sábado, 8 de novembro de 2025


O falso dilema sobre as facções

Ainda estamos a um ano de saber quem será o próximo presidente da República, mas o tema que vai sobressair na campanha já está bem delineado. Pesquisa após pesquisa, a saúde deixou o topo das preocupações do brasileiro e foi substituída por segurança. Não surpreende, porque a epidemia do crime se expandiu industrialmente, fixou territórios próprios e agora se infiltra no tecido econômico e institucional do Brasil.

Com o gongo da segurança soando na campanha eleitoral, a luta livre ideológica mandou cada contendor para seu corner. De um lado, a esquerda e o discurso de que o crime organizado se combate com inteligência e asfixia financeira. De outro, a direita, que apregoa a força bruta para devolver a paz aos brasileiros. É um falso duelo que só serve ao discurso político. Pela dimensão e características do crime organizado, não se trata de inteligência OU força, mas de inteligência E força, quando necessária.

No caso de facções como o PCC, convertido em corporação empresarial criminosa, é imprescindível que se fechem as torneiras do fluxo financeiro ilícito. Portanto, é urgente mesmo o Banco Central apertar as fintechs, a Receita Federal vigiar os Pix suspeitos e acabar de uma vez com a farra dos devedores contumazes, empresas que abrem e fecham com foco na sonegação e lavam a bijuja do crime. Ou seja, liquidar com os PCCs da vida exige um tanto de força, mas muita inteligência e instrumentos legais que estanquem o dinheiro sujo.

No caso de facções como o Comando Vermelho, que se adonam de territórios urbanos para transformá-los em entrepostos da droga e extorquir moradores, é preciso, sim, inteligência, mas não há como desalojá-las sem uma força armada capaz de enfrentar um exército criminoso municiado com fuzis, drones e granadas. Áreas como os complexos do Alemão e da Penha, no Rio, já não fazem mais parte do Estado brasileiro. Estão sob jugo de uma organização que estabeleceu fronteiras, bloqueadas por barricadas que só podem ser transpostas por quem é autorizado pela autoridade do pedaço.

Esses territórios têm leis próprias, com pena de morte para delatores, devedores e quem comete crimes não autorizados, e forças bélicas com milhares de fuzis. Há muito, a solução para situações do gênero passou a exigir também ações militares, com inevitáveis confrontos que devem restabelecer a soberania do Brasil, com a consequente ocupação de tais áreas e a liberação da população civil.

Como em todo conflito armado, não há cenas bonitas, mas é preciso obedecer às leis da guerra: oferecer rendição primeiro e, quando feitos prisioneiros, não torturá-los ou executá-los. Se, em vez de rendição, houver resistência, sai vitorioso o que tiver melhor estratégia e mais poder de fogo. Espera-se que ainda sejam as forças da lei. _

MARCELO RECH 


08 de Novembro de 2025
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Opinião RBS

Entre a desconfiança e a esperança

A COP30, em Belém (PA), começa oficialmente na segunda-feira sob um ceticismo que é apenas fruto dos resultados das conferências do clima anteriores. O histórico mostra governos concordando com a urgência de cortar as emissões de gases causadores do efeito estufa para frear o aquecimento do planeta, mas tergiversando quando são instados a implementar as ações necessárias como uma busca efetiva para diminuir a dependência de combustíveis fósseis. Os países ricos, provocados a financiar a transição energética nos emergentes, igualmente escapam de assumir esse compromisso.

O grande desafio da COP30, portanto, é fazer com que as nações que ao menos compreendem a gravidade da situação e se dizem dispostas a fazer a sua parte passem das palavras à execução. O desfecho do evento realizado no coração da Amazônia dirá se haverá outra frustração ou se será possível acordar um mapa do caminho para enfrentar de fato os temas mais inquietantes.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alertou, no início do mês, que é improvável alcançar a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C até o final do século, definida pelo Acordo de Paris, 10 anos atrás. O planeta, febril, se encaminha para um aumento da temperatura de até 2,5°C na comparação com a era pré-industrial. Os resultados podem ser catastróficos, como bem sabem os gaúchos, que ainda tentam se reerguer da enchente destruidora de maio do ano passado e veem estiagens recorrentes espalhar prejuízos.

Para superar a desconfiança e semear esperança, a COP30 precisaria ser finalizada com planos críveis formados por etapas bem definidas, prazos e metas. É preciso respostas sobre como viabilizar a diminuição paulatina do uso de combustíveis fósseis, como zerar o desmatamento das florestas tropicais, como estruturar mecanismos para nações em desenvolvimento financiarem a sua transição energética e como acelerar a adaptação para um clima que já mudou e, indica a ciência, tende a ficar mais hostil.

É pouco plausível, por exemplo, alcançar o financiamento de US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 que seria necessário para amparar as nações emergentes, conforme proposta das presidências da COP29, no Azerbaijão, e da COP30. Chegar a essa quantia monumental se torna mais improvável diante da postura dos EUA, país mais rico do mundo, que sob Donald Trump se afasta de qualquer compromisso climático. 

O próprio Brasil, que tenta ser um líder no tema, é pródigo em contradições. Prega a necessidade de o mundo se afastar dos combustíveis fósseis, mas renova as apostas na exploração do petróleo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que a matriz suja financiará a energia verde. Esse é um exemplo da dificuldade de harmonizar o discurso idealista com a vida real, diante de uma economia ainda muito dependente do petróleo. Parece ser promissor, por outro lado, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado pelo Brasil na quinta-feira, durante a cúpula de líderes, evento pré-COP.

Não são poucos ou banais os impasses que a COP30 precisa solucionar. Vencê-los dependerá, em primeiro lugar, da disposição dos países de estabelecer um ambiente de colaboração para agir em conjunto contra a crise climática. 


08 de Novembro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

RS protagonista da transição energética na COP30

Criada pelo governo do Estado para divulgar e alavancar o mercado gaúcho, a Invest-RS pretende apresentar o Rio Grande do Sul na COP-30 como protagonista na transição energética e na atração de investimentos voltados à sustentabilidade. Representantes da agência participarão de vários painéis em Belém, a partir de segunda-feira. O principal, na quarta-feira, será o lançamento do chamado Book de Oportunidades e Investimentos em Transição Energética. A publicação apresenta, de forma prática e estratégica, os principais projetos e potenciais de negócios no setor no RS.

Passado o momento da maior tragédia climática do Estado, a enchente de 2024, a Invest-RS tem buscado mostrar o Rio Grande do Sul como um ambiente competitivo, inovador e preparado para receber novos empreendimentos. Com esse propósito, um escritório da agência foi inaugurado em junho em São Paulo, na região da Faria Lima.

Em Belém, a ideia é estimular investimentos sustentáveis, que posicionem o Estado como referência nacional em descarbonização e inovação. A agência terá reuniões com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a AYA Earth Partners, o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e a Portos RS. _

Blue Zone e Green Zone

A COP30 é dividida em duas principais e tradicionais áreas: a Blue Zone (Zona Azul) e a Green Zone (Zona Verde).

A Blue Zone é conhecida como o centro diplomático da conferência e considerada o principal ambiente do evento, por ser onde são definidos os rumos da política climática internacional. Nela, circulam as principais autoridades e ocorrem as negociações oficiais, as sessões plenárias da Cúpula dos Líderes, reuniões multilaterais e os eventos de maior relevância.

Administrada pela UNFCCC (órgão da ONU responsável pela organização da COP), a Zona Azul tem acesso restrito a delegações oficiais, chefes de Estado e de governo e demais autoridades credenciadas. O local conta com salas de reunião, escritórios reservados, espaço de imprensa, pavilhões temáticos e ambientes diplomáticos.

Já a Green Zone é um espaço aberto ao público em geral, voltado para a sociedade civil, empresas, instituições e organizações não governamentais (ONGs). Seu objetivo é aproximar a população em geral do debate climático. Lá são realizadas palestras, feiras, shows, exposições, eventos culturais e outras atividades. Empresas privadas também apresentam seus cases e projetos voltados para o meio ambiente. _

Precisa ser efetivo

Ao sair da área restrita às delegações, na sexta-feira, na Cúpula dos Líderes, o ministro Wellington Dias, do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, conversou com a coluna sobre esses primeiros dias de eventos em Belém: _

Pergunta e resposta - Teremos uma COP30 resolutiva?

É um momento de decisões dramáticas para a humanidade. Temos de fazer uma escolha. O RS, por tudo que viveu, claramente, sofre os efeitos das mudanças do clima. Não é só no sul do Brasil, ela acontece na Amazônia. Lembro os incêndios no Centro-Oeste, enchentes, secas no Nordeste. Mas não é só no Brasil, é no mundo. A decisão, a declaração de Belém, precisa não só avançar nos termos, mas também nas condições de efetividade. Na prática, de modo simples: de onde vem o dinheiro para fazer todo o plano acontecer. É sobre isso. No Rio Grande do Sul, há o problema do excesso de chuva e da estiagem. Eu acompanho como ministro, já foram três ciclos de seca, com oito ciclos de enchentes, ciclones. Repito: há prejuízos não apenas sociais e econômicos, mas às vidas. Temos de tomar aqui uma decisão intergeracional.

Florestas de algodão

Durante um dos painéis na COP30, na semana que vem, a empresa apresentará o projeto inovador de "florestas de algodão", com manejo integrado: algodão, alimentos e árvores nativas. O sistema agroflorestal captura mais de 18 toneladas de carbono por hectare por ano. Para efeitos de comparação, um cultivo convencional emite cerca de 4,5 toneladas por hectare/ano. Ou seja, há diferença positiva relevante. _

Obras serão concluídas até segunda, diz governador

- Estou muito feliz de ver a satisfação das pessoas poderem conhecer a Amazônia e poderem viver essa experiência incrível - afirmou.

Perguntado se tudo ficará pronto a tempo do início da COP30, na segunda, uma vez que ainda há muitos locais da estrutura da conferência em obras, ele afirmou:

No âmbito da cidade, está tudo pronto. Todas as obras que foram planejadas, foram realizadas, executadas e entregues. A cidade está pronta para o evento, para receber todos aqueles que estarão nos visitando. No âmbito das estruturas modulares, o governo federal aponta que estarão todos concluídos até a segunda-feira. 

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 6 de novembro de 2025


 06 de Novembro de 2025
CARPINEJAR

Todo brasileiro é um pouco parente um do outro.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, na terça-feira, a segunda edição do levantamento de nomes mais frequentes no Brasil, com a novidade da inclusão do sobrenome.

Silva tem o reinado definitivo dos registros, mostrando-se presente na identificação de 16,76% da população. São 34 milhões de pessoas com o sobrenome em comum, dividindo os galhos da árvore genealógica. Na cidade de Belém de Maria, por exemplo, em Pernambuco, com 11 mil habitantes, 63,9% dos moradores são Silva. Só se lê Silva na lista de chamada da escola.

Minha esposa é Silva por parte de pai. Conheço bem a confusão que a sua difusão costuma provocar. Sei o quanto ela recebeu ligações a respeito de uma Beatriz Silva com pagamento atrasado que não era ela. Ou o quanto penou com a sua criatividade para cadastrar um e-mail que não tivesse sido usado. Ou o quanto abusou de underlines e números para entrar nas redes sociais.

Santos é o segundo colocado no ranking, com 21,4 milhões de pessoas (10,5% da população). Em terceiro, vem Oliveira. Em quarto, Souza. Em quinto, Pereira. Em sexto, Ferreira. Não é de se estranhar. Somos um país absolutamente religioso, devoto de Nossa Senhora. Sempre haverá uma Maria na família. Minha mãe é Maria, as irmãs do meu pai são Maria.

Trata-se do batismo mais recorrente, alcançando cerca de 12,3 milhões de pessoas em 2022 - o que representa 6,1% do total. Como se toda a população do Rio Grande do Sul fosse formada por Marias.

O mesmo acontece com José, numa carpintaria bíblica que segue fazendo seus sucessores: quase 5,2 milhões de habitantes (ou 2,5%). Os dois já lideravam o censo anterior, relativo a 2010, retomando, num engajamento carismático retrô, o pico da década de 1960. Não saímos do presépio.

Para evitar sósias, ser uma Clorina ou um Abelin é uma vantagem, um privilégio da singularidade.

Qualquer um pode pesquisar na plataforma e descobrir seus duplos pelo Brasil. Eu tenho 165 mil xarás pelo território nacional, o equivalente ao contingente populacional de Teresópolis (RJ). Fabrício se encontra na 198ª posição em popularidade. Não existe ameaça de epidemia. Estou num posto cômodo no ranking: nem tão célebre, nem tão anônimo. O que mais me agrada é a média de idade do meu nome: 28 anos. Vou pegá-la emprestada para mim.

Já o Nejar paterno apresenta 86 ocorrências. É possível reunir o meu povo inteiro num miniauditório. Corresponde a 10% do Carpi materno, que conta com 877 ocorrências e exige um teatro. Melhor ainda é inventar um sobrenome - como o meu, Carpinejar. Tenho certeza de que só há eu no mundo. Por enquanto. Talvez a gente viva pelo desejo de ver nosso nome em destaque. É a primeira coisa que aprendemos na classe: como escrevê-lo.

É o motivo da batalha inicial na gestação, da guerra sem fim dos pais por nossa causa: qual será o nome dele? Terá a cara de quem? É uma briga que levamos vida afora, defendendo a grafia em hotéis e a pronúncia em telefonemas e conversas. Não queremos que ninguém erre. Ficamos chateados, como se o lapso fosse um abominável descaso.

O nome é a nossa fé, a nossa solidão. Por mais que seja similar ao de alguém, a maneira de lidar com ele é única. 

CARPINEJAR

06 de Novembro de 2025
OPINIÃO - Opinião RBS

A angústia de estar na fila do SUS

O ano de 2025 foi mais uma vez pródigo em anúncios do poder público de programas, investimentos e mutirões para reduzir as filas de espera por atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A despeito das promessas, os números mostram que as ações propagandeadas não surtiram efeito. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pelo repórter Giovani Grizotti indicam que hoje, no Estado, existem 667 mil pedidos de consulta pendentes. Ao final de 2024, eram 670 mil. Uma redução ínfima, ainda mais levando-se em consideração os compromissos assumidos por governo federal, Piratini e prefeituras. As especialidades mais procuradas são oftalmologia e ortopedia.

Os relatos colhidos por Grizotti dos gaúchos de carne e osso por trás das estatísticas frias são dolorosos. Um aposentado aguarda desde 2021 consulta com um especialista em ouvidos. Teme ficar surdo antes de ser atendido. Outro caso é o de um cidadão que há sete anos espera para ser recebido por um médico especializado em tratamento bariátrico. Uma dona de casa sofre há dois anos sem ser chamada para o acompanhamento do filho com transtorno do espectro autista. Um paciente que precisa tratar a próstata e fez a biópsia há dois anos reclama de ainda não ter conseguido um médico para mostrar o exame.

As situações são de maior ou menor gravidade, mas em todas elas o fator tempo é essencial para o problema ser resolvido ou amenizado. No mínimo, há perda de qualidade de vida pelo desrespeito a um direito assegurado pela Constituição. Nas circunstâncias que envolvem doenças como o câncer, a demora pode ser a chance desperdiçada de cura. Outra reportagem de Grizotti sobre o tema, publicada em janeiro, apontou que 2,4 mil pessoas que estavam na fila da agonia do SUS perderam a vida antes de chegar a um consultório. Ainda que não se possa fazer a relação direta da morosidade com a morte em todos os casos, é um número impactante por revelar esperas em vão.

Em janeiro, a prefeitura de Porto Alegre informou que a prioridade do município era reduzir as filas. A Secretaria Estadual da Saúde (SES) dizia adotar medidas com o mesmo objetivo. O Ministério da Saúde alegou trabalhar continuamente para diminuir os represamentos. Menos de um ano depois, o quadro é praticamente o mesmo. Para não dizer que nada avançou, no mês passado a Capital noticiou ter zerado filas para exames de ressonância magnética, oncologia mamária, radioterapia e mamografia.

Mas os grandes números do RS teimam em mostrar uma situação dramática. Deve-se acompanhar os anúncios mais recentes para verificar se haverá algum avanço significativo. Em maio, o governo federal apresentou o programa Agora Tem Especialistas. Além das instituições públicas, usará estabelecimentos privados e filantrópicos. A SES sustenta que, até o final do ano, pretende reduzir em pelo menos 70% as maiores filas de espera, como ortopedia de joelho e oftalmologia geral adulto, por meio do programa SUS Gaúcho, lançado em setembro. Para as centenas de milhares de rio-grandenses sem condições de pagar um plano de saúde ou um atendimento particular e que seguem aguardando um chamado, a esperança é, desta vez, as promessas serem cumpridas. _

Opinião do leitor  

"Lâmpadas amarelas"

Prezado Carpinejar, seu texto sobre a nostalgia das lâmpadas amarelas (ZH, 31/10) foi absolutamente primoroso. A delicadeza e a sensibilidade com que abordou um elemento tão simples, mas tão carregado de significado em nossos lares brasileiros, tocaram profundamente. Foi emocionante ler algo que trouxe à tona, de forma tão genuína, memórias afetivas de tempos passados. _

Roberts Osório Lourenço - Gerente de negócios - Santa Maria - Distribuição de comida

Em que pese haver debate público no projeto da distribuição de comida para pessoas carentes, proposto pela vereadora Comandante Nádia, na Câmara Municipal de Porto Alegre, poucos leram esse projeto. Não conhecem o seu teor, mas criticam erroneamente, movidos pelas redes sociais. Por ser projeto de lei, pode ter emendas propostas pelos vereadores e, portanto, melhorar o seu conteúdo. Isso se chama democracia. 

Rafaela Silva de Souza - Biomédica - Porto Alegre Asfaltamento parcial

Sugiro à prefeitura da Capital que considere asfaltar uma faixa de rolamento central (três metros de largura, ou pouco mais) nas poucas vias que ligam a Rua Dona Laura com a Rua Cabral, no bairro Rio Branco. Deixando as laterais com o revestimento atual, de paralelepípedos, para o estacionamento e a absorção da água da chuva. 

Aldo Sudbrack da Gama - Advogado - Porto Alegre - PEC da Segurança

Entendo a preocupação dos governadores de oposição - como consta no editorial de ZH de 4/11, "Combate a facções requer debate maduro" - em relação a dúvidas sobre a PEC da Segurança do governo federal, que tramita desde abril. Essa centralização sugerida pela PEC diminuiria o poder das policias estaduais (Civil, Militar e Penal), eis o ponto, sinalizando sub-repticiamente com um centralismo bolivariano para o país. É esse o temor dos governadores - legítimo, sublinhemos. Ademais, o Rio de Janeiro acabou de mostrar que o Estado pode agir com inteligência e eficiência operando com as forças locais. 

Badger Vicari - Jornalista - Francisco Beltrão (PR)

OPINIÃO

 
06 de Novembro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Aliados improváveis do Brasil contra o tarifaço

No dia seguinte ao que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva evidenciou a falta de avanço na negociação do tarifaço de 50%, o Brasil ganhou improváveis aliados. A Suprema Corte americana iniciou a apreciação do recurso contra decisões de instâncias inferiores que consideraram ilegal a política de Donald Trump.

Os republicanos dominam, com integrantes indicados pelo atual presidente (três) e antecessores, mas isso não garante vitória das tarifas. Até Trump, o partido era contra esse tipo de nacionalismo econômico. E ainda que a decisão seja favorável à Casa Branca, a exposição do tema exige mais flexibilidade do governo americano.

Ainda mais improvável, a eleição de um candidato muçulmano e socialista à prefeitura de Nova York, Zohran Mamdani, abala a percepção de apoio monolítico a Trump nos EUA. O candidato republicano fez apenas 7,1% dos votos. Trump apoiou o segundo colocado, Andrew Cuomo - democrata que, derrotado nas prévias, concorreu como independente -, mas o sinal amarelou até porque o presidente fez questão de nacionalizar a disputa.

Até Trump vê efeito shutdown em derrota

Democratas venceram as eleições para o governo de Nova Jersey e Virgínia, também com ajuda do ex- presidente Barack Obama, que deixou a discrição de lado e passou a fazer comícios com fortes críticas ao sucessor. Em público, Trump pode dizer que faltou seu nome na cédula. Nos bastidores, todos sabem como resultados como esses provocam ondas de reavaliação em qualquer governo. Isso não significa que agora a alíquota adicional de 40% para o Brasil esteja com os dias contados. Até a negociação com a China, que deixa um relativamente pacato país sul-americano com tarifa maior do que a do grande inimigo asiático, pode ajudar a tirar o ranço da conversa.

Além disso, o shutdown (paralisação de serviços federais) acaba de se tornar o mais longo da história americana. Houve tentativa de culpar os democratas, mas o próprio Trump reconheceu que a interrupção de serviços e pagamentos levou à derrota dos republicanos. _

A bolsa teve forte alta ontem, de 1,7%, saltando do patamar de 150 mil para 153 mil pontos em um só dia, com a oitava quebra de recorde nominal seguida, mais animada do que as americanas. O dólar caiu 0,7%, para R$ 5,361.

Investimento de R$ 100 milhões exigido por enchente

Empresa de São Paulo especializada em armazenagem, distribuição e transporte de produtos alimentícios sob temperatura controlada, a Friozem começa a operar em Sapucaia do Sul na próxima quarta-feira. Sua unidade ficava em Esteio, mas ficou um mês parada depois da enchente de maio de 2024.

A mudança de local é resultado de investimento de R$ 100 milhões com o Ecoparque Lourenço & Souza, polo logístico da Região Metropolitana.

- Foi a pior tragédia na vida de muitos, e também para a Friozem, que em 47 anos nunca tinha passado por nada parecido. Gerou enorme prejuízo, mas nos motivou a investir em uma estrutura mais moderna, eficiente e segura - diz o diretor-presidente, Fábio Galesi Fonseca. _

CEEE diz estar dentro do limite de horas sem luz

Quatro anos e meio depois da privatização, a CEEE Equatorial comunicou ontem que enfim está dentro do limite de horas sem luz previsto em seu contrato de concessão. A companhia que atende parte da Região Metropolitana, sul e litoral do Estado, foi privatizada em março de 2021.

Em comunicado ao mercado, a CEEE informa ter "superado" o indicador chamado DEC (duração equivalente de interrupção por unidade consumidora). Conforme a empresa, em setembro alcançou DEC de 11,03 horas frente ao limite de 11,08 horas. Isso significa que, em média, seus clientes ficaram 11,03 horas no mês sem energia elétrica.

A Equatorial não menciona outro indicador contratual importante, o FEC, que indica o número médio de cortes no abastecimento. Em tese, se as distribuidoras de energia descumprem de forma repetida os limites, podem perder a concessão. _

Copom sonega sinais de início de corte no juro

As atenções sobre a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) se concentravam no comunicado, porque não havia expectativa de mexida no juro básico. A bolsa de valores no Brasil subiu 1,7% enquanto as bolsas de Nova York tiveram altas moderadas, ao redor de 0,5%, o que foi atribuído à expectativa de sinalização para o início do esperado ciclo de baixa.

No entanto, o Copom não entregou esse sinal, mantendo a informação de "manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado". A expectativa era de que o "bastante" ficasse pelo caminho, o que não ocorreu. A leitura é de que o primeiro corte possa não ocorrer em janeiro.

Nem outro trecho de comunicados anteriores muito duros foi deixado de lado, e o BC avisou, outra vez, que "não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado". Não mudou sequer a citação da inflação projetada para o primeiro trimestre de 2027, de 3,4%. Nem sinal, mesmo tênue, foi entregue. _

BC recua em projeto de real digital

O Banco Central (BC) decidiu desligar a plataforma usada nas fases iniciais de implantação desse moeda que prometia simplificar operações de pagamento mais volumosas. Isso significa que o Drex morreu antes de nascer? Não necessariamente, mas é certo que, se retornar, será em um futuro indeterminado.

Há duas principais justificativas para o desligamento do sistema: custava caro e enfrentava problemas para garantir a privacidade das operações. Conforme o economista André Perfeito, testes de implementação como os feitos servem mesmo para verificar se há problemas e tentar buscar soluções:

O BC foi correto e zeloso. O Drex não morreu, apenas tomará outra ou outras formas.

Para o economista, a alternativa que ganha força é a de stablecoins, moedas digitais privadas que têm paridade com o real físico - havia dúvidas se o Drex poderia ter essa característica.

- Esse parece ser o futuro depois que Trump encerrou a iniciativa de moeda digital do Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA) em favor de stablecoins de dólares - avalia Perfeito. 

GPS DA ECONOMIA

Duplicação do HPS depende dos parlamentares

Está nas mãos dos deputados e senadores gaúchos garantir os recursos para viabilizar a obra de ampliação do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, que prevê mais do que dobrar o número atual de leitos. O projeto foi incluído na lista de 11 rubricas habilitadas a receber emendas da bancada gaúcha, decididas após votação do grupo na noite de terça-feira.

Este formato representa uma alteração no método de destinação das emendas. Até então, o grupo já deixava a reunião com a definição de quanto iria para cada projeto e, adicionalmente, os deputados indicavam as emendas individuais a que cada um tem direito.

Agora, uma votação feita entre os parlamentares definiu as prioridades, a partir de mais de cem pautas pleiteadas à bancada. Cada parlamentar poderá dividir a sua parte e distribuí-la entre qualquer uma das 11 rubricas. Para o orçamento de 2026, a bancada do Rio Grande do Sul terá direito a um total de R$ 415,76 milhões - pouco mais de R$ 12 milhões para cada um dos 31 deputados e três senadores.

Desta forma, a ampliação do HPS pode tanto receber o valor total solicitado de R$ 140 milhões, como não receber nada. Há uma expectativa de que os membros da bancada informem, até amanhã, quanto irão destinar em cada uma das rubricas.

O projeto para o hospital, referência em trauma e queimaduras para todo o Estado, prevê a construção de um novo anexo com 11 mil metros quadrados e pelo menos oito andares, ampliando em 110 o número de leitos disponíveis - hoje são 95. Também já há uma área pronta para receber o novo prédio, na Rua José Bonifácio, adquirida no governo de José Fortunati.

Com a ampliação, o HPS terá uma ala específica para exames de imagem - incluindo a primeira ressonância magnética do hospital -, salas cirúrgicas e unidades de internação, aliviando a superlotação crônica. A ideia é que a obra comece em 2026.

Em busca de apoio, o diretor de Relações Institucionais da Saúde, Paulo Guimarães, percorreu gabinetes no final de outubro, junto da diretora-geral do HPS, Tatiana Breyer. O prefeito Sebastião Melo reuniu-se recentemente com parlamentares para pedir apoio. _

Os deputados Adão Pretto (PT) e Luciana Genro (PSOL) foram ameaçados de morte ontem. Um e-mail com discursos de ódio e intimidações foi encaminhado para os dois. Eles notificaram a Assembleia e registraram ocorrência.

Criatec devolve vida à Escola Maria Thereza da Silveira

Sobrevivente de uma série de investidas do mercado imobiliário, por seu terreno altamente valorizado, a antiga Escola Estadual Maria Thereza da Silveira voltará a ter vida. Primeiro, com cursos rápidos e apresentações culturais. Depois, em 2027, como Escola Técnica em Audiovisual e Economia Criativa, doravante chamada de Criatec.

Na apresentação do projeto, ao lado do secretário da Cultura, Eduardo Loureiro, a secretária da Educação, Raquel Teixeira, destacou os fundamentos que embasaram a decisão do governo Eduardo Leite de preservar a Maria Thereza como escola, em vez de vender o terreno para uma construtora, como se pretendia no passado.

O planejamento anunciado pela secretária, na presença de representantes de diferentes áreas, garante que não se voltará a falar em venda do terreno para uma construtora? Não. O futuro do Criatec vai depender de mobilização da sociedade e da visão de quem se eleger governador em 2026.

Raquel destacou a necessidade de preparar profissionais para ocuparem as vagas geradas pela economia criativa.

Serão inicialmente três cursos técnicos de um ano e meio cada um para jovens interessados em trabalhar com áudio, vídeo e produção cultural.

- A economia criativa é um dos vetores mais dinâmicos do desenvolvimento socioeconômico contemporâneo, sendo responsável por mais de R$ 8,3 bilhões do PIB do RS em 2020 - destacou a secretária.

Em Porto Alegre, 24,7% dos postos de trabalho gerados em 2022 (os dados atuais não estão disponíveis) estão vinculados à economia criativa. No total, foram 125.631 vagas no setor. _

Fetag teme que feira deixe o Largo Glênio Peres

Cassação revertida

O Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS) reverteu a decisão que havia cassado os diplomas do prefeito de Rio Pardo, Rogério Monteiro (MDB), e do vice, Alceu Seehaber (PSDB).

A chapa havia sido cassada em janeiro, após o Ministério Público acusar que Monteiro, enquanto candidato a reeleição, "efetivou rescisões contratuais como forma de punição" de servidores que não o apoiaram na campanha.

Os desembargadores, no entanto, entenderam que a irregularidade não ficou comprovada. _

O TRE também decidiu, por unanimidade, manter a sentença de primeira instância que absolveu o prefeito de Passo Fundo, Pedro Almeida (PSD), em uma ação ajuizada pela coligação PDT/PT, que pedia a cassação do mandato por abuso de poder político.

POLÍTICA E PODER

sábado, 1 de novembro de 2025


01 de Novembro de 2025
CARPINEJAR

O que não serve mais

Para alguns nostálgicos, a casa da praia é a vida paralela dos objetos, especialmente em balneários menores, naquele imóvel conquistado com muito esforço e economia. Mesmo com a popularização do consumo, mesmo com a facilidade tecnológica, há pessoas que ainda fazem questão de conservar a simplicidade artesanal dos velhos tempos, numa postura vintage.

Tudo o que sobra, ou tem menos valor onde você mora, é levado para o litoral, numa arqueologia íntima. Você cai um patamar da sua faixa de poder aquisitivo de propósito. Desatualiza o seu Imposto de Renda. Esparrama a sua herança.

O sofá de segunda mão, manchado ou gasto, está lá. Os beliches estão lá. O liquidificador que mais espreme do que gira está lá. A televisão pequena está lá.

A louça da cozinha preserva o resto dos seus conjuntos: pratos que ficaram órfãos, copos de requeijão, talheres de cabos soltos. No armário, constam relíquias de pano: camisetas com propaganda política, maiôs e sungas desbotados, chinelo deformado com a tira arrebentada, bonés de empresas que já fecharam.

A pacata biblioteca lembra um sebo: revistas velhas de moda, fofoca ou turismo; guias de telefone; folhetins Sabrina, Julia e Bianca; palavras cruzadas iniciadas e nunca terminadas. É possível localizar um CD player ou até um videocassete na estante.

As gavetas guardam velas, fósforos e baralho de cartas. No armarinho do banheiro, destacam-se pomadas extintas, termômetro de mercúrio embrulhado em algodão e bronzeadores empedrados.

É como assistir, num passe de mágica, à sua rotina 20 anos antes. Aquele endereço é um túnel do tempo. É sua versão atrasada em duas décadas. Foi o jeito para mobiliar o espaço, remanejando bugigangas e eletrodomésticos que não combinavam com a sua nova decoração.

Em vez de jogar fora, joga para dentro do seu bunker praiano. Você realiza doações para si próprio. Os donativos são direcionados para uma estranha autocaridade.

Não deixa de ser um momento de fascinantes reencontros com o seu eu mais despojado. Há um susto saudoso. Você recorda o que um dia foi essencial depois de muito esquecer. É como esbarrar na rua com um namorado ou namorada da adolescência, demorando para reconhecer a paixão antiga.

Revê o ventilador barulhento, com a grade torta. Revê os lençóis do casamento. Revê a luminária do escritório desmontado. Regressa à pré-história de seus pertences, tornando-se retrô por necessidade.

Passa a usar aquilo que julgava ultrapassado: aerossol e incenso Boa Noite para matar mosquitos, espanador de pó, rodo de chuveiro. Volta, inclusive, a regar o jardim com mangueira, e a torneira mantém os elásticos coloridos das bexiguinhas.

Retoma a manufatura de outrora, o suor doméstico anterior aos êxitos profissionais. Varre sem robozinho ou aspirador de pó. Lava a louça sem máquina e enruga os dedos de frio na pia. Estende as roupas no varal sem secadora.

E jamais reclama do trabalho fabril, dá um desconto à existência operária pelo luxo de estar perto do mar. Não troca por nada o privilégio de sestear na rede com o marulhar das ondas. 

CARPINEJAR

Escritora, poeta e patrona da 71ª Feira do Livro de Porto Alegre  - "Hoje, há uma infantilização da sociedade. Tudo é ?não pode?"

Uma das maiores escritoras contemporâneas do Brasil, Martha Medeiros é a patrona da 71ª Feira do Livro de Porto Alegre. Em entrevista a ZH, a porto-alegrense de 64 anos relembra a relação com o evento e analisa o cenário atual da literatura no país.

Isabella Sander  -  Como é a experiência de ser a patrona da Feira do Livro? Demorou para vir o convite?

Sempre imaginei que fosse acontecer um dia. Todo mundo diz que demorou, mas foi no momento exato, porque é um ano muito especial para mim: completo 40 anos desde o lançamento do meu primeiro livro. Houve época em que a Feira elegia 10 candidatos e depois escolhia um. Cheguei a participar dessa seleção, mas não gostei, parecia competição entre colegas. Achei que não combinava com o espírito da feira. E, naquela época, estava muito envolvida com filhos e não teria como me dedicar da forma que um patrono precisa. Agora é outro momento. Tenho uma carreira mais sólida e me sinto mais preparada e merecedora. Então, veio na hora certa.

És a nona mulher a ocupar o papel de patrona da Feira do Livro. Ainda é difícil uma mulher chegar a esse posto?

Acho que isso está mudando. Não adianta chorar pelo atraso, porque claramente as coisas estão se transformando. Tenho a impressão de que, daqui para a frente, virão muitas outras mulheres, até porque há muitas escritoras excelentes, talentosas, representativas da literatura. O mercado editorial deve muito às mulheres. Há muita produção feminina hoje no país inteiro. É o momento de a mulher colocar sua voz depois de tanto de literatura feita por homens falando sobre mulheres. Isso mudou. Claro que ainda é preciso equalizar, mas não vou ficar lamentando o passado. Isso tem a ver com a velha estrutura patriarcal, mas está mudando.

Falaste que, quando foste convidada antes, estavas envolvida com a maternidade. E agora estás também nessa função de cuidadora.

É outro tipo de maternidade. Meus pais não são meus filhos, claro, mas o papel é esse de cuidado. Isso me surpreendeu, porque sempre imaginei que, depois dos 60, com as filhas criadas, seria a hora de botar a mochila nas costas e viajar. Eu adoro liberdade, adoro viajar. De repente vem esse susto, que nem deveria ser um susto, porque é natural que os pais envelheçam. Mas a gente entra na vida de roldão e acha que está tudo certo. Aí precisa puxar o freio de mão e voltar para dentro de casa, cuidar dos outros. Tem um lado bom nisso, de união familiar, mas é complicado, porque também estamos envelhecendo. Também estou envelhecendo e não tenho mais tantos anos de energia total. Então, a gente vai negociando com a própria vida. Este, para mim, foi um ano de dedicação total à família e ao trabalho. Isso também sou eu.

Qual foi a tua relação com a Feira do Livro ao longo da vida?

A Feira era o meu parque de diversões. Estudava no Bom Conselho, na Ramiro Barcelos, e lembro de sair a pé pela Independência até o Centro para ir à Feira. Economizava a mesada para comprar um livro escolhido com muito cuidado. Sempre foi um momento mágico, porque já gostava de ler e escrever. Era um evento que aguardava o ano inteiro. Depois, quando comecei a publicar poesia, virei autora da Feira. Lembro da minha primeira sessão de autógrafos, em que caiu um temporal e quase ninguém apareceu. De repente, surge o Ruy Carlos Ostermann, que pediu meu autógrafo. Fiquei emocionada, porque ele era uma figura admirada, e eu, uma jovem desconhecida. Foi um gesto generoso e, por isso, hoje quero fazer o caminho inverso: estimular quem está começando.

Quem te ajudou no início?

A Tânia Carvalho foi a primeira pessoa que me chamou para um programa de entrevistas, em 1985. Eu gaguejei do começo ao fim, mas nunca esqueci. Ela é uma grande jornalista, e me dar aquele espaço foi importante. O Luciano Alabarse também foi fundamental: ele deu um livro meu de presente para o Caio Fernando Abreu, que depois me procurou e escreveu a orelha de um livro meu. Era uma época sem internet, tudo acontecia no boca a boca. Um lia, indicava para outro, e assim eu fui crescendo devagar, com o olhar generoso de quem já era mais experiente.

Temos visto censura a obras literárias. O que pensas disso?

De fato, há uma onda de censura, especialmente de livros infantis, sob o pretexto de proteger. É absurdo. A história de O Avesso da Pele, do Jeferson Tenório, por exemplo, foi um absurdo. Escrevi uma crônica sobre isso. É reflexo da ascensão da extrema-direita. O mundo está mudando rápido, muita gente está ganhando voz: mulheres, negros, pessoas LGBTQIA+. Antes, esses grupos ficavam em guetos. Agora estamos tentando incluir todo mundo, e isso é necessário, não é benevolência. É reparação. Mas há quem não suporte perder privilégios e reaja tentando manter o próprio posto. Daí vêm as tentativas de censura, de regressão. É uma reação careta a um momento mais democrático.

Vivemos uma época careta?

Sim, muito. E é curioso, porque já tivemos momentos mais libertários. O que se via na TV, como TV Pirata, Armação Ilimitada, tinha mais liberdade. Claro que havia piadas erradas, o que felizmente está mudando, mas nada era perseguido. Hoje, há infantilização da sociedade. Tudo é "não pode". Criança não pode ver isso, não pode ouvir aquilo. Cresci ouvindo o que meus pais ouviam: Beatles, Janis Joplin, e lendo os livros que havia em casa. Agora parece que se trata todo mundo como criança.

Mas há também patrulhas vindas da esquerda, não?

Existe patrulha, sim. Às vezes é chata, mas necessária. Claro que me policio, às vezes digo algo numa conversa e penso: "Não poderia dizer numa entrevista". Mas é assim que o mundo muda. É incômodo, mas precisamos nos habituar a não usar certos termos.

Alguns pesquisadores têm discutido a ideia de que estamos priorizando o conteúdo em detrimento da forma na literatura. O que pensas disso?

Acho pretensioso alguém determinar o que é ou não é literatura.

 O que é literatura para ti?

Escreveu e publicou, é literatura. Pode ser boa ou ruim. Literatura é intenção por escrito que pode ser bem ou malsucedida. O que define se deu certo ou não é a conexão com o leitor. Não existe literatura sem leitor. Se ninguém ler Grande Sertão: Veredas, não existiu. Literatura é o que conecta, o que provoca alguma reação, seja de encantamento ou de rejeição. Essa história de que Itamar Vieira Junior ou Elena Ferrante não seriam literatura é absurda. É apenas tentativa de polemizar. 



01 de Novembro de 2025
MARCELO RECH

As histórias de todos

Sou um leitor atento de obituários. Não, não tenho curiosidade mórbida, que provavelmente é até abaixo da média normal das pessoas. Minha relação com os obituários não tem a ver com a morte, mas - e é bom recordar isso nestes dias de Finados - com o reconhecimento à vida daqueles que se foram e, sobretudo, pela crença de que pessoas comuns sempre terão trajetórias e histórias únicas que merecem ser compartilhadas.

Um obituário é uma notícia. Por vezes, sobretudo quando informa o passamento de alguém de quem não se ouvia falar há tempos, pode até ser a mais marcante de uma edição. Mas essa não é uma notícia qualquer. Quando os obituários de ZH foram criados, há umas três décadas, advogou-se que a tarefa de redigi-los seria considerada um rito de passagem. O obituarista deve demonstrar uma combinação de obsessão com precisão absoluta e uma sensibilidade adicional para lidar com familiares e amigos enlutados. Quem escreve obituários com estas duas virtudes está, portanto, preparado para missões jornalísticas de larga envergadura.

Um obituário bem escrito segue padrões mínimos. Deve trazer a idade, local de nascimento, falar de eventuais mudanças de cidade, vida profissional, parentes próximos, incluir descrições sobre sua personalidade e, se a família concordar, a causa da morte, como parte da informação sobre aquela pessoa. Em personalidades públicas, passagens negativas não devem ser omitidas, mas o obituário não é uma peça crítica: é, antes de mais nada, uma homenagem ao retratado e um legado para a família, os amigos e a sociedade. No Rio Grande do Sul, previsivelmente, muitas vezes ficamos sabendo pelo obituário da fama de um churrasqueiro familiar e sua paixão futebolística.

Nenhum outro jornal elevou o obituário à condição de jornalismo de ponta como The New York Times. Há um bom número de livros que os compila e disseca seu estilo. Um deles é A Última Palavra, que reúne uma coletânea da seção, uma das mais lidas e prestigiadas do diário. "A história de pessoas comuns que levaram vidas incomuns", resume sua apresentação. No principal jornal dos EUA, o obituário ascendeu à categoria de arte jornalística exatamente porque extrai em textos memoráveis a riqueza da vida de pessoas como um vendedor de cachorro-quente que fez ponto por décadas numa esquina de Nova York.

Cada obituário é, no fundo, uma pequena biografia à espera de ampliação. Quando leio que alguém dedicou a vida à família, algo aparentemente tão banal, imagino a extraordinária vivência dessa pessoa e as histórias por serem contadas de alegrias, tristezas, frustrações e pequenas e grandes conquistas. São elas que fazem a vida de todos nós, afinal. 

MARCELO RECH


 

01 de Novembro de 2025
EDITORIAL

Feira do Livro, uma obra resiliente

Quem circula pela Feira do Livro de Porto Alegre e observa o movimento nota. A atmosfera da Praça da Alfândega, adornada pelos jacarandás floridos, é um espaço de pessoas com o semblante distensionado. Mesmo nas edições realizadas sob condições desafiadoras, como em 2021, na pandemia, ou no ano passado, quando o setor livreiro tentava se recuperar do impacto da enchente de maio, as expressões leves predominam assim que o toque da sineta dá o evento como aberto. É a força do livro e da cultura.

São dias de noticiário pesado sobre guerras, criminalidade, radicalismo político e intransigência. É uma era de um ritmo frenético de vida e hiperconexão. O livro, ao contrário, é convite à reflexão pausada, e a cultura, fator de agregação e de encontros. Motivos não faltam para prestigiar a maior mostra literária a céu aberto da América Latina. A 71ª Feira do Livro de Porto Alegre, que se iniciou na sexta-feira e vai até o próximo dia 16, é promessa de um refrigério para a alma.

A edição de 2025, mais uma vez, tem uma série de novidades e de atrações culturais. A patrona é a escritora Martha Medeiros. São 79 bancas, onde é possível encontrar lançamentos e garimpar raridades e pechinchas. Mais de 350 autores estarão no Centro Histórico da Capital. Dezessete são internacionais. É uma oportunidade rara de conseguir um autógrafo ou de trocar ideias com alguns deles. São, aliás, 752 sessões de autógrafos previstas. A programação tem ainda debates, apresentações artísticas, oficinas e contação de histórias. Um dos destaques, sempre, é a área infantil, atração de especial importância por ajudar a forjar os leitores do futuro. A projeção dos organizadores é de receber cerca de 1,5 milhão de visitantes.

Personalidades também serão lembradas. O escritor Erico Verissimo, autor do clássico O Tempo e o Vento, será um dos homenageados, assim como seu filho, o cronista Luis Fernando Verissimo, que faleceu em agosto deste ano. Erico nasceu há 120 anos e morreu há 50. Pai e filho deixaram um legado marcante na literatura brasileira. Maurício Sirotsky Sobrinho, fundador da RBS, emprestará seu nome à Praça de Autógrafos. Neste sábado também ocorre o lançamento da biografia Maurício Sirotsky Sobrinho - O Som de uma Vida, escrita pelo jornalista Tulio Milman.

Poucos eventos simbolizam de forma tão apropriada a palavra resiliência. O fato de ser ininterrupto - mesmo que tenha sido realizado de forma virtual em 2020, primeiro ano da pandemia - é só um deles. Também sobrevive pela irresignação da Câmara Rio-Grandense do Livro e pelo aguerrimento dos livreiros. O setor sofre o abalo do comércio online e, no ano passado, vários comerciantes tiveram suas dependências arrasadas pela cheia. Ainda há a luta incansável, a cada ano, para obter o financiamento necessário para realizar e manter a grandiosidade da feira. Esse patrimônio histórico e cultural de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul merece o apoio da sociedade gaúcha. Visitá-lo e adquirir um livro que seja é a melhor forma de expressar esse reconhecimento. _

EDITORIAL

01 de Novembro de 2025
EDUCAÇÃO NO RS

Número de alunos que voltaram à escola mais que dobrou em 2025

Educação no RS - Isabella Sander

Uma atualização em um sistema de quase 30 anos utilizado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) tem ajudado a reduzir a evasão escolar no Estado. Divulgado na quinta-feira, o número de registros de alunos infrequentes em 2025 é semelhante ao de 2024. A quantidade de arquivamentos de casos, contudo, mais do que dobrou - e o principal motivo foi a volta do estudante à escola.

Com dados atualizados em 28 de outubro em um sistema desenvolvido pela Procempa, a ferramenta, nomeada como Ficha de Comunicação de Aluno Infrequente (Ficai 4.0), registrou, em 2025, 56.680 casos de estudantes que haviam parado de ir às aulas. Destas fichas, 45.188 - quase 80% - foram arquivadas. O arquivamento se deveu, de seis em cada 10 situações, ao fato de que o estudante voltou a frequentar a escola.

- Só neste ano, conseguimos fazer com que 28 mil estudantes retornassem à sala de aula usando o Ficai. São 28 mil crianças que estão se educando e se qualificando para ingressar de maneira correta no mercado de trabalho - destacou Alexandre Saltz, procurador-geral de Justiça do Rio Grande do Sul, durante seminário sobre busca ativa escolar realizado no MPRS.

O número de 28.091 fichas de infrequência arquivadas porque crianças e adolescentes retornaram ao dia a dia escolar é mais do que o dobro do total de casos do gênero ocorridos em 2024, que ficou em 13.519.

- Passado um ano e meio da implementação do Ficai 4.0, o que nós podemos concluir é que, nesse tempo, os municípios entenderam melhor o que seria essa Rede de Apoio à Escola e, agora, em 2025, já está funcionando com esse novo fluxo - observa a promotora Cristiane Della Méa Corrales, coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Educação, Infância e Juventude do MPRS.

De acordo com dados apresentados pela União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) durante o evento, 96,8% dos 399 municípios gaúchos que responderam à pesquisa disseram utilizar o Ficai 4.0, e 92,8% afirmaram possuir uma rede intersetorial articulada para fazer o trabalho de busca ativa dos estudantes com infrequência.

Antes da atualização, se o aluno não retornava, a escola acionava o Conselho Tutelar, que procurava a família e, se não conseguia resolver a situação, fazia o encaminhamento ao Ministério Público. Agora, antes de acionar o Conselho Tutelar, existe uma rede de apoio à escola, que pode ser composta por entes municipais e estaduais, escolas privadas, representantes da política de saúde, de assistência social, do Conselho Municipal de Educação, do Conselho do Direito da Criança e do Adolescente, entre outros parceiros municipais.

A composição dessa rede é definida por um plano da prefeitura. Se não obtiver sucesso, aciona-se o Conselho Tutelar e o MPRS. 



01 de Novembro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Decisão tomada sobre a Venezuela?

Maior jornal da Flórida e com grande penetração na comunidade hispânica, o Miami Herald informou na sexta-feira que o presidente Donald Trump teria tomado a decisão de atacar a Venezuela. Os bombardeios poderiam ocorrer, ainda conforme a publicação, a qualquer momento.

Os alvos do ataque seriam instalações militares supostamente utilizadas pelo cartel de Soles. O planejamento de uma ação armada também foi citado pelo The Wall Street Journal, de Nova York. Segundo a Casa Branca, Nicolás Maduro e membros importantes de seu regime comandariam o cartel, o que não é confirmado.

Fontes disseram ao Herald que os alvos - que podem ser atingidos por via aérea em questão de dias ou até mesmo horas - também visam desmantelar a hierarquia do cartel. Autoridades americanas acreditam que o grupo exporta cerca de 500 toneladas de cocaína por ano, divididas entre Europa e Estados Unidos. Embora as fontes tenham se recusado a dizer se o próprio Maduro é um alvo, uma delas afirmou que seu tempo está se esgotando. 

Maduro está prestes a se ver encurralado e poderá descobrir em breve que não pode fugir do país, mesmo que quisesse, afirmou a fonte. Haveria mais de um general disposto a capturá-lo e entregá-lo, plenamente conscientes de que uma coisa é falar sobre a morte, e outra é vê-la chegar.

Há vários dias, os Estados Unidos têm acumulado capacidades militares no Caribe, inclusive com o deslocamento do maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, para a região. Também um destróier, USS Gravely, deixou Trinidad e Tobago, a pouco mais de 10 quilômetros do litoral venezuelano, nas últimas horas. Não se sabe sua localização. Os Estados Unidos realizaram 15 ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico como parte de suas operações antidrogas, com um balanço de pelo menos 62 mortes, sem apresentar provas sobre o vínculo dessas pessoas com o narcotráfico. Voos de aeronaves militares americanas têm sido recorrentes perto da costa do país.

Após a repercussão, questionado por repórteres se consideraria fazer incursões na Venezuela, Trump respondeu apenas: "Não". 

Halloween na Casa Branca

Seguindo a tradição, a Casa Branca celebrou o Halloween na quinta-feira. Donald Trump e a primeira-dama Melania receberam dezenas de crianças na residência, decorada em tons de preto e laranja, com várias abóboras como decoração.

O início da comemoração contou com uma atuação de música clássica com cerca de 10 músicos nas escadarias presidenciais. Entre as atrações, chamou atenção um drive-thru da rede McDonald?s utilizado para a entrega de guloseimas às crianças. Algumas delas estavam fantasiadas como o casal presidencial. 

Entrevista - Ranolfo Vieira Júnior - Presidente do BRDE

"Somos um banco da sustentabilidade"

Em entrevista à coluna, o ex-governador Ranolfo Vieira Júnior fez um balanço dos 16 meses à frente do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). Ele deixou a presidência na sexta-feira, passando o cargo rotativo ao representante do Paraná.

Que balanço o senhor faz da sua gestão?

O banco tem a maturidade de quem vai completar, em 2026, 65 anos. É também um banco enxuto: temos 500 colaboradores nos três Estados do Sul. Temos escritório em Campo Grande (MS), no Rio de Janeiro, pela proximidade com o BNDES, e em Brasília, onde abrimos este ano. É um banco que vem trazendo resultados positivos do ponto de vista econômico e financeiro. No ano passado, atingimos, pela primeira vez, quase R$ 6 bilhões em negócios. Foram 14,5 mil contratos. Além disso, este é um banco verde, da sustentabilidade. 

De todos os negócios que fizemos em 2024, 82% estavam ligados ao menos a um dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). Cinco anos atrás, nosso patrimônio líquido estava em R$ 3,4 bilhões, estamos fechando em R$ 5,4 bilhões. Desde a semana passada, estamos na Febraban (Federação Brasileira de Bancos). Lá, são 27 comitês técnicos de estudo: reforma tributária, segurança cibernética, IA. É importante estar entre os grandes e com um pensamento voltado a essas questões.

Como foi após a maior enchente da história do RS?

O momento mais difícil foi enxergar a área produtiva do Estado ser severamente atingida. Nossa primeira preocupação foi de renegociar contratos. Imagina um cliente que foi severamente atingido pela catástrofe do seu negócio, e, no dia seguinte, bate à sua porta um boleto do BRDE cobrando uma conta. Buscamos uma forma de prorrogar esses vencimentos. Também criamos um programa denominado 

Em frente RS, que alavancou em torno de R$ 300 milhões, com juros fixos de 10% ao ano, com cinco anos para pagamento, primeiro ano de absoluta carência. Demos prioridade a alguns segmentos: as concessionárias do Mercado Público de Porto Alegre, da Ceasa, comerciantes do Quarto Distrito, bares e restaurantes, concessionárias da Estação Rodoviária. Foi uma forma de auxiliar o pequeno e o médio comerciante.

Como está a situação mais de um ano depois?

Os clientes voltaram a pagar. Ou seja, é um sinal de que a economia está se recuperando, apesar de toda dificuldade. Embora a gente tenha passado por isso, embora estejamos em um momento atípico, com taxa Selic de 15% ao ano, a nossa inadimplência é de 0,8%. Baixíssima. É um sinal de que nossas equipes são muito técnicas na avaliação de crédito.

Como foi mudar da segurança pública para um banco?

Foi desafiador, embora eu tenha de reconhecer: no momento em que tu chegas ao governo do Estado, ele te abre um leque que faz com que estejas, teoricamente, apto a comandar qualquer coisa. O gestor, o prefeito, o governador, são grandes generalistas. Eles têm de saber um pouco de cada coisa. Mas temos a equipe técnica, que auxilia na segurança, na educação, na Fazenda. Esse raciocínio serve para dirigir um banco e qualquer grande empresa. Você tem de estar bem assessorado, ter o equilíbrio e experiência, que vai tranquilo.

Vocês estão trabalhando na estruturação de parcerias entre entes públicos e concessionárias. Como está sendo este trabalho?

Essa é uma nova vertente. Nenhum Estado, e muito menos os municípios, tem capacidade técnica de fazer essa modelagem. Então o BRDE os auxilia. Por exemplo: fizemos a PPP de iluminação pública, em Santa Maria e em Sapiranga. Assinamos, há duas semanas, com a prefeitura de Santa Maria para fazer a modelagem da PPP de infraestrutura escolar. Dá uma garantia para o gestor.

Quais são seus planos agora?

Retorno ao cargo de diretor de operações. Sobre o futuro, tenho uma série de convites, depende muito da conversa que devo ter com o governador Eduardo Leite, e o futuro a Deus pertence. 

INFORME ESPECIAL

sábado, 25 de outubro de 2025


25/10/2025 - 17h27min
Martha Medeiros

Não estaria na hora de reduzirmos os excessos de artifício? 

Resta confiar que a nossa autenticidade dá conta do recado a cada vez que somos flagradas quando menos se espera, com os lábios nus. Tudo bem seguir tendências da moda, é divertido e menos radical do que mudar o próprio rosto.

Acho que foi a saudosa Danuza Leão que escreveu, certa vez, que não deveríamos sair de casa sem batom nem mesmo para ir até o mercado da esquina comprar um quilo de arroz. Vá que justamente neste intervalo de tempo você cruze na calçada com um ex-namorado que ainda faça seu coração saltar. Fosse hoje, Danuza correria o risco de ser cancelada por esse tipo de conselho – não bastassem nossas preocupações, ainda precisamos estar bonitas para encontros hipotéticos com sujeitos que já nem fazem parte da nossa vida? 

Alguém poderia sugerir que os homens, dentro do mesmo princípio, também deveriam colocar uma camiseta limpa antes de ir ao açougue comprar carne para o churrasco, mas esta equiparidade costuma ser derrubada pelas nossas diferenças de expectativas. Eu, ao menos, tenho um fraco por desgrenhados. Uma camisa para fora das calças, uma bota ainda com a poeira de algum show, aquela barba eternamente por fazer.

Não estou dizendo que banho não seja importante, mas deixar o cabelo secar ao deus-dará não é pecado, tem até quem consiga emprego na Globonews sem jamais ter visto um pente. Cancelada serei eu por celebrar a liberdade que os homens têm de não serem julgados pela aparência e ainda apreciar a descompostura deles (sem exagero, claro – prefiro estar acompanhada por um homem de terno numa festa de casamento). Porém, considere este texto parte da luta: reivindico a mesma liberdade para nós. 

Não estaria na hora de reduzirmos os excessos de artifício? Somos perfeitamente atraentes com nossos cílios de nascença, com unhas aparadas e com os lábios que nos couberam. Se é para inflar a boca, que seja a boca das calças: as skinny deram lugar às pantalonas e tudo bem seguir tendências da moda, é divertido e menos radical do que mudar o próprio rosto. 

Mesmo assim, reconheço que não é fácil se libertar da patrulha dos costumes. Outro dia, entrei num mercado de esquina para comprar tomates, era só um pulinho, então nem me importei por estar com o cabelo mal preso num rabo de cavalo, os trapos que uso para trabalhar em casa e, claro, sem nenhum vestígio de batom. Mas, ao ser interpelada por um moço educado (e, se não me falha a memória, bem-vestido, o que põe em dúvida a minha preferência por esculhambação), lembrei dos conselhos da Danuza. Que ideia foi aquela de eu sair de cara lavada e com um mocassim de 1997? Eu sei, mais antigo que o mocassim, só esse desejo de causar boa impressão. Resta confiar que a nossa autenticidade dá conta do recado a cada vez que somos flagradas quando menos se espera, com os lábios nus.


25 de Outubro de 2025
CARPINEJAR

Despreparados

Quando um afeto sofre um acidente ou enfrenta um desconforto, você sempre é pego de surpresa. Vai ao hospital de chinelos. Não tem tempo para se arrumar. Não tem cabeça para se alinhar. Não pensa em buscar uma peça secando no varal ou em passar uma camisa. Sai de casa como estava. Não quer perder nem um minuto do socorro.

Durante o dia, na sala de espera dos plantões médicos, não há ninguém bem-vestido - com exceção dos infortúnios da madrugada em que as pessoas partem diretamente das festas e das celebrações.

Todos estão ali com as vestimentas da rotina e do lazer, pescados por uma doença ou fatalidade, na angustiada tensão por notícias e boletins. Perdoam-se calças sem cinto, bermudas sem elástico, furos na região das axilas das blusas, mangas e golas puídas.

Nota-se um traço comum do imprevisto: os rostos ainda com as marcas impressas pelos travesseiros, as remelas nos olhos, as roupas folgadas e inconscientes do destino, a carteira na mão e a bolsa no colo avulsas, nada combinando com nada, numa sobreposição do acaso.

Não tem como se preparar para uma emergência. Não tem como se valer da melhor aparência, dos pudores e asseios do espelho. Não há maquiagem, não há pente, não há escova, não há barbeador, não há os elementos mediadores entre a privacidade e a rua.

Se estava junto do doente, corre com a velocidade de uma ambulância. Se estava longe e recebe uma ligação, larga tudo ao léu, numa evacuação instantânea do lar e da alma.

Há uma cultura familiar de se mostrar presente nos bastidores, mesmo que você não possa visitar o paciente, mesmo que não possa vê-lo, mesmo que não possa ser útil, mesmo que apenas tumultue a entrada do lugar.

É um protocolo da amizade, uma demonstração de importância, um gesto de interesse e de extrema prioridade. Trabalhos, tarefas, reuniões, alegrias e sono são sumariamente interrompidos para uma lição de empatia.

Grupos de conhecidos se amontoam na recepção, numa corrente de solidariedade. Trata-se de uma característica de nossa mentalidade. Talvez seja uma simpatia emocional, uma crença de que aquele que está lá dentro, na maca, sob cuidados, sentirá as vibrações de quem se encontra do lado de fora. Ter alguém esperando é um reforço positivo para a convalescência.

Os problemas de saúde de um ente próximo despertam a nossa indigência, o nosso desamparo, a nossa incompetência para a despedida. Já a morte suscita o nosso perfume e incensos, encomendados demoradamente para as exéquias.

O velório e o enterro não exibem parentesco com o atropelo do pronto-atendimento. Como a perda se faz consumada, não existe mais a luta contra o relógio, e você consegue se aprumar devidamente para dar as condolências e prestar as homenagens derradeiras. Raramente se observa, na cerimônia fúnebre e na hora do adeus, um parente ou amigo de qualquer jeito. Até os guarda-chuvas e sombrinhas esticam elegantemente suas lonas em direção ao céu turvo, não deixando escapar nenhuma vareta.

A dor do luto dispensa a ansiedade. 

CARPINEJAR