Geopolítica, clima e IA nunca caminharam tão juntos
A COP31, que começa dentro de um mês, em Antália, balneário turco no Mar Mediterrâneo, irá unir nós cada vez mais indissociáveis: geopolítica, sustentabilidade, emergência climática e inteligência artificial.
Primeiro porque o conflito entre EUA e Irã, que fechou o Estreito de Ormuz, expondo a economia global às oscilações do petróleo, elevou ao topo da agenda o tema da segurança energética.
Segundo porque, a despeito de governos negacionistas do clima, já está muito claro que a transição energética é puxada pelo setor produtivo. São as empresas que apostam em combustíveis de transição, como o gás natural, ou fontes completamente limpas, como a elétrica, eólica, solar e biomassa. Não apenas como uma expectativa de futuro (já presente), por responsabilidades e propósito. Também por isso, mas principalmente porque se trata de um negócio. E é possível lucrar com isso.
A discussão climática está cada vez mais conectada com a economia. Não que corte de emissões de gases de efeito estufa, preservação da Amazônia e outros biomas e políticas de adaptação diante dos eventos extremos cada vez mais presentes e mitigação sejam temas do passado. Mas as COPs se tornaram cada vez mais business.
Até porque é preciso pagar a conta de um mundo mais sustentável. Como se dará o financiamento climático está no cerne da questão. Ondas de calor, períodos de estiagem, tempestades e enchentes estão levando a perdas econômicas cada vez mais difíceis. O RS que o diga.
O crescimento da demanda elétrica, em razão da IA, dos data centers, de frotas elétricas e eletrificação industrial, exige mais geração, redes e armazenamento. Isso também é geopolítica.
Modelo de liderança
Um dos aspectos mais distintos da COP31 será o modelo de liderança compartilhada entre Turquia e Austrália. Com a passagem da presidência da COP30 pelo Brasil, a Turquia será o país-sede e terá a presidência formal, enquanto a Austrália assumirá a função de presidente das negociações.
Essa divisão de funções é inédita na história das COPs e vai desafiar a capacidade de articulação entre os dois países. A Turquia é um dos atores geopolíticos em ascensão no Oriente Médio e tem a capacidade, por sua posição geográfica, de conectar Oriente (leia-se China) e Ocidente (leia-se Europa). A Austrália tem a missão de dar voz aos países ameaçados de desaparecer com a elevação do nível do mar e representa os interesses do Pacífico, uma região de crescente competição estratégica entre China e EUA.
O novo modelo será colocado à prova justamente no momento em que a agenda climática precisa conciliar interesses econômicos, segurança energética, financiamento e diferentes velocidades de transição entre países.
Sobre o Brasil, a experiência da COP30 coloca sobre o país a responsabilidade de ajudar a dar continuidade a uma agenda voltada à implementação. A capacidade de seguir como articulador vai depender do resultado das eleições.
Trump irá se igualar ao Talibã
Durante séculos, enforcamentos, decapitações e fuzilamentos públicos serviram para punir crimes e para exibir o poder de um rei ou ditador.
É isso que Donald Trump, em pleno século 21, quer voltar a fazer ao autorizar a execução por fuzilamento de Nidal Hasan.
Por recomendação de seu secretário da Guerra, Pete Hegseth, o ato deve ser transmitido ao vivo.
Não vou entrar no mérito dos crimes cometidos por Hasan, um assassino fanático que tirou a vida de 13 pessoas na base de Fort Hood, no Texas, em 2009. Tampouco discutirei pena de morte.
Meu ponto aqui é a transformação da punição em espetáculo.
O Estado não deve reproduzir a lógica da violência para demonstrar que a lei foi cumprida. Trump o que quer é transformar o ato em uma mensagem política.
Se for mantida a decisão de transmissão ao vivo, os EUA, a pátria da liberdade e da democracia, irão se igualar às ditaduras da Coreia do Norte e do Irã dos aiatolás. Pior: jogarão segundo as mesmas regras do Talibã, da Al-Qaeda e do Estado Islâmico.
Sabe-se que Trump é errático - morde e assopra e, no pior estilo "falem mal, mas falem de mim", costuma só ameaçar sem cumprir suas promessas. É bem provável que recue até o dia 3 de dezembro. Até lá, não há outra palavra para caracterizar a decisão que não seja repugnante. _
Cordialidade na transição
Cordialidade é a palavra que resume o início de transição de governo no Estado.
Aliás, isso não deveria surpreender. Em um regime democrático, é assim: quem sai coloca os dados do governo e toda a estrutura de Estado à disposição de quem está entrando. Deveria ser algo normal. Mas, no atual estado das coisas, da política brasileira, nem sempre é assim.
Por isso, a cordialidade entre o atual governador Eduardo Leite e o eleito, Luciano Zucco, deve ser exaltada. O RS dá exemplo de civilidade.
Um dos símbolos da disposição em colaborar é a determinação de Leite de que cada secretaria elabore um relatório com dados sobre orçamentos, contratos e projetos em andamento. Esses dossiês, que estão sendo chamados informalmente de "cadernos" serão entregues a partir do dia 26.
Os nomes à frente da transição são de políticos experientes. Representando o atual governo, o secretário-chefe da Casa Civil, Ranolfo Vieira Jr., que traz na bagagem o cargo de governador, após a saída de Leite para concorrer em 2022, e de vice no primeiro mandato, quando acumulou o comando da Secretaria da Segurança Pública. À época, ele implementou o programa RS Seguro, que Zucco promete manter.
A vitória no primeiro turno joga a favor das equipes - são três semanas a mais para a transição. E uma boa maneira de começar as conversas seria, justamente, pelas convergências. A Segurança, pasta em que o atual governo apresenta os melhores dados, é também prioridade do futuro ocupante do Piratini.
Da equipe do governador eleito, o comando nas mãos de Leonardo Pascoal, secretário municipal de Educação da Capital, é garantia de diálogo e técnica, além do fato de ter sido o coordenador do plano de governo de Zucco.
Embora a transição técnica ocorra no Edifício Guaíba, um outro símbolo dessa transição que se pretende cordial, é a escolha de um espaço no Instituto Caldeira, que está sendo chamado de Casa do Diálogo.
O clima de cavalheirismo, entretanto, não impede divergências. Um dos temas que gerou rusgas na campanha é o das concessões de rodovias. Nesta sexta-feira, ficou claro que o assunto ficará em suspenso. Leite recuou no bloco 1 e irá submeter o projeto do bloco 2 ao eleito. Ou seja, tudo vai ficar para depois.
Zucco disse que irá participar, nas próximas semanas, da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto. Então, embora a transição técnica comece na semana que vem, a participação mais efetiva do eleito ficará, mesmo, para depois do segundo turno. _
Sua Excelência, o Mate
No Palácio Piratini, o chimarrão é transportado com a honra que merece: na bandeja oficial. O registro foi feito pelo repórter Gabriel Jacobsen, durante a reunião de transição de governo, na sexta-feira pela manhã.

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