sábado, 20 de junho de 2020



20 DE JUNHO DE 2020
LEANDRO KARNAL

O TRIÂNGULO

Foram duas epidemias no ano em curso. A primeira, trágica, foi de coronavírus. A segunda, sem vítimas, foi a das lives. Não eram só médicos dando opiniões aguardadas sobre doenças ou cantores famosos nos ajudando a superar o confinamento. Todo mundo decidiu falar para o mundo.

O anonimato virou a dor mais aguda do mundo da internet. Disputas de likes e de fãs são fundamentais de uma forma objetiva: transformam-se em dinheiro. O argumento seria objetivo e bom: desejo ser conhecido porque preciso de recursos materiais. Ponto. "Monetizar" as intervenções online talvez seja o novo "concurso do Banco do Brasil". Na minha geração, a instituição pública era um caminho indicado pelas mães de classe média para seus rebentos. Aquelas senhoras que se orgulhavam da aprovação dos filhos no disputado concurso, hoje tornadas avós, comentam que seu neto tem 1 milhão de seguidores.

O ponto subjetivo das lives é mais interessante. Ser conhecido é existir. O anonimato é a morte dolorosa em vida. Novidade? O grego Heróstrato tocou fogo no Templo de Diana, em Éfeso (atual Turquia), unicamente para... ser lembrado pela posteridade. Virou uma doença que atinge criminosos e terroristas, a "síndrome de Heróstrato", mal daqueles que fazem atos violentos com o objetivo de serem conhecidos. Seríamos herdeiros dele? "Quem me cita me excita", como li em uma página da internet. Um novo Eros, uma veleidade, uma forma de tocar a eternidade possível do mundo atual, um ou dois verões no hall da fama.

A fama é tudo, o anonimato, o vazio angustiante. Fala-se de uma dor que acometeria celebridades como membros do programa Big Brother: viram estrelas supernovas no céu e, em poucas semanas, escasseiam convites e o trend topic vira a pergunta "quem é ele"? "Ex-BBB", ainda assim, parece ser um purgatório preferível ao vácuo do anonimato eterno.

As críticas à fama, claro, abundam em quem não a possui. O desdém da raposa pelas uvas inalcançáveis foi alvo de muitas reflexões, de Esopo a La Fontaine. Racionaliza-se a frustração. Sim, nossos ataques falam de nós e de nossas dores. Em inglês usa-se a expressão "sour grapes" para o amargor profundo do cacho não degustado.

Ainda que levemos em conta o demônio de olhos verdes do ciúme e da inveja, o que é a fama? É dinheiro, já vimos. Assim como alguns juízes perdoam o "crime famélico" (a vítima rouba para comer), os gregos poderiam ter ignorado o ato incendiário de Heróstrato, pois ele buscava a mesma perenidade dos que tinham construído o templo que seria uma das sete maravilhas do mundo antigo. Como condenar no terrorista o idêntico impulso do arquiteto? A morte de Lady Di foi atribuída, pelo irmão enlutado, aos tabloides sensacionalistas que não permitiam que a infeliz princesa tivesse vida privada. Ele comentou que era irônico que a mulher que tinha o nome da deusa caçadora (Diana) fosse a mais caçada do mundo de então. O público concordou e ficou horrorizado com a fúria dos paparazzi que lutavam por fotos indiscretas que o mesmo público horrorizado consumia avidamente. Hipnose de dois lados, espelho duplo, comida e fome em um looping. O Templo de Diana foi queimado por um louco por notoriedade e Diana Spencer lutou para chegar à fama e queimou-se porque havia devotos da deusa da caça travestidos de caçadores.

Ganharemos em profundidade percebendo que o site de fofocas precisa de três ângulos para formar a figura equilátera: a entidade pública que busca (com sofreguidão) o néctar da fama; o público faminto que deseja ver para saber e para criticar e, por fim, o repórter/fotógrafo/editor que identifica a dupla necessidade e contata os polos que reclamam. O triângulo do jogo da fama é um polígono estável. Uma constante? Atribuir o mal ao vértice oposto: "Eles não me deixam em paz" complementa "esta gente só quer flashes" e "o público tem direito à informação e eu, ao dinheiro".

A fama nunca incomoda. Claro que sim. Uma vez, em um programa de televisão, Sidney Magal me confessou que não pode mais dormir em um voo. Não importa a duração de viagem, se ele cochilar, virará vídeo no YouTube. Como cantor profissional há décadas fazendo sucesso, Magal precisa de imprensa e de público. Não existe um botão on/off da celebridade. Bruna Lombardi disse, certa feita, que levara seu cachorro ao veterinário. O animal sangrava e ela estava angustiada. Algumas pessoas queriam selfies quando ela entrou no consultório. É difícil equilibrar o triângulo.

Reflito e acho que não tem solução. Cada parte gostaria de enquadrar a outra em algum cercadinho de controle. Todos (celebridade, fã, imprensa) são humanos com carências e necessidades. Circulando entre eles, uvas verdes e maduras. Por um instante, o famoso quer anonimato e paz; o anônimo anela haurir do prestígio com a fama, e o paparazzo quer ganhar dinheiro com ambos. Todos, conhecidos ou obscuros, sofremos de "síndrome de Heróstrato". Tantas coisas a conhecer em nós e lutamos para descobrir a vida alheia. Talvez, como a personagem Kurtz de Coração das Trevas (Joseph Conrad), o horror do mundo distante distraia sua escuridão interna. Em resumo, autoconhecimento ajudaria a raposa, melhoraria a qualidade da uva e, de sobra, tornaria o texto de La Fontaine melhor. Esperança para o inverno que se aproxima.

LEANDRO KARNAL


20 DE JUNHO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

A CRISE E OS SONHOS


Oneirocrítica é o título do célebre tratado grego de interpretação dos sonhos, de Artemidoro de Éfeso (ou Daulis), do século II d.C.. Crítica, aqui, prende-se ao verbo krino, e significa discernir e aplicar critérios, ou seja, interpretar. A obra testemunha uma das culturas mais fascinantes do mundo clássico, a das relações entre história e sonho, em grego, oneiros. Para os antigos, a dimensão dos sonhos era parte do universo em que viviam, porém em contato com o espaço onde atuam as deidades e potências reveladoras. 

Na visão panteísta, o mundo é todo sagrado, está interconectado e é prenhe de sinais que importa identificar e interpretar. Esse aspecto da mentalidade mítica produziu tanto a fortuna de adivinhos, interpretando entranhas de animais, voos de aves e movimentos afins, como uma sensibilidade muito aguçada para todos os sinais do mundo, fundamento de várias ciências, sobretudo a astronomia, a medicina, o direito e a história. E se as atividades mentais são parte do mundo, o que significam os sinais dos sonhos? Eis o que a Oneirocrítica tenta responder.

O tratado de Artemidoro examina tradições gregas, romanas e orientais, certa variedade de autores e muitos casos oníricos, entre os quais o sonho com relações sexuais com a mãe. Segundo o autor, neste caso importa não a ocorrência desse sonho, muito comum, mas em que posições dava-se o sexo, e o que poderiam significar. Seis séculos antes, Sófocles já apontara o assunto, na passagem da tragédia Édipo Tirano em que Jocasta responde ao temor de Édipo, então ainda identificado como filho de outra mulher (Mérope, esposa do rei Pólibo, de Corinto), e diz a ele: "Não temas, pois em sonhos muitos mortais já compartilharam o leito da mãe" (v. 980-1). 

Essa passagem e o fascínio com o livro de Artemidoro foram parte da inspiração de Freud ao escrever A Interpretação dos Sonhos (1899/1900), a obra fundadora da psicanálise. Freud compreendeu que os versos de Sófocles apontavam para outra qualidade dos sonhos, como reveladores de desejos inconscientes, e estes, de traumas típicos da formação da personalidade, desde que saímos do útero materno. Eis o melhor encontro entre mito e literatura clássicos e ciência contemporânea.

A mudança súbita nos ritmos e estilos de vida, a angústia diante de ameaças trágicas, o peso do presente assombrando passado e futuro e a maior disponibilidade de tempo para o sono têm produzido nesta pandemia o fenômeno que está sendo chamado de "sonhos coronavírus": numerosos relatos de maior intensidade nos sonhos e pesadelos. Como isso é parte de um processo de adaptação diante da nova realidade, especialistas, atualizando a lição dos antigos e de Freud, recomendam procurar comunicar com o mundo desperto as visões dos sonhos, rememorando, anotando, conversando com pessoas próximas, ou realizando como arte as imagens desse mundo de fantasia misteriosa.

Em todo o planeta e particularmente no Brasil, muitos encontram despertos algo pior do que pesadelo, e querem logo voltar aos sonhos. Sonhemos e tratemos dos sonhos, pois deles provêm sinais para iluminar os desafios da vida.

FRANCISCO MARSHALL


20 DE JUNHO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

TRANSMISSÃO DO CORONAVÍRUS

Por que algumas pessoas infectam muitos e outras sequer passam o vírus adiante? Da mesma forma que diante das leis, nem todos são iguais na transmissão do coronavírus.

Numa igreja de Washington, dos 61 participantes do coro, 53 foram infectados por um único cantor com sintomas da covid-19. Em Singapura, ocorreu um surto que infectou cerca de 800 trabalhadores migrantes, num dormitório.

Surtos epidêmicos semelhantes foram descritos em shows musicais, frigoríficos, restaurantes, hospitais, prisões e em instituições de longa permanência para idosos, estabelecimentos que contribuíram com mais da metade das mortes nos países europeus e pelo menos 30% das que aconteceram nos Estados Unidos.

Em artigo para a revista Science, Kai Kupferschmidt, analisou as epidemias dos coronavírus causadores da sars e da mers, que também se disseminaram principalmente entre os contatuantes. Entender as circunstâncias em que ocorrem essas infecções em grupo, é crucial para reduzir seu impacto na disseminação do novo coronavírus.

A discussão tem se concentrado no número médio de novas infecções que cada paciente é capaz de causar (R). Sem medidas de isolamento social, o R é aproximadamente igual a 3, isto é, cada pessoa infectada transmite o vírus para mais 3.

O problema é que esse número traduz a média das novas infecções, mas na prática algumas pessoas transmitem mais, enquanto outras simplesmente não o fazem. O virologista Lloyd-Smith, da Universidade da Califórnia, afirma: "O padrão mais consistente é aquele em que o valor de R é igual a zero. A maioria das pessoas não transmite".

Por essa razão, os epidemiologistas calculam o fator de dispersão (índice k), que caracteriza como a doença forma grupos (clusters) de infectados. Quanto mais baixo o k, menor é o número de transmissores do vírus.

Gabriel Leung, da Universidade de Hong Kong, defende que o novo coronavírus provoca uma concentração de "clusters" sugestiva de que um pequeno número de "supertransmissores" seja responsável por grande parte das infecções. Há estimativas de que apenas 10% dos infectados sejam responsáveis por 80% das transmissões. Essa heterogeneidade explicaria porque a doença não se espalhou pelo mundo imediatamente depois dos primeiros casos na China.

Não está clara a razão pela qual os coronavírus formam esses "clusters" de infectados. É possível que esteja ligada não só à concentração viral nas gotículas eliminadas ao falar, tossir ou espirrar, mas à capacidade de formar aerossóis que podem permanecer dispersos no ar o tempo suficiente para provocar infecções múltiplas. Em vários dos "clusters" descritos, as transmissões parecem estar ligadas a esses aerossóis.

Características individuais ajudam a explicar a existência de supertransmissores. Um estudo de 2019, conduzido entre pessoas saudáveis, mostrou que algumas eliminam mais gotículas enquanto falam (provavelmente por falar mais alto), e que cantar libera mais gotículas. O comportamento também influencia, na medida em que a falta de higiene das mãos, lugares fechados e os contatos sociais aumentam a probabilidade de transmissão.

DRAUZIO VARELLA

20 DE JUNHO DE 2020
J.J. CAMARGO

AFETOS DESPERDIÇADOS

Nada nos machuca mais do que o amor reprimido. Ainda por estes dias disse a uma paciente que a tosse devia ser da sua bronquite em conflito com o inverno, que justo agora bateu à porta, quando já havia quem cogitasse que ele nos tivesse esquecido. E que me ligasse se sentisse alguma dificuldade respiratória, ou algum aperto no peito.

Ela ficou quieta um tempo, ajeitou a máscara e anunciou:

- Aperto no peito eu sinto desde o dia 12 de março, quando abracei meus netos e meu velho me levou para Gramado para uma quarentena, que ninguém podia prever quanto duraria. Desde então, a bombinha só me acelera o coração, mas o aperto nunca mais foi embora!

É possível que, ao final deste tempo maluco, descubramos coisas boas que herdamos da amargura. Mas por ora, o que percebemos é o que perdemos, e nada nos machuca mais do que o amor reprimido.

Um amigo querido, com dois filhos pequenos, organizou uma excursão generosa em que os filhotes seriam levados para serem vistos pelos avós que lamentavam a insuportável saudade deles. O encontro foi na frente da casa dos velhinhos, com a cerca metálica impondo a distância regulamentar e contendo a vontade desesperada de abraçar. Depois de uns 15 minutos de um falatório desorganizado que misturava promessas e declarações de amor, o ritual terminou com muitos beijos gesticulados.

No dia seguinte, ele ligou para a casa dos pais. Quando quis saber como estavam, a mãe confidenciou:

- Eu estou bem, meu filho, mas me preocupa teu pai. Desde que vocês foram embora, ontem, ele não parou mais de chorar. E quando lhe perguntei o que ele sentia, ele me disse: "Nenhuma dor. Eu choro de pura tristeza!".

As perdas afetivas, dolorosas em qualquer idade, são multiplicadas na velhice, quando a noção inevitável da proximidade do fim dos tempos elimina a resiliência. E deixa exposto o nervo do tempo perdido, numa fase da vida em que se pode aparentar serenidade, mas no fundo não se tolera desperdício de afeto. De nada serve argumentar que tudo passará e que, se Deus quiser, (e como saber se Ele, quererá?), poderemos compensar esta espera sofrida com abraços redobrados.

A pressa afetiva é uma marca da velhice sensível, e a promessa de resgate do tempo perdido não convence, não numa fase em que cada semestre conta. Porque afeto transferido é amor desperdiçado. Ficou doendo em mim a tristeza do choro daquele avô, que não precisei conhecer para me identificar com seu sofrimento. Com tão boa causa, choraríamos juntos.

J.J. CAMARGO

20 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Para os amantes de cães

Tem um cachorrinho que fica na janela do vizinho. Vejo-o todos os dias, enquanto escrevo, aqui, no remanso do meu isolamento social. É um cachorrinho branco, parecido com o Milu, o cachorro do Tintim.

Hoje a maioria dos leitores não sabe quem é o Tintim. É um personagem da história em quadrinhos do belga Hergé. O Tintim era um repórter que viajava por todo o mundo levando o Milu junto. O Milu era um fox-terrier branco. Ele falava, era cínico e bebia uísque. Um bom cachorro.

Houve polêmica envolvendo as histórias de Tintim, acusadas de racismo. Se olharmos sob a perspectiva atual, são racistas mesmo. Mas quem vai ler precisa compreender que Hergé escreveu sob o ponto de vista belga nos tempos do imperialismo europeu. Se houver essa contextualização, as historinhas de Tintim são ótimas de ler e sorver.

Mas isso não interessa aqui. Aqui o que interessa é o cachorro do meu vizinho, que fica o dia inteiro na janela. O dia inteiro, por Deus. Ele veste uma roupa de cachorro e se debruça no parapeito como se fosse uma pessoa. Passa o tempo todo olhando para a rua com grande interesse. Às vezes, quando outro cachorro caminha lá embaixo, na calçada, ele se projeta um pouco mais, bota meio corpo para fora e late, muito brabo.

Isso é uma coisa que os cachorros têm. Se um cachorro está passando na rua com o seu dono humano e vê outro atrás de uma cerca, ele se põe a latir furiosamente. O outro, por sua vez, late de volta com mais raiva. E, se há mais cachorros nas imediações, todos latem de um jeito belicoso, aqueles cachorros estão se desafiando, estão discutindo como se estivessem na Câmara dos Deputados.

Não entendo isso do mundo canino. Os cães não deveriam ser amigos? Não há solidariedade entre a espécie? Porque, se um ser humano passa, eles não ligam, mas se tem um cachorro junto, pronto: é a maior confusão, todo mundo latindo e brigando. Francamente.

Pois esse cachorrinho na janela faz isso. Ele não é grande, mas não se intimida com pastores-alemães ou dobermanns. Ele late mesmo.

Aqueles latidos me irritam. Estou escrevendo, ouço os latidos, paro tudo e olho pela janela. Às vezes levanto e vou até o parapeito, para conferir quem ou o que está na calçada. O cachorro me desconcentra. Pior: ainda que ele não faça barulho, me acostumei a olhá-lo. Tornou-se um hábito. Vejo-o quieto do outro lado e me intrigo: por que esse cachorro está tão quieto?

Assim foram-se as semanas e os meses de isolamento. Eu escrevendo aqui e o cachorro na janela ali. Mas, um dia, a janela do cachorrinho amanheceu fechada. Achei estranho. Calculei: vai ver dormiram até mais tarde e vão abri-la perto das 10h. Mas as 10h chegaram, as 10h passaram e a janela não se abriu. Estávamos já perto do meio-dia, e nada de a janela se abrir. Ué? Será que aconteceu alguma coisa?

Durante toda a tarde eu escrevia um pouco, parava e olhava para fora, para ver se o cachorrinho estava do outro lado da rua. Que nada. Foi-se o dia, chegou a noite, e a janela permaneceu fechada.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que pensei ao acordar foi: será que aquele cachorro chato vai estar na janela? Foi com alguma ansiedade que caminhei até a minha mesa, espiei para fora e... ele não estava. A janela do vizinho continuava fechada e o bairro continuava em silêncio.

Passei todo o dia com a sensação estranha de que algo estava faltando. À noite, cheguei à conclusão óbvia: eu não apenas me acostumara com o cachorrinho na janela, como gostava dele! Mas, que droga, e agora ele se foi. Será que morreu? Será que se mudou? Será que caiu da janela?

No terceiro dia, ao deparar com a janela mais uma vez fechada, suspirei de tristeza. Cheguei a pensar em ir até o prédio do vizinho, bater na porta do apartamento e perguntar o que tinha acontecido, mas me contive. Melhor não se meter com os cachorros alheios.

Paciência. Suspirei de novo, resignado. Peguei meu café e de ombros baixos, liguei o computador, para escrever minha crônica. Mas não tinha ideias. Deu-me um branco. Pensando no cachorro, não conseguia me concentrar. Bebi o resto do café. Ia me erguer para buscar outra xícara, quando... ele latiu! Corri para a janela e o vi no prédio do outro lado da rua, debruçado no parapeito, dentro de sua roupinha, latindo ardorosamente para um guaipeca que vagabundeava perto de um saco de lixo. Sorri. Fiquei feliz. Sentei-me para escrever, revigorado. E, embora estivesse sozinho, falei bem alto, como em comemoração:

- Late, cachorrinho! Late!

DAVID COIMBRA


20 DE JUNHO DE 2020

ARTIGOS


Novo normal, novos gestos


As estruturas sociais que nos mantêm funcionando como sociedade são mantidas por muitas normas não escritas de cordialidade e boa convivência. Uma das normas mais comuns é o aperto de mãos, tradicionalmente realizado com a mão direita. O gesto se originou na Grécia antiga como um gesto de paz para mostrar que a mão dominante estava desarmada. Os romanos aperfeiçoaram o gesto movimentando os braços para cima e para baixo para se certificar de que não existiam armas guardadas nas mangas. Este gesto sobrevive até hoje, apesar de pouquíssimos de nós corrermos perigo de sermos atacados pelas pessoas que cumprimentamos.

Ao longo da História, esse gesto salvou milhares de vidas, não por ter evitado ataques diretos de pessoas armadas, mas pela coesão social que gerou e que em muito ultrapassou o motivo pelo qual ele foi inicialmente planejado.

A atual pandemia está trazendo novas normas sociais - apertar a mão já não é mais sinal de respeito e foi substituída por um tocar de cotovelos. Já tossir sem botar o braço na frente é visto como uma agressão, quase comparável a puxar uma arma. No entanto, o gesto que mais representa esta pandemia é a ação de usar máscara, pois ela protege mais a outra pessoa do que a nós mesmos, por ser eficiente em reduzir a liberação de gotículas da nossa respiração que podem conter o vírus infectante.

Assim como o aperto de mãos, que deixou de ser um método para indicar se a outra pessoa está armada e passou a ser um símbolo de coesão social, o uso de máscara, mais do que filtrar nossas gotículas, é um símbolo de que nós nos importamos com o próximo e faremos o pequeno sacrifício de usar uma máscara para evitar que outros sejam infectados. Com isto estamos também contribuindo para gerar uma nova norma de coesão social que salvará muitas vidas pelo efeito direto, mas principalmente pelo efeito indireto de indicar que por trás da máscara, mesmo que encoberto, está um sorriso de alguém que se importa com o próximo e que quer lutar por uma sociedade melhor, para o bem de todos.


GUIDO LENZ, PROFESSOR, PESQUISADOR E DIRETOR DO CENTRO DE BIOTECNOLOGIA DA UFRGS

20 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

Novo rumo na educação

Abraham Weintraub não vai deixar nenhuma saudade de sua passagem pelo Ministério da Educação, ao menos para aqueles que verdadeiramente se preocupam com o ensino no Brasil. Mas, independentemente de quem fique à testa do MEC a partir de agora, será preciso uma guinada que faça a pasta retomar o foco para a sua função precípua de formular políticas de aprendizagem para dezenas de milhões de crianças e jovens, deixando de lado polêmicas inúteis.

Os últimos 18 meses, primeiro com Ricardo Vélez Rodríguez e depois com Weintraub, foram um tempo precioso desperdiçado com controvérsias dispensáveis em torno de questões superficiais, confrontos estéreis e discussões ideo- lógicas por meio de redes sociais, enquanto o mais relevante, a urgência em melhorar a qualidade da educação no país, foi ficando à deriva.

Não há milagre capaz de levar o Brasil a um outro patamar de desenvolvimento. Os degraus do progresso, como mostram os exemplos de todas as nações que lograram melhores condições de vida para sua população, foram escalados pela via da educação. O drama nacional é que pequenas correções de rumo não são suficientes, como atestam as avaliações internacionais em que o desempenho dos alunos brasileiros é comparado com o de estudantes de outros países. Enquanto o Brasil fica estagnado, os demais, principalmente os pares emergentes, avançam celeremente, o que no fim significa uma mão de obra mais produtiva em todas as áreas e uma economia mais competitiva e forte, capaz de uma inserção altiva na era do conhecimento, sem apenas ir a reboque da ciência e do conhecimento alheios.

O desastre da educação brasileira, é preciso admitir, não começou no atual governo. Mas se agravou, piorando o que já era deficiente, pelo absoluto desperdício de energia em temas secundários. O imenso atraso do Brasil, agora, exige uma revolução que plante as sementes de um amanhã mais promissor. A pasta da Educação, na verdade, é um ministério do futuro, que infelizmente ficou mais distante com a atual inépcia que domina o MEC. Mas sempre há tempo de reencontrar o rumo.

A questão, de qualquer forma, vai muito além da figura de um ministro. Todo cidadão, com ou sem filho na escola, deve se engajar de corpo e alma na batalha para a educação se transformar de fato em uma prioridade. E não se trata apenas de direcionamento de mais recursos, mas de uso adequado dos orçamentos, criatividade e vontade de mudança. Os ganhos, ao longo dos anos, se multiplicam, materializando- se em um desenvolvimento mais robusto, duradouro e, principalmente, inclusivo. Como está o ensino em todos os níveis e esferas, o verdadeiro progresso continuará sempre uma quimera no Brasil.

20 DE JUNHO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

O mito do jornalista imparcial

Uma reportagem deveria sempre buscar a imparcialidade, relatar os fatos com a maior objetividade possível, e escutar os diferentes lados sobre a questão. Isso, no mundo ideal. Na realidade, o viés ideológico já começa na escolha das pautas, depois é estampado na manchete, no tom dado à matéria, na seleção dos "especialistas" que vão comentar o caso etc. E isso vale para reportagens.

Quando o assunto é comentarista de opinião, o background fala ainda mais alto, pois todos nós temos uma visão de mundo. O mais transparente, nesse caso, seria o leitor conhecer essa visão, saber de onde o comentarista parte para fazer suas análises, sem a pretensão de que se trata de alguém totalmente desprovido de preconceitos, voltado estritamente para uma análise fria sem qualquer preferência.

O que escrevo é bastante óbvio para o público, mas curiosamente um tabu para os jornalistas. Entendo. Aquele ideal descrito acima é uma imagem bela de se preservar. Mas, quando fica cada vez mais evidente para o público a distância entre meta e resultado, a consequência é a perda de credibilidade do veículo. A patota não se dá conta disso e depois culpa o público pela queda de audiência.

Debatia com um colega na última semana sobre o caso Queiroz e ele, irritado e mesmo ofendido, rebateu que não era esquerdista quando apontei seu viés, mas sim um jornalista. Ora, e por acaso uma coisa impede a outra? E jornalistas não são seres humanos com suas visões políticas, suas ideologias até? A obsessão do colega em atacar sempre Bolsonaro e jamais conseguir elogiá-lo trai o viés que ele nega.

Outra jornalista, famosa, chegou a comparar o ex-ministro Weintraub, no dia de sua saída, a um vírus, considerando-o pior! Isso em época de pandemia, que já tirou a vida de mais de 40 mil brasileiros. E olha que ela é da turma do "fiquem em casa" e da quarentena gourmet. Mas parece que a paixão domina a objetividade na hora de comentar a queda do ministro.

Todo mundo é livre para ser de esquerda, por mais que eu julgue isso um equívoco. Mas pega mal quando o esquerdista militante se passa por jornalista imparcial. O leitor percebe...

RODRIGO CONSTANTINO

20 DE JUNHO DE 2020
INFORME ESPECIAL

O vírus sacudiu a burocracia

Centenas, se não milhares, de regras e leis inúteis foram varridas pela pandemia no Brasil. Melhor que não fosse desse jeito, mas que bom que aconteceu. De licenças para fabricar produtos a carimbos estapafúrdios, a burocracia bateu de frente com a sua própria imobilidade, muitas vezes a serviço de interesses privados e da reserva de mercado a poderosos e privilegiados.

Tomara que, nesse aspecto, o normal de antes fique para sempre no passado. Acelerar processos e criar ambientes simples e seguros para empreender e viver deveriam ser dois dos focos mais relevantes da atuação do Estado - o que, muitas vezes, seria a não atuação em nome do bem comum.

Uso exemplos atuais para ilustrar essa análise. Até bem pouco, pensávamos que respiradores só podiam ser caros. Bastou a necessidade urgente bater às nossas portas para que centenas de universidades, empresas e empreendedores encontrassem maneiras mais baratas e simples de salvar vidas, mantendo o rigor técnico, mas sem que um cipoal até então insuperável de normas absolutamente desnecessárias atrapalhasse. Vale o mesmo para a fabricação de alguns tipos de máscaras, antes condicionada a rigores inexplicáveis. Conciliar velocidade e segurança é o grande desafio do presente e do futuro.

Essa é uma das boas lições da pandemia.

Do bem



Quatorze respiradores foram doados pelo Instituto Cultural Floresta e pelo Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre para os hospitais Divina Providência e Ernesto Dornelles. O sindicato também forneceu 250 kits de higienização e EPIs para residenciais geriátricos. Desde abril, o Instituto investiu mais de R$ 15 milhões no combate à pandemia.

A Cruz Vermelha RS vai redirecionar medicamentos produzidos pelo Grupo RB - Naldecon e Strepsils - para comunidades, associações e postos de saúde. Doando mais de 484 mil produtos no Brasil, a empresa investiu mais de R$ 12 milhões no combate à covid-19.

Pelo menos 415 trabalhadores do setor da cultura começaram nesta semana a receber cestas básicas da Defesa Civil do Estado, que faz entregas na Capital e no Interior. A ação "Ventos de Solidariedade na Travessa dos Cataventos" segue arrecadando alimentos não perecíveis e produtos de higiene e limpeza na Casa de Cultura Mario Quintana.

Estão sendo distribuídas 42 mil máscaras pela rede CR Diementz em hospitais e unidades de saúde públicas nas 65 cidades onde tem lojas no RS e em SC.

Desde o início de maio, a empresa ZON Design, de Porto Alegre, está dando espaço nas suas redes sociais para que entidades assistenciais divulguem seus contatos e peçam as doações de que precisam. Para ajudar: @zondesignpoa no Instagram.

Para amparar instituições que resgatam cães e gatos abandonados em Porto Alegre e na Região Metropolitana, a seguradora Sabemi está fazendo uma campanha. Quem quiser contribuir pode acessar o site www.gelb.vc e financiar kits de ração que variam entre R$ 12 e R$ 44. Os voluntários da empresa serão os responsáveis por fazer a entrega das doações.

TULIO MILMAN

sábado, 13 de junho de 2020



13 DE JUNHO DE 2020
LYA LUFT

Estes estranhos tempos

Sim, estes são tempos estranhos. Esquisitos, bizarros, tristes, assustadores... desafiadores.

Exigem muito de nós. De alguns, exigem o máximo. E, de um jeito ou outro, nos tiram muita coisa. De alguns, tiram quase tudo. Há quem tenha perdido emprego, aulas, dinheiro, segurança, confiança, sonhos e futuro. Pior, há os que perderam a saúde, com grande sofrimento.

Pior ainda, há quem perca pessoas queridas levadas por esse mal ainda imbatível. O causador de tantos males é uma criaturinha minúscula, invisível, maligna e destruidora chamada vírus, com esse sobrenome até bonito: "corona".

E nos mostra, como um tsunami de confusões, contradições, medos e disputas, como um vento sinistro que deixa curvada toda uma humanidade, o quanto somos vulneráveis.

Todas as riquezas do mundo não resolvem o mal universal que nos assola. Podem, sim, financiar pesquisas dos melhores cientistas do mundo, que se empenham desesperadamente nelas. Precisamos conhecer esse inimigo mínimo e imenso, invisível e destruidor, temido como um deus do mal.

Estes são tempos de parar para pensar: difícil, eu sei. O que ando fazendo da minha vida, do meu dinheiro ou da minha necessidade, dos meus amores ou rancores, como estou construindo minha existência ou destruindo o que eu toco?

Estes são, para mim pessoalmente, tempos de impaciência: quero de volta a minha vidinha cotidiana, para receber família e amigos, para nossos almoços habituais, quero sair com alguma amiga, viajar com meu marido, ou simplesmente ficar em casa sem sentir os gemidos de um mundo subitamente atormentado.

Estes são tempos de cifras dolorosas, mortes inacreditáveis e isolamento esquisito: semanas, meses já, muitos de nós fechados em suas casas, curtindo o conforto de seus lares, ou sofrendo horas de conflito e mágoa, agora que temos de estar juntos mesmo que a gente não se suporte.

Estes são dias de angústia e de esperança, de luzes no horizonte ou treva no túnel, notícias felizes ou adiamentos desanimados.

O que fazer em tempos de pandemia, dessa peste moderna?

Talvez o melhor seja cerrar os dentes e fechar as mãos, abrir bem os olhos, e os ouvidos, pois a verdade ajuda mais do que as ilusões.

Mascarados sem fingimento e alcoolizados sem prazer, enfrentamos o não saber cotidiano, de preferência com o coração aberto e o ânimo, seja como for, ainda firme. Até porque não temos outra saída a não ser um discreto, anônimo, surpreendente heroísmo que não sabíamos existir.

LYA LUFT



13 DE JUNHO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

As fake news do amor

"Quando existe amor, a relação se torna fácil.". Nunca, jamé. É sempre um desafio, mesmo entre pessoas experientes e bem resolvidas. A maturidade ajuda, é verdade, mas supor que exista uma relação em que um não queira esganar o outro de vez em quando é acreditar muito em conto de fadas. Aliás, os contos de fadas só mostram o idílio pré-nupcial, nunca revelam as discordâncias, as concessões e a exaustão daquela parte chamada "felizes para sempre".

"Para sempre?"

Aos que conseguem se divertir e evoluir juntos por 40 anos, por 50 anos ou mais, meu respeito e minha admiração, mas a persistência pode ter motivos menos nobres, como preguiça, medo, preservação de patrimônio, manutenção do status social. "Duração" não é um valor em si. Quando temos coragem de encerrar um ciclo e nos abrimos para novos começos é que podemos de fato ir mais longe. Dois, três, quatro grandes amores durante a vida? Frivolidade nenhuma. Bendita oportunidade de expandir nosso autoconhecimento.

"Só relações sérias e firmes é que importam."

Todas as relações que nos emocionam de alguma forma e que aprimoram a arte da convivência amorosa são "sérias", incluindo as breves, soltas, leves, que não fazem a gente sentir que está arrastando uma bola de chumbo acorrentada aos pés.

"É num relacionamento que encontramos palavras de incentivo e carinho."

E é também onde somos mais atacados e criticados - intimidade demais dá nisso: bullying conjugal. O amor é para os fortes.

"O melhor de uma relação amorosa: sexo à vontade, quando quiser."

Você deve ser jovem, aproveite. Eu, que também já fui meio tarada, ultimamente ando a fim de lançar a campanha "Conchinha é o novo sexo". Meu namorado discorda 100%.

"É impossível ser feliz sozinho."

João Gilberto era um gênio, mas este romantismo às vezes confunde as pessoas. Muita gente ainda acredita que é preciso formar um casal a qualquer custo. Fundamental é mesmo o amor? Sim, mas só nos casos em que o amor é melhor do que a nossa solidão. Se não for, não é preciso se conformar com qualquer coisa.

"O amor é o lugar em que você pode ser absolutamente sincero."

Aconselhar, pedir, chorar, se abrir? Pode. Confidenciar seus traumas infantis? Que fofo. Pode. Dar uma opinião franca sobre os parentes um do outro, meter a colher sobre a educação dos enteados? Não pire. Narrar as fantasias eróticas que costuma ter com o garçom da churrascaria? Se você é do tipo que produz provas contra si mesmo, vá em frente. Falar tudo, tudo, tudo o que você pensa sobre sua alma gêmea, a fim de demonstrar a ela sua atenção plena? Acredite: ela prefere sua desatenção prudente e educada.

Um brinde ao fascinante amor de verdade, que não é menos amor, é apenas um amor mais generoso e eficaz. E alma gêmea não existe, também é boato.

MARTHA MEDEIROS


13 DE JUNHO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Da minha janela, um texto da Negra Jaque

Hoje quem escreve a coluna é a Negra Jaque, artista, mãe e mulher atuante na comunidade do Morro da Cruz e nas questões negras. Na voz dela a gente ouve outras milhões de vozes pretas que não podem mais ficar caladas. Não se sabe que mundo vai sobrar depois da pandemia. Mas é certo que, enquanto houver racismo, desrespeito e preconceito, ele nunca vai ser um lugar melhor. Boa leitura.

"Salve, gente! Inicio este texto saudando a todos do mesmo modo como sou acolhida na terreira, com amorosidade, afeto e vibrações positivas. Os corações estão gelados como se o mundo estivesse enfrentando uma pneumonia. O processo de isolamento apresenta duas opções de comportamento: uma de cura e outra de entrega. Uma balança de valores e de caráter.

Nossa humanidade tem sido colocada à prova cotidianamente. O nosso posicionamento, ou a falta dele, diz muito sobre nós. Neste momento, a mulher negra, periférica e artista que habita neste corpo presente, que há 32 anos combate o sistema cultural-político-econômico chamado racismo, se levanta como sempre.

Os recursos estão escassos. Estamos passando por um período que chamo de "farinha pouca, meu pirão primeiro". Obviamente, o impacto ocorre nas grandes periferias, ou seja, na população preta deste país. O levante da luta antirracista é uma ação imediata e uma discussão que não cabe mais embaixo do tapete.

Há muito tempo, sabemos que essas balas perdidas têm destino certo. Que a violência doméstica contra as mulheres tem cor e outras tantas atrocidades que ocorrem desde o sequestro do povo do continente africano. Já fizemos isso em outros momentos, e esses levantes irão acontecer quantas vezes forem necessários! É o nosso corpo esteticamente presente, nossa produção acadêmica, nossa arte, nosso grito.

A médio prazo, devemos levar a pauta racista para dentro de nossas casas, pois ela é cotidiana. As hashtags não irão trazer respostas instantâneas. É sobre privilégios e reparação. Não é sobre quem faz cinco refeições, é sobre quem não come. É sobre quem é sempre silenciado, é sobre quem trabalha muito e passa a vida sem poder usufruir nada.

Não temos tempo para dar tempo.

Se toda crise gera uma oportunidade de mudança, que ela se faça então de forma positiva e humana. Sou professora, adepta da pedagogia da esperança e acredito em uma mudança na educação. Temos provas de que através dela conseguiremos mudar muita coisa. Ações coletivas educacionais que discutam sobre o passado e criem alternativas positivas para o presente e futuro como a Nação HipHop Brasil, que há quase 15 anos faz um trabalho de rede nacional através do hip hop dentro das periferias. Ou ainda o projeto Quilombonja, que traz para crianças e jovens reconhecimento sobre o lugar e seu papel individual na mudança do mundo. Wakanda Streamers, projeto ligado à tecnologia e todo esse mundo dos streamers através de uma rede de comunicação que envolve gamers, artistas da música, design e outras tecnologias.

Existem ações que há muito tempo desenvolvem uma filosofia antirracista, real, de base e orgânicas. É importante ampliar a voz de ações como essas, uma oportunidade de escuta, respeito e estudo sobre lugar de fala. A Djamila Ribeiro vive falando sobre tudo isso. Promover integração e não a polaridade de posicionamento.

Não é sobre Brow e Emicida, é sobre onde precisamos chegar.

CLAUDIA TAJES


13 DE JUNHO DE 2020
LEANDRO KARNAL

OS DEMÔNIOS DE ANTIGAMENTE

A vida corria tranquila na pequena Loudun, no interior da França. A orgulhosa torre (Tour Carrée) da cidade já era velha de meio milênio quando os Bourbons assumiram a coroa. O cotidiano modorrento seria abalado por vários acontecimentos extraordinários.

Alguns anos antes dos fatos que descreveremos, foi nomeado um padre para a paróquia de São Pedro e com um cargo na vizinha igreja da Santa Cruz. Urbain Grandier era dotado de boa cultura, aparência agradável e um incontrolável impulso de seduzir mulheres. Suas boas relações políticas o livraram de algumas acusações graves de assédio às paroquianas.

O caldo começou a ficar mais denso: a região foi atacada por uma peste (1632) e crescia a tensão entre protestantes e católicos em torno de questões se a cidade deveria ou não manter seus muros, cuja demolição já tinha sido ordenada pelo cardeal Richelieu. Vamos acrescentar uma outra personagem: Joana de Belcier, descendente de uma pequena nobreza provinciana, dotada de um leve defeito físico na postura. Após fracassar em um convento beneditino, acabou integrando a ordem das irmãs ursulinas, em Loudon.

O lugar passa a viver estranhos acontecimentos sob a liderança de Joana, agora com o nome religioso de Joana dos Anjos. Tudo começou com a visão do fantasma do antigo confessor das religiosas. Depois, as freiras apresentaram ataques histéricos, gritavam palavras obscenas para um público escandalizado. As convulsões se multiplicavam, vozes estranhas saíam das gargantas das religiosas. O caso lembrava o precedente em Aix-en-Provence onde, igualmente, freiras ursulinas tinham sido infectadas por espíritos malignos, em 1611. Quase toda a Europa (protestante, inclusive) vivia um surto de "caça às bruxas", e a crença na existência real do demônio e sua ação maléfica unia intelectuais, reis e a população em geral.

Joana dos Anjos acusou formalmente o padre Grandier de ser o causador de todos os distúrbios no convento. O clérigo tinha um bom número de inimigos e tinha se pronunciado contra a decisão do cardeal-ministro de demolir os muros da cidade, aumentando o coro dos descontentes contra o Don Juan clerical. O espetáculo da possessão coletiva das freiras era, agora, um tema nacional. Diante de autoridades e interrogadores, as freiras rolavam no chão e gritavam blasfêmias.

Urbain Grandier foi preso e julgado. Apareceu um pacto diabólico, um documento concreto assinado por vários demônios e conservado até hoje nos arquivos franceses. Os crimes, claro, foram todos comprovados. No dia 18 de agosto de 1634, com uma multidão que excedia a população local, o fogo foi aceso em frente à igreja da Santa Cruz. O clérigo foi muito torturado e, como era esperado, encontraram-se pontos insensíveis à dor e ao sangramento no seu corpo, outro sinal evidente de que tinha selado um acordo com o Inferno. O agente de Satanás convertera-se em carne carbonizada. Restava a possessão do convento.

As freiras foram exorcizadas diversas vezes. O problema era a grande quantidade de demônios. Expulsava-se um e surgiam vários outros que diziam seus nomes e permaneciam no corpo das aflitas. Houve rivalidade entre as ordens. Os capuchinhos foram substituídos por jesuítas na luta contra as legiões. O exorcismo envolvia opiniões do cardeal Richelieu, dos juízes locais e do bispo. Lutava-se pelas almas das ursulinas, lutava-se contra a ação dos seres infernais e, acima de tudo, pelo triunfo do poder monárquico e católico sobre a região. O caso é tão envolvente que a própria Joana dos Anjos é levada à presença do rei Luís XIII e da rainha Ana de Áustria.

Um erudito e místico jesuíta, Jean-Joseph Surin, foi trazido para participar do esforço de exorcismos. Conseguiu expulsar ainda mais demônios, porém entrou em crise depressiva e descreveu que os demônios retirados do corpo das freiras vinham para o seu. O religioso desenvolveu tendências suicidas e descreveu como sentia uma entidade dentro dele. Em janeiro de 1665, morreu Joana. Seus anos finais foram marcados pela obsessão de virar santa. Imersa em afasia e penitências, marcada por estigmas pelo corpo, a popular freira do século 17 faleceu de complicações respiratórias. A 22 de abril do mesmo ano, o padre Surin também fechava os olhos definitivamente. Ele havia trocado uma forte correspondência com a exorcizada.

O caso de Loudon foi descrito como histeria coletiva, jogo político, esquizofrenia e fruto da "demonomania" moderna. Após o escândalo, os juízes passaram a acreditar menos em possessões demoníacas, como defendeu Robert Mandrou no controverso livro Magistrados e Feiticeiros na França do Século 17 (ed. Perspectiva). O jesuíta Michel de Certeau escreveu uma análise clássica: La Possession de Loudun, ainda sem versão em português. De Certeau também explorou a escrita mística do padre Surin, seu colega de ordem. Freud interessou-se pelas narrativas em texto de 1923. Aldous Huxley publicou o romance Os Demônios de Loudun, em 1952. O livro inspirou uma ópera de Krzysztof Penderecki. Jerzy Kawalerowicz fez um filme: Madre Joana dos Anjos. O inglês Ken Russell dirigiu Vanessa Redgrave e Oliver Reed tratando do episódio. A possessão inspirou o intelecto e as artes.

E os demônios? Ainda brilhariam em Salem, no fim do século 17. Depois iriam perder lugar para outras atrações. A histeria coletiva? Essa sobreviveu e ainda assombra governantes e juízes. Ah, se madre Joana dos Anjos tivesse internet... É preciso manter a esperança... e a sanidade.

LEANDRO KARNAL



13 DE JUNHO DE 2020
COM A PALAVRA

"VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO"

Foram os 25 anos como professor que levaram o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé a produzir um livro no qual defende a ideia de que estamos em uma "era da ansiedade". O contato com os jovens (e com os pais deles) reforçou progressivamente a impressão de que gerações atuais vivem problemas cada vez mais acentuados como narcisismo, solidão e uma sensação crescente de incompletude, em um cenário que culmina com esse mal contra o qual, como ele próprio diz, "não há solução".

Coordenador do curso de Comunicação Social da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), autor de mais de uma dezena de obras sobre filosofia, amor, felicidade e ressentimento, entre outros temas, ele trabalhou no texto de Você É Ansioso? Reflexões Contra o Medo desde antes da pandemia do coronavírus. Aproveitou a quarentena - que potencializa a ansiedade - para finalizar o livro. E reforçar a reflexão diante do "desafio extra" representado pelo isolamento social. A seguir, analisa a midiatização da covid-19, lembra de quando era estudante de Medicina, critica os profissionais de coaching e pondera sobre realização pessoal e a obsessão das pessoas pela felicidade - um ponto fundamental, defende, para entender a era atual.

O SENHOR ASSOCIA A ANSIEDADE À DIFICULDADE DE ENCONTRAR SENTIDO PARA A VIDA DAÍ A CITAÇÃO INICIAL AO CLÁSSICO LITERÁRIO O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO, ÍCONE DE UM NIILISMO CONTEMPORÂNEO QUE PERPASSA VÁRIAS GERAÇÕES NAS ÚLTIMAS DÉCADAS. O QUE TEM FEITO ESSAS GERAÇÕES NÃO ENCONTRAREM SENTIDO PARA A VIDA?

A humanidade pensa sobre isso há muito tempo, mas de fato os estudos se fortaleceram no século 19 com obras como as de Kierkegaard, Schopenhauer e Nietzsche. Esses filósofos e outros posteriores - o que inclui Bauman - direcionam seu pensamento para a sensação de que o mundo voltado só para a produção e para a eficácia não satisfaz o ser humano. Um dos fatores que reforçam essa sensação é o de que as pessoas se sentem pressionadas pelo sucesso, o que gera a ansiedade. Quanto mais veloz e exigente o mundo vai ficando, mais ele te cobra, deixando claro que, se você não for produtivo o tempo todo, vai ficar obsoleto. Isso já está acontecendo há algum tempo. Do ponto de vista histórico, a ansiedade contemporânea seria fruto de uma ruptura com um momento em que as coisas estavam no seu devido lugar e, devido à aceleração da vida, as pessoas começaram a ser forçadas a fazer movimentos, sempre mais e cada vez mais enlouquecidos, levando-as, no fim das contas, para lugar nenhum.

TRAUMAS COLETIVOS COMO UMA PANDEMIA NÃO AJUDAM A ENCONTRAR O SENTIDO EVENTUALMENTE PERDIDO?

Não escrevi Você É Ansioso? na pandemia ou sobre a pandemia, quero deixar claro. Eu já vinha trabalhando nele desde antes. Acertei com a editora que produziria um livro sobre ansiedade no ano passado. Apenas finalizei o texto no isolamento, mais rapidamente do que estava previsto, inclusive, mas quero ressaltar que a questão da ansiedade é anterior. A quarentena potencializa essa sensação, traz um cenário propício para acentuar o problema, mas não cria um cenário novo, não. Agora, tem o seguinte. Não sei se estamos diante de um trauma coletivo tão grande. Por mais que a pandemia esteja o tempo todo no noticiário e nos afete, sua mortalidade não é alta. A gripe espanhola (1918-1920) e a grande peste da Idade Média (1346-1353) ceifaram muito mais vidas. O que o coronavírus tem é uma mídia muito grande. É a pandemia mais famosa da história da humanidade, isso sim. Poderia ganhar um Oscar de protagonista entre as pandemias que a humanidade já viu.

O FATO DE SE FALAR MAIS SOBRE O PROBLEMA NÃO POTENCIALIZA O IMPACTO DESSE PROBLEMA?

Acho que se trata de um trauma, sim. Mas a tendência da espécie é superar esse tipo de coisa rapidamente. Imagina quantos de nós já pararam para ficar pensando sobre a gripe espanhola, sobre as vidas ceifadas por ela. Antes de chegar o coronavírus, ninguém dava mais bola para a gripe espanhola, e isso há décadas, há gerações. Pouco depois daquele trauma, o povo já estava vivendo loucamente sem maiores preocupações sanitárias. Os anos 1920 foram loucos, inclusive, the crazy twenties, como se diz. Se olharmos historicamente, fica comprovado que as grandes epidemias têm impacto na gestão pública, no campo econômico, na organização da força de trabalho, na ciência e tecnologia. Do ponto de vista moral, elas não nos mudaram em nada. Se quisermos encontrar alguma mudança nesse sentido, será negativa: as pessoas ficaram mais desconfiadas, egoístas e agressivas. E as relações profissionais, mais exploratórias. É, inclusive, o que acho que vai acontecer agora: os ricos ficarão mais ricos, os pobres, mais pobres, e a classe média, mais pobre. O que vamos mudar dentro de nós pode ser consequência disso.

HÁ QUEM ACREDITE QUE PODEREMOS FICAR MENOS INDIVIDUALISTAS. O SENHOR NÃO CONCORDA, PELO JEITO.

Não mesmo. Já andei lendo por aí. Tem um povo "chiquinho", metido a inteligente, que está dizendo que a humanidade vai sair dando valor ao que é essencial. Pelo amor de Deus. Como é que alguém inteligente pode cair nessa? Não há dado histórico que embase esse tipo de raciocínio. Pode acontecer um milagre, aí sim. A pandemia de fato está tendo impacto, mas na política, na economia, no trabalho. Você fica muito tempo trancado em casa, de repente não sabe mais se vai continuar tendo emprego, descobre que não conhecia tão bem a pessoa que vive com você, o convívio com filhos pequenos vira um tormento. A vida pode colapsar, sim. Há todo um ecossistema, para usar um termo da moda, que é impactado. Mas acho que nosso aprendizado com isso virá em campos como o da tecnologia, que vai evoluir pressionada pela falta de respostas imediatas na saúde, por exemplo. Moralmente? Não há indicativo de que vamos aprender coisa alguma.

NO SEU LIVRO, HÁ UMA LONGA LISTA, QUE INCLUI MAIS ACESSO À INFORMAÇÃO, MAIOR LONGEVIDADE, MELHOR MEDICINA, TUDO NOS AJUDANDO A EVOLUIR, PORÉM, INDICANDO O QUANTO AINDA HÁ DE INCOMPLETUDE NA VIDA. É UM PARADOXO, QUE ESTÁ PRESENTE HÁ MUITO TEMPO NO PENSAMENTO OCIDENTAL FREUD, CITADO PELO SENHOR, ESCREVEU QUE, QUANTO MAIS CONHECIMENTO, MAIOR PODE SER A PARANOIA. O QUE FAZ A ERA ATUAL DIFERENTE?

Olha, é difícil comparar nossa ansiedade atual com a de uma pessoa indo para Auschwitz. Por isso inclusive faço um reparo metodológico no início do livro. Uso a expressão "era da ansiedade", mas deixando claro que há essa impossibilidade de comparação com outras eras. Baseio-me em coisas concretas para falar do tempo presente: há muita solidão entre os idosos, consumo acentuado de medicamentos por parte de jovens, entre outros fatores que levam a constatar que há uma situação psicológica precária da população. E a pressão do sucesso está ligada a isso. O sucesso parece que nunca é suficiente; quanto mais sucesso, mais vontade de sucesso. A eficácia parece obrigar a ser ainda mais eficaz. E isso vai delineando uma ansiedade muito própria da atualidade, uma ansiedade que é moldada pelo progresso, pelo avanço da sociedade. Quanto mais você vive, mais ansioso você fica na tentativa de encontrar sentido para a vida. Além disso, há outro fator: a humanidade não está acostumada a viver tanto tempo. Isso também é importante no panorama do avanço da depressão. Vivemos bastante, e ao longo da vida vamos cada vez mais nos aprofundando nesse jogo que envolve a pressão pelo sucesso. Vamos nos isolando. Nós vivemos uma epidemia de solidão. Pessoas de várias idades e gerações estão sendo afetadas. Um exemplo real de agora, da pandemia: o quanto cada um de nós já leu e descobriu coisas sobre imunização, medicamentos, sintomas da covid-19. É tanta informação especializada disponível. E não há solução para o vírus, apesar disso. Tem gente que absorveu tanta informação que acha que, se respirar na rua, vai morrer. Até as maçãs são inimigas - é preciso lavá-las com Pinho Sol, segundo se lê por aí, para livrá-las do vírus. Imagina o nível de ansiedade.

QUAL A SOLUÇÃO PARA FICAR MENOS ANSIOSO?

Em primeiro lugar, ler menos essas bobagens como a do Pinho Sol. Mas não há solução, não há fórmula. Temos de encarar do jeito que dá - com elegância, de preferência, como defendo no fim do livro. A ansiedade está inscrita no laço social. Não ter ambições de popularidade, não perseguir o sucesso incansavelmente ajuda a não ser tão ansioso. O livro é de sociologia da ansiedade, aborda a questão a partir de marcos como a desestruturação política e as redes sociais e como tudo isso nos afeta. Esses marcos estão aí. Vai da nossa capacidade de resistir à fúria do desejo de querer mais, que hoje nos estimula o tempo todo. Ou seja, ser elegante. Na pandemia fica mais difícil, porque, para enfrentá-la, você teria de ter construído ativos anteriores: estrutura financeira, possibilidade de trabalhar remotamente, harmonia em casa, relações menos alienadas. Sem isso, a ansiedade é despertada, tem mais estímulos. Há um desafio extra.

LER MENOS BOBAGENS É UM PRIMEIRO PASSO, ENTÃO.

Ler menos, eu diria. Eliminar todos os vídeos infernais de redes sociais, além de desconsiderar as recomendações que preveem cura e prevenção milagrosas para o vírus. Ter como fonte de informação o que nos é transmitido pela mídia mais profissional, ainda que essa mídia esteja nos deixando em pânico diariamente... A mídia é o seguinte. Ela tem como principal função nos informar, então é natural que, em uma pandemia como essa, nos bombardeie com entrevistas com epidemiologistas, nos apresente estudos de médicos e cientistas, e isso o tempo todo. E como a gente, que é leigo nesse campo, reage diante de uma pessoa superespecializada e cheia desses repertórios? Fica com medo. Pode observar: quando um médico fala sobre saúde, quem não é médico fica com medo. Tenho uma história sobre isso. Eu estudei Medicina. Casei quando estava na faculdade. Sempre que saía para jantar com minha mulher, quando começava a falar sobre questões dessa área, procedimentos que via, rotina de pronto-socorro, ela desmaiava. Aconteceu várias vezes. Até que, num belo dia, nos demos conta. E parei de contar. Ela não desmaiou mais.

A ALIENAÇÃO NEM SEMPRE É O MELHOR CAMINHO.

A mídia fica em uma saia justa, de fato. Ela tem de informar. Ao mesmo tempo, sabe que o receptor é mórbido. Ele fica com medo, mas se interessa. O sujeito vive na merda e, quando vê que todos estão na mesma merda, ele sente um certo conforto: não é só a vida dele que é assim. Você conhece gente mais feliz do que hipocondríaco? Tenho um amigo hipocondríaco que está radiante agora: posta selfie de máscara, fica combinando roupa, está toda hora com álcool gel. Está curtindo o atual momento.

O SENHOR CITA MUITO OS PROFISSIONAIS DE COACHING NO LIVRO. CLASSIFICA-OS COMO UM FATOR ANSIOGÊNICO PORQUE VENDEM UM PRODUTO FALSO. O QUE ACHA DESSA ATIVIDADE QUE SE TORNOU UM MARCO DOS ÚLTIMOS TEMPOS?

O coaching gera ansiedade, ao contrário do que promete. Você vai para o coaching para ser assertivo e ter prosperidade, mas, na maioria dos casos, não alcança isso. O que vai acontecer com você? Fica mais ansioso. Imagina, vender sucesso hoje em dia. Qualquer pessoa que faz isso está fadado a entregar fracasso. Obter sucesso dificilmente é possível a partir de metodologias tão rasas e fórmulas tão prontas, aplicáveis a tanta gente.

O SENHOR ESCREVE QUE OS JOVENS SÃO MAIS ANSIOSOS E ARRISCARIA DIZER QUE A ESPERANÇA DE FUTURO ESTÁ NOS MAIS VELHOS. GERAÇÕES ATUAIS LIDAM MAL COM AS DIFICULDADES?

Sim, acho que sim. Essa frase eu ouvi de um jovem em uma aula. Dou aula na graduação há 25 anos. Fui vendo um processo de fragilização acontecer. Hoje os jovens não conseguem nem fazer avaliação oral. Têm dor de barriga. Passei a vida inteira fazendo prova oral e tive de parar há dois anos, porque alunos caíam no chão de medo. É sério. E não é só a minha experiência. Há literatura especializada sobre isso. Tem gente que diz, cheia de orgulho, "meu filho está estudando em Barcelona, ele é ótimo". Pode ser, mas provavelmente ele está deprimido em Barcelona. A frase que você cita na pergunta tem um efeito, um peso retórico, justamente para ressaltar isso: se depender dos jovens, com sua ansiedade e insegurança, com sua dificuldade de manter vínculos e diante de um mercado de trabalho difícil, que exige mais do que eles podem dar e recompensa menos do que deveria financeiramente, o futuro será difícil. Os jovens, hoje, são filhos únicos, por isso convivem mais com adultos e tendem a ser solitários, frequentam escolas piores, não assumem responsabilidades familiares. Se a esperança for os jovens, ela está comprometida.

MAS DEPOIS O SENHOR AFIRMA QUE VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE IMATURIDADE NOS ADULTOS.

São esses jovens se tornando adultos. Eles já se tornaram. Esse diagnóstico vem desde pelo menos 1979, com o livro A Cultura do Narcisismo, de Christopher Lash (antropólogo norte-americano). Ele aponta que o narcisismo virou uma epidemia, e uma de suas consequências é a dificuldade de assumir responsabilidades. Todo mundo quer ser adolescente a vida inteira. Há 40 anos já era possível identificar isso. Imagina de lá para cá. Esse processo vem se intensificando, ainda mais nas famílias de classes mais altas, que só têm um único filho. Imagina a carga sobre esse filho! Os pais, hoje, vão à universidade reclamar que o filho tirou nota baixa. Isso não acontece mais apenas nos níveis inferiores de ensino. Sob certo aspecto, a universidade virou um jardim de infância. Isso está gerando estudos, livros. Lembro de dois, bem recentes, ainda sem tradução: The Coddling of the American Mind (algo como "o mimar da mente norte-americana"), de Jonathan Haidt e Greg Lukianoff, e What Happened to the University? ("o que houve com a universidade?"), de Frank Furedi. Ambos analisam o que acontece com as universidades sob essa perspectiva, abordando a pressão dos pais sobre professores que não dão notas boas aos seus filhos.

O SENHOR ESCREVE, CITANDO ZYGMUNT BAUMAN, QUE OS AFETOS ESTÃO EM PROCESSO DE DISSOLUÇÃO, INDICANDO SER UMA CONSEQUÊNCIA DO FATO DE AS CRIANÇAS SEREM MUITO MIMADAS. É TUDO ISSO MESMO?

Sim. Quando você mima muito uma pessoa, querendo fazer com que tenha uma autoestima alta, ela tende a sofrer um grande impacto quando vai para o mundo e recebe uma voadora na testa. É isso que o mundo faz conosco, mesmo, o mundo é uma máquina de tortura, nosso desafio é estar preparado para isso - o que não acontece quando somos mimados. Ficamos frágeis, despreparados. A educação virou uma usina de autoestima. A pedagogia atual é legitimar o que as crianças sentem, o tempo todo. Resultado: ao tomar a voadora do mundo, a criança crescida não confia mais em ninguém. Virou um adulto narcísico, que só olha para o próprio umbigo, achando que a obrigação do mundo é amá-lo. E o segredo dos afetos é você ser capaz de amar o outro para além de si próprio.

FILHOS ÚNICOS E CRIANÇAS MIMADAS EXISTEM MAIS NAS CLASSES MÉDIA E ALTA. ISSO NÃO SE APLICA EXATAMENTE AOS DESFAVORECIDOS, CERTO?

Certo. Meu raciocínio - assim como o próprio livro - é voltado para a classe média, daí para cima. Inclusive porque é onde estão as pessoas que leem esse tipo de publicação. É claro que a ansiedade existe também na pobreza. Mas, nesse caso, você está tão paralisado pela falta de perspectiva que entra no subemprego, ou no crime, ou na gravidez precoce, e aí você tem outros problemas mais urgentes. O fenômeno que descrevo é fruto do enriquecimento, da evolução a partir do enriquecimento.

JOVENS MAIS POBRES TAMBÉM SONHAM EM TER CELULAR, VIAJAR ETC.

Sim, mas precisar produzir sua vida material, porque você não ganhou isso de ninguém, muda o cenário. Vou contar uma coisa. Escrevi uma coluna para a Folha de S.Paulo, uns anos atrás, intitulada Sociologia Selvagem do Metrô, na qual fiz uma analogia com as cores das linhas paulistanas: disse que, dos jovens da linha verde, que passa por zonas mais nobres, não deveria se esperar nada, porque não passavam, grosso modo, de uns molengas; e que a esperança estava naqueles que andavam nas linhas azul e vermelha, que passam por zonas mais pobres. Logo depois que o texto foi publicado, quatro adolescentes vieram até mim em um evento e se apresentaram assim: "Nós somos da linha azul". Bem orgulhosos. Na linha verde estão os jovens que acham que vão mudar o mundo com sua alimentação vegana. Mas eles sequer sabem o preço das coisas. É claro que ser como os jovens mais ricos é algo a que os mais pobres aspiram. Mas a formação é outra, o comportamento é outro, as preocupações são outras.

NO FIM DAS CONTAS, ONDE RESIDE A ESPERANÇA NA ERA DA ANSIEDADE?

Onde a gente seja menos pretensioso com a realização pessoal. Eu disse antes que não há fórmula, mas dá para eu ser bem sintético: é só querer ser menos feliz. Não ser obsessivo com a felicidade. Qualquer reflexão a sério sobre felicidade feita nos últimos 2.500 anos sabe que essa busca tem de ser feita com uma dosagem ponderada e equilibrada. Querer o máximo de felicidade, sempre, só pode nos levar a problemas.

COMO FICOU A SUA ANSIEDADE NESTE PERÍODO DE PANDEMIA?

Olha, continuo trabalhando bastante, o que ajuda. Minha ansiedade, na quarentena, está associada à vontade de que ela acabe, porque gosto da vida real, do encontro com os outros. Trabalhar remotamente tem muitas limitações.

DANIEL FEIX


13 DE JUNHO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

PROTESTOS E CORONAVÍRUS

Vivemos num mundo dominado pelas imagens. A do policial branco esmagando com o joelho o pescoço do rapaz negro de mãos atadas veio tão carregada de significados que desencadeou protestos nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

Na cena terrível, o ar de superioridade do policial com a mão esquerda no bolso, enquanto esganava o rapaz que tinha dado uma nota falsa de U$ 20 numa loja, fez reviver os horrores dos séculos de escravidão em que foram mantidas as pessoas de pele negra, nas Américas, e o preconceito contra elas que ainda persiste. Não é difícil entender a explosão de revolta que se espalhou pelo país inteiro.

Em diversas cidades, multidões de mulheres e homens brancos aderiram às manifestações, em passeatas diárias que duram uma semana, no momento em que escrevo, sem dar sinais de que terminarão nos próximos dias.

Não poderia haver hora pior para quebrar o confinamento social nos Estados Unidos que, depois de ultrapassar a barreira das 100 mil mortes por covid-19, esperavam a redução do número de casos e a possibilidade de relaxar as medidas de restrição à mobilidade urbana.

Por mais justos que sejam os protestos, no entanto, as consequências não se farão esperar: em duas ou três semanas haverá aumento do número de mortes no país. O coronavírus se aproveita dos agrupamentos e das gotículas liberadas ao falar, sem levar em conta a justiça das reivindicações político-sociais de seres humanos.

Em entrevista à Medpage Today, o professor Amesh Adalja, porta-voz da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, chama a atenção para o fato de que nas passeatas muitas pessoas não usam máscara, ficam mais próximas, conversam umas com as outras, gritam palavras de ordem e cantam, atividades que aumentam o número de gotículas formadoras de aerossóis infectados e colocam em risco as demais.

Está bem documentado o caso de uma cerimônia religiosa, na cidade de Washington, em que 53 dos 61 participantes de um ensaio do coro da igreja foram infectados por um único cantor com sintomas da covid-19. O doutor Adalja ressalta o fato de que até a repressão policial colabora para a disseminação do vírus, uma vez que as bombas de gás lacrimogênio e os sprays de pimenta provocam correria, tosse e processos inflamatórios nos olhos e nas mucosas das vias aéreas, que facilitam a transmissão de viroses respiratórias. Os que entram em contato com os poluentes e a matéria particulada dispersa pelo fogo ateado por manifestantes radicais, podem desenvolver uma síndrome pulmonar aguda que também aumenta o risco de infecções virais, como ocorreu por ocasião do ataque às torres gêmeas.

No Brasil, as aglomerações em apoio ao presidente, que se repetem todo fim de semana desde o início da epidemia, bem como as passeatas organizadas por manifestantes opositores, no domingo passado, embora reúnam muito menos gente do que os protestos dos americanos, acontecem em péssima hora. Em São Paulo, Rio de Janeiro e em outras capitais o número de mortes tem aumentado todos os dias e sobrecarregado o sistema de saúde que chega ao colapso em várias cidades.

Quando os especialistas e os gestores falam em colapso, muitos não compreendem a extensão de seu significado. Colapso significa a ocupação de todos os leitos hospitalares, das unidades de pronto-atendimento, das equipes de saúde na linha de frente e de todos os recursos disponíveis para o atendimento de novos pacientes, estejam eles infectados pelo coronavírus ou não. Colapso, quer dizer que doentes com infarto, AVC, crises de asma, apendicite, hemorragias perderão a vida sem receber cuidados mínimos, sejam crianças, jovens ou velhos.

Essas razões têm feito os governos agir com extrema cautela ao afrouxar o isolamento. Portugal, exemplo de país que conseguiu conter a epidemia ao adotar medidas precoces de isolamento, que foram respeitadas pela população, já estava na terceira e última fase do desconfinamento quando foi obrigado a recuar por causa do aumento do número de casos na região de Lisboa.

Não há o que contestar, a relação é inversa: diminuem os níveis de isolamento, aumentam as mortes. Criar discursos políticos para ir contra essa realidade é negar a experiência mundial e as mais sólidas evidências científicas. É má intenção ou burrice, mesmo.

DRAUZIO VARELLA