sábado, 18 de setembro de 2021


18 DE SETEMBRO DE 2021
CLAUDIA TAJES

Martinho X Adele

E eis que está em curso a luta do século. Bem, uma delas. O século mal vai chegando à maioridade, mas o que não faltou foi luta nesses quase 21 anos. Sangrentas, tristes, injustas, bizarras, fúteis, necessárias, impossíveis, cada dia serve de ringue para a vitória ou a tragédia. Viver é lutar, disse Sêneca. A luta é a essência do homem muito mais do que a razão, li em algum muro filosoficamente pichado. E não é? Tem muita luta por aí que faz duvidar da capacidade de alguns de se equilibrarem em duas patas.

A luta de que trataremos aqui envolve bilhões de dólares e de audições. De um lado, a malemolência de Martinho da Vila. Do outro, a imponência de Adele, a cantora inglesa de 33 anos que tem fãs pelo planeta inteiro. Um encontro desses dois personagens dificilmente se daria na Vila Isabel, escola de samba do coração de Martinho, ou em uma das mansões que, contam os pasquins, Adele mantém em Beverly Hills. Martinho e Adele foram se esbarrar nos compassos de uma música, Mulheres, que ele gravou em 1995. Mais especificamente, em 88 compassos iguais.

Já tive mulheres de todas as cores, de várias idades, de muitos amores. Quem não ouviu esses versos na voz sorridente de Martinho? Com umas até certo tempo fiquei, pra outras apenas um pouco me dei. Quem não arrastou essas sílabas e forçou o sotaque carioca em um fim de noite, nos estertores de um churrasco ou de um karaokê? Um primo ficou para sempre no álbum de recordações da família quando fez de Mulheres sua música preferida aos quatro anos de idade. O pequeno era levado de casa em casa para divertir os parentes e a vizinhança com sua interpretação sentida. Já tive donzela e até meretriz, cantava ele, a plenos pulmõezinhos.

Um milhão de anos depois - licença poética -, o compositor de Mulheres, Toninho Geraes, identificou grande parte de sua melodia em uma canção que Adele lançou em 2015. Million Years Ago (Um Milhão de Anos Atrás) tem uma temática, uma poética e uma estética completamente diferentes das do hit do Martinho. Poderia até ser a trilha sonora da pandemia, de tão triste que é. Um trechinho: Eu sinto como se a vida estivesse passando num piscar/ E tudo que eu posso fazer é assistir e chorar/ Eu sinto falta do ar, sinto falta dos meus amigos/ Eu sinto falta de minha mãe, sinto falta de quando a vida era uma festa a ser curtida/ Mas isso foi há um milhão de anos atrás.

O problema é que se pode cantar a letra de Mulheres em cima de Million Years Ago, e tudo se encaixa direitinho. Em lugar de uma confissão doída como "Às vezes sinto como se fosse só eu/ Que nunca me tornei quem pensei que seria", a redenção de "Você é o sol da minha vida, a minha vontade/ Você não é mentira, você é verdade".

Toninho Geraes ficou sabendo da coincidência - vamos chamar assim - no ano passado porque o filho do maestro que orquestrou a gravação de Mulheres ouviu a música de Adele e pensou tratar-se de uma versão autorizada. Não era, e agora a Dona Justa vai decidir quem tem razão nessa peleja. O advogado de Toninho já mandou três notificações para a outra parte que, até o momento, fez a egípcia. Nem para mandar um e-mail com um protocolar "acuso o recebimento".

Uma curiosidade é que o produtor que trabalhou com Adele no álbum 25, de onde Million Years Ago saiu, é fã declarado da música brasileira e, informação sempre em destaque nos noticiários, sabe até tocar berimbau. Talvez ele tenha pensado que berimbau é gaita, ditado que significa: 1. crer, equivocadamente, que alguma coisa é simples e fácil; 2. enganar-se ao acreditar que uma determinação possa ser cumprida, sem que haja punição.

Picardia versus melancolia. Se todas as lutas fossem assim, a vida seria bem mais leve e divertida.

CLAUDIA TAJES

18 DE SETEMBRO DE 2021
LEANDRO KARNAL

OS LOGRADOS

O ano de 1630 foi de muita ansiedade na França. Ao sul, além dos Pirineus, a Península Ibérica inteira era governada por Filipe IV, Habsburgo. Do outro lado do Reno, o Sacro Império, encabeçado por Fernando II, também pertencia àquela família que fazia, assim, um anel de ferro ao redor do território francês.

O risco de "sufoco geopolítico" era agravado pela Guerra dos 30 anos (1618-1648). Protestantes e católicos travavam um conflito que chocou o mundo pelo número de mortos e pela violência extrema nos domínios germânicos. Estavam em jogo a supremacia religiosa, o aumento do poder imperial e o crescimento de uma força insuportável para a política externa francesa. Temendo tudo isso, o governo do poderoso ministro Richelieu fornecia recursos para os rebeldes protestantes. A lógica política superava escrúpulos religiosos.

Problemas fora e dentro do reino: apesar da tolerância religiosa decretada pelo rei Henrique IV, em 1598, a França continuava com uma maioria católica e um grupo forte protestante (huguenotes). O cardeal-ministro teve de atacar posições fortificadas dos reformados. O Estado francês queria evitar que os huguenotes formassem um Estado dentro do Estado, algo perigoso para um porto fundamental no Atlântico como La Rochelle, que poderia receber auxílio de reis como Carlos I, da Inglaterra. O porto foi sitiado e bloqueado e grande parte da população morreu de fome. A Coroa francesa venceu no campo de batalha, porém confirmou a liberdade religiosa. Protestantes sim, porém sem exércitos próprios ou portos livres.

O rei da França, em 1630, nosso ano em questão, era Luís XIII. Subiu ao trono aos nove anos de idade, quando seu pai, Henrique IV, foi assassinado por um fanático religioso. Incapaz de assumir plena consciência do poder que caiu em seu colo com a morte do pai, a criança foi controlada pela mãe, Maria de Médici. A França já conhecia uma célebre conspiradora-rainha: Catarina de Médici.

Um rei fraco controlado pela mãe. Uma rainha-mãe italiana astuta e vista com desconfiança por ser estrangeira e por suas ligações com outros conterrâneos como Concino Concini. Um cardeal ambicioso e quase modelo de política realista. Ainda não falei da esposa de Luís XIII: espanhola e, como tal, originária de um país inimigo. Personagens fascinantes em um palco de conflitos externos e lutas intestinas: que enredo temos pela frente! Alexandre Dumas percebeu tudo ao fazer Os Três Mosqueteiros (1844).

Já que o grande público ama o fato específico mais do que as estruturas em transformação, vamos a um. O jogo do poder na corte estava em grande limite de tensão. Vamos acrescentar um fato no final do ano de 1630: uma epidemia de peste se alastra pela França. O rei sofre com dor de dentes, febres e uma disenteria insistente. Teme-se pelo futuro da Coroa. Chegou a receber a extrema-unção no dia do seu aniversário. Os grupos em conflito, especialmente o cardeal e a rainha-mãe, usam de todos os recursos para tomarem o poder na eventualidade da morte do segundo Bourbon. No outono de 1630, o rei recupera a saúde.

A cena seguinte ocorre no palácio de Luxemburgo, em Paris. O rei imagina poder ir a Versalhes, na época um pavilhão de caça modesto em comparação ao que o Luís seguinte construiria ali. A Médici quer evitar a presença do cardeal no Conselho e ordena aos guardas que fechem as portas. Maria fica com o filho e ataca o cardeal. Este, em um gesto ousado, entra por uma porta secreta e faz uma cena dramática diante do rei. Pergunta se estão falando sobre ele. Ela está furiosa e ataca Richelieu. O prelado se ajoelha e beija a bainha do vestido da rainha que continua vociferando. O rei fica impressionado com a cena: a mãe parece descontrolada, o cardeal assume tom humilde e dedicado ao serviço da Coroa. Freud teria algo a dizer? Era domingo, 10 de novembro de 1630.

No dia seguinte, no seu pavilhão em Versalhes, Luís XIII recebe a visita do cardeal que faz novas promessas de submissão e de afeto. O rei decide afastar os ministros e políticos ligados à rainha-mãe. O golpe da mãe fracassou. Os aliados dela (como o marechal François de Bassompierre e Michel de Marillac) são presos. O filho preferido de Maria, Gastão d?Orleans, foi para uma corte rival. A vitória do ministro é total. Guillaume Bautru, conde de Serrant, classificou o dia como "journée des dupes". A palavra exata poderia ser escolhida entre dia dos ingênuos, jornada dos logrados, mas "dupe" inclui a ideia de idiota, enganado ou tolo. 

O termo de Bautru passou à história: quem foi tosquiar saiu tosquiado, o plano de derrubar Richelieu arrasou com o grupo da rainha-mãe e o cardeal ficou com o apoio total do rei. Armand Jean du Plessis, nome de batismo do ministro, passou à história como astuto, maquiavélico e vitorioso na afirmação do poder real e na condução da política externa da França. Dumas fez um retrato terrível dele e uma construção romântica da esposa de Luís XIII. Uma visão mais objetiva diria que uma rainha que favorecia a espionagem espanhola na corte francesa e trocava correspondência com os inimigos ingleses era alguém que estava mais próximo da Bastilha do que do panteão romântico.

E o povo? Teve impostos (como a gabela, sobre o sal) aumentados muitas vezes. Aumentou a miséria na França. A pergunta sempre fica: a "razão de Estado" é boa para a população em geral? Onde estariam os verdadeiros "logrados"? Tenho esperanças de que, um dia, mude a resposta óbvia até aqui.


18 DE SETEMBRO DE 2021
FILOSOFIA

O que seria a AMIZADE

É CURIOSO COMO AS CRIATURAS HUMANAS RIGOROSAMENTE JAMAIS FALAM ÀQUELAS COM QUEM INTERAGEM, MESMO AOS AMIGOS, SOBRE AS MAZELAS DA SUA VIDA FAMILIAR, ACERCA DE SUA VIDA SEXUAL, SOBRE SEUS PROVENTOS E SUA SITUAÇÃO FINANCEIRA

"Se, na amizade de que falo, um pudesse obsequiar ao outro, aquele que recebe o benefício é que estaria obsequiando seu amigo." (Michel de Montaigne, em Da Amizade)

"Algo no infortúnio de nossos amigos não nos é totalmente desagradável." (Duque de La Rochefoucauld)

Ao longo de toda vida adulta economicamente ativa, os indivíduos mantêm variados objetivos, e para os atingir precisam contar com a colaboração de outros; todavia, se for necessário àquele atingimento, se lhes pode puxar o tapete, mesmo se tratando de alguém considerado amigo uma vez que antes de tudo vêm os próprios interesses de cada um. Este é o círculo do eu, que não aceita limites.

É curioso como as criaturas humanas rigorosamente jamais falam àquelas com quem interagem, mesmo aos amigos, sobre as mazelas da sua vida familiar, acerca de sua vida sexual, sobre seus proventos e sua situação financeira. Em geral, tais coisas se as mantêm escondidas; sobre elas, ou não se fala, ou se mente acerca delas.

Muito se tem ouvido das pessoas durante esta pandemia, que sentem falta da comunicação direta com os amigos, quando muito restrita a conversas por vídeochamadas telefônicas. Porém, seria adequado indagar se esses amigos, a quem se referem ao dizer que se sente falta do falar com eles, seria uma generalização do vocábulo, ou de amigos na acepção da amizade singular e perene.

Haverá categorias de amigos? Ou amigo é uma condição única, o qual é diferenciado do mero conhecido, do colega de trabalho ou de aula com quem se convive amiúde, do vizinho de há anos, daquele a quem no passado se chamava "meu faixa", e, na modernidade, o amigo da rede social? Serão todos esses efetivamente amigos, ou apenas meros conhecidos com os quais é nutrido algum interesse mútuo, digamos, por trabalhar num mesmo local ou comungar ideias e, assim, poder conversar amistosa e agradavelmente em certos momentos, mesmo pelas redes? Mas nesses diálogos, haverá de ser ocasionalmente descrito ao assim chamado amigo, aberta e honestamente, aquelas já faladas mazelas da vida familiar, a vida sexual e os valores de proventos e a situação financeira? E se irá relatar sem evasivas sobre as lutas pelo poder e sobre como foi dada a rasteira no colega para lhe usurpar o cargo na empresa?

O escritor húngaro Sándor Márai (1900-1989) publicou em 1942 um dos grandes romances do século 20, As Brasas (Companhia das Letras, 2017), que trata da amizade. Narra o diálogo entre dois amigos inseparáveis desde a infância até parte da vida adulta, que se reencontram depois de não se comunicarem por 41 anos. É o diálogo entre dois velhos, revelando-se impressionante na prosa de Márai que, com 41 anos idade quando a concebeu, conseguiu exprimir em tom verossímil a linguagem, a problemática e os sentimentos de idosos, numa amostra de talento literário.

Dirá o leitor atento: como pode o romance abordar a amizade entre pessoas que deixaram de se comunicar havia 41 anos? Pode-se mencionar como amizade a de dois indivíduos que não interagiram por qualquer meio por tanto tempo?

Em As Brasas, Márai fabula que ser amigo de alguém é quase um serviço prestado ao outro, porque se o aceita, com seus defeitos e idiossincrasias, com suas neuroses, sem se ver obrigado a isso e nada esperar de volta; quanto vale uma amizade que almeja recompensa?, indaga o autor. Ser amigo vem a ser um sentimento não escolhido em relação ao outro, afeição de dimensão ampla e fundamental, mas sem qualquer natureza contratual, assemelhando-se quase a uma paixão, na medida em que tem feições de um altruísmo que do outro nada exige, nada espera.

A amizade não pertence ao círculo do eu, pois não comporta a inescapável luta pelo poder; ela diz respeito ao círculo do nós, o eu e o outro, ambos nada esperando reciprocamente; ou seja, a amizade é um máximo de perfeição como sentimento peculiar das relações humanas, como disse o inigualável Michel de Montaigne (1533-1592). E não pertence ao ambiente das redes sociais. 

CARLOS ALBERTO GIANOTTI

18 DE SETEMBRO DE 2021
COM A PALAVRA

ESTAMOS COMETENDO UM ECOCÍDIO. CHEGAMOS AO NOSSO LIMITE

Francisco Eliseu Aquino

Climatologista, 51 anos

Professor na UFRGS, dedica-se aos estudos da Antártica e das mudanças ambientais globais há quase três décadas

Professor de Climatologia e Oceanografia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e diretor substituto do Centro Polar e Climático da mesma instituição, Francisco Eliseu Aquino dedica-se há quase 30 anos aos estudos da Antártica e das mudanças ambientais globais. Aos 51 anos, ele aponta que os cientistas já observam alterações no ciclo hidrológico no Estado. Segundo o climatologista, a agricultura será o setor mais afetado entre 2025 e 2040.

Zero Hora conversou com o especialista sobre a situação no Estado e sobre o mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado no início de agosto.

QUANDO OS CIENTISTAS COMEÇARAM, DE FATO, A SE PREOCUPAR COM AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO PLANETA?

Nos anos 1960 e 1970, os climatologistas já afirmavam que a Terra iria aquecer, se a humanidade continuasse emitindo gases de efeitos estufa (CO2), usando carvão e desmatando, porque eles conheciam o comportamento e a composição química da atmosfera. Mas uma das perguntas que se fazia nos congressos, na época, era: se ela aquecer, qual o impacto nos fenômenos e no clima? Esses mesmos grupos de cientistas demandaram que se formalizassem nos congressos científicos como de meteorologia, climatologia e negociações internacionais científicas mesas de discussão sobre a mudança climática porque, até então, o tema não estava na agenda científica. E essa discussão foi crescendo porque os cientistas perceberam que precisavam comunicar esses prognósticos iniciais aos tomadores de decisão. Assim, a Organização Meteorológica Mundial foi provocada a criar o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para passar a abastecer a humanidade com esses relatórios.

O QUE SE FALAVA SOBRE A SITUAÇÃO CLIMÁTICA DO RIO GRANDE DO SUL NESSE PERÍODO INICIAL DAS DISCUSSÕES OFICIAIS?

Já nessa época, os primeiros modelos ainda básicos e rudimentares sobre a alteração do clima mostravam que a circulação atmosférica seria intensificada na Região Sul do Brasil, pelas suas latitude e geografia. Por conta da bacia do Prata, com os Andes a oeste, a Antártida ao sul e a Amazônia ao norte. E essa mudança na circulação atmosférica significava eventos de tempestade mais intensos nos meses quentes e frentes frias mais reforçadas gerando chuva e tempestades de alto impacto.

OS PROGNÓSTICOS DE MAIS DE 50 ANOS ESTÃO SE CONFIRMANDO.

Sim, viemos observando isso. Várias frentes frias vieram com intenso impacto. Um exemplo: a mais recente teve trovoadas, sem desastres. Teve muita chuva, em pouco tempo, mas sem grandes mudanças num ambiente que já estava com déficit hídrico. Outra possibilidade foi como ocorreu no inverno do ano passado, com frentes associadas a sistemas explosivos. Choveu e teve uma gigantesca inundação no sul do Brasil. Esses eventos, o de agora, as ondas de frio, a estiagem e essas tempestades, são, no nosso ponto de vista da atmosfera, associadas a um planeta mais quente. Um planeta mais quente mexe com a circulação, fortalece eventos meteorológicos em algumas regiões, como o Sul, uma atmosfera mais aquecida carrega mais vapor d?água, alimenta mais as nuvens e deixa-as com capacidade de volume de chuva e tempestades mais intensas.

ESSAS CONSTATAÇÕES SOBRE O RIO GRANDE DO SUL TAMBÉM VÊM SENDO OBSERVADAS PELO CENTRO POLAR E CLIMÁTICO?

Até o relatório do IPCC (divulgado em agosto deste ano), a equipe do laboratório já observava os dados e eventos meteorológicos e climáticos do Rio Grande do Sul. Nos últimos 50 anos, o Estado ficou 1,2°C mais quente, a estação do ano que mais aqueceu foi o inverno, as estações passaram a ter mais chuva de modo geral dos anos de 1970 até agora. Comparando os anos de 1940 com a década de 2000, está chovendo no Estado, em média, 9% a mais na primavera, 7% a mais no verão e 17% a mais no outono. Significa que está chovendo mais nas estações quentes. E observamos que aumentou a chuva, mas sempre associada a fenômenos mais intensos ou que, normalmente, têm facilidade de se tornarem intensos - os chamados sistemas convectivos.

MAS, MESMO COM ESSAS CHUVAS MAIS INTENSAS NO ESTADO, SEGUIMOS COM DÉFICIT HÍDRICO. HÁ UMA EXPLICAÇÃO CIENTÍFICA PARA A QUESTÃO?

Sim, no Rio Grande do Sul, detectamos nos 20 anos mais recentes que existem eventos de chuva concentrada. A chuva do mês inteiro, às vezes, ocorre em menos de 24 horas, e passamos o restante dos 25 a 28 dias sem chuva. Por isso, mesmo, a gente, olhando o cenário de previsão futura de que choverá mais no Estado, a notícia ruim é que essa chuva não é uniforme ou bem distribuída. Já observamos essa situação dos anos de 2000 até agora nos relatórios do IPCC. Quando olhamos o sistema de esgotamento de água das cidades, o tamanho do telhado de um shopping center ou em casa, estimamos valores extremos. O que ocorre é que, frequentemente, está chovendo muito acima do mais esperado em curto tempo, causando alagamentos. Em seguida, porém, o recurso hídrico some porque estamos sempre com longos períodos sem precipitação. Para abastecermos o recurso hídrico no solo, o certo seria sempre ter uma chuva penetrando no solo para mantê-lo úmido. 

Quando há nas margens dos rios ou nas áreas de formação de mananciais ou nascentes vegetação preservada, elas guardam essa umidade e vão cedendo lentamente. É quase uma poupança de recurso hídrico. O problema é que, nas últimas décadas, invadimos as margens de rio e as áreas de preservação permanentes e, por consequência, levamos o sistema ao limite. Por isso, vivemos sempre sem água e, de repente, com dilúvio.

DE ALGUMA FORMA, ISSO ACABA AFETANDO A AGRICULTURA LOCAL?

Já estamos observando uma pequena tendência de diminuição de chuva no inverno. Significa que o ciclo hidrológico está sendo alterado com a mudança climática nesse aspecto importante do nosso clima. Na prática, o agricultor do Rio Grande do Sul está acostumado a passar o inverno com bom regime hídrico, capaz de suportar primavera e verão mais secos. 

Porém, nas duas últimas décadas começamos a enfrentar estiagens e invernos mais quentes, começamos a acumular em alguns invernos déficit hídrico. Daí, entramos verão com chuva muito concentrada, mantendo o déficit hídrico, aumentando o desastre e o custo de produção. É tudo extremamente danoso do ponto de vista da qualidade de vida no ambiente e de qualquer economia que se queira pensar. Podemos falar que em 2004 e 2005 tivemos um baque econômico no Rio Grande Grande por estiagem e seca severa, a economia baseada na agricultura fez PIB negativo no Estado devido a eventos climáticos. Em 2012, tivemos uma estiagem severa, com danos milionários. 

A estiagem de 2020/2021 só não foi ruim para a agricultura no Rio Grande do Sul porque choveu bem em janeiro deste ano e era, exatamente, o momento ideal para as culturas do período. Foi somente sorte. Se não tivesse ocorrido, seria um desastre do ponto de vista financeiro. Mas, quando olhamos para o pequeno agricultor, ele sofreu porque faltou água até para os animais. Vamos encontrar prejuízos em escalas diferentes. O fato é que a agricultura sofrerá muito no cenário 2025-2040. Nos municípios e no Estado precisamos considerar que futuros gestores públicos e tomadores de decisão tenham a agenda do meio ambiente como primordial.

NÃO HÁ COMO MUDAR ESSE CENÁRIO?

Não. Podemos trabalhar para minimizar os efeitos. A nossa janela de oportunidade é nos prepararmos e, de forma urgente, iniciarmos um movimento para diminuir a emissão de gases, melhorar o transporte público e investir em energia alternativa limpa - solar, eólica e hidráulica. Mas não mudaremos o cenário em que vivemos hoje e que deve se intensificar nas próximas duas décadas. Não tem volta. O Rio Grande do Sul, com as mudanças climáticas, facilmente terá mais estiagens e secas, mais chuvas intensas concentradas, mais ondas de calor com maior intensidade e duração em comparação com décadas anteriores e ainda ondas de frios mais robustas que, inclusive, podem ocorrer no verão, com friacas em pleno Natal. Quando analiso esses casos individualmente, todos engrenam nesse padrão de mudança de circulação geral da atmosfera. 

O que está sendo previsto: a temperatura aumentar até 1,5°C, o que o acordo de Paris quer evitar até 2050. O que nós já sabemos: atingiremos +1,5°C até 2040, lamentavelmente. Nesse cenário, de aumento de 1,5°C, é certo que choverá de forma irregular, concentrada e intensa no sul do Brasil. Se chegarmos ao aumento de 2°C na temperatura média global, que no nosso ponto de vista deve ocorrer de fato até 2050, esse cenário intensificará ainda mais na Argentina, no Uruguai e no Rio Grande do Sul. Se chegarmos entre 2°C e 4°C, que é realmente uma grande preocupação, os fenômenos se intensificarão muito mais ainda.

O QUE SERIA ESSA INTENSIFICAÇÃO?

Vou te dar um exemplo que estudamos: os ciclones extratropicais, que ocorrem desde sempre no sul do Brasil, que impulsionam frentes frias, ajudando na produção agrícola, trazem chuva, e por isso nosso inverno não é seco como no restante do Brasil. Vivíamos com a história dos invernos dos nossos avós: mais úmidos e frios. O que está ocorrendo agora? Esses ciclones, com a mudança climática atual, tendem a migrar mais e se reposicionar mais ao Sul. 

O que ajudaria, em alguns casos, a diminuir a chuva para nós. Mas estamos olhando a quantidade e a posição desses ciclones e percebemos que os ciclones mais intensos, chamados de explosivos, não mudaram de posição, seguem se formando e atuando entre o Uruguai, o Rio Grande do Sul e na nossa costa. Parecem estar sugerindo mudança de localização, mais próximos da costa, e um sinal de intensificação. Meu avô diria: "Tem, em média, dois ciclones explosivos no Estado por ano". Continuaremos com aqueles dois, mas mais intensos. E isso significa mais desastres por inundação e tempestades severas, como a de junho de 2020. Isso combina tecnicamente num cenário de planeta mais quente para a região do Rio Grande do Sul.

PRECISAMOS RESOLVER A QUESTÃO LOCAL, DO RIO GRANDE DO SUL, MAS ME PARECE QUE ESTAMOS CONECTADOS COM O RESTANTE DO BRASIL. POR EXEMPLO, AS QUEIMADAS NA REGIÃO DA AMAZÔNIA INFLUENCIAM DIRETAMENTE O CLIMA NO ESTADO.

Exato. Tem uma ligação direta. Parte desses eventos tempestuosos que relatei e estamos monitorando, coletamos água e fazemos a análise da origem dessa umidade para entendermos o que está ocorrendo na América do Sul. Temos eventos em que, obviamente, a umidade vem da Amazônia. O que estamos observando à medida que se amplia o desmatamento da região amazônica, e a área sul da floresta está diminuindo ao ponto de já se falar em savanização da Amazônia, é que esse efeito contribui para uma diminuição do aporte de umidade do norte para o sul do Brasil, facilitando a estiagem por aqui. O outono, a primavera e o verão no Rio Grande do Sul contam com esse aporte de umidade da Amazônia. Mas essa variabilidade intensificada, atraso ou chegada em menor quantidade são cada vez mais influenciadas pela diminuição da floresta, impactada pelo desmatamento e pelas queimadas.

COM A MUDANÇA DE CLIMA NO ESTADO, PODEMOS TER DOENÇAS ATÉ ENTÃO COMUNS APENAS EM OUTRAS REGIÕES DO PAÍS?

Em 2040, teremos no Rio Grande do Sul mais condições favoráveis para dengue, zika vírus e outras doenças tropicais porque o clima estará mais quente. O clima subtropical do Rio Grande do Sul mais seco trará perda de biodiversidade e mais eventos extremos associados. Em cidades da Região Metropolitana, que já esquentam mais nas ondas de calor e têm ar poluído, automaticamente as pessoas terão mais doenças cardiovasculares e respiratórias, aumentando o número de mortes. Entre 2040 e 2050, quase 90% da população mundial estará morando em cidades grandes, como São Paulo. E a maior parte dela já convive com milhares de mortes por poluição atmosférica, por ambiente ruidoso e insalubre que leva a estresse físico e mental e depressão, por exemplo.

MAS O SENHOR AINDA VÊ ALTERNATIVAS PARA MINIMIZAR A SITUAÇÃO NO ESTADO E NO MUNDO?

Enfrentar a questão ambiental pela ótica do IPCC nos faz cobrar dos gestores públicos, dos agentes financeiros e do setor privado ações que vão desde tornar híbrido o trabalho, com home office, para poupar deslocamento, e o uso de energia limpa, como a eólica e a solar, nos prédios e nos bairros, para reduzir o consumo de energia elétrica. Trabalhando de casa, se consumirá nos comerciantes locais, dentro do próprio circuito, deixando de circular com o carro. 

A pandemia, infelizmente, jogou no nosso colo a possibilidade de reduzirmos deslocamento desnecessário. Estamos no antropoceno, época definida pelos cientistas como aquela em que o homem assumiu o controle do planeta: a natureza está devastada, os oceanos estão poluídos e a atmosfera mudou. Estamos cometendo um ecocídio: desmatando florestas tropicais, condenando a biodiversidade que nem conhecemos, e o ser humano também sumirá, porque perderá água e qualidade do ar, e assim por diante. O termo para isso tudo agora é crise climática. Chegamos no nosso limite. 

O que faremos com nossa inteligência e o potencial criativo para combatermos a situação? Cada nação trará alternativas criativas e elas só precisam ser estimuladas para virem as ideias, com as iniciativas privadas e públicas e com uma robusta legislação ambiental nos guiando para isso. O relatório de IPCC diz que é preciso fugir urgentemente do carvão, do petróleo, que não devemos mais investir em tecnologia ou em energia que não sejam limpas. Devemos fazer ciência e tecnologia com parque eólico e com energia solar. O Estado precisa investir em política e ações que pensem sobre isso e sobre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pela ONU. O Rio Grande do Sul não terá benefício com minas de carvão, por exemplo. Não estamos mais na era da produção industrial clássica. Precisamos de chip, na verdade.

ALINE CUSTÓDIO


IPÊS AMARELOS SABEM QUE SOBREVIVER EM SÃO PAULO EXIGE RESILIÊNCIA

Os ipês amarelos estão em festa na cidade. Na secura do inverno, eles se despem das folhas para poupar energia. Fingem-se de mortos, até nos surpreender com o desabrochar de uma profusão de flores, com pétalas que se juntam em forma de cálices delicados que, ao despencar dos galhos, rodopiam em espiral, para tecer um tapete amarelo que forra o asfalto e a calçada ao redor do tronco.

Há de todos os tamanhos. Alguns são crianças que aos dois ou três anos já medem três metros, idade suficiente para criar as primeiras flores, ainda esparsas, distantes umas das outras. Outros, em compensação, são árvores majestosas de tronco rijo, que atingem 20 ou 30 metros de altura, com galhos emaranhados em copas de cinco ou seis metros de diâmetro, nas quais expõem um buquê amarelo visível a quilômetros de distância.

Senhores do que restou da Mata Atlântica, conscientes de que viver em São Paulo exige resiliência, sobrevivem em qualquer canto: na calma dos bairros, nos jardins das casas, nos parques, na periferia, no centro e no trânsito das grandes avenidas.

Um deles, plantado no canteiro que separa as duas pistas da Rua da Consolação, junto ao cemitério do mesmo nome construído no terreno doado pela Marquesa de Santos, é um escândalo florido.

Ergue-se altaneiro sobre um corredor de ônibus que trafega nos dois sentidos, alheio à fuligem projetada contra seu corpo, dia e noite. Ele retribui com um arranjo floral que encanta os olhos dos motoristas, a agressão perpetrada por eles.

A beleza é efêmera, no entanto: em uma semana as flores serão varridas das calçadas e esmagadas pelos pneus que passam sem vê-las.

No processo de seleção natural, levaram vantagem evolutiva os ipês mais floridos, capazes de atrair mais insetos para a polinização, processo essencial para a formação das vagens compridas que protegem as sementes aveludadas, capazes de viajar ao sabor do vento para perpetuar a espécie.

Como a ciência não é a única forma de entender o mundo, conta a lenda que Deus um dia reuniu as árvores para perguntar em que estação do ano gostariam de florescer. Quase todas escolheram a primavera ou o verão, algumas preferiram o outono.

O Criador disse, então, que a Terra não podia passar o inverno na tristeza desflorida. O ipê se ofereceu como voluntário. Para recompensá-lo, Ele lhe deu caules fibrosos, longevidade, resistência ao frio e à seca e flores multicoloridas: roxas, rosadas, brancas e amarelas, de tonalidades diversas.

A São Paulo da minha infância era cinzenta. Quem pretendesse descansar a vista num verde precisava ir aos limites da zona urbana. A primeira providência ao abrir uma rua nova era cortar todas as árvores. As únicas cultivadas eram as frutíferas, nos quintais: goiabeiras, jabuticabeiras, mamoeiros, pitangueiras e ameixeiras que nos obrigavam a pular o muro das casas, para colhê-las assim que ameaçavam amadurecer.

A partir dos anos 1950, a cidade começou a ser arborizada, de início timidamente; de forma sistemática nas últimas décadas.

Hoje, entre outras, temos tipuanas de troncos enormes, com copas que chegam à calçada oposta e espalham milhares de flores amarelas miúdas pelo chão; sibipirunas que dão flores empoleiradas no topo das copas, como se fossem canários pousados; jacarandás mimosos de flores roxas; paus-ferro de troncos brancos, muito altos; quaresmeiras; figueiras de folhagem exuberante; e jerivás, palmeiras com cachos de coquinhos alaranjados que atraem pássaros e o zumbido das abelhas.

São Paulo está longe de ser arborizada. A cidade que cresceu como um polvo com tentáculos, que invadiram e devastaram as matas que a circundaram nos tempos da garoa, ainda tem bairros periféricos e favelas com ruas tão cinzentas quanto as do Brás de quando nasci.

A consciência de que o verde e as flores a tornam mais humana, entretanto, ficou clara até para os paulistas que andam para lá e para cá ensimesmados, com os olhos no trânsito, nas calçadas esburacadas e nos transeuntes sem se dar conta da existência das árvores.

Para o ipê da Rua da Consolação, nossa apatia distraída não faz a menor diferença. Se vier uma epidemia capaz de varrer a humanidade da face da Terra, no inverno seguinte ele estará lá, frondoso, abarrotado de flores amarelas que o vento irá derrubar.

DRAUZIO VARELLA 


18 DE SETEMBRO DE 2021
BRUNA LOMBARDI

MESTRE DA BEAT GENERATION

Eu estava morando em Los Angeles quando comecei a estudar a Beat Generation. Estava lendo Jack Kerouac, um dos representantes do movimento que deu início às grandes transformações da sociedade. Foi na raiz dessa contracultura dos anos 1950 que mudaram padrões e valores, surgiram novas ideias de igualdade, diversidade e liberdade na América e no mundo. Havia uma busca espiritual, o estudo de religiões nativas e orientais em contraponto ao exacerbado materialismo econômico vigente. Havia a excitação de experimentos com drogas psicodélicas e uma bandeira de liberação de toda a repressão sexual. Tudo isso misturado refletiu em muitas áreas do pensamento, na literatura, na psicologia, gerando um novo comportamento. Essa atitude não conformista, espontânea e criativa se tornou o o estilo de vida dos novos bohemian hedonistas. Na década seguinte, isso geraria o movimento hippie, transformando valores das futuras gerações tanto na arte quanto na vida.

Vocês já repararam que quando estamos imersos num assunto um monte de coisas relativas a ele aparecem na nossa frente?

Eu estava num avião e cruzava o céu rumo leste dos Estados Unidos, por cima de montanhas cheias de neve. Sempre me sinto bem dentro de aviões, aproveito o tempo desligado do tempo real, para pensar, ler, organizar, imaginar. Parece um tempo livre de milhares de tarefas, reuniões, projetos e todo trabalho acumulado.

Olhei minha agenda e de repente tive a sensação desesperada de que não ia dar conta de tudo o que tinha pra fazer. Desembarquei já bem atrasada para os compromissos do dia e encontrei o Ri, que foi me buscar no aeroporto.

Certas coisas não cabem em nenhuma conduta lógica. Ele me disse que Allen Ginsberg, um dos grandes poetas beat, ia fazer uma palestra naquela tarde numa cidade vizinha, a duas horas de carro pela freeway. A gente se olhou sabendo o risco dessa tentação, mas não deu pra resistir. Parecia um sinal, um presente irrecusável do Universo.

E lá fomos nós, jogando tudo pro alto, eu trocando de roupa dentro do carro e rindo porque o nome da tal cidade era Ventura. A vida brinca, né?

Todo meu trabalho iria atrasar tanto, que eu teria que passar noites em claro para compensar essa aventura. Mas valeu cada minuto. O que move a vida é essa incontrolável curiosidade e paixão.

Lá estava ele, Allen Ginsberg, com seu inesgotável carisma e todo um código de informações em cada poro.

Sempre tive a sorte de conhecer pessoas memoráveis, que fizeram parte do meu imaginário e me deram lições de sabedoria. Cada uma parecia a peça de um imenso quebra-cabeças que eu procurava montar para entender o desenho.

E esse encontro foi um dos belos presentes que ganhei. A amizade já na última etapa da vida desse fabuloso poeta. Conversamos muito, e quando ele voltou para Nova York continuamos a falar por telefone. Budismo, poesia, religião e humor sempre faziam parte da conversa.

Depois de um tempo, ele se foi. Ainda tinha tantas coisas que eu queria saber?

" Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura?", escreveu ele em Uivo (Howl). Mas ele transcendeu.

BRUNA LOMBARDI

18 DE SETEMBRO DE 2021
J.J. CAMARGO

O FUTURO QUE ESCOLHERAM POR NÓS

É curioso como o turbilhão de mudanças que nos acompanham, e às vezes nos atropelam, são embaçados na nossa percepção, pela simples razão de estarmos indo juntos com a mudança, o que empresta uma naturalidade que nos choca quando, logo adiante, nos defrontamos com a opinião isenta de alguém que tem uma visão mais holística do mundo, ou seja, de um filósofo.

Isso ocorre quando lemos Byung-Chul Han, um sul-coreano de 62 anos que há mais de uma década vive na Alemanha, onde é professor de filosofia na Universidade de Berlim, e que tem várias obras lançadas no Brasil pela editora Vozes. Difícil encontrar num livro pequeno (quase um pocket book) tantas ideias originais, na análise desconcertante do que processamos sem perceber que aquilo era relevante porque revelava uma tendência transformadora dos anos que se seguiram à Segunda Guerra.

A partir de 1946, com o início da Guerra Fria, passamos a viver a Sociedade Moderna, também chamada Sociedade Disciplinar, descrita por Michel Foucault. Essa foi, como nenhuma outra, a era da polarização entre o bom e o mal, em que a luta permanente visava à destruição do outro, como afirmação do poder. Foi o tempo do macarthismo nos EUA, das ditaduras militares na América do Sul e da birra para ver qual das forças dominantes tinha melhores condições de aniquilação global. Os dois lados em disputa gastaram na aquisição de armas letais fortunas que poderiam ter varrido a fome do mundo. Várias vezes a certeza de que se houvesse confronto ninguém sobreviveria foi, paradoxalmente, o único instrumento para a paz.

Na Sociedade Disciplinar de Foucault, as revoltas e os protestos eram constantes, porque sempre havia um inimigo de plantão a exigir destruição. Byung-Chul Han, chamou esta sociedade de Imunológica, numa analogia com nosso sistema de proteção interna, indispensável no combate aos agressores orgânicos.

A partir da queda do muro de Berlim, os conceitos não apenas se modificaram, mas o fizeram numa velocidade sem precedentes, com inegáveis progressos de um lado e assustadores esvaziamentos de valores éticos do outro, justificando o conceito de mundo líquido, de Zygmund Bauman.

Na virada do século, sacramentada a dissolução da União Soviética como força política, inicia-se, na visão de Han, a Sociedade Pós-Moderna, reconhecida como a Sociedade do Desempenho. Neste novo modelo, as micropenalidades impostas pela sociedade dita civilizada foram progressivamente substituídos pelos códigos individuais de autopenalização, interna. Nunca se atribuiu tanto valor às escolhas de cada um. Em decorrência disso, crescia a ideia de atribuirmos à nossa iniciativa pessoal o que conquistamos ou desperdiçamos. O exemplo mais emblemático dessa mudança conceitual foi o slogan da campanha de Obama:"Sim, nós podemos!".

A figura do chefe foi perdendo importância à medida que nos tornamos patrões de nós mesmos. A transferência aos mais jovens desse tipo de pressão fez com que eles passassem a viver o desconforto da autocensura. Se estava determinado que "se eu quiser eu consigo", todo o fracasso significava que, ou eu não quis o bastante, ou simplesmente sou incapaz.

Esse modelo social que transformou os indivíduos em gestores de seus próprios destinos induziu a uma sensação inicial de maior liberdade, mas que era ilusória, porque, se a competição era dele com ele mesmo, em algum momento teria que assumir que suas decepções e fracassos eram impostas por despreparo, falta de perseverança ou simplesmente preguiça. Não ter em quem por a culpa virou uma fonte de enorme ansiedade.

O muito tentar e o pouco conseguir (porque em geral somos menos do que gostaríamos) produziu o que Byung-Chul Han chamou de a Sociedade do Cansaço, responsável por doenças neuronais como estresse, déficit de atenção, burnout, isolacionismo e, numa condição extrema, pelo suicídio. E então, de repente, pareceu bem razoável o que era só uma graça o meme de um matuto tentando explicar as mudanças: "Se é pra mudar que seja pra melhor, porque não tava bom, tava ruim, tava bem ruim, mas agora parece que piorou!".

J.J. CAMARGO

18 DE SETEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Temos de voltar a ser gaúchos

Na verdade, Porto Alegre sempre foi contra o gaúcho. Sou porto-alegrense, mas preciso reconhecer essa mancha. O gaúcho bravo, indômito e livre, o gaúcho autêntico, que desenhou com seu sangue as fronteiras do Brasil, o gaúcho mestiço de charrua, minuano, tropeiro paulista, negro africano e colono alemão e italiano, o gaúcho espanholado do Pampa sem cerca, esse gaúcho nunca teve nada a ver com as amenidades da Capital. Não é por acaso que Porto Alegre ganhou o duvidoso título de leal ao governo central, ao resistir aos Farrapos durante a revolução de 1835. Porto Alegre resistiu e, orgulhosa dessa subserviência à monarquia, inscreveu um "leal e valerosa" no brasão de sua bandeira branca.

É por isso que, quando chega essa etapa do ano, o 20 de Setembro, o gaúcho raiz começa a ser destratado e enxovalhado pela intelectualidade urbana que se presume superior. "Comemoram uma guerra que perderam", desdenham os bajuladores dos brasileiros. Não é verdade! Tudo o que os revolucionários de 35 reivindicaram foi atendido. Tudo. Quem cedeu foi o Brasil, não o Rio Grande.

A intenção de Porto Alegre era ser reconhecida pelo Brasil central, ser afagada por cariocas e paulistas, ser citada no Jornal Nacional, ser cenário das novelas da Globo. Talvez tudo isso acontecesse se ela fizesse justamente o contrário - se ela fosse mais gaúcha do que brasileira.

Olhe para os baianos. Curiosamente, os gaúchos que lutavam na Guerra do Paraguai chamavam todos os outros brasileiros de baianos. Era algo pejorativo, mas, ao mesmo tempo, mostrava a força da cultura da Bahia. E é assim que é: observe Caetano, Gil, Jorge Amado ou quaisquer outros baianos que "conquistaram" o Brasil. Eles jamais rejeitaram a Bahia. Ao contrário: exaltam-na. Eles moram no Rio ou em São Paulo, mas vivem a repetir que na Bahia tudo é diferente, tudo é especial, tudo é mágico.

O gaúcho, não. O gaúcho vai para o Rio e se abrasileira miseravelmente. Ele quer esquecer de onde veio, ele fala chiado, ele vira carioca. Os soldados da Guerra do Paraguai tinham razão: o baiano e o gaúcho são opostos. Só que, do século 19 para cá, o gaúcho foi devastado por sua própria autocrítica. O gaúcho passou a achar ridículo ser gaúcho, enquanto o baiano ama sua baianidade. E, sendo assim, sendo cada vez mais baiano, o baiano desperta a admiração de cariocas e paulistas de uma forma que o gaúcho abrasileirado gostaria de despertar.

É uma questão de filosofia e, também, de psicologia. É uma questão de você saber quem é. Para ganhar o apreço dos outros você tenta imitá-los. Não! Se você não gosta de quem é, como espera que os outros gostem? Seja você mesmo! Assuma-se! Como diria Nietzsche, "torna-te quem tu és". Chega de falar mal do 20 de Setembro. Sirvam nossas façanhas de modelo à nossa própria terra.

DAVID COIMBRA

18 DE SETEMBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

ORIENTAÇÃO EQUIVOCADA

Foi espantosa a forma como o Ministério da Saúde anunciou e depois justificou na quinta-feira a orientação de suspender a vacinação contra a covid-19 em adolescentes entre 12 e 17 anos sem comorbidades. Faltaram explicações plausíveis para sustentar a decisão, criticada de maneira unânime pelas demais autoridades da saúde e especialistas, por ser equivocada. Ao fim, restou confusão, ansiedade e insegurança para jovens e seus pais, além de o episódio ter se tornado mais um capítulo a preencher o histórico recente de condução atrapalhada do Programa Nacional de Imunizações (PNI) pela pasta.

Primeiro, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, alegou que a decisão estava baseada em uma série de reações adversas em adolescentes e pela investigação da morte de uma jovem em São Paulo. E também por uma suposta orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que não recomendaria a vacinação de pessoas saudáveis nessa faixa etária. Rapidamente, no entanto, a argumentação foi caindo por terra. Os especialistas se apressaram em explicar que os casos de reações têm uma proporção ínfima e, em relação ao referido caso fatal, não há qualquer indício de casualidade com a vacina. 

Ou seja, os benefícios seguem superando em muito os riscos. O imunizante em questão, o da Pfizer, foi o único aprovado até agora pela Anvisa para adolescentes e a agência não viu qualquer razão para rever sua decisão. A posição da OMS referida por Queiroga também não é verdadeira. Inexiste contraindicação. O organismo diz apenas que adolescentes sem comorbidades não são prioridade. O que é lógico.

A postura do Ministério da Saúde, portanto, é lamentável por carecer de base técnica e por ter sido tomada sem discussão profunda. Ainda na quinta-feira, Queiroga deu a entender que a decisão teria a influência do presidente Jair Bolsonaro, conhecido por opiniões apartadas da ciência. Na sexta-feira o ministro negou a interferência presidencial, mas mesmo assim restam dúvidas pelo prontuário de ingerências de Bolsonaro na área. Também se suspeita que a deliberação teria como verdadeira motivação a falta de vacinas da Pfizer para a terceira dose em idosos. Quando não há a devida transparência, sobram desconfianças.

Diante da falta de uma argumentação razoável, a maior parte dos Estados e municípios decidiu manter a vacinação dos adolescentes saudáveis. É um indício de que, pela forma atabalhoada como age, o Ministério da Saúde perde credibilidade com os demais entes federados - uma lástima, por tratar-se de uma pandemia que deveria ter uma coordenação federal, de cima para baixo, idealmente baseada na lógica e no bom senso. Diante de uma hierarquia precária, as gestões locais buscam alternativas próprias para aumentar a cobertura vacinal. Um exemplo de inventividade vem da prefeitura da Capital, que está usando dados do Cadastro Único (CadÚnico), com auxílio de georreferenciamento, para detectar os bairros onde há menos imunizados e partir para uma busca ativa.

Vários países com a campanha de imunização adiantada estão vacinando crianças e adolescentes e não apenas com o fármaco da Pfizer. As pesquisas têm atestado eficácia e segurança dos imunizantes aprovados. Os mais jovens têm menos complicações com a covid-19, é verdade, mas também transmitem. Deter a circulação do vírus, portanto, também passa pela proteção a esse grupo. O Ministério da Saúde, que deveria ser fonte de esclarecimentos e conscientização, se tornou neste episódio um agente a semear dúvidas e insegurança. Espera-se que, em breve, a decisão seja revista. 


18 DE SETEMBRO DE 2021
20 DE SETEMBRO

Na letra da história

A história da mulher gaúcha é tema de pesquisa da escritora Elma Sant?Ana há 30 anos, motivada pela vontade de preencher a lacuna da literatura referente a personagens femininas profundamente conectadas à origem e ao desenvolvimento do Estado. A gaúcha de Triunfo já publicou 11 obras dentro desta temática, sendo que sua maior paixão é a "menina dos pés descalços de Laguna", a catarinense que fez história no Rio Grande do Sul e que encorajou Elma a fundar o Instituto Anita Garibaldi.

- Anita seguiu os seus sonhos. Esses dias uma autoridade até disse: "Se não fosse Garibaldi, Anita não existia". Existia. Anita sempre teve luz própria. Era uma criança pobre que andava na beira do mar, sempre questionando as coisas, gostava de saber o que estava acontecendo. Ela era uma heroína por dentro, mas não tinha tido oportunidade. No momento em que conheceu a pessoa que ela realmente amou, ela seguiu seu coração, lutou e tocou pra frente os seus ideais.

Em 2017, "sem ter sequer um vestido de prenda", Elma foi patrona dos Festejos Farroupilhas do RS, exemplo das diferentes formas de se dedicar ao tradicionalismo e de trabalhar pela cultura do Estado. Em 2021, a escritora foi escolhida presidente da Comissão do Bicentenário de Anita Garibaldi, celebração decretada pelo governo do Estado que tem promovido eventos virtuais e presenciais em todo o território gaúcho, em memória da guerreira.

- O fato de ser escolhido o ano de Anita neste ano deu muita força para as mulheres, que estão se sentindo mais valorizadas. Quando é que uma mulher foi homenageada dentro do tradicionalismo? Esse reconhecimento ao protagonismo feminino foi muito lento, e sempre a mulher exerceu um papel bastante secundário, então vejo com bons olhos que elas estejam agora com muita força. As mulheres estão muito poderosas, e Liliana Cardoso é um exemplo disso tudo. Ela me diz: "Eu sou uma Anita negra, eu sou uma Anita farrapa" - afirma Elma.

 


18 DE SETEMBRO DE 2021
+ ECONOMIA

Startup compra imobiliária de 10 anos

A Loft, que após um aporte de US$ 425 milhões no início deste ano se tornou uma das startups do setor imobiliário mais valiosas da América Latina, comprou a Foxter, imobiliária de Porto Alegre com 10 anos de atividade.

Com valor de mercado de US$ 2,2 bilhões, a Loft é considerada o terceiro maior unicórnio do Brasil, atrás apenas de Nubank e Wildlife. No mês passado, havia comprado a CrediHome e se transformado na maior originadora de crédito habitacional para os bancos. Seu papel é facilitar a compra e venda de apartamentos por meio de experiência digital, com preços e informações verificados.

- A Foxter vai continuar operando como sempre, mas quando lançarmos nossa plataforma em Porto Alegre vai se transformar na distribuidora de nossos produtos na cidade - disse à coluna Kristian Huber, vice-presidente de Negócios e cofundador da proptech.

O "namoro" com a Foxter, relata Huber, começou no final de 2020 e foi oficializado com a primeira operação com produtos financeiros da Loft em janeiro. A estratégia das duas empresas é não informar o valor do negócio. A coluna quis saber como ficou a parceria da Foxter com o Quinto Andar fechada em meados de 2019. Huber afirmou que havia sido encerrada antes da aproximação da Loft. Essa foi a primeira aquisição da Loft de uma imobiliária tradicional, disse o vice-presidente:

- O fato de uma startup estar comprando uma empresa tradicional também é novo para nós, que já fizemos algumas aquisições. E o negócio foi fechado muito no intuito de dividir aprendizados, para nós, de mercado, para eles, de tecnologia, embora a Foxter já tenha mentalidade de startup, porque está sempre se reinventando.

Segundo Huber, a Loft quer parcerias "ganha-ganha" com as demais imobiliárias de Porto Alegre.

MARTA SFREDO

18 DE SETEMBRO DE 2021
NEGÓCIOS

O mergulho das grandes do RS no mundo das startups

Busca por inovação leva indústrias gaúchas tradicionais a formarem áreas estratégicas para captar oportunidades e soluções

A procura por inovação no mundo dos negócios não é uma novidade. Mas o ingresso de empresas gigantes e tradicionais do Rio Grande do Sul em ecossistemas setoriais tem sido um fator determinante para acelerar parcerias estratégicas, aquisições e o fomento de startups para o desenvolvimento de novos produtos e processos digitais.

A transformação em curso é visível nos números de M&As (fusões e aquisições, na sigla em inglês), medidos pela Consultoria Distrito, em parceria com a Associação Brasileira de Startups (ABS). No Rio Grande do Sul, foram 14 operações, entre janeiro de 2020 e julho de 2021. Juntas, elas somam US$ 108,7 milhões.

Do total, US$ 91,5 milhões foram consolidados apenas no primeiro semestre deste ano. Na comparação com 2018, por exemplo, quando foram fechados US$ 29,9 milhões em M&As, o volume envolvido saltou 206%.

Este é só um dos indicadores capazes de mensurar a velocidade das mudanças. Além dos negócios propriamente ditos, há um processo contínuo de busca por soluções fora do ambiente das empresas tradicionais. Conforme explica o secretário estadual de Inovação, Ciência e Tecnologia, Luís Lamb, isso toma forma mais acentuada no Estado a partir de 2019, com iniciativas como o Pacto Alegre.

- Grandes empresas buscam esse posicionamento, porque notaram que não se trata mais de uma questão de diferencial competitivo, e sim vital para a sobrevivência do negócio - comenta.

Descentralização

O movimento está ligado ao conceito de inovação aberta (OI, na sigla em inglês). Ou seja, a descentralização do modelo de negócios como alternativa para construir ou perceber que, na grande maioria das vezes, a solução de inovação que vem de fora faz muito mais sentido do que algo que poderia levar anos e demandar polpudos investimentos para ser gerado internamente.

O presidente da Associação Gaúcha de Startups (AGS), Wagner Bergozza, explica que a inovação aberta se alinha ao desejo de inovar das grandes empresas. Neste contexto, a pandemia serviu de catalisador, forçou a digitalização, e o que era remoto virou obrigatório. Segundo ele, as grandes corporações se aproximaram ainda mais dos ecossistemas de startups.

Giovanna Fiorini, gerente de Inovação Aberta na rede de empreendedores Endeavor, avalia que diante de um cenário de incertezas e muita complexidade, como o atual, as marcas mais tradicionais foram obrigadas a rediscutirem suas próprias estruturas físicas.

- Não importa o tamanho da empresa, ninguém pode prever e controlar o futuro - resume.

E os números não mentem. Na Endeavor, até 2019, eram 24 parceiras na área de OI. Agora, são 45, aumento de 87,5% em menos de dois anos. A Renner é uma das adeptas no Estado e, entre as demais empresas, estão Arezzo, C&A, MAG Seguros, Suzano, CSN, Dexco e Votorantim.

Para se ter uma ideia do cenário, no país, segundo dados da consultoria Distrito, no primeiro semestre de 2021, foram 412 transações entre grandes empresas e startups, que somam US$ 5,6 bilhões. Significa que, em apenas seis meses, o valor negociado é 60% superior aos US$ 3,5 bilhões registrados no ano passado.

Até 2017, este tipo de operação oscilava entre US$ 200 milhões e US$ 600 milhões. A partir de 2018, quando o patamar de US$ 1 bilhão é atingido, a curva passa a ser exponencial.

Conexão

Não é coincidência que nos últimos três anos, no Rio Grande do Sul, tenham surgido dois hubs (centros de conexão), financiados pela iniciativa privada. Um deles é o Hélice, em Caxias do Sul, que reúne algumas das principais indústrias do polo metalmecânico.

Outro, o Instituto Caldeira, fica na zona norte de Porto Alegre, no antigo Shopping DC Navegantes, e foi fundado por 40 gigantes da economia gaúcha, em 2019. Até o final de 2021, comenta o diretor- executivo, Pedro Freitas Valério, serão mais de 90 corporações plugadas. Um terço dos espaços pertence às fundadoras, e o restante é de startups e empresas de tecnologia vinculadas à nova economia.

Criado há três meses, o modelo de associados não residentes chegará a 2022 com 150 participantes. Significa que a área construída de 22 mil metros quadrados é apenas a ponta de um iceberg formado por uma base de empreendedores que respiram inovação.

- É muito difícil, para não dizer impossível, hoje em dia, fazer inovação 100% sozinho. Deixou de ser um capricho e se tornou questão de sobrevivência dentro deste novo contexto tecnológico. As empresas, independentemente do porte, entenderam a importância de atuar de forma colaborativa em busca de soluções - diz Valério.

A explicação para tamanha procura passa pelo aumento da dificuldade de identificar soluções de competitividade para negócios já estabelecidos, com o olhar voltado apenas da "porta para dentro".

RAFAEL VIGNA


18 DE SETEMBRO DE 2021
MARCELO RECH

Concurso de povo

Durante três décadas e meia, dos estertores do AI-5 ao impeachment de Dilma, a esquerda brasileira reinou praticamente sozinha nas ruas. O resto do espectro político brasileiro reunia-se sob a luz apenas em comícios de campanhas. Se avenida fosse seção eleitoral e cruzamento fosse urna, o Brasil teria sido um tapete vermelho de alto a baixo do fim dos anos 1970 até meados dos anos 2010.

Pôr gente na rua é sinal de poder de mobilização, mas, por si, não quer dizer muita coisa. As pessoas saem para as ruas por muitos motivos. Antes da pandemia, atos para celebrar o orgulho gay ou a fé evangélica reuniam literalmente milhões. Levar povo à rua, porém, é apenas um dos termômetros da opinião pública. Pode ser o mais vistoso, o mais barulhento e até o mais empolgante, mas não é o mais importante. O que conta de fato é o voto, seja ele na urna ou no Congresso.

Para quem não lembra, o Brasil assistiu nos idos de 1984 a uma das maiores demonstrações de fervor político de sua história. Na campanha das Diretas Já, que confrontava o governo militar para exigir voto direto para presidente, milhões de brasileiros promoveram um movimento de catarse cívica. Lula, Brizola e FH de braços dados cantavam com Fafá de Belém e centenas de milhares de vozes no asfalto em manifestações pacíficas que culminavam com a soltura de uma pomba branca. Um dos atos, em São Paulo, reuniu 1,5 milhão de pessoas. Mesmo diante de gigantescas massas defendendo algo tão popular e óbvio como eleição direta para presidente, o Congresso derrubou a Emenda Dante de Oliveira, e o Brasil só foi votar para presidente cinco anos mais tarde.

No Brasil de 2021, povo na rua é uma fotografia para as redes sociais. Se encher os olhos, o organizador se infla de coragem e discursa no calor do momento para compartilhar com seus seguidores. Se o ato estiver esvaziado, o organizador busca explicações e diz que o início de movimento é assim mesmo. Desde que a esquerda perdeu a hegemonia das ruas, as avenidas foram democraticamente divididas, mas é na maioria silenciosa - aquela que não vai a manifestações, e se impressiona ou faz tsc, tsc diante da TV ou do celular - que está a resposta para o futuro.

Tomar povo na rua como a realidade geral é mais ou menos como aquele candidato que cumprimenta milhares de pessoas e onde quer que vá recebe tapinhas nas costas e promessas de votos de toda a família. Quando as urnas são apuradas, ele não tem 10% dos votos necessários. Cai em depressão e se pergunta onde errou. Seu erro foi perscrutar a situação apenas pela aparência ou pelo que queria enxergar. Como esse candidato, quem interpretar o alma de um povo apenas pelo barulho das ruas vai ver a capa do livro. Mas o enredo é bem mais complexo, profundo e, muitas vezes, surpreendente.

MARCELO RECH

18 DE SETEMBRO DE 2021
J.R. GUZZO

O Brasil está condenado

A grande maioria dos políticos brasileiros, seja na Câmara dos Deputados, no Senado Federal ou em qualquer outra esfera da vida pública, raramente perde a oportunidade de privatizar cada vez mais a máquina do Estado e o uso dos impostos em favor das castas que são realmente as donas do Brasil - a começar pelos servidores públicos e, entre esses, pelos que ocupam os galhos de cima da árvore. É só olhar as decisões que tomam. A cada uma delas, a cada dia, se comprova que o cidadão brasileiro é quem serve aos servidores, e não o contrário; os servidores, sempre, são os servidos. O país está oficialmente condenado a trabalhar para eles.

É óbvio que o cidadão que mais paga por isso é a massa imensa de pobres que compõe a maior parte da população do país - qualquer conta paga em partes iguais por todos vai pesar mais, matematicamente, no bolso dos que têm menos. Acaba de acontecer de novo.

Mal haviam aprovado a aberração da nova "Lei Eleitoral", os deputados federais mataram a pauladas o projeto de reforma administrativa com a qual se tentava diminuir, da maneira mais moderada possível, uma pequena parte dos privilégios, da proteção e dos absurdos.

Não há nada nas decisões tomadas pelos deputados, absolutamente nada, que sirva a algum interesse do homem comum. Tudo, em cada detalhe, foi feito para servir ao servidor e deixar ainda mais claro que o Brasil tem dois tipos diferentes de cidadãos. Um deles, o funcionário de Estado, tem mais direitos que o restante da população. Pior: a minoria mais bem paga tem mais direitos ainda, o que torna a sociedade brasileira um caso extremo de desigualdade promovida oficialmente pela lei e pelo Estado.

A reforma administrativa, entre modestíssimas mudanças, propunha que daqui para diante os novos servidores públicos, a serem contratados por concursos que ainda nem foram feitos, não tivessem o privilégio irracional da estabilidade do emprego, algo que não existe e jamais existiu para os demais 220 milhões de brasileiros. Nem se pensou, é claro, em mexer nos atuais funcionários; era só para quem entrasse daqui para a frente.

É proibido não só mexer no presente; é proibido, também, melhorar o futuro. Os deputados decidiram que o privilégio, a injustiça e a diferença de classe têm de continuar exatamente como são hoje, para sempre.

Os políticos que mandam na sociedade brasileira podem estar dispostos a tudo - aceitam até que um deputado federal em pleno exercício do seu mandato esteja preso por força de um inquérito totalmente ilegal do STF. Mas não permitem que se toque em nada que possa afetar a privatização do Estado brasileiro - que se torna, cada vez mais, a propriedade privada das minorias que vivem às custas da população.

Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes - J.R. GUZZO