
- Em um relacionamento, cada um deveria responder a duas perguntas para si próprio: "Me sinto amado? Me sinto desejado?". Se a resposta for sim para as duas, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito.
Em um ponto, pelo menos, ela tem razão: não estamos imunes a desejar outras pessoas apenas porque amamos uma. A maior parte de nós, em uma relação monogâmica, se acostumou ao que alguns chamariam de hipocrisia. Sentimos vontade, mas reprimimos. Sabemos que o outro sente, mas ele que reprima também. Funciona assim, é verdade.
A questão é que nunca alguém me convenceu de que, na hipótese de liberarmos as nossas vontades, de nos entregarmos plenamente ao desejo e aceitarmos que o outro se entregue também, seríamos necessariamente mais felizes. Pelo contrário, arrisco dizer que boa parte dos casais sofreria mais.
Regina Navarro Lins e os defensores do relacionamento aberto sugerem que somos vítimas de uma cultura arbitrária - cultura essa que nos exige uma exclusividade incompatível com a natureza humana. Faz sentido, só que a cultura também existe para impedir que a natureza humana destrua o convívio social. Quer dizer: a cultura, muitas vezes, funciona como uma espécie de contrato coletivo, no qual todos abrem mão da liberdade absoluta em troca de alguma estabilidade.
A relação monogâmica parece seguir essa lógica: um acordo tácito que mira o bem-estar da maioria. Não por acaso, há estudos associando sociedades poligâmicas a níveis maiores de violência - porque características próprias da natureza humana, como a competição e o egoísmo, tendem a aflorar com mais força.
Mas o principal, para mim, é que sem renúncia não existe escolha de verdade. A renúncia faz algo que a abundância não consegue: ela concentra. Tempo, afeto, desejo, compromisso. Uma vida não ganha profundidade pelo número de possibilidades que conserva, mas pelo investimento que fazemos em algumas. Quem precisa manter todas as portas abertas talvez acabe condenado ao corredor.
Isso não torna a monogamia superior, claro. Há relações abertas honestas e felizes, e há casamentos monogâmicos que parecem sucursais do inferno. Cada um que escolha o seu arranjo. E banque o preço que vem com ele.
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