sábado, 11 de fevereiro de 2023


11/02/2023 - 
CLAUDIA TAJES

Vale a pena casar se uma traição doeria mais no bolso do que no coração?

Se alguém tiver alguma coisa contra, diga agora ou cale-se para sempre. Eles estão apaixonados, decidiram casar e querem ficar juntos para sempre. Pelo sim, pelo não, um casal de Belo Horizonte decidiu firmar um acordo pré-nupcial que estabelece multa em caso de traição. O seguro morreu de velho, já dizia vovó. Foi o próprio Tribunal de Justiça de Minas Gerais que divulgou a informação. Segundo a nota, os noivos pediram que “o lado inocente receba a indenização pelo possível constrangimento e vergonha que possa passar aos olhos da sociedade”. 

Tudo indica que o casal apaixonado não está pensando apenas em uma traição no aconchego da alcova, mas em um furdunço. Por exemplo, um dos dois ser apanhado em público com a boca, ou outra parte do corpo, na botija no meio de um show, no provador de uma loja, em um banco de praça, na cozinha da lanchonete, dentro de um ônibus de linha, na escolinha dos filhos. 

Acredite, todos esses lugares já serviram de palco para traições conjugais. É só fazer uma pesquisinha na internet para ver. Pois é isso. O casal já enviou os convites para a cerimônia, deixou a lista de presentes no bazar, acertou com o bufê e contratou a banda para tocar na festa. Só que antes se preveniu. Valor da indenização no caso de alguém pular a cerca: R$ 180 mil. 

A juíza que deferiu o termo disse que os noivos têm liberdade para regular como será seu matrimônio, já que o dever da fidelidade está previsto no Código Civil Brasileiro. Nessa parte, confesso, me caíram todos os butiás do bolso. 

Por ignorância – e também por que tal dever nunca havia me passado pela cabeça – jamais imaginei que o Código Civil Brasileiro se ocupasse de quem dá para quem. Já pedi meu exemplar para me atualizar, ou me retroceder, com relação aos meus direitos e deveres civis. Não quero tomar uma multa.

Voltando à magistrada, foi assim que ela caneteou a decisão: “Os casais têm autonomia para decidir o conteúdo do pacto antenupcial, desde que não violem os princípios da dignidade humana, da igualdade entre os cônjuges e da solidariedade familiar”. Observadas essas condições, ao Poder Público não cabe intervir na vida privada e nos desejos dos envolvidos.

Está certa a juíza. O casal mineiro deve ter suas razões. E devem ser razões bem fortes para que a multa não fosse apenas simbólica. Uma cesta básica permitiria que o traidor recaísse. Um salário mínimo, também. Já R$ 180 mil vão exigir do candidato a infiel uma boa reflexão antes de cometer o adultério.

A pergunta é: vale a pena casar se tudo indica que um só não vai trair o outro por que doeria mais no bolso do que no coração?

Trazendo para a vida real, alguns pequenos acordos pré-nupciais talvez tornassem os matrimônios mais felizes. Coisas simples com multas pequenas, quase irrisórias, mas aplicadas com o rigor da Lei em caso de descumprimento das cláusulas. Alguns exemplos.

Deixar uma pilha de copos sujos e espalhados pela casa dá multa de trabalhos forçados: lavar a louça toda pela semana inteira.

Não repor o sabonete, obrigando o cônjuge a tomar banho com xampu para cabelos arruinados: multa de demorar apenas dois minutos contados no relógio embaixo do chuveiro, perdendo o alívio da água fria caindo no lombo no agradável verão gaúcho. 

Isso se você não morar em Sapucaia do Sul, Gravataí ou outra dessas cidades que penam com o descaso de quem deveria abastecer os cidadãos de água.

Deixar embalagens de leite, de água, de manteiga, de suco, de tomate pelado e do que for vazias na geladeira, dando a falsa impressão de que ainda existem víveres na residência: multa de ir ao supermercado e pagar a conta sozinho. Embora, atualmente, essa modalidade de punição exija uma poupança de mais ou menos R$ 180 mil. Se alguém tiver alguma coisa contra, diga agora ou cale-se para sempre.

11/02/2023 - 10h58min
MARTHA MEDEIROS 

Homenagem a Gloria Maria e a todos os que rompem correntes

De tempos em tempos, é preciso arrancar a gravata, tirar o salto alto, livrar-se do uniforme civilizatório e ficar desnudo para si mesmo. Sem movimento, a linha do monitor de batimentos cardíacos se horizontaliza e acusa o fimGilmar Fraga / Agencia RBS

Viver, para algumas pessoas, resume-se a evitar as inquietações existenciais, não se afastar muito do próprio bairro e economizar dinheiro para trocar de sofá. O que haveria de tão interessante lá fora, senão outros prédios, outras farmácias, outras árvores?

Quando comprei minha primeira passagem para o exterior, imaginei que faria um deslocamento cósmico. No entanto, deparei com outros prédios, farmácias e árvores – outro cenário, não outro planeta. O que virou minha cabeça foi o confronto com outro eu.

Nunca me conformei em preencher todos os meus dias com horários definidos para dormir e acordar, com os telefonemas regulares para a família, com os mesmos trajetos e as mesmas conversas. Até a temperatura de amanhã é prevista na véspera. 

Esse exaustivo ensaio de uma vida que nunca estreia já inspirou música boa – “Todo dia ela faz tudo sempre igual...” – mas o confinamento definha. Salve a rotina, desde que tracemos alguns planos de fuga.

Imagino que uma pessoa que precisou trabalhar na lavoura desde pequeno tenha uma ideia diferente de liberdade, são outras as premências. Ainda assim, em um momento de descuido, há de surgir uma fresta por onde escapar – se houver mesmo o desejo. E aí se faz uma estrada.

Mar aberto. Desertos. Florestas. Tribos indígenas. Montanhas. Canyons. Cidades históricas. Geleiras. Santuários ecológicos. Templos orientais. Pirâmides. Vulcões. Ilhas. Caminhos sagrados. Vilarejos humildes. Ruínas. Metrópoles de cinema. Praias selvagens.

De tempos em tempos, é preciso arrancar a gravata, tirar o salto alto, livrar-se do uniforme civilizatório e ficar desnudo para si mesmo. Trocar de pele. Morrer e renascer, morrer e renascer, a fim de voltar mais forte.

Sem movimento, a linha do monitor de batimentos cardíacos se horizontaliza e acusa o fim. Em vez de estacionar em ponto morto, que haja coragem para se expressar em um idioma diferente, encontrar outros meios de se traduzir, preparar o olhar para novas combinações de cores, refinar o paladar para sabores esquisitos, compreender que há outros jeitos de cumprimentar as pessoas, outros tipos de casamento, outras formas de higiene, outras maneiras de se atravessar um rio, outros deuses, outros modos de se vestir, outros mistérios. Essa incrível universalidade aniquila a soberba e desperta insuspeitas virgindades em nós, o que é sempre rejuvenescedor.

Não podendo viajar, nem tendo acesso a tipos diversos de seres humanos, pode-se ir bem longe através dos livros. Bibliotecas contêm todos os países e as almas mais exóticas. “Você não é nada mais do que sua vida”, definiu Sartre. Essa coluna é em homenagem a Gloria Maria e a todos os que rompem correntes, atravessam paredes e assumem o volante.


11/02/2023 - 17h09min
Fabrício Carpinejar

Algo de podre no reino da Dinamarca

Quando o homem não é gentil e, mais do que de repente, surge com flores, com chocolate, com agrados para a esposa, significa que ele pisou na bola. "Antevemos o tamanho dessa besteira pelo valor dos mimos. Quanto mais caro o presente, maior o estrago que ele deseja esconder". Quando a esmola é demais, o santo desconfia. O provérbio tem um forro de verdade. Quando o homem não é gentil e, mais do que de repente, surge com flores, com chocolate, com agrados para a esposa, significa que ele pisou na bola.

Chuva de elogios é dilúvio na certa. Buquê de 36 rosas colombianas tem também mais espinhos. Ninguém muda o comportamento de uma hora para a outra, sem transição e terapia, sem evolução gradual, num passe de mágica.

Somente são românticos quando em perigo moral, criando distrações para as suas mentiras. Não estou me referindo aos românticos-raiz, constantes, mas aos românticos-Nutella, ocasionais.

Se o sujeito não era sentimental e aparece todo fofo, todo carinhoso, todo falante, todo grudento, concordando com tudo, querendo sair a sós para um jantar à luz de velas ou viajar no final de semana para um lugar paradisíaco, fez alguma besteira.

Antevemos o tamanho dessa besteira pelo valor dos mimos. Quanto mais caro o presente, maior o estrago que ele deseja esconder. Joias milionárias, então, podem encobrir infidelidade com gravidez. Pense no pior, e ainda será o trailer da omissão.

A princípio, o que parece generosidade é alguém pagando os seus pecados — e pecados caríssimos, com poder de destruir o futuro do romance. Da inércia, os suspeitos partem para uma hipermobilidade afetiva, não deixando espaço para incertezas. Enchem a sua parceira de surpresas em sequência, como que tocados pelo milagre da transmudação.

De vinagre genérico, viram vinhos de safra rara. Tudo o que não realizaram de cavalheirismo e cuidado em uma vida resolvem fazer em uma semana. Nem Juscelino, com a criação de Brasília e seu lema de crescimento de "50 anos em cinco", seria capaz de executar um plano de metas com tamanha celeridade e competência.

Não discutem, não brigam, suspendem o "não", aceitam por impulso o que não é do seu feitio, festejam a sogra e os jantares de família, afastam-se inexplicavelmente do vício do celular, abraçam os deveres de casa dos filhos. Tornam-se os homens certos e ideais, infelizmente, pelos motivos errados, e talvez tarde demais. Percebem que não serão perdoados e correm contra o tempo para conseguir atenuantes e tapar a precariedade de suas decisões com um relampejante conto de fadas.

Somente são românticos quando em perigo moral, criando distrações para as suas mentiras. Somente são românticos com culpa no cartório, assinatura autenticada várias vezes na deslealdade e já contando com testemunhas de suas traições.

Tentam enfeitar e perfumar a realidade para ocultar uma falha grave de fidelidade. É a força das palavras de Shakespeare diante da fraqueza humana. Excesso de romantismo inesperado escancara que há algo de podre no reino da Dinamarca.


11/02/2023
Jaime Cimenti
Assassinatos na ilha paradisíaca
O retiro (Editora Intrínseca, 400 páginas, R$ 69,90 livro impresso, R$ 46,90 versão e-book, tradução de André Czarnobai) é o novo romance da premiada escritora inglesa Sarah Pearse, autora do bestseller O Sanatório (Editora Intrínseca, 2022), que mergulhou na estonteante e ilusoriamente calma paisagem dos Alpes Suiços. O Sanatório foi apontado como um dos melhores títulos da literatura de mistério da atualidade e, sem exagero, a autora foi comparada a Agatha Christie, Stephen King e Alfred Hitchcock e ingressou no rol dos grandes autores da atualidade.
Neste O retiro Sarah Pearse traz como pano de fundo um idílico retiro de bem-estar inaugurado em uma ilha, que promete descanso e relaxamento para seus visitantes. Entretanto, lá nada é realmente o que parece. Poucos sabem que a ilha, conhecida localmente como Pedra da Morte, tem um passado altamente sombrio: foi palco de uma série de assassinatos alguns anos antes.
Um grupo de hóspedes busca refúgio e distância dos problemas nos cenários encantadores e, entre eles, duas irmãs e uma prima, que parecem alimentar ressentimentos do passado. Logo uma série de acontecimentos macabros tem início. Uma mulher é encontrada morta debaixo do pavilhão das aulas de ioga. Outro hóspede se afoga durante um mergulho. A detetive Elin, que já foi personagem do romance anterior de Sarah, percebe que as mortes não foram acidentais. Com sua intuição aguçada, ela percebe que a maioria dos hóspedes veio em busca de calma, mas que alguém está ali por vingança.
Com linguagem envolvente e ágil, com enredo cheiro de reviravoltas, em capítulos curtos e mostrando habilidade narrativa incomum, neste segundo livro a escritora faz uma releitura do modelo de Agatha Christie, dá uma referência gótica à ilha, mescla thriller psicológico com mistério, apresenta cavernas, boatos sobre uma maldição e mostra porque é considerada um dos grandes nomes da literatura de mistério da atualidade. 

Lançamentos

20 Poemas Para Novembro (ASERGHC, 90 páginas), do Conselho Raça, Gênero e Diversidade da ASERGHC, com organização de Gabrielle de Paula e Nathalia Bittencurt, e apresentação de José Antônio Souza da Silva, apresenta dezenas de poemas de quinze autores sobre escravidão, negritude e vozes erguidas em favor da liberdade.
Empreender sem Desculpas (Editora DVS, R$ 79,00), da consagrada jornalista, gestora e consultora portuguesa Ana Cristina Rosa, conta, em tom bem humorado e pessoal, como ela se tornou empreendedora global, trazendo conhecimento e exaltando o potencial do país na geração de novos negócios.
Soterrados (Ardotempo, 64 páginas, R$ 60,00), do consagrado poeta e compositor Martim César, natural de Jaguarão, traz longos e belos poemas, com ilustrações de Alfredo Aquino. Os versos tratam de lutas sociais, terra, pão, liberdade e sonhos por uma vida mais digna, evocando o grande Pablo Neruda.
Os muitos tons das ideologias
Especialmente nos últimos 100 anos, questões e definições envolvendo as nossas principais ideologias, especialmente as de natureza política, se tornaram mais e mais complexas - e a globalização e os meios de informação cada vez mais poderosos e tecnológicos, igualmente, são responsáveis pelos muitos tons das ideologias, no tempo e no espaço. Conceitos sobre esquerda e direita, por exemplo, hoje são muitos e de várias cores e é preciso ter uma visão ampla sobre eles.
Ideologias (Companhia das Letras, 246 páginas), da advogada e comunicadora paulista Gabriela Prioli, mestre em direito penal pela USP, doutoranda da FADISP e autora do livro Política é para todos (Companhia das Letras, 2021), apresenta as três principais ideologias - liberalismo, conservadorismo e socialismo - que nos ajudam a pensar a política e a sociedade da atualidade.
O volume é apresentado pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, que escreveu: "A vida comporta muitos pontos de observação por lentes diferentes. Nesses tempos de intolerância e de donos da verdade, este livro traz luz, suavidade e conhecimento para um mundo que vive momentos de escuridão, aspereza e exaltação da ignorância. Há esperança. Ao expor sem maniqueísmo aquelas que são, no seu ponto de vista, as três principais vertentes ideológicas contemporâneas, a autora deixa implícito um ensinamento de grande maturidade: quem pensa diferente de mim não é meu inimigo, mas meu parceiro na construção de uma sociedade aberta, plural e democrática. Conviver com o diferente, respeitá-lo e aprender com ele é uma vitória do espírito."
A primeira parte da obra trata do liberalismo, com introdução, protoliberalismo e as três revoluções, os seis tipos de liberdade e, ao final, uma lista de autores.
A segunda parte do volume enfoca o conservadorismo e trata do nascimento do conservadorismo, da lógica do cubo mágico, de seus alicerces e da diferença entre distributistas e reacionários. Ao final, lista de autores sobre o tema.
A terceira e última parte trata de socialismo, com introdução, as origens do socialismo, utopia, a Revolução Francesa e a igualdade, os socialistas utópicos, Marx, Engels e o comunismo, as muitas esquerdas na esquerda e, ao final, lista de autores.
Nas páginas anteriores às referências bibliográficas e ao índice remissivo, Gabriela Prioli oferece uma clara e concisa conclusão, que merece ser reproduzida por aqui.
"Temos muitos problemas antigos cujos contornos se alteram constantemente, numa velocidade cada vez mais rápida. E temos, na mesma velocidade acelerada pela Revolução Tecnológica, novos problemas", escreve Gabriela Prioli. "Num mundo complexo, não existem respostas fáceis. A simplificação conforta porque ilude. Você prefere o conforto das ilusões que o carregam para o abismo ou a dureza da realidade que lhe permite, ainda que com alguma dificuldade, o desvio?"
A propósito...
Com sua linguagem acessível, Gabriela, hoje uma de nossas maiores e mais relevantes criadoras de conteúdo, muito mais do que meramente apresentar um grande panorama de ideias, nos convida a refletir e a dialogar respeitosamente com aqueles que têm opiniões divergentes. Disso precisamos, numa "aldeia global" tão dividida, multifacetada e, infelizmente, tantas vezes violenta. Antes de tudo é preciso acreditar que é possível pessoas e mundo melhores; depois é tratar da construção coletiva.

11 DE FEVEREIRO DE 2023
PÓS-CREDITOS

O HOMEM QUE DESAFIOU PUTIN

Dos cinco indicados ao Oscar 2023 de melhor documentário, três já podem ser vistos no Brasil: All That Breathes, na HBO Max, Navalny, na mesma plataforma, e Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft, no Disney+. Completam a lista All the Beauty and the Bloodshed e A House Made of Splinters.

A disputa está acirrada. Quatro desses filmes também competem no Bafta, da Academia Britânica, e no DGA Awards, do Sindicato dos Diretores dos EUA, ambas entidades que têm votantes no Oscar.

All That Breathes, Navalny e Vulcões aparecem ainda na lista do PGA Awards, da Associação dos Produtores dos EUA. O suposto azarão é A House Made of Splinters, do dinamarquês Simon Lareng Wilmont, premiado no Festival de Sundance do ano passado ao narrar histórias de crianças alojadas em um orfanato no leste da Ucrânia, durante a guerra com a Rússia.

All That Breathes, do indiano Shaunak Sen, registra a luta de dois irmãos para, em meio à poluição e ao céu sombrio de Nova Délhi, proteger o pássaro conhecido como milhafre-preto (black kite).

Em Vulcões, a estadunidense Sara Dosa reconstitui a trajetória do casal francês Katia e Maurice Krafft, cientistas e documentaristas que morreram por causa de uma erupção vulcânica no Monte Uzen, no Japão, em 1991.

Em All the Beauty and the Bloodshed, a também estadunidense Laura Poitras acompanha a vida da artista Nan Goldin e a queda da família Sackler, a dinastia farmacêutica que foi a grande responsável pelo insondável número de mortos na epidemia de opioides - tema da premiada minissérie Dopesick (2021).

Navalny retrata o maior opositor de Vladimir Putin, que vem se perpetuando no poder da Rússia desde a renúncia de Boris Ieltsin, em 1999 - atualmente, está no seu quarto mandato como presidente (também já foi primeiro-ministro) do maior país do mundo em extensão territorial e o nono mais populoso (são 143,7 milhões de habitantes). Dirigido pelo canadense Daniel Roher, o documentário começa com uma pergunta do realizador a seu personagem, o advogado Alexei Navalny, 46 anos, líder do partido Rússia pelo Futuro e criador da Fundação Anticorrupção:

- Se você for morto, se isso acabar acontecendo, que mensagem você gostaria de deixar para o povo russo?

O entrevistado sorri:

- Me poupe, Daniel! Parece que está fazendo um filme para caso eu morra. Ok, eu estou pronto para responder à sua pergunta, mas, por favor, faça um filme diferente. Vamos fazer um thriller deste filme, e, se eu morrer, faça um filme chato in memoriam.

Nazistas

A resposta ajuda a dimensionar a personalidade do bonitão Navalny, que se notabilizou por organizar protestos contra Putin - "É a profissão mais perigosa do mundo", define uma jornalista no áudio de uma reportagem.

O atual ocupante do Kremlin o odeia tanto, que se recusa a citar seu nome, como indicam trechos de entrevistas reproduzidos no filme. O opositor também virou sucesso em plataformas digitais e redes sociais, especialmente o Tik Tok, onde estão os jovens eleitores. Sua ambição é destronar Putin, nem que para isso tenha de marchar ao lado de nazistas.

- Em um mundo normal, em um sistema político normal, claro, eu jamais estaria no mesmo partido que eles. Mas estamos criando uma coalizão ampla para lutar contra o regime, só para chegar à situação em que todos possam participar da eleição - justifica Navalny.

"Você não se sente desconfortável de ser visto em fotografias com eles?", questiona o diretor.

- Eu não me importo. Considero que seja meu superpoder político. Consigo falar com qualquer um - afirma Navalny. - De qualquer forma, eles são cidadãos da Rússia, e, se eu quiser vencer o Putin, se eu quiser ser um líder do meu país, não posso ignorar essa grande parte da população.

Envenenamento

Aquela pergunta inicial de Roher, por sua vez, remete ao assunto central do documentário: a tentativa de assassinato, por envenenamento com a substância chamada Novichok, de Navalny, durante um voo de Tomsk para Moscou, no dia 20 de agosto de 2020. Para profissionais da TV estatal, contudo, o político apenas sofreu efeitos colaterais porque, "como todos os opositores, toma remédios antidepressivos americanos". Ou então pagou o preço por "participar de orgias homossexuais intermináveis com álcool e cocaína", sugere outro comentarista.

Como o documentário mostra, Navalny já havia sido alvo de um ataque com um líquido verde tóxico, atirado em seu rosto ("A primeira coisa que pensei foi: Jesus, eu vou ser um monstro até o fim da minha vida"), além de ser detido pela polícia em algumas ocasiões ou condenado por convocar protestos "não autorizados".

- À medida que fui ficando mais famoso, tive certeza de que minha vida seria mais segura. Me matar seria problemático para eles - reflete.

Ele estava enganado, assume logo em seguida. O filme documenta o processo de recuperação de Navalny, na Alemanha, tendo ao lado sua esposa, a economista Yulia Navalnaya, e seus filhos, Dasha (hoje com 22 anos) e Zakhar (14), e a investigação conduzida pelo jornalista búlgaro Christo Grozev, que ajudou a equipe do russo a descobrir detalhes que indicam o envolvimento do Kremlin no plano homicida. Em certos momentos, o documentário assemelha-se mesmo a um thriller de espionagem, com direito a momentos de insuspeitado alívio cômico.

Mas logo fica claro que essa história não terá um final feliz. Motivado por um misto de idealismo, compromisso e vaidade, o regresso a Moscou, em janeiro de 2021, não será triunfal, ainda que uma multidão o estivesse esperando.

Atualmente, Alexei Navalny cumpre pena de nove anos em uma cela de três metros por dois metros em uma prisão localizada a 250 quilômetros de Moscou, sob acusação de "fraude e desacato". As últimas notícias dão conta das privações a que é submetido, incluindo o não acesso a atendimento médico. Recentemente, o ativista anunciou que, em 31 de dezembro, foi enviado pela décima vez a uma cela disciplinar, por um período de 15 dias, onde o seu isolamento e seus direitos ficam mais limitados. A punição se deu porque ele havia se banhado antes do horário regulamentar. Os partidários de Navalny denunciam uma tentativa do Kremlin de matá-lo pouco a pouco.

PÓS-CREDITOS

LITERATURA

O LIVRO

A amizade entre dois dos maiores escritores da América Latina terminou com desavença, empurrão e um soco no olho esquerdo de Gabriel García Márquez desferido por Mário Vargas Llosa. Essa é, também, uma das imagens mais famosas da literatura: a foto de Garcia Márquez com o olho roxo, gargalhando.

A amizade terminou ali mesmo, em 1976. O colombiano e o peruano eram amigos desde 1967, quando iniciaram uma amizade fervorosa, incomum até, para um pessoa como García Márquez, tipo reservado e que não levava desaforo para casa. Os dois nunca revelaram o motivo da briga. Podemos, apenas, especular, o que, aliás, ajudou a manter a história muito popular: ou foi motivo político ou ciúmes de mulher. Político porque Vargas Llosa, no princípio, era comunista fervoroso, simpatizante da Revolução Cubana, mas depois adernou à direita e hoje é um arauto do liberalismo. 

E García Márquez nunca deixou de ser um ferrenho comunista. Sobre as mulheres: mesmo baixinho, feio e dono de um bigodinho medonho, García Márquez tinha fama de galanteador. Vargas Llosa era um espécie de Alain Delon latino: alto, esbelto, cabelo parelho, penteado para trás. Não era só fama; ele de fato era um galanteador, embora casado.

Ambos ganharam o Prêmio Nobel após a publicação de livros memoráveis. García Márquez escreveu, entre outros, os best-sellers O Amor nos Tempos do Cólera e Do Amor e Outros Demônios, além do clássico Cem Anos de Solidão. Vargas Llosa deixará um legado também impactante: Pantaleão e as Visitadoras, Tia Julia e o Escrevinhador e os romances históricos igualmente geniais A Guerra do Fim do Mundo (sobre Canudos), e A Festa do Bode (sobre a ditadura de Rafael Trujillo na República Dominicana).

Em 1967, quando só haviam se visto uma vez na vida, eles se reencontraram em um debate sobre o romance latino-americano realizado em Lima. Vargas Llosa era o organizador. E convidou García Márquez, escritor que passara a admirar profundamente, sobretudo pelo impacto do então recém-lançado Cem Anos de Solidão. Era um tempo em que o termo "realismo fantástico" ainda não havia sido difundido. O evento foi tão prazeroso para ambos que acabou estendido, e García Márquez e Vargas Llosa, assim, puderam debater ao longo de dois dias, e não apenas um, como estava previsto inicialmente.

O resumo daqueles dois dias virou uma publicação momentânea, que se perdeu com o tempo e desapareceu. Mas ressurge agora no livro Duas Solidões - Um Diálogo sobre o Romance na América Latina, publicado no Brasil no final de 2022. Cem Anos de Solidão, naturalmente, foi o tema central do debate. Como entrevistado, García Márquez foi instigado a falar sobre a obra - e sobre a solidão, sobre sua vida pessoal, sobre o homem latino-americano. 

O colombiano mostra-se surpreendentemente à vontade - ele que tinha fama de tímido ao falar em público - e descreve, em detalhes, a vila onde morou na infância, a "poeirenta" Arataca. García Márquez nos ensina: "A primeira grande dificuldade é aprender a escrever. Essa é a parte que eu acho misteriosa, a parte inata, e que fez com que eu seja escritor ou estenógrafo. Aprende-se lendo, trabalhando sobretudo sabendo uma coisa: escrever é uma vocação excludente, todo o resto é secundário. A única coisa que a gente quer é escrever".

Vargas Llosa explora também os limites entre a vida pessoal e a obra literária. E apresenta aptidão e desenvoltura como entrevistador. Evoca outro gigante latino-americano, Jorge Luis Borges, e até parece que antevê o que fará no futuro quando analisa 35 clássicos da literatura no livro A Verdade das Mentiras. Sem tablet, teleprompter ou qualquer outro dispositivo eletrônico para auxiliar a leitura.

É o improviso que dá liberdade ao bate-papo. Tanto que, ao iniciar o segundo dia de conversa, García Márquez sequer lembra sobre o que discorria quando houve a interrupção, ao final do primeiro dia. Pode-se dizer que ali começava a amizade entre os dois mestres dos livros, amizade esta que terminaria com a misteriosa briga registrada sete anos depois.

Ao final de Duas Solidões - Um Diálogo sobre o Romance na América Latina, os leitores são brindados com um depoimento-entrevista atual em que Vargas Llosa fala sobre García Márquez, inclusive lamentando a morte do amigo, ocorrida em 2014. Vê-se que o peruano não guarda rancor do antigo parceiro com o qual brigou, há mais de 40 anos.

Duas Solidões - Um Diálogo sobre o Romance na América Latina - De Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa. Tradução: Eric Nepomuceno. - Ed. Record, 112 páginas, R$ 45, em média 

DANIEL SCOLA 


11 DE FEVEREIRO DE 2023
J.J. CAMARGO

MEDICINA SEM PRESSA

Encontre uma pessoa de que supostamente goste e descubra o desconforto de perceber que ela está com pressa. Se estiver com saudade da figura, será ainda pior. Porque toda a pressa tem uma mensagem explícita: "Eu tenho uma coisa mais importante para fazer, que não é estar aqui".

Não por acaso, a pressa é considerada uma das formas mais grosseiras de desconsideração. E não adianta alegar que a vida anda muito corrida, porque não é dessa aceleração que estamos tratando. Há uma clara diferença entre estar atarefado ou simplesmente enfarado.

A propósito, os prepotentes, habituados ao exercício crônico da prepotência, nem se preocupam mais em disfarçar a cara de desagrado diante de qualquer interrupção casual. Não importando que seja o encontro inesperado de um colega antigo que não nunca mais deu as caras, ou a visita de um propagandista que quer lhe atualizar numa forma de terapia que se sabe não funciona, ou, muito comum, de um familiar aflito que busca notícias da mãe internada na UTI.

Os médicos vivem diariamente, na relação com os pacientes, o dilema de manter uma agenda ensandecida e dar atenção a quem está assustado porque adoeceu. E ainda, na medida do possível, tranquilizar a quem foi arrastado pelo temor da perda, sempre presente no núcleo da família, confirmando que ninguém adoece sozinho.

Esta premência por todo afeto disponível se acentua na doença, e o paciente, que por coerência é a razão de ser da medicina, não pode ser tratado como um freguês qualquer que se confunda com o consumidor que frequenta uma loja de ferragens, ou o infeliz que dependa do atendimento em uma repartição que a burocracia lhe impôs, e as alternativas oferecidas são esperar e esperar. Até porque, no cotidiano, esses calvários são fugazes, e logo a vida volta ao normal, incluindo no máximo dois ou três xingões. Silenciosos, claro, como manda a boa educação.

A diferença é que, na doença, a tolerância reduz muito, a ansiedade está severamente agravada pelo medo do desconhecido, e o médico que faz mais do que medicina preventiva é desafiado diariamente a ser empático, muitas vezes atribulado por precárias condições de trabalho.

Aliás, essas mazelas do trabalho enfrentadas pelo médico, especialmente na saúde pública, são completamente ignoradas pelo paciente que, compreensivelmente, não as coloca entre suas prioridades. E até as posturas agressivas que alguns desses pacientes assumem, conscientemente ou não, temos que estar dispostos a relevar. Por uma razão simples: a ameaça da doença e o medo dela decorrente transfiguram as pessoas, neste processo de transferência de culpa que é uma característica inata do ser humano no limite do sofrimento.

Quando um grupo de formandos pediu-me que explicasse melhor o que era a novidade da "slow medicine", ocorreu-me reproduzir a sensação que experimentei ao receber no ambulatório dos convênios a dona Antônia, que se deslocava com a velocidade que lhe permitiam seus 90 anos. Quando perguntei o que podia fazer para ajudá-la, ela me disse: "Não sei como dizer, mas a primeira coisa que preciso lhe pedir é que o senhor não fique bravo comigo, porque eu não tenho doença nenhuma, mas eu gosto das coisas que o senhor escreve e queria tanto ter alguém que pudesse me ouvir".

E conversamos, muito. Não lembro nada daquele dia que devesse ter sido feito e não foi. Mas impossível esquecer a ternura da despedida. Havia ali a gratidão genuína de quem foi ouvida, sem pressa. Deem a esta medicina o nome que quiserem, mas ela é encantadoramente real. Pelo silêncio constrito dos meninos, acho que entenderam.

J.J. CAMARGO

11 DE FEVEREIRO DE 2023
LEANDRO STAUDT

O muro da baronesa

O muro do Pão dos Pobres guarda a história de uma das famílias mais ricas de Porto Alegre no século 19. Com o pórtico e as grades de ferro, na Avenida Praia de Belas, a estrutura traz lembranças da época do palacete do barão e da baronesa de Gravataí. Antes do aterramento do Guaíba e da canalização do Arroio Dilúvio, o casarão ficava no terreno entre o lago e o riacho. O complexo de prédios da Fundação Pão dos Pobres ocupa a área da antiga chácara.

João Baptista da Silva Pereira e Maria Emília da Silva Pereira foram os primeiros proprietários da área entre as décadas de 1820 e 1830. O historiador Pedro Meirelles, que pesquisa o passado do Pão dos Pobres, afirma que a primeira menção documentada sobre o palacete é de 1845. O comendador fez fortuna no comércio, inclusive de escravos. Morreu em 1853, um ano depois de receber o título de barão. Com o falecimento do marido, a baronesa ficou com a chácara. Em 1879, teria loteado parte das terras herdadas, permitindo à Câmara Municipal a abertura de ruas. O palacete foi alugado, abrigando a Escola de Infantaria e Cavalaria e a Enfermaria Militar. Ela morreu em 16 de março de 1888.

Os herdeiros continuaram alugando o imóvel até 1895, quando foi comprado pelos barões de Nonoai, que provavelmente nunca residiram no casarão. Um incêndio o destruiu totalmente em 1899. Poucos meses depois, o cônego José Marcellino de Souza Bitencourt assinou a certidão de compra do terreno para implantar o Abrigo das Famílias Pobres e Honestas, nome antigo do Pão dos Pobres. Ele é o fundador da instituição em 1895. 

Começou oferecendo esmolas, pão bento e roupas para necessitados na catedral. Quando foi para a Cidade Baixa, a instituição ocupou prédios não atingidos pelo incêndio. Em 1904, foi construído imóvel de um pavimento para moradia de famílias. Em 1930, depois de cinco anos em obras, ficou pronto o maior prédio, que está em reforma hoje. É desconhecido o ano de construção do muro, feito de tijolos maciços e arrematado com pedra-arenito. Ele também será restaurado, mantendo viva uma parte da história da cidade.

LEANDRO STAUDT

11 DE FEVEREIRO DE 2023
ACERTO DE CONTAS

Futuro das lojas da Livraria Cultura

Com a falência decretada pela Justiça, começa a surgir dúvidas sobre o futuro das lojas físicas da Livraria Cultura. A empresa ainda tem duas operações em funcionamento pelo país, uma delas em Porto Alegre, no shopping Bourbon Country. A coluna consultou dois advogados especializados em reestruturação de empresas para saber quais serão os próximos passos do processo.

No entendimento do advogado Guilherme Caprara, sócio da Medeiros, Santos e Caprara Advogados, o próximo passo já seria a lacração das lojas físicas, termo usado para se referir ao fechamento:

- Não há um prazo específico na lei, mas na lógica, decretada a quebra, nomeado o administrador, o passo seguinte é lacrar o estabelecimento, arrecadar os ativos e, posteriormente, começar a venda, a liquidação dos ativos para credores, em leilão.

Ainda pode haver o entendimento de que a manutenção das lojas abertas seria melhor para arrecadação da companhia. Para a fundadora do escritório Laís Lucas Advogados Associados e professora de direito empresarial da PUCRS, Laís Lucas, não dá para afirmar que as lojas fecharão "em breve". Segundo ela, é feita, antes, uma análise entre o administrador judicial e o juiz para avaliar o que causará menos "custos" para a companhia: fechar a loja ou mantê-la aberta para vender os livros.

- É possível, pela legislação, que a falida continue em operação se isso reduzir os prejuízos. Se eles já têm os livros para vender, e conseguirem vendê-los, talvez seja vantagem manter aberto. Mas também é calculado se não é melhor fechar as lojas e parar de pagar o aluguel.

Em nota, a empresa diz que recebeu a informação da falência com "grande surpresa": "Nesse momento iremos analisar a decisão do juiz, mas pretendemos recorrer, pois entendemos que há soluções mais apropriadas à empresa". Também confirmou que as operações físicas e o site "mantém-se normalmente em funcionamento".

Caso ela de fato recorra, pode, também, pedir um efeito suspensivo para manter as atividades funcionando.

A Livraria Cultura abriu em Porto Alegre em 2003.

ACERTO DE CONTAS

11 DE FEVEREIRO DE 2023
+ ECONOMIA

Que banco é esse que Dilma vai comandar desde Xangai

Agora está confirmado: a ex-presidente Dilma Rousseff será indicada pelo governo Lula para comandar o New Development Bank (NDB, em português Novo Banco de Desenvolvimento), também conhecido como "banco dos Brics". Com isso, Dilma deve se mudar em breve de Porto Alegre para Xangai, na China, onde fica o banco.

Mas que banco é esse? O NDB foi criado como um instrumento do grupo formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (cujas iniciais em inglês formam a sigla Brics). Foi criado oficialmente em 2015 com essa formação. Em 2021, o NDB aprovou o ingresso de outros países emergentes: Bangladesh, Egito, Emirados Árabes Unidos (inclui Dubai e Abu Dhabi) e Uruguai.

Dilma vai substituir Marcos Troyjo, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério da Economia indicado pelo governo anterior. Seu mandato vai até 2025, mas o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, atuou para "convencê-lo" a deixar o cargo para uma indicação do atual governo. O governo brasileiro também já fez contato com os demais sócios, que aceitaram a mudança.

Afinal, será a primeira vez que o NDB será comandado por uma ex-chefe de Estado. Dilma, é bom lembrar, é graduada em Economia. O posto, no entanto, é visto mais como representação diplomática do que um cargo técnico.

Troyjo foi apenas o segundo a liderar a jovem instituição financeira. Foi eleito em 27 de maio de 2020 e começou a exercer o cargo em 7 de julho seguinte. Substituiu o indiano Kundapur Vaman Kamath, que antes havia atuado como presidente da Infosys, segunda maior companhia de serviços de TI da Índia, e presidente do conselho do Icici Bank, o maior banco privado da Índia.

O NDB foi criado para financiar projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável. Já financiou 96 obras, aplicando US$ 32,8 bilhões em 17 mil quilômetros de estradas construídas ou melhoradas, 820 pontes, 35 mil unidades residenciais e 1,39 mil quilômetros de túneis ou canais.

MARTA SFREDO

11 DE FEVEREIRO DE 2023
+ ECONOMIA

ESG na prática

A Lojas Pompéia criou sua primeira marca com viés sustentável, a Eco.ar. Um tênis desenvolvido em parceria com o Instituto Lins Ferrão será o primeiro produto da linha.

Foi feito a partir da reutilização de uniformes que seriam descartados. Cerca de 300 quilos de peças acumulados durante três anos passaram por desfibramento. Assim, voltaram a ser fio têxtil, usado para a confecção do cabedal (parte de cima), palmilha e forro do tênis. A Pompéia é uma das empresas do Grupo Lins Ferrão. O instituto foi projetado para desenvolver ações de responsabilidade social e sustentáveis.

ENTREVISTA SERGIO WERLANG Ex-diretor do Banco Central

Ao contrário da autonomia do Banco Central, considerada essencial por quase todo setor produtivo e todos os economistas ortodoxos, a crítica à meta de inflação de 3% encontra eco em vozes do mercado - em tese, até em seu presidente, Roberto Campos Neto. Responsável por implantar o sistema de metas no Brasil em 1999, como diretor do BC, Sergio Werlang está entre os que consideram 3% ao ano "muito apertada" para a realidade nacional. Nesta entrevista, explica os motivos e detalha o que deveria preceder um eventual aumento.

Por que a meta é apertada?

Em 1999, na primeira vez em que se discutiu meta no Brasil - sei porque estava lá (risos) - pensava- se em um número baixo. Eu e Armínio (Fraga, presidente do BC à época) tínhamos essa preocupação e procuramos o professor Aloisio Araujo (doutor em estatística, professor titular da Escola Brasileira de Economia e Finanças). Ele nos disse que países com fragilidade fiscal costumam ter inflação acima de outros. Em 2015, Araujo publicou um artigo na International Economic Review reforçando essa tese.

É o caso do Brasil?

Exatamente. Temos rigidez enorme no orçamento, e o país não pode ter déficit muito grande. Por isso, para ser crível, meta tem de ser um pouco acima de países parecidos, mas sem essa rigidez.

Que países seriam?

A meta do Brasil tem de ser um pouco acima da de países como Chile e México, que usam 3%. Mas não muito maior, entre 4% e 4,5%. Em 31 janeiro de 2017 - lembro porque fiquei apavorado por saber do perigo de descrédito do sistemas de metas -, ouvi o presidente do BC (à época, Ilan Goldfajn) dizer que 3% no longo prazo seria o ideal para o Brasil. Escrevi um artigo contestando, citei o trabalho do Aloisio. De lá para cá, escrevi 11 artigos. Não adiantou. O Brasil precisa ter meta de inflação mais alta, com Temer, Bolsonaro ou Lula.

O aumento tem pré-requisito?

Estamos com a área fiscal em completo desarranjo. Quando isso ocorre, se não arrumar, a inflação sobe, como vimos no final do governo Bolsonaro. Aí, o único jeito de equilibrar é cobrando o chamado imposto inflacionário. O que é fundamental para aumentar a meta e ter certeza de que vai aumentar a credibilidade do BC - não diminuí-la -, é equacionar a situação fiscal de forma crível. O ministro Haddad tem dito que até abril apresenta. Se for crível, começa a cair a taxa de juro dos títulos de longo prazo. Os NTN-B 2050 (títulos de dívida do Brasil) hoje estão em 6,43%. Se começar a cair na direção de 5% - onde estava, no governo Bolsonaro, mesmo com toda a confusão -, vai sinalizar que as pessoas acreditam que a regra poderá ser cumprida.

Então, a meta só deveria subir depois do marco fiscal?

Exatamente. A meta para inflação tem sido anunciada sempre em junho. Teria tempo de sobra para trocar ideias com pares, acadêmicos, mercado, e verificar se a regra fiscal foi ou não crível. Não há necessidade de correr com isso. É importante fazer, mas fazer direito, para ter certeza de que o BC vai ganhar credibilidade, não perder. Aí pode ajustar para nível mais próximo do que o Brasil realmente consegue atingir sem tanto custo. Para atingir 3%, teria de manter o juro muito tempo em 13,75%.

Tem expectativa de trégua entre governo Lula e BC?

Espero que sim, porque toda vez que o presidente ataca o BC, o juro de longo prazo sobe. Se acompanhasse na tela, teria uma ideia melhor de que só piora as condições da política monetária para o futuro. Além de ser muito difícil aprovar o fim da autonomia, teria um efeito bastante ruim, de mais inflação. Não vejo lógica em continuar com essa batida.

MARTA SFREDO

11 DE FEVEREIRO DE 2023
CARTA DO EDITOR

RBS no Exterior

O repórter e colunista Rodrigo Lopes acompanhou nesta sexta-feira, na Casa Branca, em Washington, o encontro entre os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e dos EUA, Joe Biden. A presença de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e RBS TV no local foi pautada pela relevância do fato, que tornou públicos os pilares da política externa até 2027. Além de ditar como o Brasil vai se apresentar ao mundo, a viagem ao território americano busca aprofundar vínculos com um dos parceiros mais relevantes para os negócios do país.

As trocas comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos em 2022 atingiram o nível histórico de US$ 88,7 bilhões, de acordo com análise do Monitor de Comércio Brasil-EUA da Amcham. O levantamento mostra que o valor superou em US$ 18,2 bilhões (25,8%) o recorde anterior, estabelecido em 2021.

- Os EUA são o segundo principal destino das exportações brasileiras e o maior investidor privado no Brasil. Também são dois países que tiveram suas democracias testadas - os EUA, no ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, o Brasil, em 8 de janeiro de 2023. Lula e Biden têm uma agenda comum de reforço da democracia, contra extremismos e no ambiente.

Rodrigo está desde o final de 2022 em Brasília. Especialista em política internacional, combina informação e análise para retratar o contexto surgido após a posse de Lula para todas as plataformas do Grupo RBS. Ainda em janeiro, na primeira missão de Lula ao Exterior, o repórter esteve na Argentina e no Uruguai, dois vizinhos do país e com relações geográficas e econômicas fundamentais com o Rio Grande do Sul.

- A proximidade com os temas do Estado norteou nossa ida a Buenos Aires e a Montevidéu. Tanto é que muitos dos anúncios feitos por Lula impactam o Estado. Lula quis, nessa primeira viagem, mostrar que a prioridade da política externa será a relação com os vizinhos latino-americanos - avaliou Rodrigo.

Responsável pela editoria de Notícias da Redação Integrada, Leandro Fontoura ressalta que a presença de um repórter da RBS em uma cobertura assim permite que o público gaúcho, além das informações das viagens, receba um conteúdo diferenciado.

- Na passagem do presidente pela Argentina e pelo Uruguai, por exemplo, Rodrigo deu ênfase às tratativas de projetos que têm impacto no RS, como a construção de pontes, gasoduto e hidrovia ligando os três países. Desse olhar, não escapam curiosidades como uma brincadeira feita pelo presidente brasileiro envolvendo a contratação do uruguaio Luis Suárez pelo Grêmio - diz Fontoura.

DIEGO ARAUJO INTERINO

Os rentistas agradecem

Como repórter, enveredei por quatro países de regime socialista nos quais não deveria haver mercado livre porque a economia, em tese, era dirigida pelo poder central. Mas nos quatro - Cuba, União Soviética, Venezuela e Iugoslávia - o mercado só não existia na narrativa dos governos. Na vida real, era uma rede paralela de empreendedores extraoficiais ou uma teia clandestina, abastecida por desvios de estatais e contrabando. Mesmo em regimes socialistas, o mercado, esse ente agora tão vilipendiado por Lula e seu entorno, cuida de prover aquilo que é desejado mas escasso em sociedades de economia controlada.

O mercado não está atrás de popularidade. Ele não é candidato, não tem CNPJ ou endereço e reage a rabugices com mais cara feia porque gosta de segurança e previsibilidade. O mercado, avise-se, somos todos nós, em cada transação econômica de cada cidadão a partir da milenar lei da oferta e da procura. Um exemplo simples. Muita gente deixou de viajar de avião na pandemia? Os preços das passagens caem. Todo mundo quer viajar agora? Os preços sobem. Querem controlar o preço dos bilhetes? Alguém vai pagar a conta. Quando as companhias aéreas são estatais, é o contribuinte. Quando são privadas, elas dão prejuízo e muitas quebram.

No Brasil de Lula, tem ministro que deseja povo na rua para forçar o Banco Central a reduzir os juros. Os "rentistas", essa espécie que virou alvo lulista, agradecem. A cada sandice que vem do governo, os juros futuros - ditados pelo mercado real e não pela cabeça dos governistas - sobem mais um tanto, e o dólar, que dá sinais de exaustão em quase todo o mundo, ganha oxigênio extra no Brasil.

O governo está dividido entre incendiários e bombeiros. De um lado, Gleisi Hoffmann, a blogosfera petista e o próprio Lula. Já Rui Costa, Alexandre Padilha e Geraldo Alckmin tentam apagar os incêndios. Fernando Haddad parece perplexo, mas ajudaria se ele apresentasse a Lula a experiência da Turquia. Lá, não há banco central autônomo e o presidente Recep Erdogan decidiu baixar os juros na marra. Demitiu a diretoria do banco e decretou a redução da taxa. Resultado: a lira turca está entre as moedas campeãs de desvalorização nos últimos dois anos. A inflação em novembro do ano passado chegou a 86% ao ano. O mercado é assim, queiram governos ou não.

Agora, a onda de uma esquerda fossilizada é atacar a autonomia do Banco Central. É perda de tempo. O juro está alto porque a inflação ainda tem muito fôlego no Brasil, em boa medida pela irresponsabilidade fiscal do governo. Inflação é o maior inimigo dos pobres, porque bate mais forte nos alimentos e eles não têm como proteger sua renda. Lula quer ajudar os mais pobres? Trabalhe para reduzir, de forma sustentada, a inflação e o déficit público. Os juros, e o mercado, virão atrás.

MARCELO RECH 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023


09 DE FEVEREIRO DE 2023
CARPINEJAR

O poder apaixonante do riso

Lembro que, certa vez, uma colega de jornalismo apresentou seu novo namorado para a turma da faculdade. Estávamos bebendo num restaurante mexicano. Ele parecia atencioso, carinhoso, amável.

Depois de alguns shots de tequila, qualquer história contada passou a ser muito engraçada, e o namorado desandou a rir como se fosse engasgar. Como se a voz dele tivesse sido tocada pelo gás hélio. Ele uivava com um timbre infantil. Um lobo mirim asmático. Até que todos começaram a rir da risada incomum dele e ele ria ainda mais da nossa risada. Naquela noite, perdemos o ar de doer a barriga.

A amiga, antes entrosada e à vontade, testemunhando a parceria entre todos, mergulhou num cenho irreversível. O romance entre eles terminou ali. Naquelas bordas salgadas dos pequenos copos. Azedou com o limão. Simplesmente porque a amiga não teve crush com a gargalhada do rapaz.

Falei para ela que aquilo não era motivo para uma ruptura, que estava sendo excessivamente exigente diante de uma banalidade. Ela me respondeu, taxativa: - Se eu não gosto do riso dele, como é que vou fazê-lo feliz?

Havia preconceito em sua atitude, mas também uma dose forte de verdade. Um dos pré-requisitos para namorar - e pouca gente fala disso - é gostar da gaitada da pessoa. É preciso se apaixonar pela alegria. É preciso se apaixonar pela festa da alma. O riso é o recreio das linhas faciais, o apogeu da espontaneidade, o ápice da liberdade individual.

É essencial se apaixonar pelo jeito como a pessoa sorri para as fotos, como pronuncia com a boca em curva e mostra os dentes na mesa, na intimidade, na roda de samba, no boteco. Mais do que se deslumbrar com o beijo ou a conversa, a exigência é ser arrebatado pelo modo como a pessoa ri.

Não é possível se envolver sem admirar o som do contentamento. O riso é decisivo. O riso é seletivo. O riso é a química maior da convivência. Não pode ser reprimido como um espirro. Não pode ser de terror como uma crise de apneia. Não pode ser rápido a ponto de ninguém percebê-lo.

Não pode ser frustrado como uma praia adiada pela chuva. Há quem ri silenciosamente, aumentando o volume aos poucos. Há quem se joga escandalosamente na primeira nota, como um trompete. Há quem ri espaçadamente, com intervalo comercial. Há quem ri como um aplauso ao final, quando finalmente entende a piada.

No mundo, há um riso compatível com o seu, uma alma gêmea de sua felicidade. Deve procurá-la. O que pode desagradar a uns pode agradar a outros. Existe um riso esperando você, tipo amor à primeira risada. Um riso fofo. Um riso gracioso. Um riso que você fará questão de provocar, que terá o poder de transformar o seu dia, que renovará a esperança do cuidado.

Ame o riso do pretendente antes de formalizar os laços, para ter vontade de ser sempre engraçado. Para nunca perder a animação. Para lembrar os bons momentos. Do contrário, irá preferir a tristeza para silenciar quem está ao seu lado.

CARPINEJAR

sábado, 4 de fevereiro de 2023


03/02/2023 - 16h28min
Fabrício Carpinejar

O maior tranquilizante

Ficamos com a impressão de que a voz dos pais acalma e enternece as crianças. Não eram as histórias que a minha mãe contava que me faziam dormir. Ficamos com a impressão de que a voz dos pais acalma e enternece as crianças. O sonífero não vem nem do timbre, muito menos dos enredos das obras infantis, mas da respiração pausada da leitura. A soletração materna provocava o meu sono na infância. Porque ela lia com tanta paciência que eu chegava a ouvir o seu silêncio, as suas longas pausas, as suas reticências.

As vírgulas e os pontos finais de cada frase me tranquilizavam, me davam abertura para desacelerar e fechar docemente as pálpebras. O sonífero não vem nem do timbre, muito menos dos enredos das obras infantis, mas da respiração pausada da leitura.

Assim como podemos apressar o cochilo de um bebê em nosso colo apenas respirando alto, sem a necessidade de cantigas de ninar. Assim como adormecemos junto do bebê na cama ouvindo o seu chiado manso de chaleira em fogo baixo.

Os cães, inclusive, nos procuram no quarto pelo mesmo motivo. Eles se aquietam aos nossos pés não pela quentura das cobertas e da nossa pele, mas ao escutar os acordes do nosso sono profundo.

Mais do que aplicativos de chuva ou de mar, o som da respiração derruba qualquer insone. Até porque o barulho de chuva e das ondas são derivados sequenciais da nossa respiração. É igual andamento monocórdio do inspirar e expirar, de dentro para fora, de fora para dentro. A repetição das ondas vindo e voltando ou das gotas quicando nas calhas são parte do grande nariz do universo.

Chego a essa conclusão porque não consigo trair a minha esposa assistindo a filmes ou a séries depois que ela dorme. Bem que eu tento consumar o adultério cultural e acabar o que comecei, mas meus ouvidos são invadidos pelos seu ronronar ao meu lado.

É irresistível. É implacável. É arrebatador. Supera a imitação do bocejo. Sua respiração no outro lado vai me hipnotizando, vai me serenando, vai me agasalhando. É um calor da existência amada que depõe as armas da adrenalina. Nem se eu buscasse um café, retardaria o meu desenlace.

Ergo as costas, pego mais um travesseiro e não adianta: logo estarei roncando de óculos, sentado, congelado na minha posição de vigília.  Entre o sono dela e o meu, deve existir a diferença de alguns minutos. Quando Beatriz apaga, o quarto realmente escurece. Eu sou influenciável pelo ritmo suave de suas narinas. É o meu maior tranquilizante, o meu melhor antidepressivo.

Por mais que lute contra o descanso, ainda o considerando uma perda de tempo, enredado numa crença adolescente que ainda não me desapeguei, por mais que queira me concentrar nas legendas da telinha, aquela melodia me embala e embaça os meus olhos.

Eu me sinto protegido sabendo que ela vive. É a sua vida que me enche de mansidão e me dá segurança para relaxar. Dormir não é um ensaio da morte, porém da confiança de um casal. Pois estamos sintonizados na frequência cardíaca, eu me vejo correspondido, guardado, acarinhado, aninhado. Eu pouso mais do que durmo. Ou talvez, com medo de dirigir os meus pesadelos de noite, eu venho tomando carona nos sonhos dela.


04 DE FEVEREIRO DE 2023
HISTÓRIA

CHIMANGOS E MARAGATOS

O ano de 2023 marca os cem anos da famosa Revolução de 23, ocorrida no interior gaúcho e que teve como protagonistas Flores da Cunha e Honório Lemes. Trata-se da última guerra genuinamente gaúcha. Fechou a tríade de confrontos internos entre sul-rio-grandenses, que teve início com a famigerada e exageradamente romantizada Revolução Farroupilha (1835-1845) e sequência, depois, com a violenta Revolução Federalista (1893), conhecida também como Revolta da Degola.

Um ano antes de estourar a Revolução de 23, os descontentamentos com a ditadura de Borges de Medeiros iam de fraudes nas eleições - Borges governava o Rio Grande do Sul há quatro mandatos seguidos, desde 1898 - à crise na classe pecuarista, que era marcada pela diminuição drástica das exportações de carne para o mercado europeu, devido ao fim da Primeira Guerra Mundial (1918). 

Assis Brasil, líder da oposição, anuncia sua candidatura ao governo, desafiando Borges, que tentava seu quinto mandato. As eleições ocorrem em um clima bastante tenso. Mais uma fraude nas urnas ocorre e Borges acaba reeleito, fato que torna a situação, já muito tensa, insustentável. Em 25 de janeiro de 1923, Borges de Medeiros toma posse ao som de gritos "é pau, é canzil, viva Assis Brasil". E estoura a Revolução.

Os revolucionários de 23 se organizaram em colunas, com seus respectivos líderes nas diversas regiões do Estado: Leonel Rocha (Norte), Felipe Portinho (Nordeste), Honório Lemes (fronteira Sudoeste), Estácio Azambuja (Centro Sul) e Zeca Netto (Sul). Esses grupos possuíam centenas de combatentes. A mais famosa e a que ocupou o maior número de cidades foi a Coluna do General Honório Lemes, o "Leão do Caverá", homem simples, tropeiro e exímio conhecedor do Pampa.

Honório Lemes não tinha o aspecto dos caudilhos tradicionais. Tratava qualquer soldado como um igual. O efetivo de sua tropa chegou a atingir cerca de 3 mil homens. Lemes era um chefe carismático. Usava um linguajar típico, era sagaz e inteligente, ditava as ordens com termos adequados, frases sóbrias ritmadas e pausadas, indicando uma espécie qualitativa da pontuação, mesmo sendo quase analfabeto. Seu amplo conhecimento do território pampeano deu a ele uma grande vantagem com relação aos seus perseguidores. Mês a mês, a Coluna Lemes foi ocupando cidades do interior do Rio Grande do Sul como Alegrete, Dom Pedrito, Quaraí, São Gabriel e Rosário do Sul, entre outras.

No entanto, em Uruguaiana, Lemes não obteve sucesso, pois o intendente da cidade à época era o perspicaz Flores da Cunha. Atento aos acontecimentos nas cercanias da cidade, ele previu a inevitabilidade da luta armada e preparou uma forte defesa nos limites municipais. Com o sucesso da defesa de Uruguaiana, Flores da Cunha foi destacado com incumbência de perseguir Honório Lemes e sua coluna. 

Em 14 de dezembro de 1923, após muitas batalhas e milhares de mortes em ambos os lados, chegou ao fim o último período de sangueira no Rio Grande do Sul. Os revoltosos que exigiam a deposição imediata de Borges de Medeiros tiveram de se contentar com tímidas alterações na constituinte do Estado. O Acordo de Pedras Altas, negociado por Assis Brasil, trazia para o Rio Grande, em troca de mais um período de governo de Borges de Medeiros (que terminaria em 1928), a proibição da reeleição, conforme o padrão federal.

A notável característica gaúcha da "peleia" mais uma vez foi posta à prova em 1923. A dicotomia nos mais diversos contextos evidencia nossa marca registrada: o gosto pelo confronto. É digna de destaque uma das frases de Honório Lemes, que, além de ser atemporal, revela-nos um pouco do modo de pensar desse carismático personagem da História do Rio Grande do Sul. Quando confrontado pelo ministro de Guerra, marechal Setembrino de Carvalho, o ministro interpelou-o:

- Mas afinal, o que é que os senhores querem?

Sem titubear, o inculto fazendeiro que chegara a general no curso da revolução respondeu:

- Não queremos homens que governem leis, e sim leis que governem homens.

? Menos violenta e mais curta do que as duas guerras locais que a antecederam, a Revolução de 1923 causou cerca de mil mortes, segundo historiadores, que costumam justificar o saldo menos sangrento, entre oturos fatores, à baixa participação popular no confronto.

? A divisão entre os grupos em guerra seguiu uma linha estabelecida anos antes: os correligionários de Borges de Medeiros usavam lenços brancos no pescoço e tinham o apelido de "chimangos". Os de Assis Brasil, com lenços vermelhos, eram os "maragatos".

? Ambos os termos tinham origem pejorativa, chimangos (às vezes gafado com "x") em referência a aves de rapina oportunistas e "maragatos" na tentativa de caracterizar uma identidade estrangeira ao grupo (a referência era uma região uruguaia colonizada por pessoas originárias da Maragateria, na Espanha).

? Uma curiosidade cultural associada à guerra é o livreto de poemas Antônio Chimango, de Amaro Juvenal. Trata-se de uma sátira a Borges de Medeiros assinada sob pseudônimo por seu desafeto Ramiro Barcellos e que circulou clandestinamente após tentativa de apreensão por parte do governante. Sua publicação original data de 1915, mas o livro ganhou fôlego com uma segunda edição, publicada justamente em 1923 - o ano do estouro do conflito. 

LEONARDO LEMES