sábado, 17 de junho de 2023


17 DE JUNHO DE 2023
LEANDRO KARNAL

Não! Não me refiro ao ano passado ou aos anteriores marcados por pandemia e desastres políticos. Sou historiador. Tenho mais interesse em certo distanciamento para avaliar uma data histórica.

Olhando com serenidade, amainadas as paixões, vou indicar como ano ruim 1672. Os holandeses chegaram a criar um termo: rampjaar, o ano do desastre. Ainda que haja ambiguidade, tratarei como sinônimos Holanda, Países Baixos, República Holandesa e Províncias Unidas. Adoro os termos flamengo e batavo também. Algum especialista vai apontar como a generalização dos termos é imprecisa. O especialista está certo. Ignore e siga a leitura.

A República Holandesa tinha experimentado antes intensa prosperidade. Em leitura que sempre recomendo para amar um bom texto de história, Simon Schama escreveu O Desconforto da Riqueza (Companhia das Letras). A época de ouro flamenga está ainda presente nos quadros de Vermeer, Hals ou de Rembrandt. Era o apogeu de uma sociedade que disputava bulbos de tulipas em leilões com valores astronômicos. Era uma pequena terra que desenvolveu braços econômicos e militares extensos que atingiam Pernambuco, a Ilha de Manhattan e o atual arquipélago da Indonésia. A Holanda era uma potência em todos os sentidos.

A prosperidade atrai inveja e guerra. Os franceses de Luís XIV fizeram um pacto raro com os ingleses. Pela terra avançaram as tropas do Rei-Sol (com apoio dos bispos-príncipes de Munique e Colônia) e, pelo mar, o bloqueio naval da armada britânica. Para piorar, os suecos aliaram-se às forças anglo-francesas. Era muita força estrangeira abatendo-se sobre o pequeno território batavo.

A longa guerra anterior contra a monarquia espanhola tinha encontrado o povo holandês relativamente unido. O ano de 1672 mostra as cidades dos Países Baixos divididas entre grupos políticos rivais. Os franceses viviam os efeitos positivos das reformas militares do Marquês de Louvois, medidas quase sempre ignoradas pelos livros de história, todavia fundamentais nas guerras do século 17.

Os holandeses criaram a tática militar de inundar áreas. Fortificações, eclusas, canais e outras armadilhas tinham certa eficácia estratégica (hollandsche waterlinie), mas tiveram custos posteriores para a agricultura. A linha de água das Províncias Unidas era como uma quimioterapia forte: atacava o organismo ruim, contudo, sem dúvidas, tinha seus danos sobre o sistema saudável também.

O povo queria bodes expiatórios para as tragédias. Encontrou nos irmãos De Witt (líderes da facção que enfrentava o príncipe de Orange e ajudava a dividir as forças locais). Uma multidão enfurecida (e instigada por orangistas) linchou os dois membros do patriciado holandês em Haia, no verão de 1672. Os corpos dependurados de Johan e Cornelis de Witt foram retratados por Jan de Baen e podem ainda impressionar o observador contemporâneo no célebre Rijksmuseum de Amsterdã. Procure o quadro De Lijken van de Gebroeders De Witt e fique impressionado com o registro (em óleo sobre tela) de um colapso. O século 17 pintou; o 20 fotografou. Dá para fazer um estudo comparativo com as cenas de Mussolini e aliados exibidos em um posto milanês de gasolina, no ocaso do fascismo italiano.

Quando se estudava filosofia da história (que desapareceu dos currículos), falava-se em uma lógica de ascensão e queda dos impérios e de uma busca por uma "moral da história". Pouca gente ainda defende um sentido pedagógico moral do estudo sobre os fatos pretéritos. Quase sempre a busca de um sentido verificável dos fatos ocorridos indica uma preocupação do presente e pouco trata do que podemos ver no "país estrangeiro do passado".

Com os riscos inerentes, indico a regra de que todas as prosperidades passam. As desgraças também não são eternas. Apesar disso, em lugares com estrutura cultural e educacional, as baixas são superadas. As Províncias Unidas sobreviveram ao rampjaar e prosperaram de novo. Os quadros dos museus ilustram o ouro e o sangue do século 17. As tulipas, importadas do Império Turco, estão associadas à paisagem batava - como memória da primeira bolha de consumo do capitalismo moderno. Os holandeses voltaram a pintar muito, com Van Gogh, no 19, e Mondrian, no 20. Após os desastres da invasão nazista, os Países Baixos reencontraram a paz.

A monarquia foi popular com a rainha Beatriz e continua com seu filho Guilherme. A esposa argentina do rei atual conquistou os corações flamengos. A princesa Catarina Amália fará 20 anos, no fim de 2023, e é a primeira na lista de sucessão em uma terra, de novo, rica e próspera. O rampjaar foi resolvido ou dorme na forma de um bulbo de tulipa... Escrevi, comendo um delicioso biscoito chamado stroopwafel. Quando existe educação, a esperança renasce com um pouco de açúcar.

LEANDRO KARNAL

17 DE JUNHO DE 2023
FRANCISCO MARSHALL

O PIANO

As três invenções que mudaram a humanidade foram o fogo, a roda e o piano. Este, todavia, tem certidão de nascimento. No inventário dos instrumentos musicais de Ferdinando III de Medici (1663-1713), príncipe da Toscana, consta: "Um arpicembalo de Bartolomeo Cristofori, de invenção recente, que toca leve e forte (piano e forte), com dois registros principais em uníssono, com fundo de cipreste, sem rosa" (1700). Arpicembalo se traduz harpa-cravo, um cravo transformado; dois registros são as cordas duplas, mas, antes de tudo, eis a indicação de que ele toca leve ou pesado, devido ao uso de marteletes para percutir as cordas, com controle da intensidade sonora. Cristofori (1655-1731) era um gênio inventor, pai do pianoforte, como passou a ser conhecido seu instrumento. Que seria de nós sem esta invenção maravilhosa?

O invento de Cristofori foi difundido em um artigo do literato veneziano Scipione Maffai, em 1711, traduzido para o alemão e publicado em Dresden em 1725. Em 1732, Gottfried Silbermann (1683-1753) construiu seu primeiro pianoforte, e Johann Sebastian Bach (1685-1750) o avaliou, aconselhou e posteriormente adquiriu dois para seu uso. A primeira obra escrita para o novo instrumento foi publicada em 1732 por Lodovico Giustini (1685-1743), em Firenze, as 12 Sonate da cimbalo di piano e forte detto volgarmente di martelletti. 

Os filhos de Bach levaram adiante o instrumento que foi consagrado por Haydn (1732-1809) e Mozart (1756-1781), em que Beethoven (1770-1827) compôs maravilhas que elevaram a humanidade e onde poetas têm vertido, desde o século XIX, imagens sonoras que raptam e transformam a mente, com formas de alto engenho e coloridos de sabores inebriantes. Joia do iluminismo, inteligível e acessível, o piano está sempre pronto para ser uma orquestra com 88 teclas ou o amigo que com facili­dade acolhe crianças e as conduz ao seu destino musical.

Recentemente, em um ambulatório do Centro de Saúde Modelo, um pianista ouviu da enfermeira que fazia curativo em sua mão que ela nunca havia visto um piano. Para quem passa a vida de mãos dadas com o teclado, essa notícia causa assombro e revela o quanto ainda precisamos fazer para democratizar o conhecimento e o acesso à cultura. Em 2014, por iniciativa do StudioClio, da produtora Lílian Ferrari e do afinador Person Fontes, Porto Alegre conheceu o projeto Piano Livre, em que 10 pianos pintados por artistas foram abertos ao público em locais como o HPS, o Mercado Público e a Rodoviária. 

Os relatos da experiência são tocantes. Moradores de rua descobriram seus talentos e evoluíram, visitantes e peregrinos da cidade a brindaram com sua música, a experiência dos sons fascinou milhares de pessoas, sem ônus. Precisamos de mais pianos nas ruas e de cultura em que as pessoas sejam autoras criativas.

Na semana que passou, o piano que desde 2005 encantou almas no palco do StudioClio foi levado para a Livraria Bamboletras, onde cumprirá nova etapa de seu destino: polinizar leveza, inteligência e a expressão das imagens e humores que nos constituem, entre livros e ideias, com liberdade. E viva a arte, sempre!

FRANCISCO MARSHALL

17 DE JUNHO DE 2023
CRISTINA BONORINO

A DIFERENÇA

Em 2009, a biologia molecular já havia chegado ao Instituto de Perícias do Estado, o IGP-RS. Uma jovem perita me procurou no laboratório com uma pergunta para o mestrado. A questão era se o luminol, usado para revelar vestígios de sangue invisíveis ao olho humano, contribuía para degradar o DNA que era guardado como evidência. Os fãs de filmes policiais sabem que o uso do luminol é rotina. Perguntei se isso não estava especificado nas instruções de uso do produto. Ela respondeu que sim, mas que queria saber por ela mesma - queria ter certeza. Aceitei na hora.

O trabalho, publicado dois anos mais tarde na Forensic Science International, mostrava que sim, o DNA descoberto via luminol apresentava degradação a partir de alguns meses de armazenamento. Sempre uso esse exemplo para ilustrar como é importante o treinamento científico em qualquer profissional.

Na semana que passou, lendo a revista Science, lembrei desse episódio porque um aluno de outra cientista usou seu treinamento para reabrir e fazer justiça a um caso exemplar. Em 2018, um jovem advogado, que havia sido aluno da geneticista Carola Vinuesa - uma espanhola que trabalhava na Austrália -, ficou sensibilizado com um caso em que trabalhava. Uma mãe que havia sido condenada pelo assassinato de quatro filhos, todos ainda bebês, e estava encarcerada havia 20 anos. A mulher sempre dissera ser inocente, mas ninguém acreditara nela - quatro bebês! Estudando o caso, o jovem contatou a geneticista, sua antiga professora. 

Havia um mês, Vinuesa identificara uma rara mutação em gene que estava conectado à morte de quatro crianças na Macedônia. Vinuesa leu o processo e identificou em todas as crianças traços de uma infecção no momento da morte. Ela sabia que defeitos genéticos explicam mais de um terço das mortes súbitas em bebês - e que tais problemas muitas vezes se manifestam durante uma infecção. Pediu e obteve uma amostra do DNA da mãe, e por sequenciamento identificou uma mutação no gene CALM2 - da calmodulina. Defeitos nesse gene estavam associados com morte súbita, e se as crianças tivessem herdado esse gene isso poderia explicar as mortes. Em 2019, testou amostras dos bebês, e identificou a mesma mutação nas duas filhas, mas não nos filhos.

Na Itália, o colega Peter Schwartz, que estudara mutações em calmodulinas - e descrevera um caso em que duas crianças com uma mutação no gene haviam tido ataques cardíacos, com uma morte -, corroborava sua hipótese. Baseados nisso, pediram para reabrir o caso - o que foi negado. Vinuesa liderou então um time internacional de cientistas, que em 2020 publicou uma compilação desses casos. Um grupo dinamarquês publicou que mutações em calmodulinas provocavam falha cardíaca. Em 2022, o inquérito foi reaberto, agora com ampla evidência científica de que provavelmente essa mãe fora condenada indevidamente. E, na semana que passou, ela foi liberada.

Não apenas precisamos de mecanismos que incorporem o conhecimento científico na prática legal: precisamos do cientista que está dentro de todos nós. Nunca se sabe quando, mas ele vai fazer a diferença.

CRISTINA BONORINO

17/06/2023

60 MAIS

MEDO DE ISOLAMENTO E REJEIÇÃO PESA SOBRE AVÓS

ENTREVISTA Ana Maria Rossi - Psicóloga, presidente da International Stress Management Association (Isma-BR)

Tomar conta dos netos em um momento da vida que deveria ser de mais tranquilidade e menos compromissos, ou pelo menos de autonomia para fazer escolhas, pode virar fonte de estresse e ansiedade para muitas pessoas que ingressam na fase dos 60Mais. As exigências profissionais podem ser trocadas, na hora da aposentadoria, pela rotina atarefada de quem precisa cuidar de crianças.

O desafio se multiplica quando essas mesmas pessoas, simultaneamente, passam a se tornar responsáveis pelos próprios pais - a chamada geração sanduíche, imprensada entre esses dois grandes desafios. Nesta entrevista, a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association (Isma-BR), fala sobre a sobrecarga emocional e física gerada por essas tarefas e também das implicações nas relações familiares:

- Normalmente, os 60Mais têm um grande receio de isolamento e de rejeição. "Se eu não cuidar do meu neto, talvez o meu filho não traga a criança aqui para me ver ou me deixe de lado." Essa necessidade de estar mais junto faz com que as pessoas, muitas vezes, terminem assumindo responsabilidades que não querem assumir e pelas quais não se sentem gratificadas.

De 20 a 22 de junho, a Isma-BR promove o 23º Congresso de Stress e Qualidade de Vida no Trabalho, no Hotel Plaza São Rafael, na Capital. O tema principal será o estresse ocupacional, agravado pela pandemia, e Irvin Sam Schonfeld, professor emérito do City College e do Graduate Center da City University de Nova York, nos EUA, proferirá a palestra de abertura.

Muitos chegam à terceira idade e à aposentadoria e recebem a tarefa de cuidar dos netos. Qual é o impacto disso?

Eles se sentem usados. Vejo essa situação baseada em quatro pilares. O primeiro deles é não se permitir ser assertivo, colocar limites, dialogar. Normalmente, os 60Mais têm um grande receio de isolamento e de rejeição. "Se eu não cuidar do meu neto, talvez o meu filho não traga a criança aqui para me ver ou me deixe de lado." Essa necessidade de estar mais junto, de ter esse aconchego, faz com que as pessoas, muitas vezes, terminem assumindo responsabilidades que não querem assumir e pelas quais não se sentem gratificadas. Uma coisa é fazer algo que não se tem muita vontade, mas ficar gratificado. O pior é não ter vontade de fazer, se ressentir e se culpar por estar fazendo. Então, o receio de rejeição, de ficar isolado, que é um temor muito comum nessa faixa etária, se torna um agravante. 

O terceiro pilar é em relação ao trabalho, mesmo que não seja em tempo integral, mas as pessoas continuam com alguma atividade profissional, às vezes é um hobby e elas começam a vender, como crochê ou tricô, que é prejudicado pelo cuidado com os netos. E, muito importante e bem atual, é a questão da geração sanduíche. Muitos idosos, além de cuidar dos netos, estão cuidando também dos pais, com uma idade avançada e, via de regra, a saúde bastante precária. Isso gera uma mobilização de tempo, uma preocupação muito grande e um problema financeiro porque, muitas vezes, esses pais não têm recursos para uma cuidadora ou para ir para um local onde possam ser cuidados. Isso faz com que a sobrecarga emocional dos 60Mais se torne muito crítica e estressante.

E tem também a sobrecarga física, não é?

Sim, com certeza. Principalmente quando os netos são ativos ou se os avós não conseguem manter o ritmo deles. Ou quando as crianças são desobedientes, malcriadas: "Ai, vó, cala a boca! Tu nem entende". Principalmente quando se trata de informática, a criança pede alguma coisa para a avó, para o avô, e eles n ão conseguem fazer. O ressentimento, para essas pessoas, é muito grande. A fadiga, o cansaço físico, é um problema bastante sério. E, muitas vezes, essa pessoa tem alguma limitação em termos de saúde: dor nas articulações, falta de mobilidade, encurtamento dos músculos, alguma doença crônica. E, se não for assertiva, terá problemas. 

Há também as alterações na rotina. A pessoa que tinha a rotina de acordar tarde, tomar o seu cafezinho com toda a calma, ler um livro, bater um papo, agora já acorda com o filho ou a filha batendo na porta, trazendo o neto, porque vai trabalhar. Então, a alteração na rotina, muitas vezes, não é assimilada de forma eficiente, fica aquele ressentimento. É disso que eu falava antes: o ressentimento gera culpa, e a culpa vai corroendo, virando raiva. A pessoa se culpa por não estar sendo assertiva, por não colocar limite. E, ao mesmo tempo, ela não consegue se sentir gratificada por aquilo que está fazendo.

E quando não é uma opção dizer "olha, minha filha, não foi isso que planejei, não queria ter toda essa sobrecarga, essa responsabilidade agora"? Como lidar com a situação?

Quando não tem solução, solucionado está, né? O ideal é que a pessoa tenha alguma alternativa, mas se não tiver, digamos que os adultos responsáveis por essa criança trabalham e não têm condições de levá-la para uma creche, não têm a alternativa de outro cuidador, realmente a situação se torna bastante crítica. Aí é importante haver um diálogo para que o prejuízo seja o menor possível - para a criança, para a pessoa 60Mais e para os adultos responsáveis mais próximos. Infelizmente, não tem uma varinha, uma solução mágica. 

E como lidar com essa responsabilidade sem ter autonomia para colocar limites nessas crianças? Muitas vezes, os pais, ocupados como estão, estressados com todas as demandas e pressões, quando chegam em casa, em geral, têm sido muito permissivos com os filhos. E com os avós, que têm uma outra estratégia, uma outra filosofia de educação, dá problema, dá conflito. E, obviamente, as crianças, que já estão acostumadas com outro ritmo, vão se rebelar. Então essa sobrecarga de responsabilidade realmente é muito significativa e causa um impacto bastante grande no relacionamento, não apenas dos 60Mais com a criança, mas com os adultos responsáveis ou mais próximos dessa criança.

E cuidar dos pais idosos, com várias demandas, também é um estressor muito grande.

Sim. Não apenas em termos da grande responsabilidade, mas financeiros também. Quando não tem como contratar alguém, deixar em uma geriatria... A geração sanduíche fica no meio, cuidando dos filhos, dos netos e dos pais. Esses pais têm problemas de saúde e requerem consultas, medicamentos caríssimos, têm problemas de mobilidade. É um problema seríssimo. E, normalmente, esses idosos não têm condições de ir ao médico sozinhos, o que requer também a esses 60Mais acompanhar. Vejo, aqui no consultório, como uma fonte de conflito com o companheiro ou companheira: "Como você consegue tempo para levar o seu pai ao médico e não tem tempo para mim?" 

"Como consegue pagar atendimento particular para a sua mãe e depois fica me dizendo que não tem dinheiro?" Essas cobranças causam um impacto muito, muito profundo, e diria que são um dos principais focos de depressão nessa idade. A pessoa está numa rua sem saída. Se ela não fizer, talvez não tenha ninguém para compartilhar a guarda dos pais. Quando tem outros parentes, aí fica mais fácil. Mas, às vezes, a pessoa é filha única, os outros já não estão mais entre nós. Enfim, quando ela é a responsável única por isso e tem outras responsabilidades, isso se torna extremamente crítico.

O papel de cuidador é desempenhado, principalmente, pelas mulheres. O que isso implica?

As mulheres, tradicionalmente, têm abraçado mais essa causa. Eventualmente, a gente nota os homens mais envolvidos, mas quando há uma situação que requer mais atenção, mais acompanhamento, em geral, é a mulher que abraça. Acho que é uma missão que a própria mulher se impõe como "mãezona", ela tem essa tendência de se responsabilizar mais. Existe uma necessidade, da maior parte das mulheres, de se sentir responsável pelo bem-estar dos outros. Elas têm um pouco de dificuldade, às vezes, de compartilhar esse controle. E, claro, isso sobrecarrega fisicamente, emocionalmente.

Se abrem mão ou repassam a tarefa a outra pessoa, há culpa também, não?

A recusa vai criar aquele temor de rejeição e isolamento. A pessoa fica entre a cruz e a espada: "Se eu aceitar, não me sinto gratificada por isso, fico sobrecarregada fisicamente e emocionalmente. Se eu não aceitar, talvez o meu filho me deixe de lado". Como resolver? O diálogo seria muito importante para que a pessoa pudesse ser assertiva. O que é ser assertivo? 

Temos três tipos básicos de comportamento. O passivo, que "engole o sapo", não diz nada, tem receio de manifestar opinião por medo de não ser aceito, termina tendo problemas de saúde, principalmente no estômago, como gastrite e úlcera, e em relação à pressão arterial, além de dor de cabeça, dores musculares, problemas para dormir. Por outro lado, em termos de comportamento, a preocupação, o ressentimento, a culpa. Outro tipo é o agressivo, aquele que levanta o dedo e já sai xingando. E o terceiro é o assertivo, que tem muito a ver com o agressivo porque ambos são diretos, bem específicos, vão no foco. 

Só que o assertivo nunca vai responsabilizar o outro pelos seus sintomas e pelas suas frustrações, ele sempre vai assumir a responsabilidade. Então, em vez de dizer "você traz essa criança aqui e ela faz com que eu me sinta muito nervosa", a pessoa assertiva pode dizer "eu tenho ficado nervosa porque quero fazer um bom trabalho com meu neto e às vezes me sinto incapacitada". Entende a diferença? Infelizmente, é raro que os 60Mais sejam assertivos devido a esse grande receio de serem rejeitados. O ideal, sem varinha de condão, é estabelecer limites, e esses limites teriam que ser não quando a pessoa já está contrariada, recebendo a criança sem vontade. Quais são os dias que essa pessoa pode cuidar da criança? 

E os horários? Quais as alternativas se não houver verba disponível para pagar uma creche? Isso será bem importante. Em segundo lugar, pedir ajuda. De repente tem a tia-avó, e a tia-avó adora criança, então poderia ser uma alternativa. Pedir ajuda de outros membros da família, até de amigos, vizinhos que teriam disponibilidade e vontade de ajudar. Hoje a vizinha cuida do meu neto, amanhã eu cuido do neto dela. Adotar essa estratégia, esse comportamento assertivo: "Estou tendo pouco tempo para cuidar das minhas coisas. Quero continuar fazendo a minha atividade física porque me dá equilíbrio, me dá mais condições físicas e emocionais para lidar com as situações". É importante que exista esse diálogo.

O que mais é importante fazer?

Continuar cuidando da saúde. Se tem revisões médicas a fazer, isso é extremamente importante. Se está com demandas emocionais, conflitos que não está conseguindo resolver, que estão interferindo na qualidade de vida, na felicidade, procure ajuda profissional, alguém que possa ajudá-lo, não apenas ouvindo, mas para elaborar e mostrar estratégias para lidar com as condições que enfrenta. Fazer uma atividade física, cuidar da alimentação. Procurar alguma atividade para um descanso emocional, uma folga para a cabeça, alguma coisa que dê prazer, qualquer coisa que não tenha uma exigência, "estou fazendo porque quero, porque me dá prazer".

Que outros motivos levam ao estresse na terceira idade?

Um dos principais é a saúde. A falta de saúde. A pessoa vai tendo mais problemas físicos, o que afeta, diretamente, o bolso. Os convênios estão cada vez mais caros, e pelo SUS uma consulta ou um exame podem demorar meses. A saúde emocional, a morte de amigos e conhecidos... Conhecer novas pessoas, desfrutar de companhia, às vezes não é uma tarefa fácil. E pertencer a um clube, a uma associação, requer um aporte financeiro, e muitas vezes elas não têm. Mas há igrejas, comunidades, lugares para acolhimento espiritual, um grupo que faz meditação, um grupo de terceira idade que faz alongamentos, um grupo de caminhada. Há diversas opções que não requerem pagamento. 

Mas, muitas vezes, as pessoas vão se encolhendo, não buscam novas amizades, novos desafios. Ficam muito isoladas. A nossa vida é feita de expectativas. Uma pessoa sem expectativas tem uma grande propensão à depressão. E essa necessidade de ter expectativas é justamente o que nos coloca no buraco. Por quê? Porque tenho expectativa de que alguma coisa deva ocorrer de alguma forma, e não ocorre. Aí me sinto frustrada, o mundo se torna meu devedor, começo a me cobrar por isso. É um equilíbrio muito sutil. Tem que ter expectativa, mas sempre com um plano b. A flexibilidade para um plano B será bem importante.

 LARISSA ROSO


17 DE JUNHO DE 2023
DRAUZIO VARELLA

DEPENDÊNCIA DE DROGA

"Depois de décadas, a expectativa de vida nos Estados Unidos vem caindo, tendência chocante provocada pelas chamadas mortes por desespero que envolvem overdoses, suicídios e doenças atribuíveis ao abuso de drogas e ao estresse." Assim começa um artigo sobre a neurociência da dependência química, publicado na revista Science recentemente.

Os Estados Unidos vivem uma epidemia de abuso de opioides. Mais de 99% da hidroxicodona e a maior parte do fentanil (opioides potentes) produzidos no mundo são consumidos em território americano. No país que mais consome drogas, as vendas de álcool, bem como o número de testes positivos para detectar a presença de maconha, cocaína e metanfetamina em pessoas no ambiente de trabalho, nunca foram tão altos.

Nos últimos anos, a nova realidade levou o FDA - a agência responsável pela aprovação de alimentos e medicamentos - a aprovar a buprenorfina e a metadona para ajudar os dependentes de heroína e outros opioides a suportar as crises de abstinência. Para a urgência das overdoses que podem levar à morte, há anos é empregado o naloxone, droga de ação heroica quando administrada a tempo.

A situação é tão grave, que nos Estados Unidos, país em que as farmácias exigem prescrição médica até para vender Viagra, o naloxone é comercializado diretamente no balcão sem qualquer exigência, em vários Estados. Esses medicamentos, no entanto, têm ação limitada no alívio das crises, e pouca ou nenhuma utilidade na prevenção das recaídas que perseguem o usuário pelo resto da vida. Da mesma forma, também não dispomos de drogas específicas para reduzir o risco de recidivas entre os dependentes de maconha, cocaína, anfetaminas, álcool, fumo ou os benzodiazepínicos que muita gente "de respeito" toma todas as noites antes de ir para a cama.

O que explica o fato de que uma pessoa experimenta uma droga, sente o prazer que ela traz, mas depois se desinteressa dela ou se torna usuária ocasional, enquanto outra passa a fazer o uso compulsivo que a escraviza?

Os estudos mostram que há fatores genéticos envolvidos. O sequenciamento dos genes realizado em grandes números de usuários e de abstêmios, demonstram que algumas variantes de certos genes aumentam a probabilidade de desenvolver dependência. Em si, essas variantes não são patológicas, mas as proteínas produzidas por elas podem criar a estrutura molecular que dispara a compulsão, quando o usuário entra em contato com a droga.

É o caso do aumento da prevalência de uma variante do gene OPRM1 entre os usuários compulsivos de opioides. Esse gene codifica uma proteína que funciona como receptor nas membranas dos neurônios, ao qual os opioides se ligam. A ligação funciona como gatilho para o aparecimento dos efeitos euforizantes e analgésicos.

Da natureza molecular da interação entre o opioide e a proteína ao qual ele se liga, vai depender a intensidade do prazer e a duração do efeito euforizante/analgésico. Como existem diversas variantes a sensação que o opioide provocará não será igual em todos os que o experimentam.

Já foram identificados vários genes envolvidos na vulnerabilidade ao abuso de álcool, cocaína, maconha e fumo. Muitos genes associados à adição estão concentrados em áreas do cérebro que regulam a sensação de euforia, bem como a de aversão. A genética, dessa forma, não está envolvida apenas na vulnerabilidade à determinada droga, mas à própria arquitetura dos circuitos formados pelos neurônios cerebrais. Como o uso abusivo remodela esses circuitos em diversas áreas do cérebro, a dependência química é considerada um transtorno da plasticidade neuronal.

Para terminar. Em diversos tecidos, existem receptores aos quais a droga se liga: coração, mucosa oral e nasal, pulmões. Portanto, a interação acontece antes dela chegar ao cérebro, mecanismo que exerce grande influência sobre o comportamento do usuário.

Drogadição é um dos transtornos menos conhecidos e mais difíceis de tratar, da medicina inteira. A ignorância, o preconceito e o estigma social contra os usuários só agravam a dificuldade.

Depois dos mecanismos resumidos na coluna de hoje, caro leitor, veja como fica ridículo considerar a dependência química uma questão moral e o dependente uma pessoa fraca, sem força de vontade.

DRAUZIO VARELLA

17 DE JUNHO DE 2023
MONJA COEN

GRANDES MUDANÇAS

Tudo está em constante transformação. Acabamos de descobrir que há grandes mudanças no planeta. Sempre houve e sempre haverá. Assim como há grandes mudanças em você, no seu corpo e no seu espírito.

Nada fixo, nada permanente. Se não percebemos antes, não significa que não estivessem ocorrendo.

Fui um feto, um bebê, uma menina, uma jovem adolescente, uma mulher adulta e agora uma velha senhora. Na tradição japonesa da escola Soto Zen, sou chamada por alguns de Roshi. Ro quer dizer idosa, e Shi é mestra. Idosa mestra. Não é apenas o significado da idade, mas também de ter a mente de anciã.

O que é a mente anciã? É a mente experiente, capaz de ver, reconhecer, esclarecer, cuidar. Há também a mente de alegria, contentamento com a existência, presente no assim como é. Prazer em viver e passar pelas múltiplas experiências disponíveis a um ser humano. Sem muitas lamentações e sem grandes oscilações comportamentais, emocionais, espirituais.

A terceira é a grande mente. A grande mente exige um grande coração. Na grande mente, nada está fora. Tudo e todos incluídos. Quando Buda teve sua experiência mística, exclamou: "Eu, a grande Terra e todos os seres, juntos, simultaneamente, nos tornamos o Caminho". O planeta é feito por todas as formas de vida que o compõem. Somos um só corpo e uma só vida. Interligados a tudo que existe e em constante mudança e transformação.

Temos medo do desconhecido? Queremos nos manter na comodidade incômoda do que conhecemos? E isso que chamamos de conhecido não está sempre mudando? O que virá? Como será? Como serei eu amanhã? Como fui ontem? Posso pegar um instante e cristalizá-lo, prendê-lo, segurá-lo? Você já percebeu o que é real neste instante? Se não questionou, procurou saber do que é e do que foi, como pode querer saber sobre o que será, o que virá?

Primeiro observe a si. Observe à sua volta. Ouça. Sinta. Observe-se em profundidade. É ao mesmo tempo observar o todo. O autoconhecimento leva ao conhecimento da vida, da interconectividade, do sagrado que nos habita e no qual habitamos. Saia da ideia de um eu separado, sem perder a noção do eu individual.

A prática do Zen é a prática de adentrar talvez o que Teresa D?Ávila chamava da sétima morada. Pesquise o que significa isso.

Reflexões, orações, meditações necessárias para atravessar os múltiplos planos da espiritualidade até atingir o âmago do ser. A travessia é em si a ligação, a penetração, o despertar. É a ligação, a conexão, a comunhão com a sacralidade da vida. A mística profunda promove uma grande transformação, a transmutação do nosso olhar para a vida, para as pessoas, para tudo que é, foi e virá a ser. Tudo é vida e tudo é movimento.

Você aprecia o que nunca foi, o que nunca percebeu nem encontrou? Você aprecia se reconhecer no inseto, na árvore, na flor? Você sente o clamor dos rios e da terra? Percebe os ventos e o ar como sendo seu próprio corpo?

Há o amor e o afeto. Há o cuidado e a empatia. Há a sabedoria e a compaixão. Seu desabrochar depende da nossa procura, prática, encontro. Você se encontrou hoje? Então, veja se eu estou na esquina.

Mãos em prece

MONJA COEN

ESPERANÇA CONTRA O CÂNCER DE PULMÃO

NOVO MEDICAMENTO REDUZ EM 51% RISCO DE MORTE EM PACIENTES

Dois estudos apresentados no maior congresso de oncologia do mundo indicam avanços no tratamento do câncer de pulmão, tumor que mais mata no Brasil, com média de 28 mil óbitos por ano no país. Uma das pesquisas, conduzida pelo renomado Yale Cancer Center, dos EUA, demonstrou que um medicamento foi capaz de reduzir em 51% o risco de morte para pacientes com uma das formas do tumor de pulmão de células não pequenas, tipo responsável por mais de 80% dos casos da doença.

Os trabalhos foram apresentados no encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, na sigla em inglês), que ocorreu em Chicago no início o mês. A pesquisa do Yale investigou o uso do medicamento osimertinibe, produzido pela AstraZeneca, com a participação de 682 pacientes de 26 países. Todos os pacientes tinham câncer de pulmão de células não pequenas com a mutação do tipo EGFR. Todos passaram por cirurgia para retirada do tumor e, após a operação, parte deles recebeu o medicamento e o outro grupo, placebo. Após acompanhamento de quase cinco anos, os cientistas observaram que o risco de morte entre os que tomaram o medicamento foi 51% menor do que no grupo que não recebeu a droga.

Diretor adjunto do Yale Cancer Center, Roy Herbst afirmou que os resultados devem fazer com que o uso do osimertinibe se torne o tratamento padrão para esses tipos de tumor de pulmão. Para ele, os números de sobrevida global "inspiram confiança" em adotar a medicação para casos de tumores com a mutação EGFR:

- Isso reforça ainda mais a necessidade de identificar esses pacientes com biomarcadores disponíveis no momento do diagnóstico e antes do início do tratamento.

 Estudo com imunoterápico

Outro estudo, também com foco nos tumores de células não pequenas, demonstrou que o uso do medicamento imunoterápico pembrolizumabe, da farmacêutica MSD, antes da cirurgia para retirada do tumor e combinado com quimioterapia, aumentou as chances de remoção completa do câncer durante a operação e reduziu o risco de recidiva da doença. A pesquisa, também de fase 3 e conduzida pela Universidade de Stanford, demonstrou redução de 42% no risco de recorrência e progressão da doença ou morte entre os pacientes que receberam o imunoterápico antes da cirurgia.

- Outros estudos com outros imunoterápicos já demonstraram benefício parecido. Este estudo vem corroborar o papel da imunoterapia pré-operatória e esta estratégia passa a se tornar mais uma opção de tratamento para esses pacientes - disse William Nassib William Junior, líder de especialidade de tumores torácicos do Grupo Oncoclínicas, que também acompanhou a apresentação dos estudos em Chicago.

Para o especialista, os dois estudos se destacam porque são os primeiros a mostrar benefícios dessas drogas também para pacientes com tumores em fases iniciais:

- Nas últimas duas décadas, tivemos dois grandes avanços contra o câncer de pulmão: imunoterapia e terapia alvo. Até recentemente, no entanto, estes avanços eram aplicáveis só a pacientes com doença avançada, uma situação na qual as chances de cura são muito pequenas ou inexistentes. Esses novos estudos trazem avanços para a doença em estágio mais inicial, quando os tumores são operáveis e as chances de cura são reais. 


17 DE JUNHO DE 2023
J.J. CAMARGO

GERAÇÃO MIMIMI

"A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo." (Nelson Mandela)

Que ocorram mudanças de comportamento entre gerações é previsível, pela diversidade de fatores novos a influenciá-las. Também é natural que elas ocorram na adolescência, quando a audácia e a necessidade de afirmação se somam ao destemor e a alguma irresponsabilidade, transformando a juventude num laboratório de experimentação comportamental.

O que tem chamado a atenção de pais, professores e terapeutas é o quanto essas transformações têm se manifestado mais precocemente, numa faixa etária marcada, até há poucos anos, pela inocência e submissão à autoridade dos pais.

Com a exclusiva intenção de entender o que está acontecendo, se percebe mudanças radicais recentes nas relações entre pais, filhos, professores e as escolas.

O alto percentual de casais que só voltam para casa no fim da tarde, exaustos por mais um dia de trabalho estressante, introduziu a novidade da educação terceirizada na primeira infância, com desdobramentos inevitáveis: insegurança pela antecipação da autonomia, decisões imaturas comandadas por pura intuição, solidão decorrente de relações afetivas com a superficialidade do mundo virtual, perda da noção educativa de deveres antecedendo direitos e, por consequência, liberalidade e tolerância exagerada dos pais que se sentem culpados pela negligência involuntária.

Quaisquer que sejam as razões, alarmam os desajustes observados, como, por exemplo, a cifra de 37% de crianças e adolescentes com problemas emocionais e um crescimento estarrecedor de 200% no índice de suicídio entre crianças de 10 a 15 anos.

Admitindo o óbvio, de que pais com sentimento de culpa são péssimos educadores, o surgimento da geração mimimi se impôs como mera consequência.

Como este episódio da mãe paulista que viralizou nas redes por ter denunciado, como desrespeitoso, um jovem médico que acrescentou aos medicamentos usuais de uma amigdalite uma prescrição empática e bem-humorada de sorvete de chocolate (com a opção de sabor selecionada pelo garoto) e um videogame popularíssimo na infância. Naquela denúncia havia muito mais da necessidade de transferir para alguém a culpa de ser mãe do seu jeito do que a perdoável ignorância do quanto o sorvete é um ótimo analgésico à amigdalite.

Na busca involuntária por um contraponto, sempre útil para enriquecer uma crônica, encontrei uma história maravilhosa protagonizada por uma professora americana do Alabama, que recebeu os alunos para o início do curso com a sala de aula vazia e explicou aos meninos que eles deviam sentar-se no chão. Como era de se prever, os garotos informaram aos pais desse comportamento bizarro da professora e, confirmando que denuncismo não tem pátria, as mães trataram de comunicar à imprensa que, como sempre doida por um fato novo, acorreu à escola e documentou o absurdo de uma professora excêntrica.

No meio da tarde, com a escola em alvoroço, entraram na sala, para surpresa dos alunos, um batalhão de ex-combatentes fardados de várias guerras, cada um carregando uma carteira escolar que foram distribuídas nos respectivos lugares. Depois, eles foram se colocar, em posição de respeitosa continência, junto à parede do fundo da sala de aula.

E então a professora explicou: "Esses soldados lutaram em diferentes guerras, perderam amigos, ficaram longos meses longe de suas famílias, interromperam projetos e atrasaram estudos, para que vocês pudessem viver num país que lhes dá uma liberdade, que vocês não moveram um dedo para merecer. Agora sentem nessas classes e façam justiça ao esforço que eles fizeram".

Claro que as mães daqueles fedelhos mimados não levaram adiante as queixas pretendidas, porque, afinal, condescendência na infância só serve mesmo é para produzir adultos frouxos. E desse tipo, como todos sabemos, o mercado está saturado.

J.J. CAMARGO

17 DE JUNHO DE 2023
CARPINEJAR

Uma infância de abrigo

Eu usei abrigo a minha infância inteira. Ou abrigo escolar, azul, com as tiras brancas ao lado da calça, ou abrigo esportivo, com o moletom completando a aparência monocromática.

Era uma roupa coletiva, indicando que eu pertencia a um grupo social. Ou me tornava parecido com os meus colegas, ou parecido com os meus irmãos. Não me desvencilhava em nenhum momento dos círculos gregários da família e da escola.

O abrigo gerava constrangimentos como uma segunda pele, com aquele pano muito colado em minha carne. Não podia ter pensamentos impróprios. Funcionava como um detector de desejos na puberdade.

Lembrava um cinto da castidade recomendado pelo Vaticano. Todos descobriam as minhas vontades e fantasias a olho nu. A transparência incomodava, a vulnerabilidade atrapalhava. A facilidade que qualquer colega tinha de baixar a minha calça em público, para me zombar, terminava me atordoando, pondo-me em pânico, ainda mais sendo tímido. Não existia como me distrair. Mergulhava num estado de permanente fiscalização de quem estava ao meu lado.

O bullying não dava trégua. A escola não inspirava segurança. Todo trapaceiro na turma desfrutava da chance de rir de mim e mostrar o estado de minha cueca para as meninas. Espécime de avental gigante, tampouco permitia combinação de cor. Surgia pronto, sem mediação de complemento. O tênis branco sobrava, chamando atenção indevida aos pés de pato.

Afora o vexame das manchas de pasta de dente, que surgiam habitualmente pela pressa na hora de me aprontar e geravam círculos borrados no meu peito, verdadeiros alvos para o aviãozinho de papel.

Só morria o abrigo quando o elástico se soltava. Rasgos nos joelhos nunca traziam o fim da peça, porque recebiam remendos de couro. Vivia sob a ditadura do conjuntinho básico. Não havia o cinto para confirmar o crescimento da cintura pelo número de furos.

Vestia um saco para acordar, assim como o pijama representava um saco para dormir. Não restava espaço para estabelecer a minha singularidade, demonstrar o meu temperamento e elevar o ânimo trocando de figurino.

Tenho certeza de que abandonei a infância e nasci para a individualidade quando ganhei a minha primeira calça jeans, aos 13 anos. Era uma nova forma de enxergar o corpo - juro que a impressão foi de que eu degustava a liberdade pela primeira vez na vida.

O tecido me deixava à vontade, modelava as pernas, fazia volume. O corpo não ficava escancarado como no abrigo. Mudei até a minha atitude para as fotos, não mais me escondendo no fundo, atrás das cabeças dos outros.

O jeans criou o meu guarda-roupa, as possibilidades, as misturas, a indecisão do que colocar, o olhar mais demorado no espelho, o enamoramento do tempo. Veio a vaidade, veio o casaco de couro, veio o capricho com as camisas, veio o cuidado com os acessórios.

Foi quando finalmente troquei as gavetas pelos cabides, quando desafiei o certo pelo duvidoso, quando passei a abusar da criatividade. O jeans desencadeou a vontade de comprar as próprias roupas, de frequentar as lojas sozinho, de conhecer o recato das cortinas dos provadores, de economizar a mesada para me arrumar melhor.

Despertou em mim a ambição de ter uma personalidade diferente dos demais e de assumir a responsabilidade pelos meus caminhos, certos ou errados, cafonas ou elegantes. Consagrou a minha identidade. Eu estava pronto, enfim, para me perder no mundo com as minhas decisões.

CARPINEJAR

17 DE JUNHO DE 2023
CARTA DA EDITORA

Jornalismo é investigação

Investigar é a essência do jornalismo. Por mais singelo que seja o tema, se ele for de interesse público, o repórter tem a obrigação de buscar as informações que não lhe são fornecidas. Não importa o tema nem a abrangência do impacto. Cabe ao jornalismo expor o que não deveria ser sonegado à sociedade, sempre com transparência e responsabilidade.

Desde o dia 6, os veículos da Redação Integrada de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho têm mostrado que a prefeitura de Porto Alegre acumula - em corredores de escolas, galpões e depósitos - caixas de livros, kits pedagógicos, equipamentos eletrônicos, materiais esportivos, brinquedos e camas para bebês, entre outros itens. Tudo comprado com dinheiro público, mas sem uso. Foram milhões de reais gastos com a aquisição de materiais escolares que até agora não chegaram ao destino final.

A partir de informações de servidores municipais, indignados com a situação dos materiais escolares, os repórteres Adriana Irion e Carlos Rollsing, do Grupo de Investigação da RBS (GDI), passaram a acompanhar o caso. Depois de presenciarem o acúmulo desses itens, ambos partiram para a análise de contratos e licitações para tentar entender as razões para isso estar ocorrendo.

Nesta sexta-feira, o Ministério Público tomou a decisão de apurar por que a Secretaria Municipal de Educação não entregou às escolas esses materiais armazenados.

Para Rollsing, as reportagens deixam claro que houve abundância de recursos públicos, gastos às pressas, e ausência de planejamento pedagógico e logístico:

- A relevância das reportagens foi permitir a busca por correção dos graves problemas, a reparação dos danos causados e prevenir a repetição no futuro.

Adriana complementa:

- A importância está em ver o sistema se movimentando como deveria, ou seja, os depósitos sendo abertos para que o material chegue às escolas.

Os conteúdos de Adriana e Rollsing podem ser acessados pelo link ao lado.


17 DE JUNHO DE 2023
MARCELO RECH

A melhor ideia

Nem a internet e nem o cachorro-quente. A melhor ideia que os Estados Unidos já tiveram, segundo o historiador Wallace Stegner, foi a criação de parques nacionais para proteção da natureza e usufruto das gerações futuras. A definição caiu tão bem que se transformou em slogan informal do Serviço Nacional de Parques dos EUA, um potentado que administra nada menos do que 250 milhões de visitantes por ano a mais de 400 áreas de conservação.

Desde a criação do Parque de Yellowstone, em 1872, a ideia iluminada de preservar vastas áreas naturais ganhou o mundo, que tem hoje mais de 100 mil reservas oficiais. Mas nem tudo são, literalmente, flores. Boa parte das áreas só existe no papel. No Brasil, há 58 parques nacionais que, em grande parte, vivem entre abandono, problemas de demarcação e invasões. Nenhuma ideia boa fica de pé se não for colocada em prática - e um turismo controlado, em áreas específicas, é a melhor forma de pressão para que os parques brasileiros ganhem vida de fato.

Recentemente, parques como o espetacular Aparados da Serra começaram a ser concedidos à iniciativa privada. É uma esperança, mas, convenhamos, o valor do ingresso - R$ 94 por pessoa, com direito a visitar dois parques por sete dias - é um preço salgado para um família só de passagem pelo cânion. Quem fez o business plan da concessão pode ter suas razões, mas afugentar visitantes de menor renda contraria um princípio básico dos parques nacionais: despertar o respeito pela natureza por meio do convívio amistoso com ela.

O Rio Grande do Sul teria muito a ganhar, do ponto de vista ambiental e turístico, com uma exploração racional de seus parques nacionais e estaduais - e também com a criação de novos. Dos seis biomas brasileiros, só o do pampa gaúcho não conta com um parque nacional. Algumas áreas devem ser mais protegidas, mas nunca abandonadas como o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, incompreensivelmente esquecido e ainda ocupado por cabeças de gado entre levas de aves migratórias.

Parques não devem ser apenas preocupações do Estado ou da União. Outro dia, os colegas do Atualidade, da Rádio Gaúcha, citavam a criação do Parque Marinha do Brasil como uma das maiores realizações do prefeito Guilherme Socias Villela. Muito justo. Um dos maiores legados de um prefeito é proporcionar às gerações futuras a preservação e o usufruto de áreas comuns. Por falar nisso, o que o seu prefeito está fazendo para que a cidade não devore espaços verdes que poderiam se transformar na melhor ideia que já tiveram? O futuro agradece.

MARCELO RECH

16 DE JUNHO DE 2023
CARPINEJAR

Alfabetização das traças

Por quanto tempo você suportaria a demora da entrega de uma encomenda em sua casa? Uma semana, duas semanas? Depois de um mês, aposto que já entraria em parafuso, ligando para o fornecedor e exigindo seus direitos.

Agora, tente entender o que significa escolas municipais, com déficit de infraestrutura para o ensino, simplesmente não receberem o que já foi adquirido em licitações pela prefeitura por quase um ano.

Ainda mais tendo consciência de que se trata de dinheiro público, de nosso erário, resultado dos nossos impostos e arrecadação. Pois é o que vem ocorrendo na Secretaria Municipal de Educação (Smed). É tão inexplicável que a vontade, ironicamente, é chamar um exorcista para cuidar do almoxarifado. Porque deve ser obra do sobrenatural.

De acordo com série de reportagens do grupo de investigação de GZH, livros, kits pedagógicos e chromebooks, no valor de R$ 100 milhões, encontram-se estacionados em galpões do município. Mofando, literalmente.

As compras foram feitas pela Smed no decorrer de 2022, e não foram alcançadas para os alunos. Não sei se existe algum projeto pioneiro em vigor de alfabetização das traças. É um escândalo de inércia. Uma falha de logística que poderia ser facilmente sanada, mas que vem prejudicando seriamente o futuro de estudantes.

São porões do desperdício, hangares ociosos, com equipamentos que se desatualizam a cada ano que passa. Há aparelhos de ar-condicionado estocados nas escolas municipais, que não podem ser usados por falta de fiação elétrica. Como você compra aparelhos antes de arrumar a rede de energia? Por não cobrir o conserto de um eletricista, arca-se com um prejuízo infinitamente maior.

Itens esportivos e recreativos, procedentes de novembro de 2022, ao custo de R$ 808 mil, choram de abandono em caixas de papelão, armazenados num galpão no bairro Navegantes, em Porto Alegre. São tabelas de basquete, kits com raquetes, bolas, suporte e rede, mesas de pingue-pongue, jogos de frescobol e conjuntos de minitraves de futebol. Nenhum dos acessórios chegou ao seu destino. Noventa e oito colégios municipais vêm perdendo incremento em suas canchas e aulas de educação física.

Qual é o problema da gestão do governo municipal, que compra e não repassa, que dispõe de recursos e não distribui? Sempre existiu burocracia para licitar e adquirir material escolar, mas nunca tinha visto burocracia para entregar.

Não está sendo discutida, em nenhum momento, a regularidade das compras, porém a demora e ineficácia risíveis em atender a rede de ensino. A impressão é de que podemos esnobar recursos, que está sobrando verba a ponto de forrar a despensa, de comprar além do necessário.

Não é verdade. Bem conhecemos a situação precária das escolas. Uma delas, na Zona Norte, conta com 24 aparelhos de ar-condicionado guardados. Já estão quase virando pufes para se sentar. Somos campeões em licitações, verdadeiros fracassos no repasse do estoque.

CARPINEJAR

16 DE JUNHO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

MUDANÇA DE PERSPECTIVA

O país recebeu da agência de classificação de risco S&P Global Rating, uma das principais do mundo na área, a notícia de elevação da perspectiva da nota de crédito, de estável para positiva. Trata-se de uma avaliação de que o Brasil está no caminho certo quanto à busca pela estabilidade macroeconômica. Estar no rumo adequado, no entanto, não significa inexistência de importantes desafios à frente que ainda precisam ser vencidos. Mas, sem dúvida, é uma sinalização que demonstra confiança na capacidade institucional de avanços que poderão levar o país, no futuro, a ter de fato a sua nota de crédito melhorada. Por enquanto, a avaliação BB- foi mantida pela S&P.

O comunicado da agência ressalta a existência de maior segurança quanto à condução das políticas fiscal e monetária. O fator mais recente que melhorou a visão do país foi a aprovação do novo marco fiscal pela Câmara. O texto também se encaminha para ser chancelado pelo Senado. A nova regra projeta uma trajetória da dívida pública mais benigna do que chegou a ser estimado pelo mercado no início do ano, eleva a possibilidade de crescimento do PIB e ainda ajuda a criar condições para o início de um novo ciclo de corte do juro interno.

É plenamente justificável, portanto, como fizeram membros do governo Lula, comemorar a decisão da S&P. Deve ficar claro, porém, que a agência ressalta a necessidade de a agenda de reformas continuar a ser implementada. A principal, a curtíssimo prazo, é a que prevê a simplificação do sistema tributário, essencial para melhorar o ambiente de negócios no Brasil. É básico, ainda, que o governo consiga entregar as metas fiscais prometidas pelo novo arcabouço. Uma execução abaixo do esperado recriaria o risco de nova deterioração das contas, voltando a elevar a desconfiança sobre o país.

Embora exista a ênfase nos acontecimentos mais recentes, também foram avaliados amadurecimentos institucionais e reformas consolidados nos últimos anos. Mudança nas regras trabalhista e da Previdência, além da aprovação da autonomia do Banco Central (BC), pesaram positivamente. O que se espera, por consequência, é que o país, ao longo dos próximos anos, governos e legislaturas, siga na trilha da modernização de seus marcos legais e da responsabilidade com as contas públicas. Aventuras e retrocessos devem ser repelidos.

Até pelos prazos normalmente previstos em avaliações do gênero, o Brasil ainda está distante de recuperar o grau de investimento, classificação que dá a uma empresa ou nação o selo de bom pagador de seus compromissos e, portanto, a chancela de ser confiável para receber investimentos. O Brasil chegou a ganhar esse status em 2008, mas perdeu em 2015, após um processo de piora das métricas fiscais. Espera-se que, agora, a trajetória esteja consistentemente no caminho inverso. 

A mudança de percepção em relação ao Brasil cria, inclusive, um ambiente mais favorável para que se confirme a aproximação de uma fase de redução da taxa Selic, hoje em um patamar - de 13,75% ao ano - que vem esfolando a economia real . Cresce a expectativa de que, na semana a seguir, quando o Comitê de Polícia Monetária (Copom) volta a se reunir, o colegiado ao menos sinalize ter constatado condições para o primeiro corte do juro básico ocorrer na reunião do início de agosto.


16 DE JUNHO DE 2023
POLÍTICA +

Simulador para um IPE irreal O que o governo Lula não fez pelo turismo na gestão Daniela

Sindicato que representa os servidores estaduais de nível superior, o Sintergs lançou ontem uma ferramenta que permite calcular o novo valor de contribuição para o IPE Saúde, caso a proposta do Piratini seja aprovada. Basta informar salário bruto, idade e número de dependentes.

A diferença para o simulador lançado em 23 de maio pelo governo é que o do sindicato mostra quais seriam os valores repassados ao IPE se os servidores tivessem recebido a reposição da inflação nos últimos nove anos, estimada em 60%.

Esse é um mundo irreal. A reposição da inflação custaria R$ 8 bilhões por ano.

Na reunião ministerial deste final de semestre, o presidente Lula reclamou da comunicação. É sempre assim: quando os governos vão mal, a culpa é da comunicação, já que jornalistas costumam ter as costas largas. Mas será que é falta de comunicação a ausência de notícias sobre o que foi feito pelo turismo na gestão da ministra Daniela Carneiro, mais conhecida como Daniela do Waguinho?

A gestão da ministra no Ministério do Turismo só não passou em branco porque desde o início ela não sai do noticiário, mas é pelos motivos errados. Esse, como outros ministérios considerados de segunda categoria, apesar de tratarem de temas relevantes, tem sido historicamente ocupado por pessoas de pouco ou nenhum preparo. A rigor, essas pastas só existem para acomodar aliados.

O Brasil poderia muito bem passar sem Ministério do Turismo e ganhar com isso. Indústria essencial para o desenvolvimento de um país com a riqueza do Brasil, o turismo merece mais do que amadores como Daniela ou como o sanfoneiro Gilson Machado, mais conhecido pela figuração nas lives do ex-presidente Jair Bolsonaro. Dos anteriores, quem lembra de algum feito relevante para estimular o turismo no Brasil? Desses dois, nada consta.

Daniela foi notícia pela descoberta de imagens de campanha em que aparece ao lado de miliciano condenado por homicídio. Defendeu-se dizendo que não tem como saber a ficha corrida de quem lhe oferece apoio e escapou da demissão. Mas brigou com seu partido, o União Brasil, e perdeu as "credenciais" para continuar no cargo.

O provável substituto, Celso Sabino, também não é expert na área, mas tem a bênção dos líderes do União Brasil e do todo-poderoso presidente da Câmara, Arthur Lira.

ROSANE DE OLIVEIRA


16 DE JUNHO DE 2023
DANIEL SCOLA

Político não vai de ônibus

Só uma desconexão com a realidade do povo explica a falta de ação dos políticos de Brasília com o transporte público de passageiros municipal. Ônibus abarrotados de passageiros, mal ventilados, que normalmente falham no cumprimento de horário e cobram passagens caras. A culpa não é do motorista ou do cobrador. É carência de um sistema que não se sustenta.

Pergunte a alguém que mora no bairro Restinga, no extremo sul de Porto Alegre. Além de ser errante no horário durante o dia, a linha que atende ao bairro, onde residem mais de 60 mil pessoas, depois das 20h, muda de nome e assume um itinerário que atende a pelo menos 10 outros bairros. Ou seja, a mudança na linha é para atender mais gente. Convém lembrar que a Restinga tem uma população equivalente ao município de Vacaria, nos Campos de Cima da Serra.

Os moradores da Lomba do Pinheiro, em outra área da cidade, organizaram um abaixo-assinado para pedir algo elementar, o cumprimento de horário do ônibus. Ele é o meio de transporte de trabalhadores, estudantes e passageiros em geral. São ônibus articulados que podem carregar dezenas de pessoas. Os problemas se sucedem de Leste a Oeste, de Norte a Sul.

Em Porto Alegre, a prefeitura tenta a privatização da empresa Carris, que explora as linhas mais rentáveis da cidade, as transversais, com o indicativo do T. O passageiro não está interessado se é público ou privado. Ele quer transporte que funcione a um preço módico. O povo está alheio ao assunto da privatização.

Há muito tempo, as prefeituras de capitais de todo o país pedem ajuda do governo federal para tentar resolver o problema. Uma das medidas sugeridas e imploradas é a redução ou, até mesmo, o fim do imposto sobre o combustível usado nos ônibus. Agora, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, diz que a partir de setembro o imposto sobre o diesel voltará ser cobrado. Ele tinha outra opinião quando era prefeito de São Paulo e controlava diretamente o transporte público do maior município da América Latina.

O certo é que algo precisa ser feito para dar mais qualidade ao meio de transporte que é usado por milhões de pessoas todos os dias. E não é a redução de imposto sobre carros populares que vai mudar essa realidade.

DANIEL SCOLA