sexta-feira, 23 de dezembro de 2022


23 DE DEZEMBRO DE 2022
EDUARDO BUENO

Sonho de Natal

Depois que Charles Dickens - o "homem que inventou o Natal" - publicou, em 1843, seu clássico A Christmas Carol, escrever um conto natalino virou obrigação, quase um fardo, para qualquer escritor que se preze. Não sei se me prezo, mas sei que sou escritor. Por isso, escrevi meu conto de Natal: turbulento e sombrio de início, com reviravolta redentora - dickensiana, digamos - ao final, como convém ao espírito natalino. Publiquei-o nessas páginas, há exatos cinco anos.

Mas cinco anos se passaram desde que voltei a ZH e meu sonho de Natal não se concretizou. Nem aqui, nem fora daqui. Tal devaneio consiste em não ter que escrever o que se passa pela minha cabeça e julgo ter que comunicar. Eu apenas pensaria e, num passe de mágica - um milagre de Natal! -, o texto brotaria da página, conciso, luminoso, translúcido e com certeza transcendente. Mas, não. Continuo tendo que labutar, feito Kerouac, suando uma camiseta atrás da outra; como Henry Miller parado diante do retrato de Dostoievski numa vitrine noturna na rua enregelada; como o próprio Dostoievski sob a luz baça de vela em seu catre de prisioneiro na Sibéria. Feito Dickens, sob peso das dívidas e das dúvidas, escrevendo Uma Canção de Natal.

E assim, já que o sonho de transmitir tudo por um toque do dedo - igual à pintura de Michelangelo na qual Deus toca o homem (e pela amarga constatação de que não sou um deus) - decidi... largar. Sim, amigos, larguei. Chega. Basta. Game over. A última tentativa - às vésperas do nascimento do pobrezinho de Belém (já ouço o tilintar dos sinos?) - foi ver esta coluna materializar-se na tela num piscar de olhos. De novo, não rolou. Então, para o desespero de milhões de leitores, admiradores e fãs - e rancor ainda maior de meia dúzia de detratores -, digo ao povo que fui. E não adianta cercar a redação com tridentes e archotes, pois a firma, feliz em conter a sangria representada por meus polpudos emolumentos, já concordou.

Sério agora (não que meu sonho não o fosse). Envolvido na criação de duas séries e dois documentários e escrevendo dois livros (um deles atrasado há três anos), e sem que nada disso se concretize sem esforço, decidi me aliviar do peso dessa coluna de Hércules. Bem sei que será um baque na sua vida, mas você poderá continuar me seguindo no canal Buenas Ideias, no YouTube, onde sigo jogando palavras ao vento, sem ter que medi-las - e muito menos escrevê-las.

Sou grato à RBS, onde comecei minha carreira há meio século. Sei que as portas seguem abertas. Tanto é que talvez aceite, no futuro, um cargo no conselho. Nasci para dar conselhos. Basta ignorá-los que é sucesso garantido. Como num sonho de Natal.

EDUARDO BUENO

sábado, 17 de dezembro de 2022


17 DE DEZEMBRO DE 2022
CRISTINA BONORINO

ATÉ O ÚLTIMO MINUTO

Estou escrevendo na quinta-feira. Já se passaram 13 dias desde o último bloqueio de recursos para a educação (último porque muitos outros ocorreram) feito pelo atual governo federal. Havia sido anunciado que o bloqueio fora revertido, porém na quarta-feira verificamos que apenas parcialmente. Os bolsistas da Capes, por exemplo, receberam o salário do mês - com 15 dias de atraso. Mas não os bolsistas das universidades públicas - e nenhum recurso foi liberado para estas.

Há semanas os reitores das universidades instam junto à população, ao Legislativo e ao Judiciário que os auxiliem a convencer o governo que libere os recursos para pagar os serviços essenciais e os salários dos bolsistas. É quase inacreditável que dias antes de deixar o governo essa administração escolha penalizar mais uma vez a educação - especialmente as universidades federais. Na verdade, essa foi a postura constante desde o início deste governo: não apenas penalizar, mas atacar, desmoralizar e publicar enxurradas de mentiras sobre as universidades. Por isso, não é completamente inacreditável.

Desmoralizar a principal fonte de pesquisa e geração de pensamento crítico e conhecimento é uma das principais pautas ideológicas do governo Bolsonaro. Porque o pensamento crítico é o seu maior inimigo, aquele que não conseguem derrotar. Os últimos quatro anos viram um desfile dos piores ministros da Educação da História do Brasil. De outras áreas também - a Saúde e o Meio Ambiente também viveram e vivem momentos terríveis. Mas a educação foi premiada com ministros insanos, corruptos, incompetentes e, para os últimos dias, inúteis.

A educação, como a saúde, funcionou no Brasil no piloto automático. Os funcionários de carreira são tão bons, tão comprometidos que continuaram trabalhando enquanto todas as estruturas de governo eram sucateadas. Até os terceirizados, como limpeza e segurança das universidades, continuam trabalhando neste mês, mesmo sem pagamento. Os bolsistas, que mantiveram a universidade ativa durante a pandemia, estão sobrevivendo com empréstimos de chefes e colegas.

Eu vivi toda a minha vida em universidades: públicas e privadas, nacionais e estrangeiras. Nenhuma, posso garantir, é perfeita. Nenhuma é composta apenas de pessoas ótimas ou horríveis. Todas precisam de atualizações de filosofia e funcionamento. E todas, sem exceção, estão cheias de pessoas inteligentes, que estudam e ensinam por vocação.

A universidade é, no Brasil, a maior fonte de recursos humanos para desenvolver e implementar tecnologias estratégicas. Professores e alunos desenvolvem múltiplos projetos de interesse comunitário, há muito tendo compreendido que só assim a universidade tem sentido. Todas querem interagir com empresas e modernizar transferências de projetos e produtos. E todas formam pessoas com pensamento crítico, apesar de todos os ataques daqueles que tem horror a isso. Por isso, até o último minuto, vamos resistir. E vamos prevalecer.

CRISTINA BONORINO

17 DE DEZEMBRO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

CORAÇÃODE PORCO

Em janeiro deste ano, o coração de um porco foi transplantado para um americano de 57 anos. Bateu no peito do receptor durante oito longas semanas antes parar; não por falha própria, mas como consequência de uma infecção por citomegalovírus, agente oportunista que se aproveita da imunossupressão associada aos transplantes.

Realizado na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, foi o primeiro transplante em que um ser humano recebeu um órgão doado por um animal (xenotransplante).

O resultado chamou a atenção do mundo científico, porque órgãos ou células de outra espécie quando transferidos para seres humanos, são reconhecidos como estranhos e começam a ser rejeitados em minutos. Na comparação, oito semanas são uma eternidade.

Duas semanas atrás, a revista Nature analisou os avanços no campo dos xenotransplantes.

Meses depois desse xenotransplante cardíaco, dois grupos independentes fizeram os primeiros xenotransplantes renais. Rins de porcos foram transplantados em três pacientes que se encontravam na UTI em morte cerebral legalmente documentada. Os rins recebidos produziram urina por dois ou três dias, sem exibir sinais de rejeição.

Nos meses de junho e julho, foram realizados dois xenotransplantes com coração de porco em pacientes com morte cerebral. Esses casos foram precedidos por centenas de transplantes de órgãos de porcos em babuínos, muitos dos quais sobreviveram anos depois de receber fígados, corações, rins ou células beta do pâncreas, produtoras da insulina que falta a quem sofre de diabetes.

Nos anos 1960, pesquisadores experimentaram usar babuínos e chimpanzés como doadores de órgãos para seres humanos, com algum sucesso, mas as dificuldades para criá-los foi limitante. Os porcos, ao contrário, são produzidos em larga escala pela agropecuária. Além de ter órgãos com dimensões e anatomias próximas da nossa, podem ser criados em condições controladas e submetidos a testes mais demorados para estudos genéticos e pesquisa de agentes infecciosos, possibilidade que os doadores humanos não dispõem em virtude da urgência em transplantar o órgão antes que se torne inviável.

Os transplantes de órgãos e células de porco puderam avançar a partir do início dos anos 1990, quando David Cooper, cirurgião do Massachussets General Hospital, em Boston, descobriu que a rejeição ocorria principalmente quando o sistema imunológico reconhecia na superfície das células do órgão recebido uma molécula de açúcar: a alfa-Gal. Silenciar por manipulação o gene responsável pela produção dessa molécula, fazia com que primatas não humanos tolerassem o órgão transplantado por muito mais tempo.

O surgimento da técnica CRISPR-Cas9 nos anos 2010 tornou possível modificar genes com mais facilidade, não apenas o que codifica alfa-Gal, mas os que codificam outras moléculas envolvidas no mecanismo de rejeição. Porcos transgênicos com múltiplas alterações genéticas estão sendo desenvolvidos em várias companhias de biotecnologia, nos Estados Unidos e na Europa.

O animal que doou o coração para o primeiro transplante na Universidade de Maryland, por exemplo, foi submetido previamente a 10 manipulações: quatro de seus genes foram modificados e seis genes humanos introduzidos em seu genoma para induzir tolerância imunológica, evitar inflamação e a coagulação do sangue no interior do coração transplantado.

A aprovação de xenotransplantes em seres humanos depende das agências reguladoras internacionais (FDA e Agência Europeia). Os obstáculos são a exigência de estudos com grandes números de animais. Não parece muito lógico, porque a resposta imunológica em outras espécies é diferente da nossa. Drogas que impeçam a rejeição num primata não humano podem não agir em humanos.

Xenotransplantes para receptores em morte cerebral ajudam a colher dados, mas envolvem limitações para manter os pacientes vivos por mais de alguns dias. Área muito promissora é a de xenotransplantes de células pancreáticas produtoras de insulina, porque requerem alterações genéticas mais simples. Experiências com babuínos diabéticos mostram que os animais podem sobreviver pelo menos dois anos sem receber insulina.

Transplantes de células e órgãos de porcos transgênicos para seres humanos deixaram de parecer ficção científica.

DRAUZIO VARELLA

17 DE DEZEMBRO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

O PATRIOTÁRIO

O Patriota é título da obra publicada em 1774 pelo crítico literário inglês Samuel Johnson (1709-1784), quando quis diferenciar as pessoas que têm por sua pátria amor generoso e verdadeiro daqueles que usam a palavra patriota para camuflar interesses pessoais, com falso amor à liberdade. Em um jantar com amigos, em 7 de abril de 1775, Johnson proclamou a frase definitiva: patriotism is the last refuge of a scoundrel, ou seja: "o patriotismo é o último refúgio de um canalha"; ele tinha em mente os hipócritas que fingem defender a pátria quando de fato a degradam com suas ações. É antigo o fenômeno que ora se agrava no Brasil.

Ous, com plural óta, em grego, é orelha; há uma etimologia que vê a origem da palavra otário no lunfardo, dialeto portenho, e associa o termo a leões e lobos marinhos, mamíferos da família das otarridae, que se diferenciam das focas (phocidae) por possuírem pequenas orelhas. Esses animais, ditos otária, se deixavam abater facilmente na costa argentina. Atualmente, todos sabem que otário é quem se deixa enganar facilmente, trouxa, pacóvio ou babaca.

Chegamos então à precisa palavra patriotário, título da música lançada em 13 de novembro por Juliano Maderada, mesmo autor do sucesso "Tá na hora do Jair já ir embora", melhor hino da demissão do genocida. O neologismo, todavia, apareceu por vez primeira no poema Seu Metaléxico, do grande poeta e tradutor José Paulo Paes (1926-1998), no livro Meia Palavra (1973): "economiopia / desenvolvimentir / utopiada / consumidoidos / patriotários / suicidadãos". 

A palavra é também relacionada ao termo manifestoche, alegoria perfeita criada pela Acadêmicos de Tuiuti, no Carnaval de 2018, para representar o bando de otários que foram às ruas usurpando as cores pátrias, achando-se heróis patriotas contra a corrupção, quando eram de fato os inocentes úteis de um golpe de Estado, raiz do drama político dos últimos anos, que ora começamos a desmontar. Patriotários são crentes, conservadores, ignorantes e obtusos; são tipos lombrosianos, sem pudor de exibir sua condição patética em público.

Todavia, como pensava Johnson, há bom patriota, mesmo que hoje esteja constrangido; é quem estuda a história da sua pátria e tenta compreendê-la sem ser manipulado por ignorantes ou oportunistas malévolos. Com metas nobres, bons patriotas querem seguir o artigo terceiro da Constituição Federal (objetivos fundamentais da República), e: I. Construir uma sociedade livre, justa e solidária; II. Garantir o desenvolvimento nacional; III. 

Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV. Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Isso é tudo o que os patriotários abominam, quando vestem-se de caturritas ou trajes militares e vão às ruas fazer idiotices que ora ampliam nossa vergonha internacional e interplanetária.

Entre os patriotários há também terroristas que agem insuflados e protegidos por autoridades atuais, do governo e das polícias. Mas já vão embora, e os patriotas reais ora voltam à cena, em festa.

FRANCISCO MARSHALL

17 DE DEZEMBRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

A palavra mito está associada a uma narrativa não confiável. Sua existência real não pode ser comprovada. Isso é mito, quer dizer, isso não existe. Criamos textos como 10 mitos da nutrição para falar de falsas crenças. O mito é mágico, impreciso, todavia resistente. O mito sempre permanece. Por quê?

De muitas formas o mito tem força. A primeira é explicar aquilo que é complexo demais de outra forma. Uma constelação, como a Via Láctea, fica mais poética se imaginarmos que era o leite de Juno, ao afastar o jovem bebê Hércules, que sugava o divino seio com energia excessiva. A origem de uma galáxia é complicada; o mito da deusa machucada pelo enteado é mais rápido e belo.

Papai Noel é mais fácil do que o sistema de compra e venda do mercado, no fim do ano. "Por que ganhei presente, mamãe?" Resposta um: "Houve um acordo na década de 1960 sobre o 13º salário. Ele deveria colaborar para injetar capitais no varejo e ajudar a liberar estoques retidos. Do ponto de vista psicanalítico, há, também, nossa culpa como pais, combinada com o reforço simbólico do calendário aleatório. Assim, decidimos comprar esta surpresa para você". Resposta dois: "Um velhinho chamado Papai Noel recompensa crianças ao longo do ano boazinhas".

Use as duas respostas para uma criança de cinco anos e analise o primeiro patamar do mito. Porém, os exemplos cometem uma simplificação injusta: o mito seria uma resposta infantil, ao passo que a científica seria a de adultos. O mito atinge o mundo das pessoas crescidas - de forma direta e insistente.

O mito organiza em uma narrativa os valores de uma sociedade. O castigo a quem infringe normas vem mais rápido pelo mito. Duendes e espíritos obsessores atacam a casa de quem deixa louça suja. Fantasmas assombram quem não cumpriu disposições finais do falecido. Assim, quando uma sociedade cria dispositivos morais e interditos, cria também mitos de punição para consagrar tais valores.

O lugar de castigo além da vida faz surgir, em quase todas as culturas, a ideia de inferno. Infernos e paraísos são espelhos míticos do mundo real e terreno.

O mito compensa, simboliza, organiza, explica e torna tudo coerente. O mito mostra forças que atuam para regular o universo. Édipo tentou escapar da profecia e descobriu que era impossível. O mito é uma justiça inevitável: Cassandra tinha razão sobre o fim de Troia. Nostradamus sempre tem razão; se não tiver, a interpretação das suas centúrias torcerá o texto até que tenha. O mito é um eterno retorno.

Não há sociedades sem narrativas míticas. A ultra-ateia URSS criou inúmeros mitos sobre a superioridade da experiência soviética. Inventam-se heróis, protetores, entidades e até múmias, como a de Lênin, para serem relíquia material de um valor simbólico.

Lênin existiu. Seu corpo preservado é apropriado pelo Estado de forma teatral e permanente para criar um mito em torno de Vladimir Ilyich Ulianov, o nome não mítico do corpo da Praça Vermelha. Papai Noel, de vermelho, ajuda o capitalismo; Lênin, de preto, ampara o socialismo. Ambos possuem funções míticas. Sim, Papai Noel nunca matou ninguém, mas há mais crianças com medo dele do que de Lênin. A Guerra Fria ainda não habita o imaginário infantil.

A leitura inicial é de Joseph Campbell (1904-1987): O Poder do Mito. O norte-americano era católico e começou sua busca pelas máscaras que o herói poderia assumir. Talvez o estudo feito sobre o sânscrito tenha aberto seu mundo para a universalidade de algumas narrativas. Quase todo mundo que lê o livro dele tem uma iluminação. É uma obra baseada em um documentário. Isso ajuda na rapidez e beleza da narrativa. 

Houve muita crítica acadêmica a Campbell (de fato, algumas possuem boa base). Eu recomendo sempre aos alunos que leiam O Herói de Mil Faces e, depois, As Máscaras de Deus. A partir delas, tenho esperança de que possamos ler obras diferentes sobre mitos. Narrativas (como a Teogonia, de Hesíodo, ou o longo poema Mahabharata) ajudam a ampliar nossa visão dos mitos.

A grande tentação dos especialistas em mito é a negação da história. Jesus passa a ficar ao lado de Krishna e de Osíris, e funções simbólicas ocupam o lugar da especificidade de cada cultura. Como ocorre na obra de Campbell, vemos similaridades universais em abundância, e a humanidade vira uma coisa mais homogênea. Talvez unir todos os homens em um único sistema seja a tentação mítica dos especialistas em mitos. Em ciências sociais, essa característica é chamada pela longa palavra de fenomenologia. Em literatura, é chamada de humanidade...

Conhecemos muito de todos os nossos valores ao examinar mitos de fundação, narrativas de origem das coisas e mitos morais. Não é possível estudar um grupo caso se descartem como bobagens mágicas seus mitos.

Nunca nos esqueçamos disto: bons leitores atraem presentes sublimes de Papai Noel. O bom velhinho generoso ajuda a construir o grande mito da infância feliz.

LEANDRO KARNAL

17 DE DEZEMBRO DE 2022
MONJA COEN

CULPAR ALGUÉM OU CORRIGIR ERROS?

Quantas pessoas, empresas, indústrias perderam junto com o time brasileiro no dia 9 de dezembro de 2022? Queremos encontrar um culpado, um responsável. Talvez a responsabilidade tenha sido coletiva. Quem escalou os jogadores naquela ordem para bater as decisivas penalidades máximas? Vocês notaram que ninguém responde a essa pergunta? Teria sido uma decisão tomada pelo próprio time?

Importante é perceber o erro para corrigir - nunca mais repetir. Será que todos nós confiamos e acreditamos que os jogos são isentos de pressões e interesses políticos e econômicos? Ou cremos que há um destino decidido por seres celestiais?

Pouco se falou sobre a arbitragem e suas faltas. Houve de tudo. Houve uma tristeza e nosso amigo Tite saindo cabisbaixo, costas curvas. Não foi covardia, gente. Foi tristeza, desapontamento, cansaço.

Conhece a exaustão que vem quando seu sonho, seu projeto, seu trabalho não dá o resultado esperado? Quando os jogadores não atenderam seu pedido para segurar a bola e a Croácia marcou o gol de empate?

Nosso primeiro jogador a bater um pênalti fraco, macio, na mão do goleiro. Muito jovem e inexperiente - sua primeira Copa do Mundo. Um excelente jogador, mas imaturo emocionalmente.

Vocês viram como o grande artilheiro da Croácia acertou o gol - e marcou nem no começo nem no fim? Notaram o Messi sendo o primeiro a marcar pela Argentina no jogo seguinte? Viram o Neymar murmurando que ele sempre é o último - como se isso fosse uma regra fixa?

O mundo é movimento e transformação. O que é adequado hoje não é o mesmo que foi ontem. Richarlison fez dois gols excelentes em uma partida. No dia seguinte, não conseguia pegar nenhuma bola - chegava antes ou depois. O emocional ficou pesado.

Todos - e eu inclusive - os elogiamos e tivemos tantas expectativas. O mesmo com o jogador de Portugal substituindo Cristiano Ronaldo. No jogo decisivo onde se perderam os três gols do dia anterior, que deram a ele o direito de ficar com a bola do jogo?

Ficou pesado. Carregar o peso da esperança de milhões não é fácil. Maturidade emocional.

Sem querer, sem intenção, como dizemos no Zen, Richarlidson e o jogador de Portugal foram surpreendentes. Já quando eles - e todos nós - esperávamos seus gols, não conseguiram. A intenção sem intenção dá resultados: anos de treinamento adequado, boas condições físicas e a mágica do momento decisivo - como falava o grande fotógrafo Cartier Bresson.

Bresson tirava fotos excelentes, inúmeras, e insistia em falar sobre o momento do extraordinário, o instante decisivo em que nos maravilhamos. O salto, o acertar livre. Jovem, nós os envenenamos com nossas expectativas? Ou teria havido algo que aconteceu nos bastidores -muita visibilidade incomodou quem ficou na meia luz? Pressões emocionais.

Há tanto a considerar, corrigir, melhorar. Em um dia excelente, passes perfeitos. Noutro dia, nada dá certo. A força não estava lá. A bola não obedecia, os passes errados, os juízes e bandeirinhas falhando junto com os times. Haveria algo mais, invisível e menos divino interferindo na decisão?

Quero muito acreditar que não. Mas fica a dúvida. Por que celebraram em um banquete dourado antes da final? Ouro é usado em homeopatia contra depressão - é remédio...

Corrigir erros significa reconhecê-los e não os repetir. Agora insisto: não coloquem a culpa neste ou naquele. Somos todas vítimas de sistemas opressores.

Sugestão para a próxima Copa: o time do Brasil deve ser de jogadores que vivem e jogam nos times brasileiros, com técnicos que dirigem esses times, mesmo nascidos em outros países.

Vamos tentar outra vez? Mãos em prece

MONJA COEN

17 DE DEZEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL - caio cigana INTERINo

A força da comunidade

A chamada Festa da Colheita é uma espécie de encerramento do calendário de eventos relacionados à Oktoberfest de Igrejinha, que neste ano (foto acima) voltou ao formato usual, após um hiato de dois anos devido à pandemia. É mais uma celebração, mas tem um caráter que vai muito além do divertimento. Marca a prestação de contas da organização da tradicional festividade de outubro e é quando se anuncia a divisão dos recursos arrecadados nos dias de animação, dança, chopp e culinária típica alemã. O presidente do Hospital Bom Pastor, Wolmir Müller, subiu ao palco para receber um cheque simbólico de R$ 1 milhão. A verba, ainda sem destinação específica, será utilizada para qualificar e ampliar o atendimento à população do município do Vale do Paranhana e de outras cidades próximas.

A distribuição do lucro da Oktoberfest de Igrejinha, que agora chegou à 33ª edição, é uma prática de quase duas décadas. Neste ano, serão R$ 5,3 milhões divididos. Uma parte menor, R$ 902 mil, fica no fundo de reserva e de investimentos da Associação de Amigos da Oktoberfest de Igrejinha (Amifest), promotora do evento. O restante, cerca de R$ 4,4 milhões, retornará à comunidade em forma de serviços em áreas - além de saúde - como segurança, educação, patrimônio histórico, cultura, esporte e assistência social. Serão beneficiadas 92 entidades locais e de municípios das redondezas.

Como isso é possível? Pelo engajamento da comunidade. A Oktoberfest de Igrejinha é realizada basicamente com a força do voluntariado. Aproximadamente três mil pessoas se somam para trabalhar sem custos para a festa, que dois meses atrás atraiu mais de 200 mil visitantes. Excetuando-se os serviços de segurança e limpeza, contratados, todas as demais tarefas, da gestão ao atendimento aos frequentadores do evento, são exercidas por voluntários. Sem esses custos, o resultado financeiro é alto e volta para a própria comunidade em forma de serviços essenciais.

- O sucesso da festa está atrelado aos voluntários - resume o analista de controladoria Tiago Petry, presidente da 33ª Oktoberfest de Igrejinha, avaliando que o espírito de ajuda mútua remonta à época da colonização da região, no século 19, quando os imigrantes alemães tinham de fazer mutirões para erguer benfeitorias nas propriedades e dar conta de lidas mais trabalhosas.

Assim, além de festejar, a cidade encontrou uma forma de também suprir carências e qualificar o atendimento à população. Não só de Igrejinha, uma vez que as pessoas que doam trabalho para o evento também são de municípios próximos. Por mais que prefeituras ou governo do Estado se esforcem, em regra não há recursos orçamentários suficientes para todas as demandas. A mobilização da comunidade local banca obra complexas e singelas. Desde a construção de um novo bloco cirúrgico do Hospital Bom Pastor ao conserto do telhado de uma instituição de amparo a crianças e adolescentes em situação de risco. Os beneficiados também têm de prestar contas do recursos recebidos e devem se comprometer a não usar a verba para gastos ordinários, como folha de pagamento. O dinheiro se destina a investimentos e melhorias no atendimento à população local.

Mesmo que não exista entidade que ateste, a organização diz desconhecer outro caso no país de tamanha união de esforços de pessoas dedicadas a viabilizar um evento sem cobrar nada pelo trabalho. Assim, consideram ser a maior festa comunitária do Brasil. O empenho colaborativo também rendeu à Igrejinha o reconhecimento do poder público gaúcho como Capital Estadual do Voluntariado. Credenciais formais à parte, o certo é que é um belo exemplo a mostrar como uma coletividade comprometida pode melhorar a qualidade de vida da população, enquanto brinda e celebra a sua cultura.

Investimentos em saúde, segurança e educação

Todos, um dia, vão precisar de atendimento no hospital, diz o presidente da 33ª Oktoberfest de Igrejinha, Tiago Petry, ao explicar a prioridade que a instituição local recebe no repasse dos recursos da festa do município. A própria unidade prestadora de cuidados de saúde contabiliza, desde 2014, mais de R$ 3 milhões recebidos, sem contar a quantia de R$ 1 milhão do evento de 2022. E isso que, nos dois anos anteriores, devido à pandemia ter limitado as festividades, o direcionamento de verbas escasseou.

Com os R$ 925 mil obtidos entre 2015 e 2016, por exemplo, foi possível construir o centro cirúrgico no Hospital Bom Pastor. Mas outras casas de saúde da região também são agraciadas. Neste ano, foram R$ 290 mil direcionados a instituições de municípios próximos.

- Os recursos repassados anualmente pela Amifest ao Bom Pastor têm sido a grande fonte de investimentos e possibilitado a ampliação de serviços e da estrutura física, a exemplo da emergência, do centro cirúrgico, do centro obstétrico, as aquisições de equipamentos, móveis e melhorias internas. A qualificação do hospital depende desses repasses que acontecem anualmente. Toda a região se beneficia - diz o diretor-geral do hospital, João Schmitt.

O faturamento de edições anteriores da Oktoberfest permitiu ainda a aquisição de ambulâncias e equipamentos para os Bombeiros Voluntários de Igrejinha, viaturas para a Brigada Militar utilizar no policiamento da cidade e da região e desfibriladores e desencarceradores para o Corpo de Bombeiros Militar.

O comandante da unidade dos Bombeiros Voluntários de Igrejinha, Joni Rodrigo Feltes, é outro a reconhecer a importância da ajuda da Amifest. Sem esses recursos, precisariam buscar outras formas de ter veículos e itens indispensáveis para o trabalho.

- Teríamos de recorrer a doações da empresários, rifas, bailes, pedágio. Os repasses vêm ao encontro das nossas maiores necessidades - diz Feltes.

Além de materiais como equipamentos de proteção individual, os bombeiros voluntários já conseguiram, em anos anteriores, adquirir uma ambulância com o dinheiro arrecadado na Oktoberfest. O veículo será substituído por outro. Um furgão foi comprado com recursos de um convênio com a Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR), mas ainda faltava verba para transformá-lo em uma unidade de resgate apropriada, o que será viabilizado com o repasse de R$ 121,5 mil da festa deste ano.

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) da cidade é outra beneficiária. Já ganhou veículo adaptado para o transporte das crianças e foi contemplada com dinheiro para a construção de uma piscina térmica. A educação não foi esquecida. A verba possibilitou a instalação de aparelhos de ar-condicionado nas salas de aula de toda a rede municipal e a aquisição de notebooks para alunos e professores.

INFORME ESPECIAL

17 DE DEZEMBRO DE 2022
J.J. CAMARGO

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL,A FALTA QUE FAZ

De acordo com a psicologia moderna, inteligência emocional é a capacidade de identificar e lidar com emoções e sentimentos, nossos e dos outros. Atribui-se a Darwin a primeira referência a essa forma diferenciada de inteligência, ainda que ele tenha se referido a ela como "expressão emocional".

O principal autor que organizou conceitos e hierarquizou critérios de reconhecimento foi Daniel Goleman, no seu famoso best-seller Inteligência Emocional, de 1995. O autor apresentou resultados de novos estudos sobre a mente humana, associando diversos aspectos da nossa personalidade às habilidades cognitivas. Entre as suas principais contribuições técnicas, está a criação do conceito de Quociente Emocional (QE), que funcionaria como um complemento ao Quociente de Inteligência (QI). Segundo ele, a capacidade de uma pessoa de lidar com suas emoções é muito mais importante que a sua competência de processar informações.

É conhecida a experiência de empresas que, ao selecionarem candidatos a postos de executivos, incluíam entre as perguntas formais algum relato que envolvia emoção para avaliar a reação dos entrevistados. Estes ignoravam que um poderoso zoom estava de tocaia a flagrar os olhos secos, que deviam ser sumariamente eliminados.

Ora, se inteligência emocional é festejada como um pré-requisito de quem pretenda interagir positivamente com colegas ou comandados, ajudando-os a alcançar um equilíbrio harmonioso no microcosmo que eles frequentam, imagine-se então que o alvo dessa dependência seja um paciente, com necessidades e carências dos seres humanos normais, acrescido da angústia do sofrimento, e do medo do desconhecido. E concluiremos que não há nenhuma atividade humana tão exigente de inteligência emocional quanto a medicina.

Durante boa parte da minha formação médica, ouvi professores de renome recomendarem que devíamos manter uma certa distância dos sentimentos dos pacientes para que não comprometêssemos a neutralidade indispensável nas tomadas de decisão. Demorei anos para perceber que estávamos diante de uns rígidos de afeto, aliviados por terem encontrado uma justificativa tola para a irrecuperável falta de empatia.

Como ocorre com todas as mudanças de comportamento, uma das tarefas mais desafiadoras da espécie humana, foram necessários muitos anos para que se percebessem os equívocos e se recrutassem consciência e coragem para mudar o rumo. Sem contar que, não raro, estes atributos só são despertados pela chegada de novos desafios, como tem ocorrido na última década com os progressos desconcertantes da inteligência artificial, e a certeza que quem não se adequar os novos tempos será atropelado por ela.

Não se sabe quantos médicos do futuro serão desempregados, mas depois que se aprendeu que o ponto fraco da medicina robotizada é lidar com os sentimentos humanos, porque esses, pela subjetividade das informações, não se consegue incluí-los fluxogramas que alimentam a máquina, ficou fácil identificar os profissionais que serão precocemente substituídos pelo robô: aqueles que, por rigidez afetiva, mais se pareçam com ele.

J.J. CAMARGO

17 DE DEZEMBRO DE 2022
DEZEMBRO LARANJA

O CUIDADO COM A PELE

CHEGADA DO VERÃO, COM DIAS MAIS LONGOS E CORPO À MOSTRA, TRAZ À TONA UMA QUESTÃO COM A QUAL DEVERÍAMOS NOS PREOCUPAR O ANO TODO: OS EFEITOS DO SOL

Proteção contra o sol não deve ser assunto só em época de calor, praia, piscina e pouca roupa. O cuidado com a saúde da pele precisa ser permanente para prevenir o câncer de pele, o mais frequente no Brasil e no mundo, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), do Ministério da Saúde. Há anos, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) se mobiliza em nome do Dezembro Laranja, mês alusivo à conscientização a respeito da doença.

O ponto central da prevenção é a observação de pintas pelo corpo. Pessoas de pele, olhos e cabelo claros, com grande número de sinais e histórico pessoal (o problema pode ser reincidente) ou familiar de câncer de pele precisam ter atenção redobrada, mas a prática de analisar a forma e a cor dos sinais é medida que vale para todos, como reforça a dermatologista Analupe Webber, presidente da regional do Rio Grande do Sul da SBD.

- Temos que prestar atenção em sinais que vão crescendo, sangram, coçam. Sinais que não estavam ali, surgem e crescem, sinais fora do padrão. Por exemplo, a pessoa tem todos os sinais marrons-claros, aí surge um sinal preto. Tem que ver - alerta Analupe.

Pintas aparecem pelo corpo ao longo de toda a vida. Segundo a médica, o indivíduo nasce com um número pré-determinado de sinais, mas, com a exposição ao sol, essas marcas podem mudar e aumentar.

- Tem a questão genética e a ambiental. A pessoa com tendência a ter pintas e câncer de pele, se sofre exposição solar, terá mais chance de ter câncer de pele - explica Analupe.

Só um profissional especializado pode diagnosticar o problema, mas é tarefa de cada um o autoexame. Nas áreas de difícil visualização, como as costas, pedir ajuda de alguém para essa inspeção é o ideal. O auxílio do parceiro ou da parceira é importante e acaba sendo decisivo para o encaminhamento de diversos casos aos consultórios.

Para quem tem muitas pintas, a tarefa é mais difícil - como saber se esta ou aquela sofreu alteração na cor ou no tamanho? Por isso é recomendada uma consulta anual de revisão com o dermatologista. O profissional utiliza o dermatoscópio, lupa com capacidade de aumento de 10 vezes. A certeza do diagnóstico se dá com biópsia.

Cuidar da pele não significa viver sem sol, fundamental para o bem-estar, a modulação do humor e a síntese de vitamina D. O que especialistas frisam é que essa exposição deve ser feita com moderação e proteção adequada.

- Os bloqueadores não bloqueiam 100% da radiação, mas diminuem a chance de queimaduras. A exposição ao sol deve ocorrer em horários sem tanta radiação ultravioleta B, que é a que causa queimaduras, ou seja, fora do período das 10h às 16h - orienta a presidente da SBD-RS.

Os cuidados mais específicos

O filtro solar é imprescindível em todas as estações do ano. No verão, com tantas partes do corpo à mostra, a necessidade se intensifica. Deve-se optar por um produto de fator de proteção a partir de 30 - inclusive para pele negra -, repassá-lo a cada duas horas (ou depois de banho ou transpiração intensa). Outros itens indispensáveis são guarda-sol de tecido grosso, óculos de boa qualidade, chapéu de abas largas, boné - os acessórios que tem uma aba protetora para o pescoço e as orelhas são excelentes. Gustavo Martins, dermatologista e membro da SBD, destaca a importância da atenção com crianças e idosos.

- A maior quantidade da radiação que se manifestará como câncer de pele no futuro é acumulada durante a infância. E os idosos, que se desidratam com mais facilidade, também são muito suscetíveis a câncer de pele - afirma Martins.

Aos pequenos, deve-se oferecer água, água de coco ou suco natural com frequência - urina em pouca quantidade ou escura indica baixa ingestão de líquidos -, utilizar filtro solar específico para crianças e também um hidratante pós-sol, que pode ser indicado pelo pediatra. Camisetas especiais para exposição solar são uma boa pedida - nas áreas não cobertas pelo tecido, aplica-se protetor.

Idosos, ressalta Martins, podem sofrer insolação, desmaio, síncope, queimaduras de primeiro (vermelhidão intensa) e segundo (bolhas) graus. Trata-se de uma pele mais sensível, desidratada - o organismo vai perdendo água ao longo da vida. Familiares e cuidadores, se necessário, podem ajudar no monitoramento do tempo sob o sol e também controlando a ingestão de líquidos.

Calvos, de qualquer idade, têm uma preocupação extra: a cabeça sem cabelos é um local muito vulnerável ao câncer.

- Perdi o número de cânceres de pele que já removi da cabeça de calvos. Nunca retirei da cabeça de pessoas cabeludas. Há muito câncer de pele na cabeça. Protetor solar, boné ou chapéu são essenciais - diz o médico, acrescentando que pessoas que raspam o cabelo também precisam dar atenção especial a essa região.

LARISSA ROSO

17 DE DEZEMBRO DE 2022
SHOW

CELEBRANDO A ERA DE RENATO BORGHETTI

POA Jazz Festival promove evento em homenagem ao gaiteiro, que será a atração principal da programação

Jazz e música regionalista vão se fundir neste domingo, a partir das 17h, na Redenção, em Porto Alegre. O parque receberá uma edição pocket do POA Jazz Festival, que irá homenagear Renato Borghetti. Além do gaiteiro virtuoso, também haverá apresentações de James Liberato Quinteto e Bibi Jazz Quarteto. A entrada é franca.

Além desta edição-homenagem, o festival já promoveu o projeto Preview POA Jazz, que levou cinco shows neste ano ao Instituto Ling: Luiz Otávio, Sonico, Harold Lopez Nussa Quarteto, Rodrigo Maia Sexteto e Mari Kerber Quarteto. Tudo isso é um esquenta para a edição principal do POA Jazz Festival, prevista para ser realizada de 24 a 26 de março de 2023, no Centro de Eventos do Barra Shopping Sul. As atrações devem ser anunciadas em breve.

O evento deste domingo também faz parte das comemorações dos 250 anos de Porto Alegre, completados em 26 de março. Nas outras edições, o festival homenageou grandes nomes da música brasileira - Milton Nascimento, João Bosco, Hermeto Pascoal e João Donato. Segundo Carlos Branco, curador e produtor do POA Jazz, são tributos a pessoas que sofreram influência do jazz ou acabaram influenciando o gênero. Desta vez, em sintonia com as celebrações da cidade, foi escolhido um músico porto-alegrense.

Branco ressalta também que Borghetti será homenageado por sua contribuição à música instrumental brasileira, além da projeção da música regional gaúcha no cenário internacional.

- O trabalho de Borghetti é importante, pois foi o primeiro instrumentista do país a receber um disco de ouro com um álbum de música instrumental (Gaita Ponto, de 1984). O primeiro e único artista brasileiro a romper essa barreira - destaca.

O primeiro show do evento será do James Liberato Quinteto, abrindo o festival, às 17h. O guitarrista, violonista e baixista está em atividade desde 1979, com foco na área do jazz e da música instrumental brasileira. Ao longo dos anos, ele trabalhou com alguns dos principais nomes da música do Estado - como o próprio Borghetti, Michel Dorfman, Raul Ellwanger, Luizinho Santos, entre outros. James sobe ao palco acompanhado de Luis Henrique New (piano), Ronie Martinez (bateria), Everson Vargas (baixo) e Guilherme Goulart (acordeom).

Pátio

Em seguida, às 18h15min, é a vez do Bibi Jazz Quarteto. O projeto porto-alegrense é integrado pela cantora uruguaia Bibiana Dulce, Antonio Flores (guitarra), Mateus Mussatto (bateria) e Rodrigo Arnold (contrabaixo). Flutuando entre o inglês e o espanhol, o repertório do grupo costuma focar standards do jazz, além de versões para clássicos latinos, o que inclui boleros como Sabor a Mi, Dos Gardenias e a interpretação em espanhol do standard All of Me (Toda Yo).

Por fim, às 19h30min, o Renato Borghetti Quarteto encerra o evento. O gaiteiro será acompanhado por Daniel Sá (violão), Pedrinho Figueiredo (sax e flauta) e Vítor Peixoto (teclados).

Borghetti garante que tocará muito à vontade neste domingo. Além de estar em sua cidade natal, o instrumentista estará na Redenção, onde cresceu jogando bola. Ele se lembra de ter cruzado o parque todas as manhãs que ia ao colégio. Seus pais ainda vivem pelos arredores.

- Tocar ali é quase como tocar no pátio de casa - resume.

O músico tem experiência de longa data em eventos de jazz. Lembra que tocou no Free Jazz, em 1988, nos primeiros anos de carreira. O gaiteiro ressalta que no evento realizado no Rio de Janeiro ele e Almir Sater destoavam das outras atrações - como a lendária cantora Nina Simone. Recorda também que houve quem questionasse sua presença no festival, mas o show acabou sendo memorável.

Para Borghetti, há um link do jazz com a sua sonoridade:

- Eu brinco com o pessoal que "grosso não faz jazz". Mas a nossa música tem muitos elementos do jazz, principalmente o improviso.

Segundo o músico, o evento deste domingo tem como charme não só as atrações musicais, mas também a possibilidade de apreciar o jazz ao ar livre.

- O jazz e a música instrumental são muito ligados a espaços intimistas e fechados, como teatros e clubes. Poder fazer isso ao ar livre, ainda mais um lugar lindo como a Redenção, traz um astral diferente - diz Borghetti. - Talvez algumas pessoas ali não teriam oportunidade de ver essa apresentação se fosse em um espaço dedicado ao jazz. Acho bastante democrático isso, funciona dos dois lados.

POA Jazz Festival - Homenagem a Renato Borghetti

Domingo no Parque Farroupilha (Redenção), na Capital. Programação: James Liberato Quinteto (às 17h), Bibi Jazz Quarteto (às 18h15min) e Renato Borghetti Quarteto (às 19h30min).


17 de Dezembro de 2022
CARPINEJAR

A tirania da felicidade

Uma relação só é feliz se você tem o direito de ficar triste de vez em quando. Se você não precisa chorar no chuveiro para abafar as suas lágrimas e sufocar o barulho do seu sofrimento. Se você não acha que está incomodando quando não está em seus melhores dias. Se você desfruta de espaço para acomodar as suas incertezas recônditas.

Se você tem condições de não querer rir, de não querer brincar, de não querer sair, de não querer passear e interagir, de querer ficar quieto, cuidando dos aborrecimentos em seus cantinhos preferidos dentro do lar.

Não é humanamente possível, pela instabilidade de nossas emoções, estampar permanentemente um sorriso na cara. As rugas vêm muito mais dos sorrisos forçados. Temos que nos precaver da tirania da felicidade. Por que as pessoas nos desejam ver sempre felizes?

Talvez exista uma intenção pouco generosa por trás do incentivo, da imposição do contentamento. Talvez não seja pela sua realização pessoal, ou por não suportar o seu desânimo nem sua desmotivação. Talvez sequer seja pelo medo de uma possível depressão.

É puro interesse em se aproveitar de você. Se você está triste, não está disponível. Se você está aborrecido, não tem como ser explorado, não tem como realizar nada para ninguém, não tem como satisfazer as vontades alheias.

A tristeza é uma pausa para pensar, uma trégua de consciência, uma faxina mental, em que você joga fora o que não presta das conversas, dos sentimentos e dos encontros rememorados. Medita sobre seus excessos e fragilidades, feridas e dissabores. Recompõe a sua estrutura para voltar à batalha diária.

Assim como não há como conversar com quem está no meio da limpeza, não há como conversar com quem vive o monólogo interior da tristeza. Ela desencadeia, por sua vez, a ausência de conexão momentânea.

Você se encontra fora do radar para qualquer solicitação. Estar dentro da alma é como estar fora de casa. Não há como ser chamado. Não poderá cozinhar, fazer algum favor, socorrer um capricho, buscar algo na cozinha, oferecer uma solução para a manutenção da rotina.

Isso vai irritar quem o enxerga como um serviçal. Trata-se da revelação de que está num relacionamento equivocado, numa posição submissa, amando por dois, vivendo pelos dois, dando desculpas pelos dois.

Se você somente é valorizado quando beneficia a sua companhia e interrompe tudo o que é particular para atendê-la, é que anda sendo desmerecido por completo. A falta de felicidade incomoda, pois frustra os planos daquele que é preguiçoso ou egoísta, daquele que depende de você para qualquer tarefa doméstica.

Ele terá que se virar sozinho, terá que resolver os problemas sozinho, terá que conduzir os seus prazeres sozinho. Não admite que você não esteja bem porque simplesmente perderá as suas mordomias de comida quentinha, roupa lavada e casa em ordem.

Não poder ficar triste, ou perceber a escassez de paciência ao lado para as suas lamúrias pontuais, já é um veemente alerta vermelho.

CARPINEJAR

17 DE DEZEMBRO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

MINISTÉRIO & MISTÉRIO

O ano de 2023 se aproxima, e com ele, o novo governo federal. Não menciono o novo governador, pois Eduardo Leite, de fato, reelegeu-se ou, pelo menos, seu novo mandato continuará o anterior, ao qual renunciou.

Assim, resta aguardar o ministério de Lula da Silva para saber o que virá nos próximos quatro anos. O hábil Lula não é um neófito. Sabemos quem é pelos oito anos que presidiu a República. Conhecemos sua inteligência, seus rompantes e até o que ignora.

Agora, porém, muito do essencial mudou. Há quem diga que o maior castigo para Jair Bolsonaro teria sido a reeleição e, reeleito, governar sob as cinzas da herança do governo que ele próprio presidiu e que agora conclui. Essas cinzas são o chão movediço do caminho que Lula terá de trilhar.

O Brasil de hoje não é o mesmo país que Lula recebeu de FHC. Para mostrar as diferenças (ou os abismos), bastariam os relatos do grupo de transição sobre áreas como saúde e educação.

Um mistério maior, porém, é perturbador - quem se esconde no comando dos protestos de rua que agora se transformaram em vandalismo terrorista em plena capital da República?

Tudo foi tão brutal, que até um caminhão de bombeiros foi atacado e incendiado pelos arruaceiros que negam o resultado das urnas. O absurdo maior é o crescimento do terror sob o olhar complacente do governo federal.

O terror vivido nas ruas de Brasília em protesto à diplomação de Lula e Alckmin como eleitos não recebeu sequer uma palavra de condenação do atual presidente da República. Será o "quem cala consente" do velho refrão popular?

Esse mistério misterioso deixa em segundo plano até os escolhidos para o futuro ministério. A baderna se transforma em terrorismo, e os terroristas, em rebeldes sem causa.

Deveríamos estar atentos aos escolhidos como ministros do futuro governo, mas somos levados a nos preocupar com a insânia do terror nas ruas de Brasília.

Neste mês, festejamos os cem anos da radiofonia no Brasil. Em 1922, um discurso do presidente Epitácio Pessoa abriu nossa primeira estação de rádio, em transmissão através de precária antena no Morro do Corcovado, no Rio de Janeiro.

O rádio desafia o progresso e persiste pujante. Nem a TV o ultrapassou. Nos anos 1960, fui locutor da Rádio Gaúcha: "abria" a transmissão às 6 da manhã numa época em que saíamos do ar à zero hora e que não me sai da retina.

FLÁVIO TAVARES

17 DE DEZEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

DO FUTEBOL PARA A VIDA

Encerra-se neste domingo a 22ª edição da Copa do Mundo da Fifa, a principal competição do esporte mais popular e apaixonante do planeta, que reuniu atletas, autoridades e aficionados de todos os continentes no Catar - emirado da Ásia continental e um dos países mais ricos do mundo. Afora a disputa esportiva, que será decidida entre as seleções da Argentina e da França, o Mundial deixa para a humanidade lições sobre competitividade saudável, pluralismo de ideias, diversidade cultural e visões de mundo que revigoram a esperança de convivência pacífica num planeta ainda marcado por guerras, injustiças, desigualdades sociais e conflitos pelo poder.

Sem desconsiderar as mazelas do próprio país anfitrião, comandado por governantes autocráticos pouco sintonizados com os direitos humanos - o que também ganhou mais visibilidade com a Copa -, o evento futebolístico desenvolveu-se num ambiente de normalidade, em que prevaleceram o respeito e a tolerância entre povos de culturas e costumes distintos. Esta, talvez, seja a principal lição que a humanidade deveria colher da festa esportiva promovida pela Fifa, organização que atualmente conta com mais filiados do que a própria ONU: é possível, sim, o convívio entre pessoas de nacionalidades e identidades diversas, sem que eventuais conflitos de ideias e crenças tenham que ser resolvidos pelo belicismo.

Enquanto as grandes potências econômicas e nucleares do planeta mantêm animosidades políticas incompatíveis com a vocação pacífica de seus povos, o futebol expressa de forma simbólica o melhor caminho para a solução civilizada de divergências - por meio da competição justa, do respeito às regras acordadas e da cooperação recíproca.

Toda comparação, evidentemente, deve manter as devidas proporções. Não se trata aqui, por exemplo, de valorizar demasiado uma simples disputa esportiva que, como é de sua essência, também ilude e provoca frustrações, além de envolver interesses econômicos, políticos e comerciais nem sempre auditados com suficiente integridade. Mas é impositivo reconhecer que a Copa do Mundo mobiliza multidões, estimula o nacionalismo saudável das identidades coletivas e favorece o intercâmbio cultural entre distintos segmentos da população humana.

Do ponto de vista individual, a Copa também é inspiradora. Na busca de sucesso e reconhecimento, que são ambições naturais do ser humano, as seleções dos melhores atletas de cada país preparam-se cuidadosamente, desenvolvem espírito de equipe e colaboração, mobilizam seus apoiadores e investem no esforço, na ousadia e no talento para atingir seus objetivos. Ao longo da competição, evidencia-se igualmente uma verdade insofismável sobre a vida: a de que a vitória e a derrota são efêmeras e que a cada dia o ser humano precisa redimensionar sua existência.

Independentemente de conclusões filosóficas e de gostos pessoais, até mesmo porque nem todos apreciam futebol, o sentimento que fica quando acompanhamos um evento esportivo de dimensões planetárias, como a atual Copa do Mundo, é o de que a humanidade pode avançar no rumo da paz, da concórdia e da cooperação. 



17 DE DEZEMBRO DE 2022
DADOS DO PIB

RS perde uma cidade entre as maiores economias do país

O Rio Grande do Sul diminuiu a presença na relação de municípios com as maiores economias do país. Em 2020, primeiro ano da pandemia de coronavírus, o Estado perdeu uma cidade na lista dos cem municípios com maior participação no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

Com isso, o Estado agora concentra três municípios nesse grupo. Os dados, divulgados nesta sexta-feira, são de levantamento feito pelo Departamento de Economia e Estatística, vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (DEE/SPGG), em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Município gaúcho com melhor colocação no ranking, Porto Alegre caiu uma posição, ficando no 8º lugar em 2020. Canoas, na Região Metropolitana, perdeu sete (57º), enquanto Caxias do Sul permaneceu no mesmo lugar ante o ano anterior (37º). Gravataí, que ficou na 89ª posição em 2019, saiu da lista dos cem maiores, caindo para a 114ª colocação.

Avaliação

Martinho Lazzari, pesquisador DEE/SPGG, afirma que os grandes centros urbanos perderam participação no PIB no primeiro ano de pandemia e esse efeito também é observado no RS. No caso de Gravataí, o especialista destaca o efeito da crise sanitária na cadeia automotiva:

- Em Gravataí, tem a questão da indústria de automóveis, que é bem importante, e, em 2020, durante a pandemia, a produção da GM foi bastante afetada. Isso afetou a indústria e os serviços no município, tirando Gravataí do ranking das cem maiores.

O levantamento do IBGE aponta que nove municípios responderam por quase 25% do PIB nacional: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Manaus, Curitiba, Osasco, Porto Alegre e Guarulhos.

 ANDERSON AIRES



17 DE DEZEMBRO DE 2022
PRIVATIZAÇÃO DA CORSAN

TCE impede assinatura de contrato de venda

O Tribunal de Contas do Estado (TCE) concedeu, na tarde de sexta-feira, medida cautelar para impedir a assinatura do contrato de venda da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) após a eventual realização do leilão de privatização, previsto para ocorrer na terça-feira, dia 20, na B3, a bolsa de valores brasileira.

A decisão foi da conselheira substituta Daniela Zago, do TCE, atendendo a pedido do procurador-geral do Ministério Público de Contas (MPC), Geraldo da Camino.

O pedido não tem por objetivo impedir o leilão, mas brecar os atos finais da privatização, como a assinatura do contrato e a transferência acionária.

Antes dessas etapas, o MPC pretende aprofundar discussões sobre a precificação da companhia, cujo valor mínimo foi fixado em R$ 4,1 bilhões. Da Camino ainda questiona detalhes relacionados à cobertura de coleta e tratamento de esgoto e termos aditivos contratuais entre a Corsan e municípios atendidos que foram judicializados.

Embora a decisão do TCE não atinja o leilão de terça-feira, a abertura das propostas pela companhia e os lances em viva-voz na B3 estavam, até sexta-feira, suspensos por força de liminar do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região. Essa decisão foi emitida na quinta-feira e impede a realização do pregão devido a alegados riscos impostos aos trabalhadores da Corsan e ao fundo de pensão da companhia.

Pacheco vê análise da Lei das Estatais só em 2023

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), reiterou na sexta-feira não ver possibilidade de a proposta que altera a Lei das Estatais ser aprovada na Casa ainda este ano. A mudança foi avalizada pelos deputados a toque de caixa na noite de terça-feira.

Segundo Pacheco, ainda não há acordo para a votação. Ele disse, em entrevista coletiva, que vai se reunir com os líderes e que a matéria deve ser remetida à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Inicialmente, a proposta apenas alterava regras sobre gastos das empresas públicas com publicidade, mas foi modificada na última hora para incluir redução de 36 meses para 30 dias no tempo de quarentena para indicados ao comando de estatais e agências reguladoras que tenham participado de campanhas eleitorais.

O texto, aprovado pelos deputados com 314 votos favoráveis a 66 contrários, pode facilitar a ida do ex-ministro Aloizio Mercadante para a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na gestão do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, mas também abre caminho para nomeações de integrantes do centrão para estatais no novo governo.

O Senado deverá propor um período de quarentena alternativo. Uma das propostas aventadas sugere prazo mínimo de 90 dias para a desvinculação.

Ao mesmo tempo, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o senador Paulo Rocha (PT-PA) propõe que o afrouxamento nas nomeações valha também para lideranças sindicais, que atualmente não podem ser indicadas para cargos de diretoria e conselhos administrativos de estatais. A proposta rachou a bancada petista na Casa - Jaques Wagner e Humberto Costa são contrários à ideia.

A Lei das Estatais foi aprovada em 2016 no governo Michel Temer, com o objetivo de barrar possíveis ingerências políticas que possam prejudicar o desenvolvimento das empresas estatais.

 CARLOS ROLLSING