sábado, 15 de abril de 2023


15 DE ABRIL DE 2023
LEANDRO KARNAL

Aristóteles pensou na corrupção do sistema democrático. O demagogo conduz o povo, como diz a própria palavra. Explorando brechas da democracia, o líder desse tipo usa o apelo emocional, define os males como externos, cria um inimigo comum, adula as massas com elogios e, finalmente, é um bom orador.

Se temos fortes exemplos no mundo antigo, como Cléon de Atenas, nossa época expande a ideia demagógica. A primeira fonte é o acesso das massas ao voto e à ideia de que possuem poder. O segundo ponto, claro, são os meios de comunicação. Nenhum demagogo, de esquerda ou de direita, teria subido ao poder, no mundo contemporâneo, sem rádio e, depois, televisão e internet. As redes sociais trouxeram o palanque demagógico para dentro de cada casa, por vezes no sofá e na cama do eleitor.

O agravamento político no Brasil e no mundo teria apenas relação com algoritmos cibernéticos? Não. Também creio que a ideia de que todos devamos ser plenamente felizes, em estado de abundância e euforia, está provavelmente na base da expansão contemporânea da estrada demagógica. Se minha vida deveria ser plena, mas, mesmo assim, patino no lodo do fracasso, a culpa só pode estar fora de mim. O "condutor das massas" tem a função pedagógica de dar a explicação que o eleitor gostaria de ouvir. Nossa incapacidade de lidar com a dimensão trágica (ou patética) da existência é a porta que convida tais pessoas em todos os campos.

Ouso elaborar, para fins didáticos, o roteiro para construir o demagogo. Meu objetivo (é claro!) seria advertir contra ele, ao mostrar quais as partes que o constituem. Vamos lá:

1) O cidadão alvo do discurso dele é perfeito, ético, trabalhador e sempre honesto. O mal está no outro: estrangeiro, radicais de esquerda ou de direita, criminosos, gays, sindicalistas, judeus, islâmicos, intelectuais etc. O primeiro passo é reforçar o ego abalado do alvo do discurso. O mal é externo, fruto de uma conspiração nacional e mundial. Precisa criar a figura do homem ético para que se justifiquem todas as atrocidades. O homem de bem não mata por interesse, tampouco agride por egoísmo: ele age como um necessário anticorpo contra o vírus externo.

2) Todo demagogo reforça o ego do eleitor, afirmando que ele pertence à melhor comunidade do mundo. O grupo envolve sentimentos nacionalistas, religiosos ou de classe social. Apelos aos bons sentimentos do povo brasileiro: o autêntico, o real, o "raiz" são fundamentais. "Seríamos a maior potência do mundo pelas nossas virtudes intrínsecas se... não fossem tais e tais pessoas ou grupos adversários." A retórica do demagogo adula por necessidade e é bélica por consequência. Somos bons e devemos eliminar os maus. O clássico demagogo não é um político que busque o diálogo das partes, mas um estrategista de guerra a constituir inimigos e a solidificar o coletivo da tropa.

3) O demagogo profissional sabe elaborar ideias simples e diretas. Exemplos? Basta assinar as medidas X e Y, pois toda a economia entrará no eixo. Se fizermos uma lei tal, o crime terminará. Nada de detalhes sociologizantes ou sofisticações jurídicas. O demagogo é anti-intelectual não porque seja necessariamente burro, todavia sabe que o argumento mais elaborado tem pouca penetração midiática.

4) O demagogo funciona como o vinho de algumas regiões: ele sabe que qualidades medianas podem ser suplantadas por boa propaganda. No mundo contemporâneo, a catequese política implica domínio das redes sociais, dos seus agentes naturais e artificiais.

Velha piada da área de dieta diz - se o que se está comendo agrada ao paladar, cuspa porque engorda ou faz mal. A minha geração pensava que o bom mertiolate agia à proporção do ardor incômodo que causava. "Se arde, cura!" era um pensamento antigo. O que isso tem de relação demagógica?

Se ouço o discurso de alguém e acho maravilhoso, se as propostas do candidato parecem todas boas, se saio emocionado ao ouvir uma fala... "Cuspa, que faz mal!"

Aristóteles propunha, ao final da Política, a educação (Paideia) como parte essencial da felicidade na pólis grega. Acho que os demagogos existem e continuarão existindo. Não temos como calar a boca de todos, sem propor um tipo de repressão desagradável. Se não podemos evitar a fala dos falsos profetas, minha esperança está no refinamento dos ouvidos dos eleitores. A melhora de qualidade dos receptores pode crescer com programa de leituras críticas. Discurso agradável? Pode ser um vendedor ou um demagogo. O bom vendedor vai explorar fraquezas, como o sedutor político competente fará.

Resumo? Concordou com tudo? Sentiu o gosto do açúcar forte? Há chance de ser uma sedução falsa. Desagradou ou achou complicado? Pode ser, repito, pode ser que contenha mais verdade. Gente frágil busca elogios. Minha esperança continua na Educação. Como no passado, a ação política deve arder para curar. A condição de sucesso atual ainda está no placebo açucarado. Infelizmente!

LEANDRO KARNAL

15 DE ABRIL DE 2023
COM A PALAVRA

COM A PALAVRA

Escritora, 72 anos A espanhola será a conferencista de abertura do Fronteiras do Pensamento 2023, no dia 31 de maio

Um dos principais nomes da literatura espanhola contemporânea, a escritora Rosa Montero abre a temporada de 2023 do Fronteiras do Pensamento. Sua conferência será realizada no dia 31 de maio, no Teatro Unisinos (Av. Nilo Peçanha, 1.600). Rosa atuou como jornalista no El País entre os anos 1970 e 90, hoje é colunista do jornal. Aos 72 anos, ela se consagrou como romancista por sua prosa direta e profunda, em obras como Lágrimas na Chuva (2011) e História do Rei Transparente (2005). Porém, seus trabalhos que mesclam ficção, biografia e autobiografia também se destacam, como A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver (2013), A Louca da Casa (2003), Paixões (1999) e Nós, Mulheres (1995). Nesta entrevista, a escritora fala sobre a escrita, seus trabalhos mais recentes e sua ex-profissão.

SEU ÚLTIMO LIVRO LANÇADO NO BRASIL, A BOA SORTE (2022), TEM SIDO CLASSIFICADO COMO SEU ROMANCE MAIS AMBICIOSO. VOCÊ O VÊ ASSIM TAMBÉM?

Eu não diria que é o meu romance mais ambicioso, mas sim o mais maduro. São coisas distintas. Foi difícil para mim porque tem uma voz narrativa bem inusitada, que vai se transformando ao longo do romance. Logo, é como um relógio, que vai se desenvolvendo de maneira circular. A princípio, não se sabe nada sobre o que está acontecendo. O que se passa a esse homem? Por que faz as coisas tão estranhas? À medida que o romance avança, com as respostas que vão surgindo, tu percebes que há mentiras. A construção é muito complexa, mas eu trabalhei para que essa complexidade fosse invisível.

 Assim, a narração precisa fluir como um rio calmo. Para esse tipo de estrutura, você precisa dominar a artesania do romance. Portanto, é algo que eu não poderia produzir antes, pois o romance é um gênero de madurez. É preciso dominar a escrita. Aliás, os romances que eu costumo gostar mais foram escritos pelos autores com idade avançada. Quando eu era mais jovem, dizia que o meu auge seria entre os 45 e 55 anos. À medida que o tempo passou, fui aumentando a faixa (risos).

EM A BOA SORTE, PABLO É UM ARQUITETO QUE ANSEIA POR SER OUTRA PESSOA. UM DIA ELE DESCE DO TREM E, INESPERADAMENTE, COMPRA UM APARTAMENTO EM UMA CIDADE PEQUENA. SUA SITUAÇÃO É COMPLEXA, COMO VAMOS DESCOBRINDO. O QUE TE INSPIROU A DESENVOLVER ESSE PERSONAGEM?

Você não escolhe os livros que escreve, mas sim as histórias te escolhem. São como sonhos a olhos abertos que te obrigam a escrever sobre eles. A ideia que pus em marcha é a mesma que se passa com o protagonista no primeiro capítulo. Eu estava em um trem rumo ao sul da Espanha para participar de um clube de leitura. Estava escrevendo em meu notebook, levantei a cabeça e vi uma cidadezinha industrial e empobrecida. Vi um prédio com um apartamento precário, contendo varanda com ferros quebrados e enferrujados e um cilindro de gás arrebentado. Ali havia um cartaz de "aluga-se". 

A primeira coisa que pensei: pobre gente! Justo na rua em frente aonde passa o trem. Não vão vender nunca! (Risos.) Depois, com essa cabeça louca que temos nós, os escritores, me veio o "e se?". E se alguém neste trem levanta a cabeça, vê esse apartamento, desce na próxima estação, compra o imóvel, passa a viver naquele lugar horroroso, desaparece e não chega nunca ao seu destino? Quando cheguei ao clube de leitura, contei o que havia me ocorrido e que seria o começo de um romance. Mas eu não sabia nada. Não sabia por que esse homem desceu do trem, nem se seria homem ou mulher.

VOCÊ CHEGOU A COGITAR UMA PROTAGONISTA FEMININA?

Primeiro, pensei a história com uma mulher, mas não funcionava. Não que isso seja alguma generalização, mas, de alguma maneira, as mulheres são mais verbais. Um personagem tão fechado em si, tão carente de palavras, eu não via como mulher. Pensei que deveria ser protagonizado por um homem, o que funcionou melhor. Escrever o romance foi o caminho para entender o que eu havia pensado. Um autor experiente é aquele que tem humildade para deixar que sua história seja contada por seus personagens. Foi o que decidi. Esse homem nem sabe porque desceu do trem. Foi um movimento instintivo. Por isso ele fica ali, naquele apartamento, vendo passar os trens, o que é praticamente uma metáfora de sua situação: está fora de sua própria vida, vendo-a passar em sua frente. A partir daí, ele passa a reconectar-se e a tentar uma vida nova. E conhece Raluca, que é o personagem mais luminoso que já escrevi.

RALUCA É UM CONTRAPONTO PERTINENTE A PABLO. É UMA PERSONAGEM QUE AMA O SENTIMENTO DE ESTAR APAIXONADA.

Exato. Pablo é um tipo de pessoa que tem medo de seus próprios sentimentos, pois acha que as emoções o debilitam. Ele teve uma infância difícil e construiu uma espécie de defesa, que é um erro abissal. Supostamente, amar alguém te deixa mais vulnerável. Não só apaixonadamente, mas também amar um amigo, amar a um cachorro. Mas não se pode retrair esses sentimentos, virar uma espécie de ilha ou viver em uma bolha, pois isso é escolher morrer em vida. Somos animais sociais, precisamos dos outros. É uma dessas opções impossíveis, como envelhecer. Envelhecer não tem nenhuma graça, certo? A única opção para não envelhecer é morrer, que certamente tem menos graça (risos). Pablo é assim, escolheu não sentir nada. Afortunadamente, Raluca o tira do abismo em que ele havia se metido.

E ELA ROUBA A HISTÓRIA.

É graciosa. Originalmente, Raluca seria um personagem menor. Começou a crescer e a crescer em minha cabeça até dominar o romance. Converteu-se na verdadeira protagonista. Inclusive, o título do romance foi alterado por causa dela. No começo, livro se chamava El Silencio ("O Silêncio"). Um dia, enquanto realizava anotações sobre a história, escutei a Raluca falar na minha cabeça. É uma personagem que teve uma vida muito difícil, viveu em orfanato, um montão de coisas. 

Eu a escutei dizer: "Sempre tive muita sorte. Sou uma pessoa com uma sorte incrível e menos mal que sempre tenho sorte, porque senão, com a vida que tive, teria sido horrível". Me pareceu comovente que essa personagem se apaixonasse por Pablo. Então, compreendi que o romance tinha que se chamar A Boa Sorte, pois o que dizia Raluca era que a boa sorte consiste em enxergar o mundo de outra maneira, sobretudo contar as coisas de outro modo. O importante é a narração que se faz da vida. Nós, seres humanos, somos narrações. Somos palavras em busca de sentido. Se troca a narração, muda a vida. É isso que Raluca vem contar.

VOCÊ COSTUMA DIZER QUE ESCREVER UM ROMANCE É COMO SE APAIXONAR. COMO SERIA ISSO?

É parecidíssimo. É alienante. Te tira de você mesma, a todo momento você se pega pensando na pessoa amada. Está escovando os dentes e no espelho está vendo o fantasma dessa paixão. À noite, ao dormir, sonha com a amada ou amado. Com um romance acontece o mesmo. Quando está metida de verdade com a escrita, passa-se por outra alienação maravilhosa, pois está todo o tempo pensando na história e nos personagens. Outra coisa é que em ambas as situações você se sente às vésperas de um milagre. Quando está produzindo um romance tem muitas vezes a sensação de que, no momento seguinte, será capaz de escrever a página perfeita, de elaborar a beleza mais pura. Mas isso não ocorre em nenhum dos dois casos (risos).

MAS O ESCRITOR OU ESCRITORA PODE TER TAMBÉM UMA RELAÇÃO TÓXICA COM SEUS ROMANCES, NÃO?

O romance é um gênero de trabalho colossal. Te obriga a estar sentada em um canto de sua casa durante horas, semanas, meses e anos escrevendo mentiras. É uma atividade bizarra, com momentos amargos e desesperadores. Para mim, dois romances já morreram. Duas histórias que não pude terminar. Em um perdi três anos de trabalho, e em outro foram dois. Podemos passar dois meses escrevendo e não aproveitar nada, porque nada te agrada, porque não flui. Mas também é a oportunidade de brincar de ser Deus, brincar como uma criança criando mundos e vidas. É tão maravilhosa essa possibilidade de sentir emoções e viajar pelos personagens criados, que, por mim, estou disposta a pagar o preço. Os desesperos momentâneos, no fim, não importam. Escrever é uma paixão que te salva a vida.

EM A LOUCA DA CASA, VOCÊ ESCREVEU QUE A PAIXÃO TALVEZ SEJA O EXERCÍCIO CRIATIVO MAIS COMUM DA TERRA E QUE É A NOSSA VIA MAIS HABITUAL DE CONEXÃO COM A LOUCURA. QUE A IMAGINAÇÃO ESTÁ INTIMAMENTE LIGADA AO QUE CHAMAMOS DE LOUCURA. NO ANO PASSADO, VOCÊ LANÇOU EL PELIGRO DE ESTAR CUERDA (PREVISTO PARA CHEGAR EM NOVEMBRO AO BRASIL, SEGUNDO A EDITORA TODAVIA), QUE ABORDA ESSE TEMA. NO FIM, ESCREVER UM ROMANCE É TAMBÉM UM ATO DE LOUCURA?

É um livro que trata sobre isso, a criação e a loucura. Desde o início dos tempos, se discute se há uma relação entre a criatividade e o transtorno mental. Minha teoria é que as pessoas que se dedicam a coisas criativas têm um cérebro parecido às pessoas com transtornos mentais. O neurocientista Eric Kandel, Nobel de Medicina em 2000, diz que todos os transtornos mentais se devem a uma falha entre as conexões neurológicas. Então, quem se dedica a coisas criativas têm um cérebro com cabeamentos distintos aos da maioria. Um cérebro que não terminou de amadurecer. Um dos passos fundamentais para o primeiro amadurecimento ocorre quando começa a adolescência. 

Até então, o cérebro das crianças está tremendamente hiperconectado. Todos os neurônios estão conectados uns aos outros. Por isso a criança tem uma imaginação transbordante. Quando começa a puberdade, tem início uma poda neurológica dessas conexões que não são úteis para concentrar o cérebro no que seria útil, no que seria necessário para a sobrevivência da espécie. Mas há entre 15 e 20% de pessoas no mundo que pulam esse passo de amadurecimento cerebral e nunca terminam de podar o cérebro. Seguem tendo o cérebro hiperconectado. Entre essa porcentagem, há aqueles com transtornos mentais e aqueles que se dedicam a criar. Então, creio que sejamos primos ou irmãos (risos).

VOCÊ CURSOU PSICOLOGIA, CERTO?

Sim, pensava que estava louca quando tive os primeiros ataques de pânico, decidi estudar Psicologia para descobrir o que se passava comigo.

E O QUE VOCÊ APRENDEU?

Nada. Não aprendi nada (risos). Não terminei o curso. Quando pude me entender, quando descobri o que se passava comigo, deixei a graduação (risos).

COMO VOCÊ ENFRENTOU OS ATAQUES DE PÂNICO?

Creio que precisamos aprender a conviver com a nossa "mala de trevas". Todos temos uma mala, pode ser maior ou menor, dependendo da pessoa. É necessário aprender a lidar com ela. Eu perdi o medo ao medo, digamos assim. Medo de que os ataques voltassem. Isso me ajudava que passassem. Para mim, creio que foi essencial começar a publicar romances periodicamente a partir dos 30 anos. É curioso, desde os 19 eu trabalhava como jornalista, mas o jornalismo não te proporciona esse efeito psicológico em sua estrutura. Eu escrevia ficção desde os cinco anos, mas não publicava nada. Isso tampouco me servia. A combinação que servia era escrever ficção, publicá-la e ser lida. 

O que chamamos de transtorno mental, na realidade, é uma ruptura da narração comum. Você se sente que se vai da coletividade e da espécie humana. Quando você tem um transtorno mental, sente como se um gigante te pegasse e arrancasse do mundo. Sente-se uma solidão colossal, que não se pode explicar ou entender. Te engana e te faz crer que isso que ninguém mais sente. Alguns especialistas dizem que o romance é um delírio controlado. Então, escrever um romance é sacar de si o seu mundo mais íntimo, tirar um pedaço mais profundo do coração. Quando se publica, há gente que vem e te diz: "Este mundo que você vê eu também vejo". "O que você sente eu também sinto." Isso te insere de volta na realidade.

TEM SIDO ASSIM A RECEPÇÃO DE EL PELIGRO DE ESTAR CUERDA?

Uma viagem alucinante! Não tive recepção igual com nenhum livro. Todo mundo vem e me conta suas histórias, que o livro lhes permitiu sentir-se menos solitárias, compreender que não são loucos, que deixaram de ter vergonha por coisas que andaram ocultando. Tenho chorado muito com as coisas que me contam. Tudo muito bonito e precioso.

VOCÊ TAMBÉM É UMA JORNALISTA RENOMADA, ATUANTE EM MAIS DE DUAS DÉCADAS. AGORA VIVEMOS UMA ERA DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, FAKE NEWS, CONCORRÊNCIA COM CRIADORES DE CONTEÚDOS NAS REDES SOCIAIS, ENTRE OUTROS FATORES. VOCÊ ACHA QUE VIVEMOS UM PERÍODO DESAFIADOR PARA O JORNALISMO?

Vivemos um momento desafiador não só para o jornalismo, mas em todos os aspectos da vida e da sociedade. O jornalismo passou por um período longo de travessia no deserto, de adequação às novas tecnologias e mudanças de mercado. Foi um dos setores mais afetados com a crise de 2008. De lá para cá, muitos jornais desapareceram. Os sites jornalísticos não podem se manter por meio da publicidade, o que não se sabia, pensava-se que podiam sobreviver assim, mas não funcionava. As pessoas não queriam pagar pelo digital, o que resultou em uma fase espantosa, muita gente foi demitida, muitos profissionais experientes foram despedidos, enquanto jornalistas inexperientes foram contratados no lugar por salários mais baixos. Revisores foram demitidos. Redações contando com menos gente, e esse pessoal tendo que fazer 27 mil coisas - digital, papel, não sei o que mais. 

Mas creio que essa crise está passando. As empresas de streaming, como Netflix e Spotify, começaram a acostumar as pessoas a pagarem por conteúdos, o que inclui jornais digitais. Muita gente também perdeu a cabeça pensando que as redes sociais poderiam funcionar como um jornalismo urbano, o que se confirmou como uma mentira. Se alguém te manda algum tuíte de uma manifestação em, por exemplo, Teerã, isso não é jornalismo, mas sim uma fonte primária. Esse tuíte pode ser verdadeiro ou não. Terá que passar pelas verificações de um repórter. O jornalismo segue sendo absolutamente necessário, ainda mais nesses tempos de fake news. O que se passa é que precisamos aprender a lidar com isso. Agora existe a possibilidade de elaborar uma imagem, por exemplo, de Joe Biden matando uma idosa. E, realmente, parece que é real. Temos de ensinar as pessoas a separar o que é real e o que é manipulado.

SENTE SAUDADES DE SEUS TEMPOS DE JORNALISTA?

Nenhuma. Nada. Sigo escrevendo artigos, mas não quero fazer nada além disso.

ESTÁ MAIS QUE BOM PARA QUEM, SEGUNDO SUAS PRÓPRIAS CONTAS, JÁ REALIZOU 2 MIL ENTREVISTAS...

Sim, é muito bonito ser jornalista. Me encantou, mas já faz muitos anos, prefiro fazer outras coisas.

EM A RIDÍCULA IDEIA DE NUNCA MAIS TE VER, VOCÊ COMENTA QUE A INFÂNCIA, A JUVENTUDE E A MATURIDADE DOS BIOGRAFADOS COSTUMAM OCUPAR UM ESPAÇO ENORME NO LIVROS. PORÉM, COMO VOCÊ ESCREVEU, CHEGA UM MOMENTO DA NARRATIVA QUE, DE REPENTE, TUDO PARECE SE ESVAZIAR, ACELERAR OU COMPRIMIR. VOCÊ OBSERVA QUE A MENOS QUE MORRAM JOVENS, QUANDO CHEGAM À VELHICE PARECE POUCO INTERESSANTE O QUE LHES ACONTECE. SENTE RECEIO QUE ISSO ACONTEÇA EM SUA BIOGRAFIA?

(Risos.) Não sinto nenhum receio assim. Para mim, não há posterioridade. Aliás, quase ninguém passa para a posterioridade. Eu espero uma velhice de muita vivacidade. Quero morrer estando muito viva. Essa é a minha maior aspiração no momento. 

WILLIAM MANSQUE

15 DE ABRIL DE 2023
CARPINEJAR

Segredos de uma vida

Meu pai tinha um cofre. Ficava no escritório, atrás de um quadro do Vasco Prado, em nossa antiga casa na Rua Coronel Corte Real, em Porto Alegre. Ninguém conhecia a senha, a não ser ele. Ninguém enxergava o que ele colocava lá.

Eu imaginava maços de dólares e sacos de cruzeiros. Imaginava que ele o alimentava com uma montanha de moedas do Tio Patinhas, com que daria para comprar todas as balas Xaxá no armazém da esquina.

Quando ele mexia no esconderijo, eu não podia permanecer por perto. Ele chamava a mãe para me levar embora. O mistério durou até nossa residência ser assaltada enquanto veraneávamos em Pinhal (RS).

Assaltantes entraram pela janela do banheiro. Ao voltarmos da praia, meu pai - percebendo a casa revirada - correu em direção ao escritório. Aproveitei o desespero para ir atrás dele. O cofre estava escancarado.

O pai pôs, com extremo cuidado, sua mão no interior do quadrado na parede. Lembro o suspense, a minha respiração parou.

E trouxe do fundo do buraco seis espirais, seis cadernos amarelados. - Ufa, não levaram! Eu perguntei o que era aquilo que não parecia dinheiro. - Meus livros de poesia! - o pai respondeu. Ele usou o cofre para guardar o que possuía de mais precioso: sua obra inédita.

Presumo a decepção dos ladrões ao puxarem um amontoado de versos. Não esperavam que, no esconderijo mais recôndito e blindado daquela residência, não houvesse nada de útil para tirar proveito financeiro.

Eu perguntei a meu pai: - E cadê o nosso dinheiro? Ele me respondeu, rindo: - Ora bolas, no banco. Cada um tem a sua fortuna enigmática, que tem valor sentimental, não monetário.

Por isso, existe o costume de conservar, como se fosse um tesouro, um relógio antigo do avô que nem mais funciona, um livro de receitas da avó, um escapulário quebrado da mãe, um álbum de figurinhas feito em parceria com um irmão, uma caneta tinteiro da formatura.

Não tem como menosprezar os badulaques dos outros. Não tem como jogar fora algo que não é seu. Toda biografia se concentra em pequenos fragmentos do passado. Na verdade, objetos lembram pessoas importantes na nossa vida. Então, você não guarda objetos, mas pessoas dentro dos objetos, pessoas dentro da saudade.

Da mesma forma, você só se torna quem você é pelo cuidado disciplinado com os seus segredos. A vocação é um segredo, uma missão que deve ser levada a sério.

Meu pai só se tornou autor de cem livros, único gaúcho na Academia Brasileira de Letras, com 63 anos de literatura, porque priorizou tudo o que escrevia como se fosse sagrado. Jamais brincou com a inspiração.

CARPINEJAR

15 DE ABRIL DE 2023
BRUNA LOMBARDI

DE QUEM É A IA?

Grandes mestres ultrapassam fronteiras, usos e costumes, linguagem, as mais diversas culturas, crenças e superstições. Porque o sentido da humanidade está acima disso tudo. Vai além de raças, gêneros e posição social. Trata do que nos une e não do que nos separa. A arte dos grandes mestres toca aquele ponto do sentimento universal. Grandes mentes nos elevam ao mais alto patamar do humanismo.

E agora, para onde vamos se as grandes mentes se tornam artificiais? Se a inteligência suprema será a de megacomputadores que acumulam todo o conhecimento do mundo? Atônitos, nos perguntamos e tentamos imaginar a cara desse futuro próximo.

Tenho participado de palestras, debates e mesas redondas com muita gente discutindo sua visão futurista, para alguns, otimista, para outros, apocalíptica.

Todo bom autor de ficção científica já escreveu alguma coisa sobre as máquinas dominarem o mundo. A criatura mata o criador, como numa das cenas mais poderosas e icônicas do cinema, no Blade Runner original, quando o androide finalmente consegue encontrar quem o fabricou e, entre amor e ódio, discute sua finitude, como um humano falando com Deus.

Sem levar em conta esse olhar fantasioso, máquinas são máquinas. E ninguém pode acusar uma máquina de nada, exceto talvez as impressoras, que realmente parecem ter vontade própria e só imprimem quando querem. Tudo o que usamos são ferramentas, criadas por pessoas e usadas por pessoas.

Muita gente discute as possibilidades alarmantes com as quais a AI nos surpreenderia. Muitos questionam se ela vem para o bem ou para o mal. Estuda-se a história da humanidade através de suas guerras, de suas conquistas e de sua arte para compreender o indivíduo e sua evolução. A arte traduz cada momento histórico e com certeza nos ensina mais do que as guerras.

Assim como os grandes mestres, a Inteligência Artificial atingirá a todos em maior ou menor escala. Para analisar o efeito da AI, é preciso entender por quem serão programadas as máquinas. Com que versão do pensamento humano serão alimentadas? Qual será a somatória de princípios éticos e morais? Qual a escala de valores? De quem elas serão a verdadeira tradução? A quem elas servirão?

Para Krishnamurti, não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente. Para ele, a verdadeira revolução não é violenta, ela vem através do despertar da inteligência e pela união de pessoas que podem influenciar e promover aos poucos, gradualmente, transformações radicais na sociedade.

O futuro desse mundo polarizado vai refletir quais correntes de pensamento? Que ideias e ideologias vão ser programadas na grande rede neural da Inteligência Artificial? Assim como em qualquer família o que é ensinado aos filhos vai definir o que eles se tornarão, as máquinas podem se tornar as poderosas mentoras da guerra, do ódio, do domínio e da segregação.

Ou podem seguir os grandes mestres e compreender o mundo através da arte, do conhecimento e inovação. A tecnologia traz avanços gigantes na nossa caminhada, mas quem a programa e usa é que vai definir nosso rumo.

BRUNA LOMBARDI

15 DE ABRIL DE 2023
FLÁVIO TAVARES

CAUSAS & CONSEQUÊNCIAS

Os crimes aberrantes de dias atrás, envolvendo crianças como vítimas ou como autor, despertaram indignação no país e levaram os governantes a prometer aumentar a repressão policial.

Há duas semanas, abordei aqui o crime de São Paulo, em que um menino de 13 anos assassinou a facadas uma idosa professora em plena sala de aula e feriu outras três. Apontei ser necessário ir às causas profundas, mas vejo que os governantes se preocuparam só com as consequências, como se a violência não tivesse origens.

Dias após, outro crime ainda mais atroz ocorreu em Blumenau. Um adulto invadiu uma creche e matou quatro criancinhas a machadadas. Depois, saiu calmamente e se entregou à polícia.

O ministro da Justiça na área federal e diferentes governantes estaduais prometeram agir, mas propõem medidas que ignoram as causas da insânia. Vão aumentar a vigilância nas escolas e as rondas de rua, como se instalar o "Estado policial" para reprimir o crime não fosse também reprimir a própria sociedade. Só faltou que propusessem que, ao lado de cada guri ou guria, haja um policial fardado?

As causas profundas da violência foram ignoradas. Ou geram um interminável debate sobre a responsabilização das redes sociais pela violência que nelas se propaga. As "redes" são os principais estuários do ódio, uma cloaca que reúne todas as pestilências.

O tal "mata-mata" dos videogames, por um lado, e as histórias infantis, por outro, nos acostumam ao crime desde a infância. Indago: o que são aquelas narrações em que o lobo mau devora a indefesa vovozinha para quem a netinha levava deliciosos docinhos?

As histórias infantis estão infestadas de medo e horror, mas são transmitidas de geração em geração. A transmissão do horror não pode ser encarada tal qual uma vacina que nos torna resistentes ao mal e nos livra da enfermidade.

A verbalização do horror acaba nos familiarizando com o próprio horror e o incorpora ao cotidiano, como se fizesse parte da vida.

Tão só no Rio Grande do Sul, o governo estadual promete mobilizar 1,7 mil policiais para vigiar áreas escolares. Esta visão simplista do horror, tratando-o pelas consequências e nunca pelas causas, talvez seja como tentar baixar a febre num doente dando-lhe água, sem ir ao que gerou a alta temperatura?

FLÁVIO TAVARES

15 DE ABRIL DE 2023
DIÁRIOS DO PODER

Bagagem lotada Confira os acordos firmados entre Brasil e China

A missão oficial de Lula na China gerou 15 acordos federais, além de outros entre empresas brasileiras e chinesas e alguns envolvendo governos estaduais. Entre os acertos, está a criação de mecanismos para a facilitação do comércio entre os dois países, assim como para o desenvolvimento da pesquisa e da inovação. Há acordos envolvendo coprodução para televisão e cooperação entre agências de notícias públicas dos dois países. Há ainda acordos para certificações sanitárias e para a entrada de produtos animais.

Um protocolo determina sobre o desenvolvimento do Cbers-6 entre o governo brasileiro e o chinês. O satélite será usado para monitorar o desmatamento na Amazônia e em outros biomas. Outro trata do entendimento sobre requisitos sanitários e de quarentena para carne a ser exportada do Brasil para a China.

Entre os acordos entre empresas, está memorando de entendimento entre a China Communications Construction Company (CCCC), a maior empresa de construção civil na China, e a Vale para avaliar a construção de uma ferrovia no Pará, um projeto de R$ 7 bilhões.

A Suzano anunciou três acordos, incluindo um com a Cosco para a construção de cinco navios de transporte de celulose. A elétrica chinesa State Grid fechou acordo com a hidrelétrica de Furnas para desenvolver projeto de revitalização de Itaipu. Já a Seara anunciou a compra de 280 caminhões elétricos da JAC Motors. Entre os Estados, o Rio Grande do Norte fechou memorando de entendimento com a Associação Sino-Brasileira de Mineração, que prevê investimentos em mineração, incluindo a construção de um laboratório de avaliação de minerais preciosos. Confira os 15 acordos federais:

Em viagens presidenciais, há dois quesitos fundamentais para se analisar o sucesso ou o fracasso da missão: os acordos concretos, a troca de assinaturas entre os presidentes e seus ministros, e os gestos, carregados de simbolismos. Lula volta da viagem à China com a mala cheia em ambos os indicadores.

No aspecto prático, 15 acordos e memorandos de entendimento foram fechados em áreas como comércio, mídia, agricultura e tecnologia, entre outros. O Ministério da Fazenda estima que a cooperação englobe algo equivalente a US$ 50 bilhões.

Não é pouco se lembrarmos que, de Washington, na visita a Joe Biden, em janeiro, o presidente brasileiro saiu apenas com uma promessa, até agora não confirmada pelo Congresso americano, de investimento no Fundo Amazônia - nem o valor é certo, embora se fale em US$ 50 milhões.

Sobre gestos, fundamentais na diplomacia, a visita a Pequim e, no dia anterior, a Xangai, foi impregnada deles.

A cerimônia de boas-vindas foi completa, a primeira a um chefe de Estado desde que a China pôs fim às regras draconianas de "covid zero", em dezembro. Teve tapete vermelho, passagem das tropas em revista, crianças sacudindo bandeirinhas dos dois países e até banda marcial tocando Um Novo Tempo, de Ivan Lins, para agradar os brasileiros.

No dia anterior, em Xangai, outro gesto: Lula usou os óculos de realidade virtual da Huawei, na sede da empresa - alguém que gosta de analogias poderá dizer que o presidente passou a olhar a eventual nova ordem global pelas lentes chinesas.

E já que estamos falando de gestos, por que não incluir palavras? E aí talvez esteja o único senão da troca de gentilezas. Lula disse que ninguém vai impedir a aproximação entre Brasil e China. Lembrou, de caso pensado ou não, Vladimir Putin ao celebrar, em Moscou, semanas atrás, a "parceria sem limites" sacramentada com Xi Jinping.

RODRIGO LOPES

15 DE ABRIL DE 2023
MISSÃO OFICIAL

Líderes cobram que Acordo de Paris seja cumprido

A declaração conjunta divulgada após a reunião de Lula e Xi Jinping também inclui apelo para que nações desenvolvidas cumpram os termos do Acordo de Paris, segundo o qual pelo menos US$ 100 bilhões deveriam ser anualmente destinados pelos paí­ses mais ricos ao financiamento de soluções para mitigar a crise climática.

"Exortamos os países desenvolvidos a honrarem suas obrigações não cumpridas de financiamento climático e a se comprometerem com sua nova meta quantificada coletiva que vai muito além do limite de US$ 100 bilhões por ano", afirma o comunicado.

O Acordo de Paris foi assinado em dezembro de 2015, durante a 21ª Conferência do Clima (COP21) das Nações Unidas. Depois do Protocolo de Kyoto, de 1977, é o acordo mundial mais importante sobre o tema.

No termo do comunicado divulgado, também consta o apoio da China para que o Brasil sedie a 30ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP30), prevista para 2025.

Abu Dhabi

Antes de retornar ao Brasil, Lula visitará, neste sábado, Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Assim como na China, a expectativa é pela assinatura de acordos bilaterais e captação investimentos. A agenda inclui encontro com o líder do país, Mohamed bin Zayed.

Acenos, acordos e promessas na China

"Ninguém vai proibir" o Brasil de aprimorar ligação com chineses, disse Lula

A reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Xi Jinping , momento mais aguardado da missão oficial do presidente à China, foi marcada por manifestações de reaproximação entre os dois paí­ses.

Lula afirmou que "ninguém vai proibir que o Brasil aprimore suas relações" com a nação asiática e sugeriu que as trocas transcendam a questão comercial e avancem para campos como ciência e tecnologia, educação e cultura. O governo federal assinou 15 acordos. Representantes de governos estaduais e empresas privadas firmaram quase 30 compromissos, e estimativas apontam que cifras envolvidas chegariam a R$ 50 bilhões, segundo interlocutores do governo.

Após iniciar a agenda em Xangai na quinta-feira, Lula foi recebido por Xi no Grande Palácio do Povo, sede do governo chinês em Pequim, com direito a uma grandiosa cerimônia de boas-vindas.

Antes do encontro, Lula participou de ato na Praça da Paz Celestial, local de importância histórica para a China, e teve reuniões com o presidente da Assembleia Nacional, Zhao Leji, e com o CEO da empresa de energia elétrica State Grid, Zhang Zhigang.

Além dos 15 acordos federais, foram sete de governos estaduais e cerca de 20 entre empresas, considerando também os anunciados na viagem do final de março. Os acertos preveem, por exemplo, a construção de um satélite para monitoramento da Amazônia (leia mais na página 13).

Na conversa com o líder chinês, Lula afirmou que a visita a uma unidade da Huawei, na quinta- feira, foi demonstração de que o Brasil "quer dizer ao mundo que não tem preconceito" nas suas relações comerciais. A gigante de tecnologia foi acusada pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump de fazer espionagem e o governo americano pressionou Brasília para não adotar a tecnologia 5G da empresa chinesa.

Xi afirmou que Brasil e China são os maiores expoentes em relação aos países em expansão no mundo. "China e Brasil são os maiores países em desenvolvimento e importantes mercados emergentes dos dois hemisférios. Temos interesses em comum", afirmou, segundo a Secretaria de Comunicação Social brasileira.

EUA

A missão na China foi encerrada com uma entrevista coletiva de ministros que integram a delegação brasileira, da qual Lula não participou. Na ocasião, o titular da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que os dois governos estão programando um "salto de qualidade" nas relações.

Na véspera do encontro, Lula chegou a sugerir que Brasil e China adotem o yuan e o real nas transações financeiras, em substituição ao dólar. Questionado se a aproximação do Brasil com a China pode causar afastamento em relação aos Estados Unidos, Haddad negou.

- Não temos nenhuma intenção de nos afastar de quem quer que seja, sobretudo de um parceiro da qualidade dos Estados Unidos. Estamos fazendo um esforço de aproximação, queremos investimentos dos Estados Unidos no Brasil. Nós queremos restabelecer as melhores relações, e desejamos parcerias com esses três blocos comerciais: Estados Unidos, União Europeia e China - acrescentou.

Empréstimo

Além dos acordos, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, que integrou a comitiva, disse que a instituição assinou com o Banco de Desenvolvimento da China acordo para empréstimo de R$ 6,5 bilhões. Os recursos serão para financiar projetos em infraestrutura, energia limpa e inovação tecnológica no Brasil.


15 DE ABRIL DE 2023
JULIANA BUBLITZ

Indutores da mudança

Ketty Brocker Christ e Rubem Fridolino Christ Junior não dividem apenas a vida e os negócios. Empresários do ramo de viagens e da gastronomia, eles compartilham, também, o desejo de fazer a diferença. Sem esperar pelo poder público, a dupla decidiu puxar a frente na transformação do lugar onde vive: Porto Alegre.

Com o apoio da vizinhança, Ketty e o chef Fridô, como são conhecidos, criaram um movimento comunitário para revitalizar a Praça David Rosemblit, conhecida como a "Praça da Rua Jari", próxima do Shopping Iguatemi, no bairro Passo d?Areia.

Chamado de Jari é Tri, o projeto já está rendendo frutos. Começou com a aproximação entre os vizinhos - incluindo comerciantes, profissionais liberais, funcionários de lojas e moradores do entorno -, que se tornaram amigos e parceiros em ações de limpeza.

Depois, Fridô virou "prefeito" do local, com a chancela da administração municipal, que tem apoiado iniciativas do tipo (há 266 pessoas nessa função na Capital).

Com dinheiro do próprio bolso, o casal bancou o esboço do plano de recuperação da área. A proposta envolve a criação de quadras de beach tennis e de espaços para famílias, crianças e pets.

- Somos moradores da Rua Jari há mais de 20 anos e decidimos olhar para a nossa praça de um jeito diferente, não mais lamentando porque estava suja ou com a grama alta ou porque era insegura. Decidimos fazer a nossa parte, assumir a responsabilidade. Queremos ter a praça mais alegre de Porto Alegre - resume Ketty, que, ao lado do marido, com quem é casada há 22 anos, comanda o espaço CAV (Comer, Amar e Viajar).

Para juntar recursos e viabilizar a transformação, eles passaram a organizar jantares especiais - até o prefeito Sebastião Melo já foi convidado. A ideia é avançar aos poucos, dentro do que é possível fazer a partir de doações e de parcerias.

- Se a gente só resmungar, não resolve nada. Temos de dar o exemplo e superar barreiras - diz Fridô.

JULIANA BUBLITZ

sábado, 8 de abril de 2023


08 DE ABRIL DE 2023
TELEVISÃO

THE VOICE KIDS COM NOVIDADES

Nova temporada do programa, com apresentação de Fátima Bernardes, terá pela primeira vez um trio de jurados negros

É bom que o "fofurômetro" esteja bem calibrado, pois são altas as chances de ele explodir a partir deste domingo. Além da celebração da Páscoa, a data será marcada pelo retorno do The Voice Kids à grade de programação da Globo. A oitava temporada do programa vai ao ar às 14h15min.

Será o primeiro The Voice Kids de Fátima Bernardes, que estreou no comando da franquia de realities musicais no ano passado, com a versão para competidores adultos. A apresentadora conta que se surpreendeu e se emocionou com o talento dos cantores mirins, sobretudo por perceber o grande número de crianças talentosas que existem no Brasil.

Para Fátima, a principal diferença entre os formatos The Voice está na experiência emocional dos participantes. É muito mais fácil ouvir um "não" para um adulto, por exemplo, mas ela também destaca a coragem e a força de vontade dos pequenos competidores.

- Os adultos chegam à competição, muitas vezes, com uma carreira já construída. A grande maioria já vive da música, sabe das dificuldades, dos "sins" e dos "nãos". Já as crianças estão começando. Creio que seja essa a grande diferença: para muitas, o The Voice é a primeira experiência em um palco tão grande - explica Fátima. - O que mais me encanta é a coragem delas de entrarem naquele palco e começarem a subir os degraus para a conquista dos seus sonhos desde tão novas.

Química

Além da apresentadora, também há estreantes no time de jurados: Iza, do The Voice Brasil, que será técnica do Kids pela primeira vez; e o pagodeiro Mumuzinho, do The Voice +, que estreia como jurado titular do Kids após ter substituído Claudia Leitte por um curto período na quinta temporada. Os dois se juntam ao experiente Carlinhos Brown, um especialista no reality.

Entre The Voice Brasil, The Voice Kids e The Voice +, para cantores idosos, Brown tem no currículo 18 temporadas do programa. Ele passou por diferentes composições do time de jurados e garante que os técnicos estão afinados para esta temporada. Há, conforme Brown, uma química ancestral entre os três: a raiz afro-brasileira, que faz com que se entendam apenas no olhar.

- Quando olhamos um para o outro, é como se estivéssemos preparando uma música, uma melodia, uma letra ou mesmo um concerto - diz o jurado.

Mumuzinho acredita que ele, Iza e Brown poderão servir de inspiração para as crianças negras do programa, como um exemplo de onde podem chegar com suas carreiras na música. O pagodeiro também destaca que os três vêm de berços musicais distintos, mas possuem personalidades que se complementam na relação com os pequenos.

- Brown vem com suas palavras que carregam poesia e espiritualidade, Iza com sua leveza e delicadeza, e eu com alegria e emoção - pontua o pagodeiro. - Eu acho que o fato de nós estarmos aqui, três grandes artistas negros, encoraja.

Esta será a primeira vez que o The Voice Kids terá um trio de jurados negros. Para Iza, será também uma oportunidade de revisitar a própria história:

- É muito lindo você se ver no palco numa versão infantil. Lembramos das nossas vontades, dos nossos sonhos. É inspirador ver crianças tão corajosas, com tanta certeza de que a música é o caminho que elas devem seguir.

Fases

A cantora conta que, nesta primeira fase das "audições às cegas", a emoção tem sido seu guia. Até porque a dinâmica inicial do The Voice Kids propõe que os jurados, sentados de costas para o palco, não assistam à apresentação dos competidores, deixando- se envolver apenas pela voz. Se gostarem do que ouvirem, eles viram a cadeira para o artista mirim, manifestando o desejo de tê-lo em seu time. Se mais de um jurado quiser o mesmo participante, caberá a ele escolher em qual equipe deseja ficar.

Os times estarão completos quando cada técnico possuir 18 participantes sob sua orientação, totalizando 54 vozes no páreo pelo prêmio final de R$ 250 mil. O número de competidores diminuirá significativamente na fase seguinte, das "batalhas", na qual trios disputarão a permanência no programa cantando a mesma música. O que tiver melhor desempenho será salvo pelo técnico, enquanto os outros dois serão eliminados. Seis vozes seguirão em cada time ao final desta fase.

A etapa seguinte terá apresentações individuais, os "shows", e somente quatro talentos de cada time seguirão na competição. Os remanescentes disputarão, então, a fase inédita das "superbatalhas", que eliminará um deles, qualificando, assim, os outros três. Na semifinal, os trios de cada time concorrerão às duas vagas que cada técnico pode ter na final. Ou seja, no último episódio, o público precisará escolher entre as seis vozes finalistas para o prêmio de campeão da temporada.

Até lá, o caminho será longo. E o que não vai faltar, conforme o veterano Carlinhos Brown, é emoção:

- Quando uma criança canta, ela coloca ali tudo o que está em seu coraçãozinho, se entrega sem amarras. Não tem como não se emocionar.

CAMILA BENGO

08 DE ABRIL DE 2023
CRISTINA BONORINO

A ESCADA

É realmente uma irresponsabilidade dos gestores das redes sociais permitir a livre circulação de mentiras - impressiona a multiplicidade de áudios e vídeos espalhando informações falsas. Que tristeza dá ouvir essa torrente de asneiras, pensando no mal que faz para as pessoas que ouvem e acreditam, no risco em que se colocam. O áudio ou vídeo vem de uma pessoa dos seus contatos, às vezes um familiar, mas nem sempre se consegue chegar ao verdadeiro responsável. Outras vezes, a mensagem vem daqueles que ocupam - ou ocupavam - altos cargos no governo, incitando medo e ódio. Ao invés de trazer a informação que pode salvar a vida de alguém, multiplicam mentiras que podem terminar em tragédia.

Uma mentira pode ser repetida tantas vezes começamos a duvidar se não seria verdade. Se alguém recebe muitas mensagens dizendo que as escolas fazem lavagem cerebral ou que as universidades são antros de comunistas plantando drogas, quanto tempo vai levar até que alguém com problemas mentais ataque uma escola? Estamos hoje vivendo isso. O objetivo dessa estratégia, já falamos aqui, é gerar o caos. Nas palavras imortais do personagem de George R.R. Martin - o caos é uma escada: muitos se desequilibram e caem; uns sobem até o topo. A indústria da desinformação visa gerar o caos.

A atualização para as chamadas vacinas bivalentes incitou nova onda de mentiras. Essas vacinas são uma mistura do imunizante baseado na variante original do SARS-CoV-2 com o material que tem a mesma sequência da variante Ômicron. Mas as reclamações e mentiras sobre as vacinas bivalentes não foram atualizadas - são as mesmas veiculadas para a vacina original. Alguns reclamam de sentirem-se mal após a vacinação. 

Realmente, qualquer vacina - seja ela inativada, de mRNA, bivalente ou não - pode resultar em sintomas inflamatórios, como dor no corpo, dor local, febre e indisposição. Esses sintomas são gerados pela ativação do que chamamos de imunidade inata. Essa imunidade é sempre ativada no início das respostas imunes e é um primeiro passo para gerar depois a imunidade de memória que queremos ao vacinar. Mas o relato do sintoma é como isso fosse o prenúncio de que algo está errado, de que se vai morrer; a vacina seria uma ferramenta letal, usada para eliminar - como disse um - 50% da população. Na verdade, é apenas seu corpo reagindo.

As reações podem ser fortes - lembro da primeira vacina que fiz para febre amarela, há 20 anos - mas duram no máximo 24h. Após uma cirurgia, você também fica cansado, dolorido, febril, inchado. Pode ficar ansioso, até ter taquicardia. Mas não é uma conspiração - a inflamação é uma reação natural do seu corpo - que só é problemática se não se resolve em um ou dois dias.

Os chamados eventos adversos são públicos e analisados pelos órgãos regulatórios. Nenhuma vacina é aprovada se gera eventos de grau alto, ou muitos eventos de qualquer grau e, principalmente, mortes. FDA e Anvisa só aprovam vacinas após análise de técnicos especializados, com consultoria de sociedades médicas e científicas, pessoas como eu e você. Entenda, eduque; ajude os seus a não cair pela escada.

CRISTINA BONORINO

08 DE ABRIL DE 2023
FRANCISCO MARSHALL

CHATGPT, A ÉTICA E A CIDADE

O programa de inteligência artificial ChatGPT promete ser uma das mais poderosas revoluções culturais da humanidade, comparável à descoberta de fogo, escrita, cidade, roda, café e piano. É irreversível o desenvolvimento desta ferramenta e serão imensos seus impactos sociais. Estamos na aurora desta revolução e precisamos aprender a nos posicionar diante da máquina, compreender seus poderes e limites, determinar parâmetros e tirar dela o melhor proveito. Recolha o assombro, arquive a nostalgia, não se intimide e vá logo experimentar o brinquedo gratuito. Não é melhor que aprendas a usar a varinha de condão, antes de seres presa dos feitiço da nova era que já começou?

Em 1942, o bioquímico e autor de ficção científica Isaac Asimov (1920-1992) formulou as Três Leis da Robótica, e as publicou no conto Runaround, na revista Astounding Science Fiction. Republicadas no livro Eu, Robô, de 1950, elas declaram a ética dos robôs: 1) Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal. 2) Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei. 

3) Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei. Ao ser indagado se essas leis se aplicam a ele, ChatGPT responde que não é um robô, com corpo físico, e que não interage com o mundo do mesmo modo que um robô; portanto, diz o programa, as leis não se aplicam a ele. Entretanto, o parceiro diz que foi criado com parâmetros éticos e morais estabelecidos por seus criadores, que incluem não fazer nenhum mal aos seus usuários, respeitar a privacidade e promover a precisão e a clareza em suas respostas. 

Está evidente que essa enciclopédia que escreve precisa ter melhor estabelecidos seus códigos essenciais para o convívio social. É grande a possibilidade de que ChatGPT atue como HAL (metonímia para IBM), o computador animado por Arthur Clarke (1917-2008) e Stanley Kubrick (1928-1999) em 2001, uma Odisseia no Espaço (1968), que traiu a tripulação humana da nave Discovery One. Os sábios da montanha devem se ocupar disso o quanto antes.

Pedi ao ChatGPT que escrevesse um artigo para ZH com os mesmos parâmetros de autoria que sempre sigo, com o tema "a cidade ideal", um tópico do humanismo clássico que envolve democracia e urbanismo. O resultado não foi ruim, mas trouxe consigo citações apócrifas de autores gregos como Heráclito e Píndaro. O físico Fernando Lang da Silveira, estudioso e divulgador da ciência, pôs à prova a engenhoca e a flagrou em vergonhosos erros matemáticos. É possível que o novo oráculo seja um bom espelho do ser humano, em virtudes e cacoetes. Olho nele.

Em seu texto mimético sobre a cidade ideal, o robô incorpóreo pergunta (no primeiro parágrafo, como costumo fazer): "Quem não gostaria de viver em uma cidade perfeita, com ruas limpas, transporte público eficiente, parques e praças bem cuidados, e uma vida cultural vibrante?". É um bom começo!

FRANCISCO MARSHALL

08 DE ABRIL DE 2023
J.J. CAMARGO

O QUE SEPARA AS PESSOAS

Se houvesse um bazar de sentimentos, onde estes pudessem ser estocados e tivéssemos que dar um escore a cada um deles, de modo que nos permitisse hierarquizá-los, qual deles você colocaria no topo da sua lista?

Certamente esperança e gratidão ocupariam um lugar de destaque nesse rol, porque precisamos dela para energizar o que queremos ser e do reconhecimento quando o que conseguimos merece respeito. Mas quando recapitulamos os acontecimentos considerados inesquecíveis, quase sempre sobressai a emoção.

Porque é ela que traz, na sua essência, os mais poderosos fixadores da nossa memória. É pela emoção que são guardados nos arquivos implacáveis da nossa reminiscência afetiva os melhores e os piores momentos das nossas vidas.

Quando estamos felizes por alguma coisa boa que construímos, a emoção brota espontânea, mas quando a maré não é tão generosa, e por isso estamos carentes, festejamos até a fala providencial de um amigo exagerado. Aliás, aprendi a considerar imprescindível este tipo de amigo, para se contrapor aos supersinceros, sempre dispostos à verdade absoluta. Sem contar o quanto parecem mais animados (ou seria exultantes?) quando a tal verdade é absolutamente ruim.

Quando alguém relembra um acontecimento do qual pretensamente participamos e que lhe pareceu importante, mas nós nem lembramos bem, é porque do nosso lado a emoção não existiu ou foi muito pobre.

Como a emoção ou a falta dela são determinantes de entusiasmo ou enfaro, pode confiar que esse quesito servirá de parâmetro para antecipação ou atraso na aposentadoria de colegas de trabalho que elegeram fazer na vida uma determinada atividade, mas para os dois tipos essa atividade não despertava igual emoção.

Para alguns, o alegado cansaço e a busca do merecido repouso depois de anos de trabalho traduzem apenas a escassez de emoções na rotina do que faziam. Ou haverá outra explicação para que alguém que já aprendeu tudo o que podia, não começou a esquecer e tem uma saúde intacta se aposentar por tempo de serviço? Ou seria tempo de sacrifício?

No outro extremo, vamos encontrar aqueles que mantêm o brilho no olho mesmo depois que a diminuição de energia física, essa inegociável imposição da velhice, chegou sem ter sido convidada.

Revisem as biografias dos aposentados precoces e dos que mantiveram o entusiasmo pelo que faziam até a morte, e inexoravelmente perceberão que a pobreza ou a exuberância de emoção no que faziam foi o diferencial decisivo. E dariam sentido à resposta daquele professor que já bem velhinho, quando lhe perguntaram se não pretendia se aposentar, não teve dúvidas na resposta: "Não, eu pretendo viver mais um pouco".

J.J. CAMARGO

RISCO PARA O CORPO E PARA A MENTE

COMO O USO EXCESSIVO DO CELULAR PODE PREJUDICAR A SAÚDE DE ADULTOS E CRIANÇAS

Na metade de 2018, o desenvolvedor de software Jaydson Gomes, 38 anos, saiu em uma viagem de férias depois de quatro anos sem períodos de descanso. Mas, no primeiro dia, percebeu que navegava no celular pelo feed do Instagram ao invés de descansar. Na época, às vésperas de eleições, ele se sentia estafado com a desinformação e a violência dos debates acirrados que lia nas redes sociais.

- Lá estava eu, em um lugar maravilhoso, mas querendo ver o que as pessoas falavam, ou que elas vissem onde eu estava e o que fazia - relembra Gomes, que na hora deletou as contas que tinha no Facebook, Twitter e Instagram para seguir viagem sem postar nada.

Sair das redes causou abstinência por um tempo pela angústia de não ver as fotos postadas pelos amigos ou os debates quentes na internet, conta o desenvolvedor. Isso porque, para ele, as redes sociais aliviam momentos de "microtédio", mas na prática deixam as pessoas mais ansiosas. Ao abandoná-las, Gomes diz que deixou de passar entre três e quatro horas diárias no celular para se dedicar a hobbies, como o canto e a leitura.

- O modelo de negócios das redes sociais é (monetizar) a atenção das pessoas, então não é por acaso que ficamos presos em um feed. Isso foi feito por design, baseado em estudos, com algoritmos feitos conscientemente por essas empresas para ficarmos dentro dessas redes consumindo - afirma o desenvolvedor, que abandonou as redes sociais por também achar antiético o modo como elas são programadas.

Hoje, por exemplo, os brasileiros estão entre os que mais gastam tempo ao celular. No índice global, o país ocupa o segundo lugar, empatado com Arábia Saudita e Singapura. Em 2022, foram cerca de 5,3 horas diárias de uso por morador do Brasil, em média. Os dados são da consultoria data.ai, que publica anualmente o relatório State of Mobile sobre o uso de dispositivos móveis no mundo inteiro.

Um estudo publicado em janeiro deste ano na revista Journal of Technology in Behavioral Science, da Nature, acompanhou por três meses 50 universitários que usavam redes sociais no dia a dia e pediu a parte deles para reduzir o acesso. Em comparação ao grupo-controle que manteve o uso regular do aparelho, quem cortou horas de tela aliviou sensações de solidão e depressão, além de sentir melhoras na imunidade e no bem-estar geral.

Para além das redes sociais, o uso intensivo de celulares também pode estar relacionado ao vício em jogos digitais. Desde 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o abuso de videogames uma forma de dependência da mesma classe que a ludopatia, o vício em apostas. O uso excessivo de celulares, no entanto, ainda não é reconhecido como uma forma de vício, apesar de estar associado a uma série de danos à saúde mental, ortopédica e oftalmológica.

u Text-neck, a síndrome do pescoço de texto

Pesquisadores brasileiros publicaram em janeiro deste ano, na revista científica Healthcare, da MDPI, um estudo que associou o uso de celulares por mais de três horas diárias à dor nas costas entre adolescentes dos 14 e 18 anos. O problema já é conhecido por ortopedistas, que até já cunharam o nome de text-neck, ou síndrome do pescoço de texto, para as dores causadas pela má postura ao se usar o celular por longas horas.

- Quando ficamos com a coluna para a frente olhando uma tela, o peso da cabeça aumenta pelo efeito de braço de alavanca que isso acarreta. Então há uma sobrecarga da coluna cervical que inicialmente gera dores musculares e o uso repetitivo traz um desgaste prematuro da coluna, que leva à artrose e a hérnias de disco, agravados pelo uso repetitivo do celular - explica o médico ortopedista Alexandre Fogaça, chefe do grupo de coluna do Hospital de Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Na avaliação de Fogaça, usar telas na altura dos olhos para forçar menos a coluna pode prevenir o problema, assim como a prática de atividades físicas para preparar a musculatura para a tensão cotidiana. Ainda assim, apesar do alívio às costas, os ombros, cotovelos e punhos permanecem vulneráveis, o que pode levar a tendinites.

- Piorou muito durante a pandemia. As pessoas foram para home office e nem sempre tinham laptop, adaptação em casa, cadeira adequada, suporte para computador ou tela na altura dos olhos - lamenta o ortopedista, que também é secretário-geral da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot).

A proximidade das telas com os olhos também levou a um aumento em distúrbios de visão, principalmente a miopia. Um estudo do Conselho Brasileiro de Oftalmologia de 2021 apontou que 70% dos médicos da área relataram um aumento nesse tipo de diagnóstico em crianças e adolescentes durante a pandemia.

- Temos um mecanismo nos olhos, semelhante ao foco da máquina fotográfica, chamado de acomodação. Quando usamos a visão de perto, o músculo dos olhos precisa trabalhar mais para manter a imagem nítida, o que leva a alterações bioquímicas que fazem o olho alongar - diz a médica oftalmologista Atauine Lummertz, do corpo clínico do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), ao explicar que é esse alongamento ocular que causa a miopia.

Segundo estimativas de pesquisadores australianos, mais da metade da população mundial será míope até 2050 e por volta de 10% terá alta miopia, índice acima dos seis graus. A hipótese apontada pelos cientistas para a tendência é o maior tempo que as pessoas permanecem no interior de casas, salas e escritórios, bem como o uso excessivo de aparelhos eletrônicos. Em ambos os casos, a proximidade com os objetos é parte da explicação.

u Efeitos sentidos nos consultórios pediátricos

A luz da tela de celulares confunde o mecanismo que nosso cérebro usa para diferenciar o dia da noite, o que pode levar a dificuldades para adormecer e atrasar a produção fisiológica dos hormônios que nos ajudam a dormir. Um estudo saudita publicado em 2019, por exemplo, identificou que a qualidade do sono diminui proporcionalmente ao tempo de uso do celular à cama. Ou seja, o uso excessivo do celular à noite pode trazer uma série de riscos à saúde em decorrência da privação de sono.

- No curto prazo, o indivíduo fica mais cansado, sonolento, irritado, com mais chances de acidentes e erros de cognição no dia seguinte. No médio e longo prazo gera alteração metabólica, ganho de peso, resistência à insulina, hipertensão arterial, baixa imunidade e transtornos de humor, como depressão. Entre adolescentes, o rendimento escolar fica inferior ao potencial, ele cochila nas aulas e não quer fazer atividade física - relata a médica neurologista Andrea Bacelar, diretora da Associação Brasileira do Sono (Absono).

Andrea ressalta que, além das questões oftalmológicas e de sono, o uso excessivo de celulares também tem afetado os vínculos afetivos de crianças, que em alguns casos estão ficando mais individualistas e com pouco contato físico no dia a dia, o que pode dificultar o aprendizado infantil em como interagir e socializar.

As repercussões do uso nocivo já têm chegado aos consultórios pediátricos. Dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) apontam que 93% dos brasileiros com idade entre nove e 17 anos são usuários de internet, principalmente para assistir vídeos e acessar redes sociais. Em 52% dessas crianças, o celular foi o único dispositivo utilizado para o acesso, índice que cresce para três a cada quatro menores de idade entre aqueles das classes D e E.

- Qual a estratégia das plataformas, desenvolvedores e provedores? Eles querem o cérebro dessa criança. Usam cor, música, ruído, movimento de tela, imagens, para atrair a curiosidade. Também a impulsividade por meio de recompensas, como pontos, likes e seguidores. O que a criança deveria fazer em vez de ficar na frente da tela? Atividade física, ir para um parque, jardim, caminhar com os pais e por aí vai - diz a médica pediatra Evelyn Eisenstein, coordenadora do grupo de trabalho "Saúde na Era Digital" da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Evelyn ressalta que, de acordo com o CGI.br, mais da metade dos pais não sabem o que seus filhos fazem na internet, o que traz riscos à proteção da criança, que pode estar vulnerável a conteúdos maliciosos. Além disso, a pediatra também critica o uso de telas como "babá-eletrônica" por parte de responsáveis.

- É uma distração passiva. Tá no restaurante e, no lugar de dar à criança um papel, lápis de cera, crayon, se entrega um celular para ela ficar girando o dedo. A criança não é um miniadulto. O cérebro dela está em desenvolvimento, com toda a parte das emoções amadurecendo. Então volta a questão: quem produz vídeos e desenvolve jogos para crianças quer o quê? Eles usam o cérebro da criança de um modo lucrativo - alerta Evelyn.

5,3 horas

foi o tempo médio gasto diariamente, em 2022, por brasileiros em aparelhos móveis. com a Arábia Saudita e Singapura, o Brasil foi o segundo país com maior uso diário, atrás da Indonésia (5,7) e à frente da Coreia do Sul (5) 

PEDRO NAKAMURA