sábado, 17 de outubro de 2026


17 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

Vestibular para populista

As torcidas de Lula e Flávio Bolsonaro gostam de apresentá-los como antagônicos em tudo. Não são tanto assim. Quando se trata de usar as burras públicas para perguntar quem quer dinheiro, há pouca diferença entre eles.

Desde março, Lula já anunciou cerca de 25 benesses eleitoreiras. É a reciclagem sofisticada da velha prática coronelista em que um candidato prometia um pé de sapato agora e o outro para depois da eleição. Quem não votar nele perderá os benefícios, ameaça Lula. 

Já Flávio não só não desautorizou nenhuma das benesses como foi além: prometeu baixar a prestação do Minha Casa, Minha Vida e outros que tais, como um tesouraço nos impostos. É uma disputa cabeça a cabeça sobre quem gasta mais sem fazer as contas sobre a realidade fiscal do país, com forte cheiro de estelionato eleitoral no ar.

Apesar da epidemia de gastança que contagia as duas candidaturas, o mercado reagiu favoravelmente à vitória de Flávio no primeiro turno. A expectativa de um freio de mão no populismo não reflete os compromissos de Flávio e nem a gestão pregressa do bolsonarismo. Em busca da reeleição, Jair Bolsonaro lançou a PEC Kamikaze e empurrou o pagamento de precatórios e repasses aos Estados para o governo seguinte, a fim de assegurar um superávit de araque no fim de mandato.

Até agora, os afagos eleitorais de Lula já custam cerca de R$ 290 bilhões adicionais aos contribuintes. Os de Flávio, que promete não revogar nada e ir além, sabe-se lá. Quem vai pagar a fatura? Todos nós, seja por meio de mais impostos, mais dívidas, mais juros, mais inflação, menos serviços e menos investimentos públicos ou, como é provável, tudo isso junto. Dinheiro que compra apoio político hoje é dinheiro que vai faltar amanhã para obras, segurança, saúde e ciência.

Na prática, a disputa presidencial virou uma peleja de promessas inexequíveis para um país cuja explosiva e crescente dívida pública já consome 82,9% do PIB. Em nome da vitória a qualquer custo, arquivou-se o debate sobre reformas capazes de fazer uma imensa massa de vulneráveis trocar de patamar de vida. No lugar de mudanças estruturais, estimula-se que grande parte do eleitorado permaneça no curral da dependência do Estado.

Fosse o esbanjamento redirecionado a uma crucial revolução na educação, ainda haveria esperança de transformações estruturais e de não ficarmos eternamente no segundo pelotão, como ocorre na inteligência artificial, para citar um exemplo.

 A IA está virando o planeta de cabeça para baixo, incluindo o mercado de trabalho e a renda. Na campanha, nem chegamos a roçar essa discussão, porque o país se tornou refém de um mero campeonato sobre qual candidato usa mais anabolizantes populistas para estimular seu tônus eleitoral. 

MARCELO RECH

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