lugar de cachorro não é na areia e nem no mar, só levei bordoadas.

Não adianta argumentar que esse ambiente é prejudicial aos próprios animais, que a urina e as fezes na areia ameaçam a saúde das crianças, que os idosos podem se machucar se um pet mais animado pular neles. Nada disso faz sentido. Fica a falsa impressão de que não gosto de cachorros, o que é mentira, mas tanto faz.

Existe em Porto Alegre uma meia dúzia de fanáticos que alimenta sua fama fazendo listas e difamando pessoas que julgam más, sem direito a defesa, por pensar e agir diferente delas.

Então, a partir de agora, me calo sobre esse tema. Que as areias das praias gaúchas se transformem em um imenso canil. Farei a minha parte, em silêncio. Quero voltar a merecer o reino dos céus.
TULIO MILMAN

21 DE DEZEMBRO DE 2019
RODRIGO CONSTANTINO

Energúmeno ou embusteiro?

Seria Paulo Freire um energúmeno, como acusou Bolsonaro? Ou estaria ele mais para um embusteiro, uma farsa, como acusava o então reitor do prestigiado Colégio São Bento, dom Lourenço de Almeida Prado?

Quando falamos de Freire, uma legião de adoradores fanáticos logo surge para questionar quem somos nós para criticar alguém tão respeitado lá fora. Complexo de vira-lata à parte, e lembrando que há muita porcaria em Harvard também, e que até Lula é Honoris Causa por aí, vale resgatar algumas passagens do próprio, pois a melhor estratégia contra um comunista é deixá-lo falar. "Argumento de autoridade" não é argumento.

Freire não era um educador, mas um militante radical. "O meu ponto de vista é o dos ?condenados da Terra?, o dos excluídos", confessou. Ele lutava contra a "malvadez neoliberal", oferecendo em troca o "sonho" e a "utopia". Era contra a "ética do mercado", e queria transformar cada aluno num "sujeito histórico", "transformador", ou seja, um soldado da causa comunista.

Ele importou para a sala de aula o conceito marxista de luta de classes, enxergando apenas opressor e oprimido em vez de aluno. E todo conhecimento objetivo era descartado como instrumento do lado opressor, burguês. Freire desejava uma escola com partido, o partido da esquerda radical para fazer sua revolução política, inspirada em Fidel e Che.

Era mestre do sofisma e, com passagens enfadonhas e obscuras, simulava uma profundidade inexistente, como a roupa invisível do imperador. Coisas assim: "É preciso que [...] vá ficando cada vez mais claro que, embora diferentes entre si, quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado". E tem coisa pior!

Por trás da fala mansa e da mensagem supostamente abnegada havia muita raiva: "Está errada a educação que não reconhece na justa raiva [...] um papel altamente formador". E ele confessa a origem disso: "Estava sendo, então, um adolescente inseguro, vendo-me como um corpo anguloso e feio, percebendo-me menos capaz do que os outros, fortemente incerto de minhas possibilidades". Era inseguro frente aos "colegas ricos". Dessa insegurança, dessa raiva, desse ressentimento, surgiu a tal "pedagogia do oprimido", a pura ideologia da inveja.


RODRIGO CONSTANTINO