sábado, 3 de agosto de 2024



03 de Agosto de 2024
PERIGOSO OU NATURAL?

PERIGOSO OU NATURAL?

O que dizem especialistas sobre a "nova" ilha do Guaíba. Banco de areia já existia, mas aumentou depois da cheia de maio. Profissionais divergem sobre necessidade de intervenção na área

Vinicius Coimbra

A expansão de um banco de areia no Guaíba, em Porto Alegre, motiva posicionamentos contraditórios de estudiosos e autoridades. Parte deles define o local como problemático para embarcações no futuro e um risco em caso de uma nova enchente, o que justificaria uma intervenção. Outros defendem que a formação da ilha é um processo natural, que não significa risco.

Segundo Elírio Toldo Jr, pesquisador do Centro de Estudos de Geologia Costeira e Oceânica (Ceco) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a ilha já existia antes de maio.

- É um processo lento e natural que seguirá para o interior do Guaíba - pontua.

Ele ressalta que o crescimento do banco de areia não significa prejuízo ao canal por onde passam os navios. Para ele, a ilha também não preocupa em caso de cheias.

Francisco Milanez, diretor-técnico e científico da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, afirma ser contrário à ideia de que o crescimento do banco de areia deva ser freado:

- É uma manifestação do arquipélago, uma formação arenosa estável, resultado da hidrodinâmica dos rios.

Desassoreamento

Já o posicionamento do Consórcio Metropolitano Granpal é de preocupação quanto ao aparecimento do banco de areia.

A entidade, que reúne 17 municípios, defende política de desassoreamento na região.

- A dragagem é urgente. Em épocas de seca, há sérios riscos de a operação do Catamarã ser interrompida - diz Marcelo Maranata, presidente do consórcio e prefeito de Guaíba.

Conforme Marcelo Dutra, doutor em ciência e professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande (Furg), o crescimento da nova ilha deve motivar iniciativas para o longo prazo:

- Vamos observar alterações drásticas se esse material não for retirado ou se novas entradas não forem evitadas. Estamos perdendo a capacidade de navegação. 



03 de Agosto de 2024
ACERTO DAS TUAS CONTAS

Giane Guerra acerto das (tuas) contas - com Guilherme Jacques e Guilherme Gonçalves

Investimentos que escapam da mordida do Leão

Um grande "charme" de uma aplicação financeira é ser isenta de Imposto de Renda, mas nem todas têm as mesmas regras. Na semana passada, a coluna falou da Letra de Crédito de Desenvolvimento (LCD), criada recentemente e ainda sem data para chegar ao mercado dos investidores. Hoje, traz uma lista dos investimentos que escapam da mordida do Leão. Mas antes lembre-se de que esse é apenas um dos atrativos. Diversos outros pontos devem ser levados em consideração na hora de escolher onde guardar o seu dinheiro.

LETRA DE CRÉDITO DE DESENVOLVIMENTO (LCD) - É isenta para pessoas físicas residentes no Brasil. Para investidores pessoa jurídica ou moradores do Exterior, a alíquota de IR é reduzida para 15%. O papel, emitido pelo BNDES, captará recursos para investimento de infraestrutura e inovação industrial.

LETRA DE CRÉDITO IMOBILIÁRIO (LCI) E DO AGRONEGÓCIO (LCA) - Com rendimento isento de IR, o papel é emitido por empresas destes setores.

LETRA IMOBILIÁRIA GARANTIDA (LIG) - Emitidas por instituições como bancos e sociedades de crédito. Conta com o atrativo da isenção de IR, mas não entra na proteção de R$ 250 mil do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) no caso de calote da instituição financeira.

CERTIFICADO DE RECEBÍVEIS IMOBILIÁRIOS (CRI) E DO AGRONEGÓCIO (CRA) - Títulos emitidos por empresas com garantia nos créditos que ela tem a receber, como uma construtora que ainda será paga nas parcelas do imóvel que vendeu. Como a LIG, são isentos de IR, mas não têm proteção do FGC.

DEBÊNTURES INCENTIVADAS - Papéis emitidos por empresas para investir em infraestrutura,como saneamento e rodovias. Elas são isentas de IR para pessoas físicas, ao contrário das debênturescomuns ou corporativas. Também não são protegidas pelo FGC, mas bateram recorde de emissões no primeiro semestre.

FUNDOS DE INVESTIMENTO IMOBILIÁRIO - Há vários tipos, que vão da compra de títulos emitidos por empresas aos que adquirem o próprio imóvel para alugar e são chamados de tijolo. Bons pagadores de dividendos são isentos para pessoas físicas, mas, no caso de negociação das cotas em bolsa, paga 20% no ganho de capital.

FUNDO DE INVESTIMENTO EM CADEIAS PRODUTIVAS AGROINDUSTRIAIS (FIAGRO) - Criado há poucos anos, pode aplicar em silos e galpões ou comprar fatias de empresas do agronegócio. O lucro distribuído a pessoas físicas é isento, mas o ganho com a venda de cotas paga 20% de IR.

POUPANÇA - A caderneta também é isenta, mas seu rendimento é baixo, chegando até a perder para a inflação em alguns anos.

AÇÕES NA BOLSA DE VALORES - A venda é isenta quando a negociação ficar abaixo de R$ 20 mil no mês. Se exceder, tem que pagar 15% sobre o ganho de capital. Compra e venda no dia (day trade) recolhe 20%. Distribuição do lucro ao acionista, o dividendo é isento. Já o juro sobre capital próprio (JCP) recolhe 15% na fonte, ou seja, chega no investidor comIRpago. _

Do gastador ao investidor: o perfil do consumidor da Capital

Use lupa nos rótulos dos alimentos que você compra

Consumidor verde

Entusiasta da educação financeira, mesmo que no comando de uma entidade de varejo, o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL POA), Irio Piva, costuma inserir em pesquisas básicas de datas de vendas recortes que mostrem como estão as contas do consumidor. Na última, em parceria com a Vitamina Pesquisas Orgânicas e Criativas, os entrevistados foram questionados com qual perfil de consumo se identificam mais. _

A diretora Rosângela Cabral é também, claro, consumidora, e a coluna perguntou sua exigência para comprar alimentos:

- Procuro produtos naturais e orgânicos, mas nem todos são. Me preocupo em olhar o rótulo. Se tem ingredientes artificiais, nomes que não sei o que são, não compro - diz Rosângela.

Assim como cuida do meio ambiente e da comunidade, o consumidor sustentável preserva seu corpo com bons alimentos. A expressão que a coluna adora: "comida de verdade". _

37,5%

Gastador

26%

Poupador

18%

Desligado

10%

Devedor

8,5%

Investidor

Gasto o que ganho. Não tenho dívidas, mas também não costuma sobrar nada.

Consigo economizar parte do que ganho para reservas de emergência ou algum objetivo específico.

Não gasto tudo que ganho, mas deixo o que sobra parado. Não coloco na poupança nem invisto.

Tenho dívidas que não consigo saldar e entro em uma bola de neve, pois tenho gastos maiores que a minha renda.

Destino parte da minha receita a investimentos financeiros, mesmo que possa gerar maior risco.

ACERTO DAS TUAS CONTAS


03 de Agosto de 2024
CARTA DA EDITORA

Chega mais

As diversas modalidades esportivas ainda estarão em evidência nos próximos dias. E as Gu aproveitaram para mostrar que é possível estar na moda até na hora de praticar exercícios, tanto que já escolheram os seus looks fitness, que podem ser encontrados na Pompéia.

A dupla de ouro legging e jaqueta corta-vento foi a aposta da Alice Bastos Neves e é ideal para os dias em que o frio é a companhia na hora de se exercitar. Já a Kelly Costa prezou pelo conforto do básico com camiseta e legging. Nos pés, uma das escolhas mais importantes para quem vai praticar atividades físicas: o tênis, que precisa ter o modelo apropriado para evitar lesões.

Se inspirou? Garanta essas e outras opções nas lojas, no site lojaspompeia.com e no app. Para conferir de perto, visite a unidade da Pompéia no Shopping Iguatemi (Av. João Wallig, 1.800, 1º andar, de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos, das 11h às 22h) e aproveite o serviço de consultoria gratuito. 

Já peguei muita estrada pavimentada nas conquistas das liberdades femininas. Mercado de trabalho talvez seja a mais preciosa para mim, herança de uma geração que colocou uma boa dose da identidade na profissão - tente falar comigo durante 15 minutos e saberás. Uma forma de conquista, porém, ficou para atrás na minha bibliografia: sou péssima em tomar a iniciativa quando algum homem me interessa. Assim como também não facilito minha vida só postando fotos da Tannat e da Tulipa, minhas gatas, no Instagram.

Embalada por essas observações do meu precário marketing pessoal como solteira, fui editar a matéria de capa desta edição, feita e proposta pela repórter Karine Dalla Valle. Assim como temos histórias bacanas como a da estrategista de marca Karine Adiers, que conduz o par escolhido por ela mesma pelo salão de dança, temos reflexões importantes, a exemplo de uma onipresente visão social daquela menina moldada para ser "a eleita".

Não me encaixo atualmente em nenhum dos modelos acima. Mas cabe a quem tem acesso a boas conversas, como nós de Donna e vocês leitoras, lançar um olhar atento para a provocação da psicóloga Lavínia Palma, que nos entrega observações como "Se a mulher esconder o que sente, ou ficar em uma posição de espera, isso, de alguma forma, ainda confere valor para ela".

Em pleno 2024, ainda temos estereótipos nos calcanhares quando o assunto é vida sexual, mesmo as que já dispensaram há muito o sapatinho de cristal. _

Profissionais da moda e da arquitetura se reúnem no próximo dia 10 no evento Cenários do Design, na Fábrica do Futuro (Rua Câncio Gomes, 609, Floresta), em Porto Alegre, para debater as tendências futuristas do design e fortalecer a produção local, oferecendo novas perspectivas aos criativos da região. O encontro promoverá networking e painéis, além de conteúdo exclusivo de feiras internacionais como Salone del Mobile, integrando tendências globais com a realidade local. Os ingressos estão disponíveis via plataforma Sympla.

A De Sírius Cosméticos criou a linha de tratamento capilar Hair Curve, que reativa a definição de cabelos cacheados, ondulados e crespos que passaram por processos químicos como mechas, progressiva e uso excessivo de chapinha, deixando os fios mais saudáveis e fortes. Os produtos estão à venda no site da marca desirius.com.br/hair-curve.

Malha gaúcha - Trama tropical

Criando malhas há 38 anos, a Biamar lançou a coleção de primavera com mais de cem novos modelos. Sob o conceito Trama Tropical, a marca se inspirou tanto no clima ameno quanto no inverno brasileiro, trazendo peças de tricô como blusas, casacos, saias, entre outros, sempre apostando em tons pastel. As roupas estão disponíveis no site loja.biamar.com.br.

Feira La Movida - Moda e cultura

Ocorre neste domingo, das 10h às 18h, mais uma edição da Feira La Movida na João Telles, esquina com a Osvaldo Aranha, com moda, arte, gastronomia e cultura. Além disso, o evento contará com música ao vivo e outras atividades no local. Mais informações no perfil @feiralamovida.

CARTA DA EDITORA

sábado, 27 de julho de 2024



Veja como é possível transformar as dores da vida

Portal EdiCase

Pingos grossos lambem a janela do quarto enquanto me sento para escrever. Atrás da vidraça, a paisagem cinza ameaça apagar minhas palavras. Mais um dia de cidades devastadas, gente sem casa, com fome, guerras, doenças, perdas. Fecho a página das notícias como quem cerra a cortina. Não preciso ir longe… viver é mesmo tão doído!

Escolho um livro para amainar os olhos embaçados de chuva. Tiro da estante Cartas Perto do Coração (Record), uma coletânea de correspondências entre os escritores Fernando Sabino e Clarice Lispector. Não sei bem o que procuro até achar uma página com a ponta da folha dobrada. Sou arrebatada por uma frase do Fernando, em uma carta escrita em setembro de 1946, quando morava em Nova York.

Naquele mês, após ter operado as amígdalas e deixado o hospital, ele escreve à Clarice comentando um conto dela e um sonho que teve. Nessa carta, presenteia a amiga com o que eu considero uma pérola. Ele diz: “A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento”. Dali por diante, me agarro a essa iluminação.

A dor, afinal, atravessa a nossa experiência humana de modo inescapável. Ou como escreve a própria Clarice Lispector no livro Água Viva: “Dor é vida exacerbada”. Se ninguém vive sem sofrer, então, a pergunta que fica é: como lidar melhor com as dores que nos afligem? Como transformá-las e seguir em frente?

Força de vida

A fim de compreender esse algo nosso que é tão humano, fui conversar com mulheres que me ajudaram a ampliar o entendimento de que estamos nesse mundo para aprender e evoluir justamente por meio do que fazemos com o que sentimos. A nutricionista e terapeuta Ana Fanelli é uma delas. Sua história de luto e reconstrução de si me impactou. Há 12 anos, ela perdeu o filho mais novo para uma doença sem cura.

Felipe foi diagnosticado com uma síndrome neurológica rara com a idade de 12 anos. Sofreu um bloqueio elétrico no coração, seguido de complicações. Com o tempo, foi perdendo a mobilidade. “Não consegui aceitar a dimensão da gravidade, mas não tinha o que fazer, a não ser cuidar dos sintomas”, conta Ana. Segundo os médicos, havia uma expectativa de um a três anos de vida. Felipe viveu mais 13.

Mesmo com tantas limitações e dependendo de ajuda para atividades simples do dia a dia, o garoto pintava, cantava e conquistava a simpatia de todos à sua volta. “Ele tinha muita força de vida, e eu sinto que ele ficou mais tempo com a gente para ensinar. Viveu a graça de expressar quem ele era, uma pessoa muito alegre, que já acordava agradecendo o dia”.

Quando o coração congela

Ana não estava preparada para a perda do filho. Dois anos e meio antes, em uma das internações que Felipe enfrentou, ela procurou o primeiro auxílio psíquico. Sentada na poltrona do consultório, no entanto, ficou muda. Não sabia o que dizer. Foi o psicólogo quem jogou as cartas na mesa: “Você veio aqui para se preparar para a morte do seu filho”. Há dores que nem as quase 400 mil palavras da língua portuguesa dão conta de expressar.

Aos 25 anos, Felipe faleceu – 45 dias depois do pai dele, de quem a mãe já estava separada havia muito tempo. A reação imediata de Ana foi mergulhar no trabalho para não encarar o sofrimento sem nome. Sua vida se resumia a acordar, trabalhar e dormir. Na mesma casa, ela e o filho mais velho sofriam isolados.

“Foi um choque, para mim, muito profundo, sinto que eu congelei meu coração”, desabafa. Entrar no vitimismo não é nada difícil em uma situação como essa. Por que isso está acontecendo comigo? Justo eu e quem amo temos de passar por tal suplício? Essas eram perguntas que Ana fazia.

Além da raiva e do ressentimento por se ver naquela situação, tinha também um misto de culpa e vergonha pelos próprios sentimentos. “Eu saía daquele hospital e falava a mim mesma: ‘mas, Ana, você sai andando’… tudo o que eu assisti ao Felipe perdendo, eu podia fazer”.

O que se seguiu à morte do filho foi uma grande crise existencial. “Eu me dei conta de que estava viva. Mas e o que eu estava fazendo da minha vida?!”. O período de profunda tristeza e isolamento provocou um sentimento crescente de angústia.

No fundo do peito, martelando na consciência, a pergunta do sentido da própria vida não queria calar. E foi aí que Ana buscou novamente ajuda profissional. Chegou inicialmente a um grupo de mulheres e à psicoterapia, passando a se permitir “reconstruir os laços e lamber as feridas”.

A saída do labirinto

“Sozinha é muito difícil, mas com ajuda profissional é mais fácil superar as dificuldades”, atesta a médica e psicoterapeuta Cristiane Marino, com quem também conversei. É como um guia que mostra o caminho de saída do labirinto da dor. Afinal, a gente tem a tendência de achar que o que está sentindo é a totalidade, quando não é. “Se estou triste, é como se eu toda estivesse consumida pela tristeza. Ao perceber que isso é só um aspecto meu, que algo em mim está triste, mas não sou eu toda, a pressão interna diminui um pouco”.

Cristiane explica que, em situações de dores profundas, mas também nas menores e mais corriqueiras, há três papéis com os quais a gente acaba se identificando: o de vítima, agressor ou salvador. Buscamos culpados e justificativas externas, adotamos uma postura agressiva contra o outro ou queremos salvar tudo e todos. Em nenhuma das três posições, assumimos o nosso lugar no mundo como autores da nossa própria vida.

Não se trata de papéis estanques, em que somos apenas uma coisa ou outra. São posturas presentes em todos os seres humanos. “É como se fosse uma dança das cadeiras, em cada momento que a música para, a gente senta numa cadeirinha”, compara Cristiane, que promove um grupo de leitura do livro Abandonar o Papel de Vítima: Viva sua Própria Vida (Vozes), da psicoterapeuta suíça Verena Kast.

Na obra, ela pontua a importância de identificarmos “onde e quando nós mesmos desempenhamos qual papel”. Acabo compreendendo que perceber em qual cadeira estou sentada me ajuda a discernir o que é meu e o que é do outro. Me dou conta de que a responsabilidade de como reajo às situações é apenas minha, embora ainda me pegue culpando o outro pelo que sinto. “Por mais difíceis que sejam as condições externas, a gente escolhe como quer enfrentar as situações”, diz Cristiane.

Indefesa perante a dor e o mundo

Acontece que quem vive a situação nem sempre consegue perceber isso. De acordo com a psicóloga Ilana Roriz, o lugar de vítima é doloroso porque a pessoa acredita não ter condições de agir e paralisa. “Ela se sente indefesa perante a dor e o mundo, considera-se sem condições de lutar pela dignidade de ser agente na vida”.

Quem entra no vitimismo acaba recaindo também na agressividade consigo ou com o outro. Engana-se quem pensa que o efeito disso é meramente emocional, sem grandes repercussões concretas. Como se já não fosse grande coisa, essa dinâmica suga a energia psíquica, provoca a queda da vitalidade e aciona o sistema de luta e fuga, conforme explica Cristiane Marino.

As consequências não são poucas e podem incluir sono agitado ou insônia, estresse e problemas na imunidade, como a suscetibilidade a infecções e inflamações. “Se essas dinâmicas não são cuidadas, prejudicam a saúde física, desequilibram todo o sistema nervoso autônomo e a pessoa não ativa o sistema parassimpático, que é o de restauração”, ensina a profissional.

Algo a contribuir

Assumir a postura de vítima, no entanto, não é uma decisão consciente, mas, uma vez que nos damos conta dela, é importante ter paciência conosco e saber que há sempre uma saída. Segundo Ilana, é necessário reconhecer o quanto já se caminhou até aqui para entender que existe vida além da dor.

Foi isso que Ana Fanelli descobriu na jornada de autoconhecimento na qual embarcou, ao compreender que precisava transformar a dor que sentia e ressignificar a própria vida. Ela fez terapia, participou de roda de mulheres, ingressou na dança circular e fez formação holística de base.

Há cerca de cinco anos, saiu do trabalho corporativo como nutricionista para fazer um retiro sabático. Passou a ser consultora em nutrição, até fazer uma transição de carreira e se tornar terapeuta transpessoal e instrutora de mindfulness. Hoje, une a isso a alimentação consciente e o trabalho com a maturidade. Ana lembra que a dor inicialmente foi tão imensa que a congelou, deixando uma cicatriz.

Uma marca tão funda que pode estar lá quietinha, mas não deixa de existir e, às vezes, até reaviva. “Quando você consegue perceber que não é só você que passa por isso, essa cicatriz se acomoda. O universo do sofrimento está dado na nossa experiência humana. A questão é o que a gente faz com isso”.

A crise existencial provocada pela perda do filho fez com que Ana fosse em busca de se reinventar e expressar sua singularidade no mundo. Para ela, o que se vive hoje também pede isso de nós. “A gente está experimentando situações que estão esfregando na nossa cara que não temos controle da vida; passamos pela pandemia, agora essa emergência climática em vários locais no planeta. O que nos cabe é expressar o que temos a contribuir”.

Distanciamento e recolhimento

Mas onde estão nossos insumos? Ressoam em mim as palavras de Ilana: “Quando a pessoa sai da posição de incompreensão consigo e reconhece que algo de bom já existiu, aos poucos, retorna ao lugar que sempre há em nós, o de protagonista da nossa história”.

Cristiane Marino ensina que distanciamento e recolhimento são muito importantes nesse processo. Para recrutar os recursos internos e renovar as energias, são necessários momentos de pausa e repouso, assim como contato com a natureza e o belo, boa qualidade de sono e alimentação.

Mais uma dica valiosa para quem vive um momento de dor é não se expor desnecessariamente – seja nas redes sociais ou na vida cotidiana. “Veja um animal ferido. O que ele faz? Busca um abrigo onde ninguém o encontre. A gente tem de aprender o valor do recolhimento, que é diferente do isolamento”, afirma.

Outras atitudes de cuidado consigo também são úteis para não se deixar afundar no sofrimento, como movimentar o corpo, tomar sol, cultivar relações que nos dão alegria e incluir no dia a dia atividades que nos alimentam internamente – tocar um instrumento, escrever, pintar, cozinhar, cuidar de plantas, o que mais gostar.

Punhados de fé

“Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar”… Felipe, que era um rapaz musical, tinha nesses versos do Gil uma das suas canções preferidas e lema de vida. E foi justamente esse sentimento que ficou para a mãe. Além de carregar a dor a tiracolo, Ana aprendeu a levar consigo punhados de fé.

Todo o processo vivido a fez acreditar em algo maior, o que hoje ela chama de Consciência Divina. Apesar de não ter uma religião definida, os ensinamentos budistas a ajudaram a entender melhor a natureza da vida e das emoções. Ela sentiu que, como pessoa, não daria conta, e só assim pôde se sustentar. A teia que une todos nós a amparava.

A psicóloga Ilana Roriz explica que o reconhecimento de que existe algo além do ser humano está na origem da psicoterapia. Para ela, cultivar a espiritualidade é, portanto, fundamental para a cura das dores da alma. “Com essa conexão, há a certeza de que não se está só, e assim desenvolve-se a fé em um processo de restauração da saúde. Com essa ligação refeita, a confiança em si mesmo se torna viável para perceber o seu protagonismo, apropriando-se do legítimo direito de ser único e especial perante Deus e a si mesmo”.

A jornada de Ana é prova disso. Dois meses antes de falecer, Felipe pintou um quadro cuja arte retrata uma orquídea pingo de ouro, de flores miúdas e amarelas. É essa a lembrança que Ana guarda consigo, representando o coração do filho que, enquanto esteve vivo, expressou toda sua força de vida e gratidão por estar aqui. Até hoje, quando se aproxima a data de passagem ou nascimento dele, ela vê florescer orquídeas douradas miúdas por aí. Após ter sofrido muito, Ana aprendeu a sofrer bem. É como se o filho se fizesse perto outra vez, e ela, de repente, sorri.

Por Luísa Sá Lasserre – revista Vida Simples

Escritora e jornalista sensível às dores do outro e do mundo, ela acredita que viver dói, e como, mas também faz sorrir.