quinta-feira, 20 de novembro de 2025



20 de Novembro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Master já deflagrou mudanças no FGC

A quantidade de compradores de CDBs superfaturados do banco Master levou o aplicativo do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) ao topo do ranking de aplicativos mais baixados por brasileiros na terça-feira. Nas contas do próprio fundo, até 1,6 milhão de aplicadores terão direito a compensação de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.

Isso significa que o fundo terá de desembolsar R$ 41 bilhões de seu total de patrimônio de R$ 160 bilhões, dos quais R$ 122 bilhões são de recursos líquidos em caixa - todos dados oficiais do FGC. Por isso, o caso Master não é um evento, digamos, regular. Vai consumir 33,6% do volume de dinheiro disponível no instrumento que ajuda a garantir a confiança no sistema financeiro nacional. Esse terço gasto terá de ser recuperado, o que significa um custo a mais no sistema.

Os bancos vão depositar, mas não precisa muito exercício mental para saber para onde vai a conta final: os consumidores de produtos financeiros mais cautelosos vão pagar pela aventura de Daniel Vorcaro como banqueiro. E de seus clientes que apostaram em seus CDBs que pagavam muito acima da média de mercado, mesmo os que foram alertados sobre os riscos envolvidos.

Se é verdade que boa parte dos clientes não tinha a mínima ideia de como o banco pretendia pagar um rendimento tão acima da média, outros tinham consciência de que isso não se sustentaria no tempo. Logo depois do anúncio da venda do Master, o Conselho Monetário Nacional (CMN) ajustou as regras do FGC. As mudanças deveriam valer a partir de 1º de junho de 2026. Com o tranco da movimentação bilionária, podem ser antecipadas.

Risco maior, contribuição maior

O principal objetivo das mudanças é desencorajar práticas agressivas na captação de recursos, caso da promessa de retorno mais alto do que a média do mercado. Na prática, instituições com alta alavancagem - empréstimos acima de 10 vezes o valor de seu patrimônio líquido ajustado - terão de aumentar sua contribuição para o FGC. Hoje, os bancos pagam 0,01% ao mês do total dos depósitos que podem ser protegidos pelo fundo. Quem quiser ter perfil mais arriscado teria taxa duplicada, chamada de "contribuição adicional". _

Compliance zero

A operação da Polícia Federal que envolveu sete mandados de prisão e 25 de busca e apreensão é chamada Compliance Zero. A expressão vem do termo em inglês usado no universo empresarial, não só no financeiro, para designar o conjunto de práticas que garantem o cumprimento de leis, regulamentos, normas éticas e políticas internas. Ao definir os dois alvos - Master e BRB - como zero, a PF indica que era inexistente nos dois bancos.

Em dia de cautela no mercado, o dólar avançou 0,38%, a R$ 5,338. Investidores esperam com ansiedade dados da economia dos EUA que serão liberados hoje, em pleno feriado. Vão fazer preço no Brasil na sexta-feira.

13 produtos exportados do RS aos EUA têm redução de tarifa

A decisão de Donald Trump de suspender a "tarifa recíproca" de 10% só se aplica a 13 produtos exportados do RS para os EUA. Considerando os envios do Brasil todo ao mercado americano, a medida afeta 65 bens. O levantamento é do núcleo de Competitividade, Economia Regional e Internacional da Unisinos, com base em análise preliminar da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Em 2024, as exportações gaúchas desses 13 produtos somaram US$ 43,7 milhões, 2,4% do total enviado pelo Estado para os EUA no ano passado.

Um desses 13 itens, o suco de laranja, ficou livre de qualquer taxa de importação, porque já estava isento do tarifaço aplicado sobre o Brasil. Os outros 12 passaram a ter alíquota total reduzida, mas ainda vão enfrentar taxação de 40%.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), nos três primeiros meses de tarifaço, as exportações do RS para os EUA caíram 34% em relação ao mesmo período do ano anterior. Essa queda representa perda de US$ 155,6 milhões. _

produto US$ milhões

Carne bovina cong. 22,1

Processados de bovino 17,1

Extratos de café 1,9

Sucos de laranja cong. 1,1

Mate 0,6

Sucos de outros cítricos 0,6

Bebidas não-alcoólicas 0,2

Sementes 0,02

Geleias de frutas 0,01

Chá verde 0,01

Frutas de casca rija 0,005

Chá preto 0,0005

Fécula de mandioca 0,0005

Por que demorou a intervenção do BC?

Depois da liquidação do Master e da prisão de seu proprietário, Daniel Vorcaro, Banco Central (BC) e Polícia Federal (PF) passaram a expor os motivos das duas medidas. Mesmo em um país tristemente habituado a fraudes, essas surpreendem. Uma das mais espantosas é a do "esquema" da fraude que permitiu injeção de R$ 16,5 bilhões de um banco público, o Banco de Brasília (BRB), dos quais R$ 12,2 bilhões foram totalmente sem lastro, conforme a PF.

Nesse caso, segundo a investigação, "sem lastro" significa uma planilha, sem qualquer base real, de operações de crédito consignado inexistentes que o Master teria "vendido" ao BRB em troca dos repasses feitos para dar sobrevida ao banco privado. Essa foi a causa do afastamento, por decisão judicial, do presidente, Paulo Henrique Costa, e do diretor financeiro do banco público, Dario Oswaldo Garcia Júnior. Para deixar claro: os R$ 12 bilhões em operações de crédito não existiam, foram "fabricados" no papel.

A fraude é tão grosseira que fez muitos brasileiros perguntarem por que o BC não tomou antes a decisão de liquidar o Master. Uma das explicações é que, depois de descoberto, o esquema parece tosco, mas estava embrulhado em vários fundos com participação em outros fundos, em cascata. Só começou a ser desvendado quando foi feita a inusitada proposta de compra de um bancão por um banquinho. O BC pediu documentação para justificar a transação e, depois de remover muitas camadas, chegou a essa peça reveladora.

Nos cinco meses que separam o anúncio de venda, em 31 de março, ao veto definitivo do BC para a operação, em 3 de setembro, não houve só abertura técnica de fundos.

- A pressão política foi gigantesca no Banco Central - explicitou ainda na terça-feira o presidente da Associação de Auditores do BC, Thiago Cavalcanti.

Até agora, só se sabe que houve um projeto de lei apresentado em regime de urgência para permitir que diretores do BC fossem demitidos pelo Congresso, como a coluna relatou.

Se o Brasil conhecerá todas as conexões políticas do Master que levaram a esse absurdo legislativo, vai depender muito do liquidante do banco privado. Até agora, não foram quebrados sigilos, nem bancários nem os chamados "telemáticos" - aplicativos de mensagens, telefones. Caso a investigação avance o suficiente, 2026 será um ano eleitoral movimentado. _

GPS DA ECONOMIA

 20 de Novembro de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Conexões de Vorcaro precisam ser esmiuçadas

O feriadão do Dia da Consciência Negra será de desassossego para os políticos que negociaram com Daniel Vorcaro, o dono do falecido Banco Master, ou que trabalharam para aprovar leis que favorecessem a continuidade das falcatruas. O primeiro com motivos de sobra para perder o sono é o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Ele não tem como dizer que não sabia das tramoias feitas pelo Banco Regional de Brasília, o BRB, que só não comprou o Master porque o Banco Central foi responsável e impediu o negócio.

Quando a Polícia Federal (PF) juntar todas as partes do quebra-cabeças se conseguirá entender que interesses levaram a direção do BRB a tentar comprar um banco quebrado, fazendo uma operação fictícia de R$ 12 bilhões. O presidente do banco estadual foi afastado pela Justiça, mas a responsabilidade do governador ainda está sendo apurada.

Outro político que tem motivos para perder o sono é o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e os gestores do fundo de previdência dos servidores estaduais que resolveram investir no Master um valor superior aos R$ 250 mil garantidos em caso de quebra. Quem arcará com o prejuízo? Não podem ser os servidores do Rio de Janeiro.

A PF ainda terá de dissecar as relações do dono do Master com políticos de diferentes partidos no Congresso. Em agosto do ano passado, o presidente do PP, Ciro Nogueira, defendeu os interesses do Master propondo um aumento na cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por conta. Seria o cúmulo da ingenuidade imaginar que quem fez esse movimento agiu por inspiração divina ou pressentimento de que bancos quebrariam e deixariam clientes endinheirados na mão.

No podcast O Assunto, o jornalista Estevão Taiar, do Valor Econômico, deu as pistas da teia de relações políticas que Vorcaro construiu em Brasília com "amigos" à esquerda e à direita. Na lista de poderosos de quem Vorcaro se aproximou está o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, um dos homens mais poderosos do governo Lula. 

Assembleia reconhece atuação em favor da comunidade negra

Durante sessão solene alusiva ao Dia da Consciência Negra, a Assembleia Legislativa realizou ontem a entrega do Troféu Deputado Carlos Santos e do Prêmio Zumbi dos Palmares a personalidades ou entidades com atuação em favor da comunidade negra em diversas áreas.

Na sequência, deputados de diversas bancadas se revezaram na tribuna para falar sobre a importância da data e os desafios da população negra - que, pela primeira vez, conta com uma bancada no Parlamento gaúcho. 

Racha na direita faz Progressistas voltar atenção aos Estados

Ciro está em pé de guerra com a direita desde que travou embate com Eduardo Bolsonaro há algumas semanas.

Apesar de indicar um afastamento do PL, do Republicanos e do Novo, o presidente do PP no RS e pré-candidato a governador, Covatti Filho, está confiante de que o movimento não vai afetar as negociações locais. 

Leite manda revogar sigilo em relação a voos com aeronaves

Filha de Lilian Celiberti terá exposição em Porto Alegre

Atropelo a lei estadual

O projeto aprovado pela Câmara de Porto Alegre que libera as bebidas alcoólicas nos estádios agrada a torcedores, e clubes, mas não tem aval das forças de segurança. Foi por isso que diversas tentativas de revogação da lei estadual não prosperaram. A Assembleia chegou a aprovar um projeto, mas foi vetado. O prefeito Sebastião Melo deveria fazer o mesmo, já que uma lei municipal não pode se sobrepor a uma norma estadual. 

POLÍTICA E PODER

 20 de Novembro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Pessimismo paira sobre a COP30

O clima mudou. E não falo das mudanças climáticas nem das condições do tempo em Belém, onde há chuvas e trovoadas a cada final de tarde. Refiro-me ao ambiente interno da Blue Zone, a área de decisões da COP30.

Os negociadores foram dormir tarde, nas primeiras horas de ontem, depois que os debates entraram madrugada adentro. Havia otimismo no ar a partir do primeiro rascunho de texto final, no qual estava incluída a redução gradual do uso de combustíveis fósseis, exatamente como desejam ambientalistas e parte do governo Lula, em especial o grupo ligado à ministra Marina Silva, do Meio Ambiente. O texto também recebeu o apoio de mais de 80 países.

O problema é que o grupo dos oposicionistas, liderado pela Arábia Saudita (sempre ela), entrou em campo - e considera inegociável a questão. É do jogo da negociação, mas todos baixaram as expectativas por aqui.

O termo "redução gradual de uso" de fósseis é diferente de "transição para longe", presente no documento da COP28. Seria mais ambicioso.

Risco de golpe de morte

Nos bastidores, surgiu a ideia de se separar o tema para debate em outro fórum, um encontro político a ser realizado no futuro, fora do ambiente da COP. O risco é que isso desidrataria o texto final da conferência de Belém, cujo documento não faria referência a combustíveis fósseis ("a COP flopou", cheguei a ouvir de uma parte). E, pior, poderia representar o golpe de morte nas COPs e no sistema multilateral.

A ONU, que já não consegue evitar guerras e foi questionada diante da pandemia, provaria, para os críticos, sua ineficiência ao não conseguir consenso sobre mudanças climáticas. Para o Brasil, a COP30 não seria nem a "COP da implementação" (como desejava o governo), porque não implementaria nada. Nem seria a COP do multilateralismo.

Em outro movimento, a Austrália jogou a toalha. A Turquia irá sediar a COP31, no ano que vem. O país de Recep Tayyip Erdogan vinha apostando muito mais suas fichas para sediar a conferência do que a nação da Oceania. A sede deve ser em Antalya, um balneário do Mediterrâneo, que o governo pretende alavancar como ponto turístico, a exemplo do que o Egito fez ao realizar a COP27 em Sharm el-Sheikh.

A Turquia vem crescendo em demonstração de força geopolítica, principalmente depois do papel de mediadora que exerceu no acordo de cessar-fogo entre o grupo terrorista Hamas e Israel. A chefia das negociações ficará com os australianos, enquanto a presidência, hoje exercida pelo Brasil, será passada aos turcos. _

Temos mais com que nos preocuparmos

Sabe qual foi a repercussão das falas grotescas do chanceler alemão na COP30? Nenhuma. Obviamente, Friedrich Merz foi infeliz, mal- educado e descortês em relação a Belém. Mas isso não teve efeito algum nas negociações ou no ambiente da COP. Nem os belenenses ficaram irados, preocupados ou sequer chateados. Sabe por quê? Porque eles têm mais o que fazer - trabalhar, receber bem os visitantes e lidar com as agruras de uma cidade que tem, sim, seus problemas estruturais, como todas as metrópoles brasileiras.

O debate sobre se foi ou não uma agressão ao Brasil pulula ou nas redes sociais, o tribunal preferido da opinião pública, ou entre a elite política - que, aliás, adora capitalizar uma polêmica a fim de ganhar alguns pontos de popularidade. Mas daí o plenário do Senado aprovar um requerimento de voto de censura a Merz, me parece demais. Como se os nobres parlamentares não tivessem mais com o que se preocupar.

De toda a falsa polêmica, talvez a declaração mais sensata tenha vindo do embaixador André Corrêa do Lago, o presidente da COP30 - que, aliás, só se manifestou sobre o assunto porque foi perguntado por um jornalista.

- Tem tanta coisa boa sendo dita sobre Belém. Tem tanta coisa boa sendo dita sobre a COP. Não temos que ouvir as pessoas que não sabem apreciar. Não temos que ligar para o que as pessoas estão falando, estamos acima disso - disse. _

Viaturas elétricas para a BM

Enquanto em Belém ocorre a COP30, em Porto Alegre a Brigada Militar (BM) entregou ontem duas viaturas 100% elétricas ao 9º Batalhão de Polícia Militar (9º BPM).

Os veículos, modelo BYD Yuan Pro, passam a reforçar a frota operacional da unidade e simbolizam o avanço da corporação na adoção de tecnologias sustentáveis.

As aquisições foram viabilizadas por meio de projetos técnicos desenvolvidos pelo setor de Projetos do 9º BPM e financiadas com recursos destinados pela Central de Execuções Penais de Porto Alegre, da Justiça Federal, e pela Vara de Execução de Penas e Medidas Alternativas, da Justiça Estadual. _

Santos Dumont e a reitora da UFRGS

A Casa da Ciência, sede do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) na COP30, abriga a exposição "A Ciência Brasileira e seus Personagens". Nela são apresentadas 81 personalidades que fizeram e fazem a história da ciência e da tecnologia no país, como a reitora da UFRGS, Márcia Barbosa.

Entre os homenageados, ao lado de Márcia Barbosa, estão: a médica Margareth Dalcolmo, que teve forte atuação na pandemia; a atual ministra da Ciência, Tecnologia e Inovações, Luciana Santos; a filósofa e escritora Marilena Chauí; a economista Maria da Conceição Tavares; a presidente da Academia Brasileira de Ciências, Helena Nader; o cientista e médico Carlos Chagas; o ex-ministro Celso Pansera; o físico e ex-ministro Sérgio Rezende; o aeronauta e inventor Santos Dumont, entre outras personalidades. _

Cientistas criticam o rascunho

Um grupo com alguns dos principais cientistas climáticos do mundo lançou ontem um documento criticando, de forma enfática, a primeira versão do rascunho das negociações que define o que seria o "mapa do caminho" na COP30.

Na carta, os pesquisadores chamaram as propostas apresentadas, até o momento, de "provocação".

"Na forma como se apresentam, ambas as propostas para os planos de ação para eliminar os combustíveis fósseis e para acabar com o desmatamento são uma provocação. Os delegados parecem não entender o que é um plano de ação. Um plano de ação não é um workshop ou uma reunião ministerial. Um plano de ação é um plano de trabalho real que precisa nos mostrar o caminho de onde estamos para onde precisamos estar, e como chegar lá", escreveram no documento. 

INFORME ESPECIAL

sábado, 15 de novembro de 2025


15 de Novembro de 2025
ENTREVISTA

Adriana Calcanhotto

Cantora e compositora gaúcha por trás do heterônimo Adriana Partimpim, que completou 22 anos. "Eu trago a música para o meu universo"

Após 15 anos, Adriana Calcanhotto voltou aos palcos como Partimpim. A cantora porto-alegrense, conhecida pelos sucessos autorais e por suas versões de músicas de outros compositores, retomou os shows como o heterônimo que consagrou a canção Fico Assim Sem Você e que encanta crianças e adultos desde 2004. Agora, apresenta a turnê O Quarto na Sala, em show único no Auditório Araújo Vianna, neste domingo, na Capital, às 17h. Por telefone, ela conversou com ZH sobre o show.

Tens comentado que as crianças iam ao show como Calcanhotto para ouvir Mentiras. Depois de 20 anos, tem acontecido de muitos adultos irem ao teu show como Partimpim para ouvir Fico Assim Sem Você?

Muito. Tem adultos de todas as gerações, e tem esses que hoje em dia são adultos, mas que foram ao primeiro ou ao segundo show como crianças. E agora eles têm as próprias crianças e vão com elas ou vão em bandos de adultos, enfim. Alargou ainda mais o espectro de público. O que me deixa muito feliz.

Tu falas que teus covers são músicas que querias ter escrito. Como funciona para elaborar as tuas versões?

Eu trago a música para o meu universo, para o meu violão, para o meu jeito de cantar e de fazer. Isso já era um pouco assim desde que eu comecei a tocar na noite de Porto Alegre. Eu pegava a canção que as pessoas queriam ouvir no bar, mas eu cantava do meu jeito. Por isso que eu não sobrevivi em um tipo de lugar onde as pessoas vão para ouvir a versão mais parecida possível com a gravação original.

Como foi o processo de entrar na pele da Partimpim de pois de tantos anos?

Olha, foi muito natural. É como andar de bicicleta, tu não te esqueces. É só uma frequência que está ali, mas que eu não posso deixar aberta enquanto eu estou fazendo outras coisas. Eu vejo que o trabalho da Partimpim é muito contagiante. As pessoas que trabalham, as que estão no palco e as que não estão, começam todas a entrar nessa vibe Partimpim. Isso acontece comigo também.

Nesses 21 anos, a ideia da Partimpim já foi diminuída em algum momento?

Muito, durante muito tempo. Até ela existir e Fico Assim Sem Você virar um sucesso, era uma coisa que as pessoas não entendiam muito. O formato estava muito engessado e eu só quis oferecer uma alternativa à forma como crianças ouviam música. Então, quando você aparece com uma coisa que ainda não foi feita, fica todo mundo um pouco desconfiado. E quando vi essa reserva das pessoas, entendi que aí mesmo é que eu tinha de fazer. Se todos tivessem gostado, não sei se eu ficaria tão interessada na batalha.

Numa época tão hiperconectada, o que chama atenção das crianças na Partimpim?

Essa potência toda de uma banda de músicos excepcionais, com canções lindas, com arranjos maravilhosos, com o cenário, os figurinos. É um pouco a sensação que eu tinha quando via, embora pela televisão, Ney Matogrosso e Rita Lee, que não eram artistas só da música: todo o visual também está se comunicando.

É um ano intenso para você aqui em Porto Alegre: houve um show gratuito ao ar livre com a Orquestra do Theatro São Pedro e a participação surpresa no show de Gilberto Gil. Como foi cada momento?

É verdade. Nem todo ano eu consigo ir tanto. O show ao ar livre com orquestra foi maravilhoso. Aquele público, e teve um número Partimpim. Foi realmente incrível. Uma soma de coisas muito bonitas. E o show com o Professor, que me deu esse presente de ser a convidada em Porto Alegre. Fazia tempo que eu não via o Gil e é sempre maravilhoso estar perto dele. É só ficar olhando para ele que você aprende muito - sobre muita coisa, não só sobre música.

E como era guardar o segredo para não vazar teu nome como participação especial? Horrível. Era horrível não poder dizer: "Eu vou cantar no show do Gil!". Por fim, o que quem vai ao show domingo pode esperar?

Já estamos em momento da turnê que a gente não está mais pensando nos acordes e nas letras. É um momento muito bom de um espetáculo. Você já tem memória muscular do que está fazendo, então pode ficar solto para aproveitar o que acontece. _

*Produção: Breno Bauer

15 de Novembro de 2025
CARPINEJAR

Galinhas voam

Sou um mascate da palavra. O único Estado que ainda não visitei foi o Amapá. Nas demais 26 unidades federativas, já sou reincidente. Coleciono histórias inesquecíveis que teriam sido perrengues se não houvesse senso de humor. Meu lema é rir do que não aconteceu, e rir do que não estava previsto para acontecer.

A noção de que sou transitório erradica qualquer laivo de arrogância ou soberba. Não tenho controle majoritário sobre o destino, apenas improviso e acolho as consequências. Não é certo que será usado o que se carrega na bagagem. Planejamentos são meros rascunhos.

Minha viagem de carro de Teresina a Bom Jesus, para participar do Salão do Livro do Piauí, caiu bem no dia da final da Libertadores entre Flamengo e River Plate, em 23 de novembro de 2019. Eu enfrentaria oito horas de estrada por mais de 600 quilômetros.

O cansaço não faz cócegas enquanto há conexão: você se distrai e se comunica com o mundo. Depois, o sinal some, nem o rádio solta mais nenhum murmúrio, e a ansiedade de chegar começa a enlouquecer. Eu queria muito assistir a quem levantaria a taça. Naquela época, Rafael Borré ainda estufava as redes.

Durante quase todo o embate, o time argentino se manteve com vantagem, perto do seu pentacampeonato da América. Faltavam 10 minutos de bola rolando. Encontrava-me no meio do deserto, sem posto de gasolina, sem um outro veículo na pista, num calor escaldante de 40 graus. O asfalto zunia. Pirei com a minha condição desorbitada, alienado de notícias, e disse para o motorista:

Pare na primeira casa que surgir. Ele estranhou minha súplica, mesmo assim me obedeceu. Alguns quilômetros à frente, avistamos um casebre de madeira com verde descascado.

Bati à porta - cara de pau sempre esbanjei - e perguntei se podia me juntar à torcida. Pela algazarra que escapava pelas frestas da janela, aquela família realmente acompanhava os últimos instantes da decisão. O piauiense é flamenguista roxo.

Ninguém entendeu quem eu era, mas me permitiram entrar para não perderem tempo com conversa. Sentei apertado entre todos, no cantinho de um sofá lotado. Os homens estavam sem camisa. As crianças, com remela e ranho, choravam abandonadas pelos adultos. As mulheres se escoravam de pé nas paredes, em atenção aflita.

Até que vi galinhas atravessando a sala. Elas apareceram quando Gabriel Barbosa empatou, aos 89 minutos. O povo pirou com murros nas mesas e socos no ar. Veio o segundo gol de Gabriel com três minutos de diferença.As galinhas se assustaram com a explosão de berros e arriscaram voar. Penas caíram sobre nós, como se um travesseiro tivesse sido furado.

De repente, uma galinha pousou no meu colo. Eu não me mexia, esperando que ela tomasse a iniciativa. Eu, num lar de desconhecidos, chocado com a virada do placar, diante do bicampeonato rubro-negro - e ela me chocando. 

CARPINEJAR

15 de Novembro de 2025
ANDRESSA XAVIER

O cais do Pará

Belém do Pará mais parece outro país quando visto por moradores do extremo sul brasileiro. É tudo muito diferente do que vivenciamos no Rio Grande do Sul. O calor, a floresta, a comida, os costumes. As casas em palafitas, circular de barco, as frutas e peixes. Tudo é bem típico. As dimensões continentais do Brasil nos garantem esse leque de tradições e cultura. Nossa riqueza está nisso e tive o privilégio de, ao cobrir a COP, conhecer um pouquinho do Norte.

O mercado Ver-o-Peso, o maior da América Latina a céu aberto, tem de tudo. Peixe, carne, frutas, goma de tapioca, castanha, comidas prontas, artesanato e perfume de ervas para o famoso banho de cheiro. É lugar de turistas, de moradores, de todo mundo. Logo ali ao lado, o que chama atenção é outro cartão-postal paraense. A Estação das Docas é imponente, muito por conta dos guindastes amarelos. Essas estruturas foram mantidas para lembrar a história do local.

No final do século 19 e começo do 20, o Pará vivia a abundância proporcionada pelo ciclo da borracha. O látex vindo da floresta abastecia os mercados mundiais. A Inglaterra produziu e trouxe grande parte da estrutura. Depois do auge, veio a derrocada. Com a concorrência mundial, a borracha deixou de ser levada daqui. Os armazéns e estrutura logística ficaram abandonados por décadas. A ligação da cidade com o Rio Guajará ficou restrita. Em meio aos quase escombros, cresceu somente a insegurança e aquele virou um local de prostituição e tráfico de drogas.

A situação é a mesma que conhecemos na capital gaúcha. Felizmente faz alguns anos que o Cais Embarcadero abriu, ainda que seja uma brecha, e proporcionou o reencontro da população com o Guaíba. Mas Belém foi além disso, e muito antes da gente. No ano 2000 foi inaugurado o atual complexo, com meio quilômetro de extensão. Os armazéns foram revitalizados, a área virou ponto de encontro, o turismo tomou o lugar dos problemas que antes havia ali.

As docas unem teatro, com ruínas de uma construção de 1665, e outras atrações culturais. Tem também os armazéns que viraram espaços gastronômicos. A operação é simples. Espaços antigos que foram modernizados e abrigam restaurantes lado a lado, em um mesmo salão. A sorveteria Cairu, que os paraenses dizem que é a melhor do Brasil, faz jus à fama. Entre os sabores, bacuri, castanha, milho, tapioca e açaí, o puro. São 25 anos de um espaço popular, acessível e que virou ponto de encontro. O cais deles funciona e deve ser exemplo para os nossos armazéns, descuidados e caindo aos pedaços.

Mesmo com um delay de décadas, temos aqui, no nosso quintal, a oportunidade de um cais vivo e maior. A amostra que o Embarcadero nesses últimos anos traz é de esperança de uma ocupação maior da área portuária para, de fato, fazermos as pazes com a história e com a nossa orla. _

ANDRESSA XAVIER

15 de Novembro de 2025
MARCELO RECH

O buraco era mais embaixo

Fui entender a relevância do Brasil no cenário ambiental do planeta quando, em fevereiro de 1992, percorrendo a linha de frente na Guerra da Iugoslávia, uma equipe de TV da Croácia pediu para fazer uma entrevista comigo. Ao me posicionar diante da câmera, imaginei que iriam tentar extrair algo sobre como os brasileiros acompanhavam o conflito, mas a primeira pergunta foi:

- Por que o Brasil está queimando a Floresta Amazônica? - questionou a repórter.

Ahn, como assim? Eles estão numa guerra e a preocupação é com a floresta do outro lado do mundo?, surpreendi-me.

Foi minha iniciação ao planeta interconectado. Meses depois, ao cobrir para Zero Hora a Cúpula da Terra, a Rio-92, testemunhei a foto de 108 chefes de Estado - George Bush e Fidel Castro no mesmo plano, separados por uns 10 metros - em defesa da mesma causa. Com tal demonstração de unidade, não tem como dar errado, imaginei.

Santa ingenuidade. Por ressaca ou saturação, a questão ambiental submergiu por anos após a Rio-92. Mas nem tudo foi em vão. O conceito de sustentabilidade se expandiu a partir da conferência, embora até ali o desafio imediato fosse conter o desmatamento e lidar com a destruição da camada de ozônio. As incipientes mudanças climáticas já eram associadas aos efeitos dos gases estufa. Um deles, o CFC, usado em aerossóis e em refrigeração, era uma foice pairando sobre o pescoço dos terráqueos.

O tema era tão recorrente que, em dezembro daquele mesmo 1992, retido em Punta Arenas, no Chile, à espera da melhora do tempo para um pouso com a FAB na Antártica, resolvi, junto com o fotógrafo Luiz Armando Vaz, investigar as consequências do buraco na camada de ozônio no extremo sul das Américas. Saímos de lá com uma reportagem em ZH sobre o efeito do CFC sobre a pesca da centolla, um caranguejo gigante típico das águas geladas da Terra do Fogo.

Hoje, o buraco, com perdão do mau trocadilho, é bem mais embaixo. Graças à substituição do CFC, a camada de ozônio está aos poucos voltando ao normal. Felizmente, já nem se fala muito dela. Só que o efeito estufa em decorrência do CO2, o dióxido de carbono, se agravou de maneira dramática. Acordos de Kyoto, de Paris, disso e daquilo, não revertem a expectativa de que a temperatura mundial subirá 2,8ºC até o fim do século, com consequências impensáveis.

Como agravante, surgiu um oceano de negacionismo, descrédito e desprestígio entre o Rio de 1992 e a COP de Belém. Em três décadas, as conferências sobre o clima se converteram em happenings ambientais, com escassos efeitos práticos sobre realmente aquilo que interessa: a preservação da saúde da Terra. Já não há mais tempo para sermos incrédulos ou ingênuos. _

MARCELO RECH

15 de Novembro de 2025
OPINIÃO RBS

Plano insuficiente para as ferrovias do RS

Corroída por anos de negligência, situação agravada pela tragédia climática do ano passado, a malha ferroviária do Rio Grande do Sul necessita com urgência de um plano robusto de recuperação e modernização. Por isso, causam preocupação as informações preliminares sobre a proposta da empresa Rumo para prorrogar por 30 anos seu contrato de concessão das ferrovias em solo gaúcho, em Santa Catarina e no Paraná, que vence em fevereiro de 2027. A promessa da concessionária, conforme apurado pelo colunista Jocimar Farina, é aplicar R$ 10 bilhões nos três Estados do Sul - entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões, porém, correspondem a uma indenização que a Rumo teria de pagar à União justamente por conta da deterioração da infraestrutura federal sob sua gestão. A intenção é converter essa compensação em investimento.

Os benefícios previstos para os gaúchos, que totalizariam R$ 2,5 bilhões, são insuficientes para atender às demandas logísticas do setor produtivo por não contemplarem a religação da rede com o restante do país e por incorporarem ao contrato com a União a diminuição da malha provocada pelo desleixo com a manutenção do sistema ao longo de décadas, conferindo amparo legal ao abandono do patrimônio público.

As cláusulas cogitadas pela concessionária preveem a aplicação do valor exclusivamente na linha Cruz Alta-Rio Grande - único trecho que segue ativo no Estado. Além da troca de cerca de 700 quilômetros de trilhos, seriam comprados 10 locomotivas e quase 400 vagões. Isso permitiria elevar a capacidade de carga por eixo de 18 para 25 toneladas, mas deixaria pendentes soluções para os graves gargalos logísticos. A ligação com Santa Catarina foi interrompida pelos danos da enchente de 2024, e segue assim desde então. Para piorar, segundo a colunista Giane Guerra, parte dos trilhos ociosos vem sendo transferida pela Rumo para o Estado vizinho. Além disso, a Secretaria Estadual de Logística e Transportes avalia que a confirmação de um novo contrato nos moldes sugeridos cristalizaria o apequenamento de uma rede de trilhos que já teve 3,8 mil quilômetros e, concedida à iniciativa privada desde 1997, agora tem menos de mil quilômetros ativos.

Até 2005, a operação do sistema cabia à América Latina Logística (ALL), posteriormente adquirida pela Rumo. Não se trata de questionar o modelo de concessão à iniciativa privada, mas de garantir que a renegociação do contrato atual ou a decisão por um novo processo licitatório contemple as necessidades do Estado. Razões não faltam para investir no modal ferroviário: além de diminuir o volume de carga e o número de caminhões nas rodovias, o que reduz acidentes e amplia a vida útil do pavimento, o transporte sobre trilhos barateia custos de produção. O preço do frete de grãos até o porto de Rio Grande, por exemplo, poderia cair 22% ao trocar as carretas pelos vagões.

Os interesses dos gaúchos precisam ser ouvidos neste debate, seja por meio de seus representantes eleitos, seja por meio da sociedade civil. Até o momento, o governo estadual diz estar alijado da discussão. Embora caiba à União bater o martelo sobre o rumo dos trilhos no Rio Grande do Sul, é preciso encontrar um caminho que permita vislumbrar uma luz no fim do túnel. _



15 de Novembro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Condenação didática da BHP em plena COP30

A BHP, uma das acionistas da Samarco, responsável pela barragem de Fundão, em Mariana (MG), foi condenada pelo Tribunal Superior de Londres na sexta-feira. A decisão foi tomada depois de 10 anos da tragédia e coube à Justiça britânica porque na época a BHP tinha sede no Reino Unido. Ainda cabe recurso, e o valor das indenizações só será definido em outro julgamento, com previsão para outubro de 2026.

A decisão atribui à BHP responsabilidade direta, o que significa que terá de compensar os danos ambientais e sociais causados pelo rompimento da barragem, mesmo sem intenção de provocar esse resultado. É didático que essa decisão tenha sido tomada durante um impasse na COP30, o mesmo de sempre: quem paga a conta do combate e da adaptação à mudança do clima. As empresas querem ajuda dos governos, que já estão envolvidos com os custos da falta de responsabilização. É fácil de entender no caso do Brasil: os gastos mais pesados com a reconstrução do RS mal começaram, e já é preciso acudir Rio Bonito do Iguaçu, outra vítima da maior severidade das tempestades.

Avaliação de risco costuma ser subestimada

Um dos motivos pelos quais as contas não fecham, COP após COP, é a falta de inclusão, na avaliação de riscos da atividade empresarial, de impactos negativos. Não só dos mais dramáticos, como os de Mariana, também os corriqueiros, como alagamentos constantes provocado por chuva concentrada. Como essa análise é com frequência subestimada, a compensação que está na mesa em Belém parece excessiva. No ano passado, o mais quente já registrado, as perdas econômicas com desastres climáticos foram estimadas em US$ 368 bilhões. Não por uma ONG ambiental, mas pela Aon, empresa de gerenciamento de riscos e seguros.

À luz desse dado, os US$ 1,3 trilhão que a COP30 ambiciona mobilizar até 2035 parecem menos ambiciosos. Se as perdas de 2024 se repetissem anualmente, seria necessário o dobro, US$ 3,6 trilhões, para enfrentar as consequências da mudança do clima. A essa altura, a única escolha é entre a prevenção e a reconstrução. E prevenir custa menos. _

Na sexta, o dólar voltou marcar passo: oscilou 0,02% para cima, a R$ 5,297. Na bolsa, faltaram 10 pontos para novo recorde nominal: a alta de 0,37% levou a 157.738 pontos. O petróleo subiu 2% com ataque da Ucrânia a base russa.

Um spa de 2 mil m2

O complexo de luxo W Gramado, com investimento de R$ 300 milhões, inclui um Wellness Club de 2 mil m2. Serão instalados no local de sauna com sal do Himalaia a bar com experiência de beleza, chamado de Beauty Bar. A grife W pertence a uma das maiores redes de hospedagem do mundo, a Marriott, dona de cerca de 9,6 mil hotéis em 143 países.

O espaço ainda terá academia, estúdios e piscinas com diferentes temperaturas, som sub­aquático e cromoterapia, que ajudaria o corpo a relaxar. _

R$ 295 bi

é o potencial de investimento em expansão das fontes renováveis de energia na transição para uma economia de baixo carbono. A estimativa é de estudo feito em parceria entre Itaú Unibanco e Fundação Getulio Vargas (FGV). Isso representaria impacto positivo de R$ 337 bilhões a R$ 465 bilhões no PIB até 2035. Na agropecuária, soluções de adaptação tecnológica - como sementes mais resistentes e ampliação de técnicas de precisão - podem evitar perdas de até R$ 61 bilhões por ano nos principais cultivos do país.

Trump cede à pressão anunciada

Sim, a conta do tarifaço bateu à porta da Casa Branca. No final da sexta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem executiva reduzindo a tarifa de várias dezenas de alimentos, como carne e café, para todos os países, incluído o Brasil.

O formato da confirmação foi complexo, aparentando evitar uma capitulação. As novas regras incluem até mudança da nomenclatura dos produtos, o que é bastante incomum.

A lista inclui coco, nozes, abacate e abacaxi. A medida é considerada uma resposta à pressão dos eleitores para reduzir os preços de produtos do dia a dia. São itens que não podem ser produzidos nos EUA em quantidade suficiente para atender à demanda interna. Preços de vários alimentos haviam subido com força nos EUA, como 11 a cada 10 analistas haviam advertido ainda antes do anúncio oficial do tarifaço. 

GPS DA ECONOMIA 


Eduardo Bolsonaro cavou o buraco que o tornou réu

Ao chantagear o Supremo Tribunal Federal (STF), na tentativa de evitar a condenação do pai, o ainda deputado Eduardo Bolsonaro cavou o buraco que o impedirá de ser candidato na eleição de 2026. Os ministros da Primeira Turma aceitaram a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) e transformaram Eduardo em réu pelo crime de coação no curso do processo da trama golpista.

O filho número 3 de Bolsonaro fugiu do país para poder operar dos EUA e só pediu licença à Câmara quando já estava instalado em território norte-americano. Vencido o prazo da licença, decidiu não voltar, e continuou fazendo a ponte aérea entre o Texas, onde mora com a família, e Washington, a capital.

Pelas relações com próceres do Partido Republicano, Eduardo conseguiu acesso à Casa Branca e por lá espalhou sua visão distorcida em relação ao Brasil e ao processo contra a tentativa de golpe. Nas redes sociais e nas entrevistas, gabou-se de ter sido o responsável pelas sanções impostas às exportações brasileiras e pelas punições aos ministros do STF.

A movimentação dele e do blogueiro Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente João Figueiredo, não conseguiu evitar a condenação de Bolsonaro, que deve começar a cumprir pena a qualquer momento. Nos próximos dias, Figueiredo também se tornará réu.

Mesmo que sejam condenados, nenhum dos dois corre o risco de ser preso enquanto continuarem nos EUA, sob a proteção de Trump. A coisa muda de figura se tentarem retornar ao Brasil, o que não está nos planos de Figueiredo, mas é imperativo para Eduardo se quiser ser candidato a presidente, como anuncia que será.

O filho de Bolsonaro ignorou a denúncia da PGR, não constituiu advogado e garganteou que está imune porque vive fora da jurisdição do STF. Por isso, está sendo representado por um defensor público da União.

Eduardo ainda segue recebendo o subsídio de deputado, mas deve perder o mandato por excesso de faltas, já que sua licença venceu em junho. Tentou uma manobra de exercer o mandato em modo remoto, mas a Mesa não aceitou. _

Aliados sustentam que Eduardo poderia ser candidato mesmo morando nos EUA, porque o conceito de domicílio eleitoral é elástico, mas dificilmente o TSE daria o registro. E, caso seja condenado até a eleição, ficará inelegível.

Inteligência artificial para prevenir violência doméstica

No primeiro evento da Secretaria da Mulher desde que foi criada, em setembro, a secretária Fábia Richter debateu com um público de 300 pessoas as estratégias de prevenção, uso de inteligência artificial e como a ciência pode contribuir no enfrentamento à violência de gênero no Estado. O 1º Encontro Estadual de Mulheres para o Mundo - Redes de Proteção da Mulher foi realizado na sexta-feira.

A pasta está desenvolvendo um programa, utilizando IA, que deverá unificar dados de toda a rede de proteção, gerar notificações e, por consequência, facilitar o monitoramento de casos. Um modelo semelhante criado na Espanha deve ser replicado aqui, utilizando a GurIA, assistente virtual do portal do Estado, para ampliar os canais de denúncia e elaborar um mapa de violência. _

Biometano ganha força no Estado após estudo sobre gás natural

Aposta para transformar o abastecimento de gás em uma fonte renovável de energia, o biometano - produzido a partir de resíduos sólidos e lixo orgânico - poderá ser misturado à rede que distribui gás natural. A conclusão consta de estudo do Instituto do Petróleo e dos Recursos Naturais da PUCRS, em parceria com a Sulgás.

Engenheiros que participaram dos experimentos comprovaram que a mistura do biogás com o gás encanado, que atualmente é distribuído às residências, é homogênea, com variações mínimas nos parâmetros de qualidade. O trabalho foi realizado por cerca de um mês no Polo Petroquímico de Triunfo. _

PDT oficializa pré-candidatura de Juliana Brizola neste sábado

Ainda sem ter garantido o apoio do PT e da sonhada frente de esquerda, Juliana Brizola (PDT) lança neste sábado sua pré-candidatura a governadora. Ao lado dos presidentes nacional, Carlos Lupi, e estadual, Romildo Bolzan Jr., Juliana vai formalizar a intenção de seguir os passos do avô no Palácio Piratini.

O indiciamento de Juliana pela Polícia Civil, por suposta apropriação de dinheiro da avó, não abalou o ânimo de Lupi e dos líderes do PDT que defendem a candidatura.

- Ela está bem nas pesquisas, tem boa receptividade e não tem rejeição. Se consolida como uma alternativa importante de opção pelo centro. Vamos com ela até o fim - resume o vereador Márcio Bins Ely. _

Proteção à criança será bandeira de Moisés na Câmara

Futuro presidente da Câmara de Porto Alegre, o vereador Moisés Barboza (PSDB) resolveu adotar uma prática comum na Assembleia Legislativa: a de escolher um tema para ser a marca de sua passagem pelo comando. Moisés escolheu a proteção à criança, causa que o mobiliza há muitos anos e para a qual costuma dedicar parte das emendas a que tem direito como vereador.

Na sexta-feira, Moisés convidou crianças da Associação Grupo Ação Voluntária Francisco de Assis para conhecer a Câmara.

Os planos incluem campanhas de conscientização e um movimento municipal para garantir protocolos de combate à violência e ao abuso infantil. _

POLÍTICA E PODER 


INFORME ESPECIAL
Rodrigo Lopes

Direto de Belém

Obras de revitalização do Dilúvio estimadas para 2028

A prefeitura de Porto Alegre concluiu os estudos e a modelagem da operação para recuperar o Arroio Dilúvio e revitalizar a Avenida Ipiranga, uma das obras mais desafiadoras que a cidade terá pela frente. O secretário do Meio Ambiente, Infraestrutura e Urbanismo, Germano Bremm, diz que tudo será detalhado na audiência pública prevista para 28 de janeiro.

Os estudos estimam um custo total de R$ 1,6 bilhão. A previsão de arrecadação, ao longo de 20 anos, por meio de uma Operação Urbana Consorciada (OUC), um instrumento urbanístico que viabiliza parcerias público-privadas, é de R$ 3 bilhões.

Na COP30, em Belém, a prefeitura busca recursos do Fundo Clima, junto ao BNDES, para financiar a primeira fase da construção, a chamada Etapa Zero, com orçamento de R$ 202 milhões e duração estimada em cinco anos após a contratação dos projetos executivos e aprovação da Câmara de Vereadores.

A prefeitura prevê a revitalização do Dilúvio em quatro áreas, a começar pela foz do Guaíba até a Avenida João Pessoa, que receberá R$ 92,2 milhões, com foco em rede verde e azul, macrodrenagem e saneamento, rede de mobilidade, urbanização de assentamentos e aterramento de fiação aérea. As outras áreas são da João Pessoa até a Barão do Amazonas, depois até a Cristiano Fischer e, na sequência, até a Antônio de Carvalho.

Nesta sexta-feira, a coluna convidou o prefeito Sebastião Melo e Bremm para visitar o Parque Linear da Doca, um antigo canal em Belém, que recebeu investimento do governo do Pará de R$ 310 milhões para revitalização. O local se tornou um dos principais espaços de lazer e convivência na COP 30, integrando áreas verdes, equipamentos públicos e soluções ambientais ao cotidiano da cidade. O parque recebeu obras de drenagem e despoluição do canal, paisagismo com plantio de cerca de 200 árvores de grande porte, construção de passarelas e mirantes, quiosques de alimentação, academia ao ar livre, ciclovia e pavimentação de 2,4 quilômetros de avenida.

"Sonho de muitos anos"

No caso do Dilúvio, a situação é bem mais complexa. São 10 quilômetros de extensão. Durante a visita, Bremm estimou que as obras da primeira fase da revitalização da Ipiranga poderiam começar em 2028.

- Vamos desenvolver os anteprojetos ainda em 2026, para, em 2027, já com financiamento do Fundo Clima, contratarmos projeto e execução. Para, em 2028, a gente ter obra no trecho mais próximo à orla do Guaíba - afirmou.

Melo, que prometeu a revitalização do Dilúvio ainda no primeiro mandato, gostou do que viu.

- É uma boa experiência urbana. Há dois anos, abrimos uma licitação, várias empresas se habilitaram, escolhemos uma, e ela, agora, apresenta a modelagem. É preciso audiência pública, depois teremos uma lei para mandar para a Câmara. Tomamos a decisão de que vamos, nessa primeira fase, buscar dinheiro do BNDES, do Fundo Clima. Depois, essa obra continua. É um sonho de muitos e muitos anos, e eu quero transformar esse sonho em realidade - disse. _

O que deu certo e o que deu errado na primeira semana

A coluna está aqui em Belém desde 4 de novembro. Acompanhamos a Cúpula dos Líderes, que antecedeu a conferência propriamente dita, e a primeira semana de negociações na COP30.

Fazemos, aqui, um balanço do que funcionou e o que não deu certo até agora. _

2| Diferentemente das COPs de Dubai e Baku, a área da conferência é mais compacta, facilitando acesso a salas e pavilhões de países e entre a Blue Zone e a Green Zone.

3| A Estação das Docas e o Porto Futuro são os melhores lugares de Belém. São tudo o que Porto Alegre desejaria ter em seu antigo cais: ambiente limpo, seguro, boa comida e bebida e ar condicionado.

4| A simpatia dos moradores é sensacional, compensa qualquer perrengue.

5| A Green Zone é a expressão do Brasil e de seu povo - nunca, em uma COP, os povos originários estiveram tão presentes. É o espaço mais democrático, plural e diverso.

INFORME ESPECIAL

sábado, 8 de novembro de 2025



08 de Novembro de 2025 
ENGAJAMENTO -Camila Bengo

ENGAJAMENTO

Influência das redes sociais impulsiona buscas na feira.  Pela primeira vez, a Feira do Livro de Porto Alegre, que ocorre até o dia 16 na Praça da Alfândega, conta com um time de influenciadores digitais. O objetivo é atrair e engajar o público. E, de acordo com livreiros, o trabalho tem reflexo no aumento na procura por livros e nas vendas

A Feira do Livro de Porto Alegre sempre foi um espaço de conexão - com os livros, com os autores, com a própria cidade. Na 71ª edição do evento, que ocorre até o dia 16 de novembro, essa conexão é também digital, atravessada por fatores como as comunidades literárias das redes sociais e a atuação de influenciadores especializados em literatura, cujo impacto pode ser medido diretamente nas bancas.

Há mais de 20 anos trabalhando na Feira do Livro de Porto Alegre, Andrea Braga, líder de banca na AJR Distribuidora, lembra que os efeitos práticos do fenômeno digital começaram a ser percebidos nos últimos cinco anos e vêm crescendo.

A livreira cita o BookTok, como é chamada a comunidade literária nativa do TikTok, como um importante canhão de vendas. É lá que os criadores de conteúdo publicam resenhas e compartilham indicações de títulos, que passam a ser procurados pelos seguidores - inclusive, nas bancas da Praça da Alfândega.

O efeito é praticamente imediato. Quando um livro começa a bombar no TikTok, o pessoal vem atrás. Tudo o que viraliza na rede social é muito procurado pelo público, principalmente os mais jovens. E é interessante que, quando eles descobrem que temos um determinado livro que está viralizado, indicam a banca para os amigos, e isso vai se retroalimentando - diz.

Entre os nomes mais procurados, Andrea cita as escritoras Colleen Hoover, Ali Hazelwood e Freida McFadden, além de Scott Cawthon e Kira Breed-Wrisley, responsáveis pela franquia Five Nights at Freddy?s, conhecida como FNAF. Segundo ela, a banca procura incluir em seu catálogo o que vem sendo difundido nas redes sociais.

Estamos sempre de olho no que está bombando. Muitos desses autores estão em editoras grandes, com as quais já costumamos trabalhar, mas se algum título mais independente viraliza, também tentamos incorporar. Nosso objetivo é oferecer aquilo que está sendo buscado, sem deixar de lado os títulos mais tradicionais - explica.

Clássicos

Livreira da banca Magia da Leitura, Janaine Peter diz que a influência digital atua também na revigoração da literatura nacional, uma vez que obras clássicas estão voltando a fazer sucesso a partir das indicações nas redes sociais.

Como exemplos, ela cita Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, de Machado de Assis; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Incidente em Antares, de Erico Veríssimo; e A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga.

- É muito interessante ver livros que estavam adormecidos voltarem a circular. Cada vez mais as editoras estão investindo em edições mais trabalhadas para os clássicos, com ilustrações e capas diferenciadas, o que também influencia muito na decisão de compra - avalia.

Para a livreira, o trabalho dos influenciadores literários impacta de maneira substancial o movimento na Feira do Livro.

- Muitos adolescentes estão vindo ao evento por causa desse novo momento da literatura. É um público que, há alguns anos, não se fazia tão presente. Algumas pessoas dizem que o livro está morrendo, mas eu acho que ele está ressurgindo - reflete. _

Aposta em criadores de conteúdo é novidade

Do outro lado da cadeia, a influenciadora literária Bia Assad, do perfil @leituramista, celebra que o trabalho dos criadores de conteúdo traga resultados para a Feira do Livro.

- Eu recebo mensagens de pessoas dizendo que compraram um livro porque viram um vídeo meu. A internet ajuda a começar a conversa, mas a presença na Feira finaliza - afirma.

Carioca que se mudou para o RS, Bia faz parte do time de influenciadores oficiais da Feira do Livro. É uma novidade desta edição, que tem valorizado a força das redes sociais e dos criadores de conteúdo.

Júlia Barros, jornalista responsável pela comunicação digital da 71ª Feira do Livro, explica que a parceria com os influenciadores começou a ser planejada muito antes da montagem das bancas.

Com o intuito de tornar o evento literário ainda mais conectado ao novo momento da literatura, a organização convidou criadores de conteúdo a atuarem na divulgação.

- A ideia era consolidar um time de pessoas que incentivam a literatura e poderiam trazer mais público para a Feira do Livro. Quando o seguidor vê que o influenciador está participando, ele também sente vontade de participar. Isso repercute no engajamento das redes sociais e na visitação em si - explica Júlia.

Os conteúdos produzidos através da parceria estão sendo publicados nas redes sociais da Feira do Livro, com o objetivo de atrair e engajar o público.

A relação da Feira do Livro com o universo da influência literária não se restringe ao digital. Há oito anos, a programação abriga o Encontro Influenciadores Literários e Leitores, organizado pelas criadoras de conteúdo Tamirez Santos, do @resenhandosonhos, e Joi Cardoso, do @estantediagonal.

A edição deste ano, que ocorreu no último final de semana, reuniu 300 pessoas, lotando o Teatro Petrobras Carlos Urbim.

- Isso mostra como os influenciadores levam público para os eventos literários. O nosso trabalho agrega esse valor e impacta também as vendas, porque muitas pessoas compram somente os livros que indicamos - explica. 



08 de Novembro de 2025
EUGÊNIO ESBER

O ator, a prisão, a peça (2)

Pouco mais de um ano atrás, a PF prendeu Renato Duque, o ex-diretor de Serviços da Petrobras que estava foragido depois de ter sido condenado em definitivo a cumprir 39 anos de prisão por corrupção, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Como vários executivos da Petrobras, Duque havia caído nas malhas da Operação Lava-Jato por ser personagem importante no esquema de propinas pagas por empreiteiras que tinham contratos com a gigante do petróleo entre 2003 e 2012. Duque admitiu com resignação os crimes que cometeu. Ele não tinha saída mesmo, naquele Brasil que demonstrava ao mundo ser um país com autoridades que ainda tinham vergonha na cara. Devolveu aos cofres públicos o equivalente a mais de 20 milhões de euros que possuía em contas no Exterior - uma fortuna, sim, mas menos chocante que a dinheirama duas vezes maior devolvida por Pedro Barusco, um simples gerente da estatal.

Como registrei à época em ZH (O ator, a prisão, a peça, 21/8/2024), os brasileiros assistiram em horário nobre da televisão a um vídeo da confissão que Renato Duque fez, com serenidade, à Justiça Federal brasileira.

- Eu queria deixar claro, meritíssimo, que eu cometi ilegalidades. Quero pagar pelas ilegalidades, mas quero pagar pelas ilegalidades que "eu" cometi. (...) Se for fazer uma comparação com o teatro, eu sou um ator; (...) tenho um papel de destaque nesta peça, mas eu não fui e não sou nem o diretor e nem o protagonista dessa história.

Duque relatou que em 2012, em 2013 e em 2014 teve três encontros com Lula, que lhe fez perguntas e recomendações sobre contratos com a construtora de navios SBM e sobre o projeto de sondas. Duque se disse surpreso com o nível de informação do então ex-presidente sobre esses assuntos. "Nestas três vezes", narrou Duque, "ficou muito claro pra mim que ele tinha pleno conhecimento de tudo... e detinha o comando".

A defesa de Duque pediu anulação do processo baseada na tese farsesca do "conluio" entre juiz e Ministério Público na Lava-Jato, e o caso foi parar na segunda turma do STF. Diante de tão grotesca roubalheira, nem mesmo o ministro Dias Toffoli, que se especializou em descondenar os corruptos flagrados pela Lava-Jato, aceitou a alegação da defesa. Mas Gilmar Mendes resolveu livrar Duque, e agora eis que Toffoli, chamado ao "VAR", embarcou na mesma decisão. Fosse numa partida de futebol, das arquibancadas ouviríamos um uníssono "Marmelada"!

Faltam os votos de três ministros, ainda. Sugiro que assistam aos vídeos da confissão de Renato Duque. E comecem a retirar o Judiciário brasileiro do descrédito absoluto.

É pedir muito?

EUGÊNIO ESBER 


08 de Novembro de 2025
ANDRESSA XAVIER

A conta não fecha

Aos 10 anos meu palpite é que as crianças sonhem com profissões que provavelmente não vão seguir mais tarde. Os milhares de jogadores de futebol entram no funil e acabam virando administradores, jornalistas, empresários, advogados, vendedores. As meninas ainda brincam de boneca. Ao longo do tempo vamos ficando chatos mesmo, deixando os desejos de lado, fazendo o que precisa ser feito, como os adultos fazem quando entram no ciclo de uma vida corrida.

A minha certeza é que quem tem 10 anos não pode estar casado ou vivendo como tal. Há, segundo dados do Censo divulgados nessa semana, 34 mil crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos no Brasil que vivem no que o IBGE chamou de união conjugal. Usarei o nome correto. Um adulto que vive com alguém entre 10 e 14 anos está cometendo um crime. A legislação brasileira proíbe casamento antes dos 16 anos em qualquer circunstância. Criança não é esposa, não é mãe, não é dona de casa. Uso todas essas palavras como substantivo feminino porque, de novo, estamos falando de meninas, que são as que sofrem em realidades como a dessas 34 mil. Muitos dirão que são exceção, e são, diante dos números continentais do Brasil. Mas são milhares de vidas que não deveriam ser ignoradas.

Nessa mesma semana, a Câmara aprovou, em Brasília, o projeto que recua em um direito que as meninas já têm, que é o aborto seguro. A lei hoje permite aborto em três situações: gravidez decorrente de estupro, risco de vida para a gestante e quando o feto é anencéfalo. Normalmente crianças se enquadram nas duas primeiras. Ainda assim, agora a ordem é dificultar o procedimento. Veja bem, atualmente meninas que engravidaram nesses casos podem, mas não são obrigadas a abortar, mas têm esse direito se as famílias entenderem assim. As mudanças serão levadas ao Senado.

Sei o quanto o tema aborto divide as opiniões a partir de ideologias e religião, e isso é absolutamente legítimo, mas vamos pensar juntos? Imagine uma menina de 10 anos, abusada e grávida, correndo risco de vida. Se não pode pelas vias oficiais, é bem provável que a família procure uma clínica clandestina. Estamos falando de segurança de crianças e de saúde pública.

Proponho um pouco mais de reflexão. Por que discutimos tanto aborto se poderíamos combater os abusos a crianças? Anualmente mais de 11 mil meninas de até 14 anos têm bebês no país. São 30 por dia. A violência na maioria das vezes vem de dentro de casa, onde elas deveriam estar protegidas. Todas essas são vítimas de estupro de vulnerável, pois assim é considerado o ato sexual com crianças. Não existe consentimento de quem tem menos de 14 anos. O Congresso poderia começar a pensar mais em formas de coibir e punir de forma exemplar quem abusa de uma parte da população que precisa ser cuidada. _

ANDRESSA XAVIER

O falso dilema sobre as facções

Ainda estamos a um ano de saber quem será o próximo presidente da República, mas o tema que vai sobressair na campanha já está bem delineado. Pesquisa após pesquisa, a saúde deixou o topo das preocupações do brasileiro e foi substituída por segurança. Não surpreende, porque a epidemia do crime se expandiu industrialmente, fixou territórios próprios e agora se infiltra no tecido econômico e institucional do Brasil.

Com o gongo da segurança soando na campanha eleitoral, a luta livre ideológica mandou cada contendor para seu corner. De um lado, a esquerda e o discurso de que o crime organizado se combate com inteligência e asfixia financeira. De outro, a direita, que apregoa a força bruta para devolver a paz aos brasileiros. É um falso duelo que só serve ao discurso político. Pela dimensão e características do crime organizado, não se trata de inteligência OU força, mas de inteligência E força, quando necessária.

No caso de facções como o PCC, convertido em corporação empresarial criminosa, é imprescindível que se fechem as torneiras do fluxo financeiro ilícito. Portanto, é urgente mesmo o Banco Central apertar as fintechs, a Receita Federal vigiar os Pix suspeitos e acabar de uma vez com a farra dos devedores contumazes, empresas que abrem e fecham com foco na sonegação e lavam a bijuja do crime. Ou seja, liquidar com os PCCs da vida exige um tanto de força, mas muita inteligência e instrumentos legais que estanquem o dinheiro sujo.

No caso de facções como o Comando Vermelho, que se adonam de territórios urbanos para transformá-los em entrepostos da droga e extorquir moradores, é preciso, sim, inteligência, mas não há como desalojá-las sem uma força armada capaz de enfrentar um exército criminoso municiado com fuzis, drones e granadas. Áreas como os complexos do Alemão e da Penha, no Rio, já não fazem mais parte do Estado brasileiro. Estão sob jugo de uma organização que estabeleceu fronteiras, bloqueadas por barricadas que só podem ser transpostas por quem é autorizado pela autoridade do pedaço.

Esses territórios têm leis próprias, com pena de morte para delatores, devedores e quem comete crimes não autorizados, e forças bélicas com milhares de fuzis. Há muito, a solução para situações do gênero passou a exigir também ações militares, com inevitáveis confrontos que devem restabelecer a soberania do Brasil, com a consequente ocupação de tais áreas e a liberação da população civil.

Como em todo conflito armado, não há cenas bonitas, mas é preciso obedecer às leis da guerra: oferecer rendição primeiro e, quando feitos prisioneiros, não torturá-los ou executá-los. Se, em vez de rendição, houver resistência, sai vitorioso o que tiver melhor estratégia e mais poder de fogo. Espera-se que ainda sejam as forças da lei. _

MARCELO RECH