sábado, 23 de março de 2019


23 DE MARÇO DE 2019
PIANGERS

Chora que faz bem

Perdi a conta de vezes que vi pessoas chorando. Ao vivo, em palestras, às vezes quando me param na rua, esboçam algumas frases, citam o pai ou os filhos, e começam a chorar. Sempre pedem desculpas, como se fosse algo errado se emocionar. Parece vergonha ter tanto coração. Parece que a gente treinou tanto pra ser máquina, acordar cedo, bater ponto, pagar conta, trânsito, cobrança. Ser duro é ser forte. Ser sensível é ser fraco. Eu acho completamente o contrário.

Já aconteceu muitas vezes. Na saída de um shopping, uma mãe me abraçou e começou a soluçar. Me abraçou e deixou meu ombro todo molhado. Outro dia, em um restaurante, um pai tentava falar, mas engasgava e não conseguia dizer nada. Apenas começava as frases normalmente mas terminava desafinando, não conseguia completar a história que queria me contar; acabou me mandando por e-mail. Uma menina que trabalhou comigo também tinha esse problema: mãe solo, não podia começar a falar do filho que caía em lágrimas ali mesmo no escritório. Só conseguia dizer: "Desculpa, desculpa". Desculpa por quê?

Faz bem chorar. Pra isso que servem aqueles lencinhos do lado do divã. É o pedágio do corpo quando a emoção quer sair. Por vezes, são coisas que a gente tem guardado, que não consegue falar e só sai com soluço e lágrima e ranho. Por vezes, é melhor assim. Quem chora reconhece que é humano, que sentir não é feio, que colocar pra fora é curativo. Não há vergonha. Então, quando alguém me fala: "Choro muito assistindo seus vídeos", eu digo: "Obrigado! Eu choro muito fazendo-os". Pois virei um chorão depois que as minhas filhas nasceram.

Choro quando vejo fotos antigas. Choro quando a pequena dorme no meu colo. Choro com filmes sobre mulheres fortes. Minhas filhas estão crescendo, então eu vejo as notícias de mulheres sendo agredidas e me dá um pavor terrível. Fico com medo de como o mundo vai tratar essas duas meninas, as coisas que mais amo na minha vida. Aí então, se vejo um filme bonito, um discurso emocionante falando sobre direito das mulheres, sobre a luta delas, sobre dar oportunidade para meninas, respeitar garotas e deixá-las ser quem puderem, choro mesmo de emoção. Choro de não conseguir falar. Choro de esconder o rosto com as duas mãos. Choro de imaginar mesmo que essas meninas podem chegar longe, apesar do mundo estar indo pra não sei onde.

Pode chorar que faz bem. Fraco mesmo é quem não sente nada. Quem sente põe pra fora, e terá aqui sempre um ombro amigo.

PIANGERS

23 DE MARÇO DE 2019
PAULO GERMANO

CHEGA DE CANTAR "MACACO"

Já prevejo a reação, é sempre a mesma. Dirigentes vão perguntar a quem interessa escrever sobre isso?, como se eu, gremista, quisesse desestabilizar meu próprio time. Torcedores vão me perseguir nas redes sociais, descobrir meu WhatsApp, fazer campanha para a RBS me demitir, ameaçar meus familiares, talvez descubram até meu endereçoe, se me encontrarem na rua, tentarão me agredir em grupo.A procuradoria do TJD, esperoestar errado, não vai dar a mínima para este assunto outra vez.

Não há exagero algum no parágrafo acima, é exatamente assim que funciona: não basta isentar de culpa quem canta "macaco" no estádio; a praxe é culpar quem acha errado cantar "macaco" no estádio. No Gre-Nal do domingo passado, na Arena, pelo menos três cânticos mencionavam a expressão: um dizia "olha a festa, macaco", o outro garantia que "macaco p*** segue sempre imitando", e o terceiro chamava os colorados de "macacada filha da p***".

A justificativa - como a reação - também é sempre a mesma: não se trata de uma expressão racista, dizem. Seria só uma provocação à mania colorada de imitar tudo o que o Grêmio faz. Outra desculpa é que os torcedores do Inter, nos tempos dos Eucaliptos, subiam em árvores no entorno do estádio para assistir às partidas feito macacos. Donde, o apelido.

Nunca vi um único documento, uma foto que seja, comprovando nada disso, mas, tudo bem, sigam cantando, sigam achando que a Arena é o único lugar do planeta onde "macaco" não é uma expressão racista, paciência, não posso impedi-los, mas sejam homens para aguentar críticas. Dezenas de milhares de gremistas, como eu, entendem que é detestável buscar explicações para barbaridades como "chora, macaco imundo". Por que seríamos contra o Grêmio ao defendermos um Grêmio melhor?

É bom deixar claro: sei que o clube, internamente, reprova a expressão "macaco". Não é de hoje que a direção promove campanhas meritórias, sempre lembrando que "somos todos azuis, pretos e brancos", mas a cantoria aludindo aos primatas é um tabu, ninguém toca no assunto. Sei também que a imensa maioria dos gremistas tem nojo do racismo - inclusive os que cantam "macaco" no estádio.

Porque essa turma não acha racista chamar um colorado de macaco. Eles concordam que é racista chamar um jogador de macaco, chamar o juiz de macaco, chamar qualquer outro de macaco, mas eles honestamente e genuinamente entendem que o sentido do insulto muda quando o alvo é um torcedor do Inter. Eu entendo, só que não interessa.

Essa é uma expressão estigmatizada mundialmente: em qualquer lugar ela carrega a violência do racismo. Como exigir que somente aqui, a partir de argumentos duvidosos, todos interpretem o insulto da forma como o insultador deseja? Não dá.

A torcida do Grêmio é a mais empolgante do país. Mudou a forma de torcer no Brasil. Chamou atenção do mundo com a criatividade das músicas e uma cantoria incansável. Não há gremista que não sinta orgulho disso, mas por que ainda precisamos carregar esse peso?

PAULO GERMANO

23 DE MARÇO DE 2019
LEANDRO KARNAL

VOCÊ JÁ FOI À DISNEY?

Há um vídeo muito engraçado do mestre Ariano Suassuna (1927-2014) narrando, com sua verve característica, o questionamento enfrentado por ele sobre nunca ter ido à Disney. Como eu também nunca fui ao afamado conjunto de parques, já sofri esse bullying dos versados no mundo do Mickey.

Já fiz muitas viagens, talvez até mais do que gostaria. Certa vez, ao entrar pela terceira vez em Mianmar em 18 meses, imaginei que seria barrado na alfândega por funcionários convencidos de que ninguém visitaria tanto a antiga Birmânia se não houvesse um motivo escuso. Amo culturas distintas e prédios históricos. Adoro descobrir culinárias e visitar museus. Converso com pessoas de outros países na rua e quero saber o máximo possível sobre como cada lugar percebe a realidade.

Porém, também sei que chegar ao Rajastão envolve três aviões, muitas horas no ar, posições incômodas na poltrona, espera, contratempos, filas, saguões apinhados, multidões e riscos. Sim, as quatro primeiras vezes em Jaipur são fascinantes. As seguintes... um pouco menos.

Em jantares e festas, o tema "viagem" é quase obrigatório. Há 20 anos, as pessoas perguntavam por Paris, Londres e Nova York, basicamente o circuito Elizabeth Arden, como se dizia. No fim do século 20, o tema Himalaia abandonou a agenda dos hippies e budistas e ganhou a classe média e alta. O Butão tornou-se desejável, bem como a árdua caminhada à base do Everest. Bangcoc, a movimentada capital da Tailândia? Não, isso é "carne de vaca". O legal é ver lanternas luminosas em Chiang Mai. Mal você anuncia que já foi algumas vezes a Chiang Mai e alguém solta: "Mas ficou naquele hotel que tem um arrozal dentro? Se você não ficou lá, nunca viajou ao festival".

Há 20 anos, a gente ia ao Marrocos e suas belezas impactantes. Conhecíamos os palácios e mercados de Fez e Marrakesh. Era outra época. Hoje é fundamental passar uma noite ao luar nos montes Atlas, em famílias de beduínos, de preferência em barracas. "Você nunca visitou as igrejas subterrâneas da Etiópia? É o lugar mais incrível do mundo!" Já descobri que o lugar mais incrível do planeta é sempre aquele exótico que só o narrador conhece. "Conhece Israel?" "Sim", respondo eu. "Mas... já foi àquela aldeia de cabalistas na Galileia e visitou o ateliê do artista tal que faz arte com trechos sagrados? Se você não fez isso, nunca visitou Israel de verdade..."

Dar uma dica complexa que demonstre intimidade absoluta com um lugar inacessível é um verdadeiro passaporte do impacto social. Em era de redes sociais, o conhecimento de um lugar não é tão essencial quanto o registro dele ou o uso da memória de viagem em conversas descoladas.

"Essa trilha na Mongólia transforma sua vida. São dias andando nas estepes sem banho, dormindo em barracas, passando frio, porém, a experiência é transformadora. É um sofrimento que eleva sua consciência." Estou reproduzindo uma conversa exata tida há duas semanas. "No meio do passeio", disse-me outra pessoa, "você pode pegar gelo milenar e colocar no seu uísque". Bem, não bebo uísque de fato e preferiria o gelo esterilizado em saquinhos industriais, menos românticos e mais seguros.

Tenho memórias incríveis de muitas viagens. Chorei em um crepúsculo na Baía de Halong, no Vietnã. Era muita beleza. No Taiti, tive uma conversa com um padre nativo sobre a concepção de Deus que me lembro com afeto até hoje do nosso denso diálogo. Sozinho, em um balão na Capadócia, o guia turco falou sobre a visão dele do Islamismo e eu anotava coisas para buscar referências depois. Adorei a culinária de centenas de lugares. Tendo alguns cuidados sobre a proporção da pimenta, o resto é puro prazer. Tenho o privilégio de ter um estômago extraordinário. "Ovos de cem anos" na China com cheiro igualmente centenário e pretos como a noite? Nham! Uma tonelada de cardamomo, anis-estrelado e cominho no seu frango na Índia? Tragam-me mais. Caracóis suculentos na França? Manteiga de iaque em Lassa? Por vezes basta bloquear o nariz e ser feliz. Em outras, no coração da África, do México ou no Norte do Japão, importante não perguntar muito sobre a qual família animal pertence aquilo que jaz sobre a mesa. Ignorância pode ser uma bênção. Uma senhora que viajava comigo, muito religiosa, perguntou em Ping Yao, no coração da China: "Professor, essa comida é kosher?". Eu respondi que não sabia nem se a carne era de um mamífero...

Não, nunca fui à Disney. Talvez vá em 2020. Tenho uma promessa feita a meu sobrinho-afilhado Davi. Acho que indo três vezes à Disney recebemos o direito de reencarnar em um lugar muito bonito depois.

Há muita coisa fascinante enterrada em lugares ermos e ruínas em clareiras no meio do nada. Há passeios de van no meio de ilhas desabitadas com vistas únicas. Envelheço querendo um pouco mais de bolo de canela com chá em um bom hotel de Nova York. Sim, você pode experimentar um simpático hamster (cuy) no Peru, que em tudo se parece com um rato assado sobre a mesa. É uma experiência importante. Aliás, tem um restaurante em Lima superescondido... É preciso ter esperança e um bom estômago.

LEANDRO KARNAL

23 DE MARÇO DE 2019
COM A PALAVRA

O PROBLEMA DA EDUCAÇÃO NÃO É TÉCNICO: É POLÍTICO

Tabata Amaral sabe bem a importância de uma oportunidade na educação. Até os 13 anos, sonhava em ser bordadeira, assim como todas as mulheres da sua família. Só ouviu falar que poderia entrar na universidade quando ganhou bolsa para estudar em uma escola privada, depois de se destacar nas olímpiadas de matemática. Perdeu o pai pelo vício em drogas e amigos por conta da violência. Mas não desistiu. Da Vila Missionária, na periferia de São Paulo, foi estudar em Harvard, nos Estados Unidos. Voltou disposta a transformar a educação no Brasil por meio da política. Participou da fundação do Acredito, um movimento criado para incluir os jovens na política e, em 2018, aos 24 anos, elegeu-se deputada federal pelo PDT, com 264 mil votos, a sexta maior votação em São Paulo. Em entrevista por telefone, a parlamentar fala sobre a falta de oportunidades para os jovens da periferia, os projetos para a educação e as críticas ao governo Bolsonaro.

SUA VIDA COMEÇOU A MUDAR COM A PARTICIPAÇÃO NAS OLIMPÍADAS DE MATEMÁTICA, QUANDO ESTAVA NO 5º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL. COMO FOI ESSA MUDANÇA?

A primeira grande oportunidade que tive foi na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), e eu falo dela com muito orgulho. Foi o que realmente transformou a minha vida porque, a partir da iniciativa da olímpiada e com o apoio de uma professora de matemática da escola estadual onde eu estudava, fui premiada por dois anos e ganhei uma bolsa para estudar em uma escola privada. Nessa nova escola, pela primeira vez eu vi as pessoas falando sobre profissões, sobre sonhos. Foi lá também que, pela primeira vez, alguém perguntou que faculdade eu faria. Eu não tinha uma resposta porque nunca tinham me questionado isso e eu nunca achei que fosse parte do meu destino. E foi nessa escola que tive oportunidade de participar de competições de ciências, de aprender inglês e de participar da seleção para ingresso em universidades americanas. Fui aceita em seis delas com bolsa.

POR QUE VOCÊ OPTOU PELA FORMAÇÃO EM CIÊNCIA POLÍTICA?

Fui para Harvard inicialmente para fazer Astrofísica. Mas me dei conta de que o destino daqueles que estavam ao meu redor era bem diferente. Eu já tinha perdido amigos para o vício das drogas, perdi vizinhos para a violência. E, assim que fui aceita em Harvard, perdi o meu pai para as drogas. Acho que essa convivência tão de perto com a desigualdade fez com que, no meu segundo ano, eu mudasse o curso principal de Astrofísica para Ciência Política. Então eu tenho um curso secundário em Astrofísica e intensifiquei meu ativismo na educação. As oportunidades que tive e as desigualdades que vivenciei são os grandes responsáveis pelas escolhes que eu fiz e pelo lugar onde estou hoje.

SUA TRAJETÓRIA PODE SER USADA PARA JUSTIFICAR O DISCURSO DE QUE BASTA O ESFORÇO PARA VENCER NA VIDA. ESSA VISÃO A INCOMODA?

Incomoda demais. É uma coisa que sempre tento trazer na minha fala: nunca conto a minha história sem contar a história daqueles que estavam ao meu redor, com esforço semelhante, com inteligência muito parecida, mas que nunca tiveram oportunidades e nunca, de fato, puderam sonhar e ver um mundo maior do que o da periferia onde a gente cresceu. Se minha história traz alguma lição sobre a desigualdade no Brasil, é a de que desperdiçamos o talento de muita gente. Acabamos com os sonhos de quase todo mundo. As pessoas não são livres, de fato, para sonhar e realizar. O que eu tento mostrar não é que me esforcei mais do que os demais, e sim que tive oportunidades num país em que ninguém teve. E, claro, me esforcei e trabalho muito duro. Mas não foi essa a diferença. Foram as oportunidades iniciais na educação que todo o mundo ao meu redor não teve.

O QUE VOCÊ TROUXE COMO EXPERIÊNCIA DO PERÍODO QUE PASSOU FORA DO BRASIL?

Uma coisa muito legal de ter feito faculdade no Exterior é que pude me debruçar muito sobre a política e a educação brasileiras, na visão de fora, porque às vezes a gente precisa se afastar um pouco para pensar sobre as coisas com clareza. E foi durante a faculdade que tive a oportunidade de trabalhar na Índia com educação por dois meses, de atuar nas secretarias de Educação de Salvador, na Bahia, e de Sobral, no Ceará. Fiz também uma pesquisa de quase dois anos entendendo os fatores políticos que influenciam o ensino. Isso tudo me mostrou que o problema da educação não é técnico: é político. As decisões têm um custo político alto, e não vejo um engajamento realmente verdadeiro por parte de políticos e da sociedade em prol da educação. Quando falo da sociedade, é porque é uma sociedade que nunca teve acesso à educação. Quando sete de cada 10 adultos são analfabetos funcionais, é quase esperar por um milagre que as pessoas valorizem algo que nunca tiveram. Meus pais sempre me diziam que, na época deles, a escola pública era coisa de rico, então que bom que eu estava na escola pública. Mas como eles, sem fazer o Ensino Médio, cobrariam qualidade da minha escola? Quando falo dos políticos, é porque o custo é alto. É custoso abrir mão da indicação política para o cargo de diretor, é custoso investir na formação e na valorização dos professores.

APESAR DE TODOS OS PROBLEMAS EDUCACIONAIS DO BRASIL, VOCÊ CONSIDERA QUE HOUVE AVANÇOS?

Acho que é importante reconhecer a questão do acesso. Hoje, a gente tem perto de 100% de acesso ao Ensino Fundamental. Ainda há desafios gigantescos na pré-escola e no Ensino Médio, mas, em termos de inclusão na escola, demos um grande passo. Outra vitória é ter uma prova que leva ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que é respeitado no mundo inteiro e que permite que a gente veja quão desigual é o sistema educacional brasileiro. Isso também é um avanço, porque, no passado, essa situação sequer existia.

EM MEIO AO DESCRÉDITO DOS PARTIDOS E DOS POLÍTICOS, POR QUE VOCÊ RESOLVEU APOSTAR NA MUDANÇA NA EDUCAÇÃO PELA POLÍTICA?

Para ser bem sincera: ou eu fazia isso, ou jogava a toalha. Já trabalhei com pesquisa, dei aula, trabalhei em secretaria de educação, em projeto social, sou fundadora de dois movimentos sociais. Depois disso tudo, vi que há uma barreira, um limite na minha atuação. E passa sempre pela questão política. Tenho um comprometimento com a educação. Ou tento atuar onde entendo que está o problema, ou desisto. Então foi, de certa forma, algo como "não vou deixar isso me vencer". Vou tentar resolver, por mais loucura que essa iniciativa (tornar-se política) possa parecer.

POR QUE DECIDIU CONCORRER A DEPUTADA FEDERAL?

Tomei a decisão bem em cima da hora. Foi na metade do ano passado, o que não é muito recomendável. Mas justamente porque é muito difícil a gente se ver nesse espaço da política. Não sendo filha de políticos, sendo mulher, jovem, da periferia. Todos esses indicadores mostravam que não era um lugar para mim. Mas é aí que está a transformação. Se eu não me candidatar, quem mais vai representar a minha comunidade? Como vou falar de mais mulheres na política, mais periféricos, mais negros, mais jovens, se não tenho coragem de colocar meu nome à disposição? Por mais que digam que esse lugar não é para a gente, por mais que possa parecer doidera, não está escrito que a gente não pode se candidatar. Então, foi bem em cima da hora, mas muita gente veio ajudar. Eu não estava ali pela política em si, nunca sonhei em ser política. Até os 13 anos, sonhava em ser bordadeira, como todas as mulheres da minha família. Acho que as pessoas perceberam isso: foram mais de 5 mil voluntários e centenas de doações (para a campanha). Essas pessoas fizeram a candidatura, com tão pouco tempo, acontecer.

VOCÊ TAMBÉM LIDEROU O MOVIMENTO ACREDITO, QUE PREGA A PARTICIPAÇÃO DOS JOVENS NO PROCESSO POLÍTICO. COMO FOI ISSO?

Sou uma das fundadoras do Acredito, e o que a gente queria é isso: ter um Congresso mais com a cara do Brasil. A gente está hoje na maioria dos Estados, tivemos 28 candidatos e pelo menos um terço de mulheres participando, pessoas negras, comunidade LGBT. É um pouco de ver a política como um espaço para todos. E um movimento com pessoas que, em sua maioria, nunca haviam se candidatado. Conseguir eleger quatro (um deputado estadual, dois federais e um senador) fala um pouco dessa nova política.

POR QUE O PDT?

Porque é o partido da educação. É o partido do Darcy Ribeiro, do Brizola, é o partido que eu conheci quando trabalhei em Sobral, é o partido do Ciro (Gomes), que é um dos responsáveis pela transformação educacional no Ceará. Eu precisava escolher um partido que pudesse representar essas ideias da educação.

COM UM PAÍS CADA VEZ MAIS POLARIZADO, VOCÊ SE DEFINE COMO UMA REPRESENTANTE DA ESQUERDA?

No Congresso, sou do campo da esquerda, do campo progressista. Mas luto muito para ir além dessa dicotomia, porque acredito que essa polarização serve a todos, menos à população. E sempre faço a provocação de que vários conceitos com os quais a gente lida hoje, como desenvolvimento sustentável, gestão eficiente, até o próprio feminismo - e me considero feminista -, não existiam quando os termos "esquerda" e "direita" apareceram. Então, entendo que o mundo ficou tão mais complexo para a gente se basear apenas nessa divisão.

QUANDO VOCÊ RETORNOU DE HARVARD, FOI CONVIDADA PARA DISCURSAR NA CÂMARA E, LÁ, AFIRMOU QUE TINHA O SONHO DE TRANSFORMAR A EDUCAÇÃO NO BRASIL. COMO FAZER ISSO?

É uma longa caminhada, e eu não tenho todas as respostas. Mas algumas coisas ficam mais evidentes conforme vou trabalhando. Uma delas é que não dá para transformar a educação sem pensar nos professores. Já tive contato com diversos sistemas de ensino pelo mundo e não vi um que não tivesse investido na formação, na valorização dos seus professores. Outra é a necessidade de um Ensino Médio mais conectado com a realidade dos jovens, que prepare para a vida, para o mercado de trabalho, para as escolhas acadêmicas. Posso falar de mais um monte de coisas, mas, em termos de políticas públicas, precisamos priorizar a educação, abrindo mão das escolhas políticas para os cargos, tomando decisões difíceis, mas necessárias. Foi isso que Singapura, Finlândia e vários outros países de referência fizeram.

VOCÊ JÁ APRESENTOU ALGUM PROJETO NESSE SENTIDO?

Quero fazer um pouco diferente no Congresso. Há muitos rankings que medem o desempenho dos deputados pela quantidade de projetos que apresentaram. Só que muitos saem do mandato sem ter aprovado um projeto sequer. Quero ter um mandato com impacto, então, nesse primeiro momento, olhei todos os projetos que foram apresentados, especialmente aqueles de deputados que não foram reeleitos, que são bons e que estavam muito próximos de passar, mas que, pela descontinuidade das políticas, iam se perder. Estou trabalhando com esses projetos e pretendo apresentar, daqui a alguns dias, um pouco do que a gente viu e que não pode se perder. São projetos focados no financiamento da educação, na questão dos professores e no Ensino Médio. Talvez eu não apareça nos rankings de deputados com mais projetos, mas acredito que será um trabalho mais significativo.

COMO O ENSINO MÉDIO ESTÁ ENTRE AS SUAS PAUTAS PRIORITÁRIAS, QUE AVALIAÇÃO VOCÊ FAZ DA REFORMA DESSA ETAPA PROPOSTA PELO GOVERNO TEMER?

Acho que uma coisa boa é que a reforma trouxe uma discussão urgente de que o Ensino Médio faliu no Brasil. Os jovens já perceberam que não vale a pena fazer essa etapa, e hoje temos uma quantidade menor de estudantes terminando o Ensino Médio na idade certa do que tínhamos há dois, três anos. É o gargalo da educação pública no Brasil. Também acho positiva (a proposta) quando abre a possibilidade das trilhas, de escolher entre um caminho mais técnico, mais acadêmico (com a reforma, serão cinco itinerários formativos para a escolha dos estudantes). Mas o Brasil é um país extremamente desigual, e ainda é desigual no financiamento. A gente tem 53% dos municípios com apenas uma escola de Ensino Médio, e, nesses municípios, é obrigatório oferecer apenas duas das cinco trilhas de conhecimento. A minha preocupação é que a reforma seja implementada de modo a reduzir as oportunidades que os jovens têm. Isso tem a ver com a pressa com a qual ela foi feita, com a falta de diálogo. O que eu quero fazer em São Paulo é estar próxima do governo do Estado, cobrar, saber como essas mudanças serão implementadas, qual o plano para os pequenos municípios, como fazer com o jovem que quer estudar algo que não é oferecido perto de onde ele mora. A minha postura é de acompanhar a implementação, já que não podemos reduzir as oportunidades.

SOBRE O FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO, RECENTEMENTE O PRESIDENTE JAIR BOLSONARO DISSE QUE O BRASIL INVESTE DEMAIS FRENTE AOS RESULTADOS QUE APRESENTA. VOCÊ CONCORDA?

Se tem uma coisa que todo ativista pela educação aprende logo cedo é que o problema no Brasil não é nem muito dinheiro, nem pouco dinheiro. Quando você analisa o percentual do PIB, que foi de fato a única coisa que ele (Bolsonaro) olhou, o Brasil está realmente à frente de muitos países. Então não dá para dizer que o maior problema é a falta de dinheiro para a educação. Temos problemas de distribuição, de corrupção, problemas na ponta. No entanto, dizer que não precisamos de dinheiro, também acho que não seja a situação. Há municípios que investem uma quantidade 50 vezes menor por aluno do que outros. Vamos dizer que esses municípios, para garantir a qualidade, não precisam de mais dinheiro? Vamos dizer que não precisamos valorizar a carreira do professor? Então eu acho que, sim, tem de trabalhar essa questão do financiamento, colocar o Fundo de Desenvolvimento e Manutenção da Educação Básica (Fundeb) na Constituição (a lei que criou o fundo de financiamento vence ano que vem). Tem de torná-lo mais redistributivo e tem de aumentar o repasse da União. Quando a gente fala em financiamento, precisa falar em investimento por aluno. E aí não dá para comparar o Brasil com a Alemanha, porque o Brasil sempre perde. É um pouco mais complexo do que o presidente faz parecer pelo seu Twitter.

COMO VOCÊ AVALIA OS PRIMEIROS MESES DO GOVERNO BOLSONARO NA EDUCAÇÃO?

Vale dizer aqui que sou contra a grande maioria dos posicionamentos do governo, mas acho que não vale a pena gastar um segundo a mais falando sobre esses posicionamentos ideológicos. O que mais me preocupa em relação ao Ministério da Educação (MEC) é a falta de propostas, de diálogo sobre o que realmente importa para a educação. Avaliação, formação de professores. Quando o MEC deixa de falar sobre esses temas e se concentra em questões ideológicas, eu fico preocupada. Posso discordar dos posicionamentos ideológicos do ministério, isso é um enfrentamento saudável de ideias, mas não posso ficar tranquila com a falta de propostas, do que vai ser feito pela educação. Precisamos de menos ideologia e mais gestão, mais dia a dia, porque, na educação, não dá para esperar. São mais de 50 milhões de alunos - e o que a gente vai fazer com eles?

QUAL A SUA OPINIÃO SOBRE O ESCOLA SEM PARTIDO?

Isso é cortina de fumaça para não falar do que importa. O Escola Sem Partido é inconstitucional, fere a liberdade do professor. É um debate que me frustra porque ele não vai adiante, mas custa um tempo preciosíssimo em que poderíamos falar de propostas para a educação.

SE VOCÊ PUDESSE SENTAR EM FRENTE AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO, RICARDO VÉLEZ RODRÍGUEZ, O QUE FALARIA PARA ELE?

Ministro, vamos falar de projetos? Quero entender qual é o seu posicionamento sobre a formação de professores. A gente vai ter alguma ação do MEC nesse sentido? Qual a sua visão sobre o Fundeb? É muito importante que o MEC trabalhe junto ao Congresso para que o Fundeb vá para a Constituição. Então, seria muito nessa linha: "Olha, discordamos de muitas coisas, mas vamos falar de coisas que não são nem esquerda, nem direita, mas que realmente importam para a educação". E isso é um pouco do que de fato estou tentando fazer.

VOCÊ VAI VOTAR A FAVOR DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA?

Ainda estou estudando esse projeto. Na minha campanha e na do Ciro Gomes (que concorreu à presidente da República pelo PDT), falamos que era muito importante uma reforma da Previdência. Entendemos que a Previdência é muito desigual, mas acho que ainda está muito cedo para falar quais são os pontos do governo com os quais a gente concorda e com os quais discorda. A nossa postura é falar que defendemos uma reforma que quebre privilégios e garanta oportunidades iguais. Qualquer coisa diferente disso seremos contra, mas ainda é cedo para eu me posicionar.

VOCÊ TEM ENFRENTADO PRECONCEITO NO CONGRESSO NACIONAL POR SER JOVEM E MULHER?

Algumas pessoas realmente não entendem que eu possa ser deputada, porque, para elas, é muito estranho ver alguém como eu aqui. Eu contei em um artigo (Tabata tem uma coluna no site Nexo) sobre quando um deputado me perguntou durante uma votação se eu era solteira ou casada. Respondi: "Olha, deputado, o senhor não leve a mal, mas isso não importa para a minha atuação parlamentar". Esse é um exemplo do que já enfrentei, mas aos poucos as pessoas vão se acostumando que esse é um lugar para a gente também.

QUE RECADO VOCÊ DÁ PARA O JOVEM DA ESCOLA PÚBLICA QUE LUTA POR MAIS OPORTUNIDADES?

Sempre digo, nas conversas com os jovens do Ensino Médio, que o Brasil é um país muito desigual. Para alguns de nós, a corrida vai ser mais longa. Serão menos horas de sono, mais horas em um ônibus apertado, algumas refeições com moedinhas contadas, trabalhar, dormir, estudar, tudo junto. É importante reconhecer essa desigualdade e o quanto ela faz diferença. Mas ainda assim a educação é o único caminho que vale a pena. Então vale sonhar os maiores sonhos, dar tudo o que a gente tem por eles, porque, na hora em que a gente conquista uma posição, nossa comunidade vai junto com a gente.

ANGELA CHAGAS


23 DE MARÇO DE 2019
DRÁUZIO VARELLA

DOENTES SAUDÁVEIS

O rótulo pré-diabetes torna pacientes pessoas sem nenhuma doença, que enfrentarão a ansiedade e os custos de acompanhamento médico, exames, monitores de glicemia etc
Quanto mais velho fico, menos medicamentos prescrevo. Xaropes, vitaminas, antibióticos para qualquer dor de garganta causam mais efeitos indesejáveis do que benefícios.

Quando se trata de receitar aqueles de uso diário pelo resto da vida, então, penso 10 vezes. É o caso dos anti-hipertensivos para pessoas com pressões máximas ao redor de 14 ou 15 cm ou mínimas entre 9 e 10 cm, valores que podem voltar à normalidade em resposta à perda de peso, ajustes na dieta e aumento da atividade física.

Veja o caso do diabetes, prezada leitora, epidemia mundial que afeta pelo menos 14 milhões de brasileiros, segundo a Associação Brasileira de Diabetes, que adota os seguintes critérios para o diagnóstico da doença: glicemia de jejum maior ou igual a 126 mg/dL ou hemoglobina glicada maior ou igual a 6,5% ou glicemia acima de 200 a qualquer hora do dia, acompanhada de sintomas.

Glicemia de jejum entre 100 e 125 ou hemoglobina glicada entre 5,7 e 6,5% ficariam numa situação intermediária, classificada como pré-diabetes pela American Diabetes Association (ADA), a partir de 2009, - nomenclatura não aceita por várias sociedades médicas e pela Organização Mundial da Saúde.

O termo pré-diabetes sempre me incomodou. Dá a impressão de que, ao atingir essa faixa de glicemia, a pessoa já não é saudável, está condenada a desenvolver a doença.

Não é o que as evidências demostram, no entanto. Segundo o Center For Diseases Control, dos Estados Unidos, menos de 2% desses casos evoluem para diabetes, anualmente; portanto, menos de 20% nos 10 anos seguintes. Outros estudos chegaram a números ainda menores.

Com o título "A guerra contra o pré-diabetes pode ser um boom para as companhias farmacêuticas - mas é boa medicina?", Charles PillerMar faz uma discussão sobre o tema, na revista Science. A estimativa é de que a adoção do critério atual para definir pré-diabetes coloca nessa condição 70 milhões a 80 milhões de americanos e perto de 1 bilhão de adultos ao redor do mundo.

Diante desses números, a recomendação da ADA é enfática: "O público precisa saber que hoje, nos Estados Unidos, uma em cada três pessoas tem algum tipo de anormalidade na glicemia".

Segundo a ADA, como os programas dirigidos à perda de peso e mudanças no estilo de vida apresentam resultados medíocres, investir neles é "jogar dinheiro no fogo". A alternativa seria adotar o tratamento medicamentoso.

Dessa maneira, foi armado o cenário para considerar doentes pessoas assintomáticas que poderiam assim permanecer por décadas, eventualmente pela vida inteira.

Sempre atentas às oportunidades mercadológicas, a indústria farmacêutica está desenvolvendo pelo menos 10 classes de drogas para tratamento do pré-diabetes, algumas das quais já são prescritas, mesmo sem a aprovação formal das agências reguladoras.

No artigo da Science, Charles PillerMar discute a existência de um lobby que procura influenciar a American Diabetes Association por meio de doações vultosas, bem como os médicos formadores de opinião e aqueles que participam da elaboração dos consensos da especialidade.

Empresas que desenvolvem equipamentos para a medição da glicemia investem em monitores eletrônicos ligados ao celular, mais cômodos, precisos e bem mais caros do que as tradicionais picadas na ponta dos dedos. Já há especialistas que consideram o monitoramento diário da glicemia, indicado para todos os adultos.

Companhias que produzem alimentos dietéticos, suplementos nutricionais e adoçantes artificiais pressionam pela aprovação de seus produtos e investem na publicidade dirigida a esse nicho do mercado.

O rótulo pré-diabetes torna pacientes pessoas sem nenhuma doença, que enfrentarão a ansiedade e os custos de acompanhamento médico, exames laboratoriais, monitores de glicemia e suplementos dietéticos que apregoam resultados jamais comprovados.

A respeitadíssima Cochrane Library, responsável por extensas revisões da literatura médica, conclui: "Os médicos devem ser cuidadosos ao tratar pré-diabetes, porque não temos certeza se trará mais benefícios do que prejuízos".

Se considerarmos doentes os que apresentam glicemia, pressão arterial ou colesterol pouco acima dos limites da normalidade, hipotireoidismo subclínico e todos os que se queixarem de estresse, ansiedade, tristeza, insônia ou excesso de peso, vai ficar difícil viver sem tomar remédio.

DRÁUZIO VARELLA


23 DE MARÇO DE 2019
JJ CAMARGO

NÃO ESCOLHA O DIA, ABRACE

O que acontece quando a relação do filho com o pai passa a ser a imagem invertida no espelho do que foi o convívio até então

- Estou aqui porque a junta militar, formada pelos meus três filhos, numa ditadura sem tréguas, determinou que eu viesse consultar consigo. E marcaram a consulta, antes de me comunicarem da decisão, e que era hoje para que não houvesse tempo pra discutir o decreto deles. Ou seja, me tornei um pau mandado.

Assim o Edmundo iniciou a consulta. Não havia mágoa no comentário, feito com alguma ameaça de sorriso. Apenas submissão, este ingrediente que tende a aumentar na medida em que, mais ou menos sutilmente, por conta do envelhecimento, somos considerados cada vez mais dependentes, e nem reclamamos por que, afinal, somos.

Na história da civilização, esta troca natural de comando é relativamente recente, mas se tornará cada vez mais frequente depois que a morte passou a ser prorrogada por tempo inimaginável, se compararmos com os padrões do início do século passado. Assim, o antigo herói imbatível que ocupou o imaginário da prole durante três, quatro décadas, mas que morria antes de conhecer a decrepitude, passou a viver mais, e com isso deparou com as limitações físicas da idade e descobriu que as mudanças bruscas de posição podem provocar tontura, que as articulações têm prazo de validade, e que a bexiga tem uma ousadia insuspeitada e pode inclusive tomar iniciativas constrangedoras, sem consultar a matriz.

E então, chega o momento que Carpinejar definiu com sua habitual genialidade: o filho se torna pai do próprio pai. A partir deste ponto, a relação do filho com o seu velho passa a ser a imagem invertida no espelho do que foi o convívio até então, e se descobre, com clareza cristalina, que o afeto na família é um sentimento regido pela lei implacável da reciprocidade. Tudo porque, não havendo como se encantar com o que está, temos de cultuar a memória do que foi. E esta relação com o retrovisor do nosso afeto, é que estabelecerá os termos do convívio até o fim do futuro.

Tão variado é o carinho nas relações com os filhos, e tão surpreendentes as lembranças arquivadas com amor e saudade, ou com ressentimento e mágoa, que não há nada mais imprevisível, para o médico que passou a fazer parte do cotidiano daquela família, do que a reação diante da notícia boa que manda soltar o riso, ou do anúncio de sofrimento e perda, que devia apertar o peito e doer a garganta.

Os lúcidos até o final ainda têm uma última chance de batalhar pelo resgate do amor omitido ou do perdão negligenciado, mas os que perderam contato com a realidade se tornam joguetes do afeto dos filhos. Os que adoram seus velhos, porque foram muito amados, cuidarão com desvelo dos seus queridos porque precisam retribuir o que receberam, e têm a pressa de quem sabe que não há tempo a perder, porque o amanhã perdeu a garantia. Entre esses, está o Carlos Edu Bernardes, que postou uma mensagem comovente: "Meu pai tem Alzheimer, e todo dia me pergunta que dia é hoje. Eu digo sempre que é o Dia dos Pais, e lhe tasco mais um abraço!".

J.J. CAMARGO

23 DE MARÇO DE 2019

MÁRIO CORSO

Alma de vira-lata


Minha filha adotou um cão vira- lata. Manjericão é um simpático guaipeca de quatro costados. Curto sua presença lembrando Nelson Rodrigues, grande intérprete do país. Ele insistia em que nós, brasileiros, teríamos alma de vira-lata. Concordo com ele em duas pontas: porque eles são os mais robustos e fiéis dos cães e porque o brasileiro é mestiço como eles.

Mas a questão era outra, ele se referia a um complexo, uma ideia de acreditarmo-nos sem pedigree e, por isso, inferiores. Essa crença não se basearia necessariamente na realidade, seria como um narciso ao contrário, que cospe na pátria que habita.

De fato, desde que me conheço por gente, ouço o mesmo alerta: o Brasil está à beira do abismo. Entra e sai governo, trocam-se cores e partidos, e a melodia segue igual: é sempre o fim dos tempos. Nunca antes o governo teria sido tão incompetente e corrupto, nem a decadência moral tão explícita.

A fazenda pública rumaria para o buraco, já estava ruim, mas agora viveríamos o pior. Se a economia vai mal, é o esperado, revelando a senda natural de nossas más escolhas, o justo para nossa natureza equivocada. Mas caso a economia ande bem, seria um engano, mais adiante a conta chega. Se os índices sociais melhoram, lembram que existe muita miséria, e que temos um passivo social gigante a resolver.

Qualquer mínimo sinal negativo nos aponta o inferno. Com uma inflação júnior, já enxergamos um dragão indomável. A Olimpíada e a Copa que sediamos, ambas desvelariam ao mundo nossa incompetência gerencial congênita. Não foi bem assim. Mas tanto faz, igual erramos, mesmo se não.

Sei que não vivo na melhor das nações, mas acredito que poderíamos ter uma visão mais racional se o pessimismo não nos fosse útil para outros fins. Creio que os alarmistas querem dizer que eles não têm nada com isso, os culpados seriam os outros. O Brasil do não fui eu.

O mais insensato sintoma desse complexo é a idealização das outras nações. Entre os europeus, no último século, por duas vezes, um lado tentou exterminar o outro. Os Estados Unidos exportam guerras para manter seu consumo desmesurado. Mas eles é que seriam o farol de civilização a seguir.

No largo espectro das doenças ditas depressivas, o que há em comum entre elas é a desistência antecipada dos sonhos possíveis. Os apocalípticos não enxergam o país, e sim sua própria melancolia. É o seu projeto de nação que já não decola. Essas ideias viralatistas dizem mais de quem as enuncia do que do Brasil.

O melancólico sofre por uma morte mal enterrada que o assombra sem descanso. Carrega um luto indigesto que drena sua energia. Qual seria esse encosto, esse zumbi que afeta o Brasil? A escravidão? O populismo? A ditadura militar? Ou a teimosia em insistir em fazer um país sem romper com a escandalosa assimetria social?

MÁRIO CORSO

23 DE MARÇO DE 2019

OPINIÃO

QUÃO DESSEMELHANTE

Ah, Porto Alegre, ó quão dessemelhante estás e estou de nosso antigo estado! Escuto do motorista do Uber e do vizinho: "Nunca vi a cidade tão largada! Nunca!". Não é só o verde descuidado, nem só o asfalto ruim, ou a embromação do Cais Mauá, que um mês atrás prometeu um "beach club" com estacionamento para 600 carros para este teu aniversário agora - e nem isso seus gestores entregaram!

Nem é só a ridícula situação de obras atrasadas há mais de uma Copa, aquela trincheira da Ceará que nos faz explicar o inexplicável, com a voz sumindo, sumindo cada vez mais, de vergonha, aos visitantes. É tanta coisa.

Sim, relativizemos: o baixo- astral é mais do que porto-alegrense, gaúcho, brasileiro. Não é só nosso prefeito que parece sem apetite pela resolução das coisas reais da cidade, talvez porque isso o obrigaria a parar de reclamar do passado, agora já na segunda parte de seu mandato. Não foi só o período de Sartori, outro político que preferiu se esconder atrás de conversas genéricas sem jamais se dignar a vir a público defender o que fazia. Nem é só essa sequência inacreditável de Temer por Bolsonaro, figuras além da minha capacidade de dizer qualquer coisa de relevante.

Ah, Porto Alegre, ó quão dessemelhante estás! Esta cidade teve e tem pulso, som, cor, palavra. Esta cidade ainda tem, como se orgulhava Erico, uma orquestra sinfônica. Tem cursos de grande qualidade, nas universidades e fora delas. Tem pesquisa e invenção. Tem escritores em flor e em sucessão. Tem pintores, cantores, músicos, fotógrafos, dançarinos, rappers, improvisadores de verso tanto na língua gauchesca quanto na língua da quebrada. Tem uma Feira do Livro de seis décadas, tem o Em Cena, festival de teatro com quase três décadas. Tem leitores, tem oficinas, tem gente querendo manter a chama da inteligência e da sensibilidade acesa. Tem juristas e cientistas de grande alcance, assim como sambistas e lideranças comunitárias de dar gosto. Tem empreendedores de todos os tamanhos e uma linda gente colorida ocupando a rua, que é nossa. E tem uma luz, que vou te contar. Nem vou te contar.

Esta cidade foi o palco da liderança da Legalidade, linda onda nacional ancorada na força de uma ideia, de um punhado de homens que honravam o bigode e de mulheres que não se mixavam. É a casa de dois clubes campeões mundiais de futebol, um feito de que escassas outras cidades podem se orgulhar no planeta. É o berço do Orçamento Participativo e da luta ecológica no Brasil, marcos da cidadania moderna, assim como do Fórum da Liberdade e do Fronteiras do Pensamento, que prezam pela elogiável e cada vez mais imprescindível tradição liberal ilustrada.

Te falta, Porto Alegre, é olhar mais no espelho desses grandes feitos, para reencontrares a boa semelhança. Para ver como fazer mais e melhor daqui para diante, no futuro que, certo, não será igual ao passado (nunca é), mas que sempre deve ser repensado e trazido no coração, para dar forças ao presente.

LUÍS AUGUSTO FISCHER


23 DE MARÇO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

RISCOS À REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Sem que o Planalto se decida a resistir a pressões, sem uma articulação forte no Congresso e na sociedade civil e sem comunicação ampla e estruturada, as alterações correm o risco de se restringirem a um voo de galinha
A decepção entre congressistas aliados com a modesta projeção de economia líquida de R$ 10,45 bilhões em uma década com a mudança no sistema de proteção dos militares é mais um sinal de preocupação com o futuro da reforma da Previdência. Os questionamentos dos congressistas levam em conta que, na esteira dos militares, grupos de pressão, sobretudo entre os servidores mais bem pagos, se organizam para fazer valerem seus benefícios ou trocá-los, como no caso do projeto enviado na última quarta- feira ao Congresso, por novos adicionais e penduricalhos.

É certo que nenhuma categoria ou indivíduo vê com satisfação a perspectiva de abrir mão de benefícios, mas a frustração coletiva pode levar a um efeito cascata de concessões e fazer a reforma desandar. Os sinais de preocupação são bem visíveis, a começar pelo termômetro do dólar, que se mantém em patamar elevado porque persiste a possibilidade de instabilidade econômica e manutenção da recessão no caso de uma reforma aguada pelos grupos de pressão.

A prisão do ex-presidente Michel Temer acirra o temor de divisões na base aliada. Já havia um claro desconforto, evidente pelo semblante do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, durante a entrega do projeto dos militares, com os titubeios do presidente Jair Bolsonaro. Recém convertido à necessidade da reforma, o presidente já se mostrou suscetível a pressões, particularmente de sua base de ativistas nas redes sociais. Além disso, ainda não entrou de corpo e alma na reforma da qual depende sua administração e a retomada do desenvolvimento.

O governo segue ainda tropeçando no crucial processo de comunicação das mudanças. Imaginando ter sido eleito por uma rede de tuítes agressivos, quando não ofensivos, o governo Bolsonaro persiste na ilusão de que sua base de apoiadores fará a defesa ardente da reforma. As redes que espalham grosserias e teorias conspiratórias não se prestam para comunicados oficiais e defesas de causas impopulares, como mudanças na aposentadoria.

O fato é que, sem que o Planalto se decida a resistir a pressões, sem uma articulação forte no Congresso e na sociedade civil e sem comunicação ampla e estruturada, as alterações correm o risco de se restringirem a um voo de galinha. Na hipótese de as mudanças se limitarem às intenções, todos perdem.

sábado, 16 de março de 2019



16 DE MARÇO DE 2019
LYA LUFT

Temores e horrores

Um desses dias em que a gente tem vontade de virar Bela Adormecida e só acordar no dia seguinte, semana seguinte, sei lá. Parece que o mundo, e nós, andamos embruxados, condenados por maldições de mil feiticeiras, não boazinhas mas malignas.

De um lado, politicamente, culturalmente, me interessa o relativo caos do Brexit, não aguentando mais nem o termo, nem a pobre Theresa May. Não tenho nenhum cacife para falar sobre o caso, mas vejo, por entrevistas e reportagens, que muitíssimos dos que votaram "sim, sair da União Europeia" hoje admitem que achavam que não teriam de pagar mais impostos... e se houver, ou houvesse, um novo plebiscito, votariam de maneira diferente.

Isso não me causa emoções sombrias, apenas uma certa fraternidade com esses ingleses de que tanto gosto.

Mas aqui, neste país, em São Paulo, na simpática cidadezinha de Suzano, a tragédia brutal me tocou como se eu conhecesse aqueles adolescentes encurralados, fuzilados, retalhados a machado, e os outros que foram também brutalmente atingidos na sua psique - vendo os colegas vitimados pela carnificina sem sentido.

Tenho netos em idade de Ensino Médio, tive filhos assim, tenho dezenas de famílias amigas cujos netos, ou filhos, poderiam estar naquela escola - ou aquele horror poderia acontecer por aqui. Não há desculpa se estamos criando uma geração de sádicos e fanáticos matadores. Dizer que eram loucos os desculpa: insanos e dementes não seriam responsáveis. Os dois rapazes, segundo se vai descobrindo, planejaram cuidadosamente, por um ano, esse massacre. As roupas, as armas, a hora, o lugar. Parece, segundo muitos indícios em seus computadores e celulares, que pertenciam a uma sombria turma de extremistas que já inspiraram, coordenaram e depois aplaudiram o horrendo resultado de outras atividades assim no Brasil. E possivelmente fazem parte de uma comunidade internacional, sempre na sombra das darknets, instigando eventos semelhantes nos Estados Unidos, por exemplo.

O que dizer? Que somos todos animais predadores e que, sem alguma orientação, apoio, afeto, é de esperar que acabemos assim? Não creio. Alguma semente diabólica foi lançada, e cresceu, nos dois, sobretudo no mais velho, de quem possivelmente o mais jovem era admirador fanático. Pois o maior fuzilava os inocentes e o mais novo vinha atrás - segundo alguns vídeos e testemunhos - carneando os já mortos ou semimortos com machadinha.

Mãe adicta, vó morta, pai ausente, se for o caso, certamente não explicam isso. Sei que meus dias estão sob a sombra desse horror, compaixão pelas vítimas e famílias, e colegas, e um sentimento intraduzível pelos assassinos. (Me perdoem os mais sensíveis que os julgam bons meninos apenas estressados.) O chefão dessa comunidade - se for confirmado isso - já foi preso outras vezes, e solto. Então, em última análise: o que há conosco que entre nós vicejam venenos tão pavorosos e mortais?

No começo de mudanças positivas no país, repito o que digo mais vezes ao encerrar um artigo: Deus nos ajude.

LYA LUFT

16 DE MARÇO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

O cabelo verde

Ela tinha o rosto coberto por sardas, especialmente no nariz e nas bochechas. Contou que, quando era criança, a garotada do colégio pegava muito no pé dela - naquela época, ainda não se falava em bullying. Cresceu odiando ser chamada de sardenta. Eu disse a ela para não se estressar, as sardas davam a ela um ar juvenil, e quer saber? "Eu nem tinha reparado que você tinha sardas antes de você comentar". Ela começou a rir. "Claro que você não reparou, por que acha que uso o cabelo verde?".

O cabelo dela era mais verde que um gramado de estádio de futebol em jogo de estreia da Copa, não havia quem não notasse.

Desde então, quando vejo uma mulher com o cabelo muito colorido, penso: como ela é incrível, quanta personalidade - e então fico buscando as sardas ou seja o que for que ela esteja tentando esconder.

Não estrague a brincadeira. Óbvio que muita gente pinta um arco-íris no cabelo porque gosta, apenas porque gosta, sem que seja um subterfúgio. Mas com subterfúgio tem mais graça e inventamos um assunto.

Outro dia vi uma garota toda tatuada - muito, muito. Os dois braços inteiros, as duas pernas tomadas, as costas sem espaço para nem mais um desenho. Se alguém não soubesse o nome dela, como a identificaria? "Aquela menina tatuada". Ninguém diria "aquela menina gorda" - não só porque seria grosseiro, mas porque o fato de ela pesar quase 100 quilos havia se tornado secundário diante da pele hipergrafitada.

Será que também privilegiamos algo na nossa aparência a fim de camuflar aquilo que não queremos que ganhe destaque? Tive uma colega da faculdade que costumava frequentar as aulas com camisas e vestidos superdecotados. Ela tinha seios lindos, poderosos. Pois agora estou lembrando que ela tinha também um nariz de respeito. Considero os narigudos e narigudas o suprassumo do charme, mas é provável que ela discordasse do meu senso estético - na época, encontrou um jeito de desviar a atenção para o seu colo e funcionou.

Tem gente que consegue esse câmbio de foco sem envolver o visual. Escreve livros a fim de disfarçar a timidez, é exibicionista para que não reparem sua insegurança, está sempre correndo de um lado para o outro para que ninguém perceba que não tem nada pra fazer. É a velha história: enquanto um lado fica iluminado, o outro permanece convenientemente na sombra.

Mas voltando ao cabelo: pintar, tosar, descolorir é bem mais fácil do que fazer um tratamento de pele, emagrecer 20 quilos, colocar silicone, operar o nariz. Fica autêntico, divertido e ainda distrai daquilo que consideramos uma imperfeição - mesmo correndo o risco de estarmos mascarando o que há de mais bonito em nós.

MARTHA MEDEIROS

16 DE MARÇO DE 2019
PIANGERS

A Escola do Futuro

Nos últimos cem anos, a forma como nos locomovemos foi transformada, a medicina evoluiu, o acesso à informação se multiplicou, novas profissões foram inventadas, mas a sala de aula continua muito parecida com o que era em 1919. É um ambiente que apresentou novidades teóricas (Montessori, Waldorf, Reggo Emilia, etc) e técnicas, como lousas interativas, uso de computadores e até óculos de realidade virtual nas instituições mais moderninhas. Mesmo assim, os locais de aprendizado urgem por transformações, já que o mundo todo foi transformado, e a escola fez pequenas melhorias incrementais.

Partindo dessa urgência, eu e o extraordinário professor Gustavo Borba escrevemos o livro A Escola do Futuro, uma publicação de textos sobre o futuro da educação - eu, falando da perspectiva de pai, ele da ótica do educador. Nesta segunda-feira, dia 18, estaremos em Porto Alegre para lançar o livro no teatro da Unisinos. Venha nos ver.

O que achamos é que os ambientes de aprendizado serão mais diversos, as tecnologias impactarão os estudos, os professores terão que se reinventar, o conceito antigo de período de aprendizado não se aplicará em um mundo que muda tão rápido. Na sociedade moderna, o aprendizado deve ser constante. Será muito mais provável que o futuro seja de aprendizado incessante, o que reposiciona a figura do professor como um mentor que facilitará o aprendizado em diversas áreas para alunos de todas as faixas etárias. O professor não vai desaparecer, ele se tornará mais importante, mas terá que trabalhar com novas ferramentas tecnológicas. A Geração Z, nascida de 2000 para cá, é a primeira geração da história que aprende qualquer coisa a qualquer hora, confortavelmente da tela que está no bolso de todos.

As previsões são de que a maioria das profissões que a Geração Z vai exercer ainda não foram inventadas. Portanto, o que ensinar para alunos que trabalharão em áreas que ainda desconhecemos? Segurança de sistemas? Aprendizado profundo de máquinas? Inteligência artificial? Realidade misturada? 

Tudo indica que as grandes habilidades a serem desenvolvidas na próxima geração devem ser habilidades tipicamente humanas: trabalho em grupo, empatia, inteligência emocional, criatividade, pensamento crítico, capacidade de adaptação. Aquelas coisas que a máquina não faz. Como disse o escritor Alvin Toffler: "O analfabeto do século 21 não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender, e reaprender".

PIANGERS

16 DE MARÇO DE 2019
CARPINEJAR

Os sinos da igreja dentro de mim

Nas cidades do interior, antigamente, os moradores tinham ciência de quem nascia, seria batizado, casava ou morria pelo número de badaladas do sino da igreja. Os dobres da alta torre eram as redes sociais da época. Avisavam das principais narrativas do dia. Os códigos dos alertas sonoros passavam de geração a geração, como uma matemática folclórica, um Morse de convivência.

Eu mantenho uma igreja dentro de mim. Herdei, do lado materno, uma telepatia da ternura. Uma mediunidade mansa. Um para-raios emocional.

Como se soubesse o que vai acontecer com quem eu amo antes de acontecer. Os sinos explodem primeiro em meu coração. Meu costume é ser cético e achar, na hora, que é apenas um pensamento bobo, um medo, uma preocupação, até que o pressentimento se confirma. A maturidade não dissipou a minha desconfiança no momento em que recebo o sinal.

O sexto sentido não é levado a sério - e nem adianta ter sexto sentido se os outros cinco são subaproveitados. Não costumo expor para as pessoas para não receber estigma de um falso profeta e gerar desconfiança ou fila na porta de casa.

Não é um dom para a sorte, mas uma predisposição para dividir as dores.

Não acerto resultados da tabela do futebol (meus palpites sobre o meu time são desastrados), não antevejo os números da Mega Sena, não me tornarei rico na roleta ou no turfe, é uma intuição caseira, feita de empatia e vulnerabilidade. Tampouco posso me vangloriar da característica, é mais uma fraqueza do que uma força.

Quando pequeno, um dia antes da vó paterna morrer, eu sonhei que a minha bisavó (não a conhecia) me entregava um telegrama avisando do falecimento. Contei para a mãe logo que eu acordei, de tarde veio a condolência. A sorte é que a minha mãe não ficou assustada e me protegeu da exploração de fé.

Já enxerguei e conversei com fantasmas, já previ acidentes dos meus próximos, já antecipei informações íntimas e confidenciais de amigos que eu não havia como descobrir no Google.

E é natural fugir da linha do tempo quando gostamos de alguém. Avança-se sem querer no amanhã, apesar de estar preso ao hoje.

Todos somos interligados, todos somos conectados mesmo quando estamos off-line.

CARPINEJAR

16 DE MARÇO DE 2019
PAULO GERMANO

A CARONA QUE EU NÃO DEI

Fazia 37ºC às 10 da manhã, e o nosso carro avançava com o ar ligado pelo asfalto quente. Foi quando te vi, empurrando um carrinho de mão à beira da estrada. - Coitado, com esse sol na cabeça... - e pedi para o motorista parar.

Estávamos na divisa da Bahia com o Tocantins. Minha missão, naquele maio de 2014, era cruzar o interior do Brasil durante os 30 dias que antecediam a Copa do Mundo. A gente buscava histórias pelo caminho, histórias de pessoas que a imprensa mostra pouco, e me deu uma angústia ver a tua marcha solitária.

- Aqui tem um quilo de arroz - teu olhar apontou para o carrinho -, outro quilo de feijão, uma mortadela, quatro ovos e a minha barraca.

- Mas para que a barraca?

Teu nome era Marcos Jânio - te procuro até hoje, como eu queria te achar de novo. Tinha começado a caminhada às cinco da manhã, em busca de um emprego nas fazendas que ficavam mais adiante. Sem casa para morar, te restava a barraca. Sem dinheiro para o ônibus, te restavam as pernas.

- Quero lá com o dia ainda claro. - Quê?! - levei a mão à cabeça. - Mas são 14 horas no sol!

- É, mas quero ver se já me botam na roça. Aquilo me comprimiu o peito. Olhei para a tua pele parda, as rugas profundas, calculei uns 38 anos, mas eram só 28. Ouvi sobre a tua mãe, que já tinha morrido, e sobre o teu pai, um bêbado sumido.

- Sou sozinho no mundo. - E quem te deu a comida?

- Ganho um troco com reciclagem, mas quero um emprego mais do bom. Desejei sorte. Ganhei teu sorriso, me despedi e entrei no carro. Em cinco minutos, já tínhamos andado oito quilômetros.

E o ar-condicionado já me secara o suor. E o banco de couro já me aliviara a coluna.

E pensei no desconforto do teu trajeto, no peso do carrinho de mão, no calor que seguia aumentando. Verdade que eu tinha pressa - um cacique me esperava na maior aldeia do Tocantins, e ele pediu que não me atrasasse -, mas, puxa vida, e se eu voltasse para te levar até as fazendas? Azar do cacique, azar do meu trabalho, azar da matéria que eu precisava enviar, alguém tinha de fazer algo, e eu realmente quis fazer algo, eu juro que quis, Marcos Jânio. Mas, quando vi, já tínhamos avançado 60 quilômetros.

- Quantos quilômetros Marcos Jânio já avançou? - era só no que eu pensava.

E não voltei. Aquela cena, o nosso carro indo embora, e eu com o pescoço virado para trás, te vendo sumir de vista pelo vidro traseiro, empurrando o carrinho sem reclamar, aquilo me persegue até hoje. Qual era o meu papel naquele dia, Marcos Jânio? Qual é o papel de um jornalista quando depara com uma situação tão triste?

Hoje eu sei que, se voltasse para te dar carona, resolveria um problema pontual, momentâneo, só um fragmento da tua vida sofrida. Não resolveria o principal: a tua vida sofrida.

Escrevo este texto ainda culpado, mas agarrado a uma ilusão meio altruísta - logo eu, que me senti tão individualista -, como se pudesse fazer algo por ti cinco anos depois. Se errei ou não, que pelo menos uma fatia da sociedade também possa, ao ler tua história, repensar o papel e a responsabilidade que tem.

E que o país, um dia, possa te dar uma carona de verdade.

PAULO GERMANO


16 DE MARÇO DE 2019
COM A PALAVRA

O BRASILEIRO ESTÁ CONFUNDINDO CONSERVADORISMO COM ATRASO

MÚSICO, 51 ANOS Acaba de lançar seu décimo disco e dirigir seu primeiro filme. Defensor da legalização da maconha, nos últimos meses se tornou uma voz política ativa nas redes sociais.
Marcelo D2 já foi reconhecido como líder do Planet Hemp, uma das bandas mais importantes no processo de reoxigenação do rock nacional durante a década de 1990. Tornou-se célebre ativista da legalização da maconha - chegou a ficar cinco dias preso em Brasília por apologia às drogas. Na década de 2000, passou a ser conhecido pela combinação de hip hop e samba, em discos como o aclamado À Procura da Batida Perfeita (2003). Agora, lançando seu décimo disco em carreira solo, Amar É para os Fortes (que rendeu uma versão em filme, dirigida por ele), não se ofende se alguém o identifica como tuiteiro. Até se orgulha.

- Acho ótimo, porque ali dá para ter um debate direto, claro e consciente, mas também dá para mandar um palavrão e já era - diz o músico, que desde as eleições se tornou figura frequente em discussões políticas, apoiando o então candidato Fernando Haddad e inclusive recebendo uma resposta irônica do agora presidente Jair Bolsonaro.

Nesta conversa, D2 fala sobre música, política, cultura, paternidade, tecnologia, as ameaças de morte que recebe e as relações com Bolsonaro e o PT.

AMAR É PARA OS FORTES É SEU DÉCIMO DISCO E FOI PENSADO QUANDO VOCÊ ESTAVA COMPLETANDO 50 ANOS DE IDADE. ESSE PROJETO PARTIU DE UMA REFLEXÃO SOBRE A VIDA NESSE MOMENTO?

Sem dúvida. Ele veio a partir da necessidade de fechar um ciclo: 10 discos, 50 anos. Eu tinha lançado o Nada Pode me Parar cinco anos atrás e estava bem cansado, não queria mais fazer quase nada, estava a fim de buscar coisas novas. No âmbito musical, tinha duas ideias. Uma delas de fazer uma capa móvel, algo como um gif, que acho que no streaming daqui a pouco vai dar. A outra era fazer um álbum visual. Não é nada novo, Beatles fez isso, Frank Ocean, Beyoncé... Aliás, quando eu estava trabalhando nisso, saiu o da Beyoncé. É que é um caminho natural: nunca se ouviu tanta música como agora, por causa do celular e do streaming, e acho que nunca se viu tanta música, porque o YouTube é muito presente. No meio do processo, comecei a pensar em roteiro, porque o projeto começou a tomar mais forma, mostrando-se mais do que um simples álbum visual.

POR QUE AMAR É PARA OS FORTES?

Em meio a isso, a mãe de uma amiga foi assassinada em um assalto. Na mesma época, o João Velho, filho da (atriz e apresentadora) Cissa Guimarães, escreveu um texto protestando porque o cara que matou o irmão dele (Rafael Mascarenhas) havia sido condenado só a um ano de serviço comunitário, uma pena ridícula. No texto dele há essa frase: "Amar é para os fortes". Naquele momento, o disco todo estava dentro de mim, e eu entendi que essa frase resumia tudo o que eu estava sentindo, que era manter a cabeça erguida, firme e forte no meio dessa guerra que a gente vive. Não ceder à sede de vingança que temos nesses momentos extremos. O (músico) Marcelo Yuka (que morreu em 18 de janeiro) falava muito isto: não podemos confundir justiça com vingança. Há uma situação explorada politicamente, de que a sociedade não tem de incentivar a arte e, em vez disso, tem de incentivar a arma. As milícias substituindo a cultura. É uma resposta fácil quando chegamos num ponto assim extremo de violência.

DIRIGIR UM PRIMEIRO FILME É MUITO DIFERENTE DE LANÇAR O PRIMEIRO DISCO?

O que mais pesou no processo foi a responsabilidade dos 50 anos. Quando você tem 20 e poucos anos, você tem uma arrogância da juventude, faz o que quer fazer e era isso. Tem uma emoção mais crua. Mais velho, a gente tenta fazer uma obra complexa. Queremos inclusive lançar uma exposição no segundo semestre, com imagens do projeto. Fora o fato de que as coisas parecem mais complexas como um todo. O país ficou mais difícil, especialmente para as minorias.

COMO O BRASIL DE 25 ANOS ATRÁS, CANTADO PELO PLANET HEMP, EVOLUIU?

A gente está dando passos largos para trás. Muitas conquistas, não só dos pobres favelados, mas de todas as minorias, mulheres e LGBTs entre elas, estão postas em xeque. O Brasil está confundindo conservadorismo com atraso. Estamos tendo uma onda de pensamento atrasado, e isso nada tem a ver com conservadorismo. Em 2019, estamos vendo esse papo de "se tiver filho gay, tem que matar", "política não é lugar de mulher", "vamos armar a população que vamos ter mais segurança", "dar mais liberdade para a polícia matar"... A polícia no Brasil é a que mais mata no mundo. Se autorizar a polícia a matar fosse parâmetro para terminar a violência, a gente teria um nível de violência baixo. Mas é o contrário. E temos a terceira maior população carcerária do mundo. Prendemos mal, por crimes bestas, jogando pessoas que poderiam ser recuperadas nas cadeias dominadas pelo crime organizado. A Justiça, no Brasil, é superelitista: serve a uma classe rica e para massacrar uma classe pobre. O filme Amar É para os Fortes é sobre isso. Me sinto superabençoado, por sair de uma favela e conseguir construir uma vida digna sem precisar entrar para o crime ou sequer passar por cima de alguém.

VOCÊ DISSE QUE, CINCO ANOS ATRÁS, ESTAVA CANSADO. FOI ESSE CONTEXTO SOCIOPOLÍTICO QUE VOLTOU A MOTIVÁ-LO A CRIAR?

Sim, pesou muito, tive vontade de falar algo. E acho que escrevo melhor quando abordo problemas sociais. Você vai envelhecendo e vai vendo as coisas de maneira diferente, vai sendo mobilizado pelo que acontece ao seu redor. Cara, a cada 23 minutos morre um jovem negro no Brasil. Isso é muito pesado. Como um moleque negro se sente diante dessa estatística? "Eu estou com uma arma na minha cabeça, daqui a pouco sou eu." É isso. Estar em um lugar que tem essa estatística e sair vivo é quase um milagre. De novo o Yuka: ele falava "como vamos pedir para um moleque desses ter paciência, amor, compaixão, se nunca tiveram isso com ele?". Quando a gente fala disso, a gente pensa principalmente nos homens, que são os que mais morrem, mas tem também as meninas, que vão para o subemprego, virar praticamente mucamas modernas. O mundo é ainda mais hostil para com as mulheres.

AMAR É PARA OS FORTES TEM AFROSSAMBA. ESSES PROBLEMAS SOCIOPOLÍTICOS TÊM A VER COM ESSA ESCOLHA ESTÉTICA?

Muito. O disco À Procura da Batida Perfeita foi o que me abriu a cabeça para isso, o fato de que a gente pode falar também com os sons. Tem uma letra minha que eu ainda não lancei que diz isso: "Também se luta com uma canção". Quando lancei o Eu Tiro É Onda (1998), mudei o padrão que consistia em samplear discos antigos. Basicamente era isso. Eu achava uma (cantora) Cláudia cantando "Deixa, deixa..." e sampleava. Eu queria mudar essa fórmula nesse disco, e tinha na cabeça que queria usar tambor, afrossamba. Aí fui buscar os discos desse gênero. Quando comecei a trabalhar nessa sonoridade, vi que estava indo muito próximo do que eu já tinha feito e não ia soar novo. Daí comecei a chamar músicos para tocar comigo. Gravei o disco em 12 estúdios diferentes. Era algo que até me assustava. É que um disco inteiro cabe num pen drive - dizia "vou sair para gravar meu disco", botava um pen drive no bolso e saía de casa. Mas esse pen drive tinha o registro do que fizeram 56 músicos, em 10 faixas. Tudo socado ali dentro. Tem uma frase que eu falo, "assim tocam meus tambores", que vai virar um projeto logo mais, que me levou muito a esse lugar, de buscar na estética do afrossamba o que eu quero dizer. Também é interessante que comecei com tambores, mas acabei percebendo que tem muitos metais nas músicas. Caras como o Moacyr Santos amavam metais. (O disco) Os Afro-Sambas, do Vinicius de Moraes e do Baden Powell, não tem muito; tem mais violão. Mas o afrossamba, o afrojazz, essa música negra, tem metais demais, e você pode observar: muitos músicos que tocam metais, trombone, sax, são negros. Foi onde fui buscar as sonoridades com as quais estou trabalhando.

VOCÊ TEM, ENTÃO, UM NOVO PROJETO, QUE DESTACA O AFROSSAMBA?

Sim. É uma ideia bem embrionária, mas quero mapear os tambores do Brasil. Tambores que vieram da África e tiveram influência... Tem religião. Tem muito a ver com a cultura dos povos de Maranhão, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro. Estou em uma fase de pesquisa. Vai ser um disco de pesquisa. Mais do que um disco meu, é um projeto de resgate, mesmo. Que, acho, pode virar um programa de TV.

SUA ENTRADA NO TWITTER TAMBÉM FOI POR CAUSA DESSA SITUAÇÃO DO PAÍS?

A minha volta ao Twitter, né? Eu havia saído do Facebook e do Instagram. Resolvi largar. Facebook estava um lixo, todo mundo xingando todo mundo. E isso bem antes das eleições. Não havia conteúdo para mim, e o Instagram é uma coisa fake, poser, uma vida irreal. Estava cansado daquilo, ficar vendo as vidas dos outros. É basicamente o que sempre odiei nos programas de fofoca, "estou em Paris", "estou nas Bahamas". O Twitter eu já tinha abandonado há anos. Resolvi fazer algo mais útil da minha vida do que ficar em redes sociais. Mas aí, um dia, voltei para o Twitter, para conferir o debate político. Eu sabia que o Bolsonaro estava lá. E gostei do que vi. Acho o Twitter ótimo, porque ali há um debate direto, claro e consciente, mas também dá para mandar um palavrão e já era.

FOI UM PENSAMENTO COMO CIDADÃO, NÃO COMO ARTISTA?

Isso. Até tive de sentar com meu empresário. Ele falou que meu comportamento poderia fechar portas.

FECHOU?

Talvez sim. Mas abriram-se outras.

VOCÊ É IDENTIFICADO COM A ESQUERDA E FALA DE AMOR NESSE NOVO DISCO. ASSOCIA A RAIVA À DIREITA?

Minha mãe me falou, uma vez, que ser subversivo, hoje em dia, é amar. A maioria das pessoas está odiando tanto que, quando você fala que ama, você é um subversivo. Fui para o Uruguai há dois anos, encontrei o José Mujica e tive uma aula de humanismo dele. O cara é uma doçura. Foi um bate-papo, fui falar sobre legalização da maconha, ia fazer um vídeo sobre isso, mas a gente falou 10 segundos sobre legalização da maconha e duas horas sobre outros assuntos. Comecei perguntando: "Como a gente pode mudar as leis?". Ele respondeu: "Cara, esquece as leis, se preocupa com as pessoas, quando as pessoas mudarem o pensamento, as leis mudam junto". É interessante isso. A mudança está no sentimento, no amor, nas pessoas.

EM QUE PÉ VOCÊ ACHA QUE ESTÁ A POSSIBILIDADE DE LEGALIZAÇÃO NO BRASIL?

Acho que estamos passando um momento tão difícil, de tanta mentira difundida, inclusive pelo presidente da República, que tenho até medo de uma legalização neste momento. Hoje, com o pensamento que está rolando, é capaz de legalizarmos e colocarmos a distribuição da maconha na mão de uma grande empresa, de cigarros ou farmacêutica, que vai passar a pensar só em seu lucro. Mas a legalização me parece inevitável: o mundo inteiro está indo para esse caminho. Não é se vamos legalizar, mas quando.

AINDA É UMA BANDEIRA DO TEU FAZER ARTÍSTICO?

Há dois aspectos que a gente tem de olhar. Nosso discurso de legalização da maconha não era só sobre a maconha, mas para cutucar o sistema, incomodar o status quo. "Olha só, eu falo sobre maconha!" Queríamos chamar a atenção assim. E ouvíamos: "Quem são esses caras? Chatos, querem democracia demais". A gente tinha acabado de sair de uma ditadura, um momento parecido com o momento que a gente está vivendo agora: muita violência, Estado contra o cidadão, pressão constante de coronéis, de gente que acha que manda no povo e no país porque tem a força. Esse discurso era superpertinente, porque, além de tudo, acreditávamos - acreditamos até hoje - que a legalização diminui a violência. Ou seja, éramos contra o sistema, no sentido de que queríamos chocar, mas com um discurso que tinha um conteúdo social, para além do choque. Hoje esse discurso já não choca tanto: até os Estados Unidos legalizaram. É a gente, país trouxa, de Terceiro Mundo, que fica pregando moral. Tenho certo receio com esse papo de maconha medicinal. A gente viu muito isso na Califórnia, onde as coisas sucederam de maneira diferente do que foi no Colorado. Na Califórnia, a legalização começou com a maconha medicinal, mas acabou que as indústrias farmacêuticas tomaram conta e hoje usam a bandeira da legalização porque querem faturar com ela. No Colorado, ao contrário, começou com a recreação, todo mundo pôde ter planta em casa e tal. Foi outro caminho.

FICOU MARCADA UMA INTERAÇÃO DO PRESIDENTE BOLSONARO COM VOCÊ, QUANDO ELE ESCREVEU, NO TWITTER, QUEM É MARCELO D2?. VOCÊ TEVE ALGUM OUTRO CONTATO COM ELE?

Não. Só aquilo, mesmo. Eu respondi quem eu era, e ele falou: "Seja feliz". Ainda bem. Não quero muito contato.

VOCÊ RECEBE AMEAÇAS?

Há diferença entre ameaça e desejo. Quando o sujeito fala "queria que você morresse", é diferente de "você vai morrer com três tiros na cabeça". Eu recebo tudo. Ameaça, ameaça mesmo, séria, são duas ou três por semana. Outro dia tocou meu telefone de um número desconhecido. Nunca atendo, mas daquela vez acabei atendendo, porque minha filha estava sem bateria e achei que pudesse ser ela, de outro telefone. O cara saiu gritando: "Petralha safado, teus dias estão contados". Perguntei: "Quem está falando?". E o cara desligou. Sabe o que é o pior de tudo? É morrer como petista. Eu não sou petista! Tanta coisa que eu fiz nessa vida, e o cara vai me matar porque sou petista. Se acontecer isso, eu volto para puxar o pé de cada um (risos).

COM FERNANDO HADDAD, VOCÊ INTERAGIU DURANTE A CAMPANHA, NÃO?

Sim, ele me ligou e agradeceu o apoio que dei a ele. Na verdade, eu não estava apoiando o PT. Estava contra Bolsonaro. Mas acho que o Haddad é melhor do que o PT. Já falei isso: ele é bom demais para o PT. Neste momento, o PT tem de olhar para dentro, ver o quanto errou, o quanto foi desonesto, e limpar a sujeira toda dentro do partido. Assumir isso, a própria responsabilidade, a culpa que não é só das pessoas, mas do partido em torno do qual giravam essas pessoas. É responsabilidade do PSL quando o seu presidente fala que lugar de mulher não é na política, entre outros absurdos. O PT tem de assumir os erros, limpar o nome do partido. Acho que o confronto do Haddad com a Gleisi (Hoffmann, presidente do PT) é até interessante, fico torcendo para que ele assuma o partido e mude tudo, ou então saia de uma vez da legenda. É difícil. Mas tem gente boa no PT e em vários partidos. A gente precisa que essa gente boa fique na política.

A POLARIZAÇÃO FAZ COM QUE AS PESSOAS SEJAM CLASSIFICADAS COMO PERTENCENDO A UM LADO OU A OUTRO.

Há uma certa ignorância ou má-fé. As pessoas não enxergarem que há mais do que dois lados. Há um discurso humanista que não é exclusividade do PT. Posso muito bem ter um discurso parecido e não ser petista. Não acho nem que eu seja esquerdista. Quando encontrei com o Mujica, as coisas ficaram mais claras para mim: sou muito mais humanista. A gente tem de se preocupar mesmo é com as pessoas. Se isso é um traço de socialismo, esquerdismo, ok, mas neste momento acho melhor fugir dos rótulos, porque eles engessam o debate, transformam as discussões em uma guerra burra e inútil.

COMO VOCÊ VÊ ESSE INÍCIO DE GOVERNO BOLSONARO E TAMBÉM DE WILSON WITZEL, NOVO GOVERNADOR DO RIO?

O Witzel parece ter o mesmo discurso do governo federal, parece um cabo eleitoral do Bolsonaro. É meter tiro em pobre e calar a boca de todo mundo. Esse tipo de coisa que ambos defendem. Fico impressionado como as pessoas conseguem vibrar com a morte de 13 jovens de 20 e poucos anos (referência à operação policial na região de Santa Tereza, no Rio, em fevereiro). Seja policial ou bandido, são 13 jovens morrendo. Mesmo sendo bandidos, não se trata de uma vitória. Pelo contrário, matar jovens com tiros na cabeça e pelas costas é uma derrota da sociedade. Vender drogas é participar de um negócio. A gente tem de entender que se trata de um esquema muito maior do que a favela. Eles estavam com armas e fuzis, nenhum fabricado no Brasil. Alguém levou para eles. Quem fornece tudo isso? Quem é o verdadeiro traficante? A maconha e a cocaína vendidas na favela não são fabricadas lá. Quem fornece isso? Quem faz isso chegar até eles? Isso não se resolveu com a morte dos 13 jovens. E os helicópteros que carregam a cocaína para cima e para baixo? Não é um filme de faroeste, em que o mocinho está ganhando porque matou mais índios. O problema vai continuar.

VOLTANDO AO AMAR É PARA OS FORTES: COMO VOCÊ FINANCIOU O PROJETO? O DEBATE EM TORNO DO FINANCIAMENTO DA CULTURA TAMBÉM ESTÁ FORTE NO PAÍS NESTE MOMENTO.

Esse é mais um debate que se estabelece graças à ignorância. As pessoas falam da Lei Rouanet como falam da mamadeira de pênis, de kit gay. Não sabem do que estão falando. Incentivo à cultura é importante, e a Lei Rouanet funciona bem. Tem seus defeitos, aqui ou ali, mas é importante. Nesse projeto fui buscar patrocínio de seis empresas que trabalham comigo há muito tempo, não usei nenhum incentivo fiscal. Nenhum. Mas só pude fazer isso porque tenho condição, tenho 25 anos de mercado. E, mesmo assim, mesmo com o filme, o projeto tinha custo baixo. Se não houver incentivo, o cinema nacional vai parar, porque filme de R$ 5 milhões não se banca pela bilheteria no país. Projetos culturais regionais, no Nordeste, no Sul, coisas folclóricas, se não tiver esse tipo de lei, essas coisas vão morrer. 

As pessoas têm mais dinheiro para consumir cultura, mas não vão consumir projeto de dança folclórica, que é importante para o país mas não tem mercado, financeiramente falando. Por isso eu entendo, um pouco, dentro de toda essa ignorância em que estamos mergulhados, por que se põe a culpa no PT: deram TV de plasma e ar-condicionado para certas pessoas, mas agora elas não têm mais condições de ter isso. Acham que precisam de TV de plasma, ficaram acostumadas a isso. Mas não: o que a gente precisa é de cultura e educação. Educação de verdade, não esse tipo de educação "sem ideologia", como dizem, em mais um entre tantos discursos imbecis com os quais temos de conviver atualmente.

GUSTAVO FOSTER