sábado, 13 de janeiro de 2024


13 DE JANEIRO DE 2024
MARTHA MEDEIROS

Guerra ao vazio

Sucumbimos à vulgaridade de uma forma vergonhosa. Enviamos e-mails ofensivos para redações de jornais e insultamos desconhecidos nas redes. Exibimos nossa desinformação ao utilizar frases feitas que copiamos de pessoas que também não se informam direito. É um avanço quando o povo de um país se interessa mais por política, mas nossa reputação anda ameaçada pela quantidade de mentiras e bobagens que ajudamos a difundir: hora de refletir e escolher melhor a quem odiar, já que o ódio é um vínculo profundo, convém não desperdiçar com estranhos.

O inimigo está sob nosso teto. Dormimos com ele, e acordamos também - assim que abrimos os olhos, pegamos o celular para ver que horas são e então descobrimos que durante a madrugada entraram 38 mensagens de insones e de amigos que moram em outro fuso horário, e o teor é a velha conversa requentada, nada que mudará nossa vida, ao contrário dos livros que estão ganhando poeira na estante e que, se forem abertos, resgatarão para a sociedade uma pessoa muito mais interessante - você, quem mais?

Claro, responda às mensagens de WhatsApp, não seja mal-educado. Mas, antes, abra a cortina, tome água, faça exercícios físicos, tome água de novo. E corra, vi sua alma escapando para aquele lado.

Tonifique os músculos, pois guerra se ganha também pelo vigor, mas o combate mais urgente tem que ser contra o vazio, que se não for preenchido a tempo, vai deixar de herança uma velhice insuportável. Ocupe-se com filosofia, poesia e silêncio. O silêncio cala todas as fofocas e insignificâncias que nos rodeiam. Medite. Possua-se. Não perca a chance de ser alguém mais atraente, em qualquer idade.

Odeie em você a procrastinação demasiada, aquela que começou como preguiça e se tornou autoboicote. Expanda esse coração romantizado, que só se dedica a histórias privativas de amor, enquanto ignora o amor por toda a humanidade. Seja um hater da sua própria arrogância e frivolidade. Pode-se encontrar alegria dentro de cálices de espumante e na pista de dança, mas a plenitude é menos alegórica, buscá-la é a tarefa inconclusa de uma vida toda, a verdadeira sofisticação. Discreta, a plenitude pode estar aí mesmo, neste agora, enquanto seu café esfria.

Nada existe além deste momento imediato, a não ser você em construção. Declare guerra à vaidade de se expor como um produto acabado e não mendigue por aprovação alheia - glória e sucesso são conquistas íntimas, medidas por dentro. É difícil recusar os apelos da exposição pública, mas não leve o espalhafato tão a sério, ou o ego lhe dará uma rasteira.

Que seus inimigos se digladiem lá fora, enquanto você lê mais, aprende, pondera. Se precisa mesmo odiar alguma coisa, então odeie o que afasta você de você mesmo.

MARTHA MEDEIROS

Tudo o que você precisa agora mesmo

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Se eu soubesse que viver era tão fácil, passaria 24 horas por dia no YouTube e no Instagram.

CLAUDIA TAJES 

13 DE JANEIRO DE 2024
LEANDRO KARNAL

A CONTINGÊNCIA

Entramos em um ano bissexto. Para os otimistas, um dia a mais de oportunidades. Melancólicos lembrarão o não recebimento extra pelo dia 29 de fevereiro.

Sobre ambos, a imprecisão matemática da Terra, que completa sua translação ao redor do Sol - 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos. Ajustar o ano civil ao ano solar é um esforço antigo.

Sigo no afã de seduzir você, querida leitora e estimado leitor, a seguir vivendo o novo tempo com boas expectativas. Haverá Jogos Olímpicos em Paris, neste Ano da Graça do Senhor de 2024. Pela terceira vez desde que os jogos foram recriados, a capital francesa sediará a disputa. Mascote? Um boneco derivado do "barrete frígio", carapuça vermelha, símbolo da liberdade e usado pela mulher que representa a República Francesa: Marianne.

Importante: os phryges possuem versão paraolímpica, com uma prótese na perna. Críticos, sempre abundantes e ressentidos, já recordam que a maioria dos bonecos terá produção chinesa. Conservadores trouxeram um dado peculiar: a forma remete a um clitóris. Bem, podemos ficar tranquilos: a possível metáfora corporal não será identificada pela maioria dos homens.

O ano de 2024 pode ter outra surpresa na terra do Asterix: está prevista a reabertura da catedral de Notre-Dame, refeita após o dramático incêndio em abril de 2019. Há alguns anos, eu estava em Paris com um grupo de amigos. Decidimos, em uma manhã muito fria, visitar a catedral. Um deles, tendo marcado encontro amoroso, recusou o programa cultural, alegando: "A igreja está aí há 800 anos. Vai ficar mais um tempinho".

Tomado pelo fogo erótico, ele não poderia imaginar que outras chamas consumiriam a residência do Corcunda famoso. Moral da história: sexo pode ser mais fácil do que a ocasião de conhecer patrimônio da humanidade. Bem, finalmente ele poderá voltar a Paris e refletir com a cabeça mais fria.

Lembro quão complexo foi reaprender geografia no fim do século 20. A URSS fragmentou-se em vários países, a Checoslováquia e a Iugoslávia fizeram brotar novas capitais. Em 2024, a Indonésia deve inaugurar a sua nova. Jacarta deixa de sediar o governo do arquipélago e brilhará Nusantara na ilha de Bornéu.

Os planos de inauguração são para 17 de agosto, dia da independência do país. O Egito também segue um projeto similar de retirar a sede administrativa da superpovoada Cairo, sem data prevista de conclusão das obras.

Agitação política em 2024: eleições municipais. Nossos mais de 5,5 mil municípios escolherão seus representantes para o Executivo e para o Legislativo. Nas cidades, ocorre a política mais orgânica de todas, com proximidade entre candidatos e eleitores. Podemos idealizar, lendo Aristóteles e sua defesa da pólis, como unidade de democracia e realização da felicidade, ou podemos nos divertir com o lado Odorico Paraguaçu, edil ficcional da obra de Dias Gomes.

Sua cidade, querida leitora e estimado leitor, é mais Aristóteles ou mais Sucupira? Aliás, quem se lembra bem do fim da novela O Bofe e a estreia da primeira novela colorida no Brasil, O Bem-Amado, em 1973, já teria prováveis condições legais de ser dispensado do comparecimento às urnas, se assim o desejar.

Mesmo com mais de 70 anos, votar é sempre uma chance de contribuir para a felicidade da sua urbe. Odorico estará sempre à espreita, aguardando uma chance.

Por mais que anunciemos algumas coisas, existe um conceito filosófico que se chama contingência. Há sempre um princípio de imprevisibilidade nos dias à frente. O futuro será um tecido delicado entre nossas decisões e o complexo acaso do universo. Lutaremos com estratégias, as coisas responderão por vezes em redes de causa-efeito e, em muitas outras ocasiões, em um mosaico de incertezas. No ritmo bizarro do que não é impossível com aquilo que não é necessário, escreveremos (ou seremos base da escrita) um ano inteiro de atos e de surpresas. Nossos esforços podem aumentar a chance matemática; jamais estabelecem a causalidade absoluta e exata.

O problema aqui não é acreditar em destino ou na Divina Providência. Mesmo que ambos existam, são incognoscíveis para nós. Um ano novo é como viajar para longe com um bebê de oito meses de idade. Você leva fraldas extras, remédios comuns, alguns incomuns, telefones de emergência do pediatra, roupas leves e pesadas, bicos, papinhas a mais, leite em pó, chá e tudo aquilo de que o rebento sempre necessita, misturado a coisas que ele possa a vir a precisar e mais as que lhe disseram necessárias.

Malas de bebês são enormes, recheadas de medos e de angústias. Eis que, longe de todas as redes protetoras de segurança, saem os dentinhos imprevisíveis. Caos de novo!

O ano que começa é um bebê cheio de esperanças, mas tenha certeza disto: será marcado pela imprecisão. Ame a vida à frente, como se ama um bebê fofo e imprevisível. Há razões para a angústia. Escolha os motivos da alegria. Aposte em um ano bom e com muitas ações de transformação.

LEANDRO KARNAL

13 DE JANEIRO DE 2024
FRANCISCO MARSHALL

A FILA ANDA

Na terça-feira, Porto Alegre viveu evento sintomático de seus afetos políticos e da disputa que há em torno da ideia de cidade e da democracia no local em que vivemos. Tratava-se da eleição de representante para a região 01 (central) da cidade no Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (CMDUA), e de delegadas(os) para o respectivo Fórum Regional de Planejamento, biênio 2024-25. Para estes fins, a cidade está zoneada em oito regiões e seus moradores ou trabalhadores sediados têm direito a voto. O CMDUA trata de assuntos do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA), que lhe define 14 atribuições consultivas e deliberativas. Em pauta, as questões centrais: que cidade é esta? Qual a cidade que queremos?

A votação na Câmara Municipal estava prevista para ocorrer no estranho horário entre 17h e 20h, mas estendeu-se até 0h50min do dia seguinte. A imensa fila, com espera por muitas horas, em condições adversas, declarava o clamor por democracia e por uma cidade melhor. O resultado evidencia o que já temos visto em outros cenários políticos, com opções nutridas por boas éticas em favor do povo, com ódio ao agressor e amor à vida bela.

A disputa no CMDUA decorre da voracidade despudorada com que parte do setor imobiliário avança sobre a cidade, devastando o patrimônio histórico, desconfigurando bairros e a estrutura urbanística, impondo estética única de prédios altos e luxuosos, apropriando-se de áreas públicas, desdenhando demandas sociais, critérios ambientais e tecnologias contemporâneas, manipulando governantes e representantes e, como se não bastasse, abusando do poder financeiro para subverter a democracia. 

Ora ferramentas vis do coronelismo foram utilizadas por esta parte viciada do patronato imobiliário: levaram em transporte pago povo cooptado e induziram o voto por meios que ainda não sabemos bem. Coerção? Compra? Promessas? Chantagens? Urge que se investigue e se coíba esse notório delito praticado com ilegalidade e covardia.

Esse segmento é movido pela ambição desmedida de meia-dúzia de megamilionários que se julgam donos da cidade, já enriquecidos com dinheiro suficiente para muitas gerações viverem com luxo, mas que não abrem mão de sua cupidez insaciável. Portam-se como aves de rapina, querem sempre mais, e, neste caso, à custa da cidade e da democracia.

São "parte do setor imobiliário" porque a cidade conta também com empreendedores capazes de praticar excelente arquitetura e de cooperar com o desenvolvimento urbanístico de Porto Alegre. É possível uma PoA bela, que zele com capricho de suas áreas públicas, sem entregá-las em negociatas, mas adornando-as com recantos afáveis, uma cidade que se arborize, que cuide de seus serviços essenciais, sensível à demanda social e à busca da harmonia, que promova a qualidade de vida e o desenvolvimento sustentável com alegria, uma pólis viva em arte e cultura. Na cidade isso é possível, sim, desde que o queiramos e declaremos onde pudermos, nas ruas, em nossas trajetórias sociais e profissionais, na opinião e no voto. Afinal, a fila anda.

FRANCISCO MARSHALL

13 DE JANEIRO DE 2024
CRISTINA BONORINO

GARGALOS

Qual é, afinal, o gargalo para que a biotecnologia seja um setor produtivo na economia brasileira? Helton Santiago, responsável clínico pelo CT Vacinas e pelo desenvolvimento da SpiNTec, a vacina brasileira para o SARS-CoV-2, conseguiu mapear os pontos críticos para que isso tenha sucesso no país. A SpiNTec entra para a história não apenas como a primeira vacina, mas como o primeiro insumo para uso clínico desenvolvido inteiramente no Brasil.

Você pode perguntar: mas os medicamentos genéricos não são nacionais? Desenvolvidos aqui? Pois saiba que nem a dipirona. O remédio mais vendido no país é feito na China ou na Índia e apenas envasado aqui. Se amanhã esses países interrompessem essa venda, você não conseguiria comprar uma aspirina genérica mais. Fim de jogo.

Como já contei aqui, desenvolver significa criar do nada. Um cientista descobre ou inventa uma molécula e vai modificando e testando para determinar se ela tem um potencial terapêutico. Esse é um primeiro gargalo: temos poucos cientistas, com pouco suporte. E, mesmo assim, há descobertas históricas brasileiras, como o princípio ativo do captopril. Esta e outras drogas que surgiram para regular a pressão arterial são hoje importadas da China. Na Europa, Ásia e EUA, as indústrias fazem parcerias com os pesquisadores, que começam com fundos do governo. Os resultados desses estudos rendem a esses pesquisadores artigos no New England Journal of Medicine e na Nature.

Quando a SpiNTec foi desenhada e testada, na UFMG, durante a pandemia, centenas de outras vacinas mundo afora estavam no mesmo processo. As que receberam financiamento de indústrias de seus países para os estudos clínicos avançaram mais e viraram as que hoje conhecemos. A SpiNTec recebeu apoio da prefeitura de Belo Horizonte. Os recursos eram necessários para manufaturar a vacina em condições especiais para uso em humanos. Ninguém no Brasil faz essa manufatura - foi necessário transferir a tecnologia para isso ser feito nos EUA e, depois, trazido de volta. Lá, médicos e indústrias desenham estudos clínicos rotineiramente. Aqui, isso não é ensinado nem em Medicina nem em Farmácia - principalmente estudo clínico de vacina.

Helton foi treinado no National Institutes of Health exatamente nisso - e por sorte resolveu voltar ao Brasil. Finalmente, para analisar e aprovar esses estudos, a Anvisa está tendo que aprender coisas novas. Os técnicos da agência têm excelente conhecimento nos estudos de fase III, o último nível, que as indústrias farmacêuticas internacionais executam com frequência no Brasil, além de outros países. Nunca uma empresa farmacêutica brasileira havia jamais submetido um ensaio de fase I, o primeiro que se faz em humanos. Hoje a SpiNTec está quase finalizando a fase II.

Para ser uma vacina nacional, deve mostrar que é tão boa quanto as que já existem - algumas já em segunda ou terceira geração, tendo rendido US$ 30 bilhões a 40 bilhões em vendas anuais para as indústrias que as apoiaram. À primeira vista parecem muitos obstáculos, impossíveis de se transpor. Mas o gargalo, na verdade, é um só. Que cada um de nós - políticos, pesquisadores, gestores, capitalistas, cidadãos - acredite e entenda que isso é possível de ser feito no Brasil, e faça a sua parte.

CRISTINA BONORINO

13 DE JANEIRO DE 2024
MONJA COEN

DRAGÕES

Havia um monge na China antiga que adorava dragões. Se houvesse tatuagem naquela época, estaria com o corpo coberto delas, com todos os tipos de dragões. Principalmente aqueles dragões de três garras, que seguram uma joia arredondada, como uma bola, em uma das patas dianteiras. Corpo de escamas, transporte alado como cavalinhos dos filmes lindos sobre a capacidade de manter a pureza no coração humano e jamais perder o contato com a árvore da vida.

Já na entrada de seu templo, um quadro belíssimo, de um grande artista plástico da época, dava as boas-vindas a quem chegasse. O quadro colocado em uma moldura de madeira de um metro quadrado era apoiado em um suporte também de madeira tampando a entrada do templo. Ao chegar, as pessoas tiravam os sapatos, subiam três degraus, sempre sob os olhos firmes do dragão, e entravam pelas laterais - espaços vazios entre o quadro e as paredes.

Seus seguidores e amigos, sabendo de seu afeto, sempre presenteavam o monge com desenhos, imagens, estátuas de dragões.

Quando estive em Kyoto, no verão de 2023, visitei o Templo Kenninji. Esse templo fica ao final da rua das gueixas, ou Maiyako - jovens mulheres que usam aquela maquiagem bem branca no rosto e perucas ou cabelos presos de forma arredondada. São jovens treinadas a entreter tanto em restaurantes, bares e teatros, como nas casas das pessoas ricas, em eventos especiais. Treinadas nas artes da poesia, da pintura, da fala, do canto e da dança. Treinadas na arte de servir, ser gentil e trazer leveza e beleza. Uma arte que leva muitos anos para a formação, feita com respeito e dignidade.

Ao final dessa rua, que é mantida como na antiguidade, estreita, com entradas de restaurantes e lojas como teriam sido no passado, há os portais do Templo Kenninji. Foi nesse templo que o fundador da ordem religiosa Soto, a que pertenço, Mestre Eihei Dogen Daiosho Zenji (1200-1253), praticou quando jovem. A sala de Buda desse templo antigo tem um grande dragão pintado, cobrindo o teto. Recentemente essa pintura foi restaurada. Linhas pretas fortes e um vermelho brilhante.

Mas o que é um dragão? Alguns dizem que dragões foram, são e serão sempre os protetores dos ensinamentos de Buda. Dizem também que um verdadeiro dragão tem a aparência de uma pessoa comum, só outro dragão o reconhece.

Quando nosso olhar para a realidade muda. Quando nos percebemos intersendo com tudo que é, foi e será. Quando cuidamos com respeito e dignidade da vida em suas múltiplas facetas podemos encontrar a verdade.

Dragões - seres imaginários que representam força, dignidade e cuidado. Sabedoria e compaixão. Não é o dragão de São Jorge na Lua. Sem luta. Ninguém quer matar o dragão. Ele não é inimigo. É o protetor da verdade.

Pois o monge que adorava dragões nunca havia encontrado um dragão verdadeiro. Conhecia representações, era cercado por esses desenhos e pinturas. Certo dia, o verdadeiro dragão chegou ao seu templo e o monge se encolheu surpreso e amedrontado... Um ser livre, leve, forte, destemido, correto e bondoso.

Você quer encontrar o dragão da verdade? Quer estar em contato com a realidade assim como é? Prepare-se. Ouça o seu rugir, afaste o medo, veja a realidade assim como é e não um desenho, uma representação da vida.

Reflita. Desperte. Este é o ano do Dragão. De 12 em 12 anos um dragão surge. Você o reconhece nos céus, nos ares, nas matas, nos oceanos, nas águas, nos pássaros, nos insetos, na terra e em cada ser? Muito além do bem e do mal - onde as dualidades se tornam uma unidade, pode-se ouvir o rugido de um dragão.

Ouça! Veja na árvore seca o desabrochar da vida no incessante fluirda corrente sanguínea. De Buda a Buda.

MONJA COEN

13 DE JANEIRO DE 2024
DRAUZIO VARELLA

A CIRURGIÃS

preconceito vem sendo superado, e a sociedade está colhendo bons resultados em função disso

Medicina sempre foi profissão masculina. Havia mulheres, claro, mas eram minoria. Nos anos 1960, entre os cem alunos da minha turma na faculdade, apenas 15 eram mulheres. Como efeito colateral do machismo que imperava na época, nossas colegas ficavam relegadas à posição de cidadãs de segunda classe.

Quando nos formávamos, as especialidades que as acolhiam eram pediatria, ginecologia, obstetrícia e, eventualmente, a clínica médica. Pouquíssimas ousavam candidatar-se à residência de cirurgia, ambiente competitivo, não sem razão considerado tóxico para mulheres.

Com o aumento progressivo do número de futuras médicas nas faculdades, lentamente, como costuma ocorrer com uma classe que em princípio rejeita mudanças, essas barreiras têm sido removidas. Não como dádiva dos homens, mas pela determinação feminina.

Como resquício do preconceito que persiste na sociedade, as cirurgiãs ainda são vistas com desconfiança por pacientes e familiares, especialmente em áreas com intervenções de maior complexidade: neurocirurgia, oncologia, cardiologia, entre outras. Julgam que faltaria às mulheres resistência psicológica para lidar com o estresse das situações inesperadas que podem exigir tomadas rápidas de decisão, durante o ato cirúrgico.

Anos atrás, o grupo de Christopher Walls, em Ontário, no Canadá, relatou que pacientes operados por cirurgiãs tiveram uma pequena, mas significativa redução da mortalidade nos 30 dias seguintes à cirurgia, menos complicações e menor risco de reinternações nesse período. Em outro levantamento, o grupo encontrou risco mais alto de complicações em pacientes do sexo feminino, quando operadas por homens.

Esses resultados foram recebidos com reservas pela comunidade científica, por terem envolvido números pequenos de pacientes.

Em novembro último, o mesmo grupo canadense publicou na revista científica JAMA Surgery uma pesquisa na qual avaliaram todos os adultos operados nos hospitais de Ontário, no período de janeiro de 2007 a dezembro de 2019. Cerca de 150 mil tinham sido operados por cirurgiãs, e pouco mais de 1 milhão, por cirurgiões.

Os procedimentos incluíram as 25 cirurgias mais frequentes, entre as quais apendicectomia, prótese de joelho, retirada da vesícula biliar, descompressão de medula espinhal, histerectomia e ponte de safena.

Os dados ajustados estatisticamente para afastar a interferência das características do hospital, do anestesiologista e dos pacientes, mostraram custos mais elevados nas cirurgias realizadas por homens.

Nos primeiros 30 dias de pós-operatório, pacientes operados por cirurgiões custaram US$ 3.115 a mais. Em 90 dias, US$ 4.228 a mais. Na somatória dos gastos durante 12 meses a diferença ultrapassou US$ 6 mil.

Reduzir custos hospitalares e ambulatoriais de pacientes submetidos a cirurgias tem importância crucial nesta época de despesas crescentes para o sistema de saúde, mas esse problema não será resolvido expulsando os homens dos centros cirúrgicos. O que interessa discutir é por que cirurgiãs e cirurgiões, profissionais que recebem a mesma formação e treinamento, praticam medicina de forma a apresentar gastos tão díspares?

Entre as explicações devem estar as habilidades femininas nas tomadas de decisão e na comunicação com seus pacientes. É possível que as cirurgiãs atuais sejam mais jovens e atualizadas do que os médicos mais velhos, homens na maioria? Ou que obedeçam com mais rigor a recomendações preconizadas pelos consensos de especialistas das sociedades médicas? Ou que sejam mais estudiosas do que os homens?

Pode ser, também, que a sensibilidade afetiva feminina reforce a empatia com os pacientes, que se traduzirá em comunicação mais clara, maior dedicação e disponibilidade de tempo para as consultas e para atender aos chamados, responder a e-mails e mensagens fora de hora que atormentam a vida profissional.

No ano 2000, existiam 219 mil médicos em nosso país. De lá para cá, a população aumentou 27%, enquanto o número de médicos mais do que duplicou. Hoje, somos 562 mil médicos, com participação crescente das mulheres. A partir deste ano, elas serão maioria: 50,2%. Em 2035, representarão 56% da força de trabalho.

A profissão ficará cada vez mais feminina, para o bem de todos.

DRAUZIO VARELLA

13 DE JANEIRO DE 2024
J.J. CAMARGO

J.J. Camargo é cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre e membro titular da Academia Nacional de Medicina

Nossa vontade de ter uma pausa da correria do dia a dia tem a ver com o que fazemos no cotidiano

"Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade". (Carlos Drummond de Andrade)

Todos nós, ou pelo menos aqueles que racionalizaram as prioridades, aguardamos com expectativa os dias mais leves, ou seja, aqueles em que nos permitimos baixar o nível da adrenalina, atualizar as fofocas com amigos e relaxar, sem culpa por estarmos fazendo nada.

A premência dessa pausa depende criticamente do quanto é prazeroso, ou não, o dia a dia do que fazemos. Os que se encontrarem na vida fazem dela uma alternância de momentos prazerosos com motivações diferentes. Os infelizes, aqueles que foram adiante depois que descobriram que erraram nas escolhas, mas que por comodidade ou inércia não foram capazes de recomeçar e seguiram indiferentes à tortura da rotina massacrante, que o tempo transforma em ódio e depois em desespero.

E tudo porque dependemos da energia propulsora que brota da percepção de que estamos fazendo o melhor que podemos, não importa o que seja.

Os ingênuos atribuem a gênese desse prazer à remuneração, sem nenhuma preocupação de entender porque a taxa de suicídio é mais alta entre executivos bem remunerados do que entre os humildes que ganham o básico para a sobrevivência digna.

Na verdade, como os modelos não são rígidos, não há um manual de instruções de como estabelecer o que cada um precisa para ser feliz, e nos extremos dessa curva comportamental se alojam uns tipos curiosos, desde o acomodado que se contenta com qualquer coisa que não lhe exija nenhum esforço extenuante, e o insaciável, que faz do acumular bens não apenas um objetivo, mas uma obsessão.

O primeiro, subutilizado por opção de vida, em geral está mais disponível para o convívio social e constrói uma rede de amigos, modesta e serena como ele. O outro, pressionado pela ambição, não sossega, considera qualquer recreação como desperdício de um tempo precioso, só constrói amizades com tipos interesseiros e, enclausurado no seu egocentrismo, envelhece sozinho, porque foi incapaz de perceber que mais importante do que acumular é dar sentido à sua riqueza. E todo mundo já sabe que dar sentido à riqueza só é possível ajudando quem não teve igual sorte.

Nesse modelo de vida, hipertensão arterial, sobrepeso e apneia do sono são acompanhantes usuais, e, como a consciência final de que errou na eleição das prioridades será sempre irresgatável, porque não há mais tempo para ser diferente, abre-se a porta da solidão.

Quando nem o afeto comprado a peso de ouro satisfaz, porque não há como negar o quanto é deprimente, a fuga pelo álcool ou outras drogas será mera consequência, e sem companhia de nenhum amigo. Nem aquele companheiro que, na época áurea, elogiava sua impressionante capacidade empreendedora.

Um epílogo triste, que pode ser chamado de tudo, menos de imprevisto.

J.J. CAMARGO

13 DE JANEIRO DE 2024
CARPINEJAR

A polenta dos cachorros

Meus cachorros da infância somente comiam polenta. Nos anos 1970 e 1980, não havia a tradição da nutrição especial, dos biscoitos coloridos e do acervo gastronômico das pet shops. Perdoe a minha família pela alimentação prejudicial, decorrente dos diferentes hábitos de uma época. Jamais repetiríamos tal descalabro hoje.

É paradoxal pensar que, por um lado, os mascotes eram humanizados na alimentação - comiam o que comíamos -, mas, por outro, não moravam dentro de casa - dormiam no pátio, soltos, e tomavam banho no tanque da lavanderia.

Eles pertenciam a um mundo mais rural. Não tinham permissão de se deitar no sofá ou na cama. Nem nos preocupávamos em levá-los para fazer xixi. No inverno, recebiam restos de cobertores e panos para se defenderem do frio. No verão, aproveitavam os tapetes secando ao sol.

Cachorro se caracterizava pela independência. Era meio lobo, meio de rua. Ele se virava sozinho, controlava o movimento no portão, protegia o lar das ameaças de invasão. Cuidava mais do que recebia cuidado.

Minha mãe suava na cozinha de madrugada para preparar o angu amarelo. Fazia um panelaço de albergue, de rifa escolar. Sua colher de pau não descansava por um minuto. Naquela hora, não atendia ninguém, desprezava telefone, campainha, pedido de divórcio. A polenta não podia parar, senão endurecia.

Os corredores cheiravam a polenta. Os lençóis estendidos no varal cheiravam a polenta. Os vizinhos cheiravam a polenta. Minha infância foi uma espécie de puxadinho de cantina devido à alimentação canina. Os dois cockers viviam confinados a um mesmo cardápio, a se embuchar eternamente com o prato italiano. Seus latidos já tinham sotaque.

A mãe realizava a tarefa a cada 15 dias. Congelava marmitas e ia dando um pouco por dia. A polenta caía inteira, quadrada do pote para as gamelas. Os cachorros não festejavam o almoço e a janta, sequer abanavam o rabo. Aproximavam-se da refeição com resignação. Deveriam estar enfarados do odor, do sabor e da falta de originalidade.

Nossos cachorros sonhavam com bifes, com picanha, com o osso da costela. Até que adotamos um vira-lata com manchas amarelas. Ele apareceu em nossa porta pedindo comida, tonto, perdido, triste e sarnento. Logo pensamos que ele seria o antídoto para acabar com o menu monotemático, a virada de mesa, o vento da mudança, a alegria, e o batizamos de Polenta.

Explicamos para a mãe que o Polenta não poderia comer polenta. Seria uma crise na sua personalidade. Imagine o brado materno servindo a comidinha: "olha a polenta!". E o Polenta viria faceiro, achando que ela o chamava.

Nossa alegação surtiu efeito. Foi assim, com muito empenho, que meus irmãos e eu convencemos a mãe a acabar com a tortura que lotava o congelador, maltratava o estômago e a pelagem dos animais e enjoava a tripulação.

Reunimos nossas economias, quebramos os porquinhos e rateamos um saco gigante de ração. Comemoramos a modernização com uma fotografia festiva: os cockers lambendo com gosto o rosto do Polenta, seu salvador.

CARPINEJAR

13 DE JANEIRO DE 2024
FLÁVIO TAVARES

OS ANOS INTERMINÁVEIS

Alguns anos não terminam em 31 de dezembro. O ano de 2013, por exemplo, ainda se arrasta tal qual serpente faminta, como naquela madrugada de 27 de janeiro, em que 242 jovens morreram e outros 636 ficaram com sequelas devido ao incêndio da boate Kiss, em Santa Maria. Basta relembrar o episódio para defini-lo como funesto, mas o horror vai além.

O crime permanece impune 10 anos depois, com o que tudo se agrava e leva até a descrer nas instituições da Justiça. Sim, pois não se tratou de um "acidente", mas de um crime que reuniu cobiça, desídia, truculência e desrespeito à própria condição humana. Para atrair público, a boate contratou uma banda que se exibia com fogo. Quando o incêndio começou, os "seguranças" impediram que os assistentes fugissem, alegando que "faltava pagar a conta". 0s cifrões valiam mais do que a vida?

Após minuciosa investigação policial, o Ministério Público atenuou o inquérito e dele retirou alguns dos aparentemente implicados. Logo, Santa Maria foi declarada sem condições psicossociais para julgar o crime, e o júri se fez em 2021 na capital do Estado.

O proprietário da boate Elissandro Spohr foi condenado a 22 anos e seis meses em regime fechado e seu sócio, Mauro Hoffmann, à pena de 19 anos. Dois membros da banda incendiária, Marcelo dos Santos e Luciano Leão, foram sentenciados a 18 anos.

O júri, porém, foi anulado por irregularidades meramente formais pelo Tribunal de Justiça. Em Brasília, o Tribunal Superior de Justiça confirmou a anulação. O novo júri está marcado para 26 de fevereiro deste 2024.

Se não houver novas protelações, irão se passar 11 anos para que se faça justiça - e não por vingança, mas unicamente para que o horror não se repita.

O ano de 2023 foi o mais quente já registrado, segundo concluíram os prestigiosos Observatório Copernicus e o Imperial College de Londres. A previsão é de que a crise climática se agrave em 2024 e, no ano seguinte, atinja seu ponto máximo, apenas 0,2ºC abaixo do que a ciência considera como fatal.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

13 DE JANEIRO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

APOIO DESASTRADO

Sob a orientação ideológica e equivocada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a diplomacia brasileira voltou a afrontar a realidade e o bom senso na última quarta-feira ao divulgar nota de apoio à ação apresentada pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça. O governo sul-africano pede que o tribunal declare que Israel violou, no conflito contra o grupo terrorista Hamas, obrigações previstas na Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. Poucos países no mundo têm enfoque semelhante sobre a reação israelense ao maior ataque ao povo judeu desde o Holocausto.

No que se refere ao Brasil, é lamentável que o Itamaraty se veja constrangido a adotar um posicionamento demagógico que contraria os princípios tradicionais de equilíbrio e moderação da política externa brasileira. Infelizmente, não é a primeira vez que o presidente da República interfere de maneira desastrada em questões que deveriam ficar restritas à diplomacia.

Foi assim na sua manifestação sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, quando sugeriu que o país agredido deveria ceder algum território ao invasor como forma de acabar com o conflito. Foi assim na sua inacreditável defesa do autocrata Nicolás Maduro durante a reunião de cúpula dos países da América do Sul, em maio de 2023, ocasião em que afirmou haver preconceito contra a política venezuelana. Por conta disso, foi acusado pelos presidentes do Uruguai, o conservador Lacalle Pou, e do Chile, o esquerdista Gabriel Boric, de fazer vistas grossas às violações dos direitos humanos na Venezuela.

A visão ambígua do presidente brasileiro sobre questões externas mais complexas, quase sempre contaminada pelo antiamericanismo infatojuvenil de seus correligionários mais radicais, vem comprometendo a imagem do Brasil como protagonista do multilateralismo. Sua inaptidão para compreender a natureza dos conflitos geopolíticos mundiais fica visível em cada participação em eventos internacionais. Tanto que durante a cúpula ambiental em Paris, no ano passado, o jornal Liberation - reconhecido como progressista - classificou o brasileiro como "um falso amigo do Ocidente".

O personalismo de Lula e sua já extensa coleção de gafes no Exterior deixam a impressão de que o atual governo não tem uma visão estratégica de enfrentamento dos desafios globais. Sobram manifestações ideológicas e lugares comuns, mas falta uma política externa consistente, que represente o país na sua totalidade e não apenas a visão confusa de quem eventualmente ocupa o poder.

Nesse contexto, o precipitado apoio do governo brasileiro à descabida ação sul-africana contra Israel desconsidera o fato de os terroristas do Hamas estarem transformando civis palestinos em escudos humanos, com o propósito deliberado de usar as mortes de inocentes para manipular a opinião pública mundial. É evidente a intenção de inverter a realidade por parte dos agressores que desencadearam o atual conflito ao invadir o território israelense e cometer atrocidades inomináveis, que, agora, são estrategicamente ignoradas por criminosos travestidos de vítimas e seus insensatos apoiadores.


13 DE JANEIRO DE 2024
ROTA DA PRAIA

O que explica a tranqueira crônica

Congestionamentos no verão podem estar mais relacionados às decisões dos motoristas do que a questões estruturais

Ano após ano, um cenário se repete nas rodovias gaúchas que levam ao Litoral: em um alinhamento que parece ensaiado, veículos se enfileiram como formigas, em uma formação que pode ocupar quilômetros e durar horas. Especialistas ouvidos por Zero Hora apontam que os congestionamentos estão mais relacionados a decisões dos motoristas do que a problemas estruturais. Por isso, defendem campanhas educativas e mais informação, para que os condutores possam planejar suas viagens.

No segundo dia de 2024, uma terça-feira, o comerciante Carlos Prima, 46 anos, decidiu pegar a estrada por volta das 15h com a família de Imbé em direção a Porto Alegre. O tempo da viagem, que em dias normais seria de duas horas, quase duplicou.

- Foi um "arranca e para" sem fim - contou.

A data escolhida por Prima para o retorno foi justamente a de maior movimento em um único dia na freeway: 117 mil veículos, segundo a concessionária CCR ViaSul. Até então, o maior fluxo registrado era de 115,5 mil, no início de 2023. O fluxo intenso se repetiu na semana seguinte.

- Com as condições de tempo favoráveis, a tendência é de que as pessoas queiram aproveitar mais o sol no mar e retardem ao máximo o retorno para a Região Metropolitana. E muitos fazendo isso ao mesmo tempo causam lentidão no trânsito nas estradas - aponta o coronel Rogério Martins, à frente do Comando Rodoviário da Brigada Militar (CRBM).

Experiente em áreas ligadas a segurança viária, projeto e construção de rodovias, pavimentação e estudos de tráfego, o engenheiro civil João Fortini Albano afirma que o problema é "mais uma questão individual":

- É preciso haver mais planejamento das viagens e paciência, distribuindo melhor os veículos em horários distintos.

Segundo ele, os motoristas acabam escolhendo os mesmos momentos para retornar, em especial entre as noites de domingo e as manhãs de segunda-feira:

- Já é tradicional, em todos os verões, lotarmos as praias, por passarmos o ano todo com clima inadequado. O veraneio se torna uma religião para nós. O movimento é mais forte na volta, quando o pessoal fica no mar até o último momento de sol.

CHRISTIAN BUELLER


13 DE JANEIRO DE 2024
ACERTO DE CONTAS

Falências saltam 51% no RS

O Rio Grande do Sul fechou 2023 com o registro de 50 falências de empresas. Isso representa um aumento de 51,5% sobre os registros do ano anterior, quando foram 33 ocorrências.

Já era prevista a elevação. Muitos negócios estavam com alto endividamento, agravado pelo cenário de juro alto. O início de 2023 ainda trouxe uma economia bastante travada, em parte com o receio pelo resultado da eleição nacional, mas também por um mercado de crédito retraído, inclusive pelo rombo contábil na Americanas. Os indicadores melhoraram no segundo semestre, mas algumas empresas não tiveram fôlego para esperar.

Apesar da elevação, não é um número recorde. Longe disso, aliás. Segundo o monitoramento da Junta Comercial, outros anos tiveram mais falências. Em 2019, por exemplo, foram 92 registros.

Recuperação judicial

Mecanismo usado por empresas para evitar a falência, as recuperações judiciais tiveram um salto ainda maior. Foram 110 casos no Rio Grande do Sul, mais do que dobrando os 47 registros de 2022. A coluna percebe que, além do cenário econômico, mudou a forma como os empresários enxergam a ferramenta, recorrendo a ela com mais frequência. Antes, o receio e até a vergonha faziam com que as empresas não cogitassem ou deixassem esse mecanismo para a última hora, quando o negócio já estava quase quebrando. É provável que tenhamos mais casos de empresas que consigam reestruturar as finanças e sair da recuperação judicial.

Troca de sede no Vale do Sinos

Empresa que vende compressores de ar fabricados pela norte-americana Ingersoll Rand, e com clientes como Petrobras e John Deere, a PNX Ar Comprimido está transferindo a sede de Novo Hamburgo para São Leopoldo após 25 anos no local. O investimento é de R$ 1,5 milhão, valor baixo porque aproveita a estrutura deixada pela indústria química Lanxess, que esteve no espaço por três décadas. Com a mudança, a PNX passa a ter o dobro de área para o negócio, com 1,5 mil metros quadrados, conta o gestor administrativo da empresa, Nicolas Freitag. Os prédios anteriores serão vendidos ou alugados. Criada em 1992, a PNX também tem unidades em Santa Catarina e no Paraná.

RONALDO BEBER CEO da Gramado Parks

Dona de grandes empreendimentos, como os famosos parques Snowland e Acquamotion, a Gramado Parks está em recuperação judicial, com dívidas dentro e fora do processo, que passam de R$ 1 bilhão. Para a reestruturação, foi contratado o CEO Ronaldo Beber, que deu entrevista ao Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha.

Qual a negociação com credores, principalmente o maior, que é a Fortesec?

Todos os credores são importantes e estamos apresentando números operacionais animadores, com público recorde nos parques e na hotelaria. Houve um acordo societário. Alguns fundadores passaram ao conselho, focados no longo prazo, e eu assumi com a diretoria uma função operacional.

Afeta a operação dos parques e hotéis?

Não, a operação continua firme. Não podemos perder o foco no cliente. Vamos entregar aquilo que prometemos, atrações inovadoras e hospitalidade.

E a entrega para quem comprou imóveis?

Estamos 100% comprometidos nas renegociações para cumprir prazos. Não temos nenhum empreendimento com risco grande de não acontecer, pelo contrário. Algumas obras foram suspensas, mas já ocorre a retomada. De resorts, temos obra em Foz do Iguaçu (PR) e Carneiros (AL). Em Gramado, temos um lançamento.

Aumentou a inadimplência no modelo de multipropriedades?

A Gramado Parks não sofreu tanto. Há taxas um pouco mais altas de distratos, o que é natural pela venda mais agressiva e algumas vezes focada na emoção. O cliente entende o negócio da empresa e tem uma adimplência maior. Nossas taxas de inadimplência e distrato, felizmente, vêm reduzindo exponencialmente.

gIANE GUERRA

Plano opõe as metades norte e sul do Estado

Defendido por empresários da Serra e visto como trampolim para o desenvolvimento pela prefeitura de Arroio do Sal, o plano de se construir um porto no Litoral Norte também enfrenta contestações no Rio Grande do Sul. Os questionamentos mais veementes vêm da Metade Sul - principalmente de Rio Grande, onde fica hoje o principal porto gaúcho.

Um dos temores é de que, em vez de atrair carga de outros Estados, o Meridional comprometa a sustentação dos três embarcadouros existentes hoje no Estado por meio de uma competição interna. Empresários de Caxias do Sul, de outra parte, estão entre os principais entusiastas da ideia por entenderem que uma nova estrutura na Metade Norte aumentaria a competitividade do Estado em relação a locais como Santa Catarina, que conta com cinco portos litorâneos de maior porte.

- A engenharia permite qualquer coisa, mas vejo dificuldades enormes envolvendo esse projeto do Porto Meridional. Não tem acesso (viário) e envolve questão ambiental extremamente complexa. Seria muito melhor olhar para o porto de Rio Grande e atender às necessidades que ele tem - diz o presidente da Câmara de Comércio do município e do Tecon Rio Grande, Paulo Bertinetti.

Cristiano Klinger, presidente da Portos RS, empresa pública que administra unidades em Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, sustenta que, em menos de dois anos, foram aplicados ou contratados investimentos de R$ 350 milhões para o sistema portuário existente hoje no Estado - que considera bem estruturado para dar conta da demanda atual:

- Nosso complexo inclui três portos públicos, nove terminais arrendados e 22 privados. Quando falamos em escoar nossa produção, Rio Grande dá conta e ainda há espaço para incremento. Temos investimentos públicos e privados para dar conta desse crescimento.

Captação

Estudo feito a pedido da Portos RS e encaminhado à Antaq aponta, com base em dados da própria Meridional, que Arroio do Sal poderia captar 30% da carga direcionada atualmente a Rio Grande, 25% do volume de Pelotas e 75% da fatia destinada à Capital

Sobre os aspectos ambientais, o professor do Instituto de Biociências da UFRGS e membro da coordenação do Instituto Ingá, Paulo Brack, diz que há riscos:

- Há uma tremenda preocupação ambiental, tanto pela preservação de animais marinhos como baleias e golfinhos que circulam pela região, quanto pela ameaça a uma zona costeira que é muito sensível e tem espécies ameaçadas. Achamos que aquela área, de mar aberto, não tem vocação para porto. É preciso trazer muita rocha para fazer um píer. 


13 DE JANEIRO DE 2024
POLÍTICA +

Piratini planeja construir condomínios para idosos

Está sendo gestado pelo governo do Rio Grande do Sul um programa inédito de construção de moradias a pessoas idosas de baixa renda. A iniciativa será executada em parceria com as prefeituras e almeja combater o déficit habitacional nessa faixa da população.

Por meio da Secretaria de Habitação e Regularização Fundiária (Sehab), o governo estadual financiará a construção de condomínios residenciais voltados a pessoas com mais de 60 anos que hoje vivem em situação de vulnerabilidade social.

Aos municípios, caberá ceder a área em que ficarão os imóveis e entrar com contrapartida de ao menos 30% do custo do projeto. As prefeituras também serão responsáveis pela licitação e fiscalização da obra, pela administração do condomínio e pela seleção dos moradores.

A ocupação das residências será pelo sistema de permissão de uso. Ou seja, as habitações serão propriedades do poder público, nas quais os idosos vão morar gratuitamente pelo tempo que precisarem. Quando o lugar for desocupado, a prefeitura abrirá vaga para um novo morador.

Um projeto-piloto está sendo encaminhado em parceria com o município de Tupanciretã, no centro do Estado, e servirá de modelo para as futuras parcerias. Na cidade da Região Central, será erguido um condomínio com 47 casas, no qual a prefeitura incluirá equipamentos de uso comum, como área de lazer, academia ao ar livre, ambulatório e centro de convivência.

O lançamento oficial do programa deve ocorrer nas próximas semanas. O secretário estadual de Habitação, Carlos Gomes, quer deixar tudo pronto ainda no primeiro trimestre do ano, para que os convênios sejam assinados em 2024. Como se trata de ano eleitoral, o Estado não pode firmar novos acordos para repassar recursos às prefeituras.

- A partir desse projeto-piloto, queremos configurar o programa para que ainda neste ano ele possa eclodir em outros municípios, em que os prefeitos viabilizem a contrapartida e o terreno - afirma Gomes.

PAULO EGÍDIO INTERINO

13 DE JANEIRO DE 2024
MARCELO RECH

Olho na ilha

As eleições deste sábado em uma ilha de 24 milhões de habitantes e pouco maior do que Alagoas são a segunda mais importante de 2024 - só ficam atrás das dos EUA quanto ao impacto no resto do mundo, Brasil inclusive. Os 19,3 milhões de eleitores que elegerão o novo presidente e o congresso de Taiwan definirão, em última análise, o grau de autonomia da ilha e, por consequência, como a China reagirá ao que considera uma província rebelde que promete reanexar, se preciso à força.

Fosse apenas isso, estaríamos diante de um conflito regional de alcance limitado. Mas não. De um lado, Taiwan é o símbolo de um mundo polarizado. A ilha é uma sólida democracia, com um dos mais altos índices de liberdade de imprensa da Terra e respeito a minorias. De outro lado, a China puxa o trem dos regimes autocráticos, com Rússia a bordo e Índia com um pé no estribo. Seus poderios azeitam acordos diplomáticos e fecham olhos a violências internas e ao rolo compressor externo.

O caldeirão não é atiçado só pela relevância da ilha na contenção de Pequim. Coreia do Sul, Japão, Filipinas e Austrália, que sentem de alguma forma o assédio chinês, acompanham a eleição com interesse máximo. O resto do mundo, que depende de chips de alta tecnologia para quase tudo - de celulares 5G a armas de última geração -, perscrutará a reação chinesa com respiração suspensa. Uma só empresa de Taiwan, a TSMC, produz sozinha mais da metade dos chips mais avançados do planeta, cruciais para a inteligência artificial. Uma paralisação na produção ou um cerco à ilha causariam um desastre econômico global maior do que a interrupção da venda de óleo e gás e russos.

Dos principais candidatos, o favorito é exatamente aquele que defende maior autonomia da ilha, o atual vice-presidente, William Lai Ching-te. Encontrei-o rapidamente em Taipei, a capital, em junho passado. "Temos de trazer o futebol brasileiro para Taiwan", disse-me ele, em tom de brincadeira. Dado o recente histórico da Seleção, é melhor buscar outros fornecedores por enquanto. 

Nem de brincadeira qualquer dos candidatos a presidente ousa propor independência formal, mas a realidade é que boa parte do eleitorado desenvolveu uma identidade própria, muito mais ocidentalizada, e nem quer ouvir falar em Taiwan ser reabsorvida pelo gigante do continente. Taiwan foi cedida pela China ao Japão ao fim da guerra de 1895. Com a derrota japonesa na Segunda Guerra e o avanço comunista, a ilha se tornou refúgio dos opositores do regime, com Chiang Kai-shek à frente. 

Desde então, Taiwan é protegida pelos EUA. No momento, fora incursões rotineiras ao espaço aéreo taiwanês, a ofensiva chinesa se dá com fake news e ameaças que buscam influenciar as eleições. Com a abertura das urnas, o jogo político e militar poderá ficar ainda mais pesado. É bom cruzar os dedos por aqui também.

MARCELO RECH

sábado, 6 de janeiro de 2024


Trabalho de parto

Para os homens, soa apavorante. Para mulheres que nunca pariram, mas pretendem um dia, é uma inquietação anunciada. Mas não há motivo para pânico, a dor é diluída no êxtase.

Está acontecendo: homens e mulheres do mundo inteiro estão em um trabalho de parto coletivo. É chato, dolorido, dá vontade de desistir no meio, mas não se interrompe um processo em curso, um nascimento tão aguardado. Um novo mundo foi gestado e está aí, chegando. Já começou a despontar. A cabeça já está para fora. Não há como retornar. O que precisamos fazer agora, juntos, é colocar mais pressão, dar mais estímulo, até que possamos celebrar: ufa, conseguimos.

Nunca é uma travessia fácil. De uma sociedade machista para uma sociedade mais igualitária: estamos a caminho. Mulheres e homens com os mesmos direitos, as mesmas oportunidades, sem que isso gere insegurança, sem que eles recorram ao ímpeto selvagem de matar suas namoradas e esposas caso elas deixem de amá-los. Estamos cada dia mais perto. Força!

Um mundo em que ser negro, pardo, branco, magro, gordo, velho ou moço não altere o tratamento que se recebe da polícia, no hospital ou na entrevista de emprego. Julgar pela aparência, pela cor e pela idade é coisa do passado. Chegamos até aqui. Há dilatação suficiente. Falta só mais um pouquinho.

Um mundo mais consciente sobre a necessidade de cuidarmos da nossa saúde mental e física. Em que ansiedade, depressões e demais distúrbios não sejam menosprezados, e que todos combatam o sedentarismo, seja caminhando, dançando, praticando um esporte ou treinando num parque ou academia. Respire fundo. Estamos quase lá.

A transição do mundo analógico para o digital é um cordão enrolado no pescoço, hora de ter cuidado: muita gente está seduzida pela fragmentação dos contatos, pelos estilhaços de notícias. As reflexões profundas lutam para sobreviver neste universo caleidoscópico. Nada voltará a ser como antes, é preciso se habituar com a tecnologia, fazer bom uso dela, mas sem deixar que a desinformação substitua o conhecimento. É o conhecimento que nos forma, independentemente da ferramenta.

Este mundo novo que foi tão desejado é o lugar em que nossos netos e bisnetos viverão: mantenhamos o otimismo possível. Tem dado um trabalhão parir uma era em que haja mais consciência ambiental e social. Não é fácil dar à luz um universo livre de preconceitos, menos embrutecido e menos tenso diante de diferenças que, afinal, nunca fizeram mal a ninguém. Estamos esgotados, mas nos esforcemos mais um pouco, lutemos por esta sociedade moderna, menos consumista e mais espiritualizada, que precisa, finalmente, nascer. Ela está com metade do corpo em nossas mãos e já dá para ver a lindeza que será.

MARTHA MEDEIROS 


06 DE JANEIRO DE 2024
CLAUDIA TAJES

Grana ao mar

E esses cruzeiros que estão em alta, três dias pelo preço de dois confortáveis meses no litoral gaúcho - desde que a leitora e o leitor não façam questão de veranear nos condomínios de supermegaluxo das nossas praias, claro.

O mais falado do final de 2023 foi o do Ney (em alto) mar, ideia de algum gênio do marketing que viu no trocadilho a possibilidade de ganhar milhões de reais com a imagem do Adulto Ney.

E ganhou.

A opção mais barata do cruzeiro, cabine interna sem janela, custava R$ 13.120 para duas pessoas no primeiro lote. Entre outras opções, era possível comprar a cabine externa com janela quádrupla a partir de R$ 27.840, e a cabine externa com varanda, com preços variando entre R$ 16.520 e R$ 30.240, valores para um passeio de três dias pela rota Santos-Búzios-Santos.

A propaganda que conquistou quatro mil passageiros para a aventura usou e abusou de atrativos que fariam muita gente correr para o lado contrário. Bem, estou falando por mim, mas eu não era o público-alvo mesmo, a disposição para entrar no elefante-marinho branco ainda menor que os meus recursos. Vejamos:

. 72 horas de ousadia e alegria com um dos maiores ídolos do futebol.

. Navio com design clássico e ao mesmo tempo moderno, tal como Neymar Jr. em campo.

. Celebre o momento lendário comprando o copo Stanley do Neymar.

E etc.

O navio MSC Preziosa, com 18 andares, tinha parque aquático com o maior tobogã dos sete mares, cassino, spa, cinema, academia, bares, restaurantes, tudo em grandes proporções, sem falar nas diversas pistas para baladeiros e festeiros. Vendo a lista de shows que contava até com os Mamonas Assassinas - e como a propaganda não informava se tratar de cover, dá para deduzir que era uma banda de médiuns -, confirmo que estou por fora das últimas tendências das paradas. E assim quero permanecer.

Faço parte da parcela de brasileiros que não tem a menor simpatia pelo Neymar Jr., recentemente agraciado com a medalha de Imorrível, Imbrochável e Incomível por aquele ex-presidente, você sabe qual. Ganhando os tubos no Al-Hilal da Arábia Saudita, de molho por seis meses para se recuperar de uma cirurgia no joelho esquerdo, talvez ele caminhe - no momento, de muletas - para uma aposentadoria precoce. Dinheiro não há de faltar para as próximas gerações neymaras.

Com quatro mil pessoas confinadas em alto mar, não poderiam faltar barracos e reclamações. Logo as redes sociais ficaram cheias de queixas de quem pagou muito e estava insatisfeito com a qualidade da comida e dos serviços. Pior: o cruzeiro seria impróprio para menores, diziam alguns, apesar de ter arrebanhado uma horda de crianças para ver seu ídolo de perto. O que nem chegou a acontecer. A presença de Neymar teria sido privilégio de amigos e vips, e sempre com proteção no padrão celebridade internacional. Mais fácil pedir autógrafo para os rapagões da segurança.

De volta ao porto de Santos, Neymar Jr. deu uma declaração daquelas que os jogadores dão ao final de uma partida não exatamente feliz: fiz o máximo que pude. Ele foi para sua mansão e o MCS Preziosa partiu lotado outra vez, com novas tretas que é até melhor deixar para lá nesse começo de ano.

Quanto a nós, seguimos em terra firme e já ralando. Pode ser um pensamento pobre, mas sabe que eu prefiro?

CLAUDIA TAJES


06 DE JANEIRO DE 2024
SEXO

Rir e gozar, é só começar

Reações peculiares como gargalhar e espirrar após o orgasmo podem estar ligadas ao próprio funcionamento do organismo humano

Chegar ao ápice no sexo pode acabar desencadeando reações inesperadas. Depois de atingir o orgasmo, há quem seja surpreendida por uma gargalhada, um espirro e até mesmo por uma crise de choro, sem motivo aparente.

- Os seres humanos são diversos e, portanto, reagem de formas diferentes a situações semelhantes. As reações ao orgasmo são um tema sobre o qual as pessoas pouco falam, mas se perguntam "será que é só comigo que acontece isso?". Não é - afirma a psicóloga e sexóloga Maria Flávia Schroeder.

O assunto veio à tona na voz da atriz Carla Diaz. Durante um episódio do seu podcast, DiazOn, ela revelou à sexóloga Laura Müller que já chorou ao "chegar lá" e que isso a deixou preocupada.

- Já aconteceu comigo mais de uma vez, e aí eu lembro que a primeira vez que aconteceu me assustei na hora. Fui pesquisar - relatou a artista de 33 anos.

As reações "peculiares" ao prazer não têm nada de anormal e tendem a estar ligadas ao próprio funcionamento do organismo. Conforme explica a ginecologista e sexóloga Fernanda Grossi, quando o orgasmo ocorre, há a liberação de endorfinas e neurotransmissores como a dopamina, a adrenalina e a ocitocina, substâncias que atuam sobre o sistema nervoso e determinam sensações de prazer, euforia, relaxamento e bem-estar.

- Reações intensas como choro, risadas, espirros e outras podem acontecer como resultado da liberação desses neurotransmissores. No caso do choro, também pode estar relacionado a sentimentos de culpa e não necessariamente como consequência do orgasmo em si - explica Fernanda.

O orgasmo também pode fazer com que algumas reações e emoções que estavam "contidas" venham à tona, explica a sexóloga Maria Flávia Schroeder. Mas esta não é uma regra e, portanto, nem todo choro é necessariamente causado por alguma tristeza ou alegria.

LETÍCIA PALUDO