sábado, 11 de março de 2023

07/03/2023 - 05h00min
Rosane Tremea

Turismo feito de pedra

Conheça o Jardim das Esculturas, em Júlio de Castilhos, o Esculturas Parque Pedras do Silêncio, em Nova Petrópolis, e o Parque Internacional Domadores de Pedras, em Bento Gonçalves

A inspiração pode vir de consagrados parques no Exterior ou no país - como Inhotim, em Minas Gerais, e Francisco Brennand, em Pernambuco - ou da cabeça e das mãos de abnegados que fazem nascer da pedra museus a céu aberto no Rio Grande do Sul. Há pelo menos três parques com esculturas em pedra no Estado para serem apreciados - desses, por enquanto, visitei só o de Nova Petrópolis, mas os outros dois estão na minha infindável lista:

Jardim das Esculturas (Júlio de Castilhos)

Museu a céu aberto foi inaugurado em 2005 e já conta com mais de 880 obras

É como se fossem cogumelos brotando do chão após a chuva. Mas não. As novas esculturas que irrompem a cada semana no Jardim das Esculturas - às vezes uma, às vezes duas - refletem o (muito) trabalho de seu criador, o artista autodidata Rogerio Bertoldo, 53 anos. Esse museu a céu aberto inaugurado em março de 2005 já conta com mais de 880 obras em arenito, todas criadas por ele, a maioria em tamanho natural, embora uma alcance até 6 metros.

— É um universo muito particular de criação. É um jardim em movimento — resume Giselda Moro Bertoldo, 44 anos, esposa de Rogerio que, assim como o marido, era agricultora até ele começar a esculpir.

Hoje ela se ocupa da administração do parque que recebe entre mil e 3 mil visitantes por mês, dependendo da época, e da catalogação da extensa produção do artista - um projeto com a Universidade Federal de Santa Maria dedica-se a esse trabalho que permitirá que as visitas sejam autoguiadas. Atualmente, um vídeo mostra aos turistas o parque e explica o significado de cada obra.

Um outro local citado nesta página, o de Nova Petrópolis, ainda abriga cerca de 40 das obras de Rogerio. Para este ano, ele projeta iniciar uma escultura com 20 metros de altura, uma representação de Gaia ("mistura do planeta com a imagem de uma mulher em que os pés serão raízes e os braços, galhos", explica Giselda). Rogerio promete esculpir até completar 80 anos. Calcule então, ao longo desses 27 anos, quantas esculturas ainda desabrocharão nos 70 mil metros quadrados de jardim.

Onde fica: na localidade de São João dos Mellos, no interior de Júlio de Castilhos. Há 9km de estrada sem asfalto a partir de Nova Palma para quem vem da Capital (saindo da BR-287 para a ERS-149), mas em boas condições. Funciona de sexta a domingo, nos feriados e, em outros dias, com agendamento. Informações: jardimdasesculturas.com.br. Ingresso a R$ 25 (a partir de abril, R$ 30, com meia entrada e desconto para excursões). Conta com restaurante, uma pequena pousada com três suítes, sala de vídeo e banheiros.

As mais de 80 esculturas espalhadas na área verde, no interior de Nova Petrópolis, recontam a história da imigração alemã - muitas representam as profissões dos imigrantes, por exemplo. Elas se distribuem entre os cerca de 400 metros de caminhos autoguiados e calçados do parque inaugurado em 2014, com deslocamento facilitado e audiodescrição para deficientes visuais. 

Numa das vezes em que estive ali, ainda pude conversar com um dos artistas responsáveis por grande parte das obras em arenito, Cristovão Hullen - um segundo, Rogerio Bertoldo, também é o criador do Jardim das Esculturas de Júlio de Castilhos, e o terceiro é Rodrigo de Azevedo. Em 2023, uma nova obra deve ser incluída ao acervo, mas ainda não há definição de qual será. Outra novidade, a partir de meados deste ano, deve ser um espaço para interação com animais em dias específicos e sob agendamento.

Numa das construções em estilo germânico do parque há venda de cervejas artesanais e orgânicas locais, artesanato de palha de milho e trigo, artesanato de couro e ímãs de geladeira com pinturas a mão, produzidos por artesãos locais, além de bolachas e geleias.

Onde fica: na Rua Emilio Dinnebier Filho, 560, na Linha Brasil, interior de Nova Petrópolis, na Serra. Abre todos os dias, das 9h30min às 18h. Informações: pedrasdosilencio.com.br. Ingresso a R$ 40.   

Parque Internacional das Esculturas Domadores de Pedras (Bento Gonçalves)

A história começou em 2012, quando o empresário Tarcísio Michelon organizou em Bento um simpósio de escultores, reunindo artistas do mundo todo, para produzir na cidade obras de temática livre - a única exigência era o material, a pedra. Menos de uma década depois, em 2021, após a doação de uma área de quatro hectares no consagrado roteiro Caminhos de Pedra, o parque abriu as portas e exibe mais de 60 obras. Em fevereiro foram instaladas as últimas 13, frutos do 5º simpósio internacional que, em janeiro, reuniu 10 artistas de nove países - em paralelo, ocorreu o 2º Simpósio Domadores de Pedras do Sul.

As esculturas que se esparramam pelo terreno cercado de verde são esculpidas em basalto, pedra abundante na região e que serviu aos imigrantes italianos no início da colonização. Um exemplar dessas construções, do início do século 20, com porão original de pedra, fica na entrada do parque, ocupada pela recepção, loja de esculturas e acessórios em pedra e por um restaurante que leva o sugestivo nome de... Pietra. 

— É uma união de cultura, história, natureza e arte — define Ana Cris Paulus, head da Alpina Serra, agência de marketing do parque.

Para fazer uma visita razoável, a sugestão é que o turista reserve pelo menos uma hora. Os mais curiosos poderão dispender duas horas ou mais, já que a visita é autoguiada, com QR Code com a ficha técnica de cada obra. A maior delas, instalada neste ano na entrada, mede 5 metros.  

A receita é revertida para as mais de 50 crianças em situação de vulnerabilidade social que frequentam uma escola de música mantida pelo Instituto Tarcísio Michelon.

Onde fica: na Estrada Caminhos de Pedra, 340, na Linha São Pedro, ao lado da Casa da Ovelha, interior de Bento Gonçalves. De terça-feira a domingo, das 9h às 17h. Informações: domadoresdepedra.com.br. Ingresso a R$ 30.

Inspirações pelo país afora

Instituto Inhotim — Localizado em Brumadinho (MG), é privado e foi idealizado ainda nos anos 1980 pelo empresário Bernardo de Mello Paz. Aberto em 2006, é um dos maiores museus a céu aberto do mundo. Nos 140 hectares há mais de 700 obras de 60 artistas de 40 países, além de um jardim botânico. @inhotim 

Parque das Esculturas Francisco Brennand — Fica em



09/03/2023 - 05h50min
J. J. Camargo

A disponibilidade é uma virtude essencial em qualquer profissão

Sempre é festejada, porque conforta a quem busca ajuda encontrar alguém com interesse espontâneo pela tarefa. Não há nada mais irritante do que alguém que nunca está no lugar, justo quando mais precisamos dele

A disponibilidade é um dos atributos mais reveladores da nossa personalidade. Na relação humana, se equipara à gratidão, como reveladora de virtudes que inevitavelmente identificarão uma índole solidária ou traços de caráter que delatarão a inutilidade do egoísta  ensimesmado.

Em todas as profissões, a disponibilidade é festejada, porque, independentemente da situação, conforta a quem busca alguma ajuda a percepção de que encontrou alguém cujo interesse espontâneo dá significado e importância ao seu pedido.

O que pouca gente percebe é a complexidade das exigências na construção de um disponível. A minha impressão é que, quando festejamos a feliz casualidade de ter encontrado este tipo, parecemos ignorar quantos ingredientes são indispensáveis na produção desse modelo de profissional.

O primeiro diferencial é que esse profissional precisa gostar de gente, e, através dessa porta de entrada, ter descoberto o inigualável encanto de ajudar. E aqui há uma barreira inicial: não se consegue ensinar ninguém a gostar de gente.

O primeiro diferencial é que ele precisa gostar de gente, e, através dessa porta de entrada, ter descoberto o inigualável encanto de ajudar. E aqui há uma barreira inicial: não se consegue ensinar ninguém a gostar de gente.

Em segundo lugar, esta pessoa deve ter uma grande capacidade de adaptação e tolerância para conviver, sem perder a cordialidade, com os desencantos da sua própria vida, que não interessam a ninguém, mas modificam o ânimo do funcionário mais dedicado. E, muito importante, ainda tem que sobrar paciência para interagir com os chatos inevitáveis, esses que querem para si a atenção e a gentileza que nunca emprestaram a ninguém.

Como a disponibilidade é um dom pessoal, é ingenuidade crer que todos os bem remunerados devam ser gentis, e os sub-remunerados tem razões de sobra para um azedume básico. Não é o que se vê na vida real, com atitudes frequentemente invertidas a mostrar que o prazer de servir e o bálsamo da gratidão do ajudado não têm preço. 

A medicina, por envolver, como poucas profissões, a rotina da busca ansiosa por ajuda, traz na sua concepção esta sentença: se você se chateia ao ser solicitado numa contingência não programada, evite ser médico, ou pelo menos, sendo, não se exponha às especialidades associadas ao medo da morte. E com esta sábia providência, poupe-se da deprimente sensação de inutilidade e previna-se de rótulos capazes de detonar a autoestima dos prepotentes mais soberbos.  


11 DE MARÇO DE 2023
CARTA DA EDITORA

CARTA DA EDITORA Agronegócio e inovação

Na sexta-feira, encerrou-se uma das maiores feiras internacionais do agronegócio, a Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque. Desde o domingo anterior, uma equipe de profissionais da Redação Integrada de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho acompanhou presencialmente as novidades em tecnologia, as tendências, a troca de experiência, os debates e os negócios realizados na feira.

É tradição dos veículos da RBS valorizar e dar amplificação a eventos que mostram o que o Rio Grande do Sul tem de melhor. E é por isso que já estamos prontos, com o encerramento da Expodireto, para canalizar nossas atenções ao South Summit, que ocorrerá entre os dias 29 e 31 de março. Pela segunda vez consecutiva, Porto Alegre será sede desse encontro global que reúne startups, empresas e fundos de investimento prontos para expor e investir em projetos inovadores.

Em um mundo cada vez mais tecnológico, em que a inovação e a transformação digital viraram ativos valiosos em todos os setores da economia, Expodireto e South Summit deixaram de ser eventos desconexos. Não há mais como falar de agronegócio, por exemplo, sem pensar em tecnologias inovadoras, que apontem caminhos para a alta produtividade e para problemas históricos como a estiagem.

Desde fevereiro, estamos produzindo reportagens sobre os preparativos e as novidades do South Summit. O repórter André Malinoski, que tem acompanhado de perto a organização do evento no Cais Mauá, nos dá a dimensão da importância dessa segunda edição no Brasil:

- O que me chama atenção são as soluções que serão apresentadas durante a competição de startups pelas oito representantes do RS. Há robôs que desinfetam ambientes hospitalares, coleiras inteligentes monitorando vacas, distribuição de energia limpa por assinatura e muitas outras propostas inovadoras. O número de empresas inscritas para a edição deste ano dobrou em comparação com 2022, o que evidencia a consolidação do evento de inovação no cenário nacional e também internacional.

Com a proximidade do South Summit, darei detalhes de como será a cobertura dos veículos da RBS nos três dias de evento. Até lá, nossos assinantes podem acompanhar os preparativos em ZH ou pelo site e aplicativo de GZH, por meio do link ao lado.

DIONE KUHN

11 DE MARÇO DE 2023
CHAMOU ATENÇÃO

Frentista e também escritor

Em São Francisco de Paula, na Serra, vive um funcionário de posto de gasolina que tem um gosto particular. José Ricardo Rodrigues Duarte, conhecido como Rodrigues Poeta, 49 anos, usa parte do salário para alimentar um sonho que começou há 12 anos: o de ser escritor.

Morando inicialmente em Porto Alegre e trabalhando como segurança, Rodrigues Poeta já gostava de rimar frases quando criança, mas foi por conta de uma doença, em 2010, que escreveu o primeiro livro.

- Eu estava quase a ponto de perder a minha memória devido a uma meningite e daí o médico falou para eu praticar mais a leitura para reativar a memória. Depois, eu escrevi uma frase: "Pratiquei a arte da leitura e, lendo, escrevi um livro" - comenta Rodrigues.

O lançamento de Vida e Seus Amigos: O Valor da Amizade ocorreu no ano seguinte, em 2011, com recursos do próprio autor. A história da formiguinha Vida e de seus companheiros virou trilogia, refletindo sobre a importância de se ter amigos e de ajudar as pessoas. Com apoio de amigos e de empresas, Rodrigues Poeta conseguiu amenizar os custos das publicações e, em 2022, decidiu lançar o quarto livro, agora com um enredo diferente.

A mudança acompanhou uma nova fase em sua vida. O autor foi morar São Francisco de Paula para atuar como frentista em um posto de gasolina, onde tem autorização para vender os livros aos clientes.

Enredo

A Menina e o Cãozinho de Rua, a nova obra, foi inspirada no amor de Rodrigues Poeta pelos animais e no cachorrinho Lupi, que adoeceu e o deixou, em setembro de 2022.

- A menina Mariana, que sempre vai com a mãe dela, de mãos dadas, para a escola caminhando, acaba encontrando pela rua um cachorrinho magricelo e sujo, e acaba se encantando com o cachorrinho - salienta o autor.

Como nos outros livros, ilustrações acompanham o texto e vêm em preto e branco para que os pequenos possam colorir enquanto fazem a leitura. Nesta quarta obra, quem fez os desenhos foi Luana Soares Carnizela, 14 anos, uma moradora local. Quem quiser conhecer melhor o trabalho de Rodrigues Poeta e adquirir os livros, pode acessar o perfil no Instagram @rodriguespoeta. Também há contato pelo WhatsApp (51) 99391-4735.

 KATHLYN MOREIRA


11 DE MARÇO DE 2023
MARCELO RECH

Febre do ouro

Suponhamos, apenas para efeito de imaginação, a seguinte situação fictícia.

Uma ditadura, a Nicarágua, entrega a um ministro próximo a Lula, ex-sindicalista como ele, dois finos estojos com presentes - um destinado a Janja e outro ao próprio presidente. O ministro e um assessor, também ex-sindicalista, desembarcam no Brasil com as caixas na moita, mas um diligente funcionário da Receita flagra o mimo reluzente à primeira-dama. O ministro intervém, inutilmente: joias no valor de R$ 16,5 milhões, uma mega-sena, ficam retidas na aduana.

Seriam liberadas logo se oficialmente destinadas ao patrimônio da nação, como manda a lei. Mas não. Lula aciona o aparelho de Estado oito vezes para tentar recobrar as joias. O secretário da Receita que não dobra os subordinados é substituído. No apagar das luzes do governo, um avião da FAB é despachado a Guarulhos tendo a bordo apenas um militar imbuído da missão de resgatar o regalo. Lula jura de pé junto que não sabe de presente nenhum, mas dias depois se descobre que ele entesourou o outro agrado milionário que passara despercebido pela alfândega.

Se trocados os personagens, como nos parágrafos acima, o bolsonarismo estaria fazendo chover fogo dos céus sobre Lula. Agora, não. O problema de fundo no episódio das joias não é confirmar se Jair Bolsonaro cometeu crimes em série, o que está sendo devidamente apurado. A mais recente degradação política brasileira é que bolsões cegos pela paixão ideológica reagem com justificativas de que "com o outro era pior" e já não distinguem o que é moralmente aceitável ou não.

Pelos padrões éticos exigidos de qualquer funcionário público ou privado, presentes que não sejam meros suvenires deveriam ser considerados gentilezas ao cargo, jamais à pessoa. Fora disso, é suborno em potencial. No serviço público, o que supera valores simbólicos deve ser destinado à arca pública. Na iniciativa privada, presentes do gênero devem ser rejeitados, devolvidos ou doados com pleno conhecimento da cadeia de comando interna.

Sem noção da liturgia do cargo, cujo princípio basilar é a impessoalidade, Bolsonaro pisou sobre comezinhos princípios morais de um ocupante da Presidência. Mas só se surpreendeu quem desconhece um relatório de 1983 da Diretoria de Cadastro e Avaliação do Exército sobre o então tenente Bolsonaro, que tentava a sorte no garimpo em paralelo à carreira militar. Pela insistência em bamburrar, seus superiores na caserna identificavam no tenente "demonstrações de excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente". A febre do ouro, como se vê, não tem cura.

MARCELO RECH

sábado, 4 de março de 2023


04 DE MARÇO DE 2023
CARPINEJAR

Ex é livro lido

Voltar para um ex é como reler um livro, precisa ter gostado muito para não se importar em saber o final. Você tem noção de como acabou e de como vai acabar novamente.

A reconciliação é enganosa, pois passará por uma lua de mel, por uma trégua da vida no reinício dos laços. O casal censura suas diferenças para a reconquista, demonstra maturidade e discernimento nos primeiros meses, até retomar a rotina e amargar os mesmos problemas de antes.

Isolado do mundo, qualquer par é feliz. Mas quando volta a ter contato com a família, com o emprego, com os amigos, o choque e o atrito da realidade também ressurgem com força.

Ninguém consegue fingir por muito tempo. Os defeitos não foram superados no passado, e tendem a aparecer gradualmente com cobranças antigas. O ciúme, o controle, a manipulação, a chantagem e a deslealdade hibernam no inconsciente do amor, e serão acessados com a proximidade física.

Não dá para esquecer o motivo da separação. Houve impasse, houve discussão, houve desgaste, e, principalmente, incompreensão de ambas as partes.

Você busca o ex por um trecho bonito da cumplicidade, porque gostou de um capítulo, de uma frase marcante, de um pensamento inspirado, por um período isolado da convivência, mas esquece de pesar o conjunto da história, os prós e contras. Sua saudade é teimosia, apenas enxerga lembranças positivas.

Talvez esteja sentindo saudade de si, da sua juventude, da época em que tinha mais sonhos e mais vontade de vencer. Nem é saudade do outro, e sim de sua versão anterior que existiu um dia ao lado do outro.

O que explica o quanto divorciados tentam resgatar romances dos seus anos dourados a partir de contatos pelas redes sociais. Há o interesse de recuperar um momento interrompido da própria trajetória. A ambição não está naquele namoro ou naquele indivíduo, porém em reaver como se era naquele período.

É como criar um túnel do tempo da personalidade usando alguém como instrumento: sua expedição é para repetir os seus 20 anos, seus 30 anos. Não tem relação direta com a companhia, mera testemunha da felicidade de outrora. Pode existir um reencontro genuíno, com almas transformadas e pacificadas, entretanto é raro, uma exceção depois de muito sofrimento mútuo - unicamente a dor da experiência traz a lucidez do perdão e a calma da leveza.

Voltar ao ex, na maioria das vezes, é pegar da estante empoeirada uma obra da qual odiou o desfecho, não concordou com o autor, jurando que, agora, com a releitura, a impressão será diferente. A segunda chance é capaz de destruir o resto de doçura da memória a dois, e não sobrará mais nada de bom para se lembrar do enlace.

Você não é mais o mesmo, a pessoa envolvida não é a mesma, mas, infelizmente, descobrirá que o relacionamento continua sendo o mesmo.

CARPINEJAR

04 DE MARÇO DE 2023
LEANDRO KARNAL

Nunca foi tão difícil ler. Nunca lemos tanto. Paradoxo? Somo a isso outro desafio: a seleção das leituras? Desenvolvo.

Quase todos passamos assim o dia - lendo mensagens no celular, navegando por sites, vendo pequenos textos. Na história humana, somos a geração que mais lê (além do fato de que nunca houve tão poucos analfabetos no planeta como em 2023). Acha que muita gente é analfabeta hoje?

Exemplo do Brasil: existe muita gente incapaz de ler um bilhete simples. Há cerca de 6% de analfabetos. Número alto? Sim. Em perspectiva: há cem anos, eram mais de 70%. Nunca tanta gente leu. Nunca lemos tanto.

O reverso do fato. Lemos frases curtas, mensagens com desenhos, passamos os olhos rapidamente por tudo. O celular deu acesso a muita coisa, mas... você conhece alguém que tenha lido Os Lusíadas pelo smartphone? Parece-me que os grandes livros foram acessados em papel, jamais em telas luminosas. Porém, exagero com o exemplo de Camões. Vamos para algo muito menor: pouca gente leu na tela Dom Casmurro.

Ler implica concentração. Celulares impedem foco por muito tempo. O mesmo aparelho mágico pode lhe dar acesso ao texto, resolver dúvidas históricas, vocabulário na leitura, até mostrar imagens do autor (e da época). No entanto, os celulares são os emissores de notificações, de apelos à distração com um multiverso sedutor. Tudo é facilitado pelo acesso às redes. Tudo se torna difícil quando decidimos ler com ou ao lado de um aparelho. A tecnologia e o uso que fazemos dela apresentam este desafio: matar de fome em meio à oferta excessiva de guloseimas.

Vamos ao outro desafio. O que ler? Ler é uma decisão e necessita da insistência para se tornar um hábito. Ao optar, temos de escolher o texto. Alguns são obrigatórios, coisas da nossa área. Os profissionais de saúde devem ler artigos científicos. Chefes de cozinha devem analisar tendências culinárias em revistas especializadas. Textos técnicos não são um ato de vontade: são obrigatórios. Quem não lê o que ocorre na sua área opta pelo declínio inevitável.

Há outra questão. Focar 100% nos textos técnicos, a médio e longo prazo, diminui a capacidade estratégica e de inovação. Você lida com pessoas? Elas não são apenas um sistema circulatório ou digestivo. Elas possuem cultura, história, crenças. Um psicólogo aprende muito sobre o comportamento humano lendo Freud, mas aprende tanto - ou mais - lendo Dostoievski (alguém que Freud leu muito). Já imaginou uma cirurgiã plástica que, sabendo tudo sobre procedimentos estéticos, nada entende de história da arte (fundamental ao que entendemos como beleza)? Um professor de matemática que navegue com facilidade em geometria e álgebra, mas ignore psicologia da educação? A segunda etapa após a literatura técnica é aquela que forma mais do que informa: as leituras de "educação da mente".

Importante medir: tanto a técnica como a de formação devem causar algum ou muito prazer. Elas são duas colunas que devem ser dosadas com sabedoria. É subjetivo, mas eu arriscaria um número: a cada dois textos técnicos, um de ampliação dos sentidos.

Bastam os dois campos? Não. Existe uma leitura de puro prazer. Ela é prima dos técnicos e irmã dos de "educação da mente". Nesse campo, eu destaco a crônica, o texto de humor, os quadrinhos de qualidade. São para um deleite imediato e, sendo de qualidade, podem estar próximos do segundo grupo de leituras.

Darei três exemplos na minha área. Reli um texto clássico de história: A Morte É uma Festa, de João José Reis (relançado em edição comemorativa pela Companhia das Letras). Uma análise brilhante de um fato ocorrido em Salvador, a Revolta da Cemiterada. Classificaria como "texto técnico", mas o brilho da escrita e a pesquisa de Reis parecem englobar os três grupos que descrevi. Para o clube do livro que mantenho com Gabriela Prioli, li O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório (também Companhia das Letras). Seria a categoria dois: uma ficção densa de "educação da mente". Por fim, no ano passado, eu tive muita alegria com os quadrinhos de Carlos Ruas: De Onde Viemos (ed. Um Sábado Qualquer). A obra compara narrativas de origem sobre homens e deuses, uma aula de bom humor, criatividade e tolerância religiosa. Descubra outras produções de Carlos Ruas, pois você aprenderá muito e com graça (indispensável para tempo de fundamentalismo limitante).

Os limites dos três afluentes de leitura são muito imprecisos, em razão do volume de água de cada um. O importante é que todos deságuem no grande lago da vida, mudando e renovando correntes, trazendo novos peixes e aragens mais renovadoras. Tanto faz o tipo: um livro é bom quando se aprende algo; quando gera um incômodo com alguma ideia, renovando certa visão, derrubando um preconceito e repensando o mundo. Um bom livro traz a vontade de ser melhor.

Muito mais importante do que imaginar se a obra pertence ao grupo A, B ou C é focar no hábito diário da leitura e afastar-se de outras distrações. Sempre brinquei na universidade que ler é como um encontro erótico: "Se você interromper muitas vezes, talvez perca a capacidade de prosseguir".

Ler é esperançar!

LEANDRO KARNAL

04 DE MARÇO DE 2023
ONCOLOGIA

REMISSÃO NÃO É CURA

ENTENDA O TERMO RELACIONADO À ELIMINAÇÃO DO CÂNCER

Em fevereiro, circulou nas redes sociais uma foto da cantora Rita Lee, divulgada no Instagram por seu companheiro, Roberto de Carvalho. Recentemente, a artista de 75 anos passou pelo tratamento de um câncer de pulmão. Ela começou a ter sintomas, como crises respiratórias, no início de 2021, quando recebeu o diagnóstico. Em abril de 2022, o tumor foi considerado eliminado - mas no final de fevereiro Rita Lee precisou ser hospitalizada novamente.

Nesse contexto, muito tem se falado sobre a remissão do câncer, expressão normalmente atribuída a casos em que a pessoa não apresenta mais sintomas. O termo provoca certa confusão: algumas pessoas acreditam que a remissão se trata de uma fase final do tratamento do câncer.

Na verdade, é difícil dizer quando a pessoa está totalmente curada da doença, tendo em vista que ocorrem muitos casos de tumores que voltam a aparecer, mesmo após a eliminação, como ocorreu com a jornalista Glória Maria, que morreu em decorrência de metástase no cérebro após tratar um câncer de pulmão.

A probabilidade de retorno da doença diminui, mas existe

O termo "remissão" está relacionado à eliminação da doença, mas não é o mesmo que cura. De acordo com o glossário temático Controle de Câncer, publicado em 2013 pelo Ministério da Saúde, a definição correta de câncer em remissão é "diminuição ou desaparecimento de sinais ou sintomas de um câncer, comumente após a realização do tratamento proposto". O material também faz referência à remissão parcial, remissão completa e remissão espontânea da doença.

Segundo o médico William Nassib William Júnior, diretor de Oncologia Clínica e Hematologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo, remissão não é um termo técnico adequado, embora seja popularmente usado.

- Apesar de estar relacionado à cura, esse termo pode ter muitos significados e provocar confusão. Para entender se a pessoa está curada, trabalhamos com a probabilidade - diz o oncologista.

Em geral, não só em casos de câncer de pulmão, os médicos indicam a probabilidade de retorno da doença, que varia de acordo com o estágio, de 1 a 4, com o tipo de câncer e com os hábitos da pessoa. É sabido que tabagistas têm maior propensão para tumor no pulmão, e pacientes que voltam a fumar após o tratamento têm mais chances de contrair a doença novamente. William acrescenta:

- A chance de um tumor retornar vai diminuindo conforme o tempo passa.

Com o câncer de pulmão, não é diferente. Mas isso não quer dizer que a pessoa está necessariamente curada. - Após cinco anos, a probabilidade de retorno do tumor no pulmão é pequena, mas ainda existe - afirma.

A pessoa passa a ter uma vida normal, mas é preciso seguir realizando os exames, conforme indicação médica.


04 DE MARÇO DE 2023
BRUNA LOMBARDI

A MOEDA MAIS VALIOSA

Sou daquelas que acreditam na confiança e na palavra das pessoas. Isso parece ingênuo? A realidade é outra? Isso não existe mais no mundo?

Cada um tem suas razões para não confiar. Por isso existem tantas brigas, processos acumulados, tanta discórdia. Tanta mentira, fake news, golpes que não dá para bobear. Eu mesma assino contratos que me parecem exagerados, com infinitas cláusulas e que partem do princípio de que vai acontecer o pior.

É claro que existem pessoas nas quais eu não confio. Minha intuição sente isso logo de cara. Mas quando sinto essa desconfiança me afasto delas imediatamente. Aí não tem acordo. Por melhor que seja o negócio, por mais vantajosa a oportunidade, não confio e me afasto. Na verdade, escolho pessoas e não contratos.

Porque acredito que existe muita gente boa no mundo. Sei que estão por aí lutando pela verdade, cumprindo sua palavra, honrando compromissos, acreditando na justiça. Gente para quem valores são importantes. A ética orienta suas vidas. Cada decisão tomada obedece princípios, aqueles que estão escritos na alma e que sustentam a nossa paz de espírito.

Sei que todos nós ao longo da vida fizemos muita bobagem. Prometemos e acreditamos e tantas vezes as coisas tomaram outro rumo. Nós nos enganamos, frustramos, sofremos algum tipo de golpe, fomos decepcionadas e decepcionamos também. Mas existem tratos que a gente faz com a gente mesma, independentemente das nossas circunstâncias. Tratos existenciais. Você mantém uma conduta de comportamento, independentemente do que acontece com você.

Aprendi com meus pais a ser uma pessoa de caráter. Recebi deles uma espécie de Tábua Esmeralda invisível, onde o certo e o errado, mesmo em tempos confusos, me mostram a direção como um prumo que me orienta.

Você mantém sua palavra. Respeita um acordo. Você é confiável. Esses princípios são a base onde se constrói o caráter de uma pessoa. Existem princípios até nas guerras, mesmo que facínoras, psicopatas e regimes totalitários ignorem isso.

Existem princípios rígidos até entre bandidos, no mundo do crime. Quantos filmes de máfia já assistimos, onde a palavra dada vale uma vida? Cada um vai cumprir o que prometeu, acima de qualquer coisa. Sei que no grau descomunal da violência que nos cerca esses valores se tornaram uma ideia romântica. Mas são eles a única possibilidade de a gente não naufragar como indivíduos e como sociedade.

Se a gente deixar a violência, a brutalidade, a truculência, a impunidade e todas essas distorções vencerem a confiança entre as pessoas, vamos perder tudo.

Outro dia, um amigo me disse que eu era uma pessoa inocente. Perguntei, nesse caso, o que significava inocente pra ele. Ele disse que eu só via o lado bom nas pessoas. "E isso é ruim?", perguntei. "É inocente", ele respondeu.

Acredito que ver o lado bom acaba fazendo a pessoa trazer à tona o seu melhor pra tentar corresponder. E se desperta o melhor de alguém, isso se torna um círculo virtuoso. Eu confio, vejo o melhor e o melhor está realmente presente. Essa é a moeda mais valiosa.

BRUNA LOMBARDI

04 DE MARÇO DE 2023
FLÁVIO TAVARES

NOVA ESCRAVIDÃO

A escravidão a que eram submetidos os 207 safristas baianos na região vinícola gaúcha é repugnante em si e só por isso já merece repúdio. O mais grave, terrível e absurdo, porém, é a série de crimes paralelos cometidos nesse novo escravismo.

Dá a impressão, até, de que tudo o que seja pernicioso e desumano se reuniu para escravizar esses trabalhadores que vinham de longe, a milhares de quilômetros, em busca do pão do dia a dia e, aqui, encontraram o inferno sob os parreirais. O mais repulsivo em si, porém, foi a suspeita da aparente participação de soldados e suboficiais da Brigada Militar na tortura a quem se queixasse das condições.

Até choques elétricos teriam sido aplicados, o que seria um ultraje à tradição da própria corporação. A simples queixa era punida com a brutalidade do choque elétrico. A suspeita é de que policiais teriam torturado fardados "em nome da lei", com o que surge uma indagação: que tipo de instrução é oferecida aos soldados? Mais ainda: em algum momento, os comandos da corporação se preocuparam em saber os resultados dessa instrução?

As instituições do Estado existem para reprimir o crime, jamais para ampliar ou estimular o delito.

Além disso, desponta outro crime, o das tais "empresas terceirizadas", que (como a Fênix que contratou os safristas) já haviam sido punidas com um termo de "ajustamento de conduta", mas que mudaram a denominação para seguir explorando os trabalhadores.

Nessa soma de absurdos, surge uma pergunta: as três vinícolas (Aurora, Salton e Garibaldi) se interessaram em saber detalhes da empresa ou de como viviam os safristas dedicados ao delicado trabalho de coleta das uvas, sem o qual nenhum vinho se faz?

Até a repercussão do que ocorreu engendrou absurdos. Em Caxias do Sul, um vereador tachou os safristas baianos de preguiçosos, interessados só em praia de mar e tocar tambor. Foi excluído do partido Patriotas por isso e se expôs a um pedido de cassação de mandato.

Dias atrás, completaram-se cem anos da morte de Ruy Barbosa, cuja pregação está presente até hoje.

Quatro vezes candidato a presidente da República, as derrotas marcaram sua "campanha civilista", que ainda hoje nos faz repudiar a militarização do sistema republicano.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

04 DE MARÇO DE 2023
ARTIGO

A MAGISTRATURA NO ESPELHO

A Associação dos Juízes do RS (Ajuris) buscou, a partir de bases científicas, conhecer a percepção da sociedade gaúcha sobre os magistrados e o Judiciário gaúchos. Mediante pesquisas qualitativa e quantitativa com a população, formadores de opinião e operadores do direito, ouvimos, em meados de 2022, 842 gaúchos, em todos os quadrantes do Estado. O resultado gerou um relatório de 783 páginas rico em dados e fatos.

Na análise comparativa entre várias instituições, embora o Judiciário gaúcho tenha ficado com alto índice de confiança (71,4%), acima do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal, da Presidência da República, da Assembleia Legislativa e do governo do Estado, ficou aquém da Defensoria Pública, da OAB, do Ministério Público, da Justiça do Trabalho e da Justiça Eleitoral, o que evidencia que há oportunidade de melhoria sobretudo relacionada a morosidade, transparência e efetiva comunicação com a sociedade. Não obstante, operadores do direito reconhecem que a Justiça do RS é referência, inclusive para outros Estados.

Para nosso gáudio, na análise comparativa do apoio à democracia, enquanto pesquisa nacional aponta que apenas 53% concordam que a democracia é preferível a qualquer outro modelo, no RS esse índice chega a 83,93%, sendo que 94,53% da população gaúcha considera que o Poder Judiciário é o guardião dos direitos da sociedade e o mantenedor da ordem social e jurídica, trazendo esperança para a democracia.No que se refere à garantia da proteção dos direitos humanos, os dados impõem reflexão.

Apenas 28,9% entendem que o Judiciário garante totalmente, contra 15,66% que afirmam que não garante, ficando a maior média com os que têm a percepção de que garante apenas em parte (52,7%).

O dado interessante é que a opinião de que o Poder Judiciário garante a proteção dos direitos humanos fica acima da média entre os que possuem menor escolaridade e menor renda familiar.

Várias percepções são apontadas como déficit de garantia, como, por exemplo, "a polícia prende, o juiz solta", o que demonstra a necessidade de aprofundamento sobre as diferentes atribuições das instituições ligadas à segurança pública e sobre o poder jurisdicional na condução e garantia do devido processo legal.

A análise é extensa e profunda, merecendo as luzes do debate público para que o Judiciário cumpra sua função essencial de garantir justiça ao povo gaúcho.

 Desembargador e presidente da Ajuris martinewski@tjrs.jus.br - CLÁUDIO MARTINEWSKI


 04 DE MARÇO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

O VIGOR DO AGRONEGÓCIO

Quem pretende entender as razões do crescimento vertiginoso do agronegócio brasileiro nas últimas décadas e saber por que esse vigor tende a seguir no futuro deve conhecer ou buscar informações sobre a Expodireto Cotrijal. A 23ª edição da feira, em Não-Me-Toque, no norte do Estado, começa na segunda-feira e se estende até a próxima sexta.

Desde o seu início, a mostra se firmou como a oportunidade para os agricultores - não só do Rio Grande do Sul - conhecerem o que há de mais moderno e inovador nas tecnologias para o campo e as tendências nos mais diversos produtos e serviços ligados à produção primária. São máquinas, equipamentos, ferramentas de automação e conectividade, sementes, pesquisas, técnicas de manejo e toda sorte de alternativas e novidades para, ao fim, ser possível produzir cada vez mais na mesma área.

Assim, a feira se tornou uma ocasião ideal para fechar negócios ou mesmo inteirar-se sobre o que está em desenvolvimento e em breve estará nas propriedades, contribuindo para elevar a produtividade. Não à toa Não-Me-Toque ganhou fama como Capital Nacional da Agricultura de Precisão, e desde 2020 um dos grandes atrativos é a Arena Agrodigital, espaço com palestras e apresentação de tecnologias disruptivas aplicadas ao campo.

Também por ser um polo de atração de lideranças do agronegócio, a Expodireto se consolidou como palco de discussões estratégicas e sobre os mais diferentes temas que preocupam ou interessam a agricultura. Nos dias da mostra, ocorrem fóruns para debater cenários para a soja, o milho, o leite, o setor florestal, o trigo e a conservação do solo. Neste ano, uma das grandes novidades será o 1º Fórum da Carne Bovina, dedicado a analisar a situação da cadeia da pecuária de corte. A feira, dessa forma, também passa a contemplar melhor um dos mais importantes ramos do agronegócio do Estado e do país. Na edição que se inicia nesta segunda-feira, já se anuncia que o enfrentamento às recorrentes estiagens que castigam o Rio Grande do Sul será um dos assuntos que merecerão maior atenção.

Em termos de volume de negócios, a intenção é igualar o montante de quase R$ 5 bilhões do ano passado, a despeito dos contratempos atuais de oferta de crédito e dos problemas nas últimas safras devido à falta de chuva. Em relação ao público, que poderá conferir o que oferecem 560 expositores, a organização projeta superar a quantidade de 263 mil visitantes da última edição.

Como a Expodireto é hoje reconhecida como uma das mais importantes feiras de agronegócio do mundo, do Exterior são esperados representantes de 60 países. São os grandes números que espelham a exuberância do segmento mais dinâmico e competitivo da economia brasileira, que em grande parte se desenvolveu pelo trabalho árduo de homens e mulheres do campo do Rio Grande do Sul, que no passado tornaram o Estado o celeiro do país e, depois, com a vocação para trabalhar a terra, ajudaram a levar prosperidade a outras regiões do país. 


04 DE MARÇO DE 2023
INTERIOR DO RS

O caminho da transformação da economia de Passo Fundo

Sexto PIB do Estado e quarto em geração de renda, município chega a 2023 como referência em desenvolvimento

Um caminho ancestral, margeado pelas nascentes de cinco bacias hidrográficas e trilhado por indígenas, jesuítas, bandeirantes e tropeiros, transformou-se em um dos mais prósperos municípios gaúchos. Nascido ao redor da vereda secular aberta no mato, Passo Fundo chega a 2023 como referência em diversificação produtiva e polo regional para cerca de 1 milhão de habitantes do Planalto Médio, no norte do RS.

Com PIB de R$ 10 bilhões, o município é a sexta economia do Estado e o quarto em geração de empregos. O desenvolvimento é assentado no agronegócio da região, com preponderância no plantio de soja, mas deriva sobretudo de matriz produtiva que complementa a tradicional tríade indústria, comércio e serviços com sofisticados complexos de saúde e educação.

Dessa forma, a produção agrícola espraiada nos 83 municípios do entorno atrai os lucros obtidos nas lavouras, além de empresas e trabalhadores dos mais variados setores. Não por acaso, foi em Passo Fundo que surgiram ou ganharam gigantismo empreendimentos que hoje ostentam faturamento bilionário, como a rede de farmácias São João, a BSBios, maior produtora de biodiesel do Brasil, e a desenvolvedora de softwares Compass UOL.

- É essa economia diversificada que dá robustez e nos faz atravessar melhor as crises que afetam os demais municípios. A cidade está sendo atrativa para as pessoas e para as empresas, gerando migração na busca por oportunidades de emprego e de renda - comenta o prefeito Pedro Almeida (PSD).

De fato, enquanto cerca de 250 municípios gaúchos registraram queda na população na prévia do Censo 2022, Passo Fundo teve alta de 17%, ganhando mais 30 mil habitantes em relação a 2010. A estimativa atual aponta para 217.240 moradores, algo em torno de 25% de toda a região.

A migração e o desempenho econômico incrementaram a construção civil, fazendo de Passo Fundo o terceiro maior mercado imobiliário do Estado, só atrás de Caxias do Sul e Porto Alegre. Em 2022, foram R$ 521 milhões em vendas de imóveis, com avanço de 22,5% em relação a 2021. Há novos condomínios sendo construídos, bem como o mais alto prédio residencial do RS, com 137 metros, 40 andares e previsão de entrega em maio de 2025.

A expansão da construção civil reflete a compleição econômica do município e a vocação para aglutinar a pujança do norte gaúcho. Segundo dados coletados pelo economista Ely Matos, pesquisador do Data Social e professor da Escola de Negócios da PUCRS, 99% do valor bruto criado em Passo Fundo vem da indústria, do comércio e dos serviços, ante 1% do agronegócio. Por outro lado, em todo o Planalto Médio, a produção primária responde por 16% da riqueza.

A vizinha Nova Alvorada, por exemplo, é a terceira cidade mais rica do país, conforme recente levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV). O município tem 32% da produção originada na terra, gerando renda média de R$ 6.150 a cada um dos seus 3.698 moradores. Mas é em Passo Fundo, a 66 quilômetros de Nova Alvorada, onde ocorre a simbiose entre o dinheiro que brota do campo e os negócios que nascem na urbe.

- Nos municípios vizinhos, o agronegócio é muito mais forte, muito mais representativo no PIB de cada cidade. Mas aqui estão as agroindústrias, o grande comércio varejista, os prestadores de serviços, as universidades, os hospitais. Então, os produtores investem aqui, os filhos vêm estudar, a família procura um médico. Isso faz de Passo Fundo o motor econômico de uma região que já é próspera - diz o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Diorges Oliveira.

Até os anos 1990, a economia de Passo Fundo não diferia da matriz dos demais municípios. A mudança começou com o crescimento vertiginoso do mercado de soja, alterando a paisagem rural antes delineada por lavouras de trigo. O incremento financeiro levou o município a investir na industrialização como forma de agregar valor ao ouro verde que surgia do solo. Atualmente, há 924 indústrias em atividade em Passo Fundo, empregando 12.341 pessoas, entre elas gigantes do setor alimentício como JBS, Cargill, Amaggi e Italac.

- A cidade mudou. Além do agronegócio, que se fortaleceu, a indústria e os serviços trouxeram desenvolvimento, impulsionando toda cadeia produtiva e fazendo o dinheiro girar o ano inteiro. Daí em diante que o PIB de Passo Fundo melhorou bastante - diz o empresário Antônio Roso, dono da Metasa, indústria metalmecânica com sede em Marau, e de outras 11 empresas na região, acumulando faturamento anual de R$ 1 bilhão.

Impulso

O desenvolvimento econômico impulsionou ainda dois outros setores: a saúde e a educação. São sete instituições de Ensino Superior, 26 colégios de Ensino Médio e 79 de Ensino Fundamental. Uma escola de música garimpa crianças e adolescentes com vocação para as artes e uma escola das profissões forma mão de obra para suprir demandas das empresas locais.

Com três faculdades de Medicina, Passo Fundo formou robusto polo de saúde, com oito hospitais e prontos-socorros, 40 postos de saúde e 174 policlínicas. São 6,48 médicos e 5,36 leitos por 100 mil habitantes, mais do que o dobro do RS - 2,61 e 2,58, respectivamente.

- A cidade quase quebrou nos anos 1990, um período de transição para empresas familiares que não conseguiram fazer sucessão e enfrentaram muitas dificuldades. A lógica era ir embora daqui. Mas surgiu uma nova geração de empresários, gente que acreditou, investiu e venceu. Hoje, o ambiente é muito mais otimista, a cidade atrai e retém os jovens - diz Eduardo Capellari, sócio-fundador da Atitus, grupo educacional com 18 cursos de graduação e 6 mil alunos.

Parte do impulso econômico é creditado à localização privilegiada. Situado num ponto central do norte gaúcho, o município facilita o desembarque e a distribuição de mercadorias. Também abriga o segundo maior aeroporto do Estado, com cinco voos diários para São Paulo e capacidade de transportar 300 mil passageiros ao ano.

A trilha indígena ao redor da qual a cidade surgiu não só se tornou a principal avenida do município como deu origem à BR-285, um dos corredores bioceânicos do Mercosul, aproximando o porto chileno de Antofagasta, no Pacífico, do porto catarinense de Imbituba, no Atlântico. A logística primitiva das tribos originárias ganhou modernidade e tecnologia, sem abdicar da essência natural de servir ao bem-estar das pessoas.

- Passo Fundo começou como caminho e virou entreposto comercial, mas sempre fez dessas conexões a sua eterna vocação. É um fluxo permanente que oxigena a cidade - diz o historiador Djiovan Carvalho, presidente do Instituto Histórico de Passo Fundo.

 FÁBIO SCHAFFNER

sábado, 25 de fevereiro de 2023

25 DE FEVEREIRO DE 2023
CINEMA

CINEMA

Está em sessões de pré-estreia neste fim de semana nos cinemas Espaço Bourbon Country e GNC Moinhos, na Capital, e entra em cartaz no dia 2 Close (2022), filme indicado ao Oscar internacional e dirigido pelo belga Lukas Dhont. Este triste e belo drama sobre amizade, masculinidade tóxica e homofobia na adolescência recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, onde Dhont já havia sido premiado por seu primeiro longa, Girl (2018, na Netflix), com o Camera dOr, a Palma Queer e o troféu da crítica. Na trama, uma bailarina transexual de 15 anos enfrenta barreiras físicas e emocionais ao lidar com sua transição de gênero.

A aclamação no festival francês, a sua nacionalidade e o foco na adolescência permitem filiar Dhont, 31 anos, aos irmãos Jean-Pierre, 71 anos, e Luc Dardenne, 68. A dupla belga acumula prêmios em Cannes e retratou jovens ou adolescentes em títulos como Rosetta (1999) , O Filho (2002), O Garoto da Bicicleta (2011) e O Jovem Ahmed (2019).

Embora os Dardenne sejam cronistas da classe trabalhadora e da população imigrante e Dhont aborde questões de gênero e sexualidade, percebe-se uma aproximação também na forma como esses diretores contam suas histórias. Em Close, a abordagem é tão realista, tão naturalista, que por instantes podemos achar estar vendo um documentário. Mas essa impressão é logo desfeita pelo talento do ator novato Eden Dambrine. Seu rosto e seu corpo prescindem da palavra para transmitir todos os sentimentos e dilemas do protagonista.

Trata-se de Léo, 13 anos, filho caçula de agricultores que cultivam flores e melhor amigo de Rémi (Gustav De Waele), que tem a mesma idade e estuda oboé. Por estarem sempre juntos, brincando no escuro, correndo no campo, andando de bici, Léo é chamado de "filho do coração" pela mãe de Rémi, Sophie (Émilie Dequenne, premiada em Cannes por um filme dos Dardenne, Rosetta).

Os dois garotos não se desgrudam, inclusive dormem abraçados. Mas não são namorados. Ou não importa se são ou não são, como disse Lukas Dhont em entrevista à Vanity Fair:

- Sempre disse aos atores de Close: "Não me importo com a sexualidade desses personagens, se Léo e Rémi são gays ou não". Quando leio relatos de meninos como eles, alguns podem ser queer, outros não. Mas eles compartilham essa experiência de estarem desconectados uns dos outros pelos códigos de comportamento ligados ao corpo em que nasceram. Para mim, o ponto do filme é nos fazer sentir que matamos a bela amizade entre meninos desde muito jovens. Tentamos fazer um filme sobre a fragilidade, sobre a ternura, mas também sobre o que acontece quando privamos os jovens dessa fragilidade, dessa ternura.

Na mesma entrevista, Dhont falou sobre uma inspiração para Close, que ele escreveu com Angelo Tijssens, coautor de Girl. Foi uma pesquisa da psicóloga estadunidense Niobe Way, que acompanhou a vida de 150 garotos ao longo de cinco anos:

- Quando ela os entrevistou aos 13 anos, eles se atrevem a usar a palavra "amor" ao falar sobre seus amigos. À medida que envelhecem e as expectativas de masculinidade se tornam mais fortes neles, ficam totalmente desconectados dessa linguagem. Vivemos em uma sociedade onde masculinidade e intimidade são conceitos muito difíceis de unir. Dizemos aos homens que o único lugar onde podem encontrar intimidade é através do sexo e que expressar amor e vulnerabilidade para outro homem é algo incrivelmente complexo. Frequentemente, temos imagens de comportamento tóxico, de violência, de guerra, quando se trata de masculinidade, mas raramente vemos uma amizade íntima e bonita em que dois meninos se deitam juntos na cama e só querem estar tão perto (close, em inglês).

Eis o conflito: após as férias, ao voltarem à escola, Léo e Rémi são confrontados por perguntas e piadinhas homofóbicas dos colegas. Os espaços a céu aberto do início do filme vão minguando à medida que os dois amigos perdem a liberdade de serem como são. Pressionados, por um lado, pela confusão emocional típica da puberdade e, por outro, pelas convenções sociais, calcadas na agressividade e na repressão, cada um reage de um jeito.

Rémi parece não dar bola às insinuações e continua oferecendo e buscando carinho junto ao Léo. Mas este, agora, se recusa a deixar sua barriga servir de colo para a cabeça do amigo no recreio. Léo procura se ajustar às expectativas da maioria, tenta se enturmar, enquanto Rémi fica à margem, junto aos excluídos. Ainda que jamais verbalizado, há um rompimento, que machuca ambos - e, de novo, cada um reage de um jeito.

Como que para provar masculinidade, Léo entra no time de hóquei no gelo. A escolha do esporte é significativa não só pela violência característica. O gelo, obviamente, remete à frieza, ao sufocamento das emoções. O hóquei requer uma armadura, que deixa Léo com uma aparência mais forte e protege o seu peito - o seu íntimo. O uniforme simboliza o desejo de querer ser como os outros e desaparecer em grupo. Por fim, há o capacete com a máscara. Aquele já não é mais o guri doce que vivia na casa de Rémi, já não é mais o verdadeiro Léo, mas um personagem que construímos para atender aos papéis sociais. Daí o comentário emblemático de Sophie, quando vai vê-lo jogar:

- Com a máscara, é difícil reconhecer você. 

TICIANO OSÓRIO


25 DE FEVEREIRO DE 2023
DRAUZIO VARELLA

COISAS DA VIDA

Quantos filhos a senhora teve? Quantos criou? No curso médico, éramos instruídos a fazer essas duas perguntas em sequência, ao anotar a história da paciente no prontuário. A resposta nos dava ideia do nível socioeconômico e das condições de vida das mulheres que procuravam o Hospital das Clínicas, em São Paulo, nos idos de 1960.

Não era raro ouvir que haviam dado à luz 10 ou 12 e criado sete ou oito. Perder filho era uma das tragédias que as famílias daquele tempo se viam obrigadas a aceitar com resignação, pela vida afora.

No livro Evolution and Human Behavior, Anthony Volk e Jeremy Atkinson analisaram diversos estudos sobre as taxas de mortalidade antes de alcançar a vida adulta, na história da humanidade. Separaram os dados em dois períodos: 1) mortalidade no primeiro ano de vida. 2) mortalidade total antes dos 15 anos de idade.

O levantamento das séries históricas mostrou que, em média, 26,9% dos recém-nascidos morriam antes de comemorar o primeiro aniversário, e que 46,2% de todas as crianças não chegavam aos 15 anos. Em termos gerais: uma em cada quatro morria no primeiro ano de vida; apenas metade dos nascidos chegava à idade adulta.

O que mais chamou a atenção dos autores, entretanto, foi a consistência desses números nas 43 culturas históricas avaliadas. Na Grécia Antiga, na Roma Antiga, na China Imperial, nas Américas pré-Colombianas, na Inglaterra e no Japão Medievais ou na Renascença Europeia, as taxas de mortalidade eram da mesma ordem: morria um bebê em cada quatro; metade das crianças não atingia a maturidade reprodutiva.

Esses números seriam confiáveis? Não subestimariam a capacidade de sobrevivência de nossa espécie, nas fases iniciais da vida?

Não é o que os dados revelam. O crescimento populacional na maior parte da história foi lento, apesar de taxas de natalidade acima de seis filhos por mulher. Se a média fosse de seis filhos por mulher, a população do mundo deveria triplicar de uma geração para a outra. Na realidade, do ano 10 mil antes de Cristo ao ano de 1700 da época atual, o crescimento populacional foi de míseros 0,04% ao ano. Grande número de nascimentos sem aumento significativo da população só pode ser explicado por índices elevados de mortalidade antes da idade reprodutiva.

Os demógrafos foram ainda mais longe: analisaram os estudos existentes sobre a mortalidade nas espécies geneticamente mais próximas do Homo sapiens. Nos neandertais, por exemplo, que habitaram a Eurásia de 400 mil a 40 mil anos atrás, espécie com genes tão parecidos com os nossos que possibilitaram a miscigenação, a mortalidade no primeiro ano de vida é estimada em 28%.

Já entre os grandes primatas não-humanos, a compilação de várias estimativas permitiu concluir que nos chimpanzés e nos gorilas os índices de mortalidade no primeiro ano de vida e antes da puberdade são semelhantes aos dos nossos antepassados. Nos orangotangos e nos bonobos eles parecem ser até mais baixos do que os dos humanos.

Na história da humanidade, sociedades que viveram em ambientes diversos, a dezenas de milhares de quilômetros de distância, em cinco continentes, separadas por milhares de anos, mantiveram taxas altíssimas de mortalidade na infância, não muito diferentes daquelas dos grandes primatas que viviam nas florestas.

No século 20, ocorreram transformações dramáticas que duplicaram a expectativa de vida na maior parte dos países. Mesmo nos mais pobres os ganhos foram substanciais. Estão por trás desse aumento da longevidade, a revolução verde que permitiu levar alimentos de qualidade a grandes massas populacionais e três grandes avanços científicos: vacinação, teoria dos germes e antibióticos. Tais benefícios, entretanto, jamais teriam chegado à vida cotidiana sem a ação dos movimentos sociais, como os que aboliram a escravatura, reduziram as desigualdades, democratizaram a educação e persuadiram as pessoas a lavar as mãos, não fumar, abandonar o sedentarismo e a tomar vacinas.

Hoje, os indicadores de saúde revelam que cerca de 95,4% de todas as crianças do mundo chegam vivas aos 15 anos. Os ganhos foram desiguais, no entanto. A Somália tem a mortalidade mais alta do mundo, nessa faixa etária: 14,8%; a Islândia, a mais baixa. A probabilidade de um recém-nascido islandês chegar aos 15 anos é de 99,7%, ou seja, perdem a vida nesse período somente três em cada 1.000 crianças.

DRAUZIO VARELLA