Aconteceu em Santa Rosa
"Sem pressa, foi cada um pro seu lado pensando numa mulher, ou num time."
Na terra em que nasceu e viveu, ninguém noticiou sua partida, na última segunda-feira. Nem a longa melancolia que foi devorando, aos poucos, a sua vontade de viver. E assim, sob um silêncio de amém, como cantou João Bosco em De Frente pro Crime, Seu Ronaldo Edison Richard morreu do coração, como se costuma dizer na sua Santa Rosa.
E de desgosto, por certo, ante a indiferença dos circunstantes. Perseguido por crimes que não cometeu, viu-se, aos 63 anos, indefeso diante da brutalidade de um aparato judicial tirânico.
Em janeiro de 2024, a Polícia Federal esteve na casa de Seu Ronaldo, em Santa Rosa. Recolheu e vasculhou seu telefone. Ele não tinha estado em Brasília nos atos de janeiro de 2023, mas era preciso achar algo, qualquer coisa, para alimentar a sanha dos inquéritos de Alexandre de Moraes. A diligência encontrou mensagens em que o idoso ajudava a reunir pessoas para a locação de um ônibus com destino à capital federal, e custeou a passagem de um manifestante. Isso era tudo.
Na verdade, era nada. Mas a Procuradoria-Geral da República, que até hoje não viu razão para abertura de inquérito contra Moraes pelas ligações milionárias com o liquidado Banco Master, foi implacável com Seu Ronaldo. Enquadrou o idoso como "financiador" de sabe-se-lá-o-quê e o denunciou por cinco crimes: associação criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.
Moraes, o carrasco da liberdade de imprensa e de tantas outras garantias constitucionais, estava pronto para sentenciar Seu Ronaldo, que já estava com seus bens bloqueados. A morte abreviou a excruciante espera por uma pena descabida. "O Brasil ainda vive as conseqüências de um 8 de janeiro que parece não ter acabado", disse Ana Maria Cemin, a jornalista gaúcha que se tornou voz essencial na denunciação do arbítrio e da perversidade da juristocracia brasileira.
"Três anos e meio depois, já são 11 mortos. Vidas atravessadas por medidas extremas, processos longos, restrições severas e uma máquina estatal que não recuou - nem diante da fragilidade humana."
A propósito: a lei da dosimetria de penas, tímida correção dos abusos praticados pelo STF, foi promulgada pelo Congresso Nacional há 98 dias. Um único homem, Alexandre de Moraes, engavetou a lei, sob o silêncio cúmplice ou indiferente de quem tem o poder institucional para detê-lo. Mas... instituições? Que instituições? Como escreveu a jornalista norte-americana Mary Anastasia O?Grady no Wall Street Journal, houve, sim, um golpe de Estado no Brasil. Mas quem o promoveu foi a própria Suprema Corte brasileira. _

Nenhum comentário:
Postar um comentário