
Vencer, humilhar, pisotear
O Brasil experimenta um fenômeno curioso: os vencedores da eleição também não parecem dispostos a aceitar o resultado. Ganharam, mas continuam querendo derrotar quem perdeu. E derrotar de novo. E mais uma vez. Até quando? Até o sujeito pedir desculpas pela ousadia de ter votado em quem quis? Até ele virar a casaca e passar para o outro lado? Ou até aprender a ficar de boca fechada e nunca mais dizer o que pensa?
É o que ocorre com o cantor Jorge, da dupla Jorge & Mateus, que cometeu a inconveniência de apoiar Flávio Bolsonaro. Depois de uma onda de protestos nas redes sociais, seus shows de Réveillon foram cancelados pelas prefeituras de Fortaleza e Recife. O prefeito Victor Marques (PCdoB), do Recife, explicou que a virada do ano é um momento de união e fraternidade e que, portanto, não havia mais clima para a apresentação. Uma forma intrigante de promover a união: decidindo quem fica de fora.
Ainda mais intrigante é que, dias atrás, a esquerda se horrorizava com as listas de boicote contra comerciantes que teriam votado em Lula. Com toda a razão. Mas, quando o boicotado é um artista que apoiou Flávio, aí a conversa muda: veja bem, não se pode comparar, isso é falsa simetria, os candidatos são diferentes, blá-blá-blá. Claro que são diferentes, e daí? Desde quando isso autoriza tratar seus eleitores como cidadãos de categorias distintas?
Democracia é justamente o regime em que as pessoas, mesmo discordando, dividem o mesmo país sem ficar tentando expulsar o vizinho. O eleitor que perdeu uma eleição já recebeu sua punição: ter perdido. E ponto final. Qualquer tentativa de sabotá-lo por pensar de outra forma sempre terá uma inclinação fascistoide. Inclusive entre aqueles que juram combater o fascismo.
Porque é uma lógica central no ideário fascista: a de que certos grupos representam uma ameaça moral à comunidade. E, sendo uma ameaça, não há por que tratá-los como iguais. Ou seja, primeiro transforma-se o adversário em alguém essencialmente mau. Depois, excluí-lo deixa de parecer uma injustiça para parecer o contrário: justo, merecido - e até necessário para "purificar" o convívio em sociedade.
Não dá para avançar assim. A esquerda precisa aceitar que milhões de brasileiros continuarão pensando como Jorge. E a direita precisa aceitar que milhões seguirão pensando como os comerciantes que votaram em Lula. Nenhum dos grupos vai desaparecer, portanto a questão é simples: vamos passar quatro anos infernizando a vida uns dos outros, ou vamos aceitar que temos um país para compartilhar? De que adianta derrotar o adversário nas urnas se tratamos a existência dele como derrota nossa? _
PAULO GERMANO
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