sábado, 27 de julho de 2024



24/07/2024 - 14h24min
J. J. Camargo

O Alzheimer e a morte parcelada

Quando o desafio é conviver com as perdas cognitivas, a negação é imediatamente assumida. "A questão não é se existe vida depois da morte. A questão é se você viveu antes de morrer." (Osho)

Cada um tem um jeito próprio de administrar suas limitações. Apesar do esforço dos coachs insistindo com estratégias milagrosas, as pessoas que preservaram o espírito crítico sabem qual caminho a escolher nas encruzilhadas. E que sistematicamente é o mais árduo.

Mas a forma de reagir é imprevisível e, muitas vezes, contraditória. Por mais maduro que sejamos, quando o desafio é conviver com o envelhecimento biológico e suas perdas cognitivas a negação é imediatamente assumida, mesmo quando a decrepitude bateu à porta sem ter sido convidada e, sem noção do ridículo, não sai da janela.

Nada é mais importante neste ponto do que um amigo capaz de dizer "Basta". Como a dificuldade está na admissão desse diagnóstico, porque ele é demolidor do ponto de vista familiar, individual e profissional, fazemos de conta que está tudo bem. E mesmo que tenhamos consciência do que está acontecendo, é compreensível que conservemos a pose de quem está completamente sadio. E, sem dúvida, quanto mais festejada e inspiradora foi a vida até esse ponto, mais nos rebelamos à capitulação.

O Alzheimer tem uma fase, dita pré-clínica, em que pequenos lapsos são indistintamente atribuíveis ao envelhecimento, e só assumidos como indícios da doença depois de algum tempo, quando, por frequência das falhas, a família se dá conta de que a hierarquia doméstica está sendo modificada porque o antigo gestor daquele clã não consegue mais gerir a sua própria vida.

Ainda que o ritmo de progressão possa ser afetado por fatores genéticos, mudança de estilo de vida e idade do paciente (doença manifesta em pacientes mais jovens evolui de forma mais acelerada), até o momento não existe tratamento efetivo, apesar de ofertas esporádicas de drogas novas, pretensamente revolucionárias e invariavelmente caras. 

Então, sendo a progressão da doença inexorável, resta à família dar ao paciente todo o suporte emocional para que ele consiga continuar mentalmente produtivo pelo tempo de lucidez que lhe reste. Desse suporte, faz parte importante a prevenção de exposições públicas, especialmente no período da doença em que o paciente ainda percebe o tamanho da bobagem que disse, mas só depois de tê-la dito, e tenta assumir ares de brincadeira.

Nesta fase, que pode ser rápida ou arrastada, o paciente e sua família sofrem igualmente em cada deslize, e a tentativa de justificar o erro só estimula a geração de memes pelos impiedosos adversários e a comiseração dos que nunca deixarão de amá-lo.

Mantê-lo na vitrine é sacrificá-lo impiedosamente, especialmente quando a vítima é um político de grande visibilidade. Nada é mais importante neste ponto do que um amigo, nivelado pela hierarquia dos afetos, que fosse capaz de lhe dizer "Basta" e ser ouvido sem desconfiança. Um desses amigos que considerem que trair é o mesmo que morrer, e para quem a morte deve anteceder a traição.

Na fase da desconexão cognitiva, o sofrimento passa a ser exclusividade da família pelo convívio diário, que nem remotamente lembra o bem-amado do tempo em ele foi muito. A tentativa frequente de revisitar o passado festivo através de fotos ou vídeos em geral agudizam dores adormecidas, pela sacudida emocional resultante do contraste entre o que ele foi e o que deixou de ser.

Na morte tradicional, ao contrário da parcelada, a reconstrução da vida dos remanescentes, ainda que consumidos de dor e saudade, avança com a elaboração do luto, indispensável na preservação da naturalidade da morte.

Uma amiga, incansável no cuidado da mãe, incomunicável há 18 meses, me confidenciou: "Eu morro de saudade da mãe que tive, e de pena de mim, por não ter ao menos com quem dividir a tristeza de perceber, todos os dias, uma fração dessa morte que dói como se fosse, mas não se completa".

Quem considerar desamor qualquer parte dessa confissão não entende nada de que morte estamos falando, e nem imagina o quanto sobra de amor depois do luto.

sábado, 20 de julho de 2024


12/07/2024 - 09h38min
Martha Medeiros

Há certos dias em que o excesso nos consome

Domingo pela manhã talvez seja um bom momento para descansar de tanta "vida" e preparar um chá, recostar-se numa almofada e olhar para o céu

Gilmar Fraga / Agencia RBS

Até o fim do ano eu fico zen. Até que a vida acabe eu viro japa.. Queria mesmo era escrever um poema nesta manhã de domingo gelada e silenciosa (tenho consciência que você pode estar em condição oposta, de pés descalços na praia ou preso a um congestionamento em que todos buzinam — mesmo assim, talvez consigamos nos conectar).

Ainda tocada pela leitura do livro Uma Hora de Fervor, de Muriel Barbery, me encontro quieta e reflexiva, que é o estado ideal para as depurações. Há certos dias em que o excesso nos consome. É tudo muito, demais. Vulgaridades, agressões, gritaria, exibicionismo, postagens. Noites curtas de sono, longas horas de espera, a saúde precária, os olhos tristes. A alegria fajuta dos programas de auditório e de campeonatos infinitos de futebol. Domingo pela manhã talvez seja um bom momento para descansar de tanta "vida" e preparar um chá, recostar-se numa almofada e olhar para o céu.

É quase impossível conversar consigo mesma cercada por tanto ruído. Não escutamos ninguém, ninguém nos escuta, e os desejos e dores que trazemos dentro ficam falando sozinhos. Surdez universal em meio ao caos. Agora entendo o fascínio que minha filha mais velha sente pelo Japão, onde ruas lotadas de pedestres são percorridas em baixo volume e qualquer pequeno jardim traz sua própria imensidão.

Aos 33, minha filha não é velha em idade, mas velha em sabedoria. Quero ficar tão velha quanto ela, a fim de abandonar o meu aflitivo aumento da aposta: querer mais, ir mais longe, saber tudo, esses ralis pessoais de esgotamento mental. O reencontro com a nossa essência é o grande prêmio de uma existência prolongada. Só perto do final é que se aprende a ser mínima e finalmente se enxerga o que sempre se manteve inteiro em nós. Ainda não cheguei lá, mas estou a caminho. Haja desapego para contrariar os alto-falantes que nos ensurdecem com suas palavras de ativamento.

Arte, amizades e filhos (se os tiver). Os três fios condutores da vida plena. Alimentos para o espírito, a mente e o coração. Alavancados pelo amor, que não precisa de palco e plateia, transcende nos bastidores. As aventuras que nos distraíram até aqui continuam sendo bem-vindas (viagens, festas), mas não precisam mais ser tantas e tão ofuscantes. Desacelerar não é desistir. É voltar a prestar atenção no que importa.

O domingo silencioso logo vai terminar e dar lugar aos frenéticos dias úteis, aqueles em que a poesia só consegue se infiltrar clandestinamente, e em que escutar a si e aos outros vira tarefa de titã. Ainda é difícil, para mim, abdicar da fúria ocidental que, mal a manhã inicia, me faz galopar até a noite, as horas sucedendo sem controle e as folhas do calendário caindo umas sobre as outras. Mas resolvi tentar. Até o fim do ano eu fico zen. Até que a vida acabe eu viro japa. 


19/07/2024 - 09h00min
Martha Medeiros

Homens não foram criados para desistir

É possível que Joe Biden esteja simplesmente evitando encarar aquilo que não lhe parece nada atraente, o seu depois

Gilmar Fraga / Agencia RBS

O que faz um senhor com evidentes fragilidades se agarrar a um posto pelo qual já deu sua contribuição.

Costumo enviar a coluna para o jornal na segunda-feira que antecede sua publicação, então desconsidere caso o texto, nesta brecha de seis dias, tenha ficado desatualizado. Até aqui, enquanto escrevo, Joe Biden não largou o osso. 

É de se esperar que renuncie nos próximos dias, em favor de alguém mais enérgico para desafiar Trump, que agora usa a imagem do próprio rosto ensanguentado para, feito um mártir, comover a parcela trouxa de americanos que deseja reconduzi-lo à presidência. Só não entendo tanta demora.

O que faz um senhor com evidentes fragilidades se agarrar a um posto pelo qual já deu sua contribuição? Dinheiro não é, que salário de ex-presidente paga as contas. Prestígio não é, porque ele já entrou para a história do seu país. Vontade de servir à nação não é, pois já o fez e agora seria mais útil se passasse o bastão para um democrata que transmitisse segurança aos eleitores norte-americanos na disputa de novembro. 

Superficialmente, podemos deduzir que Biden não sai porque é homem, e homens não foram criados para desistir. E menos ainda desistir do poder, essa droga viciante que coloca a pessoa sob um holofote do qual ela não se sente mais capaz de viver sem. Tudo, menos o apagão, a depressão, perder a comitiva de bajuladores em volta.  

No entanto, desistência é um assunto mais profundo. Em seu ensaio Sobre Desistir, o psicanalista Adam Phillips aborda o aspecto sacrificante de trocar algo que se conhece por um vazio que se ignora – é um momento crítico em que temos que repensar nosso desejo. 

Já não se trata do que não se quer mais, mas do que se quer a partir de então. Trocar um hábito pela incerteza nunca é uma travessia fácil. Phillips nos lembra que toda renúncia traz embutida a ideia do suicídio. Por isso ficamos tão apavorados diante da possibilidade de matar aquilo com o qual já estamos acostumados. 

Por isso tanto se reluta em enfrentar o fim de uma etapa da vida, seja ela qual for. Incluindo as relações conjugais: quem toma a iniciativa de interromper um amor conhece intimamente essa angústia, ainda que se pense que só quem foi deixado é que sofre.      

Biden certamente é um homem orgulhoso que deseja levar sua missão a cabo (já levou, mas aumentou a aposta com a intenção de se reeleger, e agora não consegue reconhecer publicamente seus limites). Nenhuma desistência costuma ser estimulada pela sociedade, ao contrário, é malvista e perturbadora. Logo, protela-se. O que fará valer o esforço de uma atitude tão drástica? 

O que haverá em frente? Além das estratégias que seu partido precisa adotar diante dos últimos acontecimentos, é possível que Biden esteja simplesmente evitando encarar aquilo que não lhe parece nada atraente, o seu depois.


20 DE JULHO DE 2024
CARPINEJAR

Só podemos dar o que recebemos

O primeiro sintoma de que não está sendo amado é não ter mais paciência. Você fica irritado por qualquer coisa. Você explode por qualquer bobagem. Você chora por qualquer incômodo. Não mantém nenhuma margem ou distanciamento para pensar, meditar, separar os fatos individuais dos coletivos. Acha que tudo é pessoal.

Quando somos amados, nós temos tranquilidade para aceitar a contrariedade, a dificuldade, para fazer ajustes e consertar a nossa realidade.

No desamor, você usa toda a sua energia, todo o seu fôlego dentro do relacionamento, tendo que se explicar de modo inútil e desnecessário, tendo que justificar as mínimas escolhas, tendo que dizer excessivamente o óbvio. Cansa tanto com o básico que não sobra motivação para si mesmo.

Porque a outra pessoa não escuta você, a outra pessoa não presta atenção em você, a outra pessoa não valoriza o seu tempo, a outra pessoa não é grata com a sua presença, a outra pessoa não reconhece a sua dedicação.

Não ter paciência significa que o amor só vai e não retorna. Você não está sendo abastecido de ternura, de delicadeza, de carinho. Você se transforma em um bicho rude, instável, hostil, amedrontado. Você se habitua a não ser bem tratado, a lidar com ordens, a se defender de gritos e grosseria, a repetir histórias que nunca serão guardadas.

Sem perceber, você começa também a tratar mal quem permanece à sua volta. É um reflexo da precariedade a que se submete. Se você está sendo menosprezado, você menospreza. Se está sendo cobrado, você cobra. Passa a agir do mesmo jeito. Entra no círculo vicioso da pressa e da distorção. Jamais podemos esquecer que só damos o que recebemos.

Ao suportar uma convivência de baixa qualidade, com ruídos de comunicação, isso vai afetar o seu diálogo com os mais próximos. Seu mundo interior andará sufocado, espremido, esgoelado, e não apresentará mais aquela tolerância que tinha de ouvir. Não vai rir mais, não vai se divertir com os contratempos.

Os ecos da violência psicológica se tornarão maiores do que a sua voz. Não desfrutar de amor em seu lar é perder, gradativamente, o contato saudável com o seu círculo de afetos. Você se verá desnutrido por ausência de luz.

É como viver na sombra e, de repente, sair para a rua e precisar fechar os olhos por não aguentar aquele excesso de claridade. Você não consegue mais abrir os seus olhos como antes. Ficou no escuro por um longo período. Está acostumado com o escuro.

Quando é amado, você dá conselhos, ampara, conforta, é capaz de ajudar os familiares e amigos em suas crises.

Quando não recebe amor na relação, fica arisco, incomunicável, tenso. Não é capaz nem de escutar com sobriedade um impasse de um colega.

Você se isola no silêncio. Desiste de falar. Desiste de se expor. Desiste de conversar.

Acaba virando uma presa ainda mais fácil para a manipulação. A tristeza domestica. A tristeza vicia.

Numa relação dependente, o que o cônjuge mais quer, para dominar você, é que esteja abatido. Assim não sai de casa, não se encontra com ninguém e se mostra sempre disponível, exclusivo, no cativeiro. _

CARPINEJAR

20 DE JULHO DE 2024
EDITORIAL

Transparência e credibilidade

Coube ao Rio Grande do Sul, em um momento já delicado para a economia local, ter o infortúnio do aparecimento de um foco da doença de Newcastle em um criatório comercial de aves em Anta Gorda, no Vale do Taquari. Mandam os protocolos que o Brasil informe as nações compradoras e suspenda as exportações em caso de acordos assinados com esta cláusula preventiva. Em situações como essa, é dever ser transparente com os mercados. Confere credibilidade para o país e o setor, com significativo peso econômico e social no Estado.

O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango e o Rio Grande do Sul é o terceiro nas vendas externas nacionais, atrás do Paraná e de Santa Catarina. No primeiro semestre, o Estado embarcou o equivalente a US$ 630 milhões. São mais de 7 mil produtores integrados à cadeia avícola gaúcha, a maioria pequenos, além de 35 mil empregos diretos em unidades industriais.

Como relevante player da área de proteína animal, devido à grande competitividade conquistada nas últimas décadas, o Brasil está sempre sujeito a iniciativas protecionistas. Muitas vezes, estão disfarçadas de barreiras sanitárias. Por esta razão, é essencial que as autoridades brasileiras mantenham as nações importadoras informadas sobre a situação e os esforços para impedir a disseminação do vírus e debelar a doença. Para manter mercados e seguir abrindo novas portas, ter a confiança dos compradores é condição fundamental. É o que vai permitir, inclusive, uma retomada mais rápida dos negócios agora paralisados.

Episódios como esse do reaparecimento da doença de Newcastle reforçam a importância de contar com um sistema de vigilância e defesa agropecuária robusto. É uma atividade essencial para manter a sanidade de lavouras e rebanhos e dar uma pronta resposta logo que qualquer doença é detectada. Ainda mais para um país que a cada ano se firma mais como um dos maiores produtores globais de alimentos. Bem ilustra o trabalho de profissionais da área ao longo do ano passado, quando foram descobertos casos de gripe aviária em pássaros silvestres no Rio Grande do Sul e em outros Estados. A enfermidade não chegou a criatórios comerciais, algo que os EUA, por exemplo, falharam em evitar.

O Ministério da Agricultura declarou na sexta-feira estado de emergência zoossanitária no Estado. É um procedimento- padrão voltado a agilizar medidas de vigilância na região do criatório onde o vírus foi confirmado, o que inclui a vistoria em propriedades em um raio de 10 quilômetros, até a erradicação total do foco. Equipes do governo federal e do Estado se somam neste esforço de evitar a disseminação do vírus. Deve-se ressaltar que o Rio Grande do Sul e o Brasil têm sistemas de sanidade animal e vegetal de competência comprovada e testados em vários episódios anteriores. No Estado, também é modelar o Fundesa, fundo das cadeias de proteína animal e lácteos, que atua em apoio às ações oficias.

Em outra frente, os consumidores brasileiros também precisam ser bem informados. Como lembram as autoridades e especialistas, inexiste qualquer risco em seguir consumindo a carne de frango ou os ovos produzidos no Rio Grande do Sul. 


20 DE JULHO DE 2024
MARCELO RECH

Como seria um Trump 2.0

Enquanto Joe Biden não anuncia a desistência da candidatura à Casa Branca, Donald Trump está a cada dia mais favorito para tomar posse nas escadarias do Capitólio em 20 de janeiro de 2025.

Com enormes repercussões internas e externas, um segundo mandato de Trump deverá ter os seguintes contornos:

Ameaça à democracia - O temor é real, mas sozinho Trump não faz nada. Seria preciso uma combinação que alijasse o Congresso, a Suprema Corte, a imprensa, as empresas e a sociedade civil norte-americana, sem contar as forças armadas e seu sólido afastamento da vida política. Difícil de acreditar numa reviravolta desta envergadura.

Imigração - É onde deve haver a mudança mais imediata e visível. Ainda que com mais fanfarra do que resultados práticos, a entrada e a permanência dos 11 milhões de ilegais vão ser endurecidas. Esperem-se detenções em massa e mais alguns trechos de muro na fronteira com o México.

Europa - É o continente que mais perde com a eleição de Trump, que já precificou o enfraquecimento da Otan e a segurança europeia. Trump diz que resolve a guerra da Ucrânia em 24 horas porque retirará o apoio dos EUA. Para se manter de pé, a Ucrânia dependeria exclusivamente dos vizinhos. As recentes vitórias de centro-esquerda no Reino Unido e na França não ajudam a Europa em um governo Trump.

China - Em termos econômicos, Trump é o oposto dos republicanos do passado. Seu nacionalismo protecionista terá na China o principal alvo, com uma longa lista de sobretaxas. O movimento salva empregos ineficientes nos EUA, mas também desperta a inflação. Em contrapartida, Trump quer que Taiwan banque sua defesa contra ambições chinesas. A indústria mundial de chips prende a respiração.

Irã - É quem tem mais a temer no Oriente Médio. A mão pesada que decretou a eliminação do general Qassem Soleimani em janeiro de 2020 voltará a cair contra a expansão militar dos aiatolás. Trump, porém, é melhor no blefe do que como combatente. Orgulha-se de não ter iniciado nenhuma guerra em seu governo.

América Latina - O Brasil de Lula, que já tem relações mornas com os EUA de Biden, pode esperar um esfriamento. Já Javier Milei, que cultua Trump, tentará fazer da Argentina o principal parceiro dos EUA. Para Trump, abaixo do Rio Grande há só um grande reservatório de imigrantes que devem ser contidos por bem ou por mal.

Dólar - Deverá cair no resto do mundo. Trump quer a desvalorização da moeda para conter importações e aumentar as exportações dos EUA.

Transição energética - Será postergada. Trump desdenha de energias alternativas e venera o petróleo. Deverá desfazer boa parte da legislação ambiental. Azar do planeta. _

MARCELO RECH

 20 DE JULHO DE 2024
BOAS PRÁTICAS

Grupo RBS lança projeto editorial que mostra como ESG pode ajudar na reconstrução do RS

Boas práticas

Em parceria com as empresas Renner, Aegea, Be8 e Randoncorp, iniciativa "Retoma RS" trará reportagens e conteúdos multimídia sobre sustentabilidade ambiental, social e de gestão ao longo de um ano. Objetivo é contribuir com a discussão sobre um futuro menos sujeito a crises

Marcelo Gonzatto

Com o objetivo de contribuir com a recuperação do Rio Grande do Sul e a construção de um futuro melhor para os gaúchos, o Grupo RBS vai lançar um projeto editorial destinado a valorizar boas práticas de sustentabilidade ambiental, social e de gestão - tríade que forma a sigla em inglês ESG.

Em parceria com as empresas Renner, Aegea, Be8 e Randoncorp, a iniciativa "Retoma RS" irá destacar exemplos de aplicação desses conceitos por meio de conteúdos multimídia. As publicações serão conectadas ao movimento "Pra Cima, Rio Grande", que combina ações editoriais e institucionais da RBS com foco na reconstrução do Estado após a enchente, e veiculadas em Zero Hora, Rádio Gaúcha e GZH ao longo de um ano.

- A parceria de longo prazo com estas quatro empresas de credibilidade e relevância no mercado em um projeto focado em impulsionar o desenvolvimento econômico sustentável do Estado reafirma a relevância do jornalismo profissional e a força dos veículos da RBS para amplificar bons exemplos - destaca o CEO da RBS, Claudio Toigo.

Com estreia em 31 de julho, quando será lançado o primeiro de 12 cadernos mensais em Zero Hora, o projeto irá explorar diferentes plataformas e formatos como videocast, vídeorreportagem em GZH, posts em redes sociais, programetes na Gaúcha e uma edição do fórum de debates ZH Talks, com transmissão online, além de conteúdos publicitários em diferentes mídias.

- Neste momento de reconstrução, o jornalismo profissional tem responsabilidade de dar visibilidade a boas práticas nas áreas ambiental, de desenvolvimento social e de gestão, impulsionando a recuperação do Estado e a criação de um ambiente ainda melhor - ressalta a diretora-executiva de Jornalismo e Esporte da RBS, Marta Gleich.

A adoção de estratégias sustentáveis sob o ponto de vista ambiental, social e de gestão é considerada uma forma de garantir um futuro menos sujeito a crises como a provocada pela recente cheia que impactou os gaúchos.

- O Retoma RS está alinhado ao importante compromisso que a Lojas Renner S.A. tem com o tema ESG. É essencial, e nos deixa felizes, que um grupo de comunicação tão relevante tome a iniciativa de compartilhar informações e promover a discussão pública sobre as melhores práticas ambientais, sociais e de governança, fundamentais para o presente e o futuro do planeta - afirma o CEO da Lojas Renner S.A., Fabio Faccio.

O vice-presidente do Grupo Aegea - Regional Sul, Leandro Marin, destaca a importância de assumir o protagonismo na disseminação de boas práticas:

- Conectar respeito ao ecossistema, responsabilidade social e governança vai além de impactar positivamente a sociedade. Precisamos liderar esse movimento, criando ciclos de desenvolvimento maiores que a bolha corporativa. É o que chamamos, no Grupo Aegea, de prosperidade compartilhada.

Iniciativas bem-sucedidas

Em sua edição de estreia, o caderno "Retoma RS" irá apresentar ao leitor o conceito de ESG vinculado à recuperação do Rio Grande do Sul, trazendo exemplos de iniciativas bem-sucedidas. Nas edições seguintes, a publicação abordará o tema a partir de diferentes perspectivas e áreas de atuação.

- É uma honra participar do projeto. A pergunta que devemos fazer é: qual planeta queremos deixar para as gerações futuras? A resposta para isso é agir hoje, diminuir os impactos ambientais com tecnologia e atitudes. Estamos juntos nessa jornada para criar um futuro sustentável - destaca o presidente da Be8, Erasmo Carlos Battistella.

O presidente da Randoncorp, Daniel Randon, acredita que inovar é uma das formas de garantir um futuro sustentável:

- Nossa responsabilidade com o planeta, com as pessoas e com a governança tem como base ações e soluções com excelência e segurança, por meio de tecnologias disruptivas, da inovação sustentável e de uma condução ética e responsável, que orienta a história de 75 anos da Randoncorp.

O projeto vai combinar conteúdos editoriais e das marcas. Eles poderão ser conferidos em GZH, identificados com a tag Retoma RS, nos cadernos mensais publicados na última quarta-feira de cada mês e no noticiário de Zero Hora. O videocast estreia em 7 de agosto. _

A parceria de longo prazo com estas quatro empresas de credibilidade e relevância no mercado em um projeto focado em impulsionar o desenvolvimento econômico sustentável do Estado reafirma a relevância do jornalismo profissional e a força dos veículos da RBS para amplificar bons exemplos.

Claudio Toigo - CEO da RBS

Neste momento de reconstrução, o jornalismo profissional tem responsabilidade de dar visibilidade a boas práticas nas áreas ambiental, de desenvolvimento social e de gestão, impulsionando a recuperação do Estado e a criação de um ambiente ainda melhor. Estamos muito felizes de realizar este projeto.

Marta Gleich - Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte da RBS

É essencial, e nos deixa felizes, que um grupo tão relevante tome a iniciativa de compartilhar informações e promover a discussão pública sobre as melhores práticas ambientais, sociais e de governança, fundamentais para o presente e o futuro do nosso planeta.

Fabio Faccio - CEO da Lojas Renner S.A.

Conectar respeito ao ecossistema, responsabilidade social e governança vai além de impactar positivamente a sociedade. Precisamos liderar esse movimento, criando ciclos de desenvolvimento maiores que a bolha corporativa.

Leandro Marin - Vice-presidente do Grupo Aegea - Regional Sul

A pergunta que devemos fazer é: qual planeta queremos deixar para as gerações futuras? A resposta para isso é agir hoje, diminuir os impactos ambientais com tecnologia e atitudes. Estamos juntos nessa jornada para criar um futuro sustentável.

Erasmo Carlos Battistella

Presidente da Be8

Nossa responsabilidade com o planeta, as pessoas e a governança tem como base ações e soluções com excelência e segurança, por meio de tecnologias disruptivas, da inovação sustentável e de uma condução ética e responsável, que orienta a história de 75 anos da Randoncorp.

Daniel Randon

Presidente da Randoncorp


20 DE JULHO DE 2024
ENSINO SUPERIOR

ENSINO SUPERIOR

Chapa 3 vence eleição da UFRGS e será indicada ao MEC.

Se vitória for confirmada pelo governo federal, Marcia Barbosa e Pedro Costa assumirão reitoria em setembro. Na consulta à comunidade, a dupla havia vencido pelo cálculo paritário, mas, por decisão judicial, a chapa 2 ganhava

Isabella Sander

Em uma eleição permeada por discussões sobre o cálculo a ser utilizado para definir os candidatos vitoriosos, venceu, entre os membros do Conselho Universitário (Consun) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o entendimento de que os votos de alunos, professores e técnicos-administrativos têm o mesmo peso. Com isso, com 44 votos de um total de 75, Marcia Barbosa, da chapa 3, venceu o pleito.

Agora, a lista tríplice segue para o Ministério da Educação (MEC). Em segundo lugar ficou a candidata Ilma Brum, da chapa 2, com 26 votos. Por último, posicionou-se a candidata Liliane Giordani, da chapa 1, com um voto.

- É a primeira vez que a UFRGS está fazendo esse processo por via paritária, é um momento de coragem para a universidade. Também temos de ter coragem para referendar a paridade. A Justiça pode mandar na consulta, mas não pode mandar na nossa decisão - afirmou Marcia.

A escolha dos conselheiros ainda precisa passar por análise do MEC, que tem o poder de nomear como reitora qualquer um dos três nomes da lista tríplice. Via de regra, contudo, a pasta costuma validar a decisão.

Se a vitória for confirmada pelo governo federal, a reitora a assumir no dia 21 de setembro será Marcia Barbosa, ao lado de seu vice-reitor, Pedro Costa.

Marcia foi diretora do Instituto de Física por dois mandatos e, até dois meses atrás, era secretária de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do governo Lula. Pedro é professor da Escola de Administração, onde ministra disciplinas sobre Administração de Organizações da Sociedade Civil e Administração Pública Social, Estado, Terceiro Setor e Organizações Não Governamentais.

Na sexta, servidores e estudantes participaram de manifestação

Em todas as eleições para a reitoria realizadas pela instituição até agora, os votos dos professores tinham peso de 70%, contra 15% os dos estudantes e 15% os dos técnicos-administrativos.

Neste ano, a previsão inicial era de que as escolhas dos três segmentos tivessem o mesmo peso na consulta à comunidade - a chamada "consulta paritária". Nesse novo critério, a chapa 3 teria vencido a consulta. Apesar de essa mudança ter sido aprovada pelo Consun, uma decisão judicial determinou que se retornasse ao cálculo antigo. Por esse motivo, sem a paridade, a chapa 2 venceria.

Na manhã de sexta, docentes, técnico-administrativos e estudantes participaram de um protesto, munidos de bandeiras e adesivos, boa parte deles defendendo a vitória da chapa 3.

- No ano passado, foi decidido que a comunidade da UFRGS poderia escolher a reitoria de forma paritária. Foi um processo maduro, com muita discussão, com diálogo com as unidades acadêmicas, não foi apenas uma decisão do conselho. Será lamentável se isso não for reconhecido - afirmou a professora Suzy Alves Camey, do Instituto de Matemática e Estatística, que participou do ato.

A manifestação foi realizada no campus, próximo ao Salão de Atos. A entrada no prédio da reitoria foi restringida, com gradis impedindo a passagem e a segurança reforçada. Duas viaturas da Polícia Federal estavam no local. Com isso, boa parte dos alunos e professores acompanhou a votação do Consun pela transmissão ao vivo.

- A paridade seria o primeiro passo para haver maior participação dos alunos na universidade e nos espaços de tomada de decisões. Não podemos negociar isso, essa é nossa luta - defendeu a estudante do curso de Economia Amanda Pereira, 22 anos.

Análise do ministério

A tendência sinalizada por representantes do governo federal é de que seja respeitada a ordem da lista tríplice elaborada após a eleição no Consun. Com isso, a vitória da chapa 3 seria endossada e Marcia Barbosa se tornaria a nova reitora.

Procurado pela reportagem, o MEC respondeu que a lista tríplice encaminhada será analisada à luz das leis que regram o funcionamento das universidades e suas eleições, e que, "sendo constatada a conformidade da documentação, o processo será encaminhado à Casa Civil, para nomeação pelo Presidente". _

20 DE JULHO DE 2024
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Três lições da "bugada" global

Por algumas horas - e talvez dure por alguns dias -, experimentamos, em maior ou menor proporção, o apocalipse digital: a "bugada" mundial, provocada por uma falha na atualização do sistema da empresa CrowdStrike, travou computadores com Windows de milhares de empresas mundo afora, colapsando o tráfego aéreo, serviços bancários e até o atendimento de emergências em hospitais. Mas, como toda crise, deixa lições.

Três delas:

1) Não foi um ataque de grupos cibercriminosos da China e da Rússia que paralisaram boa parte do Ocidente. Foi uma plataforma de cibersegurança ocidental, criada para proteger contra ação de hackers, que corrompeu, como uma doença autoimune, o próprio sistema. Foi como se máquina tivesse se voltado contra o ser humano. De nada adianta o governo dos Estados Unidos tentar barrar ou expulsar empresas de tecnologia chinesas sob a alegação de riscos à segurança. Muitas vezes, o inimigo pode estar dentro de casa.

2) Quanto mais conectado o sistema for, maior o dano. Isso explica porque o Brasil foi, relativamente, poupado do caos. Países com maior dependência de sistemas digitais e serviços em nuvem, como os Estados Unidos e várias nações europeias, sofreram mais devido ao alto nível de integração sistêmica da rede.

3) Assim como a pandemia evidenciou a sujeição a que estamos a poucos fornecedores de insumos para vacina ou de equipamentos da China e da Índia, o apagão digital comprova o quanto nossa vida - real e virtual, o que no fundo não faz mais diferença -, é dependente de um punhado de empresas. O dano foi maior porque o software da CrowdStrike opera o sistema operacional Windows, da Microsoft, que, por sua vez, é o mais usado pelo mundo. _

Correria e ansiedade em busca da aprovação de projetos

A proposta da reforma administrativa é a segunda pauta de interesse do governo do Estado "barrada" às pressas e poucas horas antes da votação. Nos dois casos, correria e certa ansiedade.

Primeiro, o projeto do aumento de ICMS e agora as mudanças em carreiras de servidores. São, entretanto, situações diferentes.

O primeiro, ainda em 2023, buscava a elevação de 17% para 19,5% da alíquota. Havia pressão de deputados, de empresários e da sociedade pela não aprovação. Mais da metade dos votos seria contrária, e o pacote foi retirado na noite anterior. Na época, faltou diálogo com os setores.

Agora, o projeto de reestruturação foi adiado pelos líderes. O principal motivo foi a dificuldade dos próprios deputados - inclusive da base - em analisar detalhes e impacto das propostas.

Um parlamentar disse à coluna que outro dos motivos seria a ausência do presidente da Assembleia, Adolfo Britto (PP), e que "não teria o clima" esperado pelo governo para ser votado tendo o vice, Paparico Bacchi (PL), à frente dos trabalhos.

Apesar de não contar, novamente, com apoio do setor empresarial, o projeto deve ser votado até o fim do mês. É mais tempo para analisarem o calhamaço de 318 páginas recheadas de tecnicidade. Mesmo com resistência, que permanecerá, deve ser, ao final, aprovado. _

Sem responsabilização

Sob forte emoção, os argentinos lembraram, na sexta-feira, os 30 anos do maior atentado terrorista na América Latina.

Em 18 de julho de 1994, o prédio da Associação Mututal Israelita Argentina (Amia), no bairro de Once, em Buenos Aires, foi destruído por um carro-bomba.

Oitenta e cinco pessoas morreram. Tudo indica que o Irã ordenou a ação, mas, até hoje, ninguém foi responsabilizado. _

Arraiá e protesto no 4º Distrito

Neste sábado, haverá o Arraiá do 4º Distrito - Chama da Reconstrução na Rua Almirante Tamandaré, a partir das 10h até as 19h. No domingo, ocorrerá um ato institucional para reclamar da demora do apoio aos empresários por parte do governo federal.

"Não podemos mais continuar na fase protocolar e formal com troca e envio de cartas e requerimentos, dando embasamento para anúncios que, além de não se efetivarem, serem muito tímidos para o que a situação demanda", diz a entidade.

A manifestação está marcada para as 15h no sítio do Laçador, na Capital. _

Um grito contra o antissemitismo

A Cronologia do Alef Bet (SlerBooks), do jornalista Léo Gerchmann, é um relato da angústia vivida por um brasileiro judeu, descendente de refugiados dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial.

Na obra, Gerchmann demonstra como o antissemitismo se revestiu de antissionismo para, de novo, emergir em forma de preconceito contra o povo judeu.

- Preciso que chegue às pessoas para que nos entendam e removam os preconceitos provocados pela narrativa mainstream que demoniza Israel, o sionismo e o próprio povo judeu - diz.

A obra será lançada no dia 23 de julho, às 18h30min, no Café Cultura - Patio 24, na Avenida 24 de Outubro, 1.454, em Porto Alegre. _

TRF4 retoma atendimento

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) retoma na segunda-feira o atendimento presencial ao público e o expediente presencial na sede da Corte, no bairro Praia de Belas, em Porto Alegre. Foram 77 dias em que os prédios da Corte precisaram ficar fechados em decorrência da enchente. _

INFORME ESPECIAL

segunda-feira, 15 de julho de 2024


15 DE JULHO DE 2024
CARPINEJAR

Por que, Deus, abandonaste os colorados?

Não se deve rezar para futebol. Mas cometi a blasfêmia. Não aguentava mais a abstinência de títulos desde 2016. Não aguentava mais a espera por um Brasileirão há 45 anos - até o Galo já saiu da fila. São nove vice-campeonatos ao longo da história da competição.

Um novo vácuo na Copa do Brasil redundaria em 33 anos de seca por esse troféu, a idade de Cristo na cruz.

Eu sentia que a minha esperança vinha sendo torturada ano após ano, com o mesmo enredo de troca de técnico no segundo semestre, com pré-temporada inutilizada, ressuscitando lanternas na zona de repescagem, tomando gols nos acréscimos, não conseguindo fazer mais de um gol por partida. Estava cansado de sofrer de modo previsível. Ser colorado beirava uma insanidade, só a fé justificava não largar de mão. Adoecia a cada final de semana de raiva.

Fui conversar com Deus antes do tira-teima com o Juventude, que decidia a vaga para as oitavas de final da Copa do Brasil. No ano passado, caímos para o América-MG. No ano retrasado, caímos para o Globo FC. Em 2021, caímos para o Vitória. Carregamos duas finais fracassadas - 2009 e 2019.

Solicitei um desconto da dor, a realização de um milagre, já que amargávamos uma desvantagem do primeiro jogo, com derrota de 2 a 1 para o bravo e combativo clube da serra gaúcha, e o segundo confronto seria no Alfredo Jaconi. - Tira a minha touca, por favor. Me dá uma prova do amor divino. Orei desesperadamente, mas não surtiu efeito. Juventude alcançou o empate de 1 a 1 e a merecida classificação.

De noite, amargurado, invoquei o Santo Pai para entender o motivo de não ter concedido esse milagre para nós, colorados, tementes a Deus, povo sofrido, povo que jamais desocupa o estádio, que grita e incentiva apesar da vontade de vaiar.

- Por que nos abandonaste, Pai? E um clarão se abriu no céu de Porto Alegre. Uma voz tonitruante ecoou em meus ouvidos beatos:

- Eu precipitei a queda do técnico Eduardo Coudet, para romper a mesmice. - Eu enviei uma cerração por mais de uma hora e meia no horário da rodada, para evitar a derrota, e ainda assim teimaram em jogar.

- Eu possibilitei um pênalti no início do segundo tempo, e vocês desperdiçaram. - Eu cavei um novo pênalti, e vocês novamente bateram mal. - Sem saber mais como ajudar, porque uma terceira penalidade iria evidenciar a minha marmelada, eu fiz de tudo para anular o segundo pênalti. Chamei a atenção do VAR para a invasão do zagueiro do Juventude.

- Pensei que era pouco para uma formação tão apática, tão fraca de psicológico, tão distante do segundo gol. Armei uma confusão danada com invasão de torcedor, sacrificando o anjo Alan Ruschel. Expulsão absurda, pois aquele bom rapaz tampouco queria machucar o torcedor, apenas tentava proteger o atacante de vocês. Porém, o Inter não levou a decisão para os pênaltis nem com um a mais em campo. Não posso jogar futebol por vocês. 

Desculpa, ruindade tem limite. Gastei seis milagres à toa, então não venha dizer que não atendi à prece. Enquanto não forem gratos com as oportunidades, nunca serão campeões outra vez. Colaborei bem mais do que o justo. Agora preciso acudir aos torcedores gremistas e providenciar que passem facilmente pelo Operário, já que eles estão achando que sou colorado. _

CARPINEJAR


15 DE JULHO DE 2024
CLÁUDIA LAITANO

Catedrais

Sei o que todo mundo sabe sobre Theo Wiederspahn (1878-1952). Que era alemão e que construiu alguns dos prédios mais bonitos de Porto Alegre. Sobre sua vida pessoal, menos que nada. Espero que a família me perdoe por usá-lo aqui para ilustrar minha historinha, mas obras erguidas "tijolo com tijolo num desenho mágico" são, por natureza, as mais concretas. Digamos, continuando a fabulação, que Wiederspahn fosse um sujeito da pior espécie e que isso viesse à tona em 2024. O que vocês acham que aconteceria?

Primeiro as pessoas ficariam curiosas, depois chocadas e em seguida indignadas. Mas a certa altura o linchamento moral já não bastaria. Seria preciso atacar os prédios também. Abaixo a Casa de Cultura, o Margs, o Memorial, o Santander Cultural, o Edifício Ely... Alguém diria, meio a sério meio de brincadeira, que a única solução seria implodir logo com tudo. Mas antes que aparecesse uma incorporadora se voluntariando para executar essa nobre missão cívica surgiria um novo Judas (um ídolo, um gênio, um sujeito qualquer) soprando o vento da malhação para outro lado. Fim da história.

Artistas e suas obras têm sido queimados juntos na fogueira dos escândalos que hoje nascem e morrem em um ritmo difícil de acompanhar. Na semana passada, aconteceu com a escritora Alice Munro (1931-2024), quando sua filha mais nova revelou que sofreu abusos do padrasto na infância. Já adulta, quando contou para a mãe o que havia acontecido anos antes, a escritora decidiu não se separar do marido, atitude que a filha nunca perdoou. 

Alice Munro foi julgada como mulher, como mãe, como ser humano, de forma apressada, mas talvez inevitável. O que sempre me parece um erro é estender as falhas morais do ser humano para suas obras, como fizeram os que se apressaram a dizer que tinham perdido interesse em seus livros. No caso de uma autora como Alice Munro, é como dizer que uma catedral amanheceu menor por causa da Inquisição.

Em 1993, pouco depois de ficar sabendo que a filha havia sido abusada sem que ela percebesse, Munro publicou um conto intitulado Vândalos, incluído mais tarde no livro Falsos Segredos. Como todas as histórias da escritora que ganhou o Nobel em 2013, o conto se desenrola lentamente, até um desfecho brutal e de certa forma surpreendente. À luz do que ficamos sabendo nos últimos dias, o conto parece ter sido inspirado pelo drama familiar em que a autora estava envolvida naquele momento. Pode não ter servido como pedido de desculpas para a filha, mas, para os leitores, o que existe é a obra-prima. _

CLÁUDIA LAITANO

15 DE JULHO DE 2024
DIRETO DA REDAÇÃO

Direto da Redação

Não é de hoje que pesquisadores têm alertado para os riscos que corremos pelo uso excessivo de telas. Não se trata de desprezar o avanço da tecnologia, pela qual somos absolutamente beneficiados enquanto sociedade, mas de observar atentamente as consequências, para nosso corpo e mente, de uma exagerada quantidade de horas com a cara grudada no celular. Em suma, o raciocínio pressupõe que a diferença entre o remédio e o veneno é justamente a dose.

Como pressuposto, é importante dizer que aqui fala alguém que é usuária intensa do aparelho. Talvez por isso os dados apontados pela gaúcha Gisele Hedler, especialista em comportamento humano, em entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, tenham me chamado tanto a atenção. O tema da conversa: brainrot ou "podridão cerebral". O termo é utilizado por estudiosos para se referir ao que experimentamos quando de uma exposição excessiva a conteúdo de baixa qualidade nos dispositivos.

Para facilitar, Gisele usou como exemplo a agilidade de um computador novo. Quando recém-formatado, os programas rodam com facilidade e o sistema responde rapidamente. À medida que o tempo passa, se o usuário começa a acessar sites ou dispositivos não confiáveis, se houver exposição a vírus ou ainda se lotado o espaço/memória previsto, é possível que o sistema já não funcione como antes, trave e apresente lentidão. Assim também é o nosso cérebro.

Alguns sintomas imediatos dessa superlotação: estresse, ansiedade, problemas de sono. Isso no curto prazo. No longo, possibilidade de burnout e até mesmo declínio cognitivo.

Para piorar, é duríssima a tarefa de reprogramar nosso cérebro se o acostumamos com tantos estímulos. Nosso computador mental é apaixonado por tais estimulações virtuais, que não exigem dele esforço algum. A liberação de dopamina é imediata. A tendência é querermos (sempre) mais.

Qual o caminho, então, para mudar? A saída, diz Gisele, é exercitar a desconexão programada. Estabeleça limites, diminua o número de horas de rosto colado na tela, procure novos passatempos. Crie rotinas em que o celular não esteja à sua frente. Esforce-se para não buscar o aparelho a cada cinco minutos. É treino, tal como exercício físico. Vai exigir esforço tremendo. Mas o caminho prevê recompensas no horizonte, como maior poder de concentração, criatividade e pensamento crítico. _

Epidemia celular - Kelly Matos - DIRETO DA REDAÇÃO


15 DE JULHO DE 2024
EDITORIAL

A violência é estranha à democracia

O atentado contra o ex-presidente norte-americano Donald Trump deve merecer o repúdio de todos os defensores da democracia, independentemente de preferências ideológicas. A política é o espaço da disputa de ideias e propostas, e não de diferenças resolvidas pela violência. Como já é amplamente sabido, Trump, virtual candidato do Partido Republicano à Casa Branca, foi atingido de raspão após tiros serem disparados em um comício que realizava no sábado, no Estado da Pensilvânia. O atirador foi morto e outra pessoa que estava no evento também perdeu a vida.

Um acontecimento com tamanha gravidade, em um período de elevada polarização social, requer grande responsabilidade das lideranças políticas. É o momento de buscar serenar os ânimos, para evitar uma escalada de agressividade, com consequências perigosas para a democracia dos EUA. Devem ser evitadas posturas como relativizações, trocas de acusações, disseminação de teorias conspiratórias e tentativas oportunistas de capitalizar eleitoralmente o caso.

O mais prudente é aguardar o andamento das investigações, que, por certo, conseguirão elucidar as circunstâncias e as motivações do ataque contra Trump, assim como esclarecer o que ainda é necessário em relação ao atirador. Palavras apaziguadoras dos nomes mais influentes dos partidos Republicano e Democrata são importantes para também tentar acalmar a massa de apoiadores de lado a lado. Infelizmente, assassinatos e tentativas de magnicídio não são novidade nos EUA. Quatro presidentes foram mortos a tiros e há inúmeros registros de ataques a mandatários e postulantes à Casa Branca. A radicalização atual é um agravante. Eleva o risco de transbordamento da agressividade para a sociedade.

Nesse sentido, foram adequados os primeiros pronunciamentos de próceres democratas, em especial do presidente Joe Biden, possível rival de Trump na eleição de novembro. No tom correto, disse estar grato pelo oponente político estar "seguro e bem" e ressaltou que "não há lugar para esse tipo de violência na América". O fato de Biden e Trump terem conversado após o incidente tem grande simbolismo.

É natural que um fato de altíssima repercussão, com lugar garantido na História, reverbere em todo o mundo, inclusive no Brasil. Mas a mesma prudência deve ser exercida aqui. É reprovável qualquer tentativa, à esquerda ou à direita, de politizar ou tentar tirar proveito interno do caso.

O ataque contra Donald Trump é mais uma oportunidade para se refletir sobre o quadro político atual em nações como o Brasil e os EUA, mas não só. O ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto candidato, em 2018, também foi vítima de um ataque a faca, que quase tirou a sua vida. As eleições gerais em 2022, em um ambiente belicoso, foram fartas em episódios de violência com desfechos fatais. 

O país terá novo pleito municipal neste ano, ainda sob efeito de uma polarização destrutiva. Palavras e incitações têm consequências. Podem ser trágicas. Passou da hora de refrear discursos divisivos e instigadores de ódio entre concidadãos. Eleição é um acontecimento cívico e democracia é o espaço que faz uso da civilidade para resolver diferenças. Nelas, não há espaço para a barbárie. 


15 DE JULHO DE 2024
TRANSPORTE AÉREO

TRANSPORTE AÉREO

Embarque e desembarque serão retomados a partir de hoje no aeroporto Salgado Filho

Apesar da volta de atividades no terminal da Capital, pousos e decolagens das aeronaves seguirão sendo realizados na Base Aérea de Canoas devido ao impacto da cheia

A partir de hoje, o embarque e o desembarque de passageiros voltarão a ser realizados no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Esses procedimentos vinham sendo feitos no Park­Shopping, em Canoas. Os pousos e decolagens seguirão sendo realizados na Base Aérea. De acordo com a concessionária Fraport, a mudança trará "mais agilidade aos procedimentos de embarque, desembarque e inspeção de segurança de um volume maior de passageiros".

Como o terminal de passageiros do Salgado Filho ainda está passando por reformas após ter sido atingido pela enchente em maio, sua estrutura foi adaptada para uso da área internacional tanto no check-in quanto no embarque. O acesso deverá ser feito pela rampa externa que leva ao segundo piso, e o ingresso será realizado exclusivamente pelas portas 5 e 6.

O check-in e o despacho de bagagens serão realizados, temporariamente, na área do check-in internacional. Depois disso, os passageiros deverão subir ao terceiro piso e utilizar a área de embarque internacional para a inspeção de segurança. No local, deverão seguir a sinalização para embarcar nos ônibus que irão até a Canoas.

Os passageiros que desembarcam na Base Aérea serão transportados até o Salgado Filho, onde irão descer na estação de ônibus para retirar bagagens. Nenhum passageiro pode se deslocar diretamente até a Base Aérea ou sair de lá sem o acompanhamento das equipes da concessionária e da empresa aérea.

Foram realizados testes com ônibus do trajeto aeroporto-Base Aérea (e vice-versa) em horários alternados, e nenhuma alteração relevante de horário foi constatada. O tempo médio permaneceu o mesmo da operação realizada antes no shopping, até 20 minutos.

O terminal funcionará das 6h às 21h. O passageiro deve se apresentar três horas antes do voo. O processo de embarque se encerrará uma hora e meia antes do voo. Depois deste prazo, não será possível ingressar na sala de embarque. Algumas operações de alimentação vão abrir.

ACESSO

Check-in

Desembarque

Deslocamento

Horários

Como será o serviço

Procedimentos que vinham sendo feitos no Park­Shopping, em Canoas, são transferidos para o terminal de Porto Alegre.

O estacionamento 2, administrado pela Estapar, estará disponível para carros e motos. As empresas especializadas em transporte turístico Brocker, Citral, Transfer Prime e Turistur terão balcão de atendimento na estação de ônibus, além das locadoras de veículo Localiza, Locasul, Movida e Unidas.

Para quem vem da Base Aérea de Canoas, o ponto para pegar transporte por aplicativo permanece o mesmo, no canteiro central, em frente à porta 1. Para utilizar o serviço de táxi, o passageiro deve se dirigir ao canteiro central, próximo à porta 3.

Estacionamento


15 DE JULHO DE 2024
NOTÍCIAS - Rafael Vigna

NOTÍCIAS

Setor industrial gaúcho registrou a pior queda para um mês de maio, segundo dados do IBGE. Segmentos como o de máquinas influenciaram os resultados. Analistas, no entanto, projetam que a retomada deve se iniciar já a partir de junho

Indústria e serviços têm retração com tragédia no RS. A tragédia climática de maio deixou marcas na economia do Rio Grande do Sul. Dados setoriais divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na semana passada, assinalam diferentes comportamentos entre os principais setores econômicos e traçam os desafios para a retomada das atividades, que já esboçaram reação em junho, seja na indústria, no comércio ou nos serviços.

A boa notícia, segundo economistas ouvidos por Zero Hora, é de que a recuperação em curto prazo já começou. Mas a permanência dos efeitos por tempo maior dependerá do sucesso do plano de recuperação, sobretudo, no que se refere à infraestrutura, além da efetividade dos programas de apoio ao setor produtivo.

Com a pior queda da história para um mês de maio, a indústria gaúcha amargou tombo de 26,2% na Pesquisa Industrial Mensal (PIM), responsável por medir a produção física. O desempenho do setor no Estado também é apontado como uma das causas para a queda de 0,9% apurada na média nacional, em igual período.

Polo petroquímico

Em maio, a performance foi negativa em 12 dos 14 segmentos industriais, conforme chama atenção o economista-chefe da Federação das Indústrias (Fiergs), Giovanni Baggio.

Os reflexos mais acentuados foram sentidos nos produtos químicos (-5,21%), em razão da paralisação no polo petroquímico de Triunfo, e nas máquinas e equipamentos agrícolas (-3,25%), que já enfrentavam um ano de baixa, fruto de restrições impostas pelo governo argentino às exportações brasileiras.

Também contou a redução da demanda nos Estados do centro do país, por causa da diminuição das estimativas de safra.

Há ainda a queda de 2,8% no processamento de alimentos, sobretudo em razão das carnes, atingido pela enchente no Vale do Taquari, e a retração de 2,28% nos veículos.

- Acredito que em junho os dados sejam mais positivos, porque muitas empresas pararam por razões diretamente ligadas à enchente ou por questão logística. Com a volta da atividade, o nível de produção melhora. Mas para o longo prazo teremos de lidar com uma série de problemas que a gente já tinha e com os que agora a gente tem - resume Baggio.

Aeroporto e rodovias

No setor de serviços, enquanto no país houve leve avanço de 0,1% em maio, no Estado houve queda de 5,4%. O segmento de serviços prestados às famílias, por exemplo, registrou recuo de 28,3% no RS.

- Uma parcela considerável, está atrelada ao turismo. E a gente sabe o quanto o turismo foi prejudicado em razão de toda essa situação da enchente, estrago nos modais de transporte, fechamento do aeroporto, danos às estradas. Tudo isso e a própria queda da renda, com a queda na parte de serviços profissionais, administrativos e complementares, contribuíram para o cenário - avalia o economista-chefe da CDL-Porto Alegre, Oscar Frank Frank. _

Busca por estoques, doações e reconstrução estimulam comércio

Em meio à enchente de maio, alguns segmentos do comércio com peso relevante ganharam impulso extra. O pânico inicial que levou grande massa de pessoas às compras por estoque de alimentos e a onda de solidariedade subsequente, em todo o país, elevaram os resultados no setor de hipermercados, por exemplo.

De acordo com Patrícia Palermo, economista-chefe da Fecomércio-RS, além dos elementos que favorecem a demanda, como o mercado de trabalho aquecido e o crescimento do crédito para pessoas físicas, os resultados do mês (no RS, houve alta de 9,9% e no Brasil, de 8,8%) foram fortemente influenciados pela tragédia:

- A estocagem de itens nas residências das famílias gaúchas acabou por representar consumo antecipado, que deve impactar as vendas futuras.

Oscar Frank, economista-chefe da CDL-Porto Alegre, lembra que, com o início do processo de reconstrução, houve o aumento na demanda por produtos para viabilizar o retorno das famílias às suas casas, o que estimulou o consumo móveis e eletrodomésticos, por exemplo. Já a venda de veículos caiu. 


13 DE JULHO DE 2024
CONSELHO EDITORIAL- Marta Gleich

Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS

GDI lança livro nesta segunda

Há mais de sete anos, nascia no Grupo RBS uma iniciativa inédita em empresas de comunicação brasileiras: a criação de uma equipe dedicada ao jornalismo investigativo. Giovani Grizotti, um dos integrantes do time e repórter reconhecido nacionalmente por suas reportagens no Fantástico, inventou a marca GDI - Grupo de Investigação. De lá para cá, foram centenas de reportagens. Apresentado em dezenas de palestras em congressos de jornalismo e faculdades, o GDI virou marca conhecida dos gaúchos, por sua coragem, determinação, qualidade técnica, criatividade e responsabilidade para apurar a verdade dos fatos.

Na segunda-feira, o GDI dá mais uma contribuição ao jornalismo profissional, com o lançamento do livro GDI - Bastidores e Prática do Jornalismo Investigativo. Escrito a muitas mãos, o livro documenta a criação do GDI e sua consolidação como marca reconhecida da reportagem investigativa. Não é um livro técnico: escrevemos para o público em geral as melhores histórias do grupo, casos emblemáticos de investigação e denúncias que tiveram consequências práticas para a sociedade gaúcha. 

A obra é, também, um agradecimento às inúmeras manifestações de apoio ao jornalismo investigativo, às fontes de informação das centenas de reportagens, às autoridades comprometidas com a ética, a verdade e as leis e a todas as pessoas que reconhecem o jornalismo profissional como antídoto à desinformação, como instrumento de defesa da sociedade e como pilar da democracia.

Aproveito este espaço para compartilhar uma boa notícia: a partir desta segunda-feira, voltaremos a imprimir Zero Hora, Diário Gaúcho e Pioneiro no nosso Parque Gráfico, que teve as atividades interrompidas em razão da enchente e agora retomou as operações. Agradecemos mais uma vez a parceria do Grupo Sinos, onde, desde maio, estávamos realizando a impressão de nossos jornais. _

O quê: sessão de autógrafos aberta ao público do livro GDI - Bastidores e Prática do Jornalismo Investigativo

Quando: segunda-feira, 15 de julho, às 18h30min

Onde: Foyer do Theatro São Pedro, Praça Marechal Deodoro, Centro Histórico

Autores: Nelson P. Sirotsky, publisher do Grupo RBS; Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais; Marta Gleich, diretora-executiva de Jornalismo e Esporte do Grupo RBS; coordenadores do GDI ao longo dos anos Rodrigo Lopes, Carlos Etchichury, Dione Kuhn, Jaime Silva, Rodrigo Müzell, Diego Araujo; repórteres Giovani Grizotti, Carlos Rollsing, Adriana Irion, Humberto Trezzi; advogada Débora Dalcin.

CONSELHO EDITORIAL

13 DE JULHO DE 2024
COM A PALAVRA

COM A PALAVRA

Filósofo, jornalista, escritor e analista político, é uma das maiores referências do pensamento liberal no planeta

Aos 80 anos, o pensador francês Guy Sorman credita a ascensão dos conservadores em seu país ao desgaste dos grupos tradicionais. Ele também vê Donald Trump com muita força na eleição americana e considera o argentino Javier Milei um "desastre para o liberalismo".

Mathias Boni

Como a eleição na França teve uma reviravolta da extrema direita à esquerda em apenas uma semana?

A vitória do centro e da esquerda é consequência de uma estratégia tática para deter a extrema direita. Um terço votou na extrema direita, um terço votou no centro e um terço votou na esquerda. Consequentemente, ninguém perdeu e ninguém ganhou. Temos agora o que chamamos de parlamento suspenso, onde ninguém tem maioria e ninguém está em posição de governar sozinho. Houve uma ilusão, após o primeiro turno, de que a extrema direita venceria, mas isso não aconteceu porque os partidos colocaram a resistência contra a extrema direita como prioridade.

Como você enxerga a posição do presidente Emmanuel Macron depois dessa eleição?

A grande surpresa é que ele se saiu até bem, porque, como falei, nenhuma maioria clara emergiu desta eleição. De certa forma, Macron está em uma posição de arbitragem, o que lhe agrada, e a sua ambição sempre foi governar com a esquerda moderada e a direita moderada. De certo modo, ele está exatamente onde queria estar. Também é preciso lembrar que, na França, a constituição dá enorme poder ao presidente.

Mesmo não sendo vencedora, a extrema direita recebeu muitos votos. Como você compreende esse fenômeno?

Marine Le Pen (líder do Reunião Nacional) conseguiu - porque é uma boa estrategista, sem nenhuma ideologia real - tornar o partido dela respeitável, de certa forma. Ela também foi capaz de remover, não completamente, a maioria dos elementos racistas, xenófobos e antissemitas do partido. A segunda explicação é que, quando se fala com o eleitorado de extrema direita, nem todos são fascistas ou nazistas. Alguns são, mas muito poucos. Há pessoas apenas curiosas para ver se este partido poderia entregar o que os outros partidos não entregaram. Por isso, de certa forma, o sucesso da extrema direita é um fracasso de todos os outros partidos.

Qual sua avaliação sobre o retorno dos trabalhistas ao poder na Inglaterra?

Se olharmos para a plataforma do Partido Trabalhista, é como a do (ex-primeiro-ministro) Tony Blair. Basicamente, estamos de volta ao livre mercado. Então, eles conseguiram vencer, primeiro, porque as pessoas estavam fartas dos conservadores, que estavam no poder há 14 anos. Segundo, porque foram suficientemente inteligentes para compreender que, se quisessem ser eleitos, precisariam ser muito mais moderados.

Você já declarou que um novo conceito de identidade está substituindo as ideologias. O que isso significa?

O que as pessoas querem não é o partido de esquerda ou o partido de direita. Querem um Estado eficiente, um Estado que cuide delas, que as ouça. Além disso, por todos os lados existe uma nova noção de identidade. A campanha de (Donald) Trump baseia-se adequadamente nesta noção de identidade: "tenho uma identidade de homem, heterossexual" e coisas assim. E (Jair)Bolsonaro também tinha tudo a ver com identidade. Assim, as ideologias desapareceram, mas esse conceito de identidade, que achávamos totalmente obsoleto, está voltando com muita força, e todos os partidos políticos têm agora de levar este conceito em consideração.

Como você observa a disputa nos EUA e as críticas que Joe Biden recebe em razão de suas condições físicas?

Trump está em uma posição muito forte, não necessariamente por sua causa, mas por causa do comportamento de Biden, que tem sido um ótimo presidente, mas não sabe, como todos os atores, quando é o momento certo para sair do palco.

Trump seria mais radical em um segundo mandato?

Ele fala muito, mas, se você olhar o que realmente fez, foi muito pouco. A nossa sorte, de certa forma, é a preguiça de Trump e a incapacidade de dar seguimento às suas próprias ideias. Talvez agora ele esteja rodeado de pessoas mais eficientes e com uma agenda mais extremista. Mas acho que ele ficará tão feliz por ser presidente novamente que se olhará no espelho e dirá: "Eu sou o presidente novamente", e será isso.

Os democratas deveriam ter preparado melhor a vice- presidente Kamala Harris?

Ela é desconhecida do grande público, mas este tem sido o caso de quase todos os vice- presidentes. Ela é muito boa, na verdade. É uma debatedora dinâmica e extremamente qualificada, e seria uma adversária formidável para Trump. Mas outra questão seria: estariam os EUA prontos para aceitar uma mulher negra como presidente?

Como avalia a presidência de Javier Milei na Argentina?

Ele é um desastre para o seu país e para o liberalismo. Reduzir o volume da economia em 5% em pouco tempo é impressionante. E, claro, as pessoas mais afetadas são as mais pobres. Se você pertence à elite, se tem muitos dólares, a vida está indo bem. Mas é absurdo dizer que esta política econômica é um sucesso. Em segundo lugar, não se pode aplicar este tipo de violência às pessoas da noite para o dia, e sem explicar o porquê. A base do liberalismo é a negociação, a discussão, a coalizão, e não impor como um ditador, da noite para o dia, que você não terá mais assistência social, sua escola será fechada, sua empresa será fechada e que o preço do metrô aumentará.

E quanto ao terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil?

Quando Lula foi eleito presidente pela primeira vez, teve muita sorte. Agora a situação é mais complicada, porque os preços mundiais estão em baixa e ele não tem condições de redistribuir a riqueza como fazia antes. E acho que as pessoas estão um pouco decepcionadas. Além disso, não entendo por que Lula quer fazer parte deste "sul global" e ser parceiro da Rússia e outros. Lula é um democrata. Estou muito desapontado por ele se juntar a esta aliança de ditadores.